KEN
FOLLETT

? PRIMEIRO LIVRO DA TRILOGIA O SCOLO 
QUEDA DE
GIGANTES


DIGITALIZAO E CORREO DE DBORA PAIVA DA COSTA


SEXTANT 
FICO

 
Ttulo original: Fali of Giants
Copyright (c) 2010 por Ken Follett
Copyright da traduo (c) 2010 por Editora Sextante Ltda.
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou
produzida sob quaisquer meios existentes sem autorizao por escrito dos editores.
Publicado originalmente por Dutton, um membro da Penguin Group (USA) Inc.
traduo: Fernanda Abreu com a colaborao de Fabiano Morais
preparo de originais: Virginie Leite e Fabiano Morais
reviso: Hermnia Totti, Isabella Leal e Luis Amrico Costa
projeto grfico e diagramao: Valria Teixeira
capa: Richard Hasselberger
imagens de capa: fosso e residncia rural: Bufo/Shutterstock;
trem de carga em Attenborough, 1916: SSPL/Getty Images;
textura de papel antigo: Ramzi Hachicho/Shutterstock;
textura de metal antigo enferrujado: NitroCephal/Shutterstock;
soldados canadenses a caminho do combate durante a
Primeira Guerra Mundial: Bettmann/CORBIS.
adaptao de capa: Miriam Lerner
impresso e acabamento: Associao Religiosa Imprensa da F
CIP-BRASIL. CATALOGAO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, 
F724q Follet, Ken, 1949-
Queda de gigantes / Ken Follett; traduo de Fernanda Abreu (com a
colaborao de Fabiano Morais). Rio de Janeiro: Sextante, 2010.
Traduo de: Fali of giants
ISBN 978-85-99296-85-1
1. Fico histrica. 2. Romance ingls. I. Abreu, Fernanda. II. Morais,
Fabiano. III. Ttulo
CDD: 823
10-4156	CDU: 821.111-3
Todos os direitos reservados, no Brasil, por
Editora Sextante Ltda.
Rua Voluntrios da Ptria, 45 - Gr. 1.407 - Botafogo
22270-000 - Rio de Janeiro - RJ
Tel: (21) 2538-4100 - Fax: (21) 2286-9244
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 MEMRIA DE MEUS PAIS, MARTIN E VEENIE FOLLETT.

 

LISTA DE PERSONAGENS
NORTE-AMERICANOS
Famlia Dewar
Senador Cameron Dewar
rsula Dewar, sua esposa
Gus Dewar, filho do casal
Famlia Vyalov
Josef Vyalov, empresrio
Lena Vyalov, sua esposa
Olga Vyalov, filha do casal

Outros
Rosa Hellman, jornalista
Chuck Dixon, amigo de colgio de Gus
Marga, cantora de boate
Nick Forman, ladro
Ilya, capanga
Theo, capanga
Norman Niall, contador corrupto
Brian Hall, lder sindical

Personagens histricos
Woodrow Wilson, 28- presidente norte-americano
William Jennings Bryan, secretrio de Estado
Joseph Daniels, secretrio da Marinha

INGLESES & ESCOCESES
Famlia Fitzherbert
Conde Fitzherbert, conhecido como Fitz
Princesa Elizaveta, conhecida como Bea, sua esposa
Lady Maud Fitzherbert, sua irm

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Lady Hermia, conhecida como tia Herm, tia pobre dos irmos
Duquesa de Sussex, tia rica dos irmos
Gelert, co montanhs dos Pireneus
Grout, mordomo de Fitz
Sanderson, criada de Maud

Outros
Mildred Perkins, inquilina de Ethel Williams
Bernie Leckwith, secretrio do ncleo de Aldgate do Partido
     Trabalhista Independente
Bing Westhampton, amigo de Fitz
Marqus de Lowther, "Lowthie", pretendente rejeitado de Maud
Albert Solman, homem de negcios de Fitz
Dr. Greenward, mdico voluntrio no hospital peditrico
Lorde "Johnny" Remarc, subsecretrio do Departamento de Guerra
Coronel Hervey, ajudante de Sir John French
Tenente Murray, ajudante de Fitz
Mannie Litov, dono de fbrica
Jock Reid, tesoureiro do ncleo de Aldgate do Partido
     Trabalhista Independente
Jayne McCulley, esposa de soldado
     
Personagens histricos
Rei Jorge V
Rainha Maria
Mansfield Smith-Cumming, conhecido como "C", chefe da Diviso
     Estrangeira do Escritrio do Servio Secreto (futuro MI6)
Sir Edward Grey, membro do Parlamento, ministro das Relaes
     Exteriores da Gr-Bretanha
Sir William Tyrrell, secretrio particular de Grey
Frances Stevenson, amante de Lloyd George
Winston Churchill, membro do Parlamento
H.H. Asquith, membro do Parlamento, primeiro-ministro britnico
Sir John French, comandante da Fora Expedicionria Britnica

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FRANCESES
Gini, garonete
Coronel Dupuys, ajudante do general Gallini
General Lourceau, ajudante do general Joffre

Personagens histricos
General Joffre, chefe do Estado-Maior das Foras Armadas francesas
General Gallini, comandante da guarnio de Paris

ALEMES & AUSTRACOS
Famlia Von Ulrich
Otto von Ulrich, diplomata
Suzanne von Ulrich, sua esposa
Walter von Ulrich, filho do casal, adido militar junto  embaixada
      alem em Londres
Greta von Ulrich, filha do casal
Graf (conde) Robert von Ulrich, primo em terceiro grau de Walter,
adido militar junto  embaixada austraca em Londres

Outros
Gottfried von Kessel, adido cultural junto  embaixada alem em Londres
Monika von der Helbard, melhor amiga de Greta

Personagens histricos
Prncipe Karl Lichnowsky, embaixador alemo em Londres
Marechal de campo Paul von Hindenburg
General de infantaria Erich Ludendorff
Theobald von Bethmann-Hollweg, chanceler alemo
Arthur Zimmermann, ministro das Relaes Exteriores da Alemanha

RUSSOS
Famlia Peshkov
Grigori Peshkov, metalrgico
Lev Peshkov, cavalario
 
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Metalrgica Putilov
Konstantin, torneiro mecnico, presidente do grupo de
     discusso bolchevique
Isaak, capito do time de futebol
Varya, operria, me de Konstantin
Serge Kanin, supervisor da seo de fundio
Conde Maklakov, diretor
     
Outros
Mikhail Pinsky, policial
Ilya Kozlov, seu parceiro
Nina, criada da princesa Bea
Prncipe Andrei, irmo de Bea
Katerina, camponesa recm-chegada  cidade
Mishka, dono de bar
Trofim, gngster
Fyodor, policial corrupto
Spirya, passageiro do Anjo Gabriel
Yakov, passageiro do Anjo Gabriel
Anton, funcionrio da embaixada russa em Londres, tambm espio alemo
David, soldado judeu
Sargento Gavrik
Tenente Tomchak

Personagens histricos
Vladimir Ilitch Ulinov, dito Lnin, lder do Partido Bolchevique
Leon Trtski

GALESES
Famlia Williams
David Williams, militante sindicalista
Cara Williams, sua esposa
Ethel Williams, filha do casal
Billy Williams, filho do casal
Gramper, pai de Cara

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Famlia Griffiths
Len Griffiths, ateu e marxista
Sra. Griffiths
Tommy Griffiths, filho do casal e melhor amigo de Billy Williams

Famlia Ponti
Sra. Minnie Ponti
Giuseppe "Joey" Ponti
Giovanni "Johnny" Ponti, seu irmo caula

Mineradores
David Crampton, "Dai Choro"
Harry "Seboso" Hewitt
John Jones da Loja
Dai Costeletas, filho do aougueiro
Pat Papa, sinaleiro do Nvel Principal
Micky Papa, filho de Pat
Dai dos Pneis, cavalario
Bert Morgan

Administrao da mina
Perceval Jones, presidente da Celtic Minerals
Maldwyn Morgan, gerente da mina
Rhys Price, subgerente da mina
Arthur Llewellyn "Espinhento", auxiliar de escritrio da mina

Empregados da manso Ty Gwyn
Peei, mordomo
Sra. Jevons, governanta
Morrison, lacaio

Outros
Dai da Fossa, limpador de latrina
Sra. Dai dos Pneis
Sra. Roley Hughes
Sra. Hywel Jones
Recruta George Barrow, Companhia B
 
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Recruta Robin Mortimer, oficial destitudo do cargo, Companhia B
Recruta Owen Bevin, Companhia B
Sargento Elijah "Profeta" Jones, Companhia B
Segundo-tenente James Carlton-Smith, Companhia B
Capito Gwyn Evans, Companhia A
Segundo-tenente Roland Morgan, Companhia A

Personagens histricos
David Lloyd George, membro do Parlamento, Partido Liberal

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***

CAPTULO UM
22 de junho de 1911

No mesmo dia em que Jorge V foi coroado rei na Abadia de Westminster,
em Londres, Billy Williams desceu at as profundezas da mina de Aberowen,
na regio de Gales do Sul.
   Era 22 de junho de 1911 e Billy fazia 13 anos. Foi seu pai quem o acordou. A
tcnica de Da para despertar os outros era mais eficaz do que delicada. Ele dava
tapinhas ritmados na bochecha, com firmeza e insistncia. Naquele dia, Billy
dormia profundamente e tentou ignorar os tapinhas por alguns instantes, mas
eles continuaram sem trgua. O menino sentiu uma raiva passageira, mas da se
lembrou de que precisava acordar, queria acordar, ento abriu os olhos e se sentou
com um sobressalto.
   - So quatro horas - falou Da, saindo do quarto, suas botas ecoando nos degraus
de madeira enquanto descia a escada.
   Billy estava prestes a comear sua vida profissional como aprendiz de mineiro, tal
qual a maioria dos homens do lugar havia feito naquela idade. No se sentia to
minerador quanto gostaria, mas estava decidido a no dar vexame. Em seu primeiro dia na mina, David Crampton havia chorado, e at hoje todos o chamavam de Dai
Choro, embora ele j tivesse 25 anos e fosse a estrela do time de rgbi da cidade.
   O solstcio de vero fora na vspera, e uma luz fraca do incio da manh entrava
pela pequena janela do quarto. Billy olhou para o av deitado ao seu lado. Os olhos
de Gramper estavam abertos. Sempre que Billy acordava, ele j estava desperto.
Dizia que os velhos no dormiam muito.
   Billy saiu da cama. Estava s de cueca. No frio, dormia de camisa, mas aquele
vero estava quente, e  noite a temperatura ficava amena. Ele puxou o penico de
baixo da cama e tirou a tampa.
   O tamanho de seu pnis no havia mudado. Continuava o mesmo cotoquinho
de sempre. Tinha esperanas de que ele poderia ter comeado a crescer na noite
anterior ao seu aniversrio, ou que talvez fosse ver um nico pelo preto brotando em algum lugar por ali, mas ficou desapontado. Seu melhor amigo, Tommy
Griffiths, que nascera no mesmo dia que ele, era diferente: sua voz estava mudando e uma penugem escura crescia sobre o lbio superior. Alm disso, o pinto dele
era de homem. Era humilhante.
   
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   Enquanto usava o penico, Billy olhou pela janela. Tudo o que viu foi a pilha de escria, uma montanha cor de ardsia feita de resduos, o refugo da mina de carvo, composto principalmente de xisto e arenito. Era assim que o mundo devia ser no segundo dia da Criao, pensou Billy, antes de Deus dizer: "Que da terra brote a relva." Uma brisa suave soprava a poeira fina e negra da pilha de escria em direo s fileiras de casas.
   Dentro do quarto, havia menos ainda para se ver. Era um cmodo de fundos, um espao estreito em que mal cabia a cama de solteiro, uma cmoda e o velho ba de Gramper. Na parede, havia um bordado com o dizer:
CR
NO SENHOR JESUS CRISTO E TERS A SALVAO
   No havia espelho.
   Uma das portas conduzia ao alto da escada, a outra ao quarto da frente, no qual s se podia entrar passando pelo dos fundos. Esse segundo quarto era maior e tinha espao para duas camas. Era onde dormiam Da e Mam e onde tambm costumavam dormir, anos atrs, as irms de Billy. A mais velha, Ethel, j no morava ali e as outras trs tinham morrido - uma de sarampo, outra de coqueluche e a terceira de difteria. Houvera tambm um irmo mais velho, que dividia a cama com Billy antes de Gramper chegar. Ele se chamava Wesley e tinha morrido na mina, atropelado por um pequeno vago desgovernado que transportava carvo.
   Billy vestiu a camisa. A mesma que usara para ir  escola na vspera. Era quinta-feira, e ele s trocava de camisa aos domingos. Mas a cala era nova, sua primeira cala comprida, feita de algodo grosso e impermevel. Ela simbolizava seu ingresso no mundo dos homens e Billy a vestiu com orgulho, saboreando a aspereza mscula do tecido. Ps um cinto de couro pesado, calou as botas herdadas de Wesley e desceu a escada.
   A maior parte do trreo era ocupada pela sala de 20 metros quadrados, com uma mesa no meio, uma lareira em uma das laterais e um tapete feito  mo sobre o piso de pedra. Da estava sentado  mesa, lendo uma edio antiga do Daily Mail, com os culos empoleirados no nariz comprido e afilado. Mam preparava ch. Ela pousou a chaleira fumegante, beijou a testa do filho e disse:
   - Como est meu homenzinho no dia do seu aniversrio?
   Billy no respondeu. O diminutivo o magoava porque ele era realmente pequeno, e o substantivo "homem" tambm o incomodava, pois sabia que ainda no era um. Ele foi at a rea de servio, nos fundos da casa. Mergulhou uma lata no
   
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barril de gua, lavou o rosto e as mos e descartou a gua suja na pia rasa de pedra. A rea tinha um caldeiro de cobre com um braseiro embaixo, mas ele s era usado nas noites de banho, aos sbados.
   Eles esperavam ter gua encanada em breve, como lhes fora prometido. Alguns dos mineradores j tinham. Para Billy, parecia um milagre as pessoas poderem obter um copo de gua fresca e limpa simplesmente abrindo a torneira, sem ter que carregar um balde at a bica da rua. Mas a gua encanada ainda no havia chegado a Wellington Row, onde ficava a casa dos Williams.
   Ele voltou para a sala e se sentou  mesa. Mam depositou na sua frente uma xcara grande de ch com leite, j adoado. Cortou duas fatias grossas de po caseiro e foi buscar banha na despensa debaixo da escada. Billy uniu as mos, fechou os olhos e disse:
  -		Obrigado Senhor por esta comida amm. - Ento tomou um gole de ch e passou a banha no po.
   Os olhos azul-claros de Da espiaram por cima do jornal.
  -		Ponha sal no po - disse ele. - Voc vai suar l embaixo.
   O pai de Billy trabalhava para a Federao dos Mineradores de Gales do Sul, o sindicato mais influente da Gr-Bretanha, como ele fazia questo de dizer em qualquer oportunidade. Era conhecido como Dai do Sindicato. Dai, diminutivo de David, ou Dafydd em gals, era o apelido de muitos homens. Billy tinha aprendido na escola que David era popular no Pas de Gales por ser o nome de seu santo padroeiro, assim como Patrick era comum na Irlanda por conta de So Patrcio. Os Dais eram diferenciados uns dos outros no pelo sobrenome - quase todo mundo na cidade se chamava Jones, Williams, Evans ou Morgan -, mas sim pelo apelido. Quando havia uma alternativa engraada, os nomes verdadeiros quase nunca eram usados. O nome de Billy era William Williams, ento os outros o chamavam de Billy Duplo. As mulheres s vezes ganhavam o apelido do marido, de modo que Mam era conhecida como Sra. Dai do Sindicato.
   Gramper desceu quando Billy estava comendo a segunda fatia de po. Apesar do calor que fazia, usava palet e colete. Depois de lavar as mos, sentou-se  mesa em frente ao neto.
  -		No fique to nervoso - falou. - Eu desci para a mina quando tinha 10 anos. E o meu pai foi carregado para l nas costas do pai dele aos 5 anos, sendo que trabalhava das seis da manh s sete da noite. De outubro a maro, ele no via a luz do dia.
  -		Eu no estou nervoso - disse Billy. No era verdade. Estava morrendo de medo.
   
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   Mas Gramper, bondoso como era, no insistiu. Billy gostava do av. Mam tratava o filho como um beb, e Da era rspido e sarcstico, mas Gramper se mostrava tolerante e conversava com o neto como se ele fosse adulto.
   -		Ouam s isso - falou Da. Ele nunca comprava o Mail, um jornaleco de direita, mas s vezes trazia o de algum para casa e lia em voz alta com desprezo, zombando da estupidez e da desonestidade da classe dominante. - "Lady Diana Manners foi criticada por usar o mesmo vestido em dois bailes diferentes. A filha caula do duque de Ruthland ganhou o prmio de 'melhor traje feminino' no Baile do Savoy por seu corpete tomara que caia com barbatanas e saia-balo, recebendo o valor de 250 guinus." - Ele baixou o jornal e disse para Billy: - Isso, meu garoto, representa no mnimo cinco anos do seu salrio. - Ento prosseguiu: - "Mas ela atraiu a reprovao dos especialistas ao usar o mesmo vestido na festa de lorde Winterton e EE. Smith no Hotel Claridge. At o que  bom enjoa, foi o que disseram." - Ele ergueu os olhos do jornal. -  melhor trocar de vestido, Mam - disse ele. - No vai querer atrair a reprovao dos especialistas.
   Mam no achou graa. Estava usando um vestido velho de l marrom, com remendos nos cotovelos e manchas nas axilas.
   -		Se eu tivesse 250 guinus, ficaria mais bonita do que a sebosa dessa lady Diana - comentou, no sem uma certa amargura.
   -		Verdade - concordou Gramper. - Cara sempre foi a mais bonita... igualzinha  me. - Cara era o nome de Mam. Gramper se virou para Billy. - A sua av era italiana. O nome dela era Maria Ferrone. - Billy j sabia disso, mas o av gostava de recontar histrias conhecidas. - Foi da que saram os cabelos pretos e lustrosos e os lindos olhos escuros da sua me... e os da sua irm tambm. Sua av era a moa mais linda de Cardiff... e quem a conquistou fui eu! - De repente, ele pareceu triste. - Bons tempos - disse baixinho.
   Da franziu o cenho em sinal de reprovao - esse tipo de conversa trazia  mente os prazeres da carne -, mas Mam ficou alegre com os elogios do pai e sorriu ao lhe servir o desjejum.
   -		Ah,  - falou. - Eu e minhas irms ramos tidas como beldades. Se tivssemos dinheiro para seda e renda, mostraramos a esses duques o que  uma moa bonita.
   Billy ficou surpreso. Nunca tinha pensado na me como sendo bonita ou feia, embora ela ficasse bastante vistosa quando se vestia para os encontros de sbado  noite na igreja, especialmente se colocasse um chapu. Achava que ela at poderia ter sido uma moa bonita um dia, porm era difcil de imaginar.
   -		Mas a famlia da sua av era inteligente tambm - disse Gramper. - Meu
   
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cunhado era minerador, mas largou o ramo para abrir um caf em Tenby. Isso sim que  vida: a brisa do mar e nada para fazer o dia todo a no ser preparar caf e contar dinheiro.
   Da leu outra notcia:
  -		"Como parte dos preparativos para a coroao, o Palcio de Buckingham criou um manual de instrues de 212 pginas." - Ele olhou por cima do jornal. - Comente isso l na mina hoje, Billy. O pessoal vai ficar aliviado quando souber que nada foi deixado ao acaso.
   Billy no tinha muito interesse pela realeza. Gostava, isso sim, das histrias de aventura que o Mail costumava publicar sobre jogadores de rgbi dures de escolas particulares que capturavam espies alemes sorrateiros. Segundo o jornal, todas as cidades da Gr-Bretanha estavam infestadas de espies, embora, para decepo do garoto, no parecesse haver nenhum em Aberowen.
   Billy se levantou da mesa.
  -		Vou descer a rua - anunciou. Ento saiu de casa pela porta da frente. "Descer a rua" era um eufemismo da famlia: significava ir ao banheiro, que ficava mais adiante na Wellington Row. Era uma cabana baixa de tijolos com telhado de ferro corrugado, erguida sobre um buraco fundo na terra. A cabana era dividida em dois compartimentos, um masculino e um feminino. Cada um deles tinha dois assentos, para que as pessoas fizessem suas necessidades em duplas. Ningum sabia por que os construtores tinham escolhido esse modelo, mas todos se adaptavam como podiam. Os homens ficavam olhando direto para a frente, sem dizer nada, mas - como Billy muitas vezes escutava - as mulheres conversavam animadamente. O cheiro era sufocante, mesmo quando voc o sentia todos os dias da sua vida. Billy sempre tentava respirar o mnimo possvel quando estava l dentro, e saa arquejando em busca de ar. O buraco era esvaziado periodicamente com uma p por um homem chamado Dai da Fossa.
   Quando Billy voltou, ficou encantado ao ver a irm Ethel sentada  mesa.
  -		Parabns, Billy! - exclamou ela. - No podia deixar de vir lhe dar um beijo antes de voc descer  mina.
   Ethel tinha 18 anos e Billy no tinha a menor dificuldade em consider-la bonita. Seus cabelos cor de mogno exibiam cachos irrepreensveis e seus olhos escuros emitiam um brilho travesso. Talvez Mam tivesse sido daquele jeito um dia. Ethel usava o vestido preto simples e a touca branca de algodo de uma criada, uma roupa que lhe caa bem.
   Billy idolatrava Ethel. Alm de bonita, ela era engraada, inteligente e corajosa, e s vezes chegava at a enfrentar Da. Falava com Billy sobre coisas que ningum
   
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mais queria falar, como, por exemplo, aquele acontecimento mensal que as mulheres chamavam de maldio. Tambm lhe explicara o que significava o crime de atentado ao pudor que levara o pastor anglicano a sair da cidade com tanta pressa. Durante toda a vida escolar, ela havia sido a primeira da turma, e seu ensaio "Minha cidade ou minha aldeia" ficara em primeiro lugar em um concurso organizado pelo jornal South Wales Echo. Seu prmio foi um exemplar do Atlas
Mundial Cassell.
   Ethel beijou o irmo na bochecha.
  -		Eu disse  Sra. Jevons, a governanta, que a graxa para botas estava acabando e era melhor eu ir comprar mais na cidade. - Ethel morava e trabalhava em Ty Gwyn, a imensa propriedade do conde Fitzherbet, que ficava quase dois quilmetros montanha acima. Entregou a Billy algo embrulhado em um pano limpo. - Roubei um pedao de bolo para voc.
  -		Ah, Eth, obrigado! - agradeceu Billy. Ele adorava bolo.
-		Quer que eu ponha na sua marmita? - perguntou Mam.
-		Quero, por favor.
   Mam pegou um recipiente de lata no armrio e ps o bolo l dentro. Cortou mais duas fatias de po, passando banha e salpicando um pouco de sal nelas antes de guard-las na marmita. Todos os mineradores 
   tinham sua marmita de lata. Se levassem para a mina comida enrolada em um pano, os ratos a comeriam  antes do intervalo do meio da manh.
  -		Quando voc me trouxer o seu salrio, vai poder levar uma fatia de toucinho cozido na marmita. - disse Mam.
   O salrio de Billy no seria grande coisa no comeo, mas mesmo assim faria diferena para a famlia. Ele se perguntou com quanto Mam o deixaria ficar, e se algum dia ele conseguiria economizar o suficiente para comprar uma bicicleta, que desejava mais do que tudo na vida.
   Ethel sentou-se  mesa.
  -		Como andam as coisas no casaro? - perguntou-lhe Da.
  -		Tranquilas - respondeu ela. - O conde e a princesa esto em Londres para assistir  coroao. - Ela olhou para o relgio sobre a lareira. - Eles devem acordar daqui a pouco... precisam chegar bem cedo na abadia. Ela no vai gostar, no est acostumada a sair da cama a esta hora, mas no pode se atrasar para o rei. - A mulher do conde, Bea, era uma princesa russa, e muito distinta.
  -		Eles vo querer pegar lugares na frente para no perderem o espetculo - falou Da.
  -		Oh, no, voc no pode sair sentando onde quiser - disse Ethel. - Eles 
   
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mandaram fazer 600 cadeiras especiais de mogno, com os nomes dos convidados gravados no encosto em letras de ouro.
-		Ora, mas que desperdcio! - comentou Gramper. - O que vo fazer com essas cadeiras depois?
-		No sei. Talvez cada um leve a sua para casa de lembrana.
-		Se sobrar alguma, pea para eles mandarem para c - falou Da com sarcasmo. - Somos apenas cinco aqui e sua me j teve que ficar em p.
Por trs das brincadeiras de Da, sempre podia haver raiva de verdade. Ethel pulou da cadeira.
-		Oh, perdo, Mam, nem me dei conta.
-		Fique a, estou ocupada demais para me sentar - disse Mam.
O relgio bateu cinco horas.
-		Billy - falou Da -  melhor voc chegar l cedo. Para mostrar desde agora como pretende trabalhar.
Billy se ps de p, relutante, e pegou sua marmita.
Ethel tornou a beij-lo e Gramper apertou sua mo. Da lhe entregou dois pregos de 15 centmetros, enferrujados e um pouco tortos.
-		Guarde isso no bolso da cala.
-		Pra qu? - quis saber Billy.
-		Voc vai ver - respondeu Da com um sorriso.
Mam entregou a Billy uma garrafa de um litro com tampa de rosca cheia de ch gelado com leite e acar.
-		Billy - disse ela -, lembre-se de que Jesus est sempre ao seu lado, mesmo l no fundo da mina.
-		Sim, Mam.
Ele pde ver uma lgrima no olho da me e virou o rosto depressa, pois aquilo lhe dava vontade de chorar tambm. Apanhou sua boina no gancho.
-		Bem, at logo - falou, como se estivesse simplesmente indo para a escola. Depois saiu pela porta da frente.
At ento, o vero tinha sido quente e ensolarado, mas aquele dia estava nublado, parecendo at que poderia chover. Tommy estava encostado na parede externa da casa, esperando.
-		Oi, Billy - disse ele.
-		Oi, Tommy.
Os dois puseram-se a descer a rua lado a lado.
Billy aprendera na escola que antigamente Aberowen era uma pequena cidade-mercado, que atendia aos agricultores das redondezas. Do alto da Wellington

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Row era possvel ver o antigo centro comercial, com os currais abertos do mercado de gado, o prdio onde se fazia o comrcio da l e a igreja anglicana, todos na mesma margem do rio Owen, que mal passava de um crrego. Agora uma ferrovia cortava a cidade ao meio como uma ferida, indo acabar na entrada da mina. As casas dos mineradores haviam se espalhado pelas encostas do vale acima, centenas de casinhas de pedra cinzenta com telhados de ardsia galesa de um cinza mais escuro. As construes formavam longas fileiras sinuosas que acompanhavam os contornos das encostas. Essas fileiras, por sua vez, eram cortadas por ruas mais curtas que mergulhavam em direo ao fundo do vale.
   -		Com quem voc acha que vamos trabalhar? - perguntou Tommy.
   Billy deu de ombros. Os recm-chegados costumavam ser despachados para um dos subgerentes da mina.
   -		S vendo.
   -		Espero que me ponham nas estrebarias. - Tommy gostava de cavalos. Na mina viviam cerca de 50 pneis. Os animais puxavam os vages que os mineiros enchiam e os transportavam por trilhos ferrovirios. - Que tipo de trabalho voc quer fazer?
   Billy estava torcendo para no lhe confiarem uma tarefa rdua demais para seu fsico infantil, embora no estivesse disposto a admiti-lo.
   -		Lubrificar os vages - respondeu ele.
   -		Por qu?
   -		Porque parece fcil.
   Os dois passaram pela escola que, no dia anterior, haviam frequentado como alunos. Era um prdio vitoriano, com janelas pontiagudas feito as de uma igreja. Fora construda pela famlia Fitzherbert, como o diretor nunca se cansava de lembrar aos alunos. O conde at hoje nomeava os professores e estabelecia o currculo. Quadros nas paredes retratavam vitrias militares hericas, e a grandeza da Gr-Bretanha era um tema constante. Na aula de religio, sempre a primeira do dia, ensinavam-se doutrinas estritamente anglicanas, embora quase todas as crianas pertencessem a famlias no conformistas. A escola tinha um comit diretor do qual Da fazia parte, mas cujos poderes se limitavam aos de um conselho. Da costumava dizer que o conde tratava a escola como sua propriedade particular.
   Em seu ltimo ano, Billy e Tommy haviam aprendido os princpios da minerao, enquanto as meninas aprendiam a costurar e cozinhar. Billy ficara surpreso ao descobrir que o cho que ele pisava era formado por vrias camadas de diferentes tipos de terra, como uma pilha de sanduches. Um veio de carvo - expresso
   
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que havia escutado a vida inteira sem entender direito - era uma dessas camadas. Ele tambm aprendera que o carvo era composto de folhas mortas e outras matrias vegetais acumuladas ao longo de milhares de anos e comprimidas pelo peso da terra acima delas. Tommy, cujo pai era ateu, dizia que isso provava que a Bblia estava errada; mas o pai de Billy afirmava que essa era apenas uma das interpretaes possveis.
   A escola estava vazia quela hora, seu ptio deserto. Billy sentia orgulho de t-la deixado para trs, embora parte dele desejasse poder voltar para l em vez de descer  mina.
   Conforme eles foram se aproximando da entrada da mina, as ruas comearam a se encher de mineradores, cada qual com sua marmita e sua garrafa de ch. Estavam todos vestidos da mesma forma, com ternos velhos que iriam despir assim que chegassem ao local de trabalho. Algumas minas eram frias, mas a de Aberowen era quente, e nela os homens trabalhavam de roupa de baixo e botas, ou ento usando cales de linho grosseiro. Todos usavam uma boina acolchoada o tempo todo, pois os tetos dos tneis eram baixos e era fcil bater com a cabea.
   Por sobre as casas, Billy conseguia ver o guindaste, uma torre encimada por duas grandes rodas que giravam em direes opostas e acionavam os cabos que baixavam e erguiam o elevador. Era possvel ver estruturas de minerao semelhantes pairando sobre a maioria das cidades dos vales de Gales do Sul, da mesma forma que os campanrios das igrejas dominavam as aldeias de agricultores.
   Outras construes se espalhavam em volta da entrada da mina como se houvessem sido largadas ali por acidente: o paiol de lamparinas, o escritrio da empresa de minerao, o ferreiro, os depsitos. Trilhos serpeavam por entre os prdios. No terreno baldio, havia vages quebrados, vigas de madeira velhas e rachadas, sacos de aniagem e pilhas de mquinas enferrujadas e sem uso, tudo coberto por uma camada de p de carvo. Da sempre dizia que haveria menos acidentes se os mineiros mantivessem as coisas arrumadas.
   Billy e Tommy foram at o escritrio da mineradora. Na sala da frente, trabalhava um auxiliar de escritrio pouco mais velho do que eles, Arthur Llewellyn "Espinhento", que vestia uma camisa branca com o colarinho e os punhos encardidos. Os dois estavam sendo aguardados - seus pais j haviam combinado que comeariam a trabalhar naquele dia. Espinhento anotou seus nomes em um livro-razo e, em seguida, levou-os at a sala do gerente.
   - Os jovens Tommy Griffiths e Billy Williams, Sr. Morgan - anunciou.
   Maldwyn Morgan era um homem alto e vestia um terno preto. No havia p de carvo nos punhos de sua roupa. Suas bochechas rosadas eram lisas, o que
   
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significava que ele devia se barbear diariamente. Seu diploma de engenheiro
pendia emoldurado da parede, e o chapu-coco - outro smbolo de seu status -
estava  mostra no cabideiro junto  porta.
Para surpresa de Billy, o gerente no estava sozinho. Ao seu lado, havia um
homem ainda mais impressionante: Perceval Jones, presidente da Celtic Minerais,
dona e administradora da mina de carvo de Aberowen e de vrias outras. Era
um homem baixo, agressivo, que os mineradores chamavam de Napoleo. Usava
trajes formais, um fraque preto e cala cinza listrada, e no havia tirado a cartola
preta alta.
Jones olhou para os meninos com averso.
-		Griffiths - disse ele. - Seu pai  um socialista revolucionrio.
-		Sim, Sr. Jones - respondeu Tommy.
-		E, alm disso, ateu.
-		Sim, Sr. Jones.
Ele ento olhou para Billy.
-		E o seu pai tem um cargo importante na Federao dos Mineradores de
Gales do Sul.
-		Sim, Sr. Jones.
-		Eu no gosto de socialistas. Os ateus esto fadados  danao eterna. E os
sindicalistas so os piores de todos.
Ele os fuzilava com o olhar, mas aquilo no era uma pergunta, ento Billy continuou calado.
-		No quero arruaceiros aqui - continuou Jones. - No vale de Rhondda, os
mineradores esto em greve h 43 semanas, atiados por gente como seu pai.
Billy sabia que a greve no vale de Rhondda no tinha sido causada por arruaceiros, mas pelos proprietrios da mina Ely, em Penygraig, que a haviam fechado
para que os mineradores no pudessem trabalhar. Porm ficou de bico calado.
-		Vocs so arruaceiros? - perguntou Jones, apontando um dedo ossudo para
Billy e fazendo-o tremer. - Seu pai lhe disse para voc defender seus direitos
enquanto estiver trabalhando para mim?
Billy tentou pensar, embora fosse difcil diante da figura ameaadora de Jones.
Da no tinha dito muita coisa naquela manh, mas na noite anterior lhe dera
alguns conselhos.
-		Senhor, com sua licena, ele me disse: "No enfrente os patres, esse  o meu
trabalho."
Atrs dele, Llewellyn Espinhento abafou uma risadinha.
Perceval Jones no achou graa.

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-		Selvagem insolente - disse ele. - Mas, se eu mandar voc embora, este vale inteiro vai entrar em greve.
Billy no tinha pensado nisso. Ser que ele era to importante assim? No... mas talvez os mineradores entrassem em greve partindo do princpio de que os filhos de seus representantes no deveriam ser punidos. Estava trabalhando h menos de cinco minutos e o sindicato j o estava protegendo.
-		Tirem esses meninos daqui - disse Jones.
Morgan aquiesceu.
-		Leve-os l para fora, Llewellyn - falou ele. - Rhys Price pode cuidar deles.
Em seu ntimo, Billy soltou um gemido. Rhys Price era um dos subgerentes
mais temidos. No ano anterior, ele havia flertado com Ethel, que o rejeitara no ato. Sua irm agira da mesma forma com metade dos homens solteiros de Aberowen, mas Price tinha ficado muito abalado.
Espinhento fez um gesto brusco com a cabea.
-		Chispem - disse, saindo atrs deles. - Aguardem o Sr. Price l fora.
Billy e Tommy saram do escritrio e se recostaram na parede ao lado da porta.
-		Quem me dera dar um soco naquela barriga gorda do Napoleo - disse Tommy. - Que capitalista nojento.
-		 - disse Billy, embora nem sequer tivesse pensado nisso.
Um minuto depois, Rhys Price apareceu. Como todos os subgerentes, usava um chapu baixo de copa redonda, mais caro do que uma boina de minerador, porm mais barato do que um chapu-coco. Trazia um bloco de anotaes e um lpis no bolso do colete e segurava um metro na mo. A barba por fazer e um vo entre os dentes da frente marcavam suas feies. Billy sabia que ele era inteligente, mas ardiloso.
-		Bom dia, Sr. Price - cumprimentou Billy.
Price fez cara de desconfiado.
-		Que histria  essa de me dar bom dia, Billy Duplo?
-		O Sr. Morgan disse que a gente vai descer  mina com o senhor.
-		Foi mesmo? - Price tinha a mania de lanar olhares rpidos de um lado para outro e, s vezes, para trs, se pressentisse encrenca vindo de alguma direo desconhecida. - Isso ns vamos ver. - Ento olhou para o guindaste, como se ele pudesse lhe dar uma explicao. - No tenho tempo para cuidar de moleques. - Dito isso, entrou no escritrio.
-		Espero que ele chame outra pessoa para descer com a gente - disse Billy. - Ele detesta a minha famlia porque minha irm no quis namorar com ele.
-		A sua irm se acha boa demais para os homens de Aberowen - falou Tommy, obviamente repetindo algo que havia escutado algum dizer.

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  -		Ela  boa demais para os homens de Aberowen - disse Billy com altivez.
   Price saiu do escritrio.
  -		Muito bem, por aqui - falou, seguindo em frente a passos largos.
   Os dois meninos o acompanharam at o paiol das lamparinas. O homem que trabalhava ali entregou a Billy uma lamparina de segurana, feita de lato, que ele prendeu ao cinto como faziam os demais.
   Ele havia aprendido na escola sobre as lamparinas dos mineradores. Um dos perigos da minerao do carvo era o metano, um gs inflamvel que vazava dos veios de carvo. Os homens o chamavam de grisu, e ele era a causa de todas as exploses subterrneas. As minas galesas eram conhecidas por terem muito dessa substncia. A lamparina era engenhosamente concebida de modo que sua chama no inflamasse o grisu. Na verdade, a chama mudava de formato e se alongava, dando assim um alerta - pois o metano no tinha cheiro.
   Caso a lamparina se apagasse, os mineradores no conseguiam reacend-la sozinhos. Era proibido portar fsforos no interior da mina, e a lamparina ficava lacrada para desencoraj-los a burlar essa regra. Uma lamparina apagada precisava ser levada at um ponto de acendimento, que em geral ficava no fundo da mina, junto ao poo. Isso podia acarretar uma caminhada de quase dois quilmetros, ou mais, mas valia a pena para evitar o risco de uma exploso subterrnea.
   Na escola, os meninos haviam aprendido que a lamparina de segurana era uma das maneiras de os donos das minas demonstrarem seu zelo e preocupao para com os empregados - "como se os patres no tirassem nenhum proveito do fato de evitarem exploses, interrupes no trabalho e danos aos tneis", dizia Da.
   Depois de pegarem as lamparinas, os homens faziam fila para o elevador. Estrategicamente posicionado ao lado da fila, havia um quadro de avisos. Cartazes escritos  mo ou impressos de forma grosseira anunciavam treinos de crquete, uma partida de dardos, um canivete perdido, um recital do Coral Masculino de Aberowen e uma palestra sobre a teoria do materialismo histrico de Karl Marx na Biblioteca Livre. Os subgerentes, no entanto, no precisavam esperar na fila, de modo que Price abriu caminho aos empurres at a frente dela, com os meninos em seu encalo.
   Como a maioria das minas, Aberowen tinha dois poos, com ventiladores posicionados para forarem o ar a descer por um e subir pelo outro. Os donos das minas muitas vezes batizavam os poos com nomes extravagantes, e os dali se chamavam Pramo e Tisbe. O poo em que estavam, Pramo, era por onde o ar subia, e Billy podia sentir a corrente de ar morno que brotava da mina.
   No ano anterior, Billy e Tommy tiveram a ideia de olhar para dentro do poo.
   
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Na segunda-feira aps o domingo de Pscoa, quando os homens estavam de folga, eles driblaram o vigia e se esgueiraram pelo terreno baldio at a entrada da mina, escalando em seguida a cerca de proteo. A boca do poo no estava totalmente tampada pela cabine do elevador, ento eles se deitaram de bruos e olharam pela borda. Ficaram encarando aquele buraco terrvel com um fascnio mrbido, e Billy sentiu um frio na barriga. A escurido parecia infinita. Teve uma sensao que era metade de alegria, por no ter que descer at as profundezas, e metade de terror, porque um dia seria obrigado a faz-lo. Chegou a jogar uma pedra l dentro, e os dois a escutaram ricochetear entre o trilho de madeira que guiava o elevador e o revestimento de tijolos do poo. O tempo que a pedra levou para fazer seu barulho fraco e distante ao atingir a poa dagua no fundo lhes pareceu aterrorizante de to longo.
    Agora, um ano depois, ele estava prestes a seguir o mesmo trajeto daquela pedra.
    Disse a si mesmo para deixar de ser covarde. Precisava agir como homem, mesmo que no se sentisse assim. O pior de tudo seria arruinar sua reputao. Tinha mais medo disso que de morrer.
    Ele podia ver a grade deslizante que fechava o poo. Para alm dela, havia apenas espao vazio, pois o elevador ainda estava subindo. Do outro lado do vo, via tambm o cabrestante que fazia girar as rodas grandes l no alto. Jatos de vapor escapavam do mecanismo. Os cabos batiam em suas correias com um barulho de chicote. Um cheiro de leo quente pairava no ar.
    Com um estrondo metlico, o elevador vazio surgiu atrs da grade. O sinaleiro responsvel pelo elevador ali em cima abriu o gradeado. Rhys Price entrou na cabine vazia, seguido pelos dois meninos. Treze mineradores entraram depois deles - o elevador tinha capacidade para 16 homens. O sinaleiro fechou a grade com fora.
    Houve um intervalo. Billy se sentiu vulnervel. O cho sob seus ps era slido, mas ele poderia, sem muita dificuldade, se espremer por entre as barras espaadas das laterais. O elevador era sustentado por um cabo de ao, mas nem mesmo ele era totalmente seguro: todos sabiam que o cabo da mina de Tirpentwys tinha se rompido um dia em 1902 e que o elevador havia despencado at o fundo do poo, matando oito homens.
    Billy meneou a cabea para o minerador ao seu lado. Era Harry "Seboso" Hewitt, um menino de rosto redondo apenas trs anos mais velho do que ele, embora fosse 30 centmetros mais alto. Billy se lembrava de quando Harry estava na escola: ele havia empacado na terceira srie com os meninos de 10 anos, levando bomba ano aps ano, at ter idade suficiente para trabalhar.
    
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    Uma campainha tocou, avisando que o sinaleiro no fundo do poo havia fechado sua grade. Seu colega da superfcie puxou uma alavanca, fazendo uma campainha diferente soar. O motor a vapor chiou e ento se ouviu outro baque.
    A cabine despencou no vazio.
    Billy sabia que o elevador entrava em queda livre, freando em seguida para fazer uma aterrissagem suave, mas nenhum conhecimento prvio poderia t-lo preparado para a sensao de cair sem obstculo algum rumo s entranhas da Terra. Seus ps se descolaram do cho. Ele gritou de medo. No conseguiu se controlar.
    Todos os homens riram. Sabiam que era a primeira vez dele e, como Billy percebeu, estavam esperando sua reao. Ento ele notou, com atraso, que todos seguravam as barras da cabine para no ficarem suspensos no ar. Mas saber disso no atenuou em nada seu medo. Somente depois de apertar bem os dentes conseguiu parar de gritar.
    Por fim, o freio foi acionado. A velocidade da queda diminuiu e os ps de Billy tocaram o cho. Ele agarrou uma das barras e tentou parar de tremer. Dali a um minuto, o medo foi substitudo por uma sensao de humilhao to forte que lgrimas ameaaram brotar dos seus olhos. Ele encarou o semblante risonho de Seboso e gritou bem alto:
    - Cala essa boca, seu merda.
    A expresso de Seboso mudou no mesmo instante, assumindo um ar furioso, mas os outros homens riram mais ainda. Billy teria de pedir perdo a Jesus por ter dito um palavro, mas sentia-se um pouco menos idiota.
    Ele olhou para Tommy, que estava branco feito um lenol. Ser que Tommy tinha gritado? Billy no quis perguntar, com medo de que a resposta pudesse ser no.
    O elevador parou, a grade foi aberta e Billy e Tommy seguiram, trmulos, para o interior da mina.
    O ambiente era sombrio. As lamparinas dos mineradores produziam menos claridade do que as lanternas de parafina nas paredes de casa. A mina era to escura quanto uma noite sem lua. Talvez eles no precisassem enxergar bem para minerar carvo, pensou Billy. Ele pisou em uma poa e, ao olhar para baixo, viu gua e lama por toda parte, cintilando com o reflexo fraco das chamas das lamparinas. Sentia um gosto estranho na boca: o ar estava repleto de p de carvo. Como era possvel que os homens respirassem aquele ar o dia inteiro? Devia ser por isso que os mineradores viviam tossindo e escarrando.
    Quatro homens aguardavam para entrar no elevador e subir at a superfcie. Cada um deles carregava uma maleta de couro, e Billy percebeu que eram os
    
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bombeiros. Todo dia pela manh, antes de os mineradores comearem o trabalho, eles testavam o nvel de gs na mina. Caso a concentrao de metano fosse excessiva, ordenavam que os homens no trabalhassem at ele ser dispersado pelos ventiladores.
  Perto de onde estava, Billy podia ver uma fileira de baias para pneis e uma porta aberta, que conduzia a uma sala bem iluminada com uma escrivaninha, provavelmente destinada aos subgerentes. Os homens se dispersaram, embrenhando-se por quatro tneis que irradiavam do fundo da mina. Os tneis eram chamados de galerias e conduziam aos locais onde o carvo era extrado.
  Price levou-os at um barraco e abriu um cadeado. Era um depsito de ferramentas. Ele escolheu duas ps, entregou-as aos meninos e trancou o barraco de volta.
  Em seguida, os trs foram at a estrebaria. Um homem vestindo apenas um calo e botas removia com uma p a palha suja de uma das baias, jogando-a dentro de um vago de carvo. Suor escorria de suas costas musculosas.
  -		Quer um menino para ajud-lo? - perguntou-lhe Price.
  O homem se virou e Billy reconheceu Dai dos Pneis, membro do conselho da Capela de Bethesda. Dai no pareceu reconhecer Billy.
  -		No quero o pequeno - disse ele.
  -		Certo - disse Price. - O outro  Tommy Griffiths. Ele  todo seu.
  Tommy pareceu contente. Tinha conseguido o que queria. Mesmo que fosse
apenas limpar a sujeira das baias, iria trabalhar na estrebaria.
  -		Venha, Billy Duplo - disse Price, entrando por uma das galerias.
  Billy apoiou a p no ombro e foi atrs dele. Ficou mais ansioso sem Tommy ao seu lado. Preferia que o tivessem mandado limpar baias junto com o amigo.
  -		O que eu vou fazer, Sr. Price? - perguntou.
  -		No consegue adivinhar? - respondeu Price. - Por que acha que eu lhe dei uma porra de uma p?
  Billy ficou chocado ao ouvir aquela palavra proibida sendo usada de forma to casual. No conseguia adivinhar o que iria fazer, mas parou de perguntar.
  O tnel era arredondado, seu teto reforado com suportes curvos de ao. Um cano de cinco centmetros de dimetro corria pelo ponto mais alto dele, provavelmente transportando gua. Todas as noites, ela era usada para borrifar as galerias, numa tentativa de reduzir a quantidade de p. Esta no s era um perigo para os pulmes dos mineradores - se fosse apenas isso, a Celtic Minerais provavelmente no se importaria - como tambm representava risco de incndio. O sistema de irrigao, no entanto, era inadequado. Da havia argumentado que
  
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seria preciso instalar um cano de 15 centmetros, mas Perceval Jones se recusara a custear a despesa.
Cerca de 400 metros depois, eles entraram num tnel transversal ascendente. Era uma passagem mais antiga e mais estreita, sustentada por vigas de madeira em vez de anis de ao. Price teve de abaixar a cabea nos pontos em que o teto comeava a ceder. A intervalos de mais ou menos 30 metros, eles passavam pelas entradas dos postos de trabalho onde os mineradores j extraam o carvo.
Billy ouviu uma espcie de ronco, ao que Price falou:
-		Entre no bueiro.
-		O qu? - Billy olhou para o cho. Um bueiro era algo que existia nas caladas da cidade, e ele no conseguia ver nada ali a no ser os trilhos pelos quais passavam os vages. Ergueu os olhos e viu um pnei trotando na sua direo, vindo depressa ladeira abaixo, puxando uma srie de vages.
-		No bueiro! - gritou Price.
Billy continuou sem entender o que se esperava dele, mas podia ver que o tnel tinha quase a mesma largura dos vages e que ele seria esmagado. Ento Price pareceu entrar na parede e desaparecer.
Billy largou a p, deu meia-volta e saiu correndo por onde tinha vindo. Tentou se manter  frente do pnei, mas o animal se movia com uma rapidez surpreendente. Foi ento que notou um vo escavado na parede, indo do cho ao teto do tnel, e percebeu que tinha visto espaos como aquele mais ou menos de 25 em 25 metros, sem lhes dar muita ateno. Devia ser aquilo que Price chamava de bueiro. Ele se jogou l dentro, e o comboio passou rugindo.
Depois que os vages desapareceram, Billy saiu de dentro do bueiro, ofegante.
Price fingiu se zangar, mas estava sorrindo.
-		Voc vai ter que ficar mais esperto - falou. - Ou ento vai morrer aqui embaixo... igual ao seu irmo.
Na opinio de Billy, a maioria dos homens se comprazia em zombar da ignorncia dos meninos. Ele estava decidido a ser diferente quando crescesse.
Tornou a pegar a p. Estava intacta.
-		Sorte sua - comentou Price. - Se tivesse sido quebrada, voc precisaria pagar uma nova.
Eles prosseguiram e logo adentraram uma seo exaurida da mina, onde os postos de trabalho estavam vazios. Havia menos gua no cho, que estava coberto por uma camada grossa de p de carvo. Eles fizeram vrias curvas e Billy perdeu o senso de direo.
Chegaram a um local em que o tnel estava bloqueado por um vago velho e sujo.

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  -		Esta rea precisa ser limpa - disse Price. Era a primeira vez que se dava ao
trabalho de explicar o que quer que fosse, e Billy teve a impresso de que ele
estava mentindo. - O seu trabalho  pr a sujeira dentro do vago com a p.
   Billy olhou em volta. At onde a luz da sua lamparina alcanava, a camada de
p tinha 30 centmetros de altura, e ele imaginava que se estendesse para muito
alm. Poderia passar uma semana inteira recolhendo aquilo com a p sem muito
resultado. E para qu? J no havia o que minerar ali. Mas ele no fez perguntas.
Aquilo decerto era uma espcie de teste.
  -		Daqui a pouco eu volto para ver como voc est indo - disse Price, retornando
pelo mesmo caminho e deixando Billy sozinho.
   Por essa Billy no esperava. Havia imaginado que fosse trabalhar com homens
mais velhos, aprender com eles. Mas no podia fazer nada alm do que lhe diziam.
   Ele desprendeu a lamparina do cinto e olhou em volta  procura de algum
lugar para apoi-la. No havia nada que pudesse usar como prateleira. Ps a lamparina no cho, mas nessa posio ela era quase intil. Foi quando se lembrou
dos pregos que Da lhe dera. Ento era para isso que serviam. Tirou um deles do
bolso. Usando a lmina da p, pregou-o em uma das vigas de madeira, pendurando ali a lamparina. Bem melhor.
   O vago batia no peito de um homem, mas, no caso de Billy, batia nos ombros -
e, quando ele comeou a trabalhar, descobriu que metade do p escorregava da
p antes que conseguisse jog-lo dentro do vago. Ele inventou uma maneira de
girar a lmina para evitar que isso acontecesse. Em poucos minutos, ficou encharcado de suor e entendeu para que servia o segundo prego. Pregou-o em outra
viga de madeira e ali pendurou a camisa e a cala.
   Algum tempo depois, sentiu que algum o observava. Com o rabo do olho,
enxergou um vulto parado ali, imvel feito uma esttua.
  -		Ai, meu Deus! - gritou, virando-se para encar-lo.
   Era Price.
  -		Esqueci de testar sua lamparina - disse ele. Ento retirou a lamparina
de Billy do prego e fez alguma coisa com ela. - No est muito boa - falou. -
Vou deixar a minha com voc. - Ele pendurou a outra lamparina no lugar e
desapareceu.
   Price era uma figura sinistra, mas ao menos parecia preocupado com a sua
segurana.
   Billy voltou ao trabalho. Dali a pouco, seus braos e pernas comearam a doer.
Ele disse a si mesmo que estava acostumado a usar uma p: Da criava um porco
no terreno atrs de casa, e cabia a Billy limpar a pocilga uma vez por semana.
   
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Mas isso s levava uns 15 minutos. Ser que ele conseguiria passar o dia inteiro fazendo aquilo?
   Debaixo do p, havia um cho feito de pedra e barro. Depois de algum tempo, ele conseguiu limpar uma rea de pouco mais de um metro, a mesma largura do tnel. O p mal cobria o fundo do vago, mas ele j estava exausto.
   Tentou empurrar o vago para a frente de modo a no ter que caminhar tanto com a p cheia, mas as rodas pareciam emperradas depois de tanto tempo sem uso.
   Ele estava sem relgio, ento era difcil saber quanto tempo havia passado. Comeou a trabalhar mais devagar para poupar as foras.
   Ento sua luz apagou.
   A chama primeiro tremeluziu, o que fez Billy olhar com aflio para a lamparina pendurada no prego, embora soubesse que a chama ficaria comprida caso houvesse grisu ali. No era o que estava vendo, de modo que ficou mais tranquilo. Ento a chama se apagou por completo.
   Ele nunca tinha estado numa escurido como aquela. No conseguia enxergar nada, nem mesmo manchas cinzentas, nem mesmo tons diferentes de preto. Ergueu a p at a altura do rosto, segurando-a a menos de 3 centmetros do nariz, mas nem assim conseguiu v-la. Devia ser essa a sensao de ser cego.
   Ele ficou imvel. O que deveria fazer? Teoricamente, levar a lmpada at o ponto de acendimento. Porm, mesmo que conseguisse ver alguma coisa, teria sido incapaz de achar o caminho de volta pelos tneis. Naquele breu, poderia passar horas perdido. No fazia ideia de quantos quilmetros de extenso tinham as galerias abandonadas e no queria que os homens tivessem de mandar uma equipe de busca para encontr-lo.
   Tudo o que podia fazer era aguardar a volta de Price. O subgerente tinha dito que voltaria "daqui a pouco". Isso poderia significar alguns minutos, ou ento uma hora ou mais. E Billy desconfiava que a segunda alternativa era a mais provvel. Com certeza Price havia planejado aquilo. Lamparinas de segurana no se apagavam nunca, e ainda por cima quase no ventava ali. Price tinha apanhado a lamparina de Billy e a substitudo por outra com pouco leo.
   Ele sentiu uma onda de autocomiserao, e seus olhos se encheram de lgrimas. O que tinha feito para merecer aquilo? Logo em seguida, se recomps. Era s mais um teste, feito o elevador. Iria mostrar a eles que era duro.
   Decidiu que deveria continuar trabalhando, mesmo no escuro. Movendo-se pela primeira vez desde que a luz havia se apagado, ele ps a p no cho e a deslizou para a frente, tentando catar alguma coisa. Ao ergu-la, lhe pareceu, pelo peso, que a lmina estava cheia. Virou-se, deu dois passos e ento ergueu a p,
   
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tentando jogar a sujeira dentro do vago, mas avaliou mal a altura. A p bateu na lateral da caamba e ficou subitamente mais leve quando sua carga caiu no cho.
   Ele iria se adaptar. Tentou outra vez, erguendo a p mais alto. Depois de descarregar a lmina, deixou a ferramenta cair, sentindo o cabo de madeira bater contra a borda do vago. Melhor assim.
    medida que o trabalho o fazia se afastar cada vez mais do vago, ele continuou a errar o alvo de vez em quando, at comear a contar os passos em voz alta. Logo estabeleceu um ritmo e, embora seus msculos doessem, conseguiu continuar.
   Assim que o trabalho se tornou automtico, sua mente ficou livre para divagar, o que no era to bom. Ele se perguntou at onde aquele tnel ia e h quanto tempo estava abandonado. Pensou na terra acima de sua cabea, se estendendo por quase um quilmetro, e no peso que aquelas vigas de madeira velhas sustentavam. Lembrou-se do irmo, Wesley, e dos outros homens que haviam morrido na mina. Mas  claro que seus espritos no estavam ali. Wesley estava com Jesus. Os demais tambm, provavelmente. Caso contrrio, estariam em outro lugar.
   Ele comeou a sentir medo e decidiu que era melhor no pensar em espritos. Estava com fome. Ser que j era hora de abrir a marmita? No fazia ideia, mas resolveu comer assim mesmo. Conseguiu chegar ao local em que havia pendurado as roupas, tateou o cho logo abaixo e encontrou sua garrafa e sua marmita.
   Sentou-se com as costas apoiadas na parede e tomou um gole generoso do ch frio e doce. Enquanto comia o po com banha, ouviu um barulho distante. Torceu para ser o rangido das botas de Rhys Price, mas essa era uma esperana infundada. Ele conhecia aquele guincho: eram ratos.
   No sentiu medo. Havia muitos ratos nas valas que se estendiam ao longo de todas as ruas de Aberowen. Naquela escurido, contudo, os ratos pareciam mais ousados e, num piscar de olhos, um deles passou correndo por cima de suas pernas nuas. Transferindo a comida para a mo esquerda, ele apanhou a p e desferiu um golpe com ela. Isso sequer os amedrontou e ele tornou a sentir suas garras pequeninas sobre a pele. Ento um deles tentou subir por seu brao. Era bvio que estavam sentindo o cheiro da comida. Os guinchos aumentaram e ele se perguntou quantos ratos haveria ali.
   Levantou-se e enfiou na boca o ltimo pedao de po. Tomou mais um pouco de ch, comendo o bolo em seguida. Estava uma delcia, cheio de frutas secas e amndoas; mas um rato subiu por sua perna e ele foi obrigado a engolir o restante de uma vez s.
   
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   Os ratos pareceram perceber que a comida havia acabado, pois os guinchos foram diminuindo progressivamente e, logo depois, cessaram por completo.
   Comer renovou as energias de Billy durante algum tempo e ele voltou ao trabalho, porm suas costas latejavam de dor. Ele continuou em um ritmo mais lento, parando para descansar com frequncia.
   Para se animar, disse a si mesmo que talvez fosse mais tarde do que pensava. Provavelmente j era quase meio-dia. Algum viria busc-lo ao final do turno. O responsvel pelas lamparinas contava as cabeas, de modo que eles sempre sabiam quando um dos homens no retornava  superfcie. Mas Price tinha apanhado a lamparina de Billy e a substitudo por outra. Ser que ele pretendia fazer Billy passar a noite ali?
   Isso nunca daria certo. Da armaria uma confuso. Os patres tinham medo de Da - Perceval Jones havia praticamente confessado isso. Cedo ou tarde, sem dvida algum sairia  procura de Billy.
   Quando tornou a sentir fome, no entanto, teve certeza de que muitas horas haviam se passado. Comeou a ficar com medo e dessa vez no conseguiu afast-lo. Era a escurido que estava mexendo com ele. Se conseguisse enxergar alguma coisa, poderia ter suportado a espera. Mas, naquele breu, sentia que estava perdendo o juzo. Sem qualquer senso de direo, sempre que se afastava do vago ficava em dvida se no estava prestes a se chocar contra a parede do tnel. Mais cedo, ficara preocupado em no chorar como uma criana. Agora, tinha de se esforar para no gritar.
   Ento se lembrou do que Mam lhe dissera: "Jesus est sempre ao seu lado, mesmo l no fundo da mina." Na hora, pensou que ela estivesse apenas lhe dizendo para se comportar. Mas sua me fora mais sbia do que isso.  claro que Jesus estava ao seu lado. Jesus estava em toda parte. A escurido no tinha importncia, tampouco a passagem do tempo. Billy tinha algum para cuidar dele.
   Para se lembrar disso, ele cantou um hino. No gostava da prpria voz, que ainda era muito aguda, mas, como no havia ningum para escut-lo, cantou o mais alto que pde. Quando terminou de cantar e a sensao de medo ameaou voltar, imaginou Jesus em p do outro lado do vago, observando-o com uma expresso de compaixo profunda no rosto barbado.
   Billy entoou outro hino. Manejava a p e caminhava ao ritmo da msica. A maioria dos hinos era fcil de cantar. De vez em quando, tornava a ser invadido pelo medo de ter sido esquecido, de que o turno poderia ter acabado e ele estivesse sozinho l embaixo; ento simplesmente se lembrava da figura em p ao seu lado no escuro, vestida com sua tnica.
   
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Ele conhecia muitos hinos. Frequentava a Capela de Bethesda trs vezes por domingo desde que tinha idade suficiente para ficar sentado quietinho. Os hinrios eram caros, e nem toda a congregao sabia ler, ento todos decoravam os versos.
Depois de cantar 12 hinos, ele calculou que uma hora tinha se passado. J no era para o turno ter acabado quela altura? Ainda assim, ele cantou mais 12. Depois disso, ficou difcil manter a contagem. Comeou a repetir seus preferidos, trabalhando cada vez mais devagar.
Estava cantando "Ele se ergueu da tumba" o mais alto que podia quando viu uma luz. O trabalho havia se tornado to automtico que ele no parou, erguendo outra p cheia e levando-a at o vago, ainda cantando, conforme a luz ficava mais forte. Quando o hino terminou, ele se apoiou na p. Rhys Price o observava, com a lamparina presa ao cinto e uma expresso estranha no rosto coberto de sombras.
Billy no se permitiu sentir alvio. No deixaria Price ver como estava se sentindo. Vestiu a camisa e a cala, tirando em seguida a lamparina apagada do prego e prendendo-a ao cinto.
-		O que houve com sua lamparina? - perguntou Price.
-		O senhor sabe o que houve - disse Billy, e sua voz soou estranhamente adulta.
Price virou-lhe as costas e comeou a voltar pelo tnel.
Billy hesitou. Olhou para trs. Do outro lado do vago vislumbrou um rosto barbado e uma tnica clara, mas o vulto se dissipou como um pensamento.
-		Obrigado - falou Billy para o tnel vazio.
Enquanto seguia Price, suas pernas doam tanto que achou que fosse cair, mas pouco se importava com essa possibilidade. Conseguia enxergar de novo, e seu turno havia terminado. Dali a pouco estaria em casa e poderia se deitar.
Eles chegaram ao fundo do poo e entraram no elevador com um grupo de mineradores de rosto preto. Tommy Griffiths no estava entre eles, mas Hewitt Seboso, sim. Enquanto esperavam o sinal l de cima, Billy percebeu que todos o encaravam com sorrisos marotos.
-		Como foi seu primeiro dia, Billy Duplo? - perguntou Hewitt.
-		Bem, obrigado - respondeu Billy.
A expresso de Hewitt era de malcia: obviamente se lembrava de que Billy o chamara de "seu merda".
-		Nenhum problema? - indagou ele.
Billy hesitou. Estava claro que eles sabiam de alguma coisa. Queria que percebessem que ele no se deixara vencer pelo medo.
-		Minha lamparina apagou - disse, mal conseguindo manter a voz firme. Olhou para Price, mas decidiu que, se no o acusasse, estaria agindo mais como

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um homem. - Foi um pouco difcil trabalhar com a p no escuro o dia inteiro - concluiu. Isso tambm j era deixar por menos: eles poderiam acabar achando que o seu calvrio no tinha sido nada de mais. Mas era melhor do que reconhecer que ficara com medo.
Um homem mais velho falou. Era John Jones da Loja. Eles o chamavam assim porque sua mulher tinha uma pequena mercearia na sala de casa.
-		O dia inteiro? - quis saber ele.
-		Sim - respondeu Billy.
John Jones olhou para Price e disse:
-		Seu filho da me, era pra ter sido s por uma hora.
As suspeitas de Billy foram confirmadas. Eles sabiam o que havia acontecido e, ao que tudo indicava, faziam coisa parecida com todos os recm-chegados. Mas Price o fizera sofrer mais do que o normal.
Hewitt Seboso sorria.
-		E ento, Billy, voc no ficou com medo sozinho no escuro? - perguntou.
Billy refletiu antes de responder. Todos olhavam para ele, esperando para
ouvir o que diria. Seus sorrisos marotos haviam desaparecido, e eles pareciam um pouco envergonhados. O garoto resolveu dizer a verdade:
-		Fiquei com medo, sim, mas eu no estava sozinho.
Hewitt se admirou.
-		No estava sozinho?
-		No, claro que no - respondeu Billy. - Jesus estava comigo.
Hewitt riu bem alto, mas ningum o acompanhou. A gargalhada ecoou no silncio e cessou de repente.
O silncio durou vrios segundos. Ento houve um baque metlico e um solavanco, e o elevador comeou a subir. Hewitt se virou para o outro lado.
Depois disso, todos passaram a cham-lo de "Billy com Jesus".

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PARTE UM
CU DE CHUMBO


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CAPTULO DOIS
Janeiro de 1914

O conde Fitzherbert, que tinha 28 anos e era conhecido por parentes e amigos
como Fitz, era o nono homem mais rico da Gr-Bretanha.
   No havia feito nada para ganhar sua imensa fortuna. Simplesmente herdara
milhares de hectares de terras no Pas de Gales e em Yorkshire. As propriedades
rendiam pouco dinheiro, mas havia carvo debaixo delas, e o av de Fitz ficara
muito rico vendendo os direitos de explorao a mineradoras.
   Estava claro que era a vontade de Deus que os Fitzherbert dominassem seus
semelhantes e tivessem um estilo de vida compatvel com sua riqueza; mas Fitz
sentia ter feito pouco para justificar a f que Deus depositava nele.
   Seu pai, o conde anterior, no se sentira assim. Oficial da Marinha, havia
sido promovido a almirante aps o bombardeio a Alexandria em 1882, tornara-se embaixador britnico em So Petersburgo e por fim fora nomeado
ministro durante o governo de lorde Salisbury. Poucas semanas depois que os
conservadores perderam as eleies gerais de 1906, o pai de Fitz morreu - seu
fim precipitado, Fitz tinha certeza, pela decepo de ver liberais irresponsveis
como David Lloyd George e Winston Churchill assumindo o controle do governo
de Sua Majestade.
   Fitz assumira sua cadeira de membro conservador da Cmara dos Lordes, a
cmara alta do Parlamento britnico. Falava bem o francs e arranhava um pouco
o russo, e gostaria de um dia ser nomeado ministro das Relaes Exteriores de seu
pas. Infelizmente, os liberais haviam continuado a ganhar as eleies, de modo
que ele ainda no tivera chance de se tornar ministro.
   Sua carreira militar tinha sido igualmente inexpressiva. Ele frequentara a academia de treinamento de oficiais do Exrcito em Sandhurst e passara trs anos
com os Fuzileiros Galeses, chegando  patente de capito. Depois de casado, havia
abandonado a carreira militar em tempo integral, tornando-se coronel honorrio do Exrcito de Reserva de Gales do Sul. Infelizmente, coronis honorrios
no ganhavam medalhas.
   No entanto, ele tinha algo de que se orgulhar, pensou Fitz enquanto o trem
cruzava os vales de Gales do Sul. Dali a duas semanas, o rei viria se hospedar em
sua casa de campo. O rei Jorge V e o pai de Fitz tinham sido colegas de Marinha na
   
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juventude. Recentemente, o rei manifestara o desejo de saber o que se passava na cabea dos jovens, de modo que Fitz organizara uma confraternizao discreta para que Sua Majestade pudesse conhecer alguns deles. Agora, ele e Bea, sua esposa, estavam a caminho da casa para cuidar dos preparativos.
   Fitz era um tradicionalista. A humanidade ainda no havia encontrado nada que superasse a ordem conveniente formada pela monarquia, pela aristocracia, pelos comerciantes e pelos camponeses. Mas, naquele instante, olhando pela janela do trem, ele via uma ameaa ao modo de vida britnico, maior do que qualquer outra que o pas houvesse enfrentado nos ltimos 100 anos. Cobrindo as encostas outrora verdejantes, como uma praga a manchar de cinza-escuro um arbusto de rododendro, estendiam-se as casas geminadas dos mineradores. Naqueles barracos imundos, falava-se em republicanismo, atesmo e rebelio. Fazia pouco mais de um sculo que a nobreza francesa havia sido levada de carroa para a guilhotina, e o mesmo aconteceria ali caso alguns daqueles mineiros brutamontes de cara preta conseguissem o que queriam.
   Fitz abriria mo de bom grado de todo o dinheiro que ganhava com o carvo, pensou, se isso fizesse a Gr-Bretanha retornar a uma poca mais simples. A famlia real era um bastio poderoso contra a insurreio. Contudo, por mais que aquela visita deixasse Fitz orgulhoso, ela tambm lhe causava apreenso. Tantas coisas podiam dar errado. Quando se tratava da realeza, qualquer deslize podia ser interpretado como desconsiderao - e, portanto, falta de respeito. Cada detalhe do fim de semana seria relatado pelos criados dos hspedes a outros criados, e por estes aos seus patres, de modo que todas as mulheres da sociedade londrina saberiam em dois tempos se o rei tinha recebido um travesseiro duro, uma batata estragada ou a marca errada de champanhe.
   O Rolls-Royce Silver Ghost de Fitz o aguardava na estao de trem de Aberowen. Com Bea ao seu lado, ele foi conduzido por quase 2 quilmetros at Ty Gwyn, sua casa de campo. Uma garoa fina mas persistente caa do cu, como de hbito no Pas de Gales.
   "Ty Gwyn" significava Casa Branca em gals, mas o nome havia se tornado uma ironia. Como tudo o mais naquela parte do mundo, a casa estava coberta por uma camada de p de carvo, de modo que seus blocos de pedra outrora brancos haviam assumido um tom cinza-escuro, que sujava as saias das senhoras que roassem por descuido em suas paredes.
   Mesmo assim, era uma casa magnfica, e ela encheu Fitz de orgulho quando o carro subiu ronronando a estrada de acesso. Ty Gwyn era a maior propriedade privada do Pas de Gales e tinha 200 cmodos. Certa vez, quando Fitz era menino,
   
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ele e a irm, Maud, haviam contado as janelas e chegado a um nmero impressivo: 523. Ela fora construda por seu av, e uma ordem agradvel regia o projeto de trs andares. As janelas do trreo, bem altas, deixavam entrar bastante luz nos sales de recepo majestosos. No segundo piso, havia dezenas de quartos de hspedes, enquanto o sto acomodava incontveis quartinhos de empregados, revelados pelas longas fileiras de trapeiras que cobriam os telhados ngremes.
   Os 20 hectares de terreno eram a maior alegria de Fitz. Ele supervisionava pessoalmente os jardineiros, decidindo o que semear, podar e replantar.
  -		Uma casa digna da visita de um rei - disse quando o carro parou diante do prtico imponente.
   Bea no falou nada. Viajar a deixava mal-humorada.
   Ao sair do carro, Fitz foi recebido por Gelert, seu co montanhs dos Pireneus, do tamanho de um urso, que lambeu sua mo e ps-se a correr animadamente pelo ptio, fazendo festa.
   Em seu quarto de vestir, Fitz tirou as roupas de viagem e colocou um terno de tweed marrom-claro. Ento atravessou a porta de comunicao e entrou no quarto de Bea.
   Nina, a criada russa, estava soltando os grampos pontiagudos do chapu intrincado que Bea usara durante a viagem. De relance, Fitz viu o rosto de sua mulher no espelho da penteadeira e seu corao parou de bater por um instante. A viso o fez voltar quatro anos no tempo, at o salo de baile de So Petersburgo, onde tinha visto pela primeira vez aquele rosto de inacreditvel beleza, emoldurado por cachos louros impossveis de domar por completo. Como naquele instante, ela ostentava um ar emburrado que lhe parecera estranhamente cativante. Num piscar de olhos, Fitz havia decidido que ela, dentre todas as outras, era a mulher com quem queria se casar.
   Nina era uma mulher de meia-idade, e sua mo tremia - Bea costumava deixar seus criados nervosos. Enquanto Fitz observava, um dos alfinetes espetou o couro cabeludo de Bea, que soltou um grito.
   Nina empalideceu.
  -		Sinto muitssimo, Vossa Alteza - disse em russo.
   Bea pegou um alfinete que estava em cima da penteadeira e cravou-o no brao da criada.
  -		Veja se voc gosta! - exclamou.
   Nina desatou a chorar e saiu correndo do quarto.
  -		Deixe-me ajud-la - disse Fitz  mulher em tom tranquilizador.
   Ela no queria ser acalmada.
   
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  -		Eu mesma fao.
   Fitz foi at a janela. Cerca de uma dzia de jardineiros estavam ocupados aparando as plantas, cortando a grama e alisando o cascalho com ancinhos. Vrios arbustos estavam floridos: folhados cor-de-rosa, jasmins-de-inverno amarelos, hamamlis e madressilvas-de-inverno. Alm do jardim, estendia-se a suave curva verde da encosta da montanha.
   Ele precisava ser paciente com Bea e lembrar a si mesmo que ela era uma estrangeira isolada em um pas estranho, longe da famlia e de tudo o que conhecia. Durante os primeiros meses de casamento, quando ainda estava inebriado por sua aparncia, por seu cheiro e pela maciez de sua pele, isso havia sido fcil. Agora, tinha que se esforar um pouco.
  -		Por que voc no descansa? - perguntou ele. - Vou procurar Peei e a Sra. Jevons para ver como andam os preparativos. - Peei era o mordomo e a Sra. Jevons, a governanta. Administrar os empregados era responsabilidade de Bea, mas Fitz estava to nervoso com a visita do rei que qualquer desculpa para se meter era bem-vinda. - Mais tarde, quando voc estiver mais disposta, venho dizer em que p andam as coisas. - Ele sacou seu porta-charutos.
  -		No fume aqui dentro - disse ela.
   Ele tomou isso por um sim e se encaminhou para a porta. Antes de sair, parou e disse:
  -		Voc no vai se comportar assim na frente do rei e da rainha, vai? Quer dizer, no vai bater nos criados.
  -		Eu no bati nela, eu lhe dei uma alfinetada para ela aprender uma lio.
   Os russos faziam esse tipo de coisa. Quando o pai de Fitz reclamara que os
empregados na embaixada britnica em So Petersburgo eram muito preguiosos, seus amigos russos tinham lhe dito que ele deveria bater mais neles.
  -		O monarca ficaria constrangido se tivesse que assistir a uma coisa dessas - disse Fitz a Bea. - Eu j lhe disse que, aqui na Inglaterra, no se faz isso.
  -		Quando eu era menina, fui obrigada a ver trs camponeses serem enforcados - falou ela. - Minha me no gostou, mas meu av insistiu. "Isso  para ensin-la a punir seus criados", disse ele. "Se voc no bater neles nem aoit-los por pequenos lapsos, como o descuido e a preguia, eles vo acabar cometendo pecados maiores que os levaro para a forca." Ele me ensinou que, a longo prazo, a indulgncia para com as classes inferiores  cruel.
   Fitz comeou a perder a pacincia. Bea tivera uma infncia de riqueza e luxo sem limites, cercada por bandos de criados obedientes e milhares de camponeses felizes. Se seu av implacvel e competente ainda fosse vivo, talvez sua vida
   
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tivesse continuado da mesma forma. Contudo, a fortuna da famlia havia sido dissipada pelo pai de Bea, um bbado, e pelo inepto irmo dela, Andrei, que vendia madeira sem replantar as florestas.
-		Os tempos mudaram - disse Fitz. - Estou pedindo a voc, ou melhor, estou lhe dando uma ordem, para no me constranger diante do meu rei. Espero no ter deixado nenhum espao para dvida na sua mente. - Ele saiu e fechou a porta.
Enquanto caminhava pelo corredor largo, sentia-se irritado e um pouco triste. No incio do casamento, essas discusses o deixavam desnorteado e arrependido. Agora, estava comeando a se acostumar com elas. Ser que todos os casamentos eram assim? Ele no sabia.
Um lacaio alto que estava lustrando uma maaneta se endireitou e ficou em p de costas para a parede, olhando para o cho, como os criados de Ty Gwyn eram ensinados a fazer quando o conde passava. Em algumas casas importantes, os serviais tinham de ficar virados para a parede, mas Fitz considerava isso feudal demais. Reconheceu o rapaz em questo, que tinha visto jogar crquete durante uma partida entre os empregados de Ty Gwyn e os mineradores de Aberowen. Ele era um bom batedor canhoto.
-		Morrison - disse Fitz, recordando seu nome -, pea a Peei e  Sra. Jevons que venham at a biblioteca.
-		Sim, meu amo.
Fitz desceu a imponente escadaria. Casara-se com Bea porque tinha ficado encantado com ela, mas existia tambm um motivo racional. Ele sonhava em fundar uma grande dinastia anglo-russa que dominaria amplas extenses de terra, nos moldes em que a dinastia dos Habsburgo havia governado partes da Europa durante muitos sculos.
Mas, para isso, ele precisava de um herdeiro. O mau humor de Bea significava que ela no iria receb-lo em sua cama naquela noite. Ele poderia insistir, mas o resultado nunca era muito satisfatrio. J fazia cerca de duas semanas desde a ltima vez. No desejava uma mulher que fosse vulgarmente vida por esse tipo de coisa, mas, por outro lado, duas semanas era muito tempo.
Sua irm, Maud, continuava solteira aos 23 anos. Alm disso, qualquer filho dela provavelmente seria criado como um socialista fantico que dilapidaria a fortuna da famlia imprimindo tratados revolucionrios.
Fitz j era casado h trs anos, de modo que estava comeando a ficar preocupado. Bea s havia engravidado uma vez, no ano anterior, porm sofrera um aborto espontneo aos trs meses, logo aps uma discusso com o marido. Fitz cancelara uma viagem planejada com antecedncia para So Petersburgo, o que a

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deixou terrivelmente abalada, chorando e dizendo que queria ir para casa. Fitz fincara o p - afinal de contas, um homem no podia deixar a esposa mandar nele -, mas depois, quando ela abortou, sentiu-se responsvel e ficou convencido de que a culpa era sua. Se ela engravidasse novamente, ele cuidaria para que absolutamente nada a perturbasse at o nascimento do beb.
Afastando essa preocupao da cabea, ele entrou na biblioteca e sentou-se  escrivaninha forrada de couro para fazer uma lista.
Dali a uns dois minutos, Peei entrou acompanhado de uma criada. O mordomo era o filho caula de um agricultor, e seu rosto sardento e os cabelos grisalhos davam a impresso de uma vida ao ar livre, mas ele era empregado de Ty Gwyn desde que comeara a trabalhar.
-		A Sra. Jevons se tomou de um mal, meu amo - disse Peei. Fitz j desistira h muito tempo de corrigir o jeito de falar dos criados galeses. - Na barriga - acrescentou Peei em tom lgubre.
-		Poupe-me dos detalhes. - Fitz olhou para a criada, uma garota bonita de uns 20 anos. Seu rosto lhe era vagamente familiar. - Quem  essa?
- A prpria garota respondeu:
-		Ethel Williams, meu amo, ajudante da Sra. Jevons. - A moa tinha o sotaque cadenciado dos vales de Gales do Sul.
-		Bem, Williams, voc me parece jovem demais para fazer o trabalho de uma governanta.
-		Com sua licena, meu amo, a Sra. Jevons disse que o senhor provavelmente mandaria buscar a governanta de Mayfair, mas espera que nesse meio-tempo eu possa satisfaz-lo.
Teria havido um brilho em seu olhar quando ela falou em satisfaz-lo? Embora se dirigisse a ele com a devida deferncia, havia algo de insolente nela.
-		Muito bem - disse Fitz.
Williams segurava um grosso bloco de anotaes em uma das mos e dois lpis na outra.
-		Fui ver a Sra. Jevons em seu quarto, e ela estava disposta o suficiente para repassar todas as providncias comigo.
-		Por que voc trouxe dois lpis?
-		Para o caso de um deles quebrar - respondeu ela, sorrindo.
As criadas no deveriam sorrir para o conde, mas Fitz no pde deixar de retribuir o sorriso.
-		Est certo - falou. - Diga-me o qye tem anotado no seu bloco.
-		Trs assuntos - disse ela. - Hspedes, criadagem e mantimentos.

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-		Muito bem.
-		Pela carta que o senhor enviou, meu amo, entendemos que sero 20 hspedes. A maioria trar um ou dois criados particulares, digamos que dois em mdia, portanto haver 40 criados a mais para acomodar. Todos chegaro no sbado e iro embora na segunda.
-		Correto. - Fitz sentia um misto de prazer e apreenso, muito parecido com a sensao que tivera antes de pronunciar seu primeiro discurso na Cmara dos Lordes: estava entusiasmado por fazer aquilo e, ao mesmo tempo, preocupado se iria faz-lo bem.
-		Evidentemente, Suas Majestades ficaro na ala egpcia - prosseguiu Williams.
Fitz aquiesceu. Eram os maiores aposentos da casa. O papel de parede dos cmodos era decorado com imagens de templos egpcios.
-		A Sra. Jevons sugeriu que outros aposentos deveriam ser abertos, est anotado por aqui.
"Por aqui" era uma expresso local, pronunciada de forma que fazia lembrar o francs. Era uma redundncia que significava exatamente a mesma coisa que "aqui".
-		Deixe-me ver - disse Fitz.
Ela deu a volta na escrivaninha e posicionou o bloco aberto  sua frente. Os criados que trabalhavam dentro de casa eram obrigados a tomar banho uma vez por semana, de modo que ela no cheirava to mal quanto a classe operria em geral. Na verdade, seu corpo quente exalava um perfume de flores. Talvez andasse roubando os sabonetes de Bea. Ele leu sua lista.
-		timo - falou. - A princesa pode distribuir os hspedes pelos quartos. Talvez ela tenha opinies fortes em relao a isso.
Williams virou a pgina.
-		Esta aqui  uma lista dos criados a mais que sero necessrios: seis meninas na cozinha, para descascar os legumes e lavar a loua; dois homens de mos limpas para ajudar a servir  mesa; trs criadas de quarto; e trs meninos para engraxar as botas e cuidar das velas.
-		Voc sabe onde vamos encontrar essa gente toda?
-		Ah, sim, meu amo, tenho uma lista de moradores da regio que j trabalharam aqui e, se isso no bastar, podemos pedir a eles que indiquem outras pessoas.
-		Nada de socialistas, entendido? - disse Fitz, aflito. - Eles podem tentar falar com o rei sobre os malefcios do capitalismo. - Com os galeses, todo cuidado era pouco.
 
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-		Naturalmente, meu amo.
-		E quanto aos mantimentos?
Ela virou outra pgina.
-		Com base em outras festas que j foram dadas aqui,  disto que precisamos.
Fitz leu a lista: 100 pes, 20 dzias de ovos, 45 litros de creme de leite, 45 quilos de toucinho, 300 quilos de batatas... Ento, comeou a ficar entediado.
-		No deveramos deixar isso para quando a princesa tiver definido os cardpios?
-		Precisamos mandar vir tudo de Cardiff - retrucou Williams. - Os armazns de Aberowen no conseguem dar conta de encomendas desse porte. E at mesmo os fornecedores de Cardiff precisam ser avisados com antecedncia, para garantir que tero as quantidades necessrias no dia.
A moa estava certa. Fitz ficou satisfeito por ela estar encarregada daquilo, pois tinha capacidade de planejamento, uma qualidade rara, em sua opinio.
-		Eu bem que gostaria de algum como voc no meu regimento - falou ele.
-		No posso usar cqui, no combina com meu tom de pele - devolveu ela, atrevida.
O mordomo pareceu indignado.
-		Williams, no seja insolente!
-		Me desculpe, Sr. Peei.
Fitz percebeu que a culpa tinha sido dele, por ter falado com a criada em tom de brincadeira. De toda forma, no ligava para a sua insolncia. Na verdade, at que gostava da moa.
-		A cozinheira deu algumas sugestes para os cardpios, meu amo - disse Peei. Ele entregou a Fitz uma folha de papel um pouco engordurada, preenchida pela caligrafia cuidadosa e infantil da cozinheira. - Infelizmente, est cedo demais para cordeiro de leite, mas podemos mandar vir de Cardiff bastante peixe fresco, conservado em gelo.
-		Parece muito com o que comemos em nosso encontro de caa em novembro - disse Fitz. - Por outro lado, no queremos experimentar nada novo nessa ocasio... melhor prepararmos pratos j testados e aprovados.
-		Exatamente, meu amo.
-		Agora, os vinhos. - Ele se levantou. - Vamos descer at a adega.
Peei fez cara de surpresa. O conde no tinha o costume de descer ao poro.
Um pensamento que Fitz no queria admitir pairava em um canto distante da sua mente. Ele hesitou, ento disse:
-		Williams, venha tambm, para tomar notas.
O mordomo segurou a porta, ao que Fitz saiu da biblioteca e desceu a escada
 
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dos fundos. A cozinha e a ala dos criados ficavam em um subsolo intermedirio. As regras de etiqueta ali eram outras, e as criadas menos importantes e os engraxates faziam mesuras ou levavam uma das mos  testa ao v-lo passar.
A adega ficava no ltimo subsolo. Peei abriu a porta e disse:
-		Se o senhor me permite, eu vou na frente.
Fitz aquiesceu. Peei riscou um fsforo e acendeu uma lamparina a vela presa  parede, descendo em seguida os degraus. L embaixo, acendeu outra lamparina.
Fitz tinha uma adega modsta, com cerca de 12 mil garrafas, a maioria guardada ali por seu pai e por seu av. Havia sobretudo champanhe, vinho do Porto e da regio do Reno, alm de tintos de Bordeaux e brancos da Borgonha em menor quantidade. Fitz no era um grande f de vinhos, mas adorava a adega por lhe recordar o pai. "Uma adega de vinhos exige ordem, planejamento e bom gosto", costumava dizer o velho. "So essas virtudes que fizeram a grandeza da Gr-Bretanha."
 claro que Fitz iria servir o melhor ao rei, mas isso demandava algumas escolhas. O champanhe seria Perrier-Jout, o mais caro de todos, mas de que safra? Um champanhe maduro, com 20 ou 30 anos de idade, era menos borbulhante e mais saboroso, mas as safras mais jovens tinham uma certa vivacidade que era deliciosa. Ele retirou uma das garrafas do suporte ao acaso. Estava toda coberta de poeira e teias de aranha. Usou o leno branco que trazia no bolso da frente do palet para limpar o rtulo. Ainda assim,  luz mortia da vela, no conseguiu ver a data. Mostrou a garrafa a Peei, que havia posto os culos.
-		Mil oitocentos e cinquenta e sete - disse o mordomo.
-		Meu Deus, eu me lembro deste champanhe - disse Fitz. - A primeira safra que provei na vida, e provavelmente a melhor. - Estava consciente da presena da criada, inclinada junto a ele para examinar a garrafa muitos anos mais velha do que ela. Para sua consternao, a proximidade dela o deixava ligeiramente ofegante.
-		Imagino que, infelizmente, o 57 j no esteja mais no auge - comentou Peei. - Posso sugerir o 92?
Fitz examinou outra garrafa, hesitou e por fim tomou uma deciso.
-		No consigo ler com esta luz - falou. - Peei, voc buscaria uma lupa para mim, por favor?
Peei subiu os degraus de pedra.
Fitz olhou para Williams. Estava prestes a cometer uma tolice, mas no pde evitar.
-		Que moa bonita voc  - falou.
-		Obrigada, meu amo.
Cachos escuros despontavam de sua touca de criada. Ele tocou-lhe os cabelos. Sabia que iria se arrepender disso.

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-		Voc j ouviu falar em droit du seigneur? - disse ele, notando o som rouco da prpria voz.
-		Eu sou galesa, no francesa - falou ela, erguendo o queixo do jeito insolente que ele j passara a ver como uma caracterstica sua.
Ele levou a mo de seus cabelos at a sua nuca e fitou-lhe os olhos. Ela sustentou seu olhar com uma segurana audaciosa. Mas significaria a sua expresso que ela desejava que ele fosse mais longe - ou que estava prestes a armar uma cena humilhante?
Fitz ouviu passos pesados na escada da adega. Peei estava voltando. Ele se afastou da criada.
Ela o surpreendeu com uma risadinha.
-		Mas que cara de culpado! - comentou ela. - Parece at um colegial.
 luz fraca da vela, Peei surgiu carregando uma bandeja de prata sobre a qual repousava uma lupa com cabo de marfim.
Fitz tentou respirar normalmente. Pegou a lupa e voltou a examinar as garrafas de vinho. Tomou cuidado para no cruzar olhares com Williams.
Deus meu, pensou, que moa extraordinria.
Ethel Williams sentia-se cheia de energia. Nada a incomodava, ela era capaz de lidar com qualquer problema, de vencer qualquer empecilho. Quando se olhava no espelho, via que sua pele reluzia e que seus olhos brilhavam. Depois da missa de domingo, seu pai havia comentado com seu humor sarcstico de sempre:
-		Voc parece alegre - dissera ele. - Ganhou algum dinheiro?
Em vez de andar, ela se pegava correndo pelos interminveis corredores de Ty Gwyn. A cada dia que passava, preenchia mais pginas de seu bloco de anotaes com listas de compras, horrios de trabalho dos empregados, cronogramas para tirar a mesa e tornar a arrum-la e clculos variados: nmero de fronhas, de vasos, de guardanapos, de velas, de colheres...
Aquela era a sua grande oportunidade. Apesar da pouca idade, ela era a governanta interina na ocasio de uma visita real. A Sra. Jevons no dava sinais de melhora, de modo que Ethel assumiu toda a responsabilidade de preparar Ty Gwyn para o rei e a rainha. Sempre tivera a sensao de que poderia se destacar caso tivesse uma chance; porm, na rgida hierarquia da criadagem, havia poucas oportunidades para se sobressair. De repente, uma brecha havia surgido - e ela estava decidida a aproveit-la. Depois da visita, talvez a adoentada Sra. Jevons

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recebesse um cargo que no exigisse tanto esforo e Ethel fosse promovida a governanta, com um salrio que seria o dobro do atual, um quarto s para si e sua prpria sala de estar na ala dos criados.
Mas ela ainda no havia chegado l. O conde estava evidentemente satisfeito com seu trabalho, e resolvera no mandar buscar a governanta de Londres, o que Ethel interpretou como um grande elogio. No entanto, pensou ela com apreenso, havia tempo de sobra para aquele ligeiro deslize, para o erro fatal que arruinaria todo o restante: um prato de jantar sujo, um esgoto transbordando, um rato morto dentro da banheira. E o conde ficaria possesso.
Na manh do sbado em que o rei e a rainha chegariam, ela percorreu cada quarto de hspedes para se certificar de que as lareiras estavam acesas e os travesseiros afofados. Cada cmodo tinha pelo menos um vaso de flores, trazidas da estufa naquela manh mesmo. Todas as escrivaninhas estavam abastecidas com o papel de carta timbrado de Ty Gwyn. Havia toalhas, sabonete e gua para o banho. O velho conde no gostava de encanamentos modernos, e Fitz ainda no havia encontrado tempo para instalar gua corrente em todos os quartos. Em uma casa com 100 quartos de dormir havia apenas trs banheiros, ento a maioria dos cmodos precisava de um penico. Um pot-pourri, confeccionado pela Sra. Jevons de acordo com a sua prpria receita, havia sido providenciado para neutralizar o cheiro.
Os hspedes reais iriam chegar na hora do ch. O conde os receberia na estao de trem de Aberowen. Sem dvida a estao estaria cheia de gente ansiosa por ver os membros da realeza, mas no seria ali que o rei e a rainha se encontrariam com seus sditos. Fitz os levaria at a casa em seu Rolls-Royce, um carro grande, fechado. O camarista do rei, Sir Alan Tite, e o restante da comitiva real os acompanhariam com a bagagem em um comboio de veculos puxados a cavalo. Em frente a Ty Gwyn, um batalho dos Fuzileiros Galeses j estava se posicionando dos dois lados do acesso  casa para servir de guarda de honra.
O casal real se apresentaria aos seus sditos na manh de segunda-feira. Antes de voltarem para a estao, eles haviam planejado um passeio em carruagem aberta pelos vilarejos prximos e uma parada na prefeitura de Aberowen, para encontrarem o prefeito e os conselheiros.
Os outros hspedes comearam a chegar ao meio-dia. Peei, parado no hall de entrada, destacava criadas para conduzi-los at seus quartos e lacaios para carregar as malas. Os primeiros a chegar foram o tio e a tia de Fitz, o duque e a duquesa de Sussex. O duque era primo do rei e havia sido convidado para fazer o monarca sentir-se mais  vontade. A duquesa era tia de Fitz e, como a maior parte da famlia,

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tinha grande interesse por poltica. Em sua casa londrina, ela organizava um salo frequentado por membros do gabinete ministerial.
A duquesa informou Ethel que o rei Jorge V era um tanto obcecado por relgios e detestava ver vrios deles na mesma casa marcando horas diferentes. Ethel soltou um palavro entre os dentes: Ty Gwyn tinha mais de 100 relgios. Ela pediu emprestado o relgio de bolso da Sra. Jevons e comeou a percorrer a casa acertando-os um a um.
Na pequena sala de jantar, topou com o conde. Ele estava em p junto  janela, com um ar distrado. Ethel o analisou por alguns instantes. Era o homem mais bonito que j vira. Seu rosto plido, iluminado pela luz suave do inverno, poderia muito bem ter sido esculpido em mrmore branco. Ele tinha um queixo quadrado, as mas do rosto proeminentes e um nariz reto. Seu cabelo era escuro, mas os olhos eram verdes: uma combinao incomum. Ele no usava barba, bigode ou sequer costeletas. Com um rosto desses, pensou Ethel, para que cobri-lo de pelos?
A moa atraiu a ateno de Fitz.
-		Acabei de ficar sabendo que o rei gosta de ter uma cesta de laranjas no quarto! - disse ele. - No h uma nica laranja nesta maldita casa.
Ethel franziu o cenho. Nenhum dos comerciantes de Aberowen teria laranjas no incio da estao; seus clientes no podiam arcar com um luxo desses. O mesmo valeria para quase todas as cidades dos vales de Gales do Sul.
-		Se eu puder usar o telefone, tentarei falar com alguns comerciantes de Cardiff - disse ela. - Talvez eles tenham laranjas esta poca do ano.
-		Mas como faremos para elas chegarem aqui?
-		Posso pedir  loja para pr um cesto no trem. - Ela olhou para o relgio que estava acertando. - Com sorte, as laranjas vo chegar na mesma hora que o rei.
-		 isso - disse ele. -  isso que vamos fazer. - Ele a encarou. - Voc  surpreendente - acrescentou. - Acho que nunca conheci uma moa como voc.
Ela devolveu o olhar. No decorrer das duas ltimas semanas, o conde havia falado assim com ela vrias vezes, com excesso de intimidade e num tom um pouco intenso, o que provocava em Ethel um sentimento estranho, uma espcie de euforia desconfortvel, como se algo perigosamente excitante estivesse prestes a acontecer. Era como o instante em que o prncipe encantado entra no castelo em um conto de fadas.
O feitio foi quebrado pelo barulho de rodas no acesso  casa, seguido por uma voz conhecida:
-		Peei! Que prazer rev-lo.
Fitz olhou pela janela. A expresso que fez foi cmica.
-		Ah, no - disse ele. - Minha irm!

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- Bem vinda  casa, lady Maud - disse a voz de Peei. - Embora no a estivssemos esperando.
-		O conde se esqueceu de me convidar, mas eu vim assim mesmo.
Ethel reprimiu um sorriso. Fitz adorava a irm espevitada, mas achava difcil lidar com ela. Suas opinies polticas eram to liberais que chegavam a ser alarmantes: ela era sufragista, uma militante do voto feminino. Ethel achava Maud fantstica - exatamente o tipo de mulher independente que ela prpria gostaria de ser.
Fitz saiu da sala a passos largos e Ethel o seguiu at um cmodo imponente decorado no estilo gtico to apreciado pelos vitorianos como o pai de Fitz: paredes revestidas de madeira escura, papel de parede com desenhos intrincados e cadeiras de carvalho imitando tronos medievais. Maud estava entrando pela porta.
-		Fitz, querido, como vai? - disse ela.
Maud era alta como o irmo, e os dois eram parecidos, mas os traos esculpidos que faziam o conde parecer a esttua de um deus no caam to bem em uma mulher, o que tornava Maud mais vistosa do que bonita. Contrariando o imaginrio popular, para o qual todas as feministas eram deselegantes, ela estava vestida com roupas da moda: uma saia funil, botas de abotoar, um casaco azul-marinho com cinto grosso e punhos grandes dobrados e um chapu com uma pena alta espetada na frente feito a bandeira de um regimento.
Junto com ela, estava tia Herm. Lady Hermia era a outra tia de Fitz. Ao contrrio da irm, que havia se casado com um duque rico, Herm desposara um baro esbanjador que tinha morrido jovem e arruinado. Dez anos antes, quando os pais de Fitz e Maud morreram em um intervalo de poucos meses, tia Herm se mudara para a casa para cuidar de Maud, ento com 13 anos. Ela at hoje servia, embora sem muita eficcia, de acompanhante para Maud.
-		O que voc est fazendo aqui? - perguntou Fitz  irm.
-		Eu disse a voc que ele no iria gostar, querida - murmurou tia Herm.
-		Eu no podia faltar a uma visita real - disse Maud. - Seria um desrespeito.
O tom de Fitz era um misto de irritao e carinho.
-		No quero voc conversando com o rei sobre direitos femininos.
Ethel no achava que ele tivesse motivo para se preocupar. Apesar das opinies polticas radicais de Maud, ela sabia lisonjear e flertar com os poderosos, de modo que at mesmo os amigos conservadores de Fitz gostavam dela.
-		Morrison, pegue meu casaco, sim? - disse Maud. Ela o desabotoou, virando-se para que o lacaio o removesse. - Ol, Williams, como vai? - disse a Ethel.

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-		Bem vinda a casa, minha senhora - disse Ethel. - Gostaria de ficar na sute Gardnia?
-		Seria um prazer, adoro aquela vista.
-		Gostaria de almoar enquanto eu preparo o quarto?
-		Sim, por favor, estou faminta.
-		Hoje estamos servindo ao estilo clube, porque os hspedes esto chegando em horrios diferentes. - Estilo clube significava que os hspedes eram servidos  medida que chegavam  sala de jantar, como em um clube de cavalheiros ou um restaurante, em vez de todos ao mesmo tempo. O almoo naquele dia era modesto: caldo de carne com curry  moda indiana, frios, peixe defumado, truta recheada, costeletas de cordeiro e algumas sobremesas e queijos.
Ethel segurou a porta e seguiu Maud e Herm at a grande sala de jantar. Os primos. Von Ulrich j estavam almoando. Walter von Ulrich, o mais jovem, era bonito e charmoso, e parecia encantado por estar em Ty Gwyn. Robert estava irrequieto: havia endireitado o quadro do Castelo de Cardiff na parede do seu quarto, pedido mais travesseiros e descoberto que o tinteiro de sua escrivaninha estava seco - deslize que fez Ethel se perguntar, aflita, o que mais poderia ter esquecido.
Os dois se levantaram quando as senhoras entraram. Maud seguiu direto at Walter e disse:
-		Voc no mudou nada desde os 18 anos! Est lembrado de mim?
A expresso dele se iluminou.
-		Estou, embora voc tenha mudado desde os 13 anos.
Eles trocaram um aperto de mos e ento Maud o beijou nas duas bochechas, como se ele fosse da famlia.
-		Naquela idade eu tinha uma paixonite de adolescente por voc que era uma verdadeira agonia - disse ela, com uma sinceridade surpreendente.
Walter sorriu.
-		Eu tambm gostava bastante de voc.
-		Mas sempre se comportava como se eu fosse uma pestinha insuportvel!
-		Eu tinha de esconder meus sentimentos de Fitz, que protegia voc como um co de guarda.
Tia Herm tossiu, deixando claro que no aprovava aquela intimidade instantnea. Maud disse:
-		Tia, este aqui  Herr Walter von Ulrich, um velho amigo de escola de Fitz que costumava vir passar as frias aqui. Agora ele  diplomata na embaixada alem em Londres.
 
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-		Permitam-me apresentar meu primo, Graf Robert von Ulrich - disse Walter. Ethel sabia que Graf queria dizer conde em alemo. - Ele  adido militar na embaixada austraca.
Na verdade, conforme Peei havia explicado a Ethel com muita gravidade, os dois eram primos em terceiro grau: seus avs eram irmos, sendo que o mais novo se casara com uma herdeira alem e trocara Viena por Berlim; por isso Walter era alemo e Robert, austraco. Peei gostava de deixar essas coisas bem claras.
Todos se sentaram. Ethel puxou uma cadeira para tia Herm.
-		Gostaria de um caldo de carne, lady Hermia? - perguntou ela.
-		Sim, Williams, por favor.
Ethel meneou a cabea para um lacaio, que foi at o aparador sobre o qual havia uma sopeira que mantinha a sopa aquecida. Ao ver que os recm-chegados estavam confortveis, Ethel saiu discretamente para cuidar dos aposentos deles. Quando a porta estava se fechando atrs dela, ouviu Walter von Ulrich dizer:
-		Eu me lembro de como a senhora gostava de msica, lady Maud. Estvamos justamente conversando sobre o bal russo. O que a senhora acha de Diaghilev?
Raros eram os homens que perguntavam a opinio das mulheres. Maud iria gostar disso. Enquanto descia a escada s pressas para encontrar duas criadas que pudessem arrumar os quartos, Ethel pensou: esse alemo  mesmo um sedutor.

III

O Salo das Esculturas de Ty Gwyn era uma antessala do salo de jantar. E foi ali que os hspedes se reuniram antes do jantar. Fitz no tinha muito interesse por arte - a coleo fora reunida por seu av -, mas as esculturas serviam de assunto para as pessoas enquanto esperavam o jantar.
Ao mesmo tempo que conversava com a tia duquesa, Fitz olhava em volta com nervosismo para os homens de fraque e gravata e para as mulheres de vestidos decotados e tiaras. O protocolo exigia que todos os hspedes estivessem no recinto antes de o rei e a rainha entrarem. Onde estava Maud? Ela no iria cometer uma gafe, ou iria? No, ali estava ela, com um vestido de seda roxo, usando os diamantes da me e conversando animadamente com Walter von Ulrich.
Fitz e Maud sempre tinham sido prximos. O pai deles fora um heri distante, sua me uma companheira infeliz; os dois filhos haviam encontrado um no outro o afeto de que precisavam. Aps a morte dos pais, foram unidos pela dor que compartilhavam. Fitz tinha 18 anos na poca e tentara proteger sua irmzinha do mundo cruel. Ela, por sua vez, o idolatrava. Depois de adulta, havia se
 
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tornado independente, por mais que ele, na posio de chefe da famlia, continuasse a acreditar que tinha autoridade sobre a irm. Mas o afeto que sentiam um pelo outro se mostrara forte o suficiente para sobreviver s suas desavenas - at ento.
Agora Maud estava chamando a ateno de Walter para um cupido de bronze. Ao contrrio de Fitz, ela entendia desse tipo de coisa. Fitz rezou para que a irm passasse a noite inteira falando de arte e esquecesse os direitos femininos. Todos sabiam que Jorge V detestava liberais. Em geral, todos os monarcas eram conservadores, mas os acontecimentos haviam aguado a antipatia do rei. Ele subira ao trono em meio a uma crise poltica. Contra a sua vontade, tinha sido forado pelo primeiro-ministro liberal H.H. Asquith - fortemente apoiado pela opinio pblica - a restringir os poderes da Cmara dos Lordes. Ainda se ressentia dessa humilhao. Sua Majestade sabia que Fitz, membro conservador da Cmara dos Lordes, havia lutado at o ltimo instante contra as chamadas reformas. Mesmo assim, se o rei fosse importunado por Maud naquela noite, ele jamais perdoaria o conde.
Walter era um diplomata em comeo de carreira, mas seu pai era um dos amigos mais antigos do Kaiser. Robert tambm era bem relacionado: era prximo do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono do Imprio Austro-Hngaro. Outro hspede que frequentava crculos prestigiosos era o jovem americano alto que conversava naquele instante com a duquesa. Seu nome era Gus Dewar, e seu pai, senador, era conselheiro particular do presidente norte-americano Woodrow Wilson. Fitz sentia que fizera bem em reunir um grupo to distinto de jovens, a futura elite governante. Esperava que o rei ficasse satisfeito.
Gus Dewar era simptico, porm desengonado. Mantinha as costas curvadas, como se preferisse ser mais baixo e chamar menos ateno. Parecia pouco seguro de si, mas se mostrava agradavelmente corts com todos.
- O povo americano est mais preocupado com questes domsticas do que com poltica externa - dizia ele  duquesa. - Mas o presidente Wilson  um liberal e, sendo assim, est mais inclinado a simpatizar com democracias como a Frana e a Gr-Bretanha do que com monarquias autoritrias como a ustria e a Alemanha.
Nesse instante, as portas duplas do salo se abriram, fez-se silncio e o rei e a rainha entraram. A princesa Bea fez uma mesura e Fitz inclinou a cabea, ao que todos os outros tambm prestaram seus cumprimentos ao casal real. Seguiram-se alguns instantes de silncio um pouco "constrangido, pois ningum podia falar antes que o rei ou a rainha se manifestassem. Por fim, Sua Majestade disse a Bea:
 
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-		Sabia que fiquei hospedado nesta casa 20 anos atrs? - E todos comearam a relaxar.
O rei era um homem elegante, pensou Fitz enquanto ele e Bea conversavam sobre amenidades com o casal real. Tinha a barba e o bigode aparados com esmero. Sua cabea exibia entradas, mas ele ainda tinha cabelo suficiente para pentear, repartindo-o milimetricamente. As roupas justas de gala caam bem em seu corpo esguio: ao contrrio do pai, Eduardo VII, ele no era um gourmet. Para relaxar, cultivava hobbies que exigiam preciso: gostava de colecionar selos, que colava meticulosamente em lbuns, passatempo que provocava a zombaria de intelectuais londrinos desrespeitosos.
A rainha era uma figura mais imponente, com cachos grisalhos e uma boca de traos severos. Tinha um peito farto e magnfico, muito valorizado pelo decote generoso que era de rigueur na moda da poca. Era filha de um prncipe alemo. A princpio, havia sido noiva do irmo mais velho de Jorge, Alberto, mas este morrera de pneumonia antes do casamento. Quando Jorge tornou-se herdeiro do trono, tambm herdou a noiva do irmo, arranjo que algumas pessoas consideraram um tanto medieval.
Bea estava em seu elemento. Usando um vestido provocante de seda cor-de-rosa, tinha os cachos louros arrumados com perfeio para parecerem levemente despenteados, como se tivesse se libertado de repente de um beijo ilcito. Ela conversava animadamente com o rei. Pressentindo que assuntos triviais no cativariam Jorge V, estava lhe contando como Pedro, o Grande havia criado a Marinha russa, ao que o rei meneava a cabea, interessado.
Peei apareceu  porta da sala de jantar, com uma expresso ansiosa no rosto sardento. Fisgou o olhar de Fitz e meneou a cabea com energia. Fitz perguntou  rainha:
-		Vossa Majestade gostaria de jantar?
Ela lhe deu o brao. Atrs deles, o rei estava de braos dados com Bea, enquanto os demais convidados se reuniam em pares conforme ditava a hierarquia. Uma vez todos prontos, caminharam em procisso at a sala de jantar.
-		Que linda! - murmurou a rainha ao ver a mesa.
-		Obrigado - disse Fitz, soltando um suspiro discreto de alvio. Bea havia feito um trabalho incrvel. Trs lustres pendiam baixos sobre a mesa comprida. Seus reflexos cintilavam nos copos de cristal. Todos os talheres eram de ouro, assim como os saleiros, pimenteiros e at mesmo as pequenas caixas de fsforos para os fumantes. A toalha de mesa branca estava coalhada de rosas da estufa e, em um ltimo toque dramtico, Bea havia prendido delicadas samambaias que iam dos lustres at as pirmides de uvas sobre travessas douradas.
 
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Todos se sentaram, o bispo deu graas e Fitz relaxou. Uma festa que comeava bem quase sempre continuava bem. Vinho e comida deixavam as pessoas menos dispostas a encontrar defeitos.
O cardpio comeou com hors doeuvres russes, uma homenagem ao pas natal de Bea: pequenos blinis com caviar e creme, torradinhas triangulares com peixe defumado, biscoitos salgados com arenque em conserva, tudo regado a champanhe Perrier-Jout 1892, suave e delicioso como Peei havia prometido. Fitz no desgrudava os olhos de Peei, que, por sua vez, observava com ateno o rei. Assim que Sua Majestade pousava os talheres, Peei retirava seu prato, e esse era o sinal para os lacaios retirarem todos os outros. Qualquer conviva que por acaso ainda estivesse comendo precisava parar em sinal de deferncia.
Em seguida veio uma sopa, um pot-au-feu, servida com um timo xerez oloroso de Sanlcar de Barrameda. O peixe era linguado, acompanhado por um Mersault Charmes to maduro que parecia ouro lquido. Para acompanhar os medalhes de cordeiro gals, Fitz havia escolhido o Chateau Lafite 1875, j que o 1870 ainda no estava bom para beber. O tinto continuou a ser servido com o parfait de fgado de ganso que veio depois e com o ltimo prato de carne: codornas com uvas envoltas em massa folhada.
Ningum comeu tudo isso. Os homens escolheram o que preferiam e ignoraram o resto. As mulheres beliscaram um ou dois pratos. Muitos voltaram para a cozinha intocados.
Serviu-se ainda salada, uma sobremesa, um quitute, frutas e petits fours. Por fim, a princesa Bea ergueu discretamente uma sobrancelha para a rainha, que respondeu com um movimento de cabea quase imperceptvel. Ambas se levantaram, todos os outros se puseram de p e as senhoras se retiraram do salo.
Os homens tornaram a se sentar, os lacaios trouxeram caixas de charutos e Peei pousou um decantador de vinho do Porto Ferreira 1847  direita do rei. Fitz tragou um charuto com satisfao. Tudo havia corrido bem. O rei tinha fama de antissocial, de se sentir  vontade somente entre antigos companheiros dos bons tempos da Marinha. Mas naquela noite ele havia sido encantador e nada sara errado. At mesmo as laranjas haviam chegado.
Fitz tinha falado mais cedo com Sir Alan Tite, o camarista do rei, um oficial reformado do Exrcito que usava costeletas antiquadas. Haviam combinado que, na manh seguinte, o rei passaria cerca de uma hora sozinho com cada um dos homens  mesa, sendo que todos detinham informaes privilegiadas sobre algum governo. Ainda naquela noite, Fitz deveria quebrar o gelo puxando alguma conversa genrica sobre poltica. Ele pigarreou e se dirigiu a Walter von Ulrich:
 
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-		Walter, voc e eu somos amigos h 15 anos... estudamos juntos em Eton. - Ele se virou para Robert. - E eu conheo seu primo desde que ns trs dividimos um apartamento em Viena quando ramos estudantes. - Robert sorriu e aquiesceu. Fitz gostava de ambos: como ele, Robert era um tradicionalista; Walter, embora no fosse to conservador, era muito inteligente. - Agora estamos vendo o mundo falar em guerra entre nossos pases - prosseguiu Fitz. - Existe mesmo a chance de uma tragdia dessas acontecer?
Walter respondeu:
-		Se falar sobre a guerra pode faz-la acontecer, ento sim, ns vamos lutar, pois esto todos se preparando para isso. Mas quanto a haver um motivo de verdade, eu no vejo nenhum.
Gus Dewar ergueu a mo, hesitante. Apesar de sua viso poltica liberal, Fitz gostava de Dewar. Os americanos tinham a reputao de serem impetuosos, mas aquele era educado e at um pouco tmido. Alm de surpreendentemente bem informado.
-		A Gr-Bretanha e a Alemanha tm motivos de sobra para brigar.
Walter se virou para ele.
-		Pode me dar um exemplo?
Gus soprou a fumaa do charuto.
-		Rivalidade naval.
Walter aquiesceu.
-		O meu Kaiser no acredita haver uma lei divina que obrigue a Marinha alem a permanecer eternamente inferior  britnica.
Nervoso, Fitz lanou um olhar para o rei. Jorge V adorava a Marinha Real e poderia se ofender com facilidade. Por outro lado, o Kaiser Guilherme era seu primo. O pai de Jorge e a me de Guilherme eram irmos, ambos filhos da rainha Vitria. Fitz ficou aliviado ao ver Sua Majestade sorrir com indulgncia.
-		Isso j foi motivo de atritos no passado - prosseguiu Walter -, mas h dois anos que chegamos a um acordo informal quanto ao tamanho relativo de nossas foras navais.
-		E a rivalidade econmica? - perguntou Dewar.
-		 verdade que a Alemanha est ficando mais prspera a cada dia, e logo poder alcanar a Gr-Bretanha e os Estados Unidos em matria de produo econmica. Mas por que isso deveria ser um problema? A Alemanha  um dos maiores clientes da Gr-Bretanha. Quanto mais dinheiro ns tivermos, mais poderemos comprar. A nossa potncia econmica  uma coisa boa para as manufaturas britnicas!
-		Dizem que a Alemanha quer mais colnias - insistiu Dewar.
Fitz lanou outro olhar para o rei, perguntando-se se ele no se incomodava que
 
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a conversa estivesse sendo monopolizada por aqueles dois. Jorge V, no entanto, parecia fascinado.
-		J houve guerras por causa de colnias, em particular no seu pas, Sr. Dewar disse Walter. - Mas creio que hoje em dia sejamos capazes de resolver esse tipo de
contenda sem disparar nossas armas. Trs anos atrs, a Alemanha, a Gr-Bretanha e a Frana entraram em disputa pelo Marrocos, porm o assunto foi resolvido sem guerra. Mais recentemente, a Gr-Bretanha e a Alemanha chegaram a um acordo sobre a questo espinhosa da ferrovia de Bagd. Basta simplesmente continuarmos assim, e no teremos uma guerra.
-		O senhor me perdoaria se eu usasse a expresso militarismo alemo? - indagou Dewar.
Era um comentrio forte, e Fitz fez uma careta. Walter enrubesceu, mas respondeu com tranquilidade:
-		Aprecio a sua franqueza. O Imprio Germnico  dominado pelos prussianos, que desempenham um papel parecido com o dos ingleses no Reino Unido de Sua Majestade.
Comparar a Gr-Bretanha com a Alemanha e a Inglaterra com a Prssia era uma ousadia. Walter estava no limite do que seria permitido em uma conversa educada, pensou Fitz, apreensivo.
-		Os prussianos tm uma tradio militar forte - prosseguiu Walter -, mas no travam guerras sem motivo.
-		Ento a Alemanha no  agressiva - falou Dewar com ceticismo.
-		Pelo contrrio - disse Walter. - Posso afirmar ao senhor que a Alemanha  a nica grande potncia da Europa continental que no  agressiva.
A mesa foi percorrida por um murmrio de surpresa, e Fitz viu o rei arquear as sobrancelhas. Dewar recostou-se na cadeira, espantado, e perguntou:
-		Por que o senhor diz isso?
As boas maneiras impecveis e o tom amigvel de Walter amenizaram suas palavras provocadoras.
-		Comecemos pela ustria - continuou ele. - Meu primo vienense, Robert, no ir negar que o Imprio Austro-Hngaro gostaria de estender suas fronteiras a sudeste.
-		Mas no sem motivo - protestou Robert. - Essa regio do mundo, que os britnicos chamam de Blcs, est sob domnio otomano h centenas de anos, mas o governo otomano ruiu e agora h instabilidade na pennsula balcnica. O imperador austraco acredita que  seu dever sagrado manter a ordem e a religio crist nessa regio.

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-		Sem dvida - disse Walter. - Mas a Rssia tambm almeja territrios nos Blcs.
Talvez por causa de Bea, Fitz se sentiu na obrigao de defender o governo russo.
-		Eles tambm tm bons motivos - falou. - Metade de seu comrcio internacional atravessa o mar Negro, e de l entra no Mediterrneo pelos estreitos. A Rssia no pode permitir que nenhuma outra grande potncia domine os estreitos ao adquirir territrios no leste dos Blcs. Isso seria como uma forca no pescoo da economia russa.
-		Exatamente - concordou Walter. - Por falar na Europa Ocidental, a Frana tem ambies de tomar da Alemanha os territrios da Alscia e da Lorena.
Nesse momento, o convidado francs, Jean-Pierre Charlois, reagiu.
-		Que foram roubados da Frana 43 anos atrs!
-		No vou entrar nesse mrito - falou Walter com brandura. - Digamos que a Alscia-Lorena foi anexada ao Imprio Germnico em 1871, depois da derrota da Frana na guerra franco-prussiana. Roubadas ou no, Monsieur le Comte, o senhor reconhece que a Frana quer essas terras de volta.
-		Naturalmente. - O francs tornou a se recostar na cadeira e tomou um gole de vinho do Porto.
-		At mesmo a Itlia gostaria de tomar da ustria os territrios do Trentino... - continuou Walter.
-		Onde a maioria das pessoas fala italiano! - exclamou o signor Falli.
-		... e tambm a maior parte do litoral da Dalmcia...
-		Cheio de lees venezianos, igrejas catlicas e colunas romanas!
-		... e o Tirol, provncia com uma longa histria de autonomia poltica, onde a maior parte do povo fala alemo.
-		Necessidade estratgica.
-		 claro.
Fitz percebeu como Walter tinha sido esperto. Em um tom nada grosseiro, porm levemente provocativo, ele havia levado os representantes de cada nao a confirmar, em linguagem mais ou menos beligerante, suas respectivas ambies territoriais.
Ento Walter disse:
-		Mas que novo territrio a Alemanha est reivindicando? - Ele correu os olhos pela mesa, mas ningum disse nada. - Nenhum - afirmou, triunfante. - E o nico outro pas importante da Europa que pode dizer o mesmo  a Gr-Bretanha!
 
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Gus Dewar passou a garrafa de Porto e disse, com seu sotaque americano arrastado:
-		Acho que o senhor tem razo.
-		Ento, Fitz, meu velho amigo, por que ns iramos  guerra? - indagou
Walter.

IV

No domingo de manh, antes do caf, lady Maud mandou chamar Ethel.
Ethel precisou conter um suspiro de irritao. Estava muito ocupada. Era cedo,
mas os empregados j estavam trabalhando duro. Antes de os hspedes se levan-
tarem, era preciso limpar todas as lareiras, reacender o fogo de cada uma delas e
encher seus respectivos baldes de carvo. Os principais cmodos da casa - sala
de jantar, sala de visitas, biblioteca, sala de fumar, bem como os cmodos coleti-
vos menores - precisavam ser limpos e arrumados. Ethel estava verificando as
flores na sala de bilhar e substituindo as que j estavam murchas quando foi chamada. Por mais que gostasse da irm radical de Fitz, torceu para Maud no lhe
pedir nada muito complicado.
Quando Ethel comeara a trabalhar em Ty Gwyn, aos 13 anos, a famlia
Fitzherbert e seus hspedes lhe pareciam quase irreais: era como se fossem personagens de uma histria, ou membros de tribos bblicas estranhas, como os hititas talvez, e deixavam-na aterrorizada. Ela temia fazer alguma coisa errada e perder
o emprego, mas tambm tinha muita curiosidade em ver de perto aquelas cria-
turas peculiares.
Certo dia, uma das criadas da cozinha lhe mandou subir at a sala de bilhar
para buscar o tantalus. Ela estava nervosa demais para perguntar o que era aquilo. De qualquer forma, foi at l e olhou em volta, torcendo para ser alguma coisa
bvia, como uma bandeja de loua suja, mas no conseguiu ver nada que pare-
cesse pertencer ao andar de baixo. Estava em prantos quando Maud entrou.
Na poca, Maud era uma adolescente alta e desengonada de 15 anos, uma
mulher usando roupas de menina, infeliz e rebelde. Somente mais tarde daria um
sentido  prpria vida, transformando seu descontentamento numa cruzada.
Porm j tinha a compaixo  flor da pele que a tornava sensvel  injustia e
 opresso.
Ela perguntou a Ethel qual era o problema. O tantalus, no fim das contas, era
um recipiente de prata com decantadores de conhaque e usque dentro. Numa
referncia ao suplcio do mitolgico Tntalo, condenado a no satisfazer sua fome

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e sua sede, embora vivesse cercado por gua e frutos, o recipiente tentava os empregados, mas possua uma trava para evitar que bebericassem s escondidas, explicou Maud. Ethel lhe agradeceu profusamente. Essa foi a primeira de muitas gentilezas e, ao longo dos anos, Ethel passara a idolatrar a moa mais velha.
Ethel subiu at o quarto de Maud, bateu na porta e entrou. A Sute Gardnia tinha um papel de parede florido rebuscado, do tipo que havia sado de moda na virada do sculo. No entanto, sua janela de sacada dava para a parte mais encantadora do jardim de Fitz, a Alia Oeste, um caminho reto e longo, ladeado por canteiros, que conduzia at uma cabana reservada para os dias de vero.
Maud estava calando um par de botas, notou Ethel com desagrado.
-		Vou dar um passeio, preciso de voc como acompanhante - disse ela. - Ajude-me com meu chapu e me conte as fofocas.
Ethel no tinha tempo para aquilo, porm, por mais aborrecida que estivesse, tambm ficou intrigada. Com quem Maud estava indo passear? Onde estava sua acompanhante habitual, tia Herm? E por que ela estava pondo um chapu to bonito s para ir at o jardim? Haveria algum homem na histria?
Enquanto prendia o chapu nos cabelos escuros de Maud, Ethel disse:
-		Houve um escndalo l embaixo hoje de manh. - Maud colecionava fofocas da mesma forma que o rei colecionava selos. - Morrison s foi dormir s quatro da manh. Ele  um dos lacaios... alto, com um bigode louro.
-		Eu conheo Morrison. E sei onde ele passou a noite. - Maud hesitou.
Ethel aguardou um instante e ento disse:
-		A senhora no vai me dizer?
-		Voc vai ficar chocada.
Ethel sorriu.
-		Melhor ainda.
-		Ele passou a noite com Robert von Ulrich. - Maud olhou para o reflexo de Ethel no espelho da penteadeira. - Est horrorizada?
Ethel estava fascinada.
-		No acredito! Sabia que Morrison no era muito dado a mulheres, mas no achava que ele pudesse ser um desses, se  que a senhora me entende.
-		Bom, Robert com certeza  um desses, e eu o vi trocar olhares com Morrison vrias vezes durante o jantar.
-		E na frente do rei! Como  que a senhora sabe sobre Robert?
-		Walter me disse.
-		Mas que coisa para um cavalheiro contar a uma dama! As pessoas revelam tudo  senhora. Quais so as fofocas de Londres?
 
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-		Est todo mundo falando no Sr. Lloyd George.
David Lloyd George era chanceler do Tesouro, encarregado das finanas da nao. Gals, era um orador inflamado de esquerda. O pai de Ethel dizia que Lloyd George deveria estar no Partido Trabalhista. Durante a greve do carvo de 1912, ele chegara a falar em nacionalizar as minas.
-		O que esto dizendo sobre ele? - quis saber Ethel.
-		Que tem uma amante.
-		No! - Desta vez, a moa ficou realmente chocada. - Mas ele foi criado como batista!
Maud riu.
-		Seria menos chocante se fosse anglicano?
-		Seria! - Ethel se conteve para no dizer  claro. - Quem  ela?
-		Frances Stevenson. Ela comeou como governanta da filha dele, mas  uma mulher inteligente, formada em Estudos Clssicos, e agora  sua secretria particular.
-		Que horror.
Ele a chama de Pussy.
Ethel enrubesceu diante da palavra de duplo sentido. No soube o que responder a isso. Maud se levantou e Ethel a ajudou com o casaco.
-		E Margaret, a mulher dele? - quis saber Ethel.
-		Ela fica aqui no Pas de Gales com os quatro filhos.
-		Eram cinco, um morreu. Coitada.
Maud estava pronta. As duas desceram o corredor e a escadaria imponente. Walter von Ulrich estava esperando no hall, usando um casaco escuro comprido. Tinha um bigode pequeno e suaves olhos castanhos. Era atraente de um jeito reservado, bem alemo. O tipo de homem capaz de fazer uma mesura, bater continncia  tradicional moda alem e depois lhe dar uma piscadela, pensou Ethel. Ento era por isso que Maud no queria lady Hermia como acompanhante.
-		Williams veio trabalhar aqui quando eu era menina - disse Maud a Walter -, e somos amigas desde ento.
Ethel gostava de Maud, mas dizer que as duas eram amigas era um exagero. Maud era bondosa e Ethel a admirava, mas no deixavam de ser patroa e empregada. Maud na verdade estava dizendo que Ethel era digna de confiana.
Walter se dirigiu a Ethel com o excesso de boas maneiras que pessoas como ele usavam para falar com seus inferiores.
-		Muito prazer em conhec-la, Williams. Como vai voc?
-		Bem, obrigada, senhor. Deixem-me pegar meu casaco.
 
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Ela desceu s pressas para o andar de baixo. No queria sair para um passeio enquanto o rei estava hospedado na casa - teria preferido ficar disponvel para supervisionar as criadas de quarto -, mas no podia recusar.
Na cozinha, a criada pessoal da princesa Bea, Nina, preparava um ch  moda russa para sua patroa. Ethel falou com uma das criadas de quarto.
-		Herr Walter acordou - disse ela. - Pode arrumar o Quarto Cinza. - Assim que os hspedes apareciam, as empregadas precisavam entrar nos quartos para limp-los, fazer as camas, esvaziar os penicos e repor a gua para a toalete. Ela viu o mordomo Peei contando pratos.
-		Algum movimento no andar de cima? - perguntou-lhe.
-		Dezenove, vinte - disse ele, terminando a contagem. - O Sr. Dewar chamou pedindo gua quente para se barbear e o signor Falli quis um caf.
-		Lady Maud quer que eu saia com ela.
-		Pssima hora - falou Peei, zangado. - Precisamos de voc dentro de casa.
Ethel sabia disso. Com sarcasmo, ela disse:
-		O que devo fazer, Sr. Peei? Falar para ela ir se catar?
-		No seja atrevida. Volte o mais rpido que puder.
Quando ela tornou a subir para o trreo, o cachorro do conde, Gelert, estava parado diante da porta, ofegando com animao, pois j havia adivinhado que um passeio estava por vir. Todos saram e atravessaram o Gramado Leste at o bosque.
-		Imagino que lady Maud tenha ensinado voc a ser sufragista - disse Walter a Ethel.
-		Foi justamente o contrrio - disse-lhe Maud. - Williams foi a primeira pessoa a me apresentar ideias liberais.
-		Aprendi tudo com meu pai - disse Ethel.
Ethel sabia que eles na verdade no queriam conversar com ela. A etiqueta no lhes permitia ficar sozinhos, mas queriam chegar o mais perto possvel disso. Ela chamou Gelert e foi andando na frente, brincando com o cachorro e dando-lhes a privacidade que provavelmente estavam esperando. Quando olhou para trs, viu que os dois estavam de mos dadas.
Maud no perdia tempo, pensou Ethel. Pelo que tinha dito na vspera, havia 10 anos que no encontrava Walter. E, mesmo naquela poca, os dois no tiveram um romance propriamente dito, houvera apenas uma atrao no declarada. Algo devia ter acontecido na noite anterior. Talvez eles tivessem ficado acordados at tarde conversando. Maud flertava com todo mundo - era assim que conseguia lhes arrancar informaes mas estava claro que aquilo ali era mais srio.
 
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Pouco depois, Ethel ouviu Walter entoar o trecho de uma cano. Maud juntou-se a ele,
ento os dois pararam de cantar e riram. Maud adorava msica e
tocava piano muito bem, ao contrrio de Fitz, que no tinha nenhum ouvido
musical. Parecia que Walter tambm tinha talento para a msica. Sua voz era um
bartono leve, agradvel, que faria bonito na Capela de Bethesda, pensou Ethel.
Ela tornou a pensar no seu trabalho. No tinha visto pares de sapatos engraxados diante da porta de nenhum dos quartos. Precisava ir atrs dos engraxates e lhes
dizer para se apressarem. Aflita, perguntou-se que horas seriam. Se aquele passeio
se estendesse demais, ela precisaria insistir para que voltassem para a casa.
Olhou para trs, mas desta vez no viu Walter nem Maud. Teriam parado de
andar, ou seguido em outra direo? Ela ficou um ou dois minutos no mesmo
lugar, mas no podia passar a manh inteira ali, esperando, de modo que voltou
por entre as rvores pelo caminho que tinha percorrido anteriormente.
No tardou a encontr-los. Os dois estavam abraados e se beijavam com pai-
xo. Walter segurava Maud pelas ndegas e a apertava contra si. Suas bocas esta-
vam abertas e Ethel ouviu Maud soltar um gemido.
No conseguia desgrudar os olhos deles. Imaginou se um dia algum homem
iria beij-la daquele jeito. Llewellyn Espinhento a havia beijado na praia durante
um passeio da igreja, mas no com a boca aberta e os corpos colados, e com certeza no a ponto de Ethel gemer. O pequeno Dai Costeletas, filho do aougueiro,
enfiara a mo debaixo da sua saia no Palace Cinema, a sala de cinema de Cardiff,
mas ela a afastara depois de alguns segundos. Tinha gostado de verdade de Llewellyn
Davies, filho de um professor. O rapaz havia lhe ensinado sobre o governo liberal
e dito que seus seios pareciam filhotes de passarinho aquecidos dentro de um ninho,
mas fora embora para fazer faculdade e jamais lhe escrevera. Com esses meni-
nos, ela havia ficado intrigada e curiosa para ir mais longe, mas nunca sentira
paixo por eles. Tinha inveja de Maud.
Ento Maud abriu os olhos, viu Ethel de relance e se soltou do abrao.
De repente, Gelert soltou um ganido e comeou a andar em crculos com o
rabo entre as pernas. Qual era o problema com ele?
Logo em seguida, Ethel sentiu um tremor no cho, como se um trem expresso
estivesse passando, muito embora a ferrovia estivesse a quase dois quilmetros dali.
Maud franziu o cenho e abriu a boca para dizer alguma coisa, mas ento
ouviu-se um estrondo parecido com um trovo.
- Que diabo foi isso? - perguntou Maud.
Ethel sabia.
Ela deu um grito e comeou a correr.

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Billy Williams e Tommy Griffiths estavam no intervalo.
Vinham trabalhando em um veio chamado Quatro Ps, a apenas uns 550 metros da superfcie, no to profundo quanto o Nvel Principal. O veio se dividia em cinco reas, cada qual batizada com o nome de uma pista de hipismo britnica. Eles estavam na rea chamada Ascot, a mais prxima do duto de subida da mina. Ambos os rapazes estavam trabalhando como ajudantes dos mineradores mais velhos. O mineiro usava o mandril, uma picareta de lmina reta, para remover o carvo do veio, enquanto seu ajudante o jogava com uma p dentro de um vago. Eles haviam comeado a trabalhar s seis da manh, como de hbito, e agora, depois de algumas horas, estavam descansando um pouco, sentados no cho mido com as costas apoiadas na lateral do tnel, deixando a brisa suave do sistema de ventilao refrescar sua pele e tomando goles generosos do ch doce e morno de suas garrafas.
Os dois tinham nascido no mesmo dia de 1898, e dali a seis meses completariam 16 anos. A diferena em seu desenvolvimento fsico, to constrangedora para Billy aos 13 anos, tinha desaparecido. Agora eram dois rapazes, de ombros largos e braos fortes, e faziam a barba uma vez por semana, embora, na verdade, no fosse necessrio. Usavam apenas um calo e um par de botas, seus corpos enegrecidos por uma mistura de suor e p de carvo.  luz mortia das lamparinas, eles reluziam qual esttuas de deuses pagos - impresso prejudicada apenas por suas boinas.
O trabalho era rduo, mas eles estavam acostumados. No reclamavam de dor nas costas ou rigidez nas juntas como os homens mais velhos. Tinham energia de sobra e, nos dias de folga, arrumavam coisas igualmente extenuantes para fazer, como jogar rgbi, cavar canteiros de flores, ou mesmo lutar boxe sem luvas no celeiro atrs do pub Two Crowns.
Billy no havia se esquecido de sua iniciao, trs anos antes - na verdade, ainda ardia de indignao sempre que pensava nela. Tinha jurado a si mesmo que nunca maltrataria os novatos. Naquele mesmo dia, alertara o pequeno Bert Morgan:
- No se espante se os homens pregarem alguma pea em voc. Eles talvez o deixem no escuro por uma hora ou algo idiota desse tipo. Pessoas mesquinhas sentem prazer com mesquinharias. - Os mais velhos que estavam no elevador o fuzilaram com os olhos, mas Billy no se intimidou: sabia que estava certo, e os homens tambm sabiam.
 
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Mam tinha ficado mais zangada do que Billy.
- Me diga uma coisa - dissera ela a Da, em p no meio da sala com as mos
nas cadeiras e os olhos escuros chispando de moralismo -, como o ato de torturar meninos atende aos desgnios de Deus?
-		Voc  mulher, jamais entenderia - retrucara Da, uma resposta fraca e pouco
tpica dele.
Bilh- acreditava que o mundo como um todo e a mina de Aberowen em espe-
cial seriam lugares melhores se todos os homens levassem vidas tementes a Deus.
Tommy, cujo pai era ateu e discpulo de Karl Marx, acreditava que o sistema capi-
talista logo iria se autodestruir, com um empurrozinho da classe operria revolucionria. Os dois rapazes discutiam acaloradamente, mas continuavam a ser
grandes amigos.
-		Voc no costuma trabalhar aos domingos - disse Tommy.
Era verdade. A mina estava fazendo turnos extras para suprir a demanda de
carvo, mas, por respeito  religio, os turnos dominicais eram facultativos na
Celtic Minerais. Ainda assim, apesar de sua devoo ao dia santo, Billy estava
trabalhando.
-		Acho que Deus quer que eu compre uma bicicleta - falou ele.
Tommy riu, mas Billy no estava brincando. A Capela de Bethesda abrira uma
igreja irm em um pequeno vilarejo a 15 quilmetros dali, e Billy era um dos
membros da congregao de Aberowen que haviam se oferecido para cruzar a
montanha domingo sim, domingo no para incentivar a nova capela. Se tivesse
uma bicicleta, poderia ir at l nos dias de semana  noite tambm e ajudar a
criar uma aula de catecismo ou uma roda de orao. Havia conversado com os
membros do conselho, e estes tinham concordado que Deus veria com bons
olhos o fato de Billy trabalhar aos domingos durante algumas semanas.
Billy estava prestes a explicar isso quando o cho sob seus ps tremeu, ouviu-se ,
um estrondo que parecia o fim do mundo e sua garrafa foi-lhe arrancada da mo
por um vento fortssimo.
Ele teve a sensao de que seu corao tinha parado de bater. De repente, se
lembrou de que estava a meio quilmetro de profundidade, com milhes de
toneladas de terra e rocha acima de sua cabea sustentadas apenas por algumas
vigas de madeira.
-		Que porcaria foi essa? - perguntou Tommy com a voz amedrontada.
Billy se levantou de um salto, tremendo de medo. Ergueu a lamparina e olhou
para os dois lados do tnel. No viu fogo, pedras cadas, ou mais poeira do que
o normal. Quando as reverberaes cessaram, o silncio foi completo.

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-		Foi uma exploso - disse ele com voz trmula.
Era isso que todos os mineradores temiam diariamente. Uma liberao repentina de grisu poderia ser produzida por um desmoronamento de rochas, ou mesmo por algum trabalhador que perfurasse uma falha no veio de carvo. Se ningum percebesse os sinais de alerta - ou se a concentrao simplesmente aumentasse depressa demais -, o gs poderia ser inflamado pela mera fasca do casco de um pnei, pela campainha eltrica de um elevador, ou por algum mineiro estpido que acendesse seu cachimbo, contrariando todos os regulamentos.
-		Mas onde? - indagou Tommy.
-		Deve ser l embaixo, no Nvel Principal... foi por isso que escapamos.
-		Jesus Cristo nos ajude.
-		Ele vai ajudar - disse Billy, seu terror comeando a se dissipar. - Sobretudo se ns ajudarmos a ns mesmos. - No havia sinal dos dois mineradores com quem os rapazes estavam trabalhando; ambos tinham ido passar o intervalo na rea conhecida como Goodwood. Billy e Tommy precisavam tomar suas prprias decises. -  melhor irmos para o poo.
Eles vestiram as roupas, prenderam as lamparinas nos cintos e correram at o poo por onde o ar subia, chamado de Piramo. O sinaleiro do nvel intermedirio, encarregado do elevador, era Dai Costeletas.
-		O elevador no desce! - disse ele com a voz tomada de pnico. - J chamei vrias vezes!
Seu medo era contagioso, e Billy teve de lutar contra o prprio pnico. Depois de alguns instantes, perguntou:
-		E o telefone? - O sinaleiro se comunicava com seu colega da superfcie tocando uma campainha eltrica, mas telefones haviam sido instalados recentemente em ambos os pavimentos. Essas linhas eram ligadas, ainda, ao escritrio do gerente da mina, Maldwyn Morgan.
-		Ningum atende - falou Dai.
-		Vou tentar de novo.. - O telefone ficava preso  parede ao lado do elevador. Billy o pegou e girou a manivela. - Vamos, vamos!
Uma voz vacilante atendeu.
-		Al? - Era Arthur Llewellyn, assistente do gerente.
-		Espinhento, aqui  Billy Williams - gritou Billy para dentro do fone. - Onde est o Sr. Morgan?
-		Ele no est aqui. O que foi aquele estrondo?
-		Uma exploso dentro da mina, seu imbecil! Onde est o chefe?
-		Foi a Merthyr - disse Espinhento em tom choroso.

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-		O que ele foi fazer em... deixa pra l, esquece. Voc tem que fazer o seguinte Est me ouvindo, Espinhento?
- Estou. - Sua voz pareceu mais forte.
-		Em primeiro lugar, mande algum at a Capela Metodista e diga a Dai Choro para reunir sua equipe de resgate.
-		Certo.
-		Depois, ligue para o hospital e pea que mandem uma ambulncia para a
entrada da mina.
-		Algum se machucou?
-		S pode, depois de um estrondo desses! Terceiro, diga a todos os homens no barraco de limpeza do carvo para trazerem mangueiras.
-		Mangueiras de incndio?
-		O p de carvo deve ter pegado fogo. Quarto, ligue para a delegacia e diga a Geraint que houve uma exploso. Ele vai ligar para Cardiff. - Billy no conseguia pensar em mais nada. - Entendido?
-		Entendido, Billy.
Billy devolveu o fone ao gancho. No tinha certeza quanto  eficcia de suas instrues, mas falar com Espinhento havia colocado sua mente em foco.
-		Deve haver homens feridos no Nvel Principal - disse ele a Dai Costeletas e Tommy. - Precisamos descer at l.
-		No d, o elevador no est aqui - falou Dai.
-		Tem uma escada na parede do poo, no tem?
-		So quase 200 metros at l embaixo!
-		Bom, se eu fosse maricas, no seria minerador, seria? - Suas palavras eram corajosas, mas no fundo ele estava com medo. A escada do poo era pouqussimo usada e talvez no estivesse em bom estado. Bastaria um escorrego ou um degrau quebrado para ele cair e morrer.
Dai abriu a grade com um barulho metlico. O poo era de tijolos, mido e bolorento. Um ressalto estreito rodeava horizontalmente o revestimento, passando pelo lado de fora das guias de madeira do elevador. Uma escada de ferro era sustentada por suportes em forma de L cimentados  alvenaria. Seus corrimes laterais finos e degraus estreitos no transmitiam segurana nenhuma. Billy hesitou, ja arrependido de sua bravata impulsiva. Mas recuar quela altura seria humilhante demais. Ele respirou fundo, fez uma prece silenciosa e pisou no ressalto.
Contornou a face interna do poo at chegar  escada. Limpou as mos nas calas, agarrou os corrimes laterais e ps os ps sobre os degraus.
Comeou a descer. Podia sentir a textura spera do ferro, e pedacinhos de
 
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ferrugem se desprendiam em suas mos. Os suportes estavam frouxos em alguns pontos, de modo que a escada balanava de forma aflitiva sob seus ps. A lamparina presa a seu cinto produzia luz suficiente para iluminar os degraus logo abaixo dele, mas no chegava ao fundo do poo. Ele no sabia se era melhor ou pior assim.
Infelizmente, a descida lhe deu tempo para pensar. Ele se lembrou de todas as formas como um minerador podia morrer. Ser morto pela exploso em si era um fim misericordiosamente rpido, reservado aos mais sortudos. A queima do metano produzia dixido de carbono, uma substncia sufocante que os minera- dores chamavam de sobra de gs. Muitos ficavam encurralados por pedras que tivessem desmoronado e podiam se esvair em sangue antes de ser socorridos. Alguns morriam de sede, com os colegas a poucos metros de distncia, tentando desesperadamente abrir um tnel em meio aos destroos.
De repente, ele sentiu vontade de voltar, de subir para onde era seguro, em vez de descer rumo  destruio e ao caos. Mas no podia fazer isso, no com Tommy logo acima dele, seguindo-o escada abaixo.
-		Est comigo, Tommy? - chamou ele.
A voz de Tommy soou logo acima de sua cabea.
-		Estou!
Isso encorajou Billy. Confiante outra vez, ele comeou a descer mais depressa. Logo viu uma luz e, pouco depois, escutou vozes. Ao se aproximar do Nvel Principal, sentiu cheiro de fumaa.
Ento ouviu uma algazarra sinistra que se esforou para compreender. Os gritos e baques assustadores ameaaram minar sua coragem. Ele se controlou: devia haver uma explicao racional. Logo em seguida, percebeu que estava ouvindo os relinchos aterrorizados dos pneis e o barulho que eles faziam ao escoicear as laterais de madeira das baias, desesperados para fugir. Entender isso no tornou o barulho menos perturbador: ele se sentia daquela mesma forma.
Chegou ao Nvel Principal, contornou de lado a borda de tijolos, abriu a grade por dentro e, com uma sensao de alvio, pisou o cho enlameado. A luz subterrnea, que j era fraca, estava mais tnue ainda graas a um resqucio de fumaa, mas ele podia ver os tneis principais.
O sinaleiro do nvel inferior era Patrick O'Connor, um homem de meia-idade, que havia perdido uma das mos em um desabamento de teto. Catlico, seu apelido inevitvel era Pat Papa. Ele encarou o rapaz com incredulidade.
-		Billy com Jesus! - exclamou. - De onde diabos voc surgiu?
-		Do veio Quatro Ps - respondeu Billy. - Ns ouvimos o estrondo.
 
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Tommy saiu dopoo do elevador atrs de Billy e perguntou:
- O que houve, Pat?
-		At onde eu consigo entender, a exploso deve ter acontecido na outra extremidade deste nvel, perto do Tisbe - disse Pat. - O subgerente e todos os outros foram l ver. - Ele falava com calma, mas havia desespero em seu olhar.
Billy foi at o telefone e girou a manivela. Instantes depois, ouviu a voz do pai.
-		Williams falando, quem ?
Billy no parou para se perguntar por que um sindicalista estava atendendo ao telefone do gerente da mina. Em uma emergncia, tudo podia acontecer.
-		Da, sou eu, Billy.
-		Voc est bem! Que Deus seja louvado em Sua misericrdia - respondeu seu pai com a voz embargada, voltando logo em seguida a falar com a rispidez habitual. - Me diga o que sabe, rapaz.
-		Eu e Tommy estvamos no veio Quatro Ps. Descemos pelo Pramo at o Nvel Principal. Achamos que a exploso foi para os lados do Tisbe. Tem um pouco de fumaa, no muita. Mas o elevador no est funcionando.
-		Oguindaste foi danificado pela exploso - disse-lhe o pai com a voz calma. - Mas j estamos cuidando disso e ele vai estar funcionando em alguns minutos. Rena o mximo de homens que conseguir no fundo do poo para podermos comear a tir-los da assim que o elevador estiver consertado.
-		Vou dizer a eles.
-		O poo do Tisbe est totalmente fora de combate, ento cuide para que ningum tente fugir por l: eles podem ficar encurralados pelo fogo.
-		Certo.
-		H mscaras de gs em frente  sala do subgerente.
Billy sabia disso. Era uma inovao recente, uma exigncia do sindicato tornada obrigatria pela Lei das Minas de Carvo de 1911.
-		O ar no est muito ruim agora - disse ele.
-		Talvez no a onde voc est, mas l para dentro pode estar pior.
-		Certo. - Billy colocou o fone no gancho.
Ento repetiu para Pat e Tommy o que o pai tinha dito. Pat apontou para uma fileira de escaninhos novos.
-		A chave deve estar no escritrio.
Billy correu at a sala do subgerente, mas no viu chave nenhuma. Imaginou que deveriam estar presas ao cinto de algum. Tornou a olhar para a fileira de escaninhos, todos identificados com as palavras "Mscaras de gs" Os compartimentos eram feitos de lato.
 
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-		Pat, voc tem um p de cabra? - perguntou.
O sinaleiro tinha um kit de ferramentas para pequenos consertos. Estendeu ao rapaz uma chave de fenda parruda. Billy arrombou com facilidade o primeiro escaninho.
Estava vazio.
O rapaz ficou olhando para aquilo, incrdulo.
-		Eles nos enganaram! - exclamou Pat.
-		Capitalistas desgraados - disse Tommy.
Billy abriu outro escaninho. Tambm estava vazio. Arrombou os demais com uma violncia selvagem, como se quisesse revelar a desonestidade da Celtic Minerais e de Perceval Jones.
-		Podemos nos virar sem elas - disse Tommy.
Tommy estava impaciente para comear logo a busca, mas Billy tentava colocar os pensamentos em ordem. Seus olhos recaram sobre o vago anti-incndio. Aquilo era o que a gerncia tinha a coragem de chamar de carro de bombeiros: um vago de carvo cheio dagua equipado com uma bomba manual. Ainda assim, no era de todo intil: Billy j o vira em ao aps uma ocorrncia daquilo que os mineradores chamavam de "claro", quando uma pequena quantidade de grisu entrava em combusto junto ao teto da mina e todos tinham de se jogar no cho. s vezes, o claro fazia o p de carvo nas paredes dos tneis pegar fogo, de modo que era preciso borrif-las com gua.
-		Vamos levar o vago anti-incndio - gritou ele para Tommy.
O vago j estava sobre os trilhos e, juntos, os dois conseguiram empurr-lo. Billy cogitou atrelar um dos pneis ao vago, mas logo concluiu que isso levaria tempo demais, sobretudo considerando o estado de pnico dos animais.
-		Meu filho Micky est trabalhando na rea de Marigold - disse Pat Papa -, mas eu no posso ir procurar por ele. Tenho que ficar aqui. - Sua expresso traa todo o seu desespero, mas em caso de emergncia o sinaleiro precisava ficar junto ao poo: essa regra era inflexvel.
-		Vou ficar atento para ver se o encontro - prometeu Billy.
-		Obrigado, Billy.
Os dois rapazes saram empurrando o vago pelo trilho principal. Os vages no tinham freio: para desaceler-los, os condutores enfiavam um toco de madeira grosso entre os raios das rodas. Muitas mortes e incontveis ferimentos eram causados por vages desgovernados.
-		Mais devagar - disse Billy.
Eles haviam avanado pouco menos de 500 metros quando a temperatura
 
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subiu e a fumaa se tornou mais espessa. Logo ouviram vozes. Seguindo o som, entraram em um tnel secundrio. Era o trecho do veio de carvo que estava sendo explorado no momento. De ambos os lados do tnel, Billy conseguia ver, a intervalos regulares, as entradas dos postos de trabalho dos mineradores, em geral chamados de portes, mas s vezes apenas de buracos.  medida que o barulho foi aumentando, eles pararam de empurrar o vago e olharam para
a frente.
O tnel estava pegando fogo. Labaredas se erguiam das paredes e do cho. Um grupo de homens estava parado  beira do incndio, seus vultos recortados contra o brilho das chamas como se fossem almas no inferno. Um deles segurava um cobertor, com o qual batia inutilmente em uma pilha de madeira em combusto. Outros gritavam; ningum dava ouvidos. Ao longe, mal se podia distinguir um comboio de vages. A fumaa tinha um cheiro estranho de carne assada e Billy percebeu, nauseado, que deveria vir do pnei que puxava os vages.
-		O que est acontecendo? - perguntou Billy a um dos homens.
-		Alguns mineradores esto presos nos portes... mas no conseguimos chegar at eles.
Billy viu que o homem era Rhys Price. No era de espantar que nada estivesse sendo feito.
-		Ns trouxemos o vago anti-incndio - disse ele.
Outro homem se virou na sua direo e ele ficou aliviado ao ver John Jones da Loja, que tinha mais tino do que o subgerente.
-		Bom trabalho! - exclamou Jones. - Peguem a mangueira e vamos molhar isso tudo.
Billy desenrolou a mangueira enquanto Tommy conectava a bomba. Billy mirou o jato d agua no teto do tnel para que ela escorresse pelas paredes. Logo percebeu que o sistema de ventilao da mina, que fazia o ar descer pelo Tisbe e subir pelo Pramo, estava empurrando as chamas e a fumaa em sua direo. Assim que tivesse uma oportunidade, pediria aos homens da superfcie para inverter os ventiladores. Ventiladores reversveis tinham passado a ser obrigatrios - mais uma exigncia da Lei de 1911.
Apesar da dificuldade, o fogo comeou a arrefecer e Billy foi conseguindo avanar aos poucos. Depois de alguns minutos, o porto mais prximo j estava livre das chamas. Na mesma hora, dois mineradores saram correndo l de dentro, sorvendo com um arquejo o ar relativamente puro do tnel. Billy reconheceu os irmos Ponti, Giuseppe e Giovanni, conhecidos como Joey e Johnny.
Alguns homens entraram correndo no porto. John Jones saiu trazendo o

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vulto desfalecido do cavalario Dai dos Pneis. Billy no conseguiu determinar se ele estava morto ou apenas desmaiado.
-		Leve-o para o Pramo, no para o Tisbe - disse.
Price interveio:
-		Quem  voc para dar ordens, Billy com Jesus?
Billy no iria perder tempo discutindo com Price. Falou diretamente a Jones.
-		Eu telefonei para a superfcie. O Tisbe est muito danificado, mas o elevador do Pramo deve voltar a funcionar em breve. Eles me disseram para mandar todo mundo para o Pramo.
-		Certo, vou espalhar a notcia - falou Jones, afastando-se em seguida.
Billy e Tommy continuaram a combater o incndio, liberando mais portes e deixando sair outros homens que estavam presos. Alguns sangravam, muitos tinham queimaduras leves e um ou outro, ferimentos causados por desabamentos. Os que conseguiam andar carregavam os mortos e os gravemente feridos numa procisso macabra.
A gua no demorou a acabar.
-		Vamos empurrar o vago de volta e ench-lo no poo do fundo do Pramo - disse Billy.
Juntos, os dois retornaram depressa por onde tinham vindo. O elevador ainda no voltara a funcionar. quela altura, cerca de uma dzia de mineradores resgatados aguardavam e havia vrios corpos dispostos no cho, alguns grunhindo de dor, outros assustadoramente imveis. Enquanto Tommy enchia o vago de gua barrenta, Billy pegou o telefone. Novamente, quem atendeu foi seu pai.
-		O guindaste vai estar funcionado daqui a cinco minutos - disse ele. - Como esto as coisas a embaixo?
-		Tiramos alguns mortos e feridos dos portes. Mandem vages cheios d agua assim que possvel.
-		E voc?
-		Eu estou bem. Escute, Da, vocs tm que reverter os ventiladores. Faam o ar descer pelo Pramo e subir pelo Tisbe. Isso vai soprar a fumaa e a sobra de gs para longe das equipes de resgate.
-		No d para fazer isso - disse-lhe o pai.
-		Mas  a lei... a ventilao da mina tem que ser reversvel!
-		Perceval Jones contou uma histria triste para os inspetores e eles lhe deram mais um ano para adaptar os ventiladores.
Billy teria soltado um palavro se estivesse falando com qualquer outra pessoa que no seu pai.

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E ligar os borrifadores... isso vocs podem fazer?
Sim podemos - respondeu Da. - Por que no pensei nisso antes? - Ele falou
com alguma outra pessoa.
Billy ps o fone no gancho. Em seguida, foi ajudar Tommy a encher o vago d'gua, revezando-se na bomba manual, o que levou algum tempo. O fluxo de homens vindos da rea afetada diminuiu, enquanto o incndio prosseguia descontrolado. Por fim, conseguiram encher o vago e comearam a voltar.
Os borrifadores foram ligados, mas, quando Billy e Tommy chegaram ao local do incndio, descobriram que a gua que saa do cano estreito preso ao teto no bastava para apagar as chamas. quela altura, no entanto, Jones da Loja j havia organizado os homens. Estava mantendo consigo os sobreviventes que no tinham se machucado, para que pudessem ajudar no resgate, e mandando os feridos que conseguissem andar para o poo. Assim que Billy e Tommy conectaram a mangueira, ele a agarrou de suas mos e ordenou que outro homem acionasse a bomba.
-		Vocs dois, voltem l e peguem outro vago dagua! - ordenou ele. - Assim no precisamos parar.
- Certo - disse Billy, porm, antes de se virar para voltar, algo chamou sua ateno. Um vulto surgiu correndo por entre as chamas com as roupas pegando fogo. - Meu Deus! - exclamou Billy, horrorizado. Enquanto ele olhava, o mineiro tropeou e caiu no cho.
-		Jogue gua em mim! - gritou Billy para Jones. Sem esperar resposta, ele saiu correndo para dentro do tnel. Sentiu um jato d agua atingir suas costas. O calor era terrvel. Seu rosto ardia e suas roupas fumegavam. Ele agarrou o corpo cado pelas axilas e o puxou, comeando a correr de costas. No conseguia distinguir seu rosto, mas podia ver que era um rapaz da sua idade.
Jones continuava com a mangueira mirada em Billy, encharcando seus cabelos, costas e pernas, mas a parte da frente de seu corpo estava seca e o rapaz podia sentir a pele queimar. Soltou um grito de dor, mas conseguiu no largar o homem inconsciente. Segundos depois, saiu do meio das labaredas. Virou-se para que Jones pudesse molh-lo de frente. O alvio da gua sobre seu rosto foi uma bno: embora ainda sentisse dor, era suportvel.
Jones molhou o rapaz estendido no cho. Billy o virou de frente e viu que era Michael O'Connor, conhecido como Micky Papa, filho de Pat. Pat havia pedido a Billy para procur-lo.
-		Bom Jesus, tenha piedade de Pat - disse Billy.
Curvando-se, ele ergueu Micky do solo.,Seu corpo estava flcido, sem vida.
-		Vou lev-lo at o poo - falou.
 
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-		Est bem - disse Jones. Ele fitava Billy com uma expresso estranha no rosto.
-		Faa isso, Billy.
Tommy o acompanhou. Billy estava zonzo, mas conseguiu carregar Micky. No trilho principal, eles cruzaram com uma equipe de resgate trazendo um pnei que puxava um pequeno comboio de vages cheios dagua. Eles deveriam ter vindo l de cima, o que significava que o elevador tinha voltado a funcionar e o resgate j estava sendo conduzido de forma adequada, raciocinou Billy, cansado.
Ele tinha razo. Quando se aproximou do poo, o elevador tornou a chegar e dele emergiu mais um grupo de resgate, usando roupas protetoras e trazendo outros vages cheios dagua. Depois que os recm-chegados se dispersaram, seguindo em direo ao incndio, os feridos comearam a embarcar no elevador, carregando os mortos e os inconscientes.
Logo aps Pat Papa fazer subir o elevador, Billy foi at onde ele estava, carregando Micky nos braos.
Pat encarou Billy com uma expresso de terror, sacudindo a cabea em recusa, como se pudesse negar o que estava acontecendo.
-		Sinto muito, Pat - disse Billy.
Pat no se permitia olhar para o corpo.
-		No - disse ele. - O meu Micky, no.
-		Eu o tirei do fogo, Pat - falou Billy. - S que no teve jeito, foi tarde demais...
-		E ento comeou a chorar.


VI


Sob todos os aspectos, o jantar fora um sucesso. Bea estava de timo humor: se dependesse dela, eles receberiam hspedes reais todas as semanas. Fitz a havia visitado em sua cama e, conforme esperava, ela o recebera de bom grado. Ele ficou l at de manh, s se retirando pouco antes de Nina subir com o ch.
Fitz temia que o debate entre os homens tivesse sido controverso demais para um jantar real, mas no precisava ter se preocupado. Na hora do caf, o rei lhe agradeceu dizendo:
-		Uma conversa fascinante, muito esclarecedora, exatamente o que eu queria.
-		Fitz ficou radiante de tanto orgulho.
Refletindo sobre o assunto enquanto fumava seu charuto matinal, Fitz percebeu que a perspectiva de uma guerra no o deixava horrorizado. Havia falado em tragdia de forma um tanto automtica, mas a guerra no seria de todo ruim. Um conflito uniria a nao contra um inimigo comum e apaziguaria as chamas
 
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da rebelio. No haveria mais greves, e qualquer referncia ao republicanismo seria vista como antipatriota. Quem sabe at as mulheres parassem de reivindicar o direito de voto. E, de um ponto de vista pessoal, ele se descobriu estranhamente atrado pela ideia. Seria sua oportunidade de se mostrar til, provar sua coragem, servir ao seu pas e fazer algo para retribuir a riqueza e o privilgio de
que gozara a vida inteira.
A notcia sobre a exploso na mina, que chegara  Ty Gwyn no meio da manh, levou embora a alegria da festa. Somente um dos hspedes j estivera em Aberowen: o americano Gus Dewar. Mesmo assim, todos ficaram com a sensao - pouco habitual para eles - de estarem fora do centro das atenes. O almoo foi desanimado e os passatempos da tarde tiveram que ser cancelados. Fitz temeu que o rei fosse ficar contrariado com ele, muito embora o conde no tivesse nenhum envolvimento com a operao da mina. No era diretor, tampouco acionista da Celtic Minerais. Apenas cedia os direitos de explorao  empresa, que lhe pagava um royalty por cada tonelada de carvo extrada. Portanto, tinha certeza de que nenhuma pessoa sensata poderia culp-lo pelo ocorrido. Apesar disso, a nobreza no poderia ser vista se dedicando a frivolidades enquanto havia homens encurralados debaixo da terra, sobretudo durante uma visita do rei e da rainha. Isso significava que ler e fumar eram praticamente as nicas atividades aceitveis. O casal real com certeza ficaria entediado.
Fitz se irritou com aquilo. Homens morriam o tempo todo: soldados perdiam a vida em combate, marinheiros naufragavam com seus navios, trens descarrilavam, hotis lotados de hspedes adormecidos pegavam fogo. Por que uma tragdia na mina tinha de acontecer justamente quando ele estava hospedando o rei?
Pouco antes do jantar, Perceval Jones, prefeito de Aberowen e presidente da Celtic Minerais, apareceu para dar informaes ao conde, e Fitz perguntou a Sir Alan Tite se o rei gostaria de ouvir seu relato. A resposta foi que sim, Sua Majestade gostaria de participar do encontro, o que deixou Fitz aliviado: pelo menos o monarca teria alguma coisa para fazer.
Os convidados estavam reunidos na sala de estar pequena, um cmodo informal mobiliado com poltronas estofadas, vasos de plantas e um piano. Jones estava de fraque preto, sem dvida o mesmo que usara para ir  igreja pela manh. Baixo e pomposo, pavoneava-se com seu colete cinza transpassado.
O rei usava um traje de gala.
-		Que gentileza a sua ter vindo - disse ele.
-		Tive a honra de apertar a mo de Vossa Majestade em 1911 - falou Jones -, quando o senhor foi a Cardiff para a investidura do prncipe de Gales.
 
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-		Folgo em v-lo de novo, embora lamente que seja em circunstncias to difceis - retrucou o rei. - Conte-me o que aconteceu sem rodeios, como se estivesse explicando para um de seus colegas da diretoria enquanto toma um drinque no clube.
Uma abordagem inteligente, pensou Fitz. Ela estabelecia o tom certo, embora ningum tivesse oferecido uma bebida a Jones e o rei tampouco o tivesse convidado a se sentar.
-		Vossa Majestade  muito gentil. - Jones falava com um sotaque de Cardiff, mais duro do que o falar cadenciado dos vales. - Havia 220 homens na mina quando a exploso ocorreu, menos do que o normal, j que hoje  um turno especial de domingo.
-		O senhor sabe o nmero exato? - quis saber o rei.
-		Sabemos, sim, senhor, ns anotamos o nome de cada homem que desce.
-		Perdoe-me a interrupo. Por favor, continue.
-		Os dois elevadores foram danificados, mas as equipes de combate a incndio controlaram as chamas com o auxlio do nosso sistema de irrigao e conseguiram evacuar os homens. - Ele olhou para o relgio. - H duas horas, 215 j haviam sido levados para a superfcie.
-		O senhor parece ter lidado com a emergncia de forma muito eficiente, Jones.
-		Muito agradecido, Vossa Majestade.
-		Todos os 215 esto vivos?
-		No, senhor. Oito morreram. Outros 50 tm ferimentos graves o suficiente para precisar de um mdico.
-		Que tristeza - comentou o rei.
Enquanto Jones explicava as providncias que estavam sendo tomadas para localizar e resgatar os cinco homens restantes, Peei entrou na sala e veio na direo de Fitz. O mordmo trajava seu uniforme de gala, pronto para servir o jantar. Falando em voz muito baixa, disse:
-		S para o caso de a informao interessar, meu amo...
-		Sim? - sussurrou Fitz.
-		A criada Williams acabou de voltar da entrada da mina. Parece que o irmo dela foi uma espcie de heri. Ser que o rei gostaria de ouvir a histria em primeira mo...?
Fitz pensou um pouco. Williams estaria abalada e talvez acabasse falando o que no devia. Por outro lado, o rei provavelmente gostaria de falar com algum diretamente afetado pela exploso. Ele decidiu arriscar.
 
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- Vossa Majestade - disse ele. - Uma das minhas criadas acabou de chegar da entrada da mina e talvez tenha notcias mais atualizadas. O irmo dela estava l embaixo quando o gs explodiu. O senhor gostaria de lhe fazer algumas perguntas?
-		Sim, muito - respondeu o rei. - Por favor, mande-a entrar.
Pouco depois, Ethel Williams entrou na sala. Seu uniforme estava sujo de p de carvo, mas ela havia lavado o rosto. Fez uma reverncia, e o rei disse:
- Quais so as ltimas notcias?
-		Vossa Majestade, h cinco homens presos na rea de Carnation por causa de um desabamento. A equipe de resgate est escavando os destroos, mas o incndio ainda no foi debelado.
Fitz reparou que a atitude do rei diante de Ethel era ligeiramente diferente. Ele mal olhara para Perceval Jones, tamborilando os dedos no brao da cadeira com inquietao enquanto o escutava. J Ethel ele olhava nos olhos, parecendo mais interessado nela. Com uma voz mais suave, perguntou:
-		O que o seu irmo diz?
-		A exploso ps fogo no p de carvo, e foi isso que causou o incndio. O fogo encurralou muitos homens nos seus postos de trabalho, sendo que alguns morreram sufocados. Meu irmo e os outros no conseguiram resgat-los porque no havia mscaras de gs.
-		Isso no  verdade - disse Jones.
-		Parece-me que , sim - interveio Gus Dewar, contradizendo-o. Como sempre, o americano soava um pouco titubeante, porm se esforou para falar com firmeza. - Eu conversei com alguns dos homens que estavam subindo. Segundo eles, os escaninhos que diziam "Mscaras de gs" na verdade estavam vazios. - Ele parecia estar contendo sua raiva.
-		E eles no conseguiram apagar o fogo porque no havia gua suficiente l embaixo - acrescentou Ethel Williams. Seus olhos chispavam de fria de um jeito que Fitz achou encantador, e ele sentiu o corao parar de bater por um instante.
-		H um carro de bombeiros! - protestou Jones.
Gus Dewar tornou a intervir:
-		Um vago de carvo cheio dagua e uma bomba manual.
Eles deveriam ter conseguido reverter o fluxo da ventilao - continuou Ethel Williams -, mas o Sr. Jones no tinha modificado o equipamento como manda a lei.
Jones parecia indignado.
-		No foi possvel... Fitz o interrompeu:
 
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-		Fique tranquilo, Jones, isto aqui no  um inqurito pblico. Sua Majestade quer apenas saber qual  a impresso das pessoas.
-		Exatamente - disse o rei. - Mas talvez o senhor possa me aconselhar em relao a um assunto, Jones.
-		Seria uma honra.
-		Eu estava planejando visitar Aberowen e alguns dos vilarejos vizinhos amanh de manh, e inclusive encontrar com o senhor na prefeitura. Porm esta no me parece uma boa hora para um cortejo real.
Sir Alan, que estava sentado atrs do ombro esquerdo do rei, balanou a cabea e murmurou:
-		Fora de cogitao.
-		Por outro lado - prosseguiu o rei -, no me parece correto ir embora sem fazer qualquer pronunciamento em relao  tragdia. O povo pode interpretar isso como indiferena da nossa parte.
Fitz pressentiu que havia um conflito entre o rei e seus subordinados. Estes provavelmente queriam cancelar a visita, imaginando que seria a atitude menos arriscada. O rei, por sua vez, sentia a necessidade de se manifestar de alguma forma.
Houve um silncio enquanto Perceval refletia sobre o assunto. Quando ele falou, disse apenas:
-		 uma escolha difcil.
-		Posso dar uma sugesto? - disse Ethel Williams.
Peei ficou indignado.
-		Williams! - sibilou ele. - S fale quando lhe dirigirem a palavra!
Fitz ficou pasmo com a insolncia de Ethel diante do rei. Tentou manter a voz calma enquanto dizia:
-		Talvez mais tarde, Williams.
O rei, no entanto,.sorriu. Para alvio de Fitz, parecia simpatizar bastante com Ethel.
-		Talvez possamos ouvir o que esta jovem tem a propor - disse ele.
Era tudo de que Ethel precisava. Sem mais delongas, ela falou:
-		O senhor e a rainha deveriam visitar as famlias dos mortos. Nada de cortejo, s uma carruagem puxada por cavalos pretos. Isso significaria muito para elas. E todos ficariam maravilhados com Vossa Majestade. - Ela mordeu o lbio e se calou.
A ltima frase de Ethel contrariava as regras da etiqueta, pensou Fitz, nervoso. O rei no precisava fazer as pessoas acharem que ele era maravilhoso.
 
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Sir Alan ficou horrorizado. - Isso nunca foi feito antes - disse com pavor. Contudo, o rei parecia intrigado com a ideia.
- Visitar os familiares... - disse ele, pensativo. Voltou-se para seu camarista. - Por Deus Alan, eu considero isso de suma importncia. Consolar meus sditos num momento de aflio. Nada de cortejo, s uma carruagem. - Ele tornou a se virar para a criada. - Muito bem, Williams - disse ele. - Obrigado pela sua sugesto. Fitz deu um suspiro de alvio.


VII


No fim das contas,  claro, houve mais do que uma carruagem. O rei e a rainha seguiram na primeira, acompanhados de Sir Alan e de uma dama de companhia, e Fitz e Bea seguiram em uma segunda, junto com o bispo, enquanto uma carruagem aberta puxada por apenas um cavalo trazia diversos empregados. Perceval Jones quisera fazer parte da comitiva, mas Fitz havia vetado a ideia. Conforme Ethel tinha assinalado, os familiares poderiam tentar esgan-lo.
Ventava bastante e uma chuva fria fustigava os cavalos  medida que trotavam pela longa estrada de acesso, saindo de Ty Gwyn. Ethel estava na terceira carruagem. Por causa do trabalho do pai, ela conhecia bem todas as famlias de mineradores de Aberowen. Era a nica pessoa em Ty Gwyn a saber o nome de todos os mortos e feridos. Havia indicado o caminho aos condutores das carruagens e caberia a ela lembrar ao camarista do rei quem era quem. Seus dedos estavam cruzados. Aquilo fora ideia sua e, caso desse errado, a responsabilidade tambm seria.
Quando eles saram pelos portes de ferro imponentes, ela ficou impressionada, como sempre, com a transio repentina. Dentro da propriedade tudo era ordem, charme e beleza; do lado de fora reinava a feiura do mundo real. Uma sequncia de cabanas de agricultores ladeava a estrada, casas minsculas de dois comodos, com pedaos de madeira e ferro-velho espalhados na frente e uma ou outra criana suja brincando no valo. Logo depois, comeavam as casas geminadas dos mineradores, melhores do que as dos agricultores, mas ainda assim toscas e sem graa para olhos como os de Ethel, estragados pela simetria perfeita das janelas, portas e telhados de Ty Gwyn. As pessoas ali usavam roupas de m qualidade, que logo ficavam deformadas e pudas, alm de serem tingidas com corantes que desbotavam, de modo que todos os homens usavam ternos em tons de cinza e todas as mulheres, vestidos amarronzados. O uniforme de criada de Ethel era motivo de cobia devido  sua saia de l quentinha e  blusa de algodo
 
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bem engomada, por mais que algumas das moas gostassem de dizer que jamais se rebaixariam a ponto de trabalhar como criadas. A maior diferena, contudo, estava nas prprias pessoas. Todos ali tinham a pele marcada, os cabelos sujos e as unhas pretas. Os homens tossiam, as mulheres fungavam e as crianas viviam com o nariz ranhoso. Os pobres arrastavam os ps e mancavam pelas ruas, enquanto os ricos andavam a passos largos, cheios de confiana.
As carruagens desceram a encosta da montanha at o conjunto de casas geminadas de Mafeking Terrace. A maioria dos moradores estava enfileirada  beira da rua, mas no havia bandeiras e ningum deu vivas quando a comitiva parou em frente ao nmero 19. Os sditos apenas se curvaram e fizeram suas mesuras.
Ethel saltou da carruagem e dirigiu-se em voz baixa a Sir Alan.
-		Sian Evans, cinco filhos, perdeu o marido David Evans, cavalario da mina. - David Evans, cujo apelido era Dai dos Pneis, era conhecido de Ethel e membro do conselho da Capela de Bethesda.
Sir Alan assentiu e Ethel se apressou a dar um passo para trs enquanto ele sussurrava no ouvido do rei. Ethel lanou um olhar para Fitz, que lhe meneou a cabea em sinal de aprovao. Ela se sentiu radiante. Estava ajudando o rei - e o conde estava satisfeito com ela.
O rei e a rainha foram at a porta da casa. A tinta estava descascando, mas o degrau de madeira tinha sido encerado. Nunca pensei que fosse ver o rei batendo  porta da casa de um minerador, pensou Ethel. O monarca vestia um fraque e uma cartola preta. Ethel havia recomendado enfaticamente a Sir Alan que os moradores de Aberowen no iriam querer ver o seu rei vestido com o mesmo tipo de terno de tweed que eles prprios poderiam usar.
A porta foi aberta pela viva, que usava seu melhor vestido e chapu inclusive. Fitz havia sugerido que o rei surpreendesse as pessoas com a sua presena, mas Ethel tinha sido contra e Sir Alan concordara com ela. Ao visitar de surpresa uma famlia enlutada, o casal real corria o risco de se deparar com homens embriagados, mulheres seminuas e crianas engalfinhadas. Era melhor deixar todos de sobreaviso.
-		Bom dia, eu sou o rei - disse ele, erguendo a cartola com educao. - Estou falando com a Sra. David Evans?
A mulher ficou sem ao por um instante. Estava mais acostumada a ser chamada de Sra. Dai dos Pneis.
-		Vim dizer quanto sinto pelo seu marido, David - falou o rei.
A Sra. Dai dos Pneis parecia nervosa demais para sentir qualquer emoo.
-		Muito agradecida - disse ela, tensa.

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Ethel percebeu que aquilo era formal demais. O rei estava to pouco  vontade quanto a viuva. Nenhum dos dois conseguia dizer o que realmente sentia. Ento a rainha tocou o brao da Sra. Dai.
- Deve ser muito difcil para voc, minha cara - comentou.
-		Sim, senhora, , sim - falou a viva com um sussurro, desatando a chorar
em seguida.
Ethel enxugou uma lgrima do prprio rosto.
O rei estava constrangido, mas, para lhe fazer justia, manteve a compostura e
murmurou:
-		 triste, muito triste.
A viva soluava descontroladamente, mas parecia presa ao cho e no desviou o rosto. No havia nada de gracioso na dor, viu Ethel: o rosto da Sra. Dai estava todo vermelho, sua boca aberta mostrava que ela j havia perdido metade dos dentes e seus soluos eram roucos de desespero.
-		Calma, calma - disse a rainha. Ela pressionou seu leno contra a palma da mo da Sra. Dai. - Tome isto.
A Sra. Dai tinha menos de 30 anos, porm a artrite havia deixado suas mos nodosas e cheias de calombos, como as de uma velha. Ela enxugou o rosto com o leno da rainha. Seus soluos se aquietaram.
-		Ele era um homem bom, senhora - disse ela. - Nunca levantou a mo para mim.
A rainha no soube o que dizer sobre um homem cuja virtude era no bater na mulher.
-		Ele era bom at com seus pneis - acrescentou a Sra. Dai.
-		Tenho certeza que sim - falou a rainha, novamente em terreno conhecido. Um menino pequeno surgiu das profundezas da casa e agarrou-se  saia da
me. O rei fez outra tentativa:
-		Soube que a senhora tem cinco filhos - falou. -Ah , meu senhor, o que eles vo fazer sem pai?
-		 muito triste - repetiu o rei. Sir Alan pigarreou e o rei disse:
-		Estamos indo visitar outras pessoas na mesma situao penosa que a senhora.
-		Ah, meu senhor, foi muita gentileza sua vir at aqui. No posso nem lhe dizer quanto isso significa para mim. Obrigada, obrigada.
O rei se virou para ir embora.
-		Rezarei pela senhora esta noite, Sra. Evans - disse a rainha. Ento saiu atrs do rei.

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Enquanto eles subiam em sua carruagem, Fitz entregou um envelope  Sra. Dai. Ethel sabia que l dentro havia cinco soberanos de ouro e um bilhete, escrito  mo no papel de carta azul de Ty Gwyn, que dizia: "O conde Fitzherbert deseja que a senhora aceite esta prova de seus profundos sentimentos."
Isso tambm havia sido ideia de Ethel.


VIII


Uma semana depois da exploso, Billy foi  capela com seu pai, sua me e seu av.
A Capela de Bethesda era um recinto quadrado, de paredes caiadas e sem nenhum quadro pendurado. As cadeiras ficavam dispostas em fileiras bem-arru- madas ao longo dos quatro lados de uma mesa simples. Em cima da mesa, um po branco sobre um prato de porcelana e uma jarra de xerez barato - o po e vinho simblicos. O servio religioso no era chamado de comunho nem de missa, mas apenas de partilha do po.
s 11 horas, a congregao de mais ou menos uma centena de fiis j estava acomodada, os homens com seus ternos mais elegantes, as mulheres de chapu, as crianas limpas e irrequietas nas fileiras de trs. No havia ritual definido: os homens agiam conforme os desgnios do Esprito Santo - recitavam preces, entoavam hinos, liam trechos da Bblia, ou faziam sermes curtos. As mulheres,  claro, ficavam caladas.
Na prtica, havia um padro estabelecido. A primeira prece era sempre recitada por um dos membros do conselho, que ento partia o po e entregava o prato  pessoa mais prxima. Cada membro da congregao, com exceo das crianas, pegava um pedacinho e comia. Depois o vinho era passado de mo em mo e todos bebiam da jarra, as mulheres dando pequenos goles, enquanto alguns dos homens tomavam uma generosa talagada. Depois disso, todos ficavam sentados em silncio at algum se inspirar a dizer alguma coisa.
Quando Billy havia perguntado ao pai com que idade deveria comear a se pronunciar durante o servio, Da respondera:
- No existe regra. Ns nos deixamos guiar pelo Esprito Santo. - Billy interpretara aquilo ao p da letra. Quando lhe vinha  cabea a primeira estrofe de algum hino em algum momento durante a hora que passavam reunidos, ele tomava isso como um incentivo do Esprito Santo, levantando-se para ento-lo. Agir assim na sua idade era um tanto precoce, e ele sabia disso, mas a congregao havia aceitado. A histria de como Jesus tinha aparecido para ele em seu

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 primeiro dia na nyna fora contada em metade das capelas das minas de Gales do Sul de modo que Billy era considerado um rapaz especial.
Naquela manh, todas as preces pediam consolo para as famlias enlutadas, sobretudo para a Sr. Dai dos Pneis, sentada entre os fiis com o rosto coberto por um vu e o filho mais velho, que parecia amedrontado, ao lado. Da pediu a Deus que tivesse a generosidade de perdoar a maldade dos donos da mina, que haviam ignorado as leis relativas s mscaras de gs e  ventilao reversvel. Billy, no entanto, sentia que faltava alguma coisa. Era simples demais pedir apenas por consolo. Ele queria ajuda para entender como a exploso se encaixava no plano de Deus.
Billy nunca havia recitado uma prece. Muitos dos homens oravam com frases bonitas e citaes das Escrituras, quase como se estivessem fazendo um sermo. Mas o rapaz desconfiava que Deus no se deixasse impressionar com tanta facilidade. Sempre se sentia mais comovido com preces simples, que pareciam sinceras.
Por volta do final do servio, palavras e frases comearam a ganhar forma em sua mente, e ele sentiu um forte impulso de lhes dar vazo. Interpretando isso como um sinal do Esprito Santo, acabou por se levantar.
Com os olhos bem fechados, disse:
-		 Deus, ns Lhe pedimos esta manh para reconfortar aqueles que perderam o marido, o pai, o filho, principalmente nossa irm em Cristo Sra. Evans, e oramos para que os enlutados abram seus coraes para receber a Sua bno.
Isso j havia sido dito por outros. Billy fez uma pausa e ento prosseguiu:
-		E agora, Senhor, pedimos mais uma ddiva: a bno da compreenso. Precisamos saber, Senhor, por que ocorreu essa exploso na mina. Todas as coisas esto em Seu poder, ento por que o Senhor permitiu que o grisu enchesse o Nvel Principal e pegasse fogo? Como  possvel, Senhor, haver homens acima de ns, os diretores da Celtic Minerais, que em sua ganncia descuidam da vida de Seus seguidores? Como a morte de homens bons e a mutilao dos corpos que o Senhor criou podem servir ao Seu desgnio sagrado?
Ele fez outra pausa. Sabia que era errado fazer exigncias a Deus, como se estivesse negociando com a administrao da mina, por isso acrescentou:
-		Sabemos que o sofrimento do povo de Aberowen deve ter um papel em Seu plano eterno. - Pensou que talvez fosse melhor terminar por ali, mas no pde resistir e acrescentou: - Mas, Senhor, ns no entendemos por que, ento, por favor, nos explique.
depois de uma pausa, concluiu:
 
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-		Em nome do Senhor Jesus Cristo.
E a congregao respondeu:
-		Amm.
IX
Os moradores de Aberowen tinham sido convidados a visitar os jardins de Ty Gwyn naquela tarde. Isso significava muito trabalho para Ethel.
Cartazes foram afixados nos pubs sbado  noite e a mensagem foi lida nas igrejas e capelas depois dos servios religiosos do domingo de manh. Apesar do inverno, os jardins estavam particularmente graciosos, pois tinham recebido cuidados especiais para a visita do rei, e agora o conde Fitzherbert desejava compartilhar a beleza deles com seus vizinhos, dizia o convite. O conde estaria de gravata preta e gostaria que os visitantes usassem algo parecido em respeito aos mortos. Embora evidentemente no fosse adequado organizar uma festa, mesmo assim seriam servidos comes e bebes.
Ethel havia mandado armar trs tendas no Gramado Leste. Debaixo de uma delas, havia meia dzia de barris de 500 litros de cerveja clara trazidos de trem da cervejaria Crown em Pontyclun. Para os abstmios, numerosos em Aberowen, a tenda seguinte tinha mesas de cavalete com bules de ch gigantescos e centenas de xcaras e pires. Na ltima e menor das tendas, havia xerez  disposio da diminuta classe mdia da cidade, que inclua o pastor anglicano, os dois mdicos e o gerente da mina, Maldwyn Morgan, que todos j haviam apelidado de "Morgan-foi-a-Merthyr".
Por sorte, fazia um dia de sol, frio porm seco, com umas poucas nuvens brancas de aspecto inofensivo pairando bem alto no cu azul. Quatrocentas pessoas apareceram - praticamente a populao inteira da cidade -, sendo que quase todos usavam uma gravata, uma fita ou uma braadeira pretas. Os convidados passearam por entre os arbustos, espiaram o interior da casa pelas janelas e estragaram a grama.
A princesa Bea ficou no seu quarto: aquele no era o seu tipo de evento social. Todos os membros da classe alta eram egostas, Ethel conclura, com base em sua experincia, mas Bea havia transformado isso em uma arte. Toda sua energia se concentrava em agradar a si mesma e conseguir o que queria. Mesmo quando dava uma festa - o que sabia fazer muito bem -, sua motivao principal era poder exibir sua beleza e seu charme.
Fitz recebeu os convidados no esplendor gtico-vitoriano do Salo de Gala,

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com seu cachorro imenso deitado no cho ao seu lado como um tapete de pele. Ele usava um terno de tweed marrom que lhe dava um aspecto mais acessvel, apesar do colarinho engomado e da gravata preta. Estava mais bonito do que nunca pensou Ethel. Ela trouxe os parentes dos mortos e feridos para cumpriment-lo em grupos de trs ou quatro, para que ele pudesse dar os psames a todos os moradores de Aberowen que tivessem sofrido com a tragdia. O conde dirigiu-se a eles com seu charme habitual, fazendo com que cada um fosse embora se sentindo especial.
Ethel agora era a governanta. Depois da visita do rei, a princesa Bea havia insistido para a Sra. Jevons se aposentar de vez: ela no tinha tempo para criados velhos e cansados. Via em Ethel algum que se esforaria ao mximo para satisfazer os seus desejos, de modo que a promovera apesar da pouca idade. Assim, Ethel havia conquistado a posio que ambicionava. Assumira o quartinho da governanta anexo  ala dos criados e ali tinha pendurado uma fotografia dos pais, vestidos com sua melhor roupa de domingo, tirada no dia da inaugurao da Capela de Bethesda.
Quando Fitz chegou ao final da lista, Ethel pediu permisso para passar alguns minutos com a famlia.
-		Claro - respondeu o conde. - Passe o tempo que quiser. Voc foi absolutamente maravilhosa. No sei como teria feito tudo sem voc. O rei tambm ficou grato por sua ajuda. Como  que voc se lembra de todos esses nomes?
Ethel sorriu. No sabia bem por que os elogios dele mexiam tanto com ela.
-		A maioria dessas pessoas j foi  nossa casa em algum momento, para consultar meu pai sobre a compensao por um ferimento, ou sobre alguma briga com um supervisor, ou para falar de sua preocupao com as medidas de segurana da mina.
-		Bom, eu acho voc extraordinria - disse ele, dando-lhe o sorriso irresistvel que s vezes surgia em seu rosto e o fazia parecer quase um menino. - Meus respeitos ao seu pai.
Ela saiu da casa e atravessou o gramado correndo, sentindo-se a mais feliz das mulheres. Encontrou Da, Mam, Billy e Gramper na tenda do ch. Da estava elegante com seu terno de domingo e uma camisa branca com o colarinho engomado. Billy exibia uma queimadura feia na bochecha.
-		Como est se sentindo, Billy? - perguntou-lhe Ethel.
-		Bem. Sei que est feio, mas o mdico falou que  melhor no usar curativo.
-		Est todo mundo comentando sobre como voc foi corajoso.
-		, mas no o suficiente para salvar Micky Papa.
 
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No havia como responder quilo, mas Ethel tocou o brao do irmo para mostrar que entendia.
-		Billy recitou uma prece hoje de manh em Bethesda - disse Mam com orgulho.
-		Que maravilha, Billy! Sinto muito no ter podido ir. - Ethel no fora  capela; havia coisas demais para fazer na casa. - Sobre o que foi a prece?
-		Eu pedi ao Senhor que nos ajudasse a entender por que Ele permitiu a exploso na mina. - Billy lanou um olhar nervoso para Da, que no sorria.
-		Talvez tivesse sido melhor Billy pedir a Deus para fortalecer sua f, para ele poder acreditar sem entender - falou Da com severidade.
Estava claro que os dois j haviam discutido sobre isso. Ethel no estava com pacincia para desavenas teolgicas que, no fim das contas, no faziam diferena alguma. Ela tentou desanuviar a atmosfera.
-		O conde Fitzherbert me pediu para lhe transmitir os seus respeitos, Da - disse ela. - Muito gentil da parte dele, o senhor no acha?
Da no se sensibilizou.
-		Fiquei decepcionado ao ver voc participando daquela palhaada na segun- da-feira - disse ele com rispidez.
-		Na segunda-feira? - perguntou ela, incrdula. - Quando o rei visitou as famlias?
-		Vi voc sussurrando os nomes para aquele borra-botas.
-		Aquele era Sir Alan Tite.
-		Pouco me importa como ele se chama, eu reconheo um puxa-saco quando vejo um.
Ethel ficou chocada. Como Da podia menosprezar seu momento de glria? Sentiu vontade de chorar.
-		Pensei que o senhor fosse ficar orgulhoso de mim por eu ter ajudado o rei!
-		Como o rei se atreve a ir dar os psames ao nosso povo? O que um rei sabe sobre dificuldade e perigo?
Ethel conteve as lgrimas.
-		Mas, Da, as pessoas ficaram to felizes por ele ter ido visit-las!
-		Isso distraiu a ateno de todo mundo das atitudes perigosas e ilegais da Celtic Minerais.
-		Mas as pessoas precisam ser consoladas. - Como  que ele no entendia isso?
-		Elas foram amolecidas pelo rei, isso sim. Na tarde de domingo passado, esta cidade estava prestes a se rebelar. Na segunda-feira  noite, s se falava sobre como a rainha tinha dado seu leno para a Sra. Dai dos Pneis.
No mesmo instante, Ethel passou de magoada a furiosa.

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Lamento que o senhor pense assim - disse ela, friamente.
- No h nada que lamentar...
Lamento porque o senhor est errado - interrompeu-o Ethel, com firmeza.
Da ficou atnito. -Era raro algum lhe dizer que estava errado, quanto mais
uma menina.
- olha a lngua, Eth... - censurou Mam.
-  As  pessoas tm sentimentos, Da - falou ela, sem pensar. -  isso que o
senhor sempre esquece.
Da no sabia o que dizer.
- Agora chega! - gritou Mam.
Ethel olhou para Billy. Em meio a uma bruma de lgrimas, viu sua expresso pasma de admirao. Isso lhe deu mais coragem. Ela fungou, enxugou os olhos com as costas da mo e disse:
-		O senhor, seu sindicato, seus regulamentos de segurana, suas Escrituras... eu sei que tudo isso  importante, Da, mas o senhor no pode esquecer os sentimentos das pessoas. Espero que um dia o socialismo torne o mundo um lugar melhor para-os trabalhadores, mas, enquanto isso no acontece, elas precisam de consolo.
Da finalmente recuperou a voz.
-		Acho que j ouvimos o bastante - disse ele. - Esse encontro com o rei subiu  sua cabea. Voc no passa de uma menina e no tem nada que dar lio de moral aos mais velhos.
Ela estava chorando demais para continuar a discusso.
-		Desculpe, Da - falou. Ento, depois de um silncio pesado, acrescentou: -  melhor eu voltar ao trabalho. - O conde lhe dissera para passar o tempo que quisesse com a famlia, mas ela queria ficar sozinha. Virou as costas para o olhar irado de Da e caminhou de volta at o casaro. Manteve os olhos baixos, esperando que os convidados no vissem suas lgrimas.
No queria cruzar com ningum, de modo que entrou s escondidas na Sute Gardnia. Lady Maud j havia voltado para Londres, portanto o quarto estava desocupado e a cama desfeita. Ethel se deixou cair sobre o colcho e chorou.
Ela estava to orgulhosa. Como Da podia menosprezar todos os seus esforos? Ser que ele queria que ela fizesse um trabalho ruim? Ela trabalhava para a nobreza. Assim como todo e qualquer minerador de Aberowen. Por mais que fossem empregados da Celtic Minerais, era o carvo do conde que eles exploravam, e este recebia por tonelada o mesmo que o trabalhador que dava duro na extrao - fato que seu pai nunca se cansava de ressaltar. Se ser um bom mineiro, eficiente e produtivo, era uma coisa boa, que problema havia em ser uma boa governanta?

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Ela ouviu a porta se abrir e se levantou de um pulo. Era o conde.
-		O que est acontecendo? - perguntou ele em tom gentil. - Ouvi voc do outro lado da porta.
-		Eu sinto muitssimo, meu amo, no deveria ter entrado aqui.
-		No tem problema. - Seu rosto extraordinariamente belo exibia uma preocupao genuna. - Por que est chorando?
-		Eu estava to orgulhosa por ter ajudado o rei - disse Ethel, arrasada. - Mas meu pai acredita que foi tudo uma farsa, s para impedir as pessoas de terem raiva da Celtic Minerais. - Ela desatou a chorar outra vez.
-		Mas que tolice - falou Fitz. - Qualquer um podia ver que os sentimentos do rei eram genunos. E os da rainha tambm. - Ele tirou do bolso da frente do palet um leno de linho branco. Ethel achou que ele fosse lhe entregar o leno, mas, em vez disso, o conde enxugou-lhe as lgrimas das bochechas com delicadeza. - Eu senti muito orgulho de voc na segunda-feira, mesmo que seu pai no tenha sentido.
-		O senhor  muito gentil.
-		J passou, j passou - sussurrou ele, curvando-se e beijando-lhe os lbios.
Ethel ficou atnita. Era a ltima coisa no mundo que podia esperar. Quando
o conde se endireitou, ela o encarou sem entender nada.
Ele a olhou de volta.
-		Voc  absolutamente encantadora - disse ele com voz grave, beijando-a novamente.
Desta vez, ela o empurrou.
-		Meu amo, o que est fazendo? - perguntou ela baixinho, chocada.
-		No sei.
-		Mas o que pensa que est fazendo?
-		Eu no estou pensando.
Ethel ergueu os olhos para o rosto benfeito de Fitz. Os olhos verdes a examinavam com ateno, como se tentassem ler seus pensamentos. Ela percebeu ento que o adorava. De repente, foi inundada pela excitao e pelo desejo.
-		No consigo me controlar - disse ele.
Ela suspirou de felicidade.
-		Ento me beije de novo - pediu.

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CAPTULO TRS
Fevereiro de 1914

As dez e meia, o espelho do hall da residncia do conde Fitzherbert em Mayfair
refletia um homem alto, vestido de maneira impecvel com os trajes formais diurnos de um aristocrata ingls. Como no apreciava a moda dos colarinhos moles, usava um colarinho duro, e sua gravata prateada estava presa por uma prola. Alguns de seus amigos achavam que se vestir bem era vergonhoso. "Fitz, voc parece um alfaiate indo abrir a loja pela manh", dissera-lhe certa vez o jovem marqus de Lowther. Mas Lowthie vivia desgrenhado, com o colete cheio de migalhas e cinzas de charuto nos punhos da camisa, e queria que todos fossem to largados quanto ele. Fitz detestava andar desarrumado; a elegncia lhe convinha.
Ele ps uma cartola cinza. Com uma bengala na mo direita e um novo par de luvas de camura cinza na esquerda, saiu de casa e tomou a direo sul. Na Berkeley Square, uma menina loura de seus 14 anos piscou para ele e disse:
- Uma chupada por um xelim?
Ele atravessou a Piccadilly e entrou no Green Park. Alguns flocos de neve se acumulavam ao redor das razes das rvores. Passou pelo Palcio de Buckingham e entrou em um bairro pouco atraente prximo  estao ferroviria conhecida como Victoria Station. Teve que se informar com um policial sobre como chegar  Ashley Gardens. No fim das contas, a rua ficava atrs da catedral catlica. Francamente, pensou Fitz, se voc pretende receber a visita de um membro da nobreza, o mnimo que pode fazer  ter seu escritrio em um bairro respeitvel.
Ele havia sido convocado por um velho amigo do pai, chamado Mansfield Smith-Cumming. Oficial da Marinha reformado, Smith-Cumming agora tinha um cargo indefinido no Departamento de Guerra. Ele enviara a Fitz um recado bem curto: "Eu ficaria grato se pudssemos trocar algumas palavras sobre uma questo de importncia nacional. O senhor poderia me fazer uma visita amanh pela manh, s onze horas?" O recado estava escrito  mquina e assinado, em
tinta verde, apenas com a letra "C".
Na verdade, Fitz estava contente pelo fato de algum membro do governo querer falar com ele. Tinha verdadeiro horror a ser visto como um ornamento, um aristocrata rico cuja nica funo era a de decorar eventos sociais. Torcia para
 
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que pedissem sua opinio, quem sabe a respeito do seu antigo regimento, os Fuzileiros Galeses. Ou talvez ele pudesse desempenhar alguma tarefa relacionada ao Exrcito de Reserva de Gales do Sul, do qual era coronel honorrio. De toda forma, o simples fato de ser convocado ao Departamento de Guerra lhe dava a sensao de no ser totalmente suprfluo.
Isto , se aquilo ali fosse de fato o Departamento de Guerra. O endereo se revelou um moderno bloco de apartamentos. Um porteiro conduziu Fitz at o elevador. O apartamento de Smith-Cumming parecia em parte residncia, em parte escritrio, mas um jovem muito eficiente, com ares de militar, disse a Fitz que "C" iria receb-lo imediatamente.
C no exibia ares de militar. Gorducho e meio careca, tinha nariz adunco e usava um monculo. Seu escritrio estava abarrotado dos mais variados objetos: aeromodelos, telescpio, bssola e um quadro representando camponeses diante de um peloto de fuzilamento. O pai de Fitz sempre se referira a Smith-Cumming como "o capito que enjoa no mar", e a carreira militar dele no tinha sido brilhante. O que estava fazendo ali?
-		Que departamento  este, exatamente? - perguntou Fitz ao se sentar.
-		Esta aqui  a Diviso Estrangeira do Escritrio do Servio Secreto - respondeu C.
-		Eu no sabia que tnhamos um Servio Secreto.
-		Se as pessoas soubessem, ele no seria secreto.
-		Entendo. - Fitz sentiu uma injeo de adrenalina. Era lisonjeiro ser inteirado de informaes confidenciais.
-		Imagino que o senhor teria a bondade de no comentar com ningum a respeito.
Fitz percebeu que estava recebendo uma ordem, apesar da escolha educada de palavras.
-		Naturalmente - respondeu. A sensao de pertencer a um crculo privilegiado o deixava contente! Ser que C o convidaria a trabalhar para o Departamento de Guerra?
-		Parabns pelo sucesso da sua recepo real. Parece-me que o senhor reuniu um grupo de jovens muito bem relacionados para apresentar a Sua Majestade.
-		Obrigado. Para ser franco, foi um evento social discreto, mas temo que as notcias se espalhem depressa.
-		E agora o senhor vai levar sua esposa  Rssia.
-		A princesa  russa. Ela quer visitar o irmo.  uma viagem que vnhamos adiando h tempos.

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-		E Gus Dewar ir acompanh-los.
C parecia estar a par de tudo.
- Ele est dando a volta ao mundo - disse Fitz. - Nossos planos coincidiram.
O senhor sabe por que o almirante Alexeev foi nomeado para o comando do Exrcito russo na guerra contra o Japo, mesmo sem saber nada sobre combates terrestres? - perguntou C em tom casual, recostando-se na cadeira.
Como tinha passado algum tempo na Rssia quando menino, Fitz havia acompanhado o desenrolar da guerra russo-japonesa de 1904-1905, mas no conhecia
essa histria.
-		Por que o senhor no me conta?
-		Bem, parece que o gro-duque Alxis se envolveu numa confuso em um bordel de Marselha e acabou preso pela polcia francesa. Alexeev foi resgat-lo e disse aos gendarmes que tinha sido ele, no o gro-duque, a arranjar encrenca. A semelhana de seus nomes tornou a histria plausvel e o gro-duque foi solto. A recompensa de Alexeev foi o comando do Exrcito.
-		No  de espantar que eles tenham perdido.
-		Mesmo assim, os russos tm o maior exrcito que o mundo j conheceu: seis milhes de homens segundo alguns clculos, na hiptese de eles convocarem todos os reservistas. Por mais incompetente que seja sua liderana, trata-se de uma fora extraordinria. Mas qual seria a eficincia desse exrcito, digamos, em uma guerra na Europa?
-		No volto l desde o meu casamento - respondeu Fitz. - No saberia dizer.
-		Ns tampouco.  a que o senhor entra. Eu gostaria que fizesse algumas perguntas enquanto estivesse l.
Fitz ficou surpreso.
-		Mas isso  tarefa da nossa embaixada, no?
-		 claro. - C deu de ombros. - Mas os diplomatas sempre esto mais interessados em poltica do que em questes militares.
-		Mesmo assim, deve haver um adido militar.
-		Um elemento externo como o senhor pode proporcionar um ponto de vista novo. Mais ou menos da mesma forma como o grupo reunido em Ty Gwyn deu ao rei algo que ele no teria conseguido obter do Ministrio das Relaes Exteriores. Mas se o senhor acha que no pode...
-		Eu no estou recusando - Fitz se apressou a responder. Pelo contrrio: estava satisfeito por lhe pedirem que fizesse algo por seu pas. - S fico surpreso que as coisas sejam feitas dessa forma.
Ns somos um departamento relativamente novo, com poucos recursos.
 
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Meus melhores informantes so viajantes inteligentes com bagagem militar suficiente para entender o que esto vendo.
-		Muito bem.
-		Eu estaria interessado em saber se o senhor acha que a classe dos oficiais russos evoluiu desde 1905. Eles se modernizaram, ou ainda esto agarrados a ideias antigas? Como sua mulher  parente de metade dos homens mais importantes de So Petersburgo, o senhor vai encontrar todos eles.
Fitz estava pensando na ltima vez em que a Rssia entrara em guerra.
-		O principal motivo que os levou a serem derrotados pelo Japo foi o fato de as ferrovias russas no conseguirem abastecer o exrcito - disse ele.
-		Mas desde ento os russos vm tentando melhorar sua malha ferroviria... usando o dinheiro que pediram emprestado  Frana, sua aliada.
-		Ser que fizeram muitos avanos nesse sentido?
-		Essa  a questo-chave. O senhor vai viajar de trem. Os trens saem na hora? Fique de olhos abertos. As linhas ainda so de trilho nico? Ou agora eles usam trilhos duplos? Os generais alemes tm um plano de contingncia para a guerra baseado em quanto tempo o Exrcito russo levar para ser mobilizado. Se houver guerra, muita coisa vai depender da exatido desse cronograma.
Fitz estava entusiasmado como um garoto, mas forou-se a falar com gravidade:
-		Descobrirei o mximo possvel.
-		Obrigado. - C olhou para o relgio.
Fitz se levantou e os dois trocaram um aperto de mos.
-		Quando exatamente o senhor viaja? - indagou C.
-		Partimos amanh - respondeu Fitz. - At breve.
II
Grigori Peshkov observou seu irmo mais novo, Lev, dar um golpe para tirar dinheiro do americano alto. O rosto atraente de Lev exibia uma expresso de avidez jovial, como se seu principal objetivo fosse demonstrar a prpria habilidade. Grigori experimentou uma conhecida pontada de nervosismo. Algum dia, temia ele, o charme de Lev no iria bastar para mant-lo longe dos problemas.
-		 um teste de memria - disse Lev em ingls. Havia decorado as palavras. - Escolha uma carta qualquer. - Ele precisava falar alto por causa do barulho da fbrica: estalos de mquinas pesadas, chiado de vapor, pessoas gritando instrues e perguntas.
O nome do visitante era Gus Dewar. Ele usava palet, colete e cala feitos da
 
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mesma l cinza de boa qualidade. Grigori estava especialmente interessado
naquele homem por ele ser de Buffalo.
Dewar era um rapaz amigvel. Dando de ombros, ele escolheu uma carta do
baralho de Lev e olhou para ver qual era.
- Ponha a carta em cima do banco, virada para baixo - instruiu Lev.
Dewar ps a carta sobre o banco de madeira grosseiro da fbrica.
Lev tirou do bolso uma nota de um rublo, colocando-a em cima da carta.
-		Agora ponha um dlar por cima. - O truque s funcionava com visitantes
ricos.
Grigori sabia que Lev j havia feito a troca. Na mo, escondida pela nota de um rublo, ele estava segurando outra carta. O truque, que Lev passara muitas horas treinando, era pegar a primeira carta e escond-la na palma da mo, substituindo-a ao mesmo tempo pela nota de um rublo e por uma carta diferente.
-		Tem certeza de que pode se dar ao luxo de perder um dlar, Sr. Dewar? - perguntou Lev.
Dewar sorriu, como os trouxas sempre faziam nessa hora. -"Acho que sim - respondeu.
-		O senhor se lembra da carta que tirou? - Lev na verdade no falava ingls. Tambm sabia dizer aquelas mesmas frases em alemo, francs e italiano.
-		Era o cinco de espadas - disse Dewar.
-		Errado.
-		Eu tenho certeza.
-		Pode virar.
Dewar virou a carta. Era a rainha de paus.
Lev recolheu a nota de um dlar e o rublo que havia posto no banco. Grigori prendeu a respirao. Aquele era o momento mais arriscado. O americano iria ou no reclamar de ter sido roubado e acusar Lev? Dewar abriu um sorriso arrependido e disse:
-		Voc me pegou.
-		Eu conheo outro jogo - disse Lev.
Aquilo era demais: o irmo estava abusando da sorte. Embora Lev j tivesse 20 anos, Grigori ainda precisava proteg-lo.
-		No jogue com meu irmo - Grigori alertou Dewar em russo. - Ele sempre ganha.
O americano sorriu e respondeu na mesma lngua com alguma hesitao:
-		Um bom conselho.
Dewar era o primeiro de um pequeno grupo de visitantes em excurso pela
 
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Metalrgica Putilov. A fbrica era a maior de So Petersburgo e empregava 30 mil homens, mulheres e crianas. A funo de Grigori era lhes mostrar a pequena, porm importante, seo em que trabalhava. A fbrica produzia locomotivas e outros grandes artefatos de metal. Grigori era contramestre da seo que fabricava rodas de trens.
Grigori estava ansioso para conversar com Dewar sobre Buffalo. Porm, antes de conseguir fazer qualquer pergunta, o supervisor da seo de fundio, Kanin, apareceu. Engenheiro qualificado, ele era alto e magro, com uma calva avanada.
Ao seu lado estava um segundo visitante. Pelas roupas, Grigori soube que deveria ser o aristocrata ingls. O homem estava vestido como um nobre russo, de fraque e cartola. Talvez aquele fosse o traje usado pela classe dominante no mundo inteiro.
Grigori ficara sabendo que o aristocrata se chamava conde Fitzherbert. Com cabelos pretos e olhos verdes de brilho intenso, ele era o homem mais bem-apessoado que o contramestre j vira. As mulheres da seo de rodas encaravam-no como se fosse um deus.
Kanin dirigiu-se a Fitzherbert em russo.
-		Atualmente, estamos produzindo duas locomotivas novas por semana - disse ele com orgulho.
-		Incrvel - comentou o aristocrata ingls.
Grigori entendia por que os estrangeiros estavam to interessados. Ele lia os jornais e participava de palestras e grupos de leitura organizados pelo Comit Bolchevique de So Petersburgo. As locomotivas fabricadas ali eram essenciais  capacidade de defesa da Rssia. Os visitantes poderiam at fingir uma curiosidade casual, mas estavam coletando informaes de inteligncia militar.
Kanin apresentou Grigori.
-		Este  Peshkov, o campeo de xadrez da fbrica. - Kanin era supervisor, mas um bom sujeito.
Fitzherbert foi muito simptico. Dirigiu-se a Varya, uma mulher de seus 50 anos que usava um leno ao redor dos cabelos grisalhos.
-		 muita gentileza sua nos mostrar seu local de trabalho - falou ele alegremente, num russo fluente mas com forte sotaque.
Varya, mulher impressionante, musculosa e de seios fartos, riu feito uma colegial.
A demonstrao estava pronta. Grigori havia posto lingotes de ao dentro do cone de alimentao e acendido a fornalha, de modo que o metal agora estava derretido. Mas ainda faltava um visitante: a esposa do conde, que diziam ser russa - o que explicava o fato de ele falar a lngua, algo incomum para um estrangeiro.
 
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Grigori queria perguntar a Dewar sobre Buffalo, mas, antes que tivesse oportunidade, a mulher do conde chegou  seo de rodas. Sua saia, que roava o
cho parecia uma vassoura empurrando  sua frente uma linha de sujeira e limalha de ferro. Ela usava um casaco curto por cima do vestido e vinha seguida por
um servo que carregava uma capa de pele, uma criada com uma bolsa e um dos
diretores da fbrica, o conde Maklakov, um jovem vestido como Fitzherbert.
Maklakov estava evidentemente muito impressionado com sua convidada, sor-
rindo falando em voz baixa e segurando o brao da mulher de forma desnecessria. Ela era de uma beleza extraordinria, com seus cachos louros e seu jeito
sedutor de inclinar a cabea.
Grigori a reconheceu na mesma hora. Era a princesa Bea.
Seu corao saltou no peito e ele ficou enjoado. Reprimiu com violncia a lembrana terrvel que emergiu de um passado distante. Ento, como se aquilo fosse
uma emergncia, olhou para verificar a reao do irmo. Ser que Lev se lembrava?
Ele tinha apenas seis anos na poca. Lev encarava a princesa com curiosidade,
como se tentasse identific-la. Ento, diante dos olhos de Grigori, a expresso de
Lev mudou  medida que ele recordava. Seu irmo empalideceu, como se estivesse passando mal, e, de repente, ficou vermelho de raiva.
A essa altura, Grigori j estava do lado de Lev.
-		Fique calmo - murmurou ele. - No diga nada. Lembre-se, ns vamos para
os Estados Unidos... No podemos deixar nada atrapalhar isso!
Lev soltou um grunhido de repulsa.
-		Volte para a estrebaria - disse Grigori. Lev era condutor de pneis e traba-
lhava com os muitos animais usados na fbrica.
Lev fuzilou a princesa com o olhar por mais alguns instantes, sem que ela percebesse. Ento, virou-se e foi embora, e o momento de perigo passou.
Grigori iniciou a demonstrao. Meneou a cabea para Isaak, rapaz da sua idade
que era capito do time de futebol da fbrica. Isaak abriu a caixa de moldar.
Ento Grigori e Varya pegaram um modelo de uma roda de trem com flange,
feito de madeira encerada. O modelo em si era produto de um trabalho minucioso, com raios de seo transversal elptica e afunilados em escala de um para
vinte do eixo ao aro. Era a roda de uma grande locomotiva 4-6-4, e o modelo
tinha quase a mesma altura das pessoas que o estavam erguendo.
Os dois posicionaram a roda dentro de uma bandeja funda, cheia de uma mistura arenosa mida para moldagem. Isaak acomodou por cima disso a pea destinada a resfriar o ao fundido de modo a formar a superfcie de rolamento e o
flange, acrescentando, por ltimo, a tampa da caixa de moldar.

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O conjunto ento foi aberto e Grigori verificou a impresso deixada pela roda de madeira. No havia nenhuma irregularidade visvel. Ele borrifou a areia de moldagem com um lquido preto oleoso e ento a caixa de moldar tornou a ser fechada.
-		Por favor, mantenham uma boa distncia agora - pediu aos visitantes.
Isaak aproximou o bico do alimentador do funil que ficava em cima da caixa.
Ento, bem devagar, Grigori puxou a alavanca que fazia o alimentador se inclinar.
O ao derretido se derramou lentamente dentro da caixa. O vapor expelido pela areia molhada saiu chiando pelos respiradouros. Por experincia, Grigori sabia quando erguer o alimentador para interromper o fluxo.
-		O passo seguinte  aperfeioar o formato da roda - disse ele. - Como o metal quente leva muito tempo para esfriar, tenho aqui uma roda que fundimos mais cedo.
A roda j estava presa a um torno, e Grigori meneou a cabea para o torneiro Konstantin, filho de Varya. Intelectual magro e comprido, de cabelos pretos revoltos, Konstantin era presidente do grupo de discusso bolchevique e o melhor amigo de Grigori. Ele ligou o motor eltrico, fazendo a roda girar em alta velocidade, e comeou a arremat-la com uma lixa.
-		Por favor, mantenham distncia do torno - disse Grigori aos visitantes, erguendo a voz para se fazer ouvir por sobre o barulho da mquina. - Se tocarem nele, podem perder um dedo. - Ele ergueu a mo esquerda. - Como aconteceu comigo, aqui mesmo nesta fbrica, aos 12 anos. - Seu terceiro dedo, o anular, no passava de um coto feio. Ele viu a expresso de irritao do conde Maklakov, que no gostava de ser lembrado do custo humano de seus lucros. J o olhar que recebeu da princesa Bea era um misto de repulsa e fascnio, e Grigori se perguntou se ela cultivava algum interesse excntrico pela pobreza e pelo sofrimento. No era comum ver uma dama visitando uma fbrica.
Ele fez um sinal para Konstantin, que desligou o torno.
-		Em seguida, as dimenses da roda so verificadas com um compasso de calibre. - Ele ergueu a ferramenta em questo. - As rodas de um trem devem ter o tamanho exato. Se o dimetro variar mais de um milmetro e meio, aproximadamente a largura do grafite de um lpis, a roda tem que ser refundida e refeita.
Com um russo capenga, Fitzherbert perguntou:
-		Quantas rodas vocs fabricam por dia?
-		Em mdia seis ou sete, descontando as que no passam pelo controle.
-		E quantas horas vocs trabalham? - quis saber o americano, Dewar.
-		Das seis da manh s sete da noite, de segunda a sbado. No domingo, somos liberados para ir  missa.
Um menino de uns oito anos entrou correndo na seo de rodas, perseguido

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por uma mulher aos gritos - provavelmente sua me. Grigori tentou agarr-lo para que no se aprojximasse da fornalha. O menino se esquivou e trombou com a princesa Bea, sua cabea de cabelos  escovinha golpeando-a nas costelas com um baque audvel. Ela soltou um arquejo de dor. O menino parou, parecendo zonzo. Furiosa a princesa ergueu o brao e deu-lhe um tapa to forte no rosto que ele titubeou. Grigori chegou a achar que a criana fosse cair no cho. O americano disse algo rspido em ingls, parecendo surpreso e indignado. No instante seguinte, a me recolheu o menino em seus braos fortes e virou-se para ir embora.
Kanin, o supervisor, estava com uma cara assustada, pois sabia que poderia ser
responsabilizado por aquilo.
-		Vossa Alteza se machucou? - perguntou ele  princesa.
A princesa Bea estava visivelmente irada, mas respirou fundo e disse:
-		No foi nada.
Seu marido e o conde Maklakov se aproximaram dela com ar preocupado. Apenas Dewar continuou onde estava, com uma careta de reprovao e repulsa estampada no rosto. Havia ficado chocado com o tapa, imaginou Grigori, perguntando-se se todos os americanos tinham o mesmo corao mole. Um tapa no era nada: quando eram crianas, Grigori e o irmo tinham sido aoitados com varas naquela fbrica.
Os visitantes comearam a se dispersar. Grigori ficou com medo de no ter outra chance de fazer perguntas ao turista de Buffalo. Reunindo coragem, tocou a manga de Dewar. Um nobre russo teria reagido com indignao, dando-lhe um empurro ou um tapa por sua insolncia, mas o americano simplesmente se virou com um sorriso educado.
-		O senhor  de Buffalo, Nova York? - perguntou Grigori.
-		Isso mesmo.
-		Meu irmo e eu estamos guardando dinheiro para ir para os Estados Unidos. Ns vamos morar em Buffalo.
-		Por que escolheram essa cidade?
-		Aqui em So Petersburgo tem uma famlia que consegue os documentos necessrios... por um preo,  claro... e nos prometeu um emprego com parentes deles em Buffalo.
- Que famlia  essa? So os Vyalov. - Embora tambm tivessem negcios lcitos, os Vyalov eram uma  gangue de bandidos. No eram as pessoas mais dignas de confiana do mundo, de modo que Grigori queria verificar por conta prpria o que haviam lhe dito. - Senhor, a famlia Vyalov, de Buffalo, Nova York,  mesmo rica e importante?

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-		Sim - respondeu Dewar. - Josef Vyalov emprega vrias centenas de pessoas em seus hotis e bares.
-		Obrigado. - Grigori estava aliviado. -  muito bom saber disso.
A lembrana mais antiga de Grigori era a do dia em que o czar fora visitar Bulovnir. Ele tinha seis anos..
Os moradores do vilarejo haviam passado muitos dias sem falar em outra coisa. Todos acordaram bem cedo, embora o czar obviamente fosse tomar seu caf da manh antes de partir, de modo que jamais chegaria l antes do meio da manh. O pai de Grigori retirou a mesa de sua casa de um s cmodo para coloc-la  beira da rua. Sobre ela, disps um po inteiro, um buqu de flores e um pequeno saleiro, explicando ao filho mais velho que aqueles eram os smbolos russos tradicionais de boas-vindas. A maioria dos outros moradores do vilarejo fez a mesma coisa. A av de Grigori havia posto um leno amarelo novo na cabea.
Era um dia seco de incio de outubro, antes da chegada do frio rigoroso do inverno. Os camponeses se puseram a esperar de ccoras. Os ancios do vilarejo andavam de um lado para outro vestindo suas melhores roupas, com ares de gente importante, embora esperassem como todo mundo. Grigori logo ficou entediado e comeou a brincar na terra batida ao lado da casa. Seu irmo, Lev, tinha apenas um ano e ainda mamava no peito da me.
O meio-dia passou, mas ningum quis entrar em casa para preparar o almoo por medo de perder a passagem do czar. Grigori tentou comer um pouco do po que estava sobre a mesa e levou um tapa na cabea, mas sua me lhe trouxe uma tigela de mingau frio.
Grigori no sabia ao certo quem ou o que era o czar. Sempre o mencionavam na igreja como algum que amava todos os camponeses e que velava o sono deles, ento decerto era um personagem  altura de So Pedro, Jesus e o anjo Gabriel. Grigori se perguntou se ele teria asas ou uma coroa de espinhos, ou se usava apenas um casaco bordado como um dos ancios do vilarejo. De toda forma, estava claro que as pessoas eram abenoadas pelo simples fato de v-lo, igualzinho s multides que seguiam Jesus.
A tarde j ia avanada quando uma nuvem de poeira surgiu no horizonte. Grigori pde sentir as vibraes do cho sob suas botas de feltro, e logo ouviu o rufar dos cascos. Os aldees se ajoelharam. Grigori se ajoelhou ao lado da av.

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Os ancios se deitaram na rua de bruos, suas testas tocando o solo, da mesma forma que haviam feito durante a visita do prncipe Andrei e da princesa Bea.
Primeiro surgiram os batedores, seguidos por uma carruagem fechada puxada por quatro cavalos. Eram cavalos imensos, os maiores que Grigori j vira, e stavam correndo a toda a velocidade, com os flancos reluzindo de suor e as bocas espumando ao redor dos freios. Os ancios perceberam que os animais no iriam parar e saram depressa do caminho antes de serem pisoteados. Grigori soltou um grito de medo, mas ningum conseguiu ouvi-lo. Quando a carruagem passou por eles, seu pai exclamou:
- Vida longa ao czar, pai de seu povo!
Quando terminou de gritar, a carruagem j estava deixando o vilarejo para trs. Por causa da poeira, Grigori no conseguira ver os passageiros. Quando se deu conta de que havia perdido a oportunidade de ver o czar e, portanto, no receberia nenhuma bno, desatou a chorar.
Sua me pegou o po que estava sobre a mesa, partiu um pedao e deu para o filho comer, e ele se sentiu melhor.

IV

Quando o turno da Metalrgica Putilov chegava ao fim, s sete da noite, Lev em geral saa para jogar cartas com os amigos ou beber com alguma de suas namoradas tranquilas. Grigori muitas vezes ia assistir a algum tipo de reunio: uma palestra sobre atesmo, um grupo de discusso socialista, um teatro de sombras sobre terras distantes, um recital de poesia. Naquela noite, contudo, ele no tinha nada para fazer. Voltaria para casa, prepararia um guisado para o jantar, deixaria um pouco na panela para Lev comer mais tarde e iria para a cama cedo.
A fbrica ficava nos subrbios ao sul de So Petersburgo, e sua profuso de chamins e barraces ocupava um vasto terreno s margens do mar Bltico. Muitos dos operrios moravam na fbrica, alguns em alojamentos, outros dormindo ao lado das mquinas. Era por isso que havia tantas crianas por ali.
Grigori estava entre os que tinham uma casa fora da fbrica. Em uma sociedade socialista, ele sabia, as casas dos operrios eram planejadas ao mesmo tempo que as fbricas; porm o fortuito capitalismo russo havia deixado milhares de pessoas sem lugar para morar. Grigori tinha um bom salrio, mas morava em um apartamento de um cmodo a meia hora a p da fbrica. Ele sabia que em Buffalo
Pees tinham eletricidade e gua encanada em casa. Ouvira dizer que alguns
 
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tinham at seu prprio telefone, mas isso parecia absurdo, como dizer que as ruas eram caladas de ouro.
Ver a princesa Bea o havia levado de volta  prpria infncia. Enquanto percorria as ruas congeladas, ele se recusou a se deixar levar pela insuportvel lembrana que ela provocava. Mesmo assim, pensou no casebre de madeira em que morava, tornando a ver o oratrio onde ficavam pendurados os cones e, logo em frente, o canto em que dormia  noite, em geral ao lado de uma cabra ou de um bezerro. Sua lembrana mais vvida era algo que mal percebia na poca: o cheiro. Ele vinha do braseiro, dos animais, da fumaa preta da lamparina de querosene e do tabaco caseiro que seu pai fumava enrolado em papel-jornal. As janelas eram calafetadas com trapos ao redor dos batentes para impedir que o frio entrasse, o que deixava o ar pesado. Ele agora podia sentir esse cheiro em sua imaginao, enchendo-o de saudade dos dias anteriores ao pesadelo, a ltima vez em sua vida em que se sentira seguro.
No muito longe da fbrica, ele viu algo que o fez parar. Na poa de luz lanada por um poste de rua, dois policiais, vestidos com uniformes pretos de colarinhos e punhos verdes, interrogavam uma jovem. O casaco feito em casa e a forma como ela havia amarrado o leno na cabea com um n na nuca indicavam que fosse uma camponesa recm-chegada  cidade.  primeira vista, Grigori avaliou que tivesse uns 16 anos - a mesma idade que ele tinha quando perdeu os pais.
O policial atarracado falou alguma coisa, dando uns tapinhas no rosto da menina. Ela se encolheu e seu parceiro riu. Grigori se lembrou de como fora maltratado por todo tipo de autoridade quando era um rfo de 16 anos e se compadeceu daquela menina vulnervel. Mesmo sabendo que poderia se arrepender, aproximou-se do pequeno grupo. Apenas para ter o que dizer, falou:
-		Se a senhorita estiver procurando a Metalrgica Putilov, eu posso lhe mostrar o caminho.
O policial atarracado riu e disse:
-		Livre-se dele, Ilya.
Seu companheiro tinha uma cabea pequena e um rosto mau.
-		Suma daqui, seu lixo - disse ele.
Grigori no teve medo. Era alto e forte e tinha os msculos definidos pelo trabalho braal constante. Desde menino participava de brigas de rua e fazia muitos anos que no perdia uma. Lev era como ele. Mesmo assim, era melhor no irritar a polcia.
-		Sou contramestre na fbrica - disse ele  menina. - Se estiver procurando trabalho, posso ajudar.
 
100


A menina lanou-lhe um olhar agradecido.
Um contramestre no  ningum - falou o policial atarracado, olhando diretamente para Grigori pela primeira vez.  luz amarelada de querosene do poste, Grigori reconheceu o rosto redondo com sua expresso de agressividade estpida O homem era Mikhail Pinsky, capito daquele distrito policial. O corao de Grigori se encolheu dentro do peito. Puxar briga com o capito do distrito era uma loucura - mas ele j havia ido muito longe para voltar atrs.
A menina ento falou, e sua voz mostrou a Grigori que ela estava mais para os
20 anos do que para os 16.
-		Obrigada, senhor, vou acompanh-lo.
Era uma jovem bonita, percebeu ele, com traos delicados e uma boca larga, sensual.
Grigori olhou em volta. Infelizmente, a rua estava deserta: ele havia sado da fbrica alguns minutos depois do movimento das sete da noite. Sabia que deveria recuar, mas no podia abandonar a moa.
-		Deixe-me levar a senhorita at o escritrio da fbrica - falou, embora o escritorio na verdade j estivesse fechado.
-		Ela vem comigo... no , Katerina? - disse Pinsky. Ele ento a apalpou, apertando seus seios atravs do casaco fino e enfiando uma das mos entre as pernas dela.
A moa saltou para trs e disse:
-		Tire suas mos imundas de mim.
Com rapidez e preciso surpreendentes, Pinsky lhe deu um soco na boca.
Ela gritou e sangue esguichou de seu lbio.
Grigori ficou furioso. Mandando a cautela pelos ares, deu um passo  frente e ps uma das mos no ombro de Pinsky, empurrando-o com fora. O policial cambaleou para o lado e caiu sobre um dos joelhos. Grigori se virou para Katerina, que estava chorando.
-		Corra o mais rpido que puder! - disse a ela, e logo depois sentiu um golpe pungente na nuca. O segundo policial, Ilya, havia sacado o cassetete mais depressa do que Grigori esperava. A dor foi excruciante e ele caiu ajoelhado, porm no desmaiou.
Katerina se virou e saiu correndo, mas no foi muito longe. Pinsky estendeu o brao para segurar seu p e ela caiu estatelada no cho.
Grigori girou o corpo e viu o cassetete vindo outra vez em sua direo. Esquivou-se do golpe e ps-se de p com dificuldade. Ilya tornou a golpear e
errou de novo. Grigori mirou um soco na lateral de sua cabea e bateu com toda a fora. Ilya desabou.
 
101


Quando Grigori deu meia-volta, viu Pinsky em p ao lado de Katerina, chutando-a sem parar com as botas pesadas.
Um automvel se aproximou, vindo da direo da fbrica. Ao passar por ali, o
motorista freou com fora e o carro parou cantando pneus debaixo do poste.
Dois passos largos colocaram Grigori logo atrs de Pinsky. Ele fechou os dois
braos em volta do capito de polcia e o prendeu em um abrao de urso, levantando-o do cho. Pinsky sacudiu as pernas e os braos, mas de nada adiantou.
A porta do carro se abriu e, para surpresa de Grigori, dele desceu o americano
de Buffalo.
-		O que est acontecendo aqui? - perguntou ele. Seu rosto jovial, iluminado
pela luz da rua, exibia uma expresso indignada quando ele se dirigiu a Pinsky,
que ainda se contorcia. - Por que est chutando uma mulher indefesa?
Mas que sorte, pensou Grigori. S mesmo um estrangeiro para achar inaceitvel um policial chutar uma camponesa.
A silhueta comprida e magra do supervisor Kanin emergiu do carro atrs
de Dewar.
-		Peshkov, solte o policial - disse ele a Grigori.
Grigori devolveu Pinsky ao cho e o soltou. O policial se virou e Grigori se
preparou para evitar um golpe, mas Pinsky se conteve. Com uma voz cheia de fel,
ele disse:
-		No vou me esquecer de voc, Peshkov. - Grigori soltou um grunhido: o
homem agora sabia seu nome.
Gemendo, Katerina se ps de joelhos. Dewar a ajudou a se levantar com gentileza, perguntando:
-		Est muito ferida, senhorita?
Kanin aparentou constrangimento. Nenhum russo se dirigiria a uma campo-
nesa de forma to corts.
Ilya se levantou, parecendo tonto.
De dentro do carro, ouviu-se a princesa Bea falar algo em ingls, soando irritada e impaciente.
Grigori se voltou para Dewar:
-		Com sua permisso, Excelncia, posso levar esta mulher a um mdico aqui
perto.
Dewar olhou para Katerina.
-		A senhorita est de acordo?
-		Sim, senhor - disse ela atravs dos lbios ensanguentados.
-		Muito bem - disse ele.
 
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Grigori pegou o brao da moa, conduzindo-a para longe dali antes que
algum tivesse outra ideia.
Na esquina, deu uma olhada para trs. Os dois policiais discutiam com Dewar
e Kanin debaixo do poste.
Ainda segurando o brao de Katerina, ele comeou a pux-la mais depressa, embora a jovem estivesse mancando. Era preciso aumentar a distncia que os
separava de Pinsky.
Assim que dobraram a esquina, ela disse:
-		Eu no tenho dinheiro para ir ao mdico.
-		Posso lhe emprestar algum - disse ele com uma pontada de culpa: o dinheiro que tinha era para sua viagem aos Estados Unidos, no para ajudar moas bonitas
feridas.
Ela o avaliou com o olhar.
-		No  de mdico que eu preciso - falou. - Preciso  de um emprego. O senhor poderia me levar at o escritrio da fbrica?
Que moa corajosa, pensou ele com admirao. Havia acabado de apanhar da polcia e tudo em que conseguia pensar era arrumar um emprego.
-		O escritrio est fechado. Eu s disse aquilo para confundir os policiais. Mas posso levar a senhorita at l pela manh.
-		Eu no tenho onde dormir. - disse ela, lanando-lhe um olhar cauteloso que ele no entendeu totalmente. Estaria se oferecendo? Muitas camponesas que iam para a cidade acabavam fazendo isso. Mas talvez aquele olhar quisesse dizer o contrrio: que ela queria uma cama, porm no estava disposta a pagar com favores sexuais.
-		Na casa onde moro tem um quarto onde vivem vrias mulheres - disse ele. - So trs ou mais dormindo na mesma cama, e sempre conseguem arrumar espao para mais uma.
-		 muito longe?
Ele apontou para a frente, na direo de uma rua que margeava o talude de uma ferrovia.
-		Logo ali.
A jovem assentiu com a cabea e, pouco depois, ambos entraram na casa. Grigori ocupava um quarto de fundos no primeiro andar. A cama estreita que ele  dividia com Lev ficava encostada em uma das paredes. Havia uma lareira com apoio para manter objetos e alimentos aquecidos, alm de uma mesa com duas cadeiras junto a janela que dava para a ferrovia. Uma mala de cabea para baixo serrvia de criado-mudo e havia ainda uma jarra e uma bacia para a toalete.

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Katerina inspecionou o lugar com um olhar demorado, absorvendo tudo, e ento disse:
-		Voc mora sozinho aqui?
-		No... eu no sou rico! Divido com meu irmo. Ele vai chegar mais tarde.
Ela assumiu um ar pensativo. Talvez com medo de que esperassem que fosse
para a cama com os dois. Para tranquiliz-la, Grigori falou:
-		Quer que eu lhe apresente s mulheres da casa?
-		Haver tempo de sobra para isso. - A jovem se sentou em uma das cadeiras. - Deixe-me descansar um pouco.
-		Claro. - A lareira estava pronta para ser acesa: ele sempre a preparava pela manh, antes de sair para o trabalho. Acendeu os gravetos com um fsforo.
Ouviu-se um barulho estrondoso, e Katerina pareceu assustada.
-		 s um trem - explicou Grigori. - Estamos bem ao lado dos trilhos.
Ele derramou gua da jarra dentro da bacia, colocando-a para esquentar no apoio da lareira. Sentou-se de frente para Katerina e ficou olhando para ela. A moa tinha cabelos louros escorridos e a pele clara. No incio, a achara bastante bonita, mas agora via que, na verdade, ela era linda, com um formato de corpo um tanto oriental, o que sugeria antepassados siberianos. Seu rosto tambm tinha muita personalidade: a boca larga era sedutora, mas tambm firme, e parecia haver uma fora de vontade de ferro em seus olhos azul-esverdeados.
Os lbios dela estavam comeando a inchar por causa do soco de Pinsky.
-		Como est se sentindo? - perguntou Grigori.
Ela passou as mos pelos ombros, costelas, quadris e coxas.
-		Estou cheia de hematomas - respondeu. - Mas voc tirou aquele animal de cima de mim antes que ele pudesse me machucar de verdade.
A moa no estava disposta a sentir pena de si mesma. Grigori gostou disso.
-		Quando a gua esquentar, vou limpar esse sangue - disse ele.
Grigori guardava a comida em uma marmita de lata. Tirou l de dentro um joelho de porco, que jogou na panela, acrescentando em seguida um pouco de gua da jarra. Enxaguou um rabanete e comeou a fati-lo, juntando-o  carne. Quando voltou a olhar para Katerina, notou que ela parecia surpresa.
-		Seu pai cozinhava? - quis saber ela.
-		No - respondeu Grigori, sendo levado, num piscar de olhos, de volta  poca em que tinha 11 anos. No pde mais resistir s lembranas terrveis da princesa Bea. Depositou a panela sobre a mesa com fora e ento se sentou na beirada da cama, enterrando o rosto nas mos, soterrado pela tristeza. - No - repetiu. - Meu pai no cozinhava.

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V


Eles chegaram  aldeia ao raiar do dia: o capito responsvel pelas terras da regio
e seis cavaleiros. Assim que Ma escutou o trotar dos cascos, pegou Lev no colo. O
menino de 6 anos era pesado, mas a me tinha ombros largos e braos fortes. Depois ela agarrou a mo de Grigori e saiu correndo da casa. Os cavaleiros estavam sendo conduzidos pelos ancios da aldeia, que deviam t-los encontrado nos arredores. Como a casa tinha apenas uma porta, a famlia de Grigori no tinha como sair sem ser vista. Assim que eles apareceram, os soldados esporearam seus cavalos.
Ma deu a volta na casa correndo, espantando galinhas e assustando a cabra, que partiu a corda que a prendia e tambm desembestou. Ma atravessou a toda o terreno baldio nos fundos da casa em direo ao bosque. Talvez pudessem ter escapado, mas, de repente, Grigori percebeu que sua av no estava ali. Ele se deteve e largou a mo da me.
-		Esquecemos a vov! - exclamou.
-		Ela no consegue correr! - gritou-lhe a me de volta.
Grigori sabia disso. Sua av mal conseguia andar. Mesmo assim, achava que no deveriam deix-la para trs.
-		Vamos, Grishka! - gritou Ma.
Ela voltou a correr com Lev ainda nos braos. O caula quela altura chorava de medo. Grigori foi atrs dela, mas o atraso tinha sido fatal. Os cavaleiros os alcanaram, cercando-os pelos dois lados. O caminho para o bosque estava bloqueado. Desesperada, Ma disparou em direo ao lago, mas seus ps se enterraram na lama, seus passos ficaram mais lentos e, por fim, ela caiu dentro d agua.
Os soldados deram gargalhadas.
Eles amarraram as mos de Ma e fizeram-na marchar de volta  casa.
-		No se esqueam de trazer os meninos tambm - disse o capito. - Ordens do prncipe.
O pai de Grigori tinha sido levado embora na semana anterior, junto com dois outros homens. Na vspera, os carpinteiros particulares do prncipe Andrei haviam construdo um cadafalso na campina norte. Agora, enquanto seguia a me at l, Grigori viu trs homens em p no tablado, com as mos e os ps amarrados e cordas em volta do pescoo. Ao lado do cadafalso, havia um padre.
-		No! - gritou Ma, tentando se soltar da corda que lhe prendia as mos.
Um dos cavaleiros sacou uma espingarda do coldre preso  sela e, virando-a,
golpeou o rosto de Ma com a coronha de madeira. Ela parou de se debater e se Ps a soluar.

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Grigori sabia o que significava aquilo: seu pai iria morrer ali. J havia visto ladres de cavalos serem enforcados pelos ancios da aldeia, embora no tivesse sido a mesma coisa, pois eram homens que ele no conhecia. Foi invadido por um terror que deixou seu corpo inteiro dormente e fraco.
Talvez acontecesse algo que pudesse evitar a execuo. Se era mesmo verdade que o czar protegia seu povo, talvez ele interviesse. Ou quem sabe um anjo. Grigori sentiu o rosto molhado e percebeu que estava chorando.
Ele e a me foram obrigados a ficar bem em frente ao cadafalso. Os demais aldees se reuniram ao seu redor. Assim como Ma, as mulheres dos dois outros homens tinham sido arrastadas at l, aos gritos e aos prantos, com as mos amarradas e as crianas agarradas s suas saias uivando de terror.
Uma carruagem fechada estava parada no caminho de terra batida depois do porto da campina, seus dois cavalos baios pastando a grama ao redor. Depois de todos chegarem, uma figura de barba preta surgiu de dentro da carruagem usando um casaco escuro comprido: era o prncipe Andrei. Ele se virou e deu a mo  irm mais nova, princesa Bea, cujos ombros estavam cobertos por peles para proteg-los do frio da manh. Grigori no pde deixar de notar que a princesa era linda, com a pele clara e os cabelos louros, idntica aos anjos que ele imaginava, muito embora ela obviamente fosse um demnio.
O prncipe se dirigiu aos aldees.
-		Esta campina pertence  princesa Bea - disse ele. - Ningum pode pr seu gado para pastar aqui sem a permisso dela. Fazer isso  o mesmo que roubar o pasto da princesa.
Um burburinho indignado atravessou a multido. Apesar do que ouviam na igreja todos os domingos, ningum acreditava nesse tipo de propriedade privada. Eles respeitavam uma moralidade mais antiga, camponesa, segundo a qual a terra pertencia a quem a cultivava.
O prncipe apontou para os trs homens no cadafalso.
-		Esses homens desobedeceram  lei... no uma vez, mas vrias. - A afronta que sentia deixava sua voz estridente como a de uma criana cujo brinquedo foi roubado. - Pior ainda: eles disseram que a princesa no tinha o direito de impedi-los e que os campos no usados pelo proprietrio deveriam estar  disposio dos camponeses pobres. - Grigori tinha ouvido o pai dizer esse tipo de coisa muitas vezes. - Por causa disso, homens de outros vilarejos comearam a pr seu gado para pastar em terras pertencentes  nobreza. Em vez de se arrepender de seus pecados, esses trs homens ainda transformaram seus vizinhos em pecadores!  por isso que eles foram condenados  morte. - Ele fez um sinal com a cabea para o padre.
 
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cerdote galgou os degraus improvisados e, em voz baixa, falou com um homens de cada vez. O primeiro aquiesceu com uma expresso vazia. O gundo chorou e comeou a rezar em voz alta. O terceiro, pai de Grigori, cuspiu no rosto do padre. Ningum ficou chocado: os vilarejos no gostavam do clero e Grigori j escutara o pai dizer que os padres contavam  polcia tudo o que ouviam no confessionrio.
Assim que o padre desceu os degraus, o prncipe Andrei meneou a cabea a um dos criados postado ao seu lado com uma marreta. Somente ento Grigori notou que os trs condenados estavam em p sobre uma plataforma de madeira articulada de forma grosseira, sustentada por um simples pedao de pau. Percebeu tambm, aterrorizado, que a marreta estava prestes a solt-lo.
Seria agora que um anjo deveria aparecer, pensou ele.
Os aldees gemeram em unssono. As mulheres dos condenados comearam a gritar e, desta vez, os soldados no as impediram. O pequeno Lev estava histrico. Ele provavelmente no entendia o que iria acontecer, pensou Grigori, mas estava assustado com os gritos da me.
Pa no demonstrava emoo alguma. Seu rosto estava impassvel. Ele tinha o olhar distante, de quem aguarda seu destino. Grigori desejava ter aquela mesma fora. Lutou para manter o controle, por mais que sentisse vontade de chorar como Lev. No conseguiu conter as lgrimas, mas mordeu os lbios e se manteve to calado quanto o pai.
O servo ergueu a marreta, encostando-a no pedao de pau para calcular a distncia. Ento a jogou para trs e desferiu o golpe. O pedao de pau voou longe. A plataforma despencou com um estalo. Os trs homens caram e pararam no ar com um tranco, a queda interrompida pelas cordas presas em volta de seus pescoos.
Grigori no conseguiu desviar os olhos. Ficou encarando o pai. Pa no morreu na hora. Abriu a boca para tentar respirar ou gritar, mas no conseguiu fazer nenhuma das duas coisas. Seu rosto ficou vermelho e ele lutou contra as cordas
que o prendiam. Isso pareceu durar muito tempo, at seu rosto ficar ainda mais vermelho.
Ento a pele do pai adquiriu um tom azulado, e seus movimentos foram ficando mais fracos. Por fim, ele se imobilizou.
Os gritos de Ma cessaram e ela se ps a soluar.
O padre comeou a rezar em voz alta, mas os aldees o ignoraram e, umdepois do outro, deram as costas para os trs homens mortos.
O prncipe e a princesa tornaram a subir na carruagem e, logo em seguida, o cocheiro estalou o chicote, fazendo-a partir.

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VI


Quando terminou de contar a histria, Grigori j havia se acalmado. Passou a manga da camisa no rosto para enxugar as lgrimas e ento voltou sua ateno para Katerina. Ela o escutara em um silncio compassivo, mas no estava chocada Provavelmente tinha presenciado cenas parecidas: enforcamentos, aoitamentos e mutilaes eram punies corriqueiras nos vilarejos.
Grigori ps a bacia de gua morna sobre a mesa e apanhou um pano limpo. Katerina inclinou a cabea para trs, enquanto ele pendurava a lamparina de querosene em um gancho na parede para poder enxergar melhor.
Havia um corte em sua testa, um hematoma em sua bochecha e seus lbios estavam inchados. Ainda assim, ver o rosto dela de perto deixou Grigori sem flego. Katerina o encarou com um olhar sincero e destemido que o deixou encantado.
Ele mergulhou uma das pontas do pano na gua morna.
-		Seja delicado - disse ela.
-		 claro. - Ele comeou limpando sua testa. Depois de retirar o sangue, viu que o ferimento era s um arranho.
-		Bem melhor - falou Katerina.
Enquanto Grigori prosseguia, ela ficou observando seu rosto. Quando terminou de lavar-lhe as faces e o pescoo, ele disse:
-		Deixei a parte mais dolorida para o final.
-		No tem problema - disse ela. - Voc tem a mo muito leve. - Apesar disso, ela fez uma careta quando o pano tocou seus lbios inchados.
-		Perdo - falou ele.
-		Continue.
Ao limpar as feridas, ele viu que j comeavam a cicatrizar. Katerina tinha dentes de menina, brancos e simtricos. Ele limpou os cantos de sua boca larga. Ao se inclinar para junto dela, pde sentir no rosto seu hlito morno.
Depois de terminar, foi tomado por uma sensao de desapontamento, como se esperasse por algo que no tinha acontecido.
Recostou-se na cadeira e enxaguou o pano na gua agora escura com o sangue dela.
-		Obrigada - agradeceu Katerina. - Voc tem mos muito boas.
Ele percebeu que seu corao estava disparado. No era a primeira vez que limpava os ferimentos de algum, mas jamais experimentara aquela sensao de vertigem. Sentiu que talvez estivesse prestes a cometer uma besteira.
 
108


Abriu a janela e despejou para fora a gua da bacia, deixando uma mancha cor-de-rosa na neve que cobria o quintal.
Uma ideia maluca lhe passou pela cabea: talvez Katerina fosse um sonho. Ele virou quase esperando ver a cadeira vazia. Mas ali estava ela, encarando-o com aqueles olhos azul-esverdeados, e Grigori percebeu que no queria que ela
fosse embora nunca.
Ocorreu-lhe que talvez estivesse apaixonado.
Nunca havia pensado coisa parecida. Em geral, estava ocupado demais cuidando de Lev para correr atrs de mulheres. No era virgem: fora para a cama com trs mulheres diferentes. Mas no tinham sido experincias agradveis, talvez porque ele no gostasse muito de nenhuma das trs.
Mas agora, pensou ele, trmulo, o que mais queria no mundo era se deitar com Katerina ha cama estreita encostada na parede, beijar seu rosto machucado e lhe
dizer...
E lhe dizer que a amava.
No seja idiota, disse a si mesmo. Faz apenas uma hora que voc a conhece. O que ela quer de voc no  amor, mas sim algum dinheiro emprestado, um emprego e um lugar para dormir. Ele fechou a janela com fora.
-		Ento voc cozinha para seu irmo e tem mos delicadas - comentou ela -, mas ainda assim  capaz de nocautear um policial com um nico soco.
Ele no soube o que dizer.
-		Voc me contou como seu pai morreu - continuou ela. - Mas a sua me tambm morreu quando voc era pequeno... no foi?
-		Como adivinhou? Katerina deu de ombros.
-		Porque voc teve que se transformar em me.


VII


A memorreu no dia 9 de janeiro de 1905, pelo antigo calendrio russo. Era um domingo, e nos meses e anos que se seguiram essa data passou a ser conhecida como Domingo Sangrento.
Grigori tinha 16 anos e Lev, 11. Assim como Ma, ambos trabalhavam na metalrgica Putilov. Grigori era aprendiz de fundidor, enquanto Lev era faxineiro. Naquele ms de janeiro, todos os trs estavam em greve, junto com outros 100 operrios de So Petersburgo, reivindicando uma jornada de trabalho de oito
 
109


horas e o direito de se sindicalizar. Na manh do dia 9, me e filhos vestiram suas melhores roupas e saram de mos dadas, caminhando com dificuldade sobre a neve recente at uma igreja prxima  metalrgica. Depois da missa, foram se unir aos milhares de trabalhadores que seguiam em passeata, vindos de todos os pontos da cidade, rumo ao Palcio de Inverno.
-		Por que temos que participar da passeata? - resmungou o pequeno Lev. Ele teria preferido jogar futebol em um beco.
-		Por causa do seu pai - disse Ma. - Porque os prncipes e princesas so assassinos desalmados. Porque precisamos derrubar o czar e todos os da sua laia. Porque eu no vou descansar at a Rssia ser uma repblica.
Fazia um dia perfeito em So Petersburgo, frio mas seco, e o sol aquecia o rosto de Grigori da mesma forma que a sensao de aliana em prol de uma causa justa esquentava seu corao.
O lder deles, padre Gapon, parecia um profeta do Antigo Testamento com sua barba comprida, sua linguagem bblica e a luz gloriosa que emanava de seus olhos. Ele no era um revolucionrio: as reunies de seus grupos de apoio, autorizadas pelo governo, sempre comeavam com o pai-nosso e terminavam com o hino nacional.
-		Hoje entendo em que o czar pretendia transformar Gapon - disse Grigori a Katerina nove anos depois, em seu quartinho com vista para a ferrovia. - Em uma vlvula de escape, destinada a canalizar a presso por reformas para atividades inofensivas como chs e bailes campestres. Mas no funcionou.
Vestido com uma tnica branca comprida e carregando um crucifixo, Gapon conduziu a procisso pela estrada de Narva. Grigori, Lev e Ma seguiam bem ao seu lado: ele incentivava as famlias a ficarem na frente do cortejo, dizendo que os soldados jamais disparariam contra crianas. Atrs deles, dois vizinhos carregavam um grande retrato do czar. Gapon lhes dizia que o czar era o pai de seu povo. Ele iria escutar seus clamores, derrotar seus ministros cruis e ceder s exigncias sensatas dos trabalhadores. "Nosso Senhor Jesus Cristo falou: 'Que venham a mim as criancinhas', e o czar diz a mesma coisa", exclamava Gapon, e Grigori acreditava nele.
Eles haviam chegado ao Porto de Narva, um imenso arco do triunfo, e Grigori se lembrava de ter erguido os olhos para a esttua de uma carruagem puxada por seis cavalos gigantescos. Ento um esquadro de cavalaria atacou os manifestantes, quase como se um dos cavalos de bronze do monumento tivesse ganhado vida com violncia.
Algumas pessoas saram correndo, outras sucumbiram aos golpes dos cascos dos animais. Grigori congelou onde estava, aterrorizado, assim como Ma e Lev.
 
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Os soldados no sacaram nenhuma arma e pareciam apenas querer afugentar os participantes, porm havia trabalhadores demais e, em poucos minutos, os soldados fizeram seus cavalos darem meia-volta e foram embora. Quando a passeata foi retomada, a atmosfera havia mudado. Grigori sentiu que o dia talvez no fosse terminar de forma pacfica. Pensou nas foras reunidas contra eles: a nobreza, os ministros, o Exrcito. At onde eles iriam para
impedir o povo de falar com o czar?
Sua resposta chegou quase na mesma hora. Ao olhar por cima das cabeas  sua frente, viu uma linha de soldados de infantaria e percebeu, com um calafrio de medo, que eles estavam preparados para atirar.
 medida que as pessoas entendiam o que as aguardava, a marcha foi desacelerando. O padre Gapon, que estava bem perto de Grigori, virou-se e gritou para seus seguidores:
-		O czar jamais permitir que o Exrcito atire em seu amado povo! Ouviu-se uma barulheira ensurdecedora, como uma chuva de granizo sobre um
telhado de zinco: os soldados haviam disparado uma salva de tiros. O cheiro acre de plvora fez as narinas de Grigori arderem e ele sentiu o corao se apertar de medo.
O		padre gritou:
-		No se preocupem... eles esto atirando para cima!
Outra salva ecoou, mas ningum pareceu ter sido atingido. Mesmo assim, o pavor de Grigori era tanto que suas entranhas se contraram.
Ento houve uma terceira salva e, desta vez, as balas no subiram de forma inofensiva em direo ao cu. Grigori ouviu gritos e viu pessoas caindo. Confuso, olhou em volta por alguns instantes, mas ento Ma o empurrou com violncia enquanto gritava:
-		Deite-se no cho!
Ele se atirou de bruos. Ao mesmo tempo, Ma jogou Lev no cho e caiu por cima dele.
Ns vamos morrer, pensou Grigori, as batidas de seu corao soando mais alto do que as prprias armas.
Os disparos prosseguiram sem trgua, fazendo um estardalhao apavorante, mpossivel de abafar.  medida que outros fugiam, em pnico, Gregori foi pisoteado por botas pesadas, porm Ma protegeu sua cabea e a de Lev. Os trs ficaramdeitados  ali, tremendo, enquanto tiros e gritos ecoavam acima deles.
Entoo tiroteio cessou. Ma se mexeu e Grigori levantou a cabea para olhar. Pessoas corriam em todas as direes, gritando umas com as outras, mas a algazarra foi diminuindo.
 
111


-		Levantem-se, vamos - disse Ma.
Os trs ficaram de p e se afastaram depressa da estrada, pulando por cima de
corpos inertes e contornando os feridos ensanguentados. Chegaram a uma rua
menor e diminuram o ritmo. Lev sussurrou para Grigori:
-		Eu fiz xixi na cala! No conte para Ma!
Ma estava possessa.
-		Ns VAMOS falar com o czar! - gritou ela, fazendo as pessoas pararem para
olhar seu rosto de camponesa e seu olhar intenso. Ma tinha o peito largo, e sua
voz ribombou pela rua. - Eles no podem nos impedir! Precisamos ir at o
Palcio de Inverno! - Algumas pessoas vibraram, outras assentiram com a cabea. Lev comeou a chorar.
Ao ouvir essa histria, nove anos depois, Katerina comentou:
-		Por que ela fez isso? Deveria ter levado os filhos para casa, garantido a segurana deles!
-		Ma costumava dizer que no queria que tivssemos a mesma vida que ela -
respondeu Grigori. - Achava que seria melhor para todos ns morrer do que
desistir da esperana de uma vida mais justa, imagino.
Katerina adotou uma expresso pensativa.
-		Talvez isso seja coragem.
-		 mais do que coragem - disse Grigori com firmeza. -  herosmo.
-		E depois, o que aconteceu?
Junto com milhares de outros, eles haviam chegado ao centro da cidade. 
medida que o sol se erguia mais alto acima da cidade coberta de neve, Grigori
desabotoou o casaco e desatou o cachecol. A caminhada era longa para as pernas
curtas de Lev, mas o menino estava abalado e assustado demais para reclamar.
Finalmente, eles chegaram  Nevsky Prospekt, o amplo bulevar que atravessava o corao da cidade. J havia uma multido ali. Bondes e nibus passavam de
um lado para outro e cabriols zuniam perigosamente em todas as direes -
naquela poca no havia txis motorizados, recordou Grigori.
Os trs toparam com Konstantin, torneiro mecnico da Metalrgica Putilov.
Com o semblante fechado, o torneiro disse a Ma que manifestantes haviam sido
mortos em outras partes da cidade. Contudo, ela no diminuiu o passo - e a multido parecia igualmente decidida. Foram passando sem titubear por lojas que
vendiam pianos da Alemanha, chapus fabricados em Paris e vasos de prata especiais para abrigar rosas de estufa. Grigori ouvira dizer que, nas joalherias daquele
bairro, um nobre poderia gastar mais dinheiro comprando uma bugiganga para
a amante do que um operrio conseguia ganhar durante a vida inteira. Eles

112
 

passaram pelo ciijema Soleil, que Grigori sonhava em visitar. Os ambulantes
tiraram proveito da situao, vendendo ch em samovares e bales coloridos para as crianas.
No final da rua, chegaram a trs grandes marcos da cidade de So Petersburgo,situados lado a lado na margem do rio Neva, ento congelado: a esttua equestre
de Pedro, o Grande, chamada O Cavaleiro de Bronze; o prdio do Almirantado, uma torre alta; e o Palcio de Inverno. Na primeira vez que vira o palcio,
com 12 anos,
Grigori se recusara a acreditar que um prdio to enorme assim,	pudesse de fato ser um lugar em que pessoas moravam. Isso lhe parecia inconcebvel, como algo sado de um conto de fadas, uma espada mgica ou uma
capa de invisibilidade.
A praa em frente ao palcio estava toda branca de neve. Na outra ponta,
enfileirados em frente ao prdio vermelho-escuro, havia soldados de cavalaria,
fuzileiros de casacos compridos e canhes. A multido se aglomerava nas extremidades da praa, mantendo distncia, com medo dos militares; mas um fluxo
constante de recm-chegados vinha das ruas prximas, como os afluentes que
desaguavam no rio Neva, e Grigori no parava de ser empurrado para a frente.
Ele reparou com surpresa que nem todos os presentes eram operrios. Muitos
eram membros da classe mdia, voltando da igreja com seus casacos grossos,
alguns pareciam estudantes e uns poucos at usavam uniformes escolares.
Ma se afastou cautelosamente das armas e entrou no Jardim Alexandrovskii,
um parque em frente ao comprido prdio amarelo e branco do Almirantado.
Outros tiveram a mesma ideia, e aquela parte da multido ganhou vida. O homem
que costumava oferecer passeios de tren s crianas de classe mdia j havia ido
para casa. Todos ali falavam sobre massacres. Por toda a cidade, manifestantes
tinham sido abatidos a tiros e golpeados at a morte pelos sabres dos cossacos.
Grigori conversou com um menino da sua idade e lhe disse o que havia acontecido no Porto de Narva.  medida que os integrantes da passeata descobriam
o que havia acontecido com os outros, ficavam mais irados.
Grigori ergueu os olhos para a ampla fachada do Palcio de Inverno, com suas
centenas de janelas. Onde estaria o czar?
- Mais tarde, ns descobrimos que ele no estava no Palcio de Inverno naquela manh - disse Grigori a Katerina, ouvindo na prpria voz o ressentimento amargo de um devoto desapontado. - No estava sequer na cidade. O pai de seu povo
tinha ido para seu palcio de Tsarskoe Selo passar o fim de semana fazendo caminhadas peio campo e jogando partidas de domin. Mas no sabamos disso, ento
comeamos a cham-lo, rogando que aparecesse para seus sditos fiis.

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A multido cresceu; os clamores pelo czar se tornaram mais insistentes;alguns dos manifestantes comearam a zombar dos soldados. Todos estavam ficando tensos e irritados. De repente, um destacamento de guardas avanou em direo ao jardim, ordenando a todos que sassem. Grigori ficou olhando, apavorado e incrdulo, enquanto eles distribuam chicotadas indiscriminadamente, alguns golpeando com a parte chata da lmina de seus sabres. Sem saber o que fazer olhou para Ma.
-		No podemos desistir agora! - disse ela.
Grigori no sabia o que exatamente eles esperavam que o czar fizesse; apenas tinha certeza, como todos os outros, de que seu monarca daria um jeito de atender s reivindicaes do povo se ao menos soubesse quais eram elas.
Os outros manifestantes estavam to decididos quanto Ma e, embora aqueles que haviam sido atacados pelos guardas tivessem recuado, ningum saiu de onde estava.
Os soldados assumiram posies de tiro.
Vrias das pessoas que estavam mais  frente caram de joelhos, tiraram os gorros e se benzeram.
-		Ajoelhem-se! - disse Ma, ao que os trs se ajoelharam, assim como quase todos  sua volta, at a maior parte da multido assumir uma postura de orao.
O silncio que se fez deixou Grigori com medo. Ele encarou os rifles apontados em sua direo e os fuzileiros o olharam de volta com uma expresso vazia, como esttuas.
Ento Grigori ouviu o som de uma corneta.
Era um sinal. Os soldados dispararam as armas. Ao redor de Grigori, pessoas gritavam e caam. Um menino que havia subido em uma esttua para ver melhor deu um grito e despencou no cho. Uma criana caiu de uma rvore como um passarinho alvejado.
Grigori viu Ma cair de cara no cho. Achando que tinha sido para se esquivar dos tiros, ele fez a mesma coisa. Ento, deitado ao seu lado, olhou para ela e viu o sangue vermelho-vivo sobre a neve em volta da cabea da me.
-		No! - berrou ele. - No!
Lev soltou um grito.
Grigori agarrou os ombros de Ma e puxou-a para cima. Seu corpo estava mole. Ele encarou seu rosto. A princpio, ficou atnito com a imagem que viu. O que era aquilo? No lugar onde deveriam estar sua testa e seus olhos havia apenas uma irreconhecvel massa sanguinolenta.
Foi Lev quem entendeu a verdade.
 
114
 

Ela morreu! - exclamou ele. - Ma morreu, minha me morreu!
Os tiros cessaram. Por toda parte, pessoas corriam, mancavam ou rastejavam
a longe. Grigori tentou pensar. O que deveria fazer? Concluiu que precisava
Tir-la dali. Passou os braos por debaixo dela e a ergueu. Sua me no era leve,
mas ele era forte.
Ele se virou,  procura do caminho de casa. Tinha a viso estranhamente
embaada e percebeu que estava chorando.
- Vamos - disse a Lev. - Pare de berrar. Temos que ir.
 beira da praa, foram parados por um velho cuja pele do rosto se enrugava
em volta de dois olhos marejados. Ele usava um uniforme azul de operrio.
-		Vocs so jovens - disse ele a Grigori. Havia angstia e raiva em sua voz. -
Nunca se esqueam disto - falou. - Nunca se esqueam dos assassinatos cometidos aqui hoje pelo czar.
Grigori aquiesceu.
-		No vou me esquecer, senhor - disse ele.
-		Que voc viva muito - retrucou o velho. - Que viva o suficiente para se vingar do czar coberto de sangue pelo mal que fez hoje.


VIII


- Eu a carreguei por uns dois quilmetros, depois fiquei cansado e subi em um bonde, ainda com ela no colo - disse Grigori a Katerina.
Ela o encarava. Seu lindo rosto machucado estava plido de horror.
-		Voc carregou sua me morta para casa de bonde? Ele deu de ombros.
-		Na poca, eu no tinha ideia de que estava fazendo algo estranho. Ou melhor, tudo o que aconteceu naquele dia foi to bizarro que nada do que eu fazia parecia estranho.
-		E os outros passageiros do bonde?
-		O motorneiro no disse nada. Acho que ficou chocado demais para meexpulsar, e obviamente nem me cobrou passagem... at porque eu no teria mesmo dinheiro para pagar.
-		Ento voc se sentou e pronto?
-		Fiquei sentado ali, com o corpo dela nos braos e Lev chorando ao meu lado. Os passageiros ficaram apenas olhando. Eu no estava ligando para o que eles Pensavam. Estava concentrado no que tinha de fazer, que era levar minha me para casa.

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-		E da voc virou chefe de famlia aos 16 anos.
Grigori aquiesceu. Embora as lembranas fossem dolorosas, a ateno 
de Katerina lhe dava grande prazer. Seus olhos estavam fixos nele e ela o escutava '
boquiaberta, com uma expresso no rosto formoso que era um misto de fascnio
e horror.
-		Minha lembrana mais vvida daquele momento  o fato de ningum ter nos
ajudado - disse ele, tornando a experimentar a sensao de pnico de estar sozinho em um mundo hostil.
Essa lembrana nunca deixava de encher sua alma de raiva. Isso tudo  passado, pensou ele com seus botes. Hoje tenho uma casa, um emprego e meu irmo
cresceu e se tornou um rapaz forte e bonito. Os maus dias acabaram. Mesmo
assim, ele sentia vontade de agarrar algum pelo pescoo - soldado, policial,
ministro do governo ou o prprio czar - e esgan-lo at toda a vida se esvair do
seu corpo. Trmulo, fechou os olhos at a sensao passar.
-		Logo depois do funeral, o senhorio nos expulsou dizendo que no poderamos mais pagar o aluguel. Ainda confiscou nossos mveis, para cobrir os pagamentos atrasados, segundo ele, embora Ma nunca ficasse devendo. Eu fui  igreja
e disse ao padre que no tnhamos onde dormir.
Katerina deu uma risada sarcstica.
-		Posso adivinhar o que aconteceu l.
Ele ficou surpreso.
-		Pode?
-		O padre lhes ofereceu uma cama... a cama dele. Foi o que aconteceu comigo.
-		Foi mais ou menos isso - disse Grigori. - Ele me deu alguns copeques e me
mandou comprar batatas quentes. A loja no ficava onde ele dissera, mas em vez
de procurar voltei correndo para a igreja, porque no tinha gostado da cara dele.
Dito e feito: quando entrei na sacristia, ele estava abaixando as calas de Lev.
Ela assentiu:
-		Os padres tm feito esse tipo de coisa comigo desde os meus 12 anos.
Grigori ficou chocado. Sempre imaginara que aquele padre em especial fosse
ruim. Katerina evidentemente achava que a devassido era a regra.
-		Eles so todos assim? - perguntou com raiva.
-		Pelo que sei, a maioria .
Grigori balanou a cabea, enojado.
-		E sabe o que mais me impressionou? Quando eu o flagrei, ele nem sequer
ficou envergonhado! Pareceu apenas contrariado, como se tivesse sido interrompido enquanto meditava sobre a Bblia.
 
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- o que voc fez?
- Mandei Lev levantar as calas e fomos embora. O padre pediu seus copeques, mas no devolvi-os. Eu lhe disse que aquela era uma esmola para os pobres. Paguei um
pernoite em uma hospedaria com eles.
- E depois?
- Acabei conseguindo um emprego razovel depois de mentir sobre a minha
idade. Arranjei um quarto e aprendi, um dia depois do outro, a ser independente.
-		E hoje voc  feliz?
-		Longe disso. Minha me queria que ns tivssemos uma vida melhor, e eu
vou garantir que isso acontea. Vou embora da Rssia. J guardei a maior parte
do dinheiro. Vou para os Estados Unidos e, quando chegar l, mandarei dinheiro
para a passagem de Lev. No existe czar nenhum nos Estados Unidos... nem
perador ou rei de qualquer tipo. O Exrcito de l no pode simplesmente atirar em quem quiser. Quem manda no pas  o povo!
Ela se mostrou ctica.
-		Voc acredita mesmo nisso?
-		 verdade!
Algum bateu na vidraa. Katerina se assustou - eles estavam no primeiro
andar -, mas Grigori sabia que era Lev. Tarde da noite, quando a porta da casa
ficava trancada, Lev tinha de atravessar a linha do trem at o quintal dos fundos,
depois subir no telhado da lavanderia e entrar pela janela.
Grigori abriu a janela para Lev entrar. Seu irmo estava elegante, usando um
palet com botes de madreprola e um chapu com fita de veludo. Em seu colete,
via-se a corrente de lato de um relgio de bolso. Seus cabelos ostentavam o corte
da moda, estilo "polons" - repartidos de lado em vez de no meio como o dos
camponeses. Katerina pareceu surpresa, e Grigori imaginou que ela no esperava que seu irmo fosse to atraente.
Em geral, Grigori ficava feliz ao ver Lev, e aliviado quando o irmo aparecia
sbrio e inteiro. Mas, daquela vez, desejou poder ter passado mais tempo sozinho com Katerina.
Apresentou os dois e os olhos de Lev chisparam de interesse ao apertar a mo
da moa. - Katerina enxugou as lgrimas do rosto.
Grigori estava me contando sobre a morte da sua me - explicou.
nove anos ele tem sido minha me e meu pai - disse Lev, inclinando a
cabea e farejando o ar. - E faz um senhor ensopado.Pegou as tigelas e colheres e ps um po preto sobre a mesa. Katerina
contou a Lev sobre a briga com o policial Pinsky. A forma como ela contou a
 
117


histria fez Grigori parecer mais valente do que se sentia, mas ele ficou feliz por parecer um heri aos olhos dela.
Lev ficou encantado com Katerina. Inclinou-se para a frente, escutando como se nunca tivesse ouvido nada to fascinante, sorrindo e aquiescendo, alternando expresses de espanto e de desgosto de acordo com o que ela dizia.
Grigori serviu o ensopado nas tigelas e puxou a mala at a mesa para servir de terceira cadeira. A comida estava boa; ele havia acrescentado uma cebola  panela e o joelho de porco dava aos rabanetes algo do sabor da carne. A atmosfera ficou mais leve quando Lev comeou a falar sobre amenidades, como incidentes estranhos na fbrica e coisas engraadas que os outros tinham dito. Graas a ele, Katerina riu o tempo todo.
Quando terminaram de comer, Lev perguntou  jovem como ela fora parar na cidade.
-		Meu pai morreu e minha me se casou de novo - respondeu ela. - Infelizmente, meu padrasto parecia gostar mais de mim do que da minha me. - Ela sacudiu a cabea e Grigori no soube dizer se aquele gesto era de vergonha ou de rebeldia. - Seja como for, era isso que minha me achava, ento ela me botou para fora de casa.
-		Metade da populao de So Petersburgo veio para c de algum vilarejo - disse Grigori. - Daqui a pouco no vai restar ningum para arar a terra.
-		Como foi a sua viagem? - quis saber Lev.
A histria que ela contou foi o relato banal de passagens para vages de terceira classe e caronas em carroas, mas Grigori ficou hipnotizado por seu rosto enquanto ela falava.
Lev escutou com ateno, fazendo comentrios divertidos e uma ou outra pergunta.
Em pouco tempo, percebeu Grigori, Katerina j havia se virado na cadeira e estava falando apenas com Lev.
Quase como se eu nem estivesse aqui, pensou ele.

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CAPTULO QUATRO
Maro de 1914

- Ento - disse Billy ao pai - todos os livros da Bblia foram escritos originalmente em vrias lnguas e depois traduzidos para o ingls.
Isso - respondeu Da. - E a Igreja Catlica tentou proibir as tradues... Eles
no queriam que gente como ns lesse a Bblia por conta prpria e questionasse
os padres.
Da soava um tanto anticristo quando se referia aos catlicos. Parecia odiar o
catolicismo mais do que o atesmo. Mas adorava uma controvrsia.
-		Bom - falou Billy mas onde esto os originais?
-		Que originais?
-		Os livros originais da Bblia, escritos em hebraico e em grego. Onde eles
esto guardados?
Eles estavam sentados um de frente para o outro  mesa quadrada da cozinha,
na casa de Wellington Row. A tarde ia pela metade. Billy j havia voltado da mina
e lavado as mos e o rosto, mas ainda usava as roupas de trabalho. Da tinha pendurado seu palet e estava sentado de camisa de colarinho, colete e gravata - iria
sair novamente depois do jantar para uma reunio do sindicato. Mam estava
aquecendo o ensopado na lareira. Gramper estava sentado  mesa com eles,
escutando a conversa com um leve sorriso, como se j tivesse ouvido tudo aquilo antes.
-		Ora, ns no temos os originais - respondeu Da. - Eles desapareceram sculos atrs. Temos cpias.
-		Ento onde esto as cpias?
-		Em vrios lugares diferentes, mosteiros, museus...
-		Deveriam ficar guardados no mesmo lugar.
-		Mas existe mais de uma cpia de cada livro e algumas so melhores do que
outras.
- Como uma cpia pode ser melhor do que outra? No me diga que so diferentes...
- Sim, elas so. Com o passar dos anos, erros humanos foram ocorrendo.
Isso surpreendeu Billy.
-		Mas como  possvel saber qual cpia  a certa? 

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-		 a que entra uma rea de estudos chamada crtica textual: a comparao das diferentes verses para produzir um texto definitivo.
Billy estava chocado.
-		Quer dizer que no existe um livro incontestvel que seja a verdadeira! Palavra de Deus? Os homens discutem a respeito e decidem?
-		Isso.
-		E como podemos saber se eles esto certos?
Da abriu um sorriso matreiro, um claro sinal de que estava contra a parede.
-		Ns acreditamos que, se eles trabalharem com humildade e f, Deus ir guiar seus esforos.
-		Mas e se eles no fizerem isso?
Mam depositou quatro tigelas sobre a mesa.
-		No discuta com seu pai - falou ela. Em seguida, cortou quatro fatias grossas de po.
-		Cara, minha menina, deixe-o em paz - disse Gramper. - Deixe o garoto fazer suas perguntas.
-		Ns temos f no poder de Deus de garantir que Sua palavra chegue a ns como Ele deseja - falou Da.
-		O senhor no est dizendo coisa com coisa!
Mam tornou a interromper:
-		No fale assim com seu pai! Voc ainda  um menino, no sabe de nada.
Billy no lhe deu ouvidos.
-		Se Deus queria mesmo que ns conhecssemos Sua Palavra, por que no orientou o trabalho dos copistas para que eles no cometessem erros?
-		Algumas coisas no cabe a ns compreender - falou Da.
Essa resposta era a menos convincente de todas, e Billy a ignorou.
-		Se os copistas podiam cometer erros,  bvio que os estudiosos do texto bblico tambm podiam.
-		 preciso ter f, Billy.
-		F na Palavra de Deus, sim... no em um bando de professores de grego!
Mam sentou-se  mesa e afastou dos olhos os cabelos j grisalhos.
-		De modo que, como sempre, voc est certo e todos os outros esto errados, imagino?
Essa ttica sempre o atingia, pois parecia vlida. No era possvel que ele fosse mais sabido que todos os outros.
-		No sou eu - protestou ele. -  uma questo de lgica!
-		Ah, voc e sua velha lgica - disse Mam. - Coma a sua janta.

120
 

A porta se abriu e a Sra. Dai dos Pneis entrou. Isso era normal em Wellington Row: somente os desconhecidos batiam. A Sra. Dai estava usando um vestido
de mangas e calava
botas de homem - o que quer que tivesse a dizer era
bastante importante para
ela nem sequer pr um chapu antes de sair de casa.
Visivelmente agitada, brandiu uma folha de papel.
Estou sendo despejada! - falou. - O que  que eu vou fazer?
Da se levantou para lhe ceder a cadeira.
Sente-se aqui e recupere o flego, Sra. Dai - disse ele com calma. - Deixe-me
ler essa carta - Ele pegou o papel de sua mo vermelha deformada pela artrite e
o estendeu sobre a mesa.
Billy pde ver que a carta havia sido datilografada em um papel timbrado da
Celtic Minerais.
-		"Prezada Sra. Evans" - leu Da em voz alta. - "Solicitamos a casa situada no
endereo acima mencionado para acomodao de um minerador em atividade."
A Celtic Minerais havia construdo a maior parte das casas de Aberowen.
Com o passar dos anos, algumas tinham sido vendidas para seus ocupantes,
incluindo aquela onde vivia a famlia Williams, mas a maioria ainda era alugada
aos trabalhadores.
-		"De acordo com as clusulas de nosso contrato de aluguel, venho por meio
desta" - Da fez uma pausa e Billy notou que o pai estava chocado - "lhe dar um
aviso prvio de duas semanas para desocupar o imvel" - terminou ele.
-		Um aviso de despejo... e no faz nem seis semanas que o marido dela foi
enterrado! - exclamou Mam.
-		Para onde eu vou com cinco crianas? - lamentou-se a Sra. Dai.
Billy tambm estava chocado. Como a empresa podia fazer uma coisa dessas
com uma mulher cujo marido tinha morrido na sua mina?
-		A carta est assinada por Perceval Jones, Presidente - concluiu Da.
-		Que contrato de aluguel? No sabia que os mineradores tinham esse tipo de
coisa - disse Billy.
-		No existe nada por escrito - esclareceu Da -, mas a lei diz que h um contrato implcito. Essa  uma batalha que ns j travamos e perdemos. - Ele se
virou para a Sra. Dai. - Em teoria, a casa est atrelada ao emprego, mas as vivas
em geral so autorizadas a ficar. s vezes elas saem mesmo assim e vo morar em
outro lugar, com os pais, talvez. Muitas vezes tornam a se casar com outro minerador, que ento assume o aluguel. Normalmente, elas tm pelo menos um filho
homem que passa a trabalhar na mina depois de crescido. Na verdade, no  do
interesse da empresa expulsar as vivas.

121


-		Ento por que eles querem se livrar de mim e dos meus filhos? - falou a Sr
Dai em tom de lamria.
-		Perceval Jones est com pressa - disse Gramper. - Ele deve estar achando
que o preo do carvo vai subir. Foi por isso que comeou o turno dominical
Da assentiu.
-		Seja qual for o motivo, eles querem aumentar a produo, isso com certeza
Mas no vo conseguir isso expulsando vivas. - Ele se levantou. - No se eu
puder impedir.
Oito mulheres estavam sendo despejadas, todas vivas de homens mortos na exploso. Elas haviam recebido cartas idnticas de Perceval Jones, como Da confirmou naquela mesma tarde ao visit-las uma por uma, com Billy a tiracolo. A reao das mulheres ia da histeria da Sra. Hywel Jones, que no conseguia parar de chorar, ao fatalismo sinistro da Sra. Roley Hughes, segundo a qual o pas precisava era de uma guilhotina como a que havia em Paris para homens como Perceval Jones.
Billy fervia de indignao. Ser que no bastava aquelas mulheres terem perdido os maridos na mina? Alm de vivas, precisavam ficar sem teto?
-		A empresa pode fazer isso, Da? - perguntou ele enquanto os dois passavam pelas miserveis casas geminadas cinza, em direo  entrada da mina.
-		S se ns deixarmos, filho. A classe operria  mais numerosa do que a classe dominante, e mais forte. Eles dependem de ns para tudo. Produzimos a comida que eles comem, construmos as casas em que eles moram e fabricamos as roupas que eles vestem. Sem ns, eles morrem. No podem fazer nada a menos que a gente deixe. Nunca se esquea disso.
Os dois entraram no escritrio do gerente, guardando as boinas nos bolsos.
-		Boa tarde, Sr. Williams - disse Llewellyn Espinhento com nervosismo. - Aguarde s um minuto. Vou perguntar ao Sr. Morgan se ele pode receb-lo.
-		No seja idiota, garoto,  claro que ele vai me receber - falou Da, entrando na sala particular do gerente. Billy foi atrs dele.
Maldwyn Morgan estava conferindo um livro-razo, mas Billy teve a impresso de que aquilo era apenas fingimento. Ele ergueu os olhos. Suas bochechas rosadas estavam bem barbeadas, como sempre.
-Entre, Williams - disse ele, sem necessidade.
Ao contrrio de muitos homens, Morgan no tinha medo de Da. Nascido em
 
122


Aberowen, o gerente era filho de professor e havia estudado engenharia. Ele e Da eram parecidos, percebeu Billy: inteligentes, donos da verdade e cabeas-duras.
-		O senhor sabe o que me traz aqui, no , Sr. Morgan? - falou Da.
-		Posso adivinhar, mas diga mesmo assim.
-		Quero que o senhor revogue os avisos de despejo.
-		A empresa precisa das casas para mineradores.
-		Vai haver confuso.
-		O senhor est me ameaando?
-		No se faa de ofendido - falou Da com a voz tranquila. - Essas mulheres perderam os maridos na sua mina. O senhor no se sente responsvel por elas?
Morgan ergueu o queixo, defendendo-se.
-		A investigao pblica concluiu que a exploso no foi causada por negligncia da empresa.
Billy teve vontade de lhe perguntar como um homem inteligente podia dizer uma coisa dessas sem ficar envergonhado.
-		A investigao encontrou uma lista de irregularidades to comprida quanto o trem para Paddington - retrucou Da. - Equipamentos eltricos sem proteo, nenhuma mscara de gs ou sistema de combate a incndio adequado...
-		Mas as irregularidades no causaram a exploso nem a morte dos mineradores.
-		No foi possvel provar que as irregularidades causaram a exploso ou as mortes.
Pouco  vontade, Morgan se remexeu na cadeira.
-		O senhor no veio aqui discutir sobre a investigao.
-		Eu vim aqui para colocar juzo na sua cabea. Neste exato momento, a notcia das cartas est se espalhando pela cidade. - Da fez um gesto em direo  janela e Billy viu que o sol de inverno estava se pondo atrs da montanha. - Os homens esto ensaiando nos corais, bebendo nos pubs, indo a rodas de orao, jogando xadrez... e todos esto falando sobre o despejo das vivas. E pode apostar que eles esto zangados.
-		Vou perguntar de novo: o senhor est tentando intimidar a empresa?
Billy queria esganar aquele homem, mas Da s fez suspirar.
-		Escute, Maldwyn, ns nos conhecemos desde a escola. Seja sensato. Voc sabe que h homens no sindicato que vo ser mais agressivos do que eu. - Da estava se referindo ao pai de Tommy Griffiths. Len Griffiths acreditava na revoluo e sempre torcia para que a briga seguinte fosse a fasca que provocaria a conflagrao. Ele tambm queria a vaga de Da. Era certo que iria propor medidas drsticas.

123


-		Est me dizendo que vocs vo entrar em greve? - perguntou Morgan.
-		Estou lhe dizendo que os homens vo ficar bravos. No posso prever o que eles vo fazer. Mas eu no quero confuso, e voc, tampouco. Estamos falando em oito casas de um total de quantas, oitocentas? O que eu vim aqui perguntar : vale a pena?
-		A empresa j tomou sua deciso - disse Morgan, e Billy intuiu que ele no concordava com a empresa.
-		Pea ao conselho de diretores para reavaliar a questo. Que mal poderia haver nisso?
O tom moderado de Da estava deixando Billy impaciente. Ele no deveria estar levantando a voz, colocando o dedo na cara de Morgan e acusando a companhia da crueldade desumana de que ela era evidentemente culpada? Era isso que Len Griffiths teria feito.
Morgan no se deixou comover.
-		Estou aqui para executar as decises do conselho, no para question-las.
-		Ento os despejos j foram aprovados pelo conselho - falou Da.
Morgan pareceu embaraado.
-		Eu no disse isso.
Mas deu a entender, pensou Billy, graas s perguntas engenhosas de Da. Talvez a moderao no fosse to m ideia assim.
Da mudou de ttica.
-		E se eu conseguisse encontrar oito casas cujos donos estivessem dispostos a aceitar novos mineradores como inquilinos?
-		Esses homens tm famlias.
Da falou de forma lenta e calculada.
-		Ns poderamos chegar a um acordo, se voc estivesse disposto.
-		A empresa precisa ter o poder de administrar seus prprios negcios.
-		Independentemente das consequncias para os outros?
-		Esta mina de carvo  nossa. A empresa avaliou o terreno, negociou com o conde, escavou a mina e comprou os equipamentos. E ela tambm construiu as casas para os trabalhadores morarem. Fomos ns que pagamos por tudo e ningum vai nos dizer o que fazer com a nossa propriedade.
Da tornou a pr a boina.
-		Mas vocs no puseram o carvo debaixo da terra, Maldwyn, ou puseram? - indagou ele. - Quem fez isso foi Deus.

124
 

a sala de reu
Da tentou reservar a sala de reunio da prefeitura para uma assembleia s sete e meia da noite seguinte, mas o espao j tinha sido cedido ao Grupo de Teatro Amador de Aberowen, que ensaiava a primeira parte de Henrique IV. Ento, Da decidiu que os mineradores iriam se reunir na Capela de Bethesda. Billy e Da, acompanhados por Len e Tommy Griffiths e por alguns outros membros atuantes do sindicato, percorreram a cidade para divulgar a reunio no boca a boca e pregar avisos manuscritos nos pubs e capelas.
s sete e quinze da noite seguinte, a capela j estava lotada. As vivas se sentaram na primeira fileira e todos os outros ficaram em p. Billy estava em uma das laterais, perto da frente, de onde podia ver os rostos dos homens. Ao seu lado estava Tommy Griffiths.
Billy sentia orgulho do pai por sua coragem, por sua inteligncia e pelo fato de ele ter recolocado a boina antes de sair da sala de Morgan. Ainda assim, queria que Da tivesse sido mais agressivo. Ele deveria ter falado com Morgan do mesmo jeito que falava com a congregao de Bethesda, predizendo o fogo e a danao do inferno a quem se recusasse a enxergar a verdade.
s sete e meia em ponto, Da pediu silncio. Com sua voz imponente de pregador, leu em voz alta a carta enviada por Perceval Jones  Sra. Dai dos Pneis.
-		Esta carta foi enviada para as oito vivas dos homens mortos na exploso da mina seis semanas atrs.
-		Vergonhoso! - gritaram vrios homens.
-		Segundo o nosso regulamento, os homens s devem falar quando solicitados pelo presidente da assembleia, e s nesse caso, para que todos sejam ouvidos um de cada vez. Agradeo se vocs puderem respeitar essa regra, mesmo em uma situao como esta, em que os sentimentos esto exaltados.
-		Malditos sejam, isso  um absurdo! - gritou algum.
-		Griff Pritchard, por favor, sem blasfmias. Estamos em uma capela e, alm disso, h senhoras presentes.
-		Silncio, silncio - disseram dois ou trs dos homens.
Griff Pritchard, que ficara no pub Two Crowns desde o final de seu turno naquela tarde, falou:
-		Desculpe, Sr. Williams.
-		Eu tive uma reunio ontem com o gerente da mina e lhe pedi formalmente que revogasse os avisos de despejo, mas ele se recusou. Deu a entender que a deciso tinha sido do conselho de diretores e que ele no tinha poder para mud-la,

125


ou nem sequer question-la. Insisti que cogitssemos alternativas, mas ele disse
que a empresa tinha o direito de administrar seus negcios sem interferncia.
So essas as informaes que tenho para vocs. - Aquilo era um tanto comedido
- pensou Billy. Ele queria que Da conclamasse a revoluo. Mas seu pai se limitou
a apontar para um homem que estava com a mo levantada. - John Jones da Loja.
-		Eu morei a vida inteira no nmero 23 de Gordon Terrace - falou Jones
Nasci naquela casa e continuo nela at hoje. Meu pai morreu quando eu tinha 1
ano. Foi bem difcil para a minha me, mas deixaram que ela ficasse. Quando
eu tinha 13 anos, comecei a trabalhar na mina e hoje quem paga o aluguel sou eu
 assim que sempre foi. Ningum disse nada sobre nos despejar.
-		Obrigado, John Jones. Voc tem alguma proposta de ao?
-		No, s queria falar.
-		Eu tenho uma proposta - disse outra voz. - Greve!
Ouviu-se um coro de aprovao.
-		Dai Choro - disse o pai de Billy.
-		Eu acho o seguinte - falou o capito do time de rgbi da cidade. - No podemos deixar a empresa fazer isso. Se eles puderem despejar as vivas, nenhum de
ns vai conseguir ficar tranquilo quanto  segurana das nossas famlias. Um
homem pode passar a vida inteira trabalhando para a Celtic Minerais, morrer a
servio e duas semanas depois sua famlia ser jogada na rua. Dai do Sindicato foi
ao escritrio tentar um acordo com Morgan, foi lhe advertir, mas no adiantou.
Agora nossa nica alternativa  entrar em greve.
-		Obrigado, Dai - falou Da. - Devo interpretar isso como uma proposta formal a favor de uma greve?
-		Sim.
Billy ficou surpreso por Da aceitar isso to depressa. Sabia que seu pai queria
evitar uma greve.
-		Vamos votar! - gritou algum.
-		Antes de eu levar a proposta a votao, precisamos decidir quando deveramos entrar em greve - disse Da.
Ah, pensou Billy, ele no est aceitando.
-		Talvez seja interessante comearmos na segunda - prosseguiu Da. - At la,
enquanto continuamos a trabalhar, a ameaa de uma greve pode fazer a diretoria mudar de ideia. Assim, podemos conseguir o que queremos sem deixar de
receber nosso salrio.
Billy percebeu que Da estava defendendo um adiamento da greve. E Len
Griffiths chegou  mesma concluso.
 

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-		Posso falar, Sr. Presidente? - perguntou ele.
O pai de Tommy era calvo bem no centro da cabea, mas tinha uma franja e um bigode pretos. Ele deu um passo  frente e se colocou ao lado de Da, de frente para os homens reunidos, de modo que os dois parecessem ter a mesma autoridade. Todos se calaram. Assim como Da e Dai Choro, Len estava entre as poucas pessoas que eram sempre ouvidas com um silncio respeitoso.
-		Eu pergunto: seria sensato dar quatro dias de lambuja para a empresa? E se eles no mudarem de ideia? O que, alis, me parece muito provvel, considerando a intransigncia que demonstraram at agora. Se isso acontecer, quando chegar segunda-feira, estaremos de mos vazias e as vivas tero menos tempo ainda antes do despejo. - Ele levantou um pouco a voz para soar mais eloquente. - Companheiros, na minha opinio, no devemos ceder nenhum centmetro!
Os homens vibraram, e Billy se juntou a eles.
-		Obrigado, Len - falou Da. - Ento j tenho duas propostas na mesa: entrar em greve amanh ou entrar em greve na segunda-feira. Quem mais gostaria de falar?
Billy ficou observando seu pai conduzir a reunio. O homem que se pronunciou em seguida chamava-se Giuseppe "Joey" Ponti, o principal solista do Coral Masculino de Aberowen, irmo mais velho de Johnny, colega de escola de Billy. Apesar do nome italiano, ele nascera em Aberowen e falava com o mesmo sotaque de todos os outros homens ali reunidos. Joey tambm defendeu a greve imediata.
Da falou:
-		Para manter a imparcialidade, algum quer se pronunciar a favor da greve na segunda?
Billy se perguntou por que Da no punha sua autoridade pessoal na balana. Se ele defendesse a greve na segunda, talvez os outros mudassem de ideia. Por outro lado, se no conseguisse convenc-los, ficaria em posio delicada, obrigado a conduzir uma greve que tentara evitar. Billy percebeu que Da no estava totalmente livre para dizer o que pensava.
O debate tinha vrias implicaes. O preo do carvo estava alto, de modo que a administrao poderia aguentar uma greve; mas a demanda tambm estava alta, ento eles iriam querer vender enquanto pudessem. A primavera estava chegando, o que significava que as famlias dos mineradores logo poderiam passar sem a sua cota gratuita de carvo. A posio dos mineradores estava bem fundamentada em uma prtica de longa data, mas a lei estava do lado da administrao.
Da deixou o debate prosseguir e alguns dos discursos foram se tornando tediosos. Billy se perguntou o que seu pai pretendia, e concluiu que ele tinha

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esperana de que os nimos se acalmassem. Mas, no fim das contas, teve de colocar as propostas em votao.
-		Primeiro, quem  a favor de no fazer greve?
Uns poucos homens levantaram a mo.
-		Agora, quem  a favor de entrarmos em greve na segunda-feira?
Essa proposta recebeu uma votao expressiva, mas Billy no teve certeza se
ela garantiria a sua vitria. Tudo dependeria de quantos homens se abstivessem
de votar.
-		Por ltimo, quem  a favor de entrarmos em greve amanh?
Os homens vibraram e muitos braos se agitaram no ar. No havia dvida
quanto ao resultado.
-		A proposta de entrarmos em greve amanh foi aprovada - falou Da.
Ningum sugeriu uma contagem de votos.
A assembleia chegou ao fim. Na sada da capela, Tommy disse com animao:
-		Estamos de folga amanh, ento.
-		Sim - disse Billy. - E sem nenhum tosto para gastar.
Na primeira vez que Fitz contratou os servios de uma prostituta, ele tentou beij-la - no porque quisesse, mas porque imaginou que fosse a coisa certa a fazer. "Eu no beijo", disse ela com rispidez em seu sotaque cockney. Depois disso, ele nunca mais havia tentado. Segundo Bing Westhampton, vrias prostitutas se recusavam a beijar, o que era estranho, levando em conta as outras intimidades que permitiam. Talvez essa proibio trivial lhes preservasse um resqucio de dignidade.
Teoricamente, as moas da classe social de Fitz no deveriam beijar ningum antes do casamento.  claro que o faziam, mas apenas em raros momentos de breve privacidade, em um cmodo subitamente vazio em algum baile, ou atrs de um arbusto em um jardim campestre. Nunca havia tempo para a paixo se desenvolver.
A nica mulher que Fitz havia beijado de verdade era sua esposa Bea. Ela lhe entregava o seu corpo da mesma forma que um cozinheiro ofereceria um bolo especial, perfumado, confeitado e lindamente decorado para o seu prazer. Deixava que ele fizesse qualquer coisa, mas no exigia nada. Oferecia os lbios para ele beijar e abria a boca para permitir que sua lngua entrasse, mas Fitz nunca sentira que ela ansiava por seu toque.

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Ethel beijava como se lhe restasse apenas um minuto de vida.
Os dois estavam na Sute Gardnia, em p ao lado da cama, abraados. Ela chupava sua lngua, mordia seus lbios e lambia seu pescoo, ao mesmo tempo que acariciava seus cabelos, segurava sua nuca e enfiava as mos por baixo de seu colete para afagar seu peito. Quando finalmente se soltaram, ofegantes, ela segurou-lhe o rosto com as duas mos, imobilizando sua cabea e encarando-o, e disse:
-		Voc  to lindo!
Ele se sentou na beirada da cama, segurando suas mos enquanto ela ficava em p na sua frente. Sabia que alguns homens tinham o hbito de seduzir suas empregadas, mas ele no era assim. Aos 15 anos, havia se apaixonado por uma das criadas encarregadas de receber as visitas na casa de Londres: sua me percebera tudo em poucos dias e mandara a moa embora sem pestanejar. Seu pai tinha sorrido e dito: "Mas voc escolheu bem." Desde ento, Fitz no havia tocado em nenhuma empregada. Mas no conseguia resistir a Ethel.
-		Por que voc voltou? - perguntou ela. - Deveria ter passado o ms de maio inteiro em Londres.
-		Eu queria ver voc. - Ele pde ver que ela relutava em acreditar nele. - No parava de pensar em voc, o dia inteiro, todos os dias, e simplesmente tive de voltar.
Ela se curvou e tornou a beij-lo. Sem se desgrudar do beijo, ele se deixou cair lentamente de costas sobre a cama, puxando-a consigo at ela ficar deitada por cima dele. Ela era to magra que no pesava mais do que uma criana. Seus cabelos se soltaram dos grampos e ele enterrou os dedos nos cachos lustrosos.
Depois de algum tempo, ela rolou de lado e se deitou junto a ele, arfando. Ele se apoiou no cotovelo para encar-la. Ethel o chamara de lindo, mas naquele momento a coisa mais bela que ele tinha visto na vida era ela. Tinha as bochechas coradas, os cabelos despenteados e os lbios vermelhos midos e entreabertos. Seus olhos escuros o fitavam com adorao.
Ele levou a mo ao seu quadril, acariciando-lhe a coxa em seguida. Ethel cobriu a mo dele com a sua, imobilizando-a, como se estivesse com medo que ele passasse dos limites.
-		Por que as pessoas o chamam de Fitz? - perguntou ela. - O seu nome  Edward, no ?
Ele teve certeza de que isso era uma tentativa de acalmar a paixo dos dois.
-		Comeou na escola - disse ele. - Todos os meninos tinham apelidos. Ento Walter von Ulrich veio passar frias na minha casa, Maud ouviu o apelido e o adotou.

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-		Mas antes disso seus pais o chamavam como?
-		Teddy.
-		Teddy - disse ela, ensaiando dizer o nome. - Gosto mais que de Fitz.
Ele recomeou a lhe acariciar a coxa e, desta vez, ela permitiu. Enquanto a beijava, Fitz foi levantando devagar a saia comprida de seu uniforme preto de governanta. As meias que ela usava iam apenas at as panturrilhas, de modo que ele acariciou seus joelhos nus. Acima dos joelhos, vestia uma calcinha grande de algodo. Ele tocou-lhe as pernas atravs do tecido, depois moveu a mo at o espao entre suas coxas. Quando a tocou ali, ela gemeu e jogou o quadril para cima, apertando-se contra a mo dele.
-		Tire isso - sussurrou ele.
-		No!
Ele encontrou o cordo que amarrava a calcinha na cintura. Estava atado com um lao. Fitz o desfez com um puxo.
Ela tornou a cobrir a mo dele com a sua.
-		Pare.
-		Eu s quero tocar voc ali.
-		Eu quero mais at que voc - disse ela. - Mas no.
Ele se ajoelhou na cama.
-		No vamos fazer nada que voc no queira - falou. - Eu juro. - Ento, pegou a cintura de sua calcinha com as duas mos e rasgou o tecido. Ela soltou um arquejo de surpresa, mas no protestou. Ele tornou a se deitar e usou a mo para explor-la. Ela abriu as pernas na mesma hora. Tinha os olhos fechados e a respirao acelerada, como se tivesse acabado de correr. Ele imaginou que fosse o primeiro a lhe fazer aquilo, e uma voz fraca lhe disse que no deveria tirar vantagem da inocncia dela. Porm seu desejo era intenso demais para que ele pudesse escut-la.
Fitz desabotoou a cala e se deitou por cima dela.
-		No - disse Ethel.
-		Por favor.
-		E se eu ficar grvida?
-		Eu tiro antes do final.
-		Jura?
-		Juro - disse ele, penetrando-a.
Sentiu uma obstruo. Ela era virgem. Sua conscincia tornou a se manifestar e, desta vez, a voz no foi to dbil. Ele parou. Mas agora quem no conseguia mais se conter era Ethel. Ela segurou seus quadris e puxou-o para dentro de si,

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ao mesmo tempo que arqueava ligeiramente o corpo. Ele sentiu algo se romper e ela soltou um grito agudo de dor - ento o obstculo sumiu. Ela se ps a acompanhar com avidez o ir e vir dele. Abriu os olhos e encarou seu rosto.
- Ah, Teddy, Teddy - falou, e ele percebeu que ela o amava. A ideia o comoveu de tal forma que ele quase chorou, deixando-o ao mesmo tempo to excitado que foi impossvel se controlar, e seu orgasmo veio inesperadamente rpido. Com uma pressa aflita, ele recuou o corpo e seu smen se derramou sobre a coxa de Ethel, enquanto ele soltava um grunhido de prazer misturado com decepo. Ela levou a mo at sua nuca e puxou-lhe o rosto em direo ao seu, beijando-o com ardor, ento fechou os olhos e soltou um gritinho entre a surpresa e o prazer - e assim acabou.
Espero ter tirado a tempo, pensou ele.
Ethel continuou trabalhando normalmente, mas o tempo inteiro tinha a sensao de carregar no bolso um diamante secreto que podia tocar vez por outra, alisando suas superfcies polidas e seus cantos afiados quando ningum estivesse olhando.
Em seus momentos de maior lucidez, ela se perguntava o que aquele amor significava e at onde poderia chegar. De vez em quando, ficava horrorizada ao imaginar o que seu pai socialista e temente a Deus iria pensar caso descobrisse. Contudo, na maior parte do tempo, ela se sentia apenas como se estivesse despencando pelo ar sem nada para aparar sua queda. Adorava a maneira como ele caminhava, seu cheiro, suas roupas, seus modos refinados, seu ar de autoridade. Adorava tambm o jeito como ele s vezes parecia desnorteado. E, quando o via sair do quarto da mulher com aquela expresso de mgoa no rosto, sentia vontade de chorar. Estava apaixonada e fora de controle.
Na maioria dos dias, ela falava com ele pelo menos uma vez, e os dois em geral conseguiam passar alguns instantes sozinhos e trocar um beijo longo e ardente. O simples fato de beij-lo j a deixava molhada, de modo que s vezes ela precisava lavar a roupa de baixo no meio do dia. Sempre que possvel, ele tambm tomava outras liberdades, tocando seu corpo inteiro, o que a deixava ainda mais excitada. Eles haviam conseguido se encontrar outras duas vezes na cama da Sute Gardnia.
Uma coisa deixava Ethel intrigada: nas duas vezes em que eles haviam se deitado juntos, Fitz a mordera com bastante fora - uma vez na parte interna da

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coxa e outra no seio. Isso a fez soltar um grito de dor abafado s pressas. O grito
pareceu deix-lo ainda mais fogoso. E, apesar da dor, ela tambm ficou excitada
com as mordidas, ou pelo menos com a ideia de que seu desejo por ela era to
intenso que ele era levado a express-lo dessa forma. No fazia ideia se isso era
normal, e no tinha ningum a quem pudesse perguntar.
Mas a sua principal aflio era pensar no que aconteceria se um dia Fitz no
conseguisse retirar na hora H. A tenso era to grande que foi quase um alvio
quando ele e a princesa Bea tiveram de voltar para Londres.
Antes de ir, ela o convenceu a doar comida para os filhos dos mineradores
em greve.
-		No para os pais, porque voc no pode dar a impresso de estar tomando
partido - disse ela. - S para os meninos e meninas. A greve j dura duas semanas e eles esto passando fome. No lhe custaria muito. Pelos meus clculos, so
umas 500 crianas. Elas iriam amar voc por isso, Teddy.
-		Ns poderamos armar uma tenda no jardim - disse ele, deitado na cama da
Sute Gardnia com a cala desabotoada e a cabea no seu colo.
-		E podemos preparar a comida aqui mesmo na cozinha - falou Ethel com
entusiasmo. - Um ensopado de carne com batatas, e po at dizer chega para as
crianas.
-		E um pudim com passas, que tal?
Ser que ele a amava, perguntava-se Ethel. Naquele momento, sentiu que ele faria
qualquer coisa que ela pedisse: teria lhe dado jias, levado a Paris, comprado uma
bela casa para seus pais. Contudo, Ethel no estava interessada em nenhuma dessas
coisas - mas, afinal, o que ela queria? No sabia e se recusava a deixar sua felicidade ser arruinada por perguntas sem resposta relacionadas ao futuro.
Alguns dias depois, ela estava no Gramado Leste ao meio-dia de um sbado,
vendo as crianas de Aberowen devorarem a primeiro refeio gratuita de suas
vidas. Fitz no tinha noo de que elas estavam comendo melhor do que quando seus pais estavam trabalhando. Pudim com passas, sim, senhor! Os pais no
puderam entrar, mas a maioria das mes ficou postada do lado de fora do porto, observando seus filhos sortudos. Quando olhou para l, Ethel viu algum
que acenava para ela e foi at a entrada.
O grupo junto ao porto era formado principalmente por mulheres: os homens
no cuidavam das crianas, nem mesmo durante uma greve. Elas cercaram Ethel,
parecendo agitadas.
-		O que houve? - quis saber ela.
Quem respondeu foi a Sra. Dai dos Pneis:

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Todos foram despejados!
- 10 - repetiu Ethel, sem entender. - Todos quem? - Os mineradores locatrios da Celtic Minerais.
- Deus! - Ethel ficou horrorizada. - Deus tenha piedade de ns. - Seu espanto foi seguido por incompreenso. - Mas por qu? O que a empresa ganha com isso se eles vo ficar sem trabalhadores.
disse a Sra. Dai. - Quando eles entram em uma briga, s pensam em ganhar. Seja qual for o custo, no desistem. So todos iguais. No que eu no
quisesse o meu Dai de volta, se isso fosse possvel.
- Que horror! - Como a empresa iria encontrar fura-greves em nmero suficiente para manter a mina em atividade? Se a mina fosse fechada, a cidade iria morrer pensou ela. O comrcio ficaria sem clientes, as escolas ficariam vazias, os mdicos no teriam pacientes... Seu pai tambm perderia o trabalho. Ningum imaginava que Perceval Jones fosse ser to intransigente.
-		Fico pensando no que o rei iria dizer, se soubesse - falou a Sra. Dai.
Ethel se perguntava a mesma coisa. O rei parecera demonstrar uma compaixo genuna pelos operrios. Mas ele provavelmente no sabia que as vivas tinham sido despejadas.
Foi ento que ela teve uma ideia.
-		Talvez vocs devessem contar a ele - falou. A Sra. Dai riu.
-		Vou contar na prxima vez que estiver com ele.
-		Poderiam lhe escrever uma carta.
-		Ora, Eth, deixe de bobagem.
-		Estou falando srio.  o que deveriam fazer. - Ela olhou para o grupo reunido  sua volta. - Uma carta assinada pelas vivas que o rei visitou, dizendo que vocs esto sendo expulsas de suas casas e que a cidade est em greve. Isso chamaria a ateno dele, vocs no acham?
A Sra. Dai fez uma cara amedrontada.
-		Eu no gostaria de arrumar problemas.
Quem lhe respondeu foi a Sra. Minnie Ponti, uma mulher magra e loura de opinies fortes:
Voc no tem mais marido, nem casa, nem lugar nenhum para ir... Quer mais Problema do que isso?
- Isso l  verdade. Mas eu no saberia o que dizer. O certo  escrever "Prezado
rei, "Prezado Jorge V" ou o qu?
- Vocs devem escrever: "Senhor, com nossa humilde devoo." 

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- Trabalhando aqui, aprendi essa bobajada toda. Vamos escrever agora. Venham comigo at a
ala dos criados.
-		Isso no vai lhe causar problemas?
-		Agora eu sou a governanta aqui, Sra. Dai. Sou eu que digo o que pode ou o que no pode ser feito.
As mulheres a acompanharam pela estradinha de acesso e deram a volta at a
entrada da cozinha. Sentaram-se em volta da mesa de jantar dos criados e a cozinheira preparou um bule de ch. Ethel tinha uma pilha de papel de carta simples
que usava para se corresponder com os comerciantes.
-		"Senhor, com nossa humilde devoo" - disse ela, escrevendo. - E depois?
-		"Perdoe nosso atrevimento por escrever para Vossa Majestade" - falou a Sra. Dai
-		No - retrucou Ethel com firmeza. - No peam desculpas. Ele  nosso rei,
temos o direito de lhe escrever. Vamos dizer o seguinte: "Ns somos as vivas que
Vossa Majestade visitou em Aberowen depois da exploso na mina."
-		Muito bem - disse a Sra. Ponti.
-		"Nos sentimos honradas pela sua visita e reconfortadas pelas suas condolncias, bem como pela solidariedade generosa de Sua Majestade, a rainha" - continuou Ethel.
-		Voc leva jeito para isso, igualzinha ao seu pai - comentou a Sra. Dai.
-		Mas agora chega de bajulao - disse a Sra. Ponti.
-		Est bem. Vamos continuar: "Na condio de nosso rei, pedimos agora a sua
ajuda. Como nossos maridos morreram, estamos sendo despejadas de nossas
casas..."
-	... "	pela Celtic Minerais"- completou a Sra. Ponti.
-		"Pela Celtic Minerais. Todos os mineradores entraram em greve para nos
defender, mas agora eles tambm esto sendo despejados."
-		No se alongue muito - falou a Sra. Dai. - Ele pode estar ocupado demais
para ler tudo.
-		Certo. Vamos terminar assim: "Ser que uma coisa dessas deveria ser permitida no reino de Vossa Majestade?"
-		Est um pouco ameno - reclamou a Sra. Ponti.
-		No, est bom assim - discordou a Sra. Dai. - Isso vai apelar para a noo
do rei de certo e errado.
-		"Temos a honra, senhor, de continuar sendo suas mais humildes e obedientes servas"- concluiu Ethel.
-		Precisamos mesmo pr isso? - quis saber a Sra. Ponti. - Eu no sou serva de
ningum. Com todo o respeito, Ethel.
 

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 normal nesses casos. O conde escreve isso sempre que manda uma carta para o Times.
- Ento est bem.
Ethel fez a carta passar de mo em mo.
Ponham seu endereo ao lado das assinaturas. - Minha caligrafia  pssima, assine voc o meu nome - disse a Sra. Ponti. Ethel estava prestes a protestar quando lhe ocorreu que a Sra. Ponti talvez fosse analfabeta, de modo que no discutiu, apenas escreveu: "Sra. Minnie Ponti,
Wellington Row, 19."
Em seguida, endereou a carta:
Sua Majestade, o Rei Palcio de Buckingham, Londres.
Ela lacrou o envelope e colou nele um selo. - Prontinho - falou.
As mulheres lhe deram uma salva de palmas. Ethel ps a carta no correio no mesmo dia. Ningum jamais respondeu.
O ltimo sbado de maro foi um dia nublado em Gales do Sul. Nuvens baixas escondiam o topo das montanhas e um chuvisco incessante caa sobre Aberowen. Ethel e a maioria dos empregados de Ty Gwyn abandonaram suas funes - o conde e a princesa estavam em Londres - e foram at a cidade.
Policiais haviam sido enviados de Londres para executar os despejos e era possvel v-los em cada rua, com suas capas de chuva pesadas gotejando. A Greve das Vivas era notcia em todo o pas, e reprteres de Cardiff e Londres tinham vindo no primeiro trem da manh, fumando cigarros e fazendo anotaes em seus blocos. Havia at mesmo uma cmera grande, apoiada em um trip.
Ethel estava diante da porta de casa com a famlia, observando. Da trabalhava para o sindicato, no para a Celtic Minerais, e era dono da prpria casa, mas a maioria de seus vizinhos estava sendo despejada. Durante a manh, eles haviam trazido seus pertences para a rua: camas, mesas e cadeiras, panelas e penicos, um quadro emoldurado, um relgio, uma caixa de laranjas cheia de loua de barro e talheres, algumas roupas envoltas em jornal e amarradas com barbante. Em cada

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soleira, uma pequena pilha de bens quase sem valor se erguia como uma oferenda para algum sacrifcio.
O rosto de Da era uma mscara de raiva contida. Billy parecia a fim de arranjar uma briga. Gramper no parava de sacudir a cabea e dizer:
-		Nunca vi coisa parecida, nunca em 70 anos de vida.
Mam parecia apenas desgostosa.
Ethel chorava sem parar.
Alguns dos mineradores haviam arrumado outros empregos, mas no era
fcil: um mineiro no conseguia se adaptar de imediato a um trabalho de vendedor ou chofer de nibus. Os patres sabiam disso e os mandavam embora quando viam o p de carvo debaixo de suas unhas. Meia dzia deles havia entrado
para a marinha mercante, aceitando empregos de foguista e pedindo um adiantamento para deixar com as esposas antes de irem embora. Alguns estavam indo
para Cardiff ou Swansea, na esperana de conseguir trabalho na fundio de ao.
Muitos tinham se mudado para a casa de parentes em cidades vizinhas. O restante estava apenas se apinhando em alguma casa de Aberowen, junto com uma
famlia que no fosse de mineradores, at a greve acabar.
-		O rei nunca respondeu  carta das vivas - disse Ethel a Da.
-		Voc no fez do jeito certo - falou ele sem rodeios. - Veja s a Sra. Pankhurst.
Eu no acredito no voto feminino, mas ela com certeza sabe se fazer notar.
-		O que eu deveria ter feito: encontrado uma maneira de ser presa?
-		No precisa ir to longe. Se eu soubesse o que vocs estavam fazendo, teria
dito para mandarem uma cpia da carta para o Western Mail.
-		No cheguei a pensar nisso. - Ethel ficou arrasada ao se dar conta de que
tivera a chance de fazer alguma coisa para impedir aqueles despejos e havia
fracassado.
-		O jornal perguntaria ao palcio se eles tinham recebido a carta e teria sido
difcil para o rei dizer que iria simplesmente ignor-la.
-		Ah, que droga. Eu deveria ter pedido a sua opinio.
-		Olhe a boca suja - falou sua me.
-		Desculpe, me.
Os policiais londrinos observavam tudo com perplexidade, sem entender o
orgulho e a teimosia tolos que haviam conduzido quela situao. Perceval Jones
no dera as caras. Um reprter do Daily Mail pediu uma entrevista a Da, mas,
como o jornal era hostil  classe operria, ele se recusou a falar.
A cidade no tinha carrinhos de mo suficientes, ento as pessoas se revezavam para transportar seus pertences. O processo levou muitas horas, porm no meio da
 
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tarde as ltimas pilhas j haviam desaparecido e as chaves tinham sido 	deixadas nas fechaduras das casas. Os policiais voltaram para Londres.
Ethel ainda ficou na rua por mais algum tempo. As janelas das casas vazias a
encaravam de volta, inexpressivas, e a gua da chuva escorria inutilmente pela rua.
Ela fitou a sucesso de telhas cinzentas molhadas que cobriam as casas, seu olhar descendo a encosta at os prdios espalhados ao redor da entrada da mina, no fundo do vale. Pde ver um gato andando por uma linha de trem, mas, fora isso no havia movimento. Nenhuma fumaa saa da casa de mquinas, e as duas
roldanas do guindaste, grandes e idnticas, pairavam no alto de sua torre, imveis e desnecessrias sob a chuva fina incessante.

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CAPTULO CINCO
Abril de 1914

A  embaixada alem era uma grande manso em Carlton House Terrace, uma
das ruas mais elegantes de Londres. O prdio dava para um jardim exubeberante que se estendia at o prtico margeado de colunas do Athenaeum, o clube
frequentado pelos intelectuais alemes. Nos fundos, seus estbulos davam parThe Mali, o bulevar que ligava a Trafalgar Square ao Palcio de Buckingham.
Walter von Ulrich no morava ali - ainda. A nica pessoa que tinha esse privilgio era o prprio embaixador, o prncipe Lichnowsky. Walter, um mero adido
militar, vivia em um apartamento de solteiro a dez minutos a p da embaixada,
na Piccadilly. No entanto, ele esperava um dia poder ocupar o grandioso apartamento particular do embaixador, dentro da prpria embaixada. Walter no era
prncipe, mas seu pai era amigo ntimo do Kaiser Guilherme II. Falava ingls
como um ex-aluno do Eton College, onde havia de fato estudado. Passara dois
anos no Exrcito e trs na Academia de Guerra antes de entrar para o Ministrio
das Relaes Exteriores. Tinha 28 anos e era uma estrela em ascenso.
No eram apenas o prestgio e a glria do cargo de embaixador que o atraam.
Ele acreditava, com grande paixo, que no havia vocao mais nobre do que servir ao prprio pas. Seu pai achava a mesma coisa.
Os dois discordavam quanto a todo o resto.
Parados no hall de entrada da embaixada, os dois se encaravam. Tinham a
mesma estatura, porm Otto era mais pesado e careca e usava um bigode mais
antiquado, do tipo que cobria a boca inteira, enquanto Walter ostentava um
moderno bigode  escovinha. Naquele dia, ambos estavam vestidos de forma
idntica, com ternos de veludo preto e calas na altura dos joelhos, meias de seda
e sapatos de fivela. Os dois portavam uma espada e usavam um chapu de duas
pontas curvadas para cima. Incrivelmente, era esse o traje habitual para se comparecer  corte real inglesa.
-		Parece que estamos prestes a subir no palco - disse Walter. - Que roupa ridcula.
-		Pelo contrrio - retrucou seu pai. -  uma tradio magnfica.
Otto von Ulrich havia passado grande parte da vida no Exrcito alemo.
Jovem oficial na guerra franco-prussiana, liderara sua companhia na travessia de
uma ponte flutuante na batalha de Sedan. Mais tarde, Otto se tornaria um dos
   
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amigos a quem o Kaiser Guilherme recorreu aps a ruptura com Bismarck, o
Chanceler de Ferro. Atualmente, Otto exercia um cargo itinerante, visitando
capitais europeias como uma abelha a pousar em flores, sorvendo o nctar dos
servios de informao diplomticos e levando tudo de volta para a colmeia. Ele
acreditava na monarquia e na tradio militar prussiana.
   Walter era igualmente patriota, mas, em sua opinio, a Alemanha precisava se
tornar moderna e igualitria. Como o pai, tinha orgulho das conquistas de seu
pas na rea de cincia e tecnologia, assim como do povo alemo trabalhador e
eficiente. Mas pensava que eles tinham muito a aprender - democracia com os
americanos liberais, diplomacia com os ardilosos britnicos e a arte de viver bem
com os franceses cheios de estilo.
   Pai e filho saram da embaixada e desceram um largo lance de escadas at The
Mali. Walter estava prestes a ser apresentado ao rei Jorge V, ritual considerado um
privilgio, muito embora no acarretasse nenhum benefcio especial. Os diplomatas em incio de carreira como ele no costumavam gozar de tamanha honra, mas
Otto no tinha escrpulos em puxar as cordinhas em prol da carreira do filho.
  -		As metralhadoras tornam obsoletas todas as armas de mo - disse Walter,
continuando uma discusso que estavam tendo mais cedo. As armas eram sua
especialidade e ele estava convencido de que a Alemanha precisava dispor da tecnologia mais moderna em poder de fogo.
   Otto discordava.
  -		Elas emperram, ficam superaquecidas e erram o alvo. Um homem com um
rifle toma cuidado na hora de mirar. Mas basta lhe darem uma metralhadora
para ele a manejar como se fosse uma mangueira de jardim.
  -		Quando sua casa est pegando fogo, voc no joga gua usando uma xcara,
por mais exata que seja a sua mira. Voc precisa de uma mangueira.
   Otto sacudiu o dedo.
  -		Voc nunca esteve no campo de batalha. No tem ideia de como . Escute o
que eu digo, sei do que estou falando.
   Era assim que geralmente terminavam suas discusses.
   Walter achava a gerao do pai arrogante. Entendia o que os deixara assim.
Eles haviam vencido uma guerra, criado o Imprio Germnico unindo a Prssia
e um punhado de monarquias independentes menores e depois transformado a
Alemanha em uma das naes mais prsperas do mundo.  claro que se achavam maravilhosos. Mas isso os tornava incautos.
   Algumas centenas de metros adiante no bulevar, Walter e Otto dobraram em
direo ao Palcio de St. James. Essa pilha de tijolos do sculo XVI era mais antiga
   
139
 
e menos impressionante do que o vizinho Palcio de Buckingham. Os dois deram seus nomes a um porteiro vestido como eles.
Walter estava um pouco nervoso. Era muito fcil cometer algum deslize de etiqueta - e no havia erros pequenos quando se estava lidando com a realeza.
Otto se dirigiu ao porteiro:
-		O senor Diaz j chegou?
-		Sim, senhor, faz alguns minutos.
Walter franziu o cenho. Juan Carlos Diego Diaz era um representante do governo mexicano.
-		Qual o seu interesse em Diaz? - perguntou ele em alemo enquanto atravessavam uma srie de cmodos cujas paredes eram decoradas com espadas e armas.
-		A Marinha Real britnica est trocando o combustvel de seus navios de carvo para petrleo.
Walter aquiesceu. A maioria das naes avanadas estava fazendo o mesmo. O petrleo era mais barato, mais limpo e mais fcil de manejar - bastava bombe- lo, em vez de empregar exrcitos de foguistas de cara preta.
-		E os britnicos compram petrleo do Mxico.
-		Eles compraram poos de petrleo mexicanos para garantir o abastecimento da sua Marinha.
-		Mas, se ns interferssemos no Mxico, o que os americanos iriam pensar?
Otto bateu na lateral do nariz.
-		Oua e aprenda. E, faa o que fizer, no diga nada.
Os homens prestes a serem apresentados ao rei aguardavam em uma antessala. A maioria usava a mesma roupa de veludo adotada na corte, embora um ou outro estivesse vestido com os trajes dignos de uma pera-bufa usados pelos generais oitocentistas. Um deles - provavelmente escocs - ostentava um uniforme completo com um kilt. Walter e Otto percorreram o recinto, meneando a cabea para rostos conhecidos do circuito diplomtico, at chegarem a Diaz, um homem corpulento com um bigode enroscado nas pontas.
Depois das gentilezas de praxe, Otto disse:
-		O senhor deve estar contente com o fato de o presidente Wilson ter revogado a proibio da venda de armas para o Mxico.
-		Venda de armas para os rebeldes - falou Diaz, como se quisesse corrigi-lo.
O presidente norte-americano, sempre inclinado a assumir uma postura moralista, havia se recusado a reconhecer o general Huerta, que subira ao poder aps o assassinato de seu predecessor. Wilson chamava Huerta de assassino e apoiava um grupo rebelde, os constitucionalistas.

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-		Se armas podem ser vendidas para os rebeldes, com certeza tambm podem ser vendidas para o governo, no? - disse Otto.
Diaz pareceu surpreso.
-		Est me dizendo que a Alemanha estaria disposta a fazer isso?
-		De que o senhor precisa?
-		O senhor j deve saber que precisamos desesperadamente de rifles e munio.
-		Ns poderamos conversar mais a respeito.
Walter estava to espantado quanto Diaz. Aquilo iria causar problemas.
-		Mas, pai, os Estados Unidos... - comeou ele.
-		S um instante! - interrompeu-o o pai, erguendo uma das mos para silenci-lo.
-		Vamos conversar mais sobre isso, sim, com certeza - falou Diaz. - Mas diga-me: que outros assuntos podero surgir? - Ele imaginava que a Alemanha iria querer algo em troca.
A porta da Sala do Trono se abriu e um lacaio saiu l de dentro trazendo uma lista. A apresentao estava prestes a comear. Otto, no entanto, continuou falando, sem pressa:
-		Em tempos de guerra, um pas soberano tem o direito de restringir a sada de produtos estratgicos.
-		O senhor est falando de petrleo - comentou Diaz. Esse era o nico produto estratgico que o Mxico tinha.
Otto aquiesceu.
-		Ento vocs nos dariam armas... - disse o representante mexicano.
-		Daramos no, venderamos - murmurou Otto.
-		Vocs nos venderiam armas agora em troca de uma promessa de que no forneceramos petrleo aos ingleses em caso de guerra. - Diaz obviamente no estava acostumado  complexa valsa das conversas diplomticas normais.
-		Talvez valha a pena conversar a respeito. - Em linguagem diplomtica, isso equivalia a um sim.
O lacaio chamou:
-		Monsieur Honor de Picard de la Fontaine!
E as apresentaes comearam.
Otto fitou Diaz nos olhos.
-		O que eu gostaria de saber  como uma proposta desse tipo seria recebida na Cidade do Mxico.
-		Acho que o presidente Huerta ficaria interessado.

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-		Ento, se o cnsul alemo no Mxico, o almirante Paul von Hintze f-, enviar
uma proposta formal ao seu presidente, no receberia uma recusa?
Walter notou que o pai estava decidido a obter uma resposta inequvoca
a sua pergunta. Ele no queria que o governo alemo ficasse exposto ao constrangimento de ter uma proposta como aquela jogada de volta em sua cara
Aflito, Walter achava que o constrangimento no era o maior perigo para a
Alemanha naquele ardil diplomtico. Ela corria o risco de fazer dos Estados
Unidos um inimigo. No entanto, para sua frustrao, era difcil salientar isso na
presena de Diaz.
-		Ele no receberia uma recusa - falou Diaz, respondendo  pergunta de Otto
-		Tem certeza? - insistiu o alemo.
-		Eu garanto.
-		Pai, posso falar com o senhor um instante? - perguntou Walter. Mas, antes
que pudesse dizer qualquer coisa, o lacaio exclamou:
-		Herr Walter von Ulrich!
Walter hesitou, ao que seu pai disse:
-		 a sua vez. Ande logo!
Walter se virou e entrou na Sala do Trono.
Os britnicos gostavam de impressionar seus convidados. O teto alto decorado com caixotes tinha sancas cravejadas de diamantes; as paredes vermelhas
revestidas de plush ostentavam imensos retratos pendurados; e, no fundo da sala,
o trono era encimado por um dossel alto com cortinado de veludo escuro. O rei
estava parado diante do trono, vestido com um uniforme da Marinha. Walter
ficou feliz em ver o rosto conhecido de Sir Alan Tite ao lado do rei - sem dvida sussurrando nomes no ouvido do monarca.
Walter se aproximou e fez uma reverncia. O rei disse:
-		 um prazer rev-lo, Von Ulrich.
Walter j havia ensaiado o que dizer.
-		Espero que Vossa Majestade tenha achado interessantes as conversas que
tivemos em Ty Gwyn.
-		Bastante! Embora nosso encontro tenha ficado tragicamente em segundo
plano,  claro.
-		Por causa do acidente na mina. Sim, uma tragdia.
-		Toro para nos reencontrarmos em breve.
Walter percebeu que isso era uma dispensa. Afastou-se sem se virar, fazendo
vrias mesuras at chegar  porta, conforme mandava a etiqueta.
Seu pai o aguardava na sala ao lado.

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-		Foi bem rpido! - comentou Walter.
-		Pelo contrrio, levou mais tempo do que o normal - disse Otto. - Em geral o rei diz: " um prazer v-lo em Londres", e a conversa termina por a.
Os dois saram juntos do palcio.
-		Os britnicos so um povo admirvel sob muitos aspectos, mas so frouxos - falou Otto enquanto eles subiam a St. Jamess Street at a Piccadilly. - O rei  controlado por seus ministros, os ministros esto subordinados ao Parlamento e os parlamentares so escolhidos pelo povo. Isso l  jeito de governar um pas?
Walter no se deixou provocar. Para ele, o sistema poltico alemo, com seu Parlamento fraco, incapaz de fazer frente ao Kaiser ou aos generais, estava ultrapassado, mas ele j tivera essa discusso com o pai muitas vezes. Alm do mais, ainda estava preocupado com a conversa com o enviado mexicano.
-		Foi arriscado aquilo que o senhor falou para Diaz - disse ele. - O presidente Wilson no vai gostar de nos ver vendendo rifles para Huerta.
-		Que importncia tem o que Wilson acha?
-		O perigo est em fazer amizade com um pas fraco como o Mxico, conquistando a inimizade de um pas forte como os Estados Unidos.
-		No vai haver guerra na Amrica.
Walter achava o mesmo, mas, ainda assim, continuou apreensivo. Ele no gostava de pensar no seu pas em conflito com os Estados Unidos.
Em seu apartamento, eles trocaram os trajes antiquados por ternos de tweed com camisas de colarinho mole e chapus de feltro marrons. De volta a Piccadilly, embarcaram em um nibus motorizado rumo a leste.
Otto ficara impressionado com o fato de Walter ter sido convidado a conhecer o rei em Ty Gwyn em janeiro.
-		O conde Fitzherbert  um bom contato - comentara ele. - Se o Partido Conservador subir ao poder, talvez ele vire ministro, quem sabe um dia at ministro das Relaes Exteriores. Voc precisa manter essa amizade.
Walter ficara inspirado.
-		Eu deveria ir visitar a clnica de caridade que ele mantm e fazer uma pequena doao.
-		Excelente ideia.
-		O senhor no gostaria de me acompanhar?
Seu pai tinha mordido a isca.
-		Melhor ainda.
Walter tinha um motivo oculto, mas seu pai no desconfiou de nada.
O nibus os fez passar pelos teatros da Strand, pelas sedes dos jornais na Fleet

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Street e pelos bancos do centro financeiro. Ento as ruas se tornaram mais estreitas e mais sujas. Cartolas e chapus-coco foram substitudos por boinas de pano. Os veculos puxados a cavalo eram maioria e havia poucos automveis. Aqujj era o East End.
Os dois saltaram em Aldgate. Otto olhou em volta com um ar de desdm
-		No sabia que voc estava me levando a uma favela - comentou ele.
-		Ns estamos indo visitar uma clnica de gente pobre - retrucou Walter Onde o senhor esperava que ela ficasse?
-		O conde Fitzherbert costuma vir aqui?
-		Desconfio que ele s pague as contas. - Walter sabia muito bem que Fitz jamais pusera os ps ali na vida. - Mas ele sem dvida ficar sabendo sobre a nossa visita.
Eles ziguezaguearam por ruas secundrias at chegarem a uma capela protestante no anglicana. Uma placa de madeira pintada  mo informava: "Salo do Evangelho do Calvrio". Presa  madeira, havia uma folha de papel com as palavras:
CLNICA PEDITRICA ATENDIMENTO GRATUITO HOJE E
TODAS AS QUARTAS-FEIRAS
Walter abriu a porta e os dois entraram.
Otto emitiu um rudo de repulsa, em seguida sacou um leno e o levou ao nariz. Walter j estivera ali antes, de modo que o cheiro no o surpreendeu, mas mesmo assim ele era espantosamente desagradvel. O recinto estava cheio de mulheres maltrapilhas e crianas seminuas, todas imundas. As mulheres estavam sentadas em bancos, enquanto as crianas brincavam no cho. No fundo, havia duas portas, cada qual identificada por um letreiro provisrio, um dizendo "Mdico" e o outro, "Benfeitora".
Ao lado da porta estava sentada tia Herm, listando nomes em um caderno. Walter apresentou o pai  tia de Fitz.
-		Lady Hermia Fitzherbert, este  meu pai, Otto von Ulrich.
Do outro lado da sala, a porta onde se lia "Mdico" se abriu e uma mulher maltrapilha saiu l de dentro carregando um beb minsculo e um frasco de remdio. Uma enfermeira ps a cabea para fora e disse:
-		O prximo, por favor.
Lady Hermia consultou sua lista e chamou:
-		Sra. Blatsky e Rosie!
 
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Uma mulher mais velha e uma menina entraram no consultrio.
-		Espere aqui um instante, por favor, pai - pediu Walter enquanto vou chamar a diretora.
Ele caminhou depressa at a outra ponta da sala, contornando as crianas que engatinhavam pelo cho. Ento bateu na porta onde estava escrito "Benfeitora" e entrou.
A sala era pouco maior do que uma despensa, e de fato havia um esfrego e um balde em um canto. Lady Maud Fitzherbert estava sentada diante de uma mesinha, escrevendo em um registro. Usava um vestido simples, cinza-claro, e um chapu de aba larga. Ergueu o rosto e, ao ver Walter, um sorriso iluminou seus traos de tal forma que os olhos dele se encheram de lgrimas. Ela pulou da cadeira e correu para abra-lo.
Ele passara o dia inteiro aguardando esse momento. Beijou-a na boca, que se abriu para ele na mesma hora. Walter j havia beijado vrias mulheres, mas nenhuma jamais apertara o corpo contra o dele daquela forma. Ficou constrangido, com medo de ela notar sua ereo, de modo que arqueou o corpo para longe; mas ela apenas o abraou com mais fora - como se quisesse realmente senti-la - e ele se deixou levar pelo prazer.
Maud encarava todas as coisas da vida com muita intensidade: a pobreza, os direitos femininos, a msica - e Walter. Ele se sentia ao mesmo tempo surpreso e privilegiado por ela ter se apaixonado por ele.
Ela interrompeu o beijo, ofegante.
-		Tia Herm vai ficar desconfiada - falou.
Walter aquiesceu.
-		Meu pai est l fora.
Maud passou a mo nos cabelos e alisou o vestido.
-		Est bem.
Walter abriu a porta e os dois retornaram para o salo. Otto conversava amigavelmente com Hermia: ele gostava de senhoras de idade respeitveis.
-		Lady Maud Fitzherbert, permita-me lhe apresentar meu pai, Herr Otto von Ulrich.
Otto fez uma mesura por sobre a mo de Maud. J havia aprendido a no bater os calcanhares: os ingleses achavam isso engraado.
Walter observou os dois avaliarem um ao outro. Maud sorriu como se estivesse achando algo divertido e Walter concluiu que ela estava imaginando se era daquele jeito que ele seria no futuro. Otto avaliou com aprovao o vestido de caxemira caro e o chapu elegante de Maud. At ali, tudo estava indo muito bem.

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Otto no sabia que os dois estavam apaixonados. O plano de Walter era
que seu pai conhecesse Maud primeiro. Otto aprovava que mulheres ricas trabalhassem em obras de caridade e insistia para que a me e a irm de Walter visitassem
as famlias pobres de Zumwald, sua propriedade rural no leste da Prssia.
Ele primeiro descobriria que mulher maravilhosa e excepcional era Maud e ento
quando ficasse sabendo que Walter queria se casar com ela, suas defesas j no
estariam mais armadas.
Walter sabia que era um pouco tolo ficar to nervoso. Ele era um homem de
28 anos: tinha o direito de escolher a mulher que amava. Oito anos antes, no
entanto, ele havia se apaixonado por outra mulher. Tilde era passional e inteligente, como Maud, mas tinha 17 anos e era catlica. Os Von Ulrich eram protestantes. As duas famlias tinham demonstrado uma oposio feroz ao romance, e
Tilde no conseguira desafiar o pai. Aquela era a segunda vez que Walter se apaixonava por uma mulher inadequada. Seria difcil para seu pai aceitar uma feminista estrangeira. Mas, desta vez, Walter era mais velho e mais astucioso - e
Maud, mais forte e independente do que Tilde.
Mesmo assim, ele estava aterrorizado. Nunca se sentira daquele jeito em relao a mulher nenhuma, nem mesmo Tilde. Queria se casar com Maud e passar
a vida inteira ao seu lado; na verdade, era incapaz de se imaginar longe dela. E
no queria que o pai criasse problemas com isso.
Maud se comportou da melhor forma possvel.
-		 muita gentileza sua vir nos visitar, Herr Von Ulrich - disse ela. - O senhor
deve ser um homem ocupadssimo. Imagino que o trabalho nunca termine para
o interlocutor de confiana de um monarca, como o senhor  para o seu Kaiser.
Otto ficou lisonjeado, o que era justamente a inteno dela.
-		Infelizmente, acho que a senhorita tem razo - respondeu. - Mas seu irmo,
o conde,  um amigo to antigo de Walter que fiquei muito interessado em vir.
-		Deixe-me apresent-lo ao nosso mdico. - Maud atravessou o salo na frente do grupo e bateu  porta do consultrio. Walter estava curioso: ainda no
conhecia o doutor. - Podemos entrar? - perguntou ela.
Eles ento entraram naquele que deveria ter sido o gabinete do pastor, um
cmodo mobiliado com uma pequena escrivaninha e uma prateleira de livros de
registro e hinrios. O mdico, um rapaz atraente de sobrancelhas pretas e boca
sensual, estava examinando a mo de Rosie Blatsky. Walter sentiu uma pontada
de cime: Maud passava dias inteiros na companhia daquele sujeito bonito.
-		Dr. Greenward - disse ela -, temos uma visita muito importante. Permita-me
lhe apresentar Herr Von Ulrich.
 
146


-		Como vai o senhor? - cumprimentou Otto com austeridade.
-		O doutor trabalha aqui de graa - disse Maud. - Somos muito gratas a ele.
Greenward meneou a cabea com um gesto brusco. Walter se perguntou o que
estaria provocando a tenso evidente entre seu pai e o mdico.
Este ltimo tornou a dar ateno  paciente. A palma da mo da menina exibia um corte feio, e a mo e o pulso estavam inchados. Ele olhou para a me e
perguntou:
-		Como foi que ela se cortou?
Quem respondeu foi a menina.
-		Minha me no fala ingls - disse ela. - Eu cortei a mo no trabalho.
-		E o seu pai?
-		Meu pai j morreu.
-		Esta clnica  para famlias sem pai - falou Maud em voz baixa embora na
prtica no deixemos de atender ningum.
-		Quantos anos voc tem? - perguntou Greenward a Rosie.
-		Onze.
-		Pensei que crianas menores de 13 anos no pudessem trabalhar - murmurou Walter.
-		H brechas na lei - respondeu Maud.
-		Em que voc trabalha? - quis saber Greenward.
-		Eu sou faxineira na fbrica de roupas de Mannie Litov. Tinha uma gilete no
meio do lixo.
-		Sempre que voc se cortar, deve lavar a ferida e pr um curativo limpo.
Depois, precisa trocar o curativo diariamente para que ele no fique muito sujo.
- Greenward falava com certa rispidez, mas no deixava de ser gentil.
A me perguntou alguma coisa para a filha com uma voz rude, falando em russo
com um sotaque carregado. Walter no entendeu o que ela disse, mas pescou algo
da resposta da menina, que era uma traduo do que o mdico acabara de dizer.
O mdico se virou para sua enfermeira.
-		Por favor, limpe a mo e faa um curativo. - Ento dirigiu-se a Rosie. - Vou
lhe dar uma pomada. Se o seu brao inchar mais, voc deve voltar aqui na semana que vem. Entendido?
-		Sim, senhor.
-		Se deixar a infeco piorar, pode acabar perdendo a mo.
Os olhos de Rosie se encheram de lgrimas.
-		Sinto muito por assustar voc - falou o Dr. Greenward -, mas quero que
entenda a importncia de manter essa mo limpa.

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A enfermeira preparou uma vasilha de um lquido que era aparentemente
antissptico.	^fL
-		Permita-me expressar minha admirao e meu respeito pelo trabalho que 
o senhor faz aqui, doutor - disse Walter.
-		Obrigado.  um prazer para mim trabalhar como voluntrio, mas ns 
precisamos comprar material hospitalar. Qualquer ajuda que o senhor puder oferecer ser muito bem-vinda.
-		Precisamos deixar o doutor voltar ao trabalho... - disse Maud. - H 
pelo menos 20 pacientes aguardando.
Os visitantes saram do consultrio. Walter mal conseguia conter seu orgulho I
O sentimento que movia Maud ia alm da compaixo. Quando ouviam falar em
crianas pequenas trabalhando em condies precrias, muitas damas da aristocracia se limitavam a enxugar uma lgrima com seus lenos bordados. Maud, no
entanto, tinha a determinao e a coragem de ajudar de verdade.
E ela me ama!, pensou ele.
-		Posso lhe oferecer algo para beber, Herr Von Ulrich? - perguntou Maud. -
Minha sala  apertada, mas tenho uma garrafa do melhor xerez do meu irmo.
-		 muito gentil da sua parte, mas precismos ir andando.
Isso foi um pouco precipitado, pensou Walter. O charme de Maud havia parado de surtir efeito em Otto. Ele teve a sensao desagradvel de que algo sara
errado.
Otto sacou a carteira e dela extraiu uma nota de dinheiro.
-		Queira aceitar uma modesta contribuio para o seu excelente trabalho aqui,
lady Maud.
-		Quanta generosidade! - exclamou ela.
-		A senhorita permite que eu tambm faa uma doao? - disse Walter, entregando-lhe uma nota semelhante.
-		Agradeo qualquer coisa que possa me oferecer - falou ela. Walter torceu para
ter sido o nico a reparar no olhar furtivo que Maud lhe lanou ao dizer isso.
-		Por favor, transmita minhas saudaes ao conde Fitzherbert - disse Otto.
Eles ento se despediram. Walter estava preocupado com a reao do pai.
-		Lady Maud no  maravilhosa? - perguntou ele em tom casual, enquanto
caminhavam de volta at Aldgate. - Quem paga todas as despesas  Fitz, claro,
mas  Maud quem faz todo o trabalho.
-		Uma vergonha - disse Otto. - Uma vergonha completa.
Walter j havia percebido que o pai estava mal-humorado, mas esse comentrio o surpreendeu.

148


-		O que quer dizer com isso? O senhor sempre aprovou que mulheres bem-nascidas fizessem alguma coisa para ajudar os pobres!
-		Levar um cesto de comida para camponeses adoentados  uma coisa - respondeu Otto. - Mas fico horrorizado em ver a irm de um conde em um lugar daqueles ao lado de um mdico judeu!
-		Ah, meu Deus - resmungou Walter.  claro, o Dr. Greenward era judeu. Provavelmente filho de alemes chamados Grunwald. Aquela era a primeira vez que Walter encontrava o mdico e, de toda forma, poderia muito bem no ter notado ou dado importncia  sua raa. Mas Otto, como muitos homens de sua gerao, se preocupava com esse tipo de coisa. - Pai, o homem est trabalhando de graa... - disse Walter. - Lady Maud no pode se dar ao luxo de recusar a ajuda de um bom mdico pelo simples fato de ele ser judeu.
Otto no estava sequer escutando.
-		Famlias sem pai... onde foi que ela arrumou essa expresso? - perguntou com repulsa. - Crias de prostitutas,  isso que ela quer dizer.
Walter ficou arrasado. Seu plano tinha sido um fracasso completo.
-		O senhor no v como ela  corajosa? - perguntou ele, desanimado.
-		De forma alguma - disse Otto. - Se fosse minha irm, eu lhe daria uma boa sova.
II
Havia uma crise na Casa Branca.
Nas primeiras horas da manh do dia 21 de abril, Gus Dewar estava na Ala Oeste do complexo presidencial. Esse novo prdio havia proporcionado um imprescindvel espao administrativo, deixando a Casa Branca original livre para ser usada como residncia. Gus estava sentado na sala do presidente, prxima do Salo Oval, um cmodo pequeno e insosso, iluminado por uma lmpada de brilho mortio. Sobre a escrivaninha, via-se a surrada mquina de escrever porttil, da marca Underwood, usada por Woodrow Wilson para escrever seus discursos e comunicados  imprensa.
Gus estava mais interessado no telefone. Caso ele tocasse, teria que decidir se acordaria ou no o presidente.
Essa deciso no podia ser tomada por nenhuma telefonista. Por outro lado, os conselheiros de maior escalo do presidente precisavam descansar. Dependendo do ponto de vista, Gus poderia ser considerado o mais reles dos conselheiros de Wilson, ou o mais graduado de seus assessores. De toda forma, coubera a ele a
 
149
 

tarefa de passar a noite sentado junto ao telefone e decidir quando atrapalhar
ou no o sono do presidente - ou o da primeira-dama, Eilen Wilson, que sofria
uma doena misteriosa. Gus estava nervoso, com medo de dizer ou fazer algo errado. De repente, toda a educao cara que havia tido lhe parecia suprfl I
mesmo em Harvard ningum jamais lhe ensinara quando deveria acordar o presidente. Estava torcendo para o telefone no tocar nunca.
Gus estava ali por causa de uma carta que tinha escrito. Havia relatado 
o encontro com o rei em Ty Gwyn e a conversa sobre o perigo de guerra na Europa depois do jantar. O senador Dewar achou sua carta to interessante e
divertida que a mostrou ao amigo Woodrow Wilson, que por sua vez disse:
-		Eu gostaria de ter esse rapaz trabalhando na minha equipe. - Gus estava
tirando um ano de folga entre os estudos em Harvard, onde cursara direito internacional, e seu primeiro emprego em um escritrio de advocacia de Washington.
Estava no meio de uma volta ao mundo, mas interrompeu sua viagem com entusiasmo e correu para casa a fim de prestar servio ao presidente.
Nada fascinava tanto Gus quanto as relaes entre pases - as amizades e os
dios, as alianas e as guerras. Quando adolescente, havia assistido a sesses do
Comit de Relaes Exteriores do Senado - do qual seu pai era membro - e as
achara mais impressionantes do que uma pea de teatro.
-		 assim que as naes geram paz e prosperidade, ou ento guerra, devastao e fome - dissera-lhe o pai. - Se voc quiser mudar o mundo, ento as relaes exteriores so o campo onde mais poder fazer o bem... ou o mal.
E agora Gus estava envolvido em sua primeira crise internacional.
Um funcionrio mais exaltado do governo mexicano tinha detido oito marinheiros norte-americanos no porto de Tampico. Os homens j haviam sido liberados, o funcionrio pedira desculpas e o incidente trivial poderia ter se encerrado
ali. Porm o comandante do esquadro da Marinha, almirante Mayo, havia exigido uma salva de 21 tiros. O presidente Huerta se recusara. Para aumentar ainda
mais a presso, Wilson tinha ameaado ocupar Veracruz, o maior porto do Mxico.
Assim, os Estados Unidos estavam  beira de uma guerra. Gus admirava muito
Woodrow Wilson e seus nobres princpios. O presidente no se contentava com
a opinio cnica de que os mexicanos eram todos iguais, todos bandidos. Huerta
era um reacionrio que havia assassinado seu predecessor, de modo que Wilson
vinha buscando um pretexto para dep-lo. Gus achava excitante o fato de um lder
mundial dizer que no era aceitvel um homem se valer de assassinato para alcanar o poder. Ser que algum dia tal princpio seria aceito por todas as naes.
A crise fora ainda mais intensificada pelos alemes. Um navio alemo chamado
 
150



Ypiranga estava se aproximando de Veracruz com um carregamento de rifles e munio para o governo de Huerta.
   O dia inteiro fora de grande tenso, mas agora Gus estava brigando para continuar acordado. Sobre a mesa  sua frente, iluminado por um abajur de cpula verde, havia um relatrio datilografado do servio de inteligncia do Exrcito sobre o poderio dos rebeldes no Mxico. A inteligncia era um dos menores departamentos do Exrcito, com apenas dois funcionrios e dois auxiliares de escritrio, e o relatrio era malfeito.
   Em meio a toda essa crise, os pensamentos de Gus vagavam em outra direo: ele no conseguia parar de pensar em Caroline Wigmore.
   Ao chegar a Washington, ele tinha feito uma visita ao professor Wigmore, um de seus professores de Harvard que se transferira para a Universidade de Georgetown. Wigmore no estava em casa, mas sua jovem segunda esposa, sim. Gus j havia encontrado Caroline em diversos eventos no campus, ocasies em que se sentira fortemente atrado por seu jeito discreto e observador e por sua inteligncia viva.
  -		Ele falou que precisava encomendar camisas novas - dissera ela, mas Gus pde ver a tenso em seu rosto. - Mas eu sei que ele foi encontrar a amante - acrescentara em seguida. - Gus havia usado seu leno de bolso para lhe enxugar as lgrimas e ela o beijara na boca, falando:
  -		Eu gostaria de ser casada com um homem em quem pudesse confiar.
   Caroline havia se revelado surpreendentemente fogosa. Embora no permitisse relaes sexuais, eles faziam todo o resto. As carcias dele j eram suficientes para lhe provocar orgasmos avassaladores.
   O caso durava apenas um ms, mas Gus sabia que queria que ela se divorciasse de Wigmore para se casar com ele. Ela, no entanto, no queria nem ouvir falar nisso, embora no tivesse filhos. Dizia que isso seria o fim da carreira de Gus, e provavelmente tinha razo. No seria possvel agir com discrio, pois o escndalo seria irresistvel - a esposa atraente que abandona um professor de renome para se casar logo em seguida com um rapaz mais novo e rico.
   Gus sabia exatamente o que sua me diria sobre um casamento assim: "Se o professor foi infiel,  compreensvel, mas  claro que no se pode frequentar socialmente uma mulher dessas." O presidente ficaria constrangido, bem como o tipo de gente que um advogado gostaria de ter como cliente. E Gus certamente daria adeus a qualquer esperana que pudesse acalentar de seguir os passos do pai no Senado.
   Ele disse a si mesmo que no ligava para nada disso. Amava Caroline e iria tom-la do marido. Tinha dinheiro de sobra e, quando o pai morresse, ficaria
   
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milionrio. Encontraria outra carreira para seguir. Talvez se tornasse jornalista
correspondente em capitais estrangeiras.	
Ainda assim, sentiu uma pontada de arrependimento. Havia acabado de 
 conseguir um emprego na Casa Branca, o sonho de qualquer jovem como ele. Seria
um verdadeiro sacrifcio abrir mo dessa oportunidade e de tudo o que ela podeeria representar para a sua carreira.
O telefone tocou e Gus levou um susto com o barulho repentino no silncio
noturno da Ala Oeste.
-		Ai, meu Deus - falou ele, encarando o aparelho. - Ai, meu Deus, chegou a
hora. - Gus hesitou vrios segundos antes de finalmente pegar o fone. Quando o
fez, ouviu a voz afeminada do secretrio de Estado William Jennings Bryan.
-		Gus, estou com Joseph Daniels na linha. - Daniels era o secretrio da Marinha
- E o assistente do presidente est escutando em uma extenso.
-		Sim, senhor secretrio - respondeu Gus. Forou-se a manter a voz calma,
mas seu corao estava disparado.
-		V acordar o presidente, por favor - pediu o secretrio Bryan.
-		Sim, senhor.
Gus cruzou o Salo Oval e saiu para o Rose Garden sob o ar fresco da noite.
Atravessou correndo o jardim at o prdio antigo. Um guarda o deixou entrar.
Ele subiu s pressas a escadaria principal e desceu o corredor at a porta do quarto. Respirou fundo e bateu com fora, machucando os ns dos dedos.
Aps alguns instantes, ouviu a voz de Wilson.
-		Quem ?
-		Gus Dewar, Sr. Presidente - disse ele. - Os secretrios Bryan e Daniels esto
ao telefone.
-		S um minuto.
O presidente Wilson saiu do quarto pondo os culos sem armao, parecendo vulnervel com seu pijama e roupo. Era alto, mas no to alto quanto Gus.
Aos 57 anos, tinha cabelos cinza-escuros. Achava-se um homem feio, e no estava muito longe da verdade. Tinha um nariz aquilino e orelhas de abano, mas o
queixo grande e protuberante dava a seu rosto um ar determinado que refletia
com preciso a fora de carter que Gus tanto admirava. Quando o presidente
falou, exibiu uma dentio em mau estado.
-		Bom dia, Gus - disse ele cordialmente. - Que agitao toda  essa?
-		Eles no me disseram.
-		Bom,  melhor voc ficar escutando na extenso da sala ao lado.
Gus foi depressa at a sala ao lado e pegou o telefone.
 
152


Ouviu a voz melodiosa de Bryan:
-		Espera-se que o Ypiranga atraque s dez horas da manh de hoje.
Gus sentiu um arrepio de apreenso. Agora o presidente mexicano sem dvida iria ceder, no? Caso contrrio, haveria derramamento de sangue.
Bryan leu uma mensagem por cabo do cnsul norte-americano em Veracruz:
-		"O vapor Ypiranga, de propriedade da linha Hamburg-Amerika, chegar amanh da Alemanha com 200 metralhadoras e 15 milhes de cartuchos. Ir para o per quatro para comear a descarregar s dez e meia."
-		Sr. Bryan, voc entende o que isso significa? - indagou Wilson, e Gus pensou que sua voz soava queixosa. - Daniels, voc est a? O que acha?
-		No podemos permitir que a munio chegue at Huerta - respondeu Daniels. Gus ficou surpreso ao ouvir essa afirmao dura sair da boca do pacfico secretrio da Marinha. - Posso mandar um cabo para o almirante Fletcher dizendo-lhe para impedir a entrega e ocupar a alfndega.
Houve uma longa pausa. Gus percebeu que estava segurando o fone com tanta fora que sua mo doa. Por fim, o presidente falou:
-		Daniels, envie a seguinte ordem para o almirante Fletcher: "Ocupe Veracruz imediatamente."
-		Sim, Sr. Presidente - respondeu o secretrio da Marinha.
E os Estados Unidos entraram em guerra.
Gus no dormiu naquela noite, tampouco na seguinte.
Pouco depois das oito e meia, o secretrio Daniels trouxe a notcia de que um navio de guerra americano havia bloqueado a passagem do Ypiranga. O navio alemo, um cargueiro sem armas, reverteu os motores e foi embora. Fuzileiros navais americanos iriam desembarcar em Veracruz mais tarde naquela manh, informou Daniels.
Gus estava apavorado com a rapidez com que a crise avanava, mas empolgado por estar no centro dos acontecimentos.
Woodrow Wilson no tinha medo da guerra. Sua pea de teatro preferida era Henrique V, de Shakespeare, e ele gostava de citar a fala: "Se ambicionar a honra  pecado, sou a alma mais pecadora que existe."
Notcias chegavam por telgrafo e por cabo, e cabia a Gus levar as mensagens at o presidente. Ao meio-dia, os fuzileiros navais assumiram o controle da alfndega de Veracruz.

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Pouco depois, Gus foi avisado de que tinha uma visita - uma certa
Wigmore.	
Preocupado, franziu o cenho. Aquilo era uma indiscrio. Deveria ter
tecido alguma coisa.
Saiu apressado para o saguo. Caroline parecia abalada. Embora usasse um casaco de tweed alinhado e um chapu simples, tinha os cabelos despenteados e os
olhos vermelhos de tanto chorar. Gus ficou chocado e aflito ao v-la nesse estado.
-		Minha querida! - disse ele em voz baixa. - O que foi que houve?
-		Est tudo terminado. Nunca mais posso ver voc. Sinto muito - disse ela
comeando a chorar.
Gus sentiu vontade de abra-la, mas no podia fazer isso ali. No tinha sala
prpria. Olhou em volta. O guarda junto  porta os observava. No havia
nenhum lugar onde pudessem ficar a ss. Era enlouquecedor.
-		Vamos sair - disse ele, pegando-a pelo brao. - Podemos dar uma volta.
Ela fez que no com a cabea.
-		No. Eu vou ficar bem. Fique aqui.
-		O que deixou voc assim?
Ela se recusou a encar-lo, olhando para o cho.
-		Preciso ser fiel ao meu marido. Tenho minhas obrigaes.
-		Deixe-me ser o seu marido.
Ela ergueu o rosto, e sua expresso de desejo partiu o corao de Gus.
-		Ah, como eu queria poder fazer isso.
-		Mas voc pode!
-		Eu j tenho marido.
-		Ele no  fiel a voc... por que voc deveria ser fiel a ele?
Caroline ignorou o comentrio.
-		Ele aceitou um cargo em Berkeley. Vamos nos mudar para a Califrnia.
-		No v.
-		J est decidido.
-		 claro - disse Gus com uma voz sem vida. Tinha a sensao de ter sido
nocauteado. Seu peito doa e ele estava com dificuldade para respirar. -
Califrnia
- falou ele. - Nossa...
Caroline viu que ele estava aceitando o inevitvel, de modo que comeou a
recobrar a compostura.
-		Este  nosso ltimo encontro - disse ela.
-No!
-		Por favor, escute. Quero lhe contar uma coisa e esta  minha nica chance-
 
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  -		Est bem.
  -		Um ms atrs, eu estava prestes a me matar. No me olhe assim,  verdade. Achava que era to desprezvel que ningum daria importncia se eu morresse. Ento voc apareceu  minha porta. Foi to afetuoso, to corts, to atencioso, que me fez pensar que valia a pena continuar viva. Voc me tratou com carinho. - As lgrimas escorriam por suas faces, mas ela prosseguiu: - E ficou to feliz quando o beijei... Percebi que, se eu era capaz de proporcionar uma alegria to grande a algum, no podia ser totalmente intil; e esse pensamento me fez seguir em frente. Voc salvou minha vida, Gus. Que Deus o abenoe.
   Ele quase sentiu raiva.
  -		E o que me resta disso tudo?
  -		Lembranas - respondeu ela. - Espero que voc as guarde com o mesmo amor com que guardo as minhas.
   Caroline se virou para ir embora. Gus a seguiu at a porta, mas ela no olhou para trs. Saiu do prdio, e ele a deixou ir.
   Quando ela sumiu de seu campo de viso, Gus tomou automaticamente o rumo do Salo Oval, mas logo em seguida mudou de direo: seus pensamentos estavam tumultuados demais para que fosse se encontrar com o presidente. Resolveu ir at o toalete masculino para ter alguns instantes de paz. Felizmente, no havia ningum l. Lavou o rosto e se olhou no espelho. Viu um homem magro, de cabea grande: ele tinha o mesmo formato de um pirulito. Seus cabelos eram cas- tanho-claros, seus olhos, castanhos, e no era muito bonito, mas as mulheres em geral gostavam dele - e Caroline o amava.
   Ou, pelo menos, havia amado por algum tempo.
   Ele no deveria t-la deixado partir. Como podia ter assistido  sua partida sem fazer nada? Deveria t-la convencido a adiar sua deciso, a pensar melhor, a conversar um pouco mais. Talvez os dois pudessem ter pensado em alternativas. Porm, no fundo, ele sabia no haver alternativa alguma. Imaginava que ela j tivesse refletido bastante sobre tudo aquilo. Provavelmente tinha ficado noites em claro, com o marido adormecido ao seu lado, passando e repassando a situao. J havia se decidido antes de ir at l.
   Ele precisava voltar ao seu posto. Os Estados Unidos estavam em guerra. Mas como faria para tirar aquilo da cabea? Quando no podia v-la, passava o dia inteiro ansiando pelo prximo encontro. Agora no conseguia parar de pensar na vida sem ela. Era uma perspectiva estranha. O que iria fazer?
   Um assessor entrou no toalete, ento Gus secou as mos em uma toalha e voltou para seu posto no escritrio contguo ao Salo Oval.

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Logo em seguida, um mensageiro lhe trouxe um cabo enviado pelo cnsul
norte-americano em Veracruz. Gus leu o papel e exclamou:
-		Ah, no! - A mensagem dizia: "Quatro homens nossos mortos vrgula vinte
feridos vrgula tiroteio generalizado nas cercanias do consulado ponto".
Quatro mortos, pensou Gus, horrorizado, quatro bons americanos, com mes
e pais, mulheres ou namoradas. A notcia pareceu redimensionar sua prpria
tristeza. Pelo menos Caroline e eu estamos vivos, pensou ele.
Bateu na porta do Salo Oval e entregou o cabo a Wilson. O presidente ficou
plido ao ler a mensagem.
Gus o encarou com intensidade. Como o presidente se sentia sabendo que aqueles homens haviam morrido por causa da deciso que ele tomara no meio da noite?
Aquilo no deveria ter acontecido. Os mexicanos queriam se ver livres de
governos tirnicos, no queriam? Eles deveriam ter recebido os americanos
como libertadores. O que sara errado?
Bryan e Daniels apareceram alguns minutos mais tarde, seguidos pelo secretrio da Guerra, Lindley Garrison, homem em geral mais beligerante do que
Wilson, e por Robert Lansing, o conselheiro do Departamento de Estado. Todos
se reuniram no Salo Oval para aguardar novas notcias.
O presidente estava mais tenso do que uma corda de violino. Plido, irrequieto e nervoso, ficava andando de um lado para outro. Era uma pena Wilson no
fumar, pensou Gus - talvez ajudasse a acalm-lo.
Todos sabamos que poderia haver violncia, refletiu ele, mas de alguma
forma a realidade  mais chocante do que havamos previsto.
Novos detalhes foram chegando esporadicamente e Gus entregava as mensagens
a Wilson. As notcias eram todas ruins. As tropas mexicanas tinham resistido, disparando de seu forte contra os fuzileiros navais. Os soldados tiveram o apoio da
populao, que passou a atirar a esmo nos americanos das janelas mais altas de
suas casas. Em retaliao, o USS Prairie, embarcao norte-americana ancorada
prximo da costa, virou seus canhes de oito centmetros para a cidade e disparou.
As baixas aumentaram: seis americanos mortos, oito, 12 - e mais feridos. O
confronto, no entanto, foi irremediavelmente desigual, e mais de 100 mexicanos
morreram.
O presidente parecia atnito.
-		Ns no queremos combater os mexicanos - disse ele. - Queremos ajud-los.
Queremos ajudar a humanidade.
Pela segunda vez no mesmo dia, Gus se sentiu levado a nocaute. O presidente
e seus conselheiros no tinham nada alm de boas intenes. Como as coisas
 
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podiam ter dado to errado? Ser que era mesmo to difcil fazer o bem em matria de relaes internacionais?
O Departamento de Estado enviou uma mensagem. O embaixador alemo, conde Johann von Bernstorff, recebera instrues do Kaiser para telefonar ao secretrio de Estado, e desejava saber se seria conveniente ligar s nove horas da manh seguinte. Extraoficialmente, sua equipe deu a entender que o embaixador faria uma queixa formal contra o embargo ao Ypiranga.
-		Uma queixa? - disse Wilson. - De que diabos eles esto falando?
Gus logo percebeu que o direito internacional estava do lado dos alemes.
-		Sr. Presidente, no houve declarao de guerra nem de bloqueio, portanto, estritamente falando, os alemes tm razo.
-		O qu? - Wilson se virou para Lansing. -  isso mesmo?
-		Ns vamos verificar,  claro - respondeu o conselheiro do Departamento de Estado. - Mas tenho quase certeza de que Gus est certo. O que ns fizemos  uma violao do direito internacional.
-		Ento o que isso significa?
-		Significa que teremos que pedir desculpas.
-		Nunca! - respondeu Wilson com irritao.
Mas foi o que fizeram.
Maud Fitzherbert estava admirada por ter se apaixonado por Walter von Ulrich. Por outro lado, teria ficado surpresa por ter se apaixonado por qualquer homem. Era raro gostar de algum. Muitos tinham ficado atrados por ela, sobretudo nos seus tempos de debutante, mas seu feminismo logo afastara a maioria deles. Outros tinham planejado coloc-la nos eixos - como o mal-ajambrado marqus de Lowther, que dissera a Fitz que ela veria quanto estava equivocada quando conhecesse um homem que a dominasse de verdade. Pobre Lowthie: ela havia lhe mostrado que o equvoco era todo dele.
Walter a considerava maravilhosa do jeito que era. Qualquer coisa que Maud fizesse o deixava encantado. Quando ela defendia pontos de vista extremos, ele ficava impressionado com sua argumentao; quando chocava a sociedade ao ajudar mes solteiras e seus filhos, ele admirava sua coragem; e ainda adorava seu estilo ousado de se vestir.
Maud ficava entediada com os ingleses ricos de classe alta que consideravam a atual forma de organizao da sociedade bastante satisfatria. Walter era diferente:

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ele era surpreendentemente radical. De onde ela estava sentada, na fileira de trs do camarote de seu irmo na pera, podia ver Walter nas primeiras fileiras da plateia, ao lado de um pequeno grupo da embaixada alem. Com seus cabelos penteados com esmero, seu bigode bem aparado e seu traje de gala sob medida, ele no parecia um rebelde. Fitava o palco com grande concentrao enquanto Don Giovanni, acusado de tentar estuprar uma camponesa pobre, fingia descaradamente ter flagrado seu criado Leporello cometendo o crime.
Na verdade, pensou ela, rebelde no era a palavra certa para definir Walter. Embora fosse extraordinariamente aberto a novas ideias, ele s vezes era conservador. Tinha orgulho da grande tradio musical dos povos de lngua alem e se irritava com os espectadores ingleses blass que chegavam atrasados, conversavam com os amigos durante os espetculos e saam antes do final. quela altura, estaria irritado com Fitz, por ele fazer comentrios sobre a aparncia fsica da soprano com seu amigo Bing Westhampton, e com Bea, por ela conversar com a duquesa de Sussex sobre a loja de Madame Lucille na Hanover Square, onde ambas haviam comprado seus vestidos. Maud sabia at o que Walter lhe diria: "Eles s escutam a msica depois de esgotar todas as fofocas!"
Ela achava a mesma coisa, mas os dois eram uma minoria. Para a maior parte da alta sociedade londrina, a pera era apenas mais uma oportunidade para exibir roupas e jias. No entanto, at mesmo aquela plateia fez silncio por volta do final do primeiro ato, quando Don Giovanni ameaou matar Leporello e a orquestra produziu uma verdadeira tempestade com seus tambores e contrabaixos. Ento, com a indiferena que lhe era caracterstica, Don Giovanni libertou Leporello e afastou-se com desenvoltura, desafiando todos a det-lo; e o pano caiu.
Walter se levantou na mesma hora, olhou na direo do camarote e acenou. Fitz acenou de volta.
-		Aquele  Von Ulrich - disse ele a Bing. - Os alemes esto todos cheios de si por terem deixado os americanos constrangidos no Mxico.
Bing era um mulherengo endiabrado, de cabelos encaracolados, parente distante da famlia real. Pouco sabia sobre questes internacionais, e seus principais interesses eram jogar e beber nas capitais europeias. Intrigado, ele franziu as sobrancelhas e perguntou:
-		Qual o interesse dos alemes pelo Mxico?
-		Boa pergunta - respondeu Fitz. - Se eles pensam que vo conseguir conquistar colnias nas Amricas, esto enganados... os Estados Unidos jamais permitiro tal coisa.
 
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Maud saiu do camarote e desceu a escadaria imponente, meneando a cabea e sorrindo para conhecidos. Conhecia praticamente metade dos presentes: a sociedade londrina era surpreendentemente pequena. No saguo coberto com um tapete vermelho, encontrou um grupo reunido em volta da silhueta franzina e elegante de David Lloyd George, chanceler do Tesouro.
-		Boa noite, lady Maud - disse ele, com a fasca que surgia em seus olhos azuis brilhantes sempre que se dirigia a uma mulher atraente. - Ouvi dizer que a visita do rei  sua casa correu bem. - Ele falava com o sotaque anasalado de Gales do Norte, menos melodioso do que o falar cadenciado de Gales do Sul. - Mas que tragdia na mina de Aberowen!
-		As famlias dos mortos ficaram muito reconfortadas com as condolncias do rei - disse Maud.
Uma mulher atraente de vinte e poucos anos fazia parte do grupo.
-		Boa noite, Srta. Stevenson,  um prazer rev-la - falou Maud.
A secretria para assuntos polticos e amante de Lloyd George era uma rebelde, de modo que Maud simpatizava com ela. Alm do mais, um homem sempre ficava grato s pessoas que tratavam sua amante com educao.
Lloyd George dirigiu-se ao grupo:
-		No fim das contas, o navio alemo entregou as armas ao Mxico assim mesmo. Ele simplesmente foi para outro porto e descarregou na surdina. O que significa que 19 soldados americanos morreram por nada.  uma humilhao terrvel para Woodrow Wilson.
Maud sorriu e tocou o brao de Lloyd George.
-		Chanceler, poderia me explicar uma coisa?
-		Se estiver ao meu alcance, minha cara - disse ele, solcito.
A maioria dos homens ficava feliz quando uma pessoa lhe pedia que explicasse algo, pensou Maud, sobretudo se fosse uma jovem atraente.
-		Por que algum se interessaria pelo que acontece no Mxico? - perguntou ela.
-		Petrleo, minha cara senhora - respondeu Lloyd George. - Petrleo.
Alguma outra pessoa falou com ele, e o chanceler se virou.
Maud viu Walter. Os dois se encontraram ao p da escadaria. Ele se curvou por sobre sua mo enluvada e ela teve de resistir  tentao de tocar seus cabelos louros. Seu amor por Walter havia despertado um profundo desejo adormecido, que era ao mesmo tempo atiado e atormentado por seus beijos roubados e suas carcias furtivas.
-		Est gostando da pera, lady Maud? - indagou ele com formalidade, mas seus olhos cor de avel diziam: Queria que estivssemos a ss.
 
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-		Muito... o Don tem uma voz maravilhosa.
-		Na minha opinio, o maestro est regendo um pouco depressa demais.
Walter era o nico conhecido de Maud a levar a msica to a srio quanto ela.
-		Discordo - foi sua resposta. -  uma comdia, ento as melodias precisam ser velozes.
-		Mas no  s uma comdia.
-		 verdade.
-		Quem sabe ele no dimini o ritmo quando as coisas desandarem no segundo ato?
-		Parece que vocs conseguiram algum tipo de vitria diplomtica no Mxico
-		falou ela, mudando de assunto.
-		Meu pai est... - Ele hesitou, procurando as palavras, coisa rara no seu caso.
-		Exultante - completou, aps uma pausa.
-		E voc no est?
Sua expresso ficou sombria.
-		Tenho minhas preocupaes de que o presidente americano queira se vingar um dia.
Foi ento que Fitz passou por eles e disse:
-		Ol, Von Ulrich, venha ficar conosco no nosso camarote, temos um lugar vazio.
-		Com prazer! - respondeu Walter.
Maud ficou encantada. Fitz estava apenas sendo hospitaleiro: no sabia que a irm estava apaixonada por Walter. Ela teria que deix-lo a par da notcia em breve. No sabia ao certo como ele iria reagir. Seus pases tinham divergncias e, embora Fitz considerasse Walter um amigo, aceit-lo como cunhado era uma histria muito diferente.
Ela e Walter subiram as escadas e atravessaram o corredor. A fileira de trs do camarote de Fitz tinha apenas dois lugares com uma viso ruim do palco. Sem reclamar, Maud e Walter se sentaram neles.
Alguns minutos depois, as luzes do teatro se apagaram. Na penumbra, Maud quase conseguia se imaginar a ss com Walter. O segundo ato comeou com um dueto entre o Don e Leporello. Maud gostava da forma como Mozart fazia patres e criados cantarem juntos, mostrando as relaes complexas e ntimas entre as classes superiores e inferiores. Muitas peas se atinham somente s classes superiores, retratando os criados como parte da moblia - coisa que muitos gostariam que eles fossem.
Bea e a duquesa voltaram para o camarote durante o tri  "Ah! Taci, ingiusto core". Todos pareciam ter ficado sem assunto, pois estavam falando menos e escutando mais. Ningum dirigiu a palavra a Maud nem a Walter, e nem sequer se
 
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virou para olh-los, de modo que Maud se perguntou, animada, se poderia tirar vantagem da situao. Sentindo-se ousada, estendeu a mo e segurou furtivamente a de Walter. Ele sorriu e acariciou seus dedos com o polegar. Ela desejou poder beij-lo, mas isso seria uma temeridade.
Quando Zerlina cantou sua ria "Vedrai, carino", em um comovente compasso 3/8, um impulso irresistvel comeou a instigar Maud - e, assim que Zerlina apertou a mo de Masetto junto ao corao, Maud levou a mo de Walter ao prprio seio. Ele soltou um arquejo involuntrio, mas ningum percebeu, pois Masetto produzia rudos semelhantes, uma vez que acabara de levar uma surra de Don.
Ela virou a mo de Walter para que ele pudesse sentir seu mamilo com a palma. Walter adorava os seios de Maud e os tocava sempre que podia, ou seja, raramente. Ela desejava que fosse com mais frequncia: adorava quando ele fazia isso. Essa era outra revelao. J haviam tocado seus seios antes - um mdico, um pastor anglicano, uma menina mais velha no curso de dana, um homem na multido -, e ela ficara ao mesmo tempo perturbada e lisonjeada ao se pensar capaz de despertar a luxria alheia, mas nunca havia gostado da sensao como agora. Olhou de relance para o rosto de Walter e viu que ele tinha os olhos fixos no palco, mas que sua testa exibia um brilho de transpirao. Imaginou se seria errado da sua parte excit-lo de tal forma quando no podia satisfaz-lo; porm ele no fez nenhum movimento para retirar a mo, o que a fez concluir que apreciava aquilo. Assim como ela. Como sempre, no entanto, Maud queria mais.
O que a havia feito mudar? Nunca fora assim. Era ele,  claro, e a qumica que sentia entre os dois, uma intimidade to intensa que lhe dava a impresso de poder dizer qualquer coisa, fazer o que bem entendesse, no esconder nada. O que o tornava to diferente de todos os outros homens que haviam se sentido atrados por ela? Um homem como Lowthie, ou mesmo Bing, esperava que uma mulher se comportasse como uma criana bem-educada: que escutasse respeitosamente quando ele dissesse algo maante, risse de suas tiradas inteligentes, obedecesse quando ele se mostrasse dominador e o beijasse sempre que ele pedisse. Walter a tratava como adulta. No fazia galanteios vazios, nem se mostrava condescendente ou exibido, e escutava pelo menos tanto quanto falava.
A msica ficou sinistra quando a esttua ganhou vida e o Commendatore entrou com passos firmes na sala de jantar de Don Giovanni. Aquele era o clmax da pera, e Maud tinha quase certeza de que ningum olharia para trs. Talvez, pensou, pudesse satisfazer Walter afinal - e essa ideia a deixou sem flego.
Enquanto os trombones bradavam junto  voz de baixo grave do Commendatore, ela ps a mo sobre a coxa de Walter. Pde sentir o calor de sua pele atravs da
 
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calsa. Maud notou que tinha
a boca aberta e a respirao acelerada. Ela subiu a mo por sua coxa e, ao mesmo tempo que o Don segurava corajosamente a mo do Commendatore, encontrou o membro rijo de Walter e o empunhou.
Estava ao mesmo tempo excitada e curiosa. Nunca tinha feito aquilo antes. Explorou o rgo atravs do tecido da cala. Era maior do que ela imaginava, e mais duro tambm, parecendo mais um pedao de madeira do que uma parte do corpo. Que estranho, pensou, o simples toque de uma mulher gerar uma modificao fsica to notvel. Quando ela ficava excitada, isso transparecia em pequenas mudanas: aquela sensao de inchao quase imperceptvel e a umidade l dentro. No caso dos homens, era como hastear uma bandeira.
Ela sabia o que os meninos faziam, pois havia espionado Fitz quando o irmo tinha 15 anos; ento imitou os gestos que o vira fazer, subindo e descendo a mo enquanto o Commendatore exigia que o Don se arrependesse e este se recusava a faz-lo repetidas vezes. quela altura, Walter ofegava, mas ningum conseguia escut-lo porque a orquestra tocava muito alto. Maud estava radiante por ser capaz de lhe proporcionar tanto prazer. Ficou observando as nucas dos companheiros de camarote, morrendo de medo que algum se virasse, mas envolvida demais no que estava fazendo para parar. Walter cobriu-lhe a mo com a sua, ensinando a ela como fazer, apertando com mais fora ao descer e aliviando a presso ao subir, e Maud imitou seus gestos. Enquanto o Don era arrastado para dentro das chamas, Walter teve um sobressalto. Ela sentiu uma espcie de espasmo em seu membro - uma, duas, trs vezes - e, ento, enquanto o Don morria de terror, Walter pareceu se afundar na cadeira, exausto.
Maud de repente se deu conta de que o que havia feito era uma loucura completa. Retirou a mo no mesmo instante, corando de vergonha. Percebeu que ofegava e tentou respirar normalmente.
No palco, iniciou-se a cena final com o elenco inteiro e Maud relaxou. No sabia o que havia dado nela, mas conseguira escapar ilesa. O alvio da tenso lhe deu vontade de rir, mas ela se conteve.
Cruzou olhares com Walter. Ele a fitava com adorao. Maud sentiu uma onda de prazer. Ele se inclinou mais para perto e colou os lbios ao seu ouvido.
-		Obrigado - murmurou.
Ela deu um suspiro e disse:
-		Foi um prazer.

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CAPTULO SEIS
Junho de 1914

No incio de junho, Grigori Peshkov enfim juntou dinheiro suficiente para
comprar uma passagem at Nova York. A famlia Vyalov de So Petersburgo
lhe vendeu tanto o bilhete quanto os documentos necessrios para emigrar para
os Estados Unidos, incluindo uma carta do Sr. Josef Vyalov, de Buffalo, prometendo um emprego a Grigori.
Grigori beijou a passagem. Mal podia esperar para partir. Aquilo parecia um
sonho, e ele tinha medo de acordar antes de o navio zarpar. Agora que a viagem
estava to prxima, ansiava ainda mais pelo instante em que estaria em p no
convs e olharia para trs para ver a Rssia desaparecer no horizonte e sair de sua
vida para sempre.
Na noite anterior  partida, seus amigos organizaram uma festa.
A festa foi no bar do Mishka, prximo  Metalrgica Putilov. Uma dzia de
colegas de trabalho estava presente, alm de quase todos os membros do grupo
de discusso bolchevique sobre socialismo e atesmo e as moas da casa em que
Grigori e Lev moravam. Todos haviam aderido  greve que se estendia por metade das fbricas de So Petersburgo, ento ningum tinha muito dinheiro, mas
fizeram uma vaquinha para comprar um barril de cerveja e alguns arenques. Era
uma noite quente de vero, e eles se sentaram em bancos num terreno baldio ao
lado do bar.
Grigori no gostava muito de festas. Teria preferido passar a noite jogando
xadrez. O lcool deixava as pessoas idiotas, e flertar com as esposas e namoradas
dos outros lhe parecia uma perda de tempo. Seu amigo de cabelos revoltos,
Konstantin, presidente do grupo de discusso, se desentendeu por causa da greve
com o agressivo Isaak, o jogador de futebol, e eles acabaram aos gritos um com
o outro. Grande Varya, me de Konstantin, bebeu quase uma garrafa inteira de
vodca, deu um soco no marido e desmaiou. Lev trouxe vrios amigos homens
que Grigori nunca havia encontrado e garotas que no queria conhecer que
tomaram toda a cerveja sem pagar um tosto.
Grigori passou a noite inteira lanando olhares tristes para Katerina. Ela estava
de bom humor; adorava festas. Sua saia comprida rodopiava e seus olhos azul-esverdeados faiscavam enquanto se movia de um lado para outro, provocando
 
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os homens e encantando as mulheres, 
sempre a sorrir com aquela boca larga e
generosa. Suas roupas eram velhas e remendadas, mas seu corpo era lindo, bem do tipo que os homens russos gostavam, com seios fartos e quadris largos. Grigori se apaixonara por ela no dia em que a conhecera - e agora, quatro meses depois, continuava apaixonado. Mas ela preferia seu irmo.
Por qu? No era uma questo de aparncia fsica. Os dois eram to parecidos que as pessoas s vezes os confundiam. Tinham a mesma altura e o mesmo peso e podiam usar as roupas um do outro. Mas Lev era extremamente charmoso. Era egosta e irresponsvel, alm de viver  margem da lei, mas as mulheres o adoravam. Grigori era honesto e confivel, trabalhador e um intelectual srio, e era solteiro.
Nos Estados Unidos seria diferente. Tudo l seria diferente. Os latifundirios norte-americanos no podiam enforcar seus trabalhadores. A polcia norte-americana era obrigada a julgar as pessoas antes de puni-las. O governo no podia sequer prender socialistas. No havia nobres: todos l eram iguais, at mesmo os judeus.
Ser que isso era mesmo real? s vezes achava que o que ouvia sobre os Estados Unidos era fantasioso demais, como as histrias que as pessoas contavam sobre as ilhas dos mares do Sul, onde lindas donzelas se entregavam a qualquer um que pedisse. Mas s podia ser verdade: milhares de emigrantes j haviam mandado cartas para casa. Na fbrica, um grupo de socialistas revolucionrios tinha dado incio a uma srie de palestras sobre a democracia norte-americana, mas a polcia os proibira de continuar.
Ele se sentia culpado por deixar o irmo para trs, mas essa era a melhor soluo.
-		Cuide-se - disse ele a Lev perto do fim da noite. - Eu no vou mais estar aqui para tirar voc de encrencas.
-		Eu vou ficar bem - falou Lev, sem dar muita importncia ao assunto. - Cuide-se, voc.
-		Vou mandar dinheiro para a sua passagem. Com o salrio que os americanos pagam, no vai demorar muito.
-		Estarei esperando.
-		No mude de casa... Ns poderamos perder contato.
-		Eu no vou a lugar nenhum, irmo.
No haviam decidido se Katerina tambm iria posteriormente para os Estados Unidos. Grigori deixara a cargo de Lev trazer o assunto  baila, mas o irmo no fizera isso. Grigori no sabia se deveria ter esperanas ou medo de que Lev quisesse lev-la consigo.
Lev segurou o brao de Katerina e disse:
-		Temos de ir agora.

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Grigori ficou surpreso.
-		Para onde vocs vo a esta hora da noite?
- Vou me encontrar com Trofim.
Trofim era um membro pouco importante da famlia Vyalov.
-		Por que precisa encontr-lo hoje?
Lev deu uma piscadela.
-		No se preocupe. Ns vamos voltar antes do amanhecer... com tempo de
	sobra para levar voc at a ilha Gutuyevsky. - Era l que ficavam atracados os
vapores transatlnticos.
-		Est bem - disse Grigori. - No faam nada perigoso - acrescentou ele,
sabendo que era um conselho intil.
Lev acenou alegremente e desapareceu.
J era quase meia-noite. Grigori se despediu dos presentes. Vrios de seus amigos choraram, mas ele no sabia se era de tristeza ou apenas por causa do lcool.
Voltou andando para casa acompanhado por algumas das garotas e, no hall de
entrada, todas o beijaram. Ento foi para o seu quarto.
Sua mala de segunda mo estava em cima da mesa. Embora fosse pequena,
estava cheia s at a metade. Ele estava levando camisas, roupa de baixo e seu
jogo de xadrez. Tinha apenas um par de botas. No havia acumulado muita coisa
durante os nove anos desde a morte da me.
Antes de ir para a cama, espiou dentro do armrio onde Lev guardava seu
revlver, um Nagant Ml895 de fabricao belga. Sentiu um frio na barriga ao
perceber que a arma no estava no seu lugar de sempre.
Para no ter de sair da cama e abrir a janela quando Lev chegasse, ele a
destrancou.
Deitado na cama sem dormir, escutando o rumor familiar dos trens que passavam, ele se perguntou como seria a vida a mais de seis mil quilmetros dali.
Sempre havia morado com Lev, fazendo as vezes de me e pai para o irmo caula. A partir do dia seguinte, nem mesmo saberia se Lev teria passado a noite
inteira fora ou se carregava uma arma. Seria um alvio ou ele se preocuparia
ainda mais?
Como sempre, Grigori acordou s cinco. Seu navio zarpava s oito e o cais
ficava a uma hora a p de onde ele morava. Havia tempo de sobra.
Lev no voltara para casa.
Grigori lavou as mos e o rosto. Olhando-se em um caco de espelho quebrado, aparou o bigode e a barba com uma tesoura de cozinha. Ento vestiu seu
melhor terno. Deixaria o outro para Lev.

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Estava com uma panela de mingau no fogo   quando ouviu algum bater com
fora  porta.
Com certeza eram ms notcias. Os amigos gritavam da rua; apenas as autoridades batiam  porta. Grigori ps a boina na cabea, saiu para o corredor e olhou escada abaixo. A senhoria estava abrindo a porta para dois homens com o uniforme preto e verde da polcia. Observando melhor, ele reconheceu o rosto gorducho em forma de lua cheia de Mikhail Pinsky e a pequena cabea de rato de seu parceiro, Ilya Kozlov.
Grigori pensou depressa. Evidentemente, algum na casa era suspeito de um crime. O culpado mais provvel era Lev. Quer se tratasse de seu irmo ou de algum outro inquilino, todos no prdio seriam interrogados. Os dois policiais se lembrariam do incidente em fevereiro, quando Grigori havia salvado Katerina deles, e aproveitariam a oportunidade para prender Grigori.
E ele perderia seu navio.
Esse pensamento terrvel o deixou paralisado. Perder o navio! Depois de todas as economias e de tanto esperar e torcer por esse dia. No, pensou ele; eu no vou deixar isso acontecer.
Encolhendo-se, voltou ao quarto na mesma hora em que os dois policiais comearam a subir a escada. De nada adiantaria argumentar com eles - muito pelo contrrio: se Pinsky descobrisse que Grigori estava prestes a emigrar, teria ainda mais prazer em prend-lo. Grigori sequer teria uma chance de devolver a passagem e pegar seu dinheiro de volta. Todos aqueles anos de economia iriam por gua abaixo.
Ele precisava fugir.
Em frenesi, correu os olhos pelo quarto. Havia uma porta e uma janela ali. Ele teria de sair da maneira que Lev entrava durante a noite. Olhou para fora: o quintal dos fundos estava vazio. A polcia de So Petersburgo era brutal, mas ningum jamais diria que era muito esperta. Pinsky e Kozlov sequer haviam pensado em vigiar os fundos da casa. Talvez soubessem que no havia sada pelo quintal, exceto se voc atravessasse a via frrea, mas trilhos ferrovirios no representavam um grande obstculo para um homem desesperado.
Grigori ouviu gritos e exclamaes vindos do quarto das moas ao lado do seu: a polcia havia entrado l primeiro.
Apalpou a frente do palet. A passagem, seus documentos e o dinheiro estavam no bolso. Todo o resto dos seus bens materiais j estava dentro da mala usada de papelo.
Ele pegou a mala e se debruou o mximo possvel pela janela. Segurou-a para fora e a deixou cair. Ela aterrissou em p e aparentemente intacta.

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A porta de seu quarto se abriu de supeto.
Grigori passou as pernas por sobre o peitoril, sentando-se nele por uma frao de segundo, e ento pulou sobre o telhado da lavanderia. Seus ps escorregaram nas telhas e ele levou um tombo, caindo sentado. Em seguida, escorregou pelo telhado inclinado at a calha. Ouviu um grito s suas costas, mas no olhou para trs. Pulou l de cima at o cho e aterrissou sem se machucar.
Apanhou a mala e saiu correndo.
Um tiro ecoou, assustando-o e fazendo-o correr mais depressa. A maioria dos policiais no conseguiria acertar o Palcio de Inverno a trs metros de distncia, mas ningum estava a salvo de um acidente. Ele subiu aos tropeos o talude que ia dar nos trilhos, consciente de que, ao se aproximar do nvel da janela, tornava-se um alvo mais fcil. Quando ouviu o tpico resfolegar de uma locomotiva, olhou para a direita e viu um trem de carga se aproximando depressa. Ouviu-se outro tiro e ele sentiu um baque em algum lugar, mas, como no sentiu dor, concluiu que a bala atingira a mala. Chegou ao topo da subida, sabendo que seu corpo agora se destacava contra o cu claro da manh. O trem estava a poucos metros de distncia. O maquinista fez soar forte e demoradamente a buzina. Um terceiro tiro ecoou. Grigori se jogou para o outro lado dos trilhos um segundo antes de o trem passar.
A locomotiva avanou com um estrondo, rodas de ao batendo em trilhos tambm de ao, deixando um rastro de vapor  medida que o som da buzina esmorecia. Grigori se levantou, desequilibrado. Agora estava protegido dos tiros por um comboio de vages abertos carregados de carvo. Atravessou em disparada os trilhos que ainda restavam. Enquanto o ltimo dos vages de carvo passava, ele desceu a encosta oposta e passou pelo quintal de uma pequena fbrica at chegar  rua.
Olhou para a mala. Um dos cantos exibia um buraco de bala. Fora por pouco.
Andou depressa, tentando recuperar o flego, e se perguntou o que deveria fazer em seguida. Agora que estava seguro - pelo menos por hora -, comeou a se preocupar com o irmo. Precisava saber se Lev estava em apuros e, caso estivesse, de que espcie.
Enquanto caminhava em direo ao bar, ficou nervoso com a possibilidade de ser avistado. Seria uma falta de sorte, mas no era impossvel: Pinsky poderia muito bem estar rondando por aquelas ruas. Ele abaixou a boina sobre a testa, sem acreditar de todo que isso poderia disfarar sua identidade. Cruzou com alguns operrios a caminho do cais e juntou-se ao grupo, mas, com a mala na mo, destoava dos outros.
 
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Contudo, conseguiu chegar ao bar do Mishka sem incidentes. O lugar era mobiliado com bancos e mesas de madeira rsticos. Recendia  cerveja e  fumaa de cigarro da noite anterior. Pela manh, Mishka, o dono, servia po e ch aos que no tinham lugar em casa para preparar o desjejum, mas o movimento estava fraco por causa da greve e o local estava praticamente vazio.
Grigori pretendia perguntar a Mishka se ele sabia para onde Lev estava indo quando saiu do bar, mas, antes de conseguir faz-lo, viu Katerina. Ela parecia ter passado a noite em claro. Seus olhos azul-esverdeados estavam avermelhados; seus cabelos louros, desgrenhados e sua saia, amarrotada e manchada. Estava visivelmente abalada, com as mos trmulas e rastros de lgrimas no rosto encardido. Isso, no entanto, a tornava ainda mais bonita aos olhos de Grigori, e ele desejou poder tom-la nos braos para reconfort-la. Como no podia fazer isso, escolheu a segunda melhor opo e foi falar com ela.
-		O que houve? - indagou. - Qual  o problema?
-		Graas a Deus voc apareceu - disse ela. - A polcia est atrs de Lev.
Grigori suspirou. Ento seu irmo estava mesmo em apuros, e logo naquele dia.
-		O que ele aprontou? - Grigori nem sequer se deu ao trabalho de considerar a hiptese de Lev ser inocente.
-		Houve uma confuso ontem  noite. Ns devamos descarregar uns cigarros de uma barca. - Cigarros roubados, presumiu Grigori. - Lev pagou por eles - prosseguiu Katerina -, mas o condutor da barca disse que o dinheiro no era suficiente e eles discutiram. Algum comeou a atirar. Lev atirou de volta e depois ns samos correndo.
-		Graas a Deus nenhum de vocs dois se machucou!
-		Agora estamos sem os cigarros e sem o dinheiro.
-		Que confuso! - Grigori olhou para o relgio acima do balco. Eram seis e quinze. Ainda tinha bastante tempo. - Vamos nos sentar. Quer um pouco de ch? - Ele acenou para Mishka e pediu dois copos de ch.
-		Obrigada - agradeceu Katerina. - Lev acha que um dos feridos deve ter alertado a polcia. E agora esto atrs dele.
-		E voc?
-		Eu no corro perigo, ningum sabe o meu nome.
Grigori assentiu.
-		Nesse caso, o que precisamos fazer  manter Lev longe da polcia. Ele vai ter que ficar escondido por mais ou menos uma semana, depois fugir da cidade.
-		Ele no tem dinheiro.
-		 claro que no. - Lev nunca tinha dinheiro para comprar o bsico, embora
 
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sempre conseguisse pagar uma bebida, apostar e sair com garotas. - Vou deixar alguma coisa para ele. - Grigori teria de mexer no dinheiro que juntara para a viagem. - Onde ele est?
- Ele disse que iria encontrar voc no navio.
Mishka lhes trouxe o ch. Grigori percebeu que estava com fome, pois havia deixado o mingau no fogo. Ele pediu uma sopa.
- Quanto voc pode deixar com Lev? - perguntou Katerina.
Ela o fitou com um olhar intenso que, como sempre, o fez pensar que faria qualquer coisa que ela pedisse. Grigori desviou os olhos.
-		Quanto ele precisar - respondeu.
-		Como voc  bom!
Grigori deu de ombros.
-		Ele  meu irmo.
-		Obrigada.
Grigori gostava quando Katerina se mostrava agradecida, embora tambm ficasse constrangido. A sopa chegou e ele comeou a comer, grato pela distrao. A comida o deixou mais otimista. Lev estava sempre arrumando encrenca. Sairia daquela dificuldade como j havia feito muitas vezes. Isso no significava que precisasse perder o navio.
Katerina bebericou o ch enquanto observava Grigori. Ela no exibia mais o ar frentico de antes. Lev pe voc em perigo e quem a salva sou eu, pensou Grigori, mas mesmo assim voc prefere ficar com ele.
quela altura, Lev provavelmente j estava no cais, escondido  sombra de um guindaste,  espreita de algum policial enquanto aguardava com nervosismo. Grigori precisava ir. Mas talvez nunca mais fosse ver Katerina e mal conseguia suportar a ideia de se despedir dela para sempre.
Terminou de tomar a sopa e consultou o relgio. Eram quase sete horas. Ele estava comeando a se arriscar.
-		Preciso ir - falou, relutante.
Katerina o acompanhou at a porta.
-		No seja duro demais com Lev - pediu ela.
-		Eu algum dia fui?
Ela ps as duas mos em seus ombros, ficou na ponta dos ps e o beijou rapidamente na boca.
-		Boa sorte - disse.
Grigori foi embora.
Ele percorreu a passos largos as ruas do sudoeste de So Petersburgo, um bairro

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industrial repleto de armazns, fbricas, ptios de armazenamento e favelas apinhadas de gente. A 
vergonhosa vontade de chorar passou em poucos minutos. Ele caminhava pelo lado da sombra, sempre com a boina puxada para baixo e o olhar no cho, evitando espaos amplos e abertos. Se Pinsky houvesse divulgado uma descrio de Lev, um policial alerta poderia muito bem prender Grigori.
Ele, no entanto, chegou ao cais sem ser visto. Seu navio, o Anjo Gabriel, era uma embarcao pequena e enferrujada que transportava tanto carga quanto passageiros. No momento, estava sendo carregado com caixotes de madeira bem pregados e assinalados com o nome do maior comerciante de peles da cidade. Diante de seus olhos, a ltima caixa foi armazenada no compartimento de carga, que a tripulao fechou em seguida.
Uma famlia de judeus mostrava suas passagens na beirada da passarela. At onde Grigori sabia, todos os judeus queriam ir para os Estados Unidos. Tinham ainda mais motivos do que ele. Na Rssia, existiam leis que os impediam de possuir terras, trabalhar no servio pblico e serem oficiais do Exrcito, alm de inmeras outras proibies. Judeus no podiam morar onde quisessem e cotas limitavam seu acesso s universidades. Era um milagre que alguns ainda conseguissem ganhar a vida. E se, contrariando todas as probabilidades, eles prosperassem, no demorava muito tempo para serem emboscados por alguma turba - geralmente instigada por policiais da laia de Pinsky - e espancados, alm de terem as famlias aterrorizadas, as janelas de suas casas estilhaadas e suas propriedades incendiadas. Surpreendente era algum deles continuar na Rssia, isso sim.
O navio tocou o apito de "todos a bordo".
Grigori no estava vendo o irmo. O que sara errado? Teria Lev mudado de planos outra vez? Ou ser que j havia sido preso?
Um menininho puxou a manga de Grigori.
-		Um homem quer falar com o senhor - disse.
-		Que homem?
-		Ele  parecido com o senhor.
Graas a Deus, pensou Grigori.
-		Onde ele est?
-		Atrs daquelas tbuas.
No cais havia uma pilha de tbuas de madeira. Grigori a contornou s pressas e encontrou Lev escondido l atrs, fumando um cigarro com agitao. Seu irmo estava irrequieto e plido - coisa rara, visto que em geral ele permanecia alegre, mesmo em apuros.
-		Estou encrencado - disse Lev.

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- De novo.
-		Aqueles condutores de barca so uns mentirosos!
- E ladres tambm, provavelmente.
-		No me venha com sarcasmo. No temos tempo para isso.
-		No, tem razo. Precisamos tirar voc da cidade at a poeira baixar.
Lev fez que no com a cabea, ao mesmo tempo que soltava com fora a fumaa
do cigarro.
-		Um dos condutores morreu. Estou sendo procurado por assassinato.
-		Ah, droga! - Grigori sentou-se em uma das tbuas de madeira e enterrou o
rosto nas mos. - Assassinato - repetiu.
-		Trofim ficou gravemente ferido e a polcia conseguiu faz-lo falar. Foi ele
quem me dedurou.
-		Como voc sabe de tudo isso?
-		Estive com Fyodor faz uma hora. - Fyodor era um policial corrupto conhecido de Lev.
-		Pssima notcia.
-		E no  o pior. Pinsky jurou me pegar... para se vingar de voc.
Grigori aquiesceu.
-		Era isso que eu temia.
-		O que vou fazer?
-		Voc vai ter que ir para Moscou. Vai demorar muito tempo at So
Petersburgo ser um lugar seguro para voc outra vez, se  que voltar a ser um
dia.
-		No sei se Moscou  longe o bastante, agora que a polcia tem telgrafos.
Grigori percebeu que ele tinha razo.
O navio tornou a apitar. Logo as passarelas seriam retiradas.
-		Nosso tempo est acabando - disse Grigori. - O que voc vai fazer?
-		Eu poderia ir para os Estados Unidos - disse Lev.
Grigori o encarou firme.
-		Voc poderia me dar sua passagem - falou seu irmo.
Grigori no queria sequer pensar nisso.
Mas Lev prosseguiu, com uma lgica sem remorso:
-		Eu poderia usar seu passaporte e seus documentos para entrar nos Estados
Unidos. Ningum iria notar a diferena.
Grigori viu seu sonho se dissipar, como o final de um filme no cinema Soleil
da Nevsky Prospekt, quando as luzes da sala se acendiam e revelavam as cores
desbotadas e o piso sujo do mundo real.

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-		Voc estaria salvando a minha vida - disse Lev.
Grigori sabia que era a coisa certa a fazer, e compreender isso foi como uma punhalada no seu corao.
Tirou os documentos do bolso de seu melhor terno e os entregou a Lev. Passou-lhe todo o dinheiro que havia economizado para a viagem. E, por fim, a mala de papelo com o buraco de bala.
-		Eu lhe mando o dinheiro para outra passagem - disse Lev com fervor. Grigori ficou calado, mas o ceticismo deve ter transparecido em seu rosto, porque Lev protestou: - Mando mesmo, eu juro. Vou economizar.
-		Est bem - falou Grigori.
Os irmos se abraaram. Lev disse:
-		Voc sempre cuidou de mim.
-		Sim, sempre.
Lev deu as costas e correu para o navio.
Os marinheiros j desamarravam as cordas. Estavam prestes a puxar a passarela, mas Lev gritou e eles o aguardaram por mais alguns segundos.
Ele subiu correndo at o convs.
Uma vez l, girou o corpo, se apoiou no parapeito e acenou para Grigori.
Grigori no conseguiu se forar a acenar de volta. Virou as costas e foi embora.
O apito do navio soou, mas ele no olhou para trs.
Sem o fardo da mala, seu brao direito parecia estranhamente leve. Ele atravessou o cais, olhando para a gua profunda e escura l embaixo, e ocorreu-lhe a estranha ideia de que poderia se jogar ali. Obrigou-se a voltar a si: no era homem de se deixar levar por esse tipo de ideia tola. Ainda assim, sentia-se deprimido e amargurado. A vida sempre lhe puxava o tapete.
No conseguiu se alegrar enquanto refazia o mesmo caminho e voltava pelo bairro industrial. Caminhava com os olhos pregados no cho, sem nem mesmo se dar ao trabalho de manter um olho aberto caso a polcia aparecesse: quela altura, pouco importava se o prendessem.
O que seria dele? Sentia-se incapaz de reunir energia para fazer qualquer coisa. Quando a greve terminasse, conseguiria de volta seu emprego na fbrica: era um bom operrio e eles sabiam disso. Provavelmente deveria ir at l agora mesmo para descobrir se houvera algum avano na situao - mas no conseguiu se forar a tanto.
Uma hora depois, viu que se aproximava do bar do Mishka. Pretendia passar

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direto por l, mas, havia deixado Katerina  duas horas antes, com um copo de ch frio  sua frente, e
ercebeu que precisava lhe contar o que havia acontecido.
Entrou no bar. Com exceo de Mishka, que varria o cho, ele estava vazio.
Katerina se levantou com um ar assustado.
- O que voc est fazendo aqui? - perguntou ela. - Perdeu o navio?
-		No exatamente. - Ele no conseguia pensar em um jeito de lhe dar a notcia.
-		O que houve, ento? - quis saber ela. - Lev morreu?
-		No, ele est bem. Mas est sendo procurado por assassinato.
Ela o encarou.
-		Onde ele est?
-		Ele teve que ir embora.
-		Para onde?
No havia como dizer aquilo de forma sutil.
-		Ele me pediu para lhe dar a minha passagem.
-		Sua passagem?
-		E o meu passaporte. Ele foi para os Estados Unidos.
-		No! - gritou Katerina.
Grigori s fez assentir com a cabea.
-		No! - Ela tornou a gritar. - Ele no me deixaria! No diga isso, nunca diga isso!
-		Tente ficar calma.
Ela deu um tapa no rosto de Grigori. Era apenas uma menina, de modo que
ele mal saiu do lugar.
-		Seu porco! - berrou ela com uma voz esganiada. - Voc o mandou embora!
-		Fiz isso para salvar a vida dele.
-		Filho da me! Cachorro! Eu odeio voc! Odeio sua cara idiota!
-		Nada que voc diga pode me deixar pior do que j estou - falou Grigori, mas
ela no o escutava. Ignorando seus xingamentos, ele se afastou, a voz dela comeando a morrer  medida que ele atravessava a porta.
Os gritos cessaram e ele ouviu passos apressados seguindo-o pela rua.
-		Pare! - chamou ela. - Por favor, Grigori, pare, no vire as costas para mim,
eu sinto muito.
Ele tornou a se virar.
-		Grigori, voc tem que cuidar de mim agora que Lev foi embora.
Ele fez que no com a cabea.
-		Voc no precisa de mim. Os homens desta cidade vo fazer fila para cuidar
de voc.

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-		No, eles no vo - disse ela. - Tem uma coisa que voc no sabe.
O que ser desta vez?, pensou Grigori.
-		Lev no quis que eu lhe contasse.
-		Diga.
-		Estou esperando um beb - falou ela, comeando a chorar.
Grigori ficou imvel, absorvendo a notcia. O filho era de Lev,  claro. E Lev sabia. Mesmo assim, tinha ido para os Estados Unidos.
-		Um beb - repetiu Grigori.
Ela aquiesceu, aos prantos.
O filho de seu irmo. Seu sobrinho ou sobrinha. Sua famlia.
Grigori a abraou, puxando-a para junto de si. Katerina tremia, soluante. Enterrou o rosto em seu palet. Ele acariciou-lhe os cabelos.
-		Est bem - falou. - No se preocupe. Voc vai ficar bem. Seu filho tambm. - Ele deu um suspiro. - Vou cuidar de vocs dois.
II
A viagem no Anjo Gabriel foi dura, mesmo para um rapaz sado dos bairros pobres de So Petersburgo. Havia apenas uma classe, a mais baixa, e os passageiros eram tratados como reles mercadorias. O navio era sujo e insalubre, sobretudo quando as ondas ficavam maiores e as pessoas passavam mal. Como ningum da tripulao falava russo, era impossvel reclamar. Lev no sabia ao certo qual era a nacionalidade deles, mas no conseguiu se comunicar nem com seu ingls capenga nem com seu alemo ainda mais limitado. Algum disse que eram holandeses. Lev nunca ouvira falar de um povo com aquele nome.
Apesar de tudo, o clima entre os passageiros era de grande otimismo. Lev tinha a sensao de ter derrubado os muros da priso do czar e fugido - e de que agora era um homem livre. Estava a caminho dos Estados Unidos, onde no existia nobreza. Quando o mar se acalmava, os passageiros sentavam-se no convs para contar as histrias que tinham ouvido sobre os Estados Unidos: a gua quente que saa das torneiras, as botas de couro de qualidade que at os trabalhadores usavam e, acima de tudo, a liberdade para praticar qualquer religio, unir-se a qualquer grupo poltico, exprimir suas opinies em pblico e no ter medo da polcia.
No final do dcimo dia, Lev estava jogando cartas. Era a sua vez de distribuir, mas ele estava perdendo. Todos estavam perdendo exceto Spirya, rapaz de aparncia inocente da mesma idade de Lev e que tambm viajava sozinho.

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-		Spirya ganha todas as noites - disse outro jogador, Yakov. A verdade era que Spirya ganhava qundo Lev distribua as cartas.
O vapor seguia lentamente por um nevoeiro. O mar estava calmo e o nico rudo era o som grave e baixo dos motores. Lev no conseguira descobrir quando iriam chegar. Cada um dava uma resposta diferente. Os mais bem informados diziam que tudo dependia do tempo. A tripulao, como sempre, se mostrava
inescrutvel.
Quando a noite caiu, Lev colocou suas cartas na mesa.
-		Estou limpo - falou. Na verdade, tinha muito mais dinheiro dentro da camisa, mas podia ver que os demais estavam ficando duros, com exceo de Spirya. -  isso a - prosseguiu ele. - Quando chegarmos aos Estados Unidos, vou ter de arranjar uma velha rica e viver como um cachorro de estimao em seu palcio de mrmore.
Os outros riram.
-		Mas por que algum iria querer voc como animal de estimao? - perguntou Yakov.
-		Senhoras de idade sentem frio  noite - respondeu ele. - Ela precisaria do meu aparelho de aquecimento.
O jogo terminou de forma bem-humorada e os jogadores se dispersaram.
Spirya foi at a popa e se debruou sobre o parapeito, observando a espuma do navio desaparecer em meio  nvoa. Lev foi se juntar a ele.
-		A minha metade ficou em sete rublos - disse Lev.
Spirya tirou algumas notas de dinheiro do bolso e as entregou a Lev, ocultando a transao com o prprio corpo para ningum ver o dinheiro mudando de mos.
Lev guardou as notas no bolso e encheu o cachimbo de fumo.
-		Me diga uma coisa, Grigori - disse Spirya. Lev estava usando os documentos do irmo, ento tivera de dizer aos outros que seu nome era Grigori. - O que voc faria se eu me recusasse a lhe dar a sua parte?
Esse tipo de conversa era um perigo. Lev guardou seu fumo devagar e ps o cachimbo apagado de volta no bolso do palet. Ento agarrou Spirya pelas lapelas e ergueu seu corpo contra o parapeito, arqueando-o para trs sobre o mar. Spirya era mais alto do que Lev, mas estava longe de ser to forte quanto ele.
-		Eu quebraria o seu pescoo de idiota - disse Lev. - Depois pegaria de volta todo o dinheiro que voc ganhou comigo. - Ele empurrou Spirya para mais alm do parapeito. - E jogaria voc nesse maldito mar.
Spirya ficou apavorado.
-		Est bem! - falou ele. - Me solte!

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Lev soltou sua lapela.
-		Meu Deus! - disse Spirya, ofegante. - Eu s fiz uma pergunta.
Lev acendeu o cachimbo.
-		E eu lhe dei a resposta - falou. - No se esquea.
Spirya foi embora.
Quando o nevoeiro se dissipou, eles j podiam avistar terra. Era de noite, mas Lev conseguiu ver as luzes de uma cidade. Onde estariam? Alguns diziam que era o Canad, outros a Irlanda, mas ningum sabia ao certo.
As luzes se aproximaram e o navio diminuiu a velocidade. Estavam prestes a atracar. Lev ouviu algum dizer que j haviam chegado aos Estados Unidos! Dez dias parecia pouco. Mas como ele poderia saber? Ficou junto ao parapeito com a mala de papelo do irmo. Seu corao acelerou no peito.
A mala lembrava a ele que era Grigori quem deveria estar chegando aos Estados Unidos naquele instante. Lev no se esquecera da promessa que havia feito ao irmo de lhe mandar dinheiro para comprar outra passagem. Essa era uma promessa que pretendia cumprir. Grigori provavelmente tinha lhe salvado a vida - outra vez. Tenho sorte de ter um irmo assim, pensou Lev.
Ele estava fazendo dinheiro no navio, mas no depressa o suficiente. Sete rublos no davam para nada. Ele precisava ganhar uma bolada. Mas os Estados Unidos eram a terra da oportunidade. Era ali que iria fazer fortuna.
Lev ficara intrigado ao descobrir um buraco de bala na mala e um projtil cravado em uma caixa contendo um jogo de xadrez. Tinha vendido o jogo de xadrez a um dos judeus por cinco copeques. Perguntou-se em que circunstncias Grigori quase havia levado um tiro no dia de sua partida.
Sentia saudades de Katerina. Adorava andar para l e para c de braos dados com uma garota daquelas, sabendo que todos os homens o invejavam. Mas haveria muitas garotas nos Estados Unidos.
Imaginou se Grigori j estaria sabendo sobre o beb de Katerina. Lev sentiu uma pontada de arrepndimento: ser que algum dia veria seu filho ou sua filha? Disse a si mesmo para no se preocupar com o fato de deixar Katerina sozinha para criar a criana. Ela encontraria outra pessoa para cuidar dela. Era uma sobrevivente.
J passava da meia-noite quando o navio finalmente atracou. O cais estava mal iluminado e no havia ningum  vista. Os passageiros desembarcaram com suas sacolas, caixas e bas. Um tripulante do Anjo Gabriel os instruiu a irem at um barraco onde havia alguns bancos.
-		Vocs devem esperar aqui at o pessoal da imigrao vir busc-los pela

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manh - disse ele, demonstrando que, no fim das contas, falava um pouco de russo.
Aquilo foi um certo anticlmax para quem havia passado anos economizando dinheiro para chegar at ali. As mulheres se sentaram nos bancos e as crianas pegaram no sono enquanto os homens fumavam, esperando o dia raiar. Algum tempo depois, ouviram o motor do navio e Lev foi at l fora para v-lo se afastar lentamente do atracadouro. Talvez os caixotes de peles precisassem ser desembarcados em outro lugar.
Ele tentou se lembrar do que Grigori tinha lhe dito, durante uma conversa casual, sobre os primeiros passos naquele novo pas. Os imigrantes tinham de passar por uma avaliao mdica - um momento de tenso, pois quem no estivesse bem de sade era mandado de volta, com o dinheiro desperdiado e as esperanas destrudas. s vezes os funcionrios da imigrao mudavam os nomes das pessoas, de modo a torn-los mais fceis de pronunciar para os americanos. Do lado de fora do cais, um representante da famlia Vyalov estaria esperando para lev-los de trem at Buffalo. L, eles arrumariam empregos nos hotis e fbricas de propriedade de Josef Vyalov. Lev se perguntou a que distncia Buffalo ficaria de Nova York. Seria uma viagem de uma hora ou de uma semana? Ele desejou ter escutado Grigori com mais ateno.
O sol nasceu sobre quilmetros e mais quilmetros de cais abarrotados, e Lev voltou a ficar animado. Mastros e cordames antiquados conviviam lado a lado com as chamins dos barcos a vapor. O cais era margeado por prdios imensos e barraces caindo aos pedaos, guindastes altos e cabrestantes atarracados, escadas, cordas e carrinhos. Na direo do continente, Lev podia ver fileiras compactas de vages ferrovirios cheios de carvo, centenas deles - no, centenas no, milhares - perdendo-se ao longe alm do seu campo de viso. Ficou decepcionado por no conseguir ver a famosa Esttua da Liberdade empunhando sua tocha; imaginou que estivesse escondida por algum rochedo.
Os estivadores foram chegando, primeiro em pequenos grupos e, em seguida, aos montes. Navios zarpavam, outros chegavam. Uma dzia de mulheres comeou a descarregar sacos de batatas de um pequeno barco em frente ao barraco. Lev se perguntou quando iriam chegar os funcionrios da imigrao.
Spirya se aproximou dele. O rapaz parecia ter perdoado a forma como Lev o havia ameaado.
-		Eles nos esqueceram - disse ele.
-		Parece que sim - concordou Lev, intrigado.
-		Vamos dar uma volta? Ver se conseguimos encontrar algum que fale russo?

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-		Boa ideia.
Spirya foi falar com um dos homens mais velhos.
-		Ns vamos ver se conseguimos descobrir o que est acontecendo.
O homem parecia nervoso.
-		Talvez seja melhor ficarmos aqui como eles mandaram.
Os dois rapazes o ignoraram e foram at as mulheres das batatas. Lev lhes exibiu seu melhor sorriso e perguntou:
-		Alguma de vocs fala russo? - Uma das mulheres mais jovens sorriu de volta, mas ningum respondeu  pergunta. Lev sentiu-se frustrado: todo o seu charme era intil com quem no entendia o que ele estava dizendo.
Lev e Spirya foram andando na direo da qual a maioria dos trabalhadores do cais tinha vindo. Ningum prestou ateno alguma neles. Depois de chegarem a um par de portes grandes, eles os atravessaram e foram dar em uma rua movimentada, cheia de lojas e escritrios. A rua em si estava coalhada de automveis, bondes eltricos, cavalos e carrinhos de mo. De tantos em tantos metros, Lev falava com algum, mas ningum respondia.
Lev estava perplexo. Que lugar era aquele, onde as pessoas podiam descer de um navio e entrar na cidade sem permisso?
Ele viu um prdio que o deixou intrigado. Lembrava um pouco um hotel, no fosse por dois homens com roupas de pobre e boinas de marinheiro sentados nos degraus da frente, fumando.
-		Olhe s aquele prdio - disse Lev.
-		O que tem ele?
-		Acho que  uma misso de marinheiros, como a de So Petersburgo.
-		Ns no somos marinheiros.
-		Mas talvez algum l dentro fale outras lnguas.
Eles entraram. Uma mulher grisalha atrs de um balco lhes dirigiu a palavra.
-		Ns no falamos americano - disse Lev em sua prpria lngua.
A mulher respondeu com uma nica palavra no mesmo idioma:
-		Russo?
Lev aquiesceu.
Ela fez um gesto com o dedo, chamando-os para acompanh-la, e a esperana de Lev cresceu.
Os dois rapazes seguiram a mulher por um corredor at uma salinha cuja nica janela dava para o mar. Atrs da mesa, havia um homem que, aos olhos de Lev, parecia um judeu russo, embora ele no soubesse dizer por que achava isso.
-		O senhor fala russo? - perguntou-lhe Lev.

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-		Eu sou russo.  - respondeu o homem. - Posso ajudar?
Lev poderia ter lhe dado um abrao. Em vez disso, fitou o homem nos olhos e abriu-lhe um sorriso caloroso.
-		Algum deveria ter ido nos receber no cais do porto para nos levar at Buffalo, mas ningum apareceu - disse ele, falando em tom amigvel, porm preocupado. - Somos cerca de 300... - Para conquistar a simpatia do homem, arrematou: - ... incluindo mulheres e crianas. O senhor acha que poderia nos ajudar a encontrar nosso contato?
-		Buffalo? - disse o homem. - Onde vocs acham que esto?
-		Em Nova York,  claro.
-		Isto aqui  Cardiff.
Lev nunca tinha ouvido falar em Cardiff, mas pelo menos agora entendia qual era o problema.
-		Aquele capito idiota nos fez desembarcar no porto errado - falou. - Como  que se vai daqui at Buffalo?
O homem apontou pela janela em direo ao mar e Lev teve a sensao nauseante de que sabia o que estava por vir.
-		 por ali - disse o homem. - A uns cinco mil quilmetros de distncia.
Lev se informou sobre o preo de uma passagem de Cardiff at Nova York. Quando convertido em rublos, era dez vezes a quantia que ele trazia dentro da camisa.
Ele conteve sua raiva. Todos haviam sido enganados pela famlia Vyalov, ou pelo capito do navio - ou, mais provavelmente, por ambos, j que teria sido mais fcil executar o golpe em dupla. Todo o dinheiro ganho com o suor do rosto de Grigori tinha sido roubado por aqueles porcos mentirosos. Se Lev tivesse a chance de agarrar o capito do Anjo Gabriel pela garganta, ele o esganaria e riria ao v-lo morrer.
Mas era intil acalentar sonhos de vingana. O importante era no desistir. Ele iria arrumar um emprego, aprender a falar ingls e entrar em algum jogo de cartas de alto cacife. Levaria tempo. Ele teria de ser paciente. Precisava aprender a ser um pouco mais como Grigori.
Naquela primeira noite, todos dormiram no cho da sinagoga. Lev foi atrs dos outros. Os judeus de Cardiff no sabiam que alguns dos passageiros eram cristos, ou talvez no ligassem para isso.
 
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Pela primeira vez na vida, ele percebeu a vantagem de ser judeu. Na Rssia, os judeus eram to perseguidos que Lev sempre havia se perguntado por que mais deles no abandonavam sua religio, mudavam de roupa e se misturavam ao resto. Isso teria salvado muitas vidas. Mas ele agora via que um judeu podia ir a qualquer parte do mundo e sempre encontrar algum que o trataria como um membro da famlia.
Eles acabaram descobrindo que aquela no era a primeira vez que um grupo de russos comprava passagens para Nova York e ia parar em algum outro lugar. J havia acontecido antes, em Cardiff e em outros portos britnicos. Alm disso, como muitos dos emigrantes russos eram judeus, os ancios da sinagoga tinham uma rotina. No dia seguinte, os viajantes abandonados puderam trocar seu dinheiro por libras, xelins e pence e, em seguida, foram levados at hospedarias onde puderam alugar quartos baratos.
Como todas as cidades do mundo, Cardiff tinha milhares de estrebarias. Lev aprendeu o suficiente da lngua para dizer que tinha experincia no trato com cavalos e ento percorreu a cidade  procura de um emprego. Logo as pessoas perceberam que ele tinha jeito com animais, porm mesmo os empregadores mais bem-intencionados quiseram fazer algumas perguntas que ele no conseguiu entender nem responder.
Desesperado, ele aprendeu mais depressa e, em poucos dias, j compreendia o preo das coisas e era capaz de pedir um pouco de po ou cerveja. Os empregadores, no entanto, faziam perguntas complexas, possivelmente sobre onde ele havia trabalhado antes e se algum dia tivera problemas com a polcia.
Ele voltou  misso dos marinheiros e explicou seu problema ao russo da salinha. Este lhe deu um endereo em Butetown, o bairro mais prximo do cais, e lhe disse para procurar Filip Kowal, conhecido como Kowal, o Polaco. Tratava-se de um capataz que vendia mo de obra estrangeira a preos baixos e arranhava a maioria dos idiomas europeus. Ele disse a Lev para estar, com sua mala, no saguo da principal estao de trem da cidade s dez da manh da segunda-feira seguinte.
Lev ficou to contente que nem sequer perguntou de que se tratava o trabalho.
Na segunda, apareceu na estao junto com outros 200 homens, em sua maioria russos, mas tambm alemes, poloneses, eslavos e um africano de pele escura. Ficou satisfeito ao ver que Spirya e Yakov tambm estavam ali.
Todos foram embarcados em um trem a vapor, com as passagens pagas por Kowal, e partiram para o norte ao longo de uma bela paisagem montanhosa. Entre as encostas verdes, as cidades industriais se espalhavam pelos vales como poas de gua escura. Um ponto em comum entre todas as cidades era a presena
 
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de pelo menos uma torre com duas rodas gigantescas em cima, e Lev descobriu que a principal atividade da regio era a extrao do carvo. Vrios dos homens que o acompanhavam eram mineradores, enquanto outros tinham ofcios diferentes, como a metalurgia, e muitos eram trabalhadores sem qualificao.
Uma hora depois, eles desembarcaram do trem. Enquanto saam da estao, Lev percebeu que aquele no era um trabalho como os outros. Uma multido formada por vrias centenas de homens, todos usando as boinas e roupas grosseiras dos operrios, os aguardava na praa. A princpio, os homens mantiveram um silncio ameaador, at que um deles gritou alguma coisa e os outros o imitaram logo em seguida. Lev no tinha a menor ideia do que estavam dizendo, mas no restava dvida de que era algo hostil. Havia tambm uns 20 ou 30 policiais ali, parados diante da multido, mantendo os homens atrs de uma linha imaginria.
-		Quem so essas pessoas? - perguntou Spirya com voz assustada.
-		Homens baixos e musculosos, de semblante duro e mos limpas... - disse Lev. - Eu diria que so mineradores em greve.
-		Eles parecem querer nos matar. Que diabos est acontecendo?
-		Ns somos os fura-greves - falou Lev com gravidade.
-		Que Deus nos proteja.
Kowal, o Polaco gritou "Venham comigo!" em vrias lnguas e todos se puseram a subir a rua principal. A multido continuava a protestar e homens brandiam o punho, mas ningum atravessou a linha. Era a primeira vez que Lev se sentia grato  polcia.
-		Que horror - comentou.
-		Agora voc sabe o que  ser judeu - disse Yakov.
Eles deixaram para trs os mineradores aos gritos e subiram a encosta da colina, atravessando fileiras de casas geminadas. Lev reparou que muitas das casas pareciam vazias. As pessoas continuavam a encar-los quando eles passavam, mas os insultos cessaram. Kowal comeou a distribuir os homens pelas casas. Lev e Spirya ficaram espantados ao receberem uma casa s para eles. Antes de ir embora, Kowal indicou onde ficava a mina - a torre com as rodas gmeas - e lhes disse para estarem l s seis da manh do dia seguinte. Quem fosse minerador iria extrair carvo, enquanto os outros ficariam encarregados da manuteno dos tneis e equipamentos ou, no caso de Lev, de cuidar dos pneis.
Lev correu os olhos por seu novo lar. A casa no era nenhum palcio, mas estava limpa e seca. Tinha um cmodo espaoso no trreo e mais dois no andar de cima - um quarto para cada um! Lev nunca tivera um quarto s seu. No havia

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mveis, mas eles estavam acostumados a dormir no cho e, como era junho, nem
sequer precisavam de cobertas.
Lev no estava com a menor vontade de sair, mas, depois de algum tempo, os
dois ficaram com fome. No havia comida em casa, de modo que os dois saram
relutantes para conseguir um jantar. Apreensivos, entraram no primeiro pub que
encontraram, porm os clientes, mais ou menos uma dzia deles, os fuzilaram
com seus olhares - e quando Lev pediu, em ingls, "Duas cervejas, por favor", o
barman o ignorou.
Eles desceram a colina at o centro da cidade e encontraram um caf. Ali, pelo
menos, a clientela no parecia louca para comear uma briga. No entanto, passa-
ram meia hora sentados diante de uma mesa, vendo a garonete servir todos que
chegavam depois deles, ento foram embora.
Ia ser difcil viver ali, percebeu Lev. Mas no seria por muito tempo. Assim que
tivesse dinheiro suficiente, iria para os Estados Unidos. Ainda assim, precisava
comer enquanto estivesse naquele lugar.
Ele e Spirya entraram em uma padaria. Desta vez, Lev estava decidido a conseguir o que queria. Apontou para uma prateleira cheia de pes e falou em ingls:
-		Um po, por favor.
O padeiro fingiu no entender.
Lev estendeu o brao por cima do balco e apanhou o po que queria. Quero
s ver ele tentar pegar de volta, pensou.
-		Ei! - exclamou o padeiro, mas permaneceu do seu lado do balco.
Lev sorriu e disse:
-		Quanto , por favor?
-		Um quarto de pni - respondeu o padeiro com a cara amarrada.
Lev ps o dinheiro sobre o balco.
-		Muito obrigado - falou.
Ele partiu o po, dando metade a Spirya, e os dois foram comendo pela rua.
Chegaram  estao de trem, mas a multido j havia se dispersado. No ptio da
estao, um vendedor de jornais oferecia sua mercadoria. Os jornais estavam sendo
vendidos depressa, e Lev imaginou se alguma coisa importante havia acontecido.
Um carro grande veio chegando pela rua, em alta velocidade, e eles tiveram de
pular para sair do caminho. Ao olhar para a passageira sentada no banco de trs,
Lev ficou atnito ao reconhecer a princesa Bea.
-		Deus do cu! - exclamou.
Em uma frao de segundo, foi transportado de volta a Bulovnir, rumo  viso
medonha do pai morrendo na forca enquanto aquela mulher assistia a tudo. O
terror
que sentira na poca no se comparava a nenhuma outra sensao que
houvesse experimentado. Nada jamais o amedrontaria daquele jeito, nem brigas
de rua, nem os cassetetes da polcia, nem armas apontadas para ele.
O carro parou em frente  estao. Quando a princesa Bea desceu, Lev foi
dominado por uma mistura de dio, nusea e repulsa. O po em sua boca pareceu feito de cascalho e ele o cuspiu.
- O que houve? - quis saber Spirya.
Lev se recomps.
-		Aquela mulher  uma princesa russa - respondeu ele. - Ela mandou enforcar meu pai 14 anos atrs.
-		Vadia. O que ela pode estar fazendo aqui?
-		Ela se casou com um aristocrata ingls. Eles devem morar aqui por perto.
Talvez a mina seja dele.
O chofer e uma criada se ocuparam da bagagem. Lev ouviu Bea se dirigir 
criada em russo, e a mulher respondeu na mesma lngua. Todos entraram na
estao, ento a empregada voltou para comprar um jornal.
Lev foi abord-la. Tirando a boina, fez uma reverncia exagerada e falou em russo:
-	A senhora deve ser a princesa Bea.
	A criada riu com gosto.
-		Deixe de ser bobo. Eu sou a criada dela, Nina. E o senhor, quem ?
Lev lhe disse o seu nome e o de Spirya, explicando como os dois tinham ido
parar ali e por que no conseguiam comprar comida.
-		Vou voltar hoje  noite - disse Nina. - Estamos indo apenas a Cardiff. Se
vocs forem at a entrada de servio de Ty Gwyn e baterem  porta da cozinha,
posso lhes dar um pouco de carne fria. Basta seguirem a estrada que sai da cidade para o norte at chegarem a um palcio.
-		Obrigado, bela dama.
-		Eu tenho idade para ser sua me - disse ela, mas no sem abrir um sorriso
	acanhado. -  melhor eu levar o jornal da princesa.
-		Qual  a grande notcia?
-		Ah, foi no estrangeiro - respondeu ela, sem dar importncia. - Houve um
assassinato. A princesa est muito abalada. O arquiduque Francisco Ferdinando
da ustria foi morto em um lugar chamado Sarajevo.
-		Deve ser assustador para uma princesa.
-		Sim - respondeu Nina. - Mas no acho que v fazer diferena para gente
como voc e eu.
-		No - concordou Lev. - Imagino que no.

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CAPTULO SETE
Incio de julho de 1914

Igreja de St. James, em Piccadilly, tinha os fiis mais bem-vestidos do mundo.
Era o lugar de culto preferido da elite londrina. Em teoria, a ostentao era algo condenvel; mas as mulheres precisavam usar chapu e, ultimamente, era impossvel achar qualquer um sem penas de avestruz, fitas, laos e flores de seda. Do fundo da nave, Walter von Ulrich observava uma profuso de formatos e cores extravagantes. Os homens, em contraste, pareciam todos iguais, com seus palets pretos e seus colarinhos brancos duros, segurando as cartolas no colo.
A maioria daquelas pessoas no compreendia o que havia acontecido em Sarajevo sete dias antes, pensou ele com amargura; algumas sequer sabiam onde ficava a Bsnia. Estavam chocadas com o assassinato do arquiduque, mas no conseguiam entender o que isso significava para o resto do mundo. Estavam, no mximo, um pouco desnorteadas.
Walter no estava desnorteado. Sabia muito bem o que esse assassinato anunciava. Ele criava uma sria ameaa para a segurana da Alemanha, e cabia a pessoas como Walter proteger e defender seu pas naquela hora de perigo.
Sua primeira tarefa era descobrir o que o czar russo estava pensando. Era o que todos queriam saber: o embaixador alemo, o pai de Walter, o ministro das Relaes Exteriores em Berlim e o prprio Kaiser. E Walter, como bom agente de inteligncia que era, tinha uma fonte.
Correu os olhos pela congregao, tentando identificar seu homem entre todas aquelas nucas, com medo de ele no ter vindo. Anton trabalhava como auxiliar de escritrio na embaixada russa. Os dois se encontravam em igrejas anglicanas, porque Anton tinha certeza de que no haveria ningum da sua embaixada nelas: a maioria dos russos pertencia  Igreja Ortodoxa crist, e quem no pertencesse jamais arrumaria emprego no servio diplomtico.
Anton era encarregado do setor de telegrafia da embaixada russa, de modo que tinha acesso a todos os telegramas que chegavam e partiam. Suas informaes tinham um valor inestimvel, mas ele era difcil de administrar, o que causava grande ansiedade em Walter. A ideia de espionagem apavorava Anton e, quando ele ficava com medo, deixava de aparecer - geralmente em momentos de tenso internacional como aquele, quando Walter mais precisava dele.

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Walter se distraiu ao ver Maud. Reconheceu seu pescoo comprido e gracioso despontando de um elegante colarinho 
de bico, em estilo masculino, e seu
corao deixou de bater por um instante. Ele beijava aquele pescoo sempre que podia.
Quando pensava no perigo da guerra, era sempre com Maud que se preocupava primeiro, e somente depois com seu pas. Sentia vergonha de seu egosmo mas no podia fazer nada a respeito. Seu maior medo era que algum tirasse Maud dele; a ameaa  ptria vinha em segundo lugar. Ele estava disposto a
morrer em nome da Alemanha - mas no a viver sem a mulher que amava.
Um homem na terceira fileira a partir do fundo olhou para trs e Walter cruzou olhares com ele. Anton tinha cabelos castanhos ralos e uma barba falhada.
Aliviado, Walter desceu a nave sul da igreja como se estivesse procurando um
lugar e, depois de uma breve hesitao, sentou-se.
Anton em geral aparecia, porque tinha a alma cheia de amargor. Cinco anos
antes, um sobrinho muito querido dele fora acusado de atividades revolucionrias pela polcia secreta do czar e acabara sendo encarcerado na Fortaleza de
Pedro e Paulo, do outro lado do rio, em frente ao Palcio de Inverno, no corao
de So Petersburgo. O rapaz estudava teologia e era inocente de qualquer ato de
subverso. No entanto, antes de conseguir ser libertado, havia contrado pneumonia e morrido. Desde ento, Anton vinha executando sua vingana discreta,
porm mortal, contra o governo do czar.
Era uma pena a igreja ser to bem iluminada. Seu arquiteto, Christopher
Wren, havia projetado fileiras compridas de grandes janelas arqueadas. Para
aquele tipo de trabalho, a penumbra sinistra de uma igreja gtica teria sido
melhor. Contudo, Anton havia escolhido bem a sua posio, no final de uma
fileira, com uma criana ao lado e uma grossa coluna de madeira atrs.
-		Voc pegou um bom lugar - murmurou Walter.
-		Ainda podem nos ver da galeria - disse Anton, aflito.
Walter sacudiu a cabea, discordando.
-		Todos esto olhando para a frente.
Anton era um homem de meia-idade, solteiro. De baixa estatura, era bem-
-arrumado a ponto de parecer neurtico: a gravata com o n apertado, o palet
com cada boto fechado, os sapatos lustrosos. Seu terno um tanto gasto exibia o
brilho de muitos anos de escova e ferro de passar. Walter achava que essa era a
sua maneira de contrabalanar a sordidez do servio de espionagem. Afinal de
contas, ele estava traindo seu pas. E eu estou aqui para incentiv-lo, pensou
Walter com gravidade.

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Durante o silncio que precedeu o culto, Walter no disse nada, mas, assin
que o primeiro hino comeou, ps-se a falar em voz baixa:
-		Como est o clima em So Petersburgo?
-		A Rssia no quer uma guerra - disse Anton.
-		timo.
-		O czar teme que a guerra leve  revoluo. - Ao mencionar o czar, 	pareceu que fosse cuspir. - Metade de So Petersburgo j est em greve.  claro
que no lhe ocorre que  a sua prpria brutalidade imbecil que faz as pessoas
quererem uma revoluo.
-		De fato. - Walter sempre tinha de se adaptar ao fato de que as opinies de
Anton eram distorcidas pelo dio, mas, nesse caso, o espio no estava de todo
errado. Walter no odiava o czar, mas seu poder o amedrontava. Ele tinha  disposio o maior exrcito do mundo. Qualquer conversa sobre a segurana da
Alemanha precisava lev-lo em considerao. A Alemanha era como um homem
cujo vizinho de porta tivesse um urso gigante acorrentado no jardim da frente.
-		O que o czar vai fazer?
-		Depende da ustria.
Walter se conteve para no retrucar com impacincia. Todos estavam aguardando a reao do imperador austraco. Ele tinha de fazer alguma coisa, pois o
arquiduque assassinado era herdeiro de seu trono. Mais tarde naquele mesmo
dia, Walter esperava receber notcias sobre as intenes da ustria por meio de
seu primo Robert. Essa parte da famlia era catlica, como toda a elite austraca,
e Robert deveria estar assistindo  missa da Catedral de Westminster naquele
exato momento, mas Walter o encontraria para almoar. Enquanto isso, precisava saber mais sobre os russos.
Ele teve de esperar outro hino. Tentou ser paciente. Ergueu os olhos e estudou
as extravagantes douraes das abbadas cilndricas de Wren.
Os fiis comearam a cantar o hino "Rocha Eterna".
-		No caso de haver conflito nos Blcs - murmurou Walter para Anton -, os
russos ficaro de fora?
-		No. O czar no pode ficar omisso caso a Srvia seja atacada.
Walter sentiu um calafrio. Era exatamente esse o tipo de agravamento que ele
temia.
-		Entrar em guerra por causa disso seria loucura!
-		 verdade. Mas os russos no podem deixar a ustria controlar a regio dos
Blcs. Eles precisam proteger a rota do mar Negro.
Isso era indiscutvel. A maioria das exportaes da Rssia - milho dos milharais
 
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do sul e petrleo dos poos ao redor de Baku - era despachada para o mundo de portos no mar 
por outro lado - prosseguiu Anton o czar tambm est aconselhando
todos a agirem com cautela.
- Em suma, ele est com a mente indecisa.
- Se  que se pode chamar aquilo de mente.
Walter aquiesceu. O czar no era um homem inteligente. Seu sonho era fazer
a Rssia voltar  idade de ouro do sculo XVII, e ele era burro o suficiente para
pensar que isso fosse possvel. Era como se o rei Jorge V tentasse recriar a
Inglaterra pastoral e idlica da poca de Robin Hood. Como o czar mal sabia
pensar, era extremamente difcil prever o que ele faria.
Durante o ltimo hino, o olhar de Walter se perdeu na direo de Maud, sentada duas fileiras mais  frente, do outro lado da nave. Ele observou seu perfil
com ternura enquanto ela cantava vigorosamente.
O relatrio ambivalente de Anton era perturbador. Havia deixado Walter mais
preocupado do que uma hora antes.
-		De agora em diante, preciso encontrar voc todos os dias - falou.
Anton pareceu entrar em pnico.
-		Isso no  possvel! - protestou. -  arriscado demais.
-		Mas a situao est mudando de hora em hora.
-		Domingo que vem, de manh, na Smith Square.
Esse era o problema com espies idealistas, pensou Walter, frustrado: no
havia como convenc-los. Por outro lado, no era possvel confiar em homens
que espionavam por dinheiro. Na esperana de ganhar um bnus, eles diziam
o que voc quisesse ouvir. Com Anton, se ele dizia que o czar estava indeciso,
Walter podia ter certeza de que ele no havia tomado nenhuma deciso.
-		Ento me encontre uma vez no meio da semana - pediu ele enquanto o hino
terminava.
Anton no respondeu. Em vez de se sentar, escapuliu dali, saindo da igreja.
-		Maldio - xingou Walter baixinho, e a criana sentada ao seu lado o encarou com ar de reprovao.
Quando o culto terminou, ele ficou em p no ptio cimentado da igreja, cumprimentando os conhecidos at Maud sair acompanhada por Fitz e Bea. Ela estava inacreditavelmente graciosa, usando um vestido estampado de veludo cinza
com uma pea de crepe de um cinza mais escuro por cima. Aquela talvez no
fosse uma cor muito feminina, mas realava sua beleza de traos bem marcados
e parecia fazer sua pele cintilar. Walter apertou a mo de todos, ansiando 

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desesperadamente por alguns minutos a ss com ela. Trocou amenidades com Bea - um verdadeiro bibel com sua roupa cor-de-rosa com rendas brancas - e concordou com um Fitz solene que o assassinato era um "mau negcio". Os Fitzherbert ento se afastaram e Walter temeu ter pedido a sua chance. Na ltima hora, contudo, Maud murmurou:
- Estarei na casa da duquesa na hora do ch.
Walter sorriu para suas costas elegantes. Tinha se encontrado com Maud na vspera e iria encontr-la no dia seguinte, mas, mesmo assim, a possibilidade de no encontr-la hoje o apavorava. Seria mesmo incapaz de passar 24 horas longe dela? No se considerava um homem fraco, porm Maud o havia enfeitiado. E ele no tinha o menor desejo de escapar.
O que mais o atraa era o seu esprito independente. A maioria das mulheres de sua gerao parecia se contentar em desempenhar o papel passivo que a sociedade lhes atribua, usando roupas bonitas, organizando festas e obedecendo aos maridos. Esse gnero submisso entediava Walter. Maud era mais parecida com as mulheres que havia conhecido nos Estados Unidos, durante o perodo em que trabalhara na embaixada alem em Washington. As americanas eram elegantes e encantadoras, mas no subservientes. Ser amado por uma mulher assim era a coisa mais excitante.
Ele subiu a Piccadilly com um andar confiante e parou diante de uma banca de jornais. Ler os jornais britnicos nunca era agradvel: a maioria deles era intensamente antialem, sobretudo o virulento Daily Mail. Queriam fazer os ingleses acreditarem que estavam cercados por espies alemes. Como Walter queria que isso fosse verdade! Tinha cerca de uma dzia de agentes em cidades costeiras, tomando nota das chegadas e partidas nas docas, como os britnicos faziam nos portos alemes, mas nada que se comparasse aos milhares de espies mencionados pelos histricos editores dos jornais.
Ele comprou um exemplar do People. A situao nos Blcs no era uma grande notcia ali em Londres: os britnicos estavam mais preocupados com a Irlanda. Uma minoria protestante governava a regio h centenas de anos, pouco se importando com a maioria catlica. Se a Irlanda alcanasse a independncia, a situao iria se inverter. Ambos os lados estavam fortemente armados e havia o risco de uma guerra civil.
Um solitrio pargrafo no final da primeira pgina fazia referncia  "crise austro-srvia". Como sempre, os jornais no faziam a menor ideia do que estava acontecendo.
Logo que Walter entrou no Hotel Ritz, Robert saltou de um txi motorizado.

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De luto pelo arquiduque, ele usava um colete e uma gravata pretos. Robert fazia parte do grupo de Francisco Ferdinando - pelos padres da corte vienense, ambos eram progressistas, apesar de serem conservadores sob qualquer outra tica. Walter sabia que ele apreciava e respeitava o arquiduque assassinado e sua famlia.
Os dois deixaram suas cartolas na chapelaria e entraram juntos no salo de jantar. Walter tinha uma atitude protetora em relao a Robert. Desde que eram meninos, sabia que o primo era diferente. As pessoas chamavam homens como ele de afeminados, porm essa era uma palavra grosseira demais: Robert no era uma mulher em um corpo de homem. Mesmo assim, tinha vrias caractersticas femininas, o que levava Walter a trat-lo com uma espcie de cavalheirismo contido.
Robert era parecido com Walter, com as mesmas feies simtricas e olhos castanhos, mas tinha os cabelos mais compridos e o bigode encerado e com as pontas curvas.
-		Como vo as coisas com lady M.? - perguntou ele enquanto se sentavam. Walter havia feito confidncias ao primo. Robert era especialista em amores proibidos.
-		Ela  maravilhosa, mas meu pai no consegue aceitar que ela trabalhe em uma clnica para pobres com um mdico judeu.
-		Ah, no... quanto rigor - disse Robert. - A objeo dele seria at compreensvel se ela prpria fosse judia.
-		Eu tinha esperanas de que ele fosse aprender a gostar dela, ao encontr-la socialmente aqui e ali e perceber que  amiga dos homens mais poderosos do pas. Mas no est funcionando.
-		Infelizmente, essa crise nos Blcs s vai aumentar a tenso nas... - Robert sorriu. - Me perdoe, nas relaes internacionais.
Walter forou uma risada.
-		Acontea o que acontecer, ns vamos dar um jeito.
Robert no disse nada, mas no parecia to confiante.
Enquanto saboreavam um cordeiro gals e batatas ao molho de salsa, Walter transmitiu a Robert as informaes vagas que havia colhido de Anton.
Robert tambm tinha notcias.
-		Ns j conclumos que os assassinos conseguiram suas armas e bombas na Srvia.
-		Ah, que inferno! - disse Walter.
Robert deixou a raiva transparecer.

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-		As armas foram fornecidas pelo diretor da inteligncia militar srvia. Os assassinos tiveram aulas de tiro ao alvo em um parque de Belgrado.
-		Os agentes de inteligncia s vezes agem de forma independente - disse Walter.
-		Com frequncia. E o carter sigiloso do trabalho deles significa que podem se safar.
-		Ento isso no prova que o governo srvio tramou o assassinato. E, analisando friamente a questo, um pas pequeno como a Srvia, que est tentando desesperadamente preservar sua autonomia, seria louco de provocar um vizinho to poderoso.
-		 at possvel que a inteligncia srvia tenha agido de forma diretamente oposta ao desejo do governo - admitiu Robert. Mas ento continuou com firmeza: - Isso no faz a menor diferena. A ustria deve tomar uma atitude contra a Srvia.
Era isso que Walter temia. O caso no podia mais ser considerado um simples crime, a ser solucionado pela polcia e pelos tribunais. A situao havia se agravado, e agora um imprio precisava punir uma nao pequena. O imperador austraco, Francisco Jos, tinha sido um grande homem no passado, um lder forte, apesar de conservador e muito religioso. Porm agora estava com 84 anos - e a idade o tornara ainda mais autoritrio e intolerante. Homens assim achavam que sabiam tudo s porque eram velhos. O pai de Walter era igual.
O meu destino est nas mos de dois monarcas, pensou Walter: o czar e o imperador. O primeiro  um tolo, o segundo est senil - no entanto, eles controlam o destino de Maud, o meu e o de milhes de outros europeus. Isso sim era um argumento contra a monarquia!
Enquanto comiam a sobremesa, Walter no parava de pensar. Quando o caf foi servido, disse, otimista:
-		Imagino que vocs pretendam ensinar uma lio dura  Srvia sem envolver nenhum outro pas.
Robert frustrou suas esperanas na mesma hora.
-		Pelo contrrio - falou ele. - Meu imperador escreveu uma carta pessoal para seu Kaiser.
Walter ficou atnito. No tinha ouvido nada a respeito.
-		Quando?
-		A correspondncia foi entregue ontem.
Como todo diplomata, Walter detestava quando os reis se comunicavam diretamente em vez de usarem seus representantes. Nesse caso, qualquer coisa poderia acontecer.

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-		O que ele dizia?
-		Que a Srvia deve ser eliminada como potncia poltica.
- No! - Era pior do que Walter temia. - O imperador est falando srio? -
perguntou ele, chocado.
-		Tudo depende da resposta.
Walter franziu o cenho. O imperador Francisco Jos estava pedindo o apoio
do Kaiser Guilherme. Era esse o verdadeiro objetivo da carta. Os dois pases eram
aliados, de modo que o Kaiser era obrigado a se mostrar solcito, mas poderia
privilegiar o entusiasmo ou a relutncia, o encorajamento ou a cautela.
-		Creio que a Alemanha v apoiar a ustria, qualquer que seja a deciso do
meu imperador - disse Robert com severidade.
-		Voc no pode querer que a Alemanha ataque a Srvia! - protestou Walter.
Robert ficou ofendido.
-		Queremos uma garantia de que a Alemanha cumprir suas obrigaes como
nossa aliada.
Walter controlou sua impacincia.
-		O problema com essa forma de pensar  que ela aumenta os riscos.  como
a Rssia alardeando seu apoio  Srvia, um incentivo  agresso. O que ns deveramos fazer  acalmar todos os envolvidos.
-		No tenho certeza se concordo - falou Robert, tenso. - A ustria levou um
golpe brutal. O imperador no pode parecer tolerante demais. Quem desafia
um gigante deve ser esmagado.
-		Vamos tentar ser sensatos.
Robert ergueu a voz.
-		O herdeiro do trono foi assassinado! - Um homem na mesa ao lado ergueu
os olhos e franziu as sobrancelhas ao escutar o tom raivoso da conversa em ale-
mo. Robert suavizou a voz, mas no a expresso em seu rosto. - No venha me
falar em sensatez.
Walter tentou reprimir os prprios sentimentos. Seria estpido e perigoso
para a Alemanha envolver-se naquele conflito, mas dizer isso a Robert no iria
adiantar nada. A tarefa de Walter era colher informaes, no ter uma discusso.
-		Entendo - disse ele. - Todos em Viena pensam como voc?
-		Em Viena, sim - respondeu Robert. - Tisza  contra. - Istvn Tisza era o primeiro-ministro hngaro, porm subordinado ao imperador austraco. - A alternativa que ele prope  um cerco diplomtico  Srvia.
-		Menos dramtico, talvez, mas tambm menos arriscado - observou Walter
com cautela.

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Walter pediu a conta. Estava profundamente abalado pelo que acabara de escutar. Mas no queria que houvesse rancor entre ele e Robert. Os dois confiavam um no outro e se ajudavam - e ele no queria que isso mudasse. Na calada em frente ao hotel, apertou a mo de Robert e segurou-lhe o cotovelo em um gesto de companheirismo inabalvel.
-		Acontea o que acontecer, primo, devemos continuar unidos - disse ele. - Ns somos aliados e sempre seremos. - Deixou a cargo de Robert decidir se ele estava se referindo aos dois ou a seus pases. Eles se despediram como amigos.
Walter atravessou depressa o Green Park. Os londrinos estavam aproveitando o sol, mas uma nuvem de pessimismo pairava sobre a cabea de Walter. Ele vinha esperando que a Alemanha e a Rssia ficassem de fora da crise nos Blcs, mas o que tinha ouvido at o momento naquele dia sugeria o contrrio. Quando chegou  altura do Palcio de Buckingham, dobrou  esquerda e desceu The Mali at a entrada dos fundos da embaixada alem.
Seu pai tinha uma sala na embaixada: passava mais ou menos uma semana a cada trs ali. Em uma das paredes, havia um quadro retratando o Kaiser Guilherme e, sobre a mesa, uma fotografia emoldurada de Walter usando um uniforme de tenente. Otto segurava na mo um objeto de cermica. Ele colecionava cermicas inglesas e adorava sair  caa de peas raras. Ao observar com mais ateno, Walter viu que se tratava de um cesto de frutas feito de uma loua creme, conhecida como creamware, com as bordas delicadamente vazadas e moldadas para imitar a trama de um cesto de verdade. Conhecendo o gosto do pai, imaginou que fosse do sculo XVIII.
Gottfried von Kessel, um adido cultural de quem Walter no gostava, estava na sala junto com Otto. Gottfried tinha cabelos escuros e grossos penteados para o lado e usava culos de lentes espessas. Tinha a mesma idade de Walter e seu pai tambm trabalhava no servio diplomtico, mas, apesar de tudo isso em comum, os dois no eram amigos. Walter considerava Gottfried um puxa-saco.
Ele meneou a cabea para o visitante antes de se sentar.
-		O imperador austraco escreveu para o nosso Kaiser - falou.
-		Ns j sabemos - apressou-se a dizer Gottfried.
Walter o ignorou. Gottfried estava sempre tentando medir foras.
-		Com certeza a resposta do Kaiser ser amigvel - disse ele ao pai. - Porm, muito pode depender do tom escolhido.
-		Sua Majestade ainda no se confidenciou comigo.
-		Mas vai fazer isso.
 
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Otto aquiesceu.
-  o tipo de coisa sobre o qual ele me consulta s vezes.
- E, se ele recomendar cautela, talvez consiga convencer os austracos a serem menos beligerantes. 
-		Por que ele faria isso? - indagou Gottfried.
-		Para impedir a Alemanha de ser arrastada para uma guerra por causa de um territrio to insignificante quanto a Srvia!
-		Do que voc est com medo? - perguntou Gottfried com sarcasmo. - Do Exrcito srvio?
-		Eu estou com medo do Exrcito russo, e voc tambm deveria estar - retrucou Walter. -  o maior da histria...
-		Eu sei disso - falou Gottfried.
Walter ignorou a interrupo.
-		Em teoria, o czar pode pr seis milhes de homens no campo de batalha em poucas semanas...
-		Eu sei...
-		... e isso  mais do que a populao da Srvia inteira.
-		Eu sei.
Walter deu um suspiro.
-		Von Kessel, voc parece saber tudo. Por acaso sabe onde os assassinos arrumaram suas armas e bombas?
-		Com nacionalistas eslavos, imagino.
-		Algum grupo nacionalista eslavo especfico, voc imagina?
-		Quem pode saber?
-		Segundo minhas informaes, os austracos sabem. Eles acham que as armas vieram do diretor do servio de inteligncia srvio.
Otto soltou um grunhido de surpresa.
-		Isso sim deixaria os austracos com sede de vingana - disse.
-		A ustria ainda  governada pelo seu imperador - falou Gottfried. - Em ltima instncia, a deciso a favor da guerra s pode ser tomada por ele.
Walter assentiu.
-		No que um imperador Habsburgo algum dia tenha precisado de muita desculpa para se mostrar inclemente e brutal.
-		De que outra forma se pode governar um imprio?
Walter no mordeu a isca.
-		Com exceo do primeiro-ministro hngaro, que no tem muito peso, no parece haver ningum recomendando cautela. Esse papel deve caber a ns. - Ele
 
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se levantou. J havia relatado suas descobertas e no queria passar mais tempo
no mesmo recinto que o irritante Gottfried. - Com sua licena, pai, vou tomar
ch na casa da duquesa de Sussex e ver o que mais as pessoas esto falando pela
cidade.
-		Os ingleses no fazem visitas aos domingos - disse Gottfried.
-		Eu fui convidado - respondeu Walter, saindo antes de perder a pacincia.
Foi a p de Mayfair at a Park Lane, onde ficava o palcio do duque de Sussex.
Este no desempenhava papel algum no governo britnico; j a duquesa presidia
um grupo de discusso sobre poltica. Quando Walter chegara a Londres, em
dezembro, Fitz o havia apresentado a ela, que tomara providncias para faz-lo
ser convidado a todos os eventos.
Ele entrou na sala de estar do palcio, fez uma mesura, apertou a mo rolia
da duquesa e disse:
-		Todos em Londres querem saber o que vai acontecer na Srvia, de modo
que, mesmo sendo domingo, vim aqui lhe perguntar isso, duquesa.
-		No haver guerra - disse ela, aparentemente sem perceber que ele estava
brincando. - Sente-se e tome uma xcara de ch.  claro que o que aconteceu
com o pobre arquiduque e sua esposa foi uma tragdia, e sem dvida os culpados sero punidos, mas  uma tolice pensar que duas grandes naes como a
	Alemanha e a Gr-Bretanha entrariam em guerra por causa da Srvia.
Walter desejou poder sentir a mesma segurana. Escolheu uma cadeira perto
de Maud, que deu um sorriso alegre, e de lady Hermia, que meneou a cabea.
Havia uma dzia de pessoas na sala, incluindo o primeiro-lorde do Almirantado,
Winston Churchill. A decorao era extremamente antiquada: um excesso de
mveis pesados talhados  mo, tecidos grossos em uma dzia de estampas diferentes e todas as superfcies cobertas de bibels, fotografias emolduradas e vasos
de plantas secas. Um lacaio entregou a Walter uma xcara de ch e lhe ofereceu
leite e acar.
Walter estava contente por estar ao lado de Maud, mas, como sempre, queria
mais, e logo estava pensando se eles poderiam dar algum jeito de ficar sozinhos,
mesmo que apenas por um ou dois minutos.
- O problema, obviamente,  a fraqueza dos turcos - falou a duquesa.
Aquela velha empolada tinha razo, pensou Walter. O Imprio Otomano estava
em declnio, impedido de se modernizar por um clero muulmano conservador.
Por muitos sculos, o sulto turco havia mantido a ordem na pennsula balcnica,
do litoral mediterrneo da Grcia at a Hungria ao norte, porm vinha recuando
cada vez mais com o passar das dcadas. As grandes potncias mais prximas,

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ustria e Rssia, tentavam preencher esse vcuo. Entre a ustria e o mar negro ficavam, sucessivamente, Bsnia, Srvia e Bulgria. Fazia cinco anos que a ustria tinha assumido o controle 
da Bsnia. Agora, estava em conflito com o pas
do meio, a Srvia. Os russos olhavam para o mapa e viam que a Bulgria era a
prxima pea do domin, e que os austracos poderiam acabar controlando toda
a costa oeste do mar Negro, ameaando o comrcio internacional russo.
Enquanto isso, os povos subordinados ao Imprio Austraco estavam comeando a pensar que poderiam governar a si mesmos - era por isso que o nacionalista bsnio Gavrilo Princip havia atirado no arquiduque Francisco Ferdinando
em Sarajevo.
-		Que tragdia para a Srvia - comentou Walter. - Imagino que o primeiro-ministro deles deva estar prestes a se atirar no Danbio.
-		Voc quer dizer no Volga - disse Maud.
Walter olhou para ela, grato pela desculpa para devor-la com os olhos. Maud
havia trocado de roupa e usava um vestido informal azul-escuro por cima de
uma blusa de renda cor-de-rosa clara. Para completar, um chapu de feltro cor-de-rosa com um pompom azul.
-		Certamente no, lady Maud - disse ele.
-		O Volga passa por Belgrado, que  a capital da Srvia - falou ela.
Walter estava prestes a protestar novamente, ento hesitou. Maud sabia muito
bem que o Volga ficava a mais de 1.500 quilmetros de distncia de Belgrado.
Aonde queria chegar com aquilo?
-		Fico relutante em contradizer uma pessoa to bem informada quanto a
senhorita, lady Maud - disse ele. - Mas ainda assim...
-		Vamos verificar - disse ela. - Meu tio, o duque, tem uma das maiores bibliotecas de Londres. - Ela se levantou. - Venha comigo e lhe mostrarei como est
enganado.
Aquele era um comportamento ousado para uma moa de boa famlia, e a
duquesa contraiu os lbios.
Walter deu de ombros, fingindo no ter sada, e seguiu Maud at a porta.
Por alguns instantes, lady Hermia pareceu disposta a acompanh-los, mas
estava confortavelmente acomodada em um acolhedor estofado de veludo, com
uma xcara e um pires na mo e um pratinho no colo, de modo que teria de se
esforar muito para sair dali.
-		No demorem - disse ela em voz baixa, comendo em seguida outro pedao
de bolo. Os dois saram da sala.
Maud subiu o corredor na frente de Walter, passando por um par de lacaios

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postados como dois sentinelas. Ela parou diante de uma porta e esperou que Walter a abrisse. Ambos entraram na biblioteca.
O amplo aposento estava silencioso. Eles estavam a ss. Maud se atirou nos braos de Walter. Ele a abraou com fora, pressionando o corpo dela contra o seu. Maud virou o rosto para cima.
-		Eu amo voc - disse, beijando-o com ardor.
Dali a um minuto, ela se desprendeu do abrao, ofegante. Walter a fitava com adorao.
-		Voc no existe - falou ele. - Dizer que o Volga passa por Belgrado!
-		Deu certo, no foi?
Ele sacudiu a cabea, admirado.
-		Eu nunca teria pensado nisso. Como voc  esperta.
-		Ns precisamos de um atlas - disse ela. - Caso algum entre aqui.
Walter correu os olhos pelas estantes. Aquela era a biblioteca de um colecionador, no de um leitor. Todos os livros tinham encadernaes de luxo, sendo que a maioria parecia nunca ter sido aberta. Havia algumas obras de referncia reunidas em um canto e ele sacou um atlas, encontrando um mapa dos Blcs.
-		Esta crise - disse Maud, aflita. - A longo prazo... ela no vai nos separar, vai?
-		No se eu puder evitar - respondeu Walter.
Ele a arrastou para trs de uma estante, para que no fossem vistos de imediato se algum entrasse, e tornou a beij-la. Maud estava deliciosamente carinhosa naquele dia, esfregando-lhe os ombros, braos e costas com as mos enquanto o beijava. Interrompeu o beijo para sussurrar:
-		Levante a minha saia.
Ele engoliu em seco. Havia fantasiado aquilo. Agarrou o tecido e o suspendeu.
-		As anguas tambm - disse ela. Ele pegou um bolo de tecido em cada mo. - Sem amarrotar - acrescentou. Ele tentou levantar-lhe as roupas sem amassar a seda, mas o pano escorregou de suas mos. Impaciente, ela se curvou, segurou a saia e as anguas pela bainha e ergueu tudo at a cintura. - Toque em mim - falou ela, encarando-o.
Walter estava nervoso, com medo de algum entrar, mas o amor e o desejo que sentia eram grandes demais para ele se conter. Quando colocou a mo direita entre as suas coxas, soltou um arquejo chocado: ela estava nua ali. Descobrir que Maud havia planejado aquilo para lhe proporcionar prazer o deixou ainda mais arrebatado. Walter comeou a acarici-la com delicadeza, mas ela jogou o quadril para a frente e ele aumentou a presso.
-		Assim - disse Maud.

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Ele fechou os olhos, mas ela pediu:
-		Olhe para"mim, querido, por favor, olhe para mim enquanto estiver fazendo
isso - tornou a abrir os olhos. Maud tinha as faces coradas e respirava
depressa pelos lbios entreabertos. Agarrou a mo dele para conduzi-lo, como ele
a conduzira no camarote.
-		Enfie o dedo - sussurrou ela, apoiando-se no ombro dele. Walter podia sentir o calor de seu hlito atravs das roupas. Ela no parava de arremeter contra a
sua mo. Ento emitiu um som fraco e gutural, como o grito contido de algum
que estivesse sonhando - por fim, deixou-se cair contra ele.
Walter ouviu o som da porta se abrindo, seguido pela voz de lady Hermia:
-		Maud, querida, vamos, ns temos de ir embora.
Walter retirou a mo e Maud ajeitou a saia depressa. Com a voz trmula, disse:
-		Acho que eu estava errada, tia Herm, e Herr Von Ulrich tinha razo... o rio
que passa por Belgrado  o Danbio, no o Volga. Acabamos de encontrar aqui
no atlas.
Os dois se curvaram por cima do livro na mesma hora em que lady Hermia
acabava de contornar a estante.
-		Nunca tive a menor dvida - falou ela. - Os homens em geral tm razo
quanto a esse tipo de coisa. Alm disso, Herr Von Ulrich  um diplomata, precisa saber de muitas coisas com as quais as mulheres no tm necessidade de se
preocupar. Voc no deveria ser to teimosa, Maud.
-		Acho que voc est certa - respondeu Maud com uma falsidade espantosa.
Os trs saram da biblioteca e atravessaram o corredor. Walter abriu a porta da
sala de estar. Lady Hermia entrou primeiro. Ao passar, Maud fisgou o olhar dele.
Ele ergueu a mo direita, levou a ponta do dedo at a boca e a chupou.
Aquilo no podia continuar assim, pensou Walter enquanto caminhava de volta para a embaixada. Ele parecia um colegial. Maud tinha 23 anos e ele 28, mas ainda assim os dois precisavam recorrer a subterfgios absurdos para passar cinco minutos sozinhos. J era hora de se casarem.
Ele teria de pedir a permisso de Fitz. Maud no tinha pai, ento o chefe da famlia era seu irmo. Fitz sem dvida preferiria que ela desposasse um ingls. No entanto, provavelmente acabaria aceitando: j deveria estar preocupado, achando que nunca conseguiria casar sua irm espevitada.
No, o maior problema era Otto. Ele queria que Walter se casasse com uma

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donzela prussiana bem-comportada, que se contentasse em passar o resto da vida gerando herdeiros. E, quando Otto queria alguma coisa, fazia todo o possvel para consegui-la, esmagando qualquer oposio sem remorso - era justamente isso que o tornara um bom oficial do Exrcito. Jamais lhe ocorreria que o filho tivesse o direito de escolher a prpria noiva sem interferncia ou presso. Walter preferia ter o incentivo e o apoio do pai; certamente no ansiava pelo confronto direto inevitvel. Contudo, seu amor era uma fora muito mais potente do que a deferncia filial.
Era domingo  noite, mas Londres no estava tranquila. Embora o Parlamento no estivesse reunido e os mandachuvas de Whitehall j tivessem voltado para suas casas na regio metropolitana, as negociaes polticas prosseguiam nos palcios de Mayfair, nos clubes de cavalheiros da St. Jamess Street e nas embaixadas. Pelas ruas, Walter reconheceu vrios membros do Parlamento, dois subsecretrios do Ministrio das Relaes Exteriores britnico e alguns diplomatas europeus. Imaginou se o ministro das Relaes Exteriores do pas, Sir Edward Grey, cujo passatempo era a observao de pssaros, teria ficado na cidade durante o fim de semana em vez de ir para o seu querido chal rural em Hampshire.
Walter encontrou o pai diante da escrivaninha, lendo telegramas decodificados.
-		Talvez este no seja o melhor momento para lhe dar a minha notcia - comeou Walter.
Otto grunhiu algo ininteligvel e prosseguiu a leitura.
Walter continuou.
-		Eu estou apaixonado por lady Maud.
Otto levantou os olhos.
-		A irm de Fitzherbert? Eu j desconfiava. Meus psames.
-		Pai, por favor, fale srio.
-		No, fale srio voc. - Otto atirou sobre a mesa os documentos que estava lendo. - Maud Fitzherbert  feminista, defensora do voto feminino e uma inconformista. No  uma esposa adequada para homem nenhum, muito menos para um diplomata alemo de boa famlia. Ento vamos esquecer esse assunto.
Palavras colricas vieram  ponta da lngua de Walter, mas ele cerrou os dentes e se controlou.
-		Maud  uma mulher maravilhosa e eu a amo, ento  melhor o senhor se referir a ela com educao, sejam quais forem as suas opinies.
-		Eu vou dizer o que penso - prosseguiu Otto com grosseria. - Ela  um desastre. - Ele baixou os olhos para os seus telegramas.
O olhar de Walter recaiu sobre a fruteira de porcelana que seu pai havia comprado.
 

-		No - disse ele, apanhando a fruteira.
-		Tome cuidado conysso.
Walter havia conquistado toda a ateno do pai.
-		O meu instinto de proteo em relao a lady Maud  o mesmo que voc tem
por esta bugiganga.
-		Bugiganga? Deixe-me lhe dizer uma coisa, isso vale...
-		Com a ressalva, naturalmente, de que o amor  mais forte do que a gana do
colecionador. - Walter lanou o delicado objeto no ar, pegando-o com uma s
mo. Seu pai deixou escapar um grito angustiado de protesto. Walter prosseguiu
sem lhe dar ateno: - Ento, quando o senhor fala nela em termos insultuosos,
eu me sinto da mesma forma que o senhor quando acha que vou deixar isto aqui
cair no cho... s que mais ainda.
-		Seu fedelho insolente...
Walter ergueu a voz mais alto que a do pai.
-		E, se o senhor continuar a pisar nos meus sentimentos, eu vou esmigalhar
este pedao de cermica idiota com o calcanhar do meu sapato.
-		Certo, voc j disse o que queria, agora largue isso, pelo amor de Deus.
Walter interpretou a resposta como aquiescncia e tornou a pousar o artefato
sobre uma mesinha de canto.
-		Mas h outra questo que voc precisa levar em considerao... - disse Otto
com malcia. - Se  que me permite mencion-la sem pisar nos seus sentimentos.
-		Prossiga.
-		Ela  inglesa.
-		Pelo amor de Deus! - protestou Walter. - Alemes bem nascidos vm se
casando com aristocratas inglesas h anos. O prncipe Alberto de Saxe-Coburgo-
-Gotha se casou com a rainha Vitria... O neto dele  hoje rei da Inglaterra. E a
rainha da Inglaterra nasceu princesa de Wrttemberg!
Otto levantou a voz.
-		As coisas mudaram! Os ingleses esto decididos a nos manter como uma
potncia de segunda classe. So aliados de nossos adversrios, a Rssia e a
Frana. Voc estaria se casando com uma inimiga da sua ptria.
Walter sabia que era assim que a velha guarda pensava, mas era uma opinio
irracional.
-		Ns no deveramos ser inimigos - disse ele, irritado. - No h motivo para
tanto.
-		Eles nunca nos deixaro competir em condio de igualdade.
-		Isso  mentira! - Walter percebeu que estava gritando e tentou se acalmar. -

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Os ingleses acreditam no livre comrcio... Eles nos permitem vender nossa produo industrial por todo o Imprio Britnico.
-		Ento leia isto aqui. - Otto lanou at a outra ponta da mesa o telegrama que estava lendo. - Sua Majestade, o Kaiser, solicitou minha opinio.
Walter pegou o papel. Era o rascunho de uma resposta  carta pessoal do imperador austraco. Walter a leu com inquietao crescente. O texto terminava da seguinte forma: "Contudo, o imperador Francisco Jos pode estar certo de que Sua Majestade apoiar fielmente a ustria-Hungria, conforme exigem as obrigaes de sua aliana e de sua antiga amizade."
Walter estava horrorizado.
-		Mas isto d carta branca  ustria! - falou ele. - Eles podero fazer o que quiserem e ns vamos apoi-los!
-		Com algumas restries.
-		No muitas. Isto aqui j foi enviado?
-		No, mas j est decidido. Ser enviado amanh.
-		Ns podemos impedir?
-		No, e no tenho interesse em fazer isso.
-		Mas assim ficamos obrigados a apoiar a ustria em uma guerra contra a Srvia.
-		O que no  nada ruim.
-		Ns no queremos uma guerra! - protestou Walter. - Precisamos de cincia, de manufaturas e de comrcio. A Alemanha precisa se modernizar, se liberalizar, crescer. Queremos paz e prosperidade. - E, acrescentou ele em sua cabea, tambm queremos um mundo em que um homem possa se casar com a mulher que ama sem ser acusado de traio.
-		Escute aqui - disse Otto. - Ns temos inimigos poderosos de ambos os lados, a Frana a oeste e a Rssia a leste... e os dois so unha e carne. No podemos travar uma guerra em duas frentes.
Walter sabia disso.
-		 por esse motivo que temos o Plano Schlieffen - respondeu ele. - Se formos forados a entrar em guerra, primeiro invadimos a Frana com uma fora avassaladora, obtemos a vitria em poucas semanas e, ento, com o oeste garantido, voltamos nossa ateno para o leste e enfrentamos a Rssia.
-		Essa  a nossa nica esperana - falou Otto. - Mas, quando esse plano foi adotado pelo Exrcito alemo, nove anos atrs, nosso servio de inteligncia nos disse que o Exrcito russo levaria 40 dias para se mobilizar. Isso nos dava quase seis semanas para conquistar a Frana. Desde ento, os russos vm aprimorando suas ferrovias... com dinheiro emprestado pelos franceses! - Otto deu um soco
 
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na mesa, como se pudesse esmagar a Frana com o punho. - Quanto menor o tempo de mobilizao da Rssia, mais arriscado fica o Plano Schlieffen. O que significa que... - Ele apontou o dedo para Walter com um gesto dramtico. - ... quanto antes travarmos essa guerra, melhor para a Alemanha!
- No! - Por que o velho no conseguia ver como esse raciocnio era perigoso? - Isso significa que deveramos estar buscando solues pacficas para disputas mesquinhas.
Solues pacficas? - Otto balanou a cabea com arrogncia. - Voc  jovem e idealista. Acha que toda pergunta tem uma resposta.
-		O senhor quer mesmo uma guerra - falou Walter, incrdulo. - Quer de verdade.
-		Ningum quer uma guerra - disse Otto. - Mas s vezes ela  melhor do que a alternativa.
Maud havia herdado uma penso irrisria do pai - 300 libras por ano, que mal davam para comprar seus vestidos para a temporada. O ttulo de nobreza, as terras, os imveis e quase toda a fortuna haviam ficado para Fitz. Assim era o sistema ingls. Mas no era isso que irritava Maud. O dinheiro pouco significava para ela. Na verdade, no precisava das suas 300 libras. Fitz pagava por tudo que ela quisesse sem question-la: para ele, a avareza no caa bem em um cavalheiro.
O grande ressentimento de Maud era no ter podido estudar. Aos 17 anos, havia anunciado que iria para a universidade - e todos riram na sua cara. Ela acabara descobrindo que, para ser admitida, era preciso antes ter estudado em uma boa escola e ento passar nas provas. Maud nunca tinha ido  escola e, embora fosse capaz de conversar sobre poltica com os homens mais importantes do pas, uma sucesso de governantas e professores particulares havia fracassado por completo na tarefa de qualific-la para ser aprovada em qualquer tipo de exame. Ela passara dias chorando e se descabelando e, at hoje, pensar no assunto a deixava mal-humorada. Por isso havia se tornado uma sufragista: sabia que as mulheres s teriam uma boa instruo quando pudessem votar.
Ela muitas vezes se perguntara por que as mulheres se casavam. Comprometiam-se com uma vida de escravido em troca de qu? Agora, porm, sabia a resposta. Jamais havia sentido nada to intenso quanto seu amor por Walter. E as coisas que eles faziam para expressar esse amor lhe proporcionavam o mais delicioso prazer. Poderem se tocar daquela forma sempre que quisessem seria o paraso. Ela teria se deixado escravizar trs vezes, se o preo a pagar fosse esse.

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   Mas o preo no era a escravido, pelo menos no com Walter. Maud j havia perguntado a ele se achava que uma esposa deveria obedecer ao marido em tudo e ouvira a seguinte resposta:
  -		Sem dvida que no. No vejo o que a obedincia tem a ver com isso. Dois adultos que se amam deveriam ser capazes de tomar decises juntos, sem que um tenha de obedecer ao outro.
   Ela passava muito tempo pensando na vida que teriam juntos. Durante alguns anos, ele provavelmente seria transferido de uma embaixada para outra e os dois viajariam pelo mundo: Paris, Roma, Budapeste, talvez at lugares mais distantes, como Adis Abeba, Tquio ou Buenos Aires. Ela pensou na histria de Rute na Bblia: "Aonde tu fores, eu tambm irei." Seus filhos aprenderiam a tratar as mulheres como iguais e suas filhas seriam independentes e decididas quando adultas. Talvez os dois acabassem fixando residncia em Berlim, para os filhos poderem estudar em boas escolas alems. Em algum momento, Walter sem dvida herdaria Zumwald, a casa de campo do pai no leste da Prssia. Quando eles ficassem velhos e seus filhos estivessem crescidos, poderiam passar mais tempo no campo, caminhando de mos dadas pela propriedade, lendo juntos  noite e refletindo sobre como o mundo havia mudado desde a sua juventude.
   Maud praticamente no conseguia pensar em outra coisa. Estava sentada diante de sua mesa no Salo do Evangelho do Calvrio, encarando uma lista de preos de materiais hospitalares e se lembrando de como Walter havia chupado a ponta do dedo na porta da sala de estar da duquesa. As pessoas estavam comeando a perceber sua distrao: o Dr. Greenward havia lhe perguntado se ela estava se sentindo bem e at tia Herm lhe dissera para "acordar".
   Ela tentou se concentrar novamente no formulrio de pedidos e, desta vez, foi interrompida por uma batida na porta. Tia Herm ps a cabea para dentro da sala e falou:
  -		Um cavalheiro est aqui para v-la. - Ela parecia um pouco atnita e entregou um carto de visita a Maud.
General Otto von Ulrich Adido
Embaixada do Imprio Germnico Carlton House Terrace, Londres
  -		O pai de Walter! - disse Maud. - Mas o que ele...?
  -		O que devo fazer? - sussurrou tia Herm.
  -		Pergunte se ele gostaria de tomar ch ou xerez e mande-o entrar.
   
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Von Ulrich usava um traje formal: sobrecasaca preta com lapelas de cetim, colete branco de piqu e cala listrada. O calor do vero fazia seu rosto vermelho transpirar. Ele era mais corpulento do que Walter e no to bonito, mas os dois tinham o mesmo porte militar ereto e altivo.
Maud forou-se a exibir o comportamento descontrado de sempre.
-		Meu caro Herr Von Ulrich, esta  uma visita formal?
-		Quero falar com a senhorita sobre o meu filho - disse ele. Seu ingls era quase to bom quanto o de Walter, embora, ao contrrio do filho, ele tivesse algum sotaque.
-		 muito gentil da sua parte ir direto ao assunto dessa forma - retrucou Maud, com uma ponta de sarcasmo que Otto nem percebeu. - Sente-se, por favor. Lady Hermia ir pedir uma bebida.
-		Walter vem de uma antiga famlia aristocrtica.
-		Assim como eu - retrucou Maud.
-		Ns somos tradicionais, conservadores, muito religiosos... talvez um pouco antiquados.
-		Tambm como a minha famlia - disse Maud.
A conversa no estava correndo conforme Otto planejara.
-		Ns somos prussianos - disse ele com um qu de irritao.
-		Ah - disse Maud, fingindo surpresa. - Enquanto ns,  claro, somos anglo-saxes.
Ela estava argumentando com ele, como se aquilo no passasse de um duelo
de intelectos, mas no fundo estava assustada. O que ele estaria fazendo ali? Qual seria seu objetivo? Tinha a impresso de que boa coisa no era. O pai de Walter estava contra ela. Maud sentia, com uma certeza desoladora, que ele tentaria se opor  unio dos dois.
De toda forma, Otto no iria se deixar demover por tiradas irnicas.
-		A Alemanha e a Gr-Bretanha esto em conflito. Seu pas  amigo de nossos inimigos, a Rssia e a Frana. Isso faz dele nosso adversrio.
-		Sinto muito que o senhor pense assim. Muitos pensam diferente.
-		No se chega  verdade por voto majoritrio. - Maud tornou a perceber uma nota de aspereza em sua voz. Ele estava acostumado a ser ouvido sem crticas, sobretudo por mulheres.
A enfermeira do Dr. Greenward trouxe ch em uma bandeja e ps-se a servi-lo. Otto permaneceu calado at ela se retirar. Ento disse:
-		Pode ser que ns entremos em guerra nas prximas semanas. Se o motivo de nossa disputa no for a Srvia, haver outros casus belli. Mais cedo ou mais tarde, Gr-Bretanha e Alemanha tero de brigar pelo domnio da Europa.

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-		Sinto muito que o senhor esteja to pessimista.
-		Muitos outros pensam como eu.
-		Mas no se chega  verdade por voto majoritrio.
Otto pareceu contrariado. Obviamente esperava que ela ficasse sentada e escutasse seu discurso pomposo em silncio. No gostava de ser alvo de zombarias.
Irritado, falou:
-		A senhorita deveria me dar ouvidos. Este  um assunto que a afeta direta-
mente. A maioria dos alemes considera a Gr-Bretanha uma inimiga. Imagine
as consequncias se Walter se casasse com uma inglesa.
-		Pode ter certeza de que j imaginei. Walter e eu conversamos muito sobre isso.
-		Em primeiro lugar, ele no teria a minha aprovao. Eu no poderia acolher
uma nora inglesa na minha famlia.
-		Walter acredita que o amor que o senhor tem por ele talvez o ajudasse a
superar sua repulsa por mim. Ser que isso  impossvel?
-		Em segundo lugar - disse ele, ignorando a pergunta dela ele seria visto
como desleal ao Kaiser. Homens da sua classe deixariam de consider-lo amigo.
Ele e a esposa no seriam recebidos nos melhores lares.
Maud estava ficando zangada.
-		Acho isso difcil de acreditar. Com certeza nem todos os alemes tm a
mente to fechada.
Otto pareceu no reparar na grosseria dela.
-		Em terceiro e ltimo lugar, a carreira de Walter  no Ministrio das Relaes
Exteriores. Ele vai se distinguir nessa carreira. Eu o matriculei em escolas e universidades de vrios pases. Ele fala um ingls perfeito e domina razoavelmente
bem o russo. Apesar de suas opinies idealistas e imaturas,  bem-visto por seus
superiores e o Kaiser j lhe dirigiu a palavra com apreo em mais de uma ocasio. Ele poderia se tornar ministro das Relaes Exteriores.
-		Ele  brilhante - comentou Maud.
-		Porm, se ele se casar com a senhorita, ser o fim da carreira dele.
-		Que coisa mais ridcula - falou ela, chocada.
-		Minha cara jovem, ser que no  bvio? No se pode confiar em um
homem casado com uma inimiga.
-		Ns dois j conversamos a respeito. Naturalmente, a lealdade dele seria para
com a Alemanha. Eu o amo o suficiente para aceitar isso.
-		Talvez ele fique preocupado demais com a famlia da esposa para dedicar
total lealdade ao prprio pas. Mesmo que Walter ignorasse esse lao de forma
implacvel, outros homens continuariam desconfiados.

204
 

-		O senhor est exagerando - disse ela, mas estava comeando a ficar insegura.
-		Certamente no poderia trabalhar em nenhum cargo que exigisse sigilo.
	Nenhum homem trataria de assuntos confidenciais na frente dele. Walter estaria acabado.
-		Ele no precisa trabalhar com inteligncia militar. Pode se transferir para
outras reas da diplomacia.
-		Qualquer tipo de diplomacia envolve confidencialidade. Isso sem falar na
minha prpria posio.
Maud foi pega de surpresa. Ela e Walter no haviam levado em considerao
a carreira de Otto.
-		Eu sou confidente do Kaiser. Ser que ele continuaria a depositar sua confiana absoluta em mim, caso meu filho fosse casado com uma estrangeira inimiga?
-		 o que ele deveria fazer.
-		Talvez o fizesse, se eu tomasse uma atitude firme e inflexvel e deserdasse
meu filho.
Maud soltou um arquejo.
-		O senhor no faria isso.
Otto ergueu a voz.
-		Eu seria obrigado!
Maud balanou a cabea.
-		O senhor teria escolha - falou ela, em desespero. - Um homem sempre tem
escolha.
-		Eu no vou sacrificar tudo o que conquistei... meu cargo, minha carreira, o
respeito dos meus conterrneos... por uma garota - disse ele com desprezo.
Maud sentiu como se tivesse levado um tapa.
Otto prosseguiu:
-		Mas Walter sacrificar,  claro.
-		O que o senhor est dizendo?
-		Se Walter se casasse com a senhorita, perderia sua famlia, seu pas e sua carreira. Mas ele vai fazer isso. Ele declarou seu amor pela senhorita sem pensar direito nas consequncias e, mais cedo ou mais tarde, ir entender o erro catastrfico que
cometeu. Mas, sem dvida, j se considera seu noivo, mesmo que no oficialmente,
e no vai recuar diante de um compromisso.  cavalheiro demais para agir de outra
forma. "Pode me deserdar", dir ele. Se no fizer isso, vai se considerar um covarde.
-		 verdade - disse Maud. Ela estava pasma. Aquele homem horrvel enxergava a verdade com mais clareza do que ela.
-		Ento  a senhorita quem deve romper o noivado - continuou Otto.

205
 

As palavras a atingiram como uma punhalada.
-No!
-	 a nica forma de salv-lo. A senhorita tem que abrir mo dele.
	Maud abriu a boca para objetar novamente, mas percebeu que Otto tinha
razo e no conseguiu pensar em nada para dizer.
Otto se inclinou para a frente e perguntou com uma insistncia opressora:
-	A senhorita vai romper com ele?
	Lgrimas escorriam pelo rosto de Maud. Ela sabia o que precisava fazer. No
podia arruinar a vida de Walter, nem mesmo por amor.
-		Vou - disse, aos soluos. No lhe restava mais dignidade alguma, porm isso
no tinha importncia; a dor era grande demais. - Sim, vou romper com ele.
-		Promete?
-		Sim, prometo.
Otto se levantou.
-		Obrigado pela gentileza de me escutar. - Ele fez uma mesura. - Desejo-lhe
uma boa tarde. - E ento foi embora.
Maud enterrou o rosto nas mos.

206
 

CAPTULO OITO
Meados de julho de 1914
      o quarto novo de Ethel em Ty Gwyn havia um espelho de p. Era um espelho
      antigo, com a madeira da moldura rachada e o vidro embaado, mas ela podia se ver de corpo inteiro. Considerava isso um grande luxo.
   Observou o prprio reflexo vestida apenas com a roupa de baixo. Parecia ter ficado mais voluptuosa desde que se apaixonara. Tinha engordado um pouco na cintura e nos quadris, e seus seios pareciam mais fartos, talvez porque Fitz os acariciasse e apertasse tanto. Quando pensava nele, sentia os mamilos doloridos.
   Fitz chegara naquela manh, acompanhado pela princesa Bea e por lady Maud, e havia lhe dito com um sussurro que a encontraria na Sute Gardnia depois do almoo. Ethel alojara Maud no Quarto Rosa, inventando uma desculpa sobre reformas no piso do seu aposento habitual.
   Ethel fora ento at seu quarto para se lavar e vestir roupas de baixo limpas. Adorava se preparar para Fitz dessa forma, imaginando como ele iria tocar seu corpo e beijar-lhe a boca, j escutando a forma como grunhiria de desejo e prazer, pensando no cheiro de sua pele e na textura luxuosa de suas roupas.
   Quando abriu uma gaveta para pegar meias limpas, seus olhos recaram sobre uma pilha de tiras limpas de algodo branco, os "paninhos" que usava ao ficar menstruada. Ocorreu-lhe que no os havia lavado desde que se mudara para aquele quarto. De repente, uma pequena semente de puro pnico surgiu em sua mente. Ela se deixou cair sentada na cama estreita. Eram meados de julho. A Sra. Jevons tinha ido embora no incio de maio. Fazia dez semanas. Nesse intervalo, Ethel deveria ter usado os paninhos no apenas uma, mas duas vezes.
   - Ah, no - disse em voz alta. - Ah, por favor, no!
   Forou-se a pensar com calma e tornou a fazer as contas. A visita do rei tinha sido em janeiro. Ela fora nomeada governanta logo depois, mas a Sra. Jevons estava adoentada demais para se mudar do quarto. Fitz havia ido  Rssia em fevereiro e voltado em maro, data em que eles fizeram amor de verdade pela primeira vez. Em abril, a Sra. Jevons j estava melhor e o homem de negcios de Fitz, Albert Solman, tinha vindo de Londres para lhe explicar como seria a sua aposentadoria. Ela fora embora no incio de maio e somente ento Ethel havia se mudado para aquele quarto e guardado aquela assustadora pilha de tiras de algodo
   
207
 

branco na gaveta. Dez semanas. Ethel no conseguia fazer a conta chegara
outro resultado.
   Quantas vezes eles haviam se encontrado na Sute Gardnia? Oito, no mnimo,
Fitz sempre tirava antes do final, mas s vezes o fazia um pouco tarde, e ela podi
sentir o primeiro de seus espasmos quando ele ainda estava dentro de seu corpo,
Sentira-se felicssima por compartilhar esse instante com ele e, no seu xtase,
tinha fechado os olhos para o risco. Agora estava pagando o preo.
  -		Oh, meu Deus, me perdoe - disse ela em voz alta.
   Sua amiga Dilys Pugh havia ficado grvida. Dilys tinha a mesma idade de
Ethel. Ela trabalhava como criada para a esposa de Perceval Jones e namorava
Johnny Bevan. Ethel se lembrou de como os seios de Dilys tinham ficado maiores por volta da poca em que ela percebeu que, sim, era possvel engravidar
fazendo aquilo em p. Os dois agora estavam casados.
   O que seria de Ethel? Ela no poderia se casar com o pai de seu filho. Tirando
todo o resto, ele j era casado.
   Estava na hora de ir encontr-lo. Desta vez, no iriam rolar na cama. Teriam
de conversar sobre o futuro. Ela ps seu vestido de seda preta de governanta.
   O que ela iria dizer? Ele no tinha filhos; ser que ficaria contente ou horrorizado? Amaria aquele filho ilegtimo, ou sentiria vergonha dele? Seu amor por
Ethel aumentaria pelo fato de ela ter ficado grvida, ou ele passaria a odi-la?
   Ela saiu de seu quarto no sto e percorreu o corredor estreito, descendo em
seguida a escada dos fundos at a ala oeste da casa. O papel de parede conhecido, com sua estampa de gardnias, despertou seu desejo da mesma forma que a
viso da roupa de baixo dela excitava Fitz.
   Ele j estava no quarto, parado diante da janela, admirando o jardim iluminado pelo sol e fumando um charuto; e, quando Ethel o viu, tornou a ficar impressionada com sua beleza. Ela atirou os braos em volta do pescoo de Fitz. Havia
descoberto que a maciez surpreendente de seu terno marrom se devia ao fato de
ele ser feito de caxemira.
  -		Ah, Teddy, meu amor, como estou feliz por ver voc - disse ela. Gostava de
ser a nica pessoa a cham-lo de Teddy.
  -		E eu por ver voc - disse ele, mas no lhe acariciou os seios como costumava fazer.
   Ela beijou sua orelha.
  -		Tenho uma coisa para lhe dizer- falou Ethel, em tom solene.
  -		Eu tambm tenho uma coisa para lhe dizer! Posso falar primeiro?
   Ethel estava prestes a responder que no, mas ele se soltou de seu abrao,
   
208
 

dando um passo para trs, e de repente o corao dela foi tomado por um mau pressentimento.
-		O qu? - indagou ela. - O que foi?
-		Bea est esperando um filho. - Ele deu uma tragada no charuto e expeliu a fumaa como se suspirasse.
A princpio, ela no conseguiu entender aquelas palavras.
-		O qu? - repetiu com a voz atnita.
-		Minha mulher, a princesa Bea, est grvida. Ela vai ter um filho.
-		Voc quer dizer que esteve com ela ao mesmo tempo que esteve comigo? - perguntou Ethel, furiosa.
Ele pareceu surpreso. No esperava que aquilo fosse aborrec-la.
-		 a minha obrigao! - protestou. - Eu preciso de um herdeiro.
-		Mas voc disse que me amava!
-		Eu amo e, de certa forma, sempre amarei.
-		No, Teddy! - gritou ela. - No diga isso assim... por favor!
-		Fale baixo!
-		Falar baixo? Voc est me dispensando! De que me importa agora se as pessoas descobrirem?
-		A mim importa, mais que tudo.
Ethel estava consternada.
-		Teddy, por favor, eu te amo.
-		Mas est tudo acabado. Eu preciso ser um bom marido e um bom pai para o meu filho. Voc tem que entender.
-		Entender uma ova! - disse ela, irada. - Como pode dizer isso com tanta facilidade? J vi voc demonstrar mais emoo por causa de um cachorro que teve de ser sacrificado!
-		Isso no  verdade - disse ele, e sua voz saiu embargada.
-		Eu me entreguei a voc, neste quarto, naquela cama ali.
-		E eu no vou... - Ele se calou. Seu rosto, at ento congelado em uma expresso de rgido autocontrole, exibiu de repente um ar de aflio. Ele lhe deu as costas, evitando encar-la. - Eu nunca vou me esquecer disso - murmurou.
Ethel se aproximou e viu lgrimas nas faces dele, o que fez sua raiva se dissipar por completo.
-		Oh, Teddy, eu sinto tanto... - disse.
Ele tentou se recompor.
-		Eu gosto muito de voc, mas preciso cumprir o meu dever - falou. As palavras eram frias, mas sua voz soava atormentada.

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-		Ai, meu Deus. - Ela tentou parar de chorar. Ainda no havia lhe dado a sua
notcia. Enxugou os olhos com a manga do vestido, fungou e engoliu em seco. -
Dever? - indagou. - Voc no sabe da missa a metade.
-		Do que voc est falando?
-		Eu tambm estou grvida.
-		Meu bom Senhor! - Ele levou o charuto  boca em um gesto mecnico,
depois tornou a abaix-lo sem tragar. - Mas eu sempre tirei!
-		Depois do que devia, pelo jeito.
-		H quanto tempo voc sabe?
-		Acabei de me dar conta. Olhei dentro da minha gaveta e vi meus paninhos
limpos. - Ele fez uma cara feia. Estava claro que o assunto menstruao o desagradava. Bem, ele teria que aguentar. - Calculei que no tenho minhas regras desde
que me mudei para o antigo quarto da Sra. Jevons, ou seja, h dez semanas.
-		Dois ciclos. Ento no resta dvida. Foi o que Bea disse. Ah, maldio! - Fitz
levou o charuto aos lbios, percebeu que a brasa tinha se apagado e o deixou cair
no cho com um grunhido irritado.
Um pensamento irnico passou pela cabea de Ethel.
-		Talvez voc ganhe dois herdeiros.
-		No seja ridcula - disse ele com rispidez. - Bastardos no tm direito a
heranas.
-		Ah - falou ela. No tivera de fato a inteno de fazer qualquer exigncia em
nome do filho. Por outro lado, at aquele momento no havia pensado nele como
um bastardo. - Pobrezinho - falou. - Meu filho, o bastardo.
Ficou visvel pela expresso de Fitz que ele se sentia culpado.
-		Desculpe - disse. - Eu falei sem pensar. Me perdoe.
Ela podia ver que sua natureza de homem bom estava em conflito com seus
instintos egostas. Tocou-lhe o brao.
-		Pobre Fitz.
-		Deus no permita que Bea fique sabendo - falou ele.
Ethel sentiu-se mortalmente ferida. Por que a maior preocupao dele era com
a outra mulher? Bea no teria problemas: era rica e casada e estava carregando o
filho amado e legtimo do cl Fitzherbert.
-		O choque poderia ser demais para ela - continuou Fitz.
Ethel recordou um boato de que Bea sofrera um aborto espontneo no ano
anterior. Todas as criadas haviam comentado o fato. Segundo Nina, a criada
russa, a princesa punha a culpa do aborto em Fitz, que a deixara abalada ao cancelar uma viagem j marcada  Rssia.

210
 

Ethel estava se sentindo profundamente rejeitada.
-		Ento sua maior preocupao  que a notcia do nosso filho abale a sua mulher.
Ele a encarou.
-		Eu no quero que ela aborte...  importante!
Fitz no fazia ideia de quanto estava sendo insensvel.
-		Maldito seja voc - falou Ethel.
-		O que voc espera que eu faa? Bea est carregando o filho pelo qual eu tenho torcido e rezado. Quanto ao seu, voc no o quer, nem eu, nem qualquer outra pessoa.
-		No  assim que penso - falou ela com voz mida, e ento recomeou a chorar.
-		Preciso pensar no assunto - disse ele. - Preciso ficar sozinho. - Ele a segurou pelos ombros. - Tornamos a conversar amanh. Enquanto isso, no conte a ningum. Entendido?
Ela assentiu.
-		Prometa para mim.
-		Eu prometo.
-		Boa menina - disse ele, e saiu do quarto.
Ethel se abaixou e pegou o charuto apagado do cho.
Ela guardou segredo, mas foi incapaz de se comportar como se estivesse tudo bem, de modo que fingiu estar doente e foi para a cama. Enquanto ficava deitada sozinha horas a fio, sua tristeza logo cedeu lugar ao nervosismo. Como ela e o filho fariam para viver?
Ela perderia seu emprego ali em Ty Gwyn - isso seria automtico, mesmo que o filho no fosse do conde. Esse fato por si s era doloroso. Sentira tanto orgulho de si mesma ao ser promovida a governanta. Gramper gostava de dizer que o orgulho sempre precede a queda. No seu caso, ele estava certo.
Ethel no tinha certeza se poderia voltar para a casa dos pais: a humilhao mataria seu pai de desgosto. Ela estava quase to angustiada com isso quanto com a prpria vergonha. De certa forma, ele ficaria mais magoado com aquilo do que ela - era muito rgido em relao a esse tipo de coisa.
De toda maneira, no queria viver como me solteira em Aberowen. J havia duas ali: Maisie Owen e Gladys Pritchard. Eram criaturas deplorveis, sem lugar na estrutura social da cidade. Apesar de solteiras, nenhum homem se interessava

211
 

por elas. Eram mes, mas moravam com os pais como se ainda fossem crianas. No eram bem-vindas em nenhuma igreja, pub, loja ou clube. Como ela, Ethel Williams, que sempre havia se considerado melhor do que as outras, poderia descer ao nvel mais baixo de todos?
   Assim, ela precisava ir embora de Aberowen. Isso no a entristecia. Ficaria contente em dar as costas s fileiras de casas deprimentes, s pequenas capelas moralistas e s infindveis disputas entre os mineradores e a administrao da mina. Mas para onde ela iria? E ser que conseguiria ver Fitz?
   Enquanto a noite caa, Ethel ficou acordada olhando as estrelas pela janela e, por fim, concebeu um plano. Iria comear uma nova vida em um novo lugar. Usaria uma aliana de casamento e diria que seu marido havia morrido. Encontraria algum para cuidar do beb, arrumaria um emprego qualquer e ganharia dinheiro. Mandaria a criana  escola. Sentia que teria uma menina - uma menina inteligente, que viraria escritora ou mdica, ou quem sabe uma militante como a Sra. Pankhurst, que defendia os direitos femininos e havia sido presa em frente ao Palcio de Buckingham.
   Achava que no conseguiria dormir, mas a emoo a deixara exausta e ela adormeceu por volta da meia-noite, caindo em um sono pesado e sem sonhos.
   Acordou com o sol raiando. Sentou-se na cama, ansiosa como sempre pelo novo dia que comeava, mas ento se lembrou de que sua antiga vida havia terminado, de que estava arruinada e sua vida se transformara em uma tragdia. Quase sucumbiu novamente  tristeza, porm resistiu a ela. No podia se dar ao luxo de chorar. Precisava comear uma vida nova.
   Vestiu-se e desceu at a ala dos criados, onde anunciou que estava totalmente recuperada do mal-estar da vspera e em plenas condies de voltar aos seus afazeres normais.
   Lady Maud mandou cham-la antes do caf da manh. Ethel preparou uma bandeja com caf, que levou at o Quarto Rosa. Maud estava sentada diante de uma penteadeira usando um nglig de seda roxa. Ela havia chorado. Ethel tinha seus prprios problemas, mas mesmo assim se compadeceu da outra mulher.
  -		O que houve, minha senhora?
  -		Ah, Williams, eu tive que desistir dele.
   Ethel imaginou que ela estivesse falando de Walter von Ulrich.
  -		Mas por qu?
  -		O pai dele foi falar comigo. Eu vinha me recusando a encarar o fato de que a Gr-Bretanha e a Alemanha so inimigas e de que se casar comigo arruinaria a carreira de Walter... e provavelmente tambm a do pai dele.
   
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-		Mas todo mundo est dizendo que no vai haver guerra, que a Srvia no  importante o suficiente.
-		Se no for agora, a guerra vir mais tarde; e, mesmo que nunca acontea, a ameaa por si s j basta. - A penteadeira era enfeitada com um babado de renda cor-de-rosa, que Maud manuseava com aflio, rasgando o tecido caro. Aquilo levaria horas para ser remendado, pensou Ethel. Maud prosseguiu: - Ningum no Ministrio das Relaes Exteriores alemo iria confidenciar nada a Walter se ele fosse casado com uma inglesa.
Ethel serviu o caf e entregou uma xcara a Maud.
-		Se a amar de verdade, Herr Von Ulrich abrir mo do emprego.
-		Mas eu no quero que ele faa isso! - Maud parou de rasgar a renda e bebeu um gole do caf. - No posso me tornar a pessoa que ps fim  carreira dele. Que base  essa para um casamento?
Ele poderia ter outra carreira, pensou Ethel - e, se de fato a amasse, era isso que faria. Ento pensou no homem que ela amava e na rapidez com que a paixo dele havia esfriado quando se tornou inconveniente. Vou guardar minhas opinies para mim mesma, pensou, eu no sei porcaria nenhuma.
-		O que Walter disse? - perguntou ela.
-		Eu no estive com ele. Em vez disso, escrevi uma carta. Parei de ir a todos os lugares em que geralmente o encontro. Ento ele passou a aparecer na minha casa, mas, quando comeou a ficar constrangedor mandar os criados dizerem que eu no estava, eu vim para c com Fitz.
-		Por que a senhora no quer falar com ele?
-		Porque eu sei o que vai acontecer. Ele vai me tomar nos braos, me beijar e eu vou ceder.
Eu conheo essa sensao, pensou Ethel.
Maud deu um suspiro.
-		Voc est bem calada hoje, Williams. Tambm deve ter suas prprias preocupaes,  claro. As coisas esto muito difceis com essa greve?
-		Esto, sim, senhora. A cidade inteira est em regime de racionamento.
-		Vocs continuam dando comida aos filhos dos mineradores?
-		Todos os dias.
-		Que bom. Meu irmo  muito generoso.
-		Sim, minha senhora. - Quando lhe convm, pensou Ethel.
-		Bem,  melhor voc continuar com seu trabalho. Obrigada pelo caf. Devo estar entediando voc com meus problemas.
Em um impulso, Ethel segurou a mo de Maud.

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   -		Por favor, no diga isso. A senhora sempre foi boa comigo. Eu sinto muito por Walter, e espero que sempre me conte seus problemas.
   -		Que palavras mais gentis. - Novas lgrimas brotaram nos olhos de Maud. - Muito obrigada, Williams. - Ela apertou a mo de Ethel, soltando-a em seguida.
   Ethel pegou a bandeja e saiu do quarto. Quando chegou  cozinha, o mordomo Peei perguntou:
   -		Voc fez alguma coisa errada?
   Voc nem imagina, pensou ela.
   -		Por que a pergunta?
   -		Sua Senhoria quer que voc o encontre na biblioteca s dez e meia.
   Ento seria uma conversa formal, pensou Ethel. Talvez fosse melhor assim. Os
dois estariam separados por uma escrivaninha, de modo que ela no ficaria tentada a se atirar nos braos dele. Isso a ajudaria a no chorar. Teria de ficar calma e no se deixar levar pelas emoes. O resto de sua vida seria definido por aquela conversa.
   Ela foi cuidar de seus afazeres domsticos. Iria sentir falta de Ty Gwyn. Durante os anos em que havia trabalhado ali, passara a amar os belos mveis antigos. Tinha aprendido os nomes das peas, e hoje sabia reconhecer uma torchre, um aparador, uma cristaleira ou um revisteiro. Enquanto tirava o p e encerava, ia reparando na marchetaria, nas guirlandas e volutas, nos ps em formato de patas de leo segurando esferas. De vez em quando, algum como Peei dizia: "Isto aqui  francs. Estilo Lus XV", e ela havia percebido que cada cmodo era decorado e mobiliado em um s estilo, fosse ele barroco, neoclssico ou gtico. Ela nunca mais iria conviver com mveis assim.
   Passada uma hora, encaminhou-se para a biblioteca. Os livros haviam sido reunidos pelos antepassados de Fitz. Atualmente, o cmodo no era usado com frequncia: Bea lia apenas romances franceses e Fitz no lia nada. Os hspedes s vezes iam  biblioteca para ter paz e tranquilidade, ou para usar o jogo de xadrez de marfim que ficava sobre a mesa de centro. Naquela manh, as persianas estavam baixadas at a metade, conforme as instrues de Ethel, para proteger o cmodo do sol de julho e mant-lo fresco. Consequentemente, a atmosfera era lgubre.
   Fitz estava sentado em uma poltrona de couro verde. Para surpresa de Ethel, Albert Solman tambm estava presente, usando um terno preto e uma camisa de colarinho duro. Advogado de formao, Solman era o que os cavalheiros da era eduardiana chamavam de homem de negcios. Administrava a fortuna de Fitz, verificando sua renda proveniente dos royalties do carvo e dos aluguis, pagando
   
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as contas e providenciando dinheiro vivo para o salrio dos empregados. Tambm cuidava das locaes e dos demais contratos, alm de s vezes mover processos contra pessoas que tentassem trapacear Fitz. Ethel j o havia encontrado antes e no simpatizava com ele. Achava-o convencido, um sabe-tudo. Talvez todos os advogados fossem assim, mas no podia afirmar com certeza: aquele era o nico que ela jamais havia encontrado.
Fitz se levantou com ar constrangido.
-		Expliquei a situao ao Sr. Solman - disse ele.
-		Por qu? - indagou Ethel. Ela tivera de prometer no contar a ningum. Ele ter contado quele advogado parecia uma traio.
Fitz parecia envergonhado de si mesmo, coisa rara de se ver.
-		Solman vai lhe comunicar a minha proposta - disse ele.
-		Por qu? - tornou a indagar Ethel.
Fitz lanou-lhe um olhar de splica, como se implorasse a Ethel para no piorar ainda mais a situao para ele.
Ethel, no entanto, no sentia compaixo alguma. No era fcil para ela, ento por que deveria ser para ele?
-		O que voc est com medo de me dizer pessoalmente? - perguntou ela, desafiadora.
Fitz havia perdido toda a sua segurana arrogante.
-		Vou deixar que ele lhe explique - respondeu e, para espanto dela, saiu da biblioteca.
Quando a porta se fechou s suas costas, Ethel olhou para Solman e pensou: como posso conversar sobre o futuro do meu filho com este desconhecido?
Solman lhe deu um sorriso.
-		Ento a senhorita andou se assanhando?
O comentrio a ofendeu.
-		O senhor disse isso ao conde?
-		 claro que no!
-		Porque, como o senhor bem sabe, eu no fui a nica.  preciso duas pessoas para fazer um beb.
-		Est certo, no  preciso entrar em detalhes.
-		S no fale como se eu tivesse feito tudo sozinha.
-		Muito bem.
Ethel sentou-se e ento tornou a olhar para ele.
-		Pode se sentar, se quiser - disse ela, como se fosse a dona da casa dando permisso ao mordomo.

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  Solman enrubesceu. No sabia se deveria se sentar, o que daria a entender que estivera esperando a permisso dela, ou se continuava em p como um criado. Acabou decidindo andar de um lado para outro.
  -		Sua Senhoria me instruiu a lhe fazer uma oferta - disse ele. Andar de um lado para outro no funcionou muito bem, ento ele parou e ficou em p na sua frente. -  uma oferta generosa e aconselho a senhorita a aceit-la.
  Ethel no disse nada. A frieza de Fitz teve pelo menos um efeito til: fez com que ela percebesse que aquilo era uma negociao. Esse era um territrio conhecido para Ethel. Seu pai vivia fazendo negociaes, argumentando e lidando com a administrao da mina, sempre tentando obter salrios melhores, jornadas de trabalho mais curtas e melhores condies de segurana. Uma de suas mximas era: "S abra a boca quando for preciso." Assim, ela continuou calada.
  Solman a encarava com ansiedade. Quando percebeu que ela no iria responder, pareceu irritado. E ento prosseguiu:
  -		Sua Senhoria est disposto a lhe conceder uma penso de 24 libras por ano, com pagamento mensal adiantado. Acho muita bondade da parte dele, a senhorita no concorda?
  Mas que sovina miservel, pensou Ethel. Como ele pode ser to mesquinho comigo? Vinte e quatro libras era o salrio de uma criada. Era metade do que Ethel ganhava como governanta, e ela ainda perderia casa e comida.
  Por que os homens achavam que podiam fazer esse tipo de coisa e sair impunes? Provavelmente porque em geral era o que acontecia. Uma mulher no tinha direito algum. Era preciso duas pessoas para gerar um beb, mas s uma era obrigada a cuidar da criana. Como as mulheres acabaram ficando em uma posio to fraca? Isso a deixava furiosa.
  Mesmo assim, ela permaneceu calada.
  Solman puxou uma cadeira e sentou-se ao seu lado.
  -		Veja pelo lado bom. A senhorita ter 10 xelins por semana...
  -		Menos de 10 xelins - ela apressou-se a dizer.
  -		Bom, vamos arredondar para 26 libras por ano, isso d 10 xelins por semana. O que me diz?
  Ethel ficou quieta.
  -		Voc consegue encontrar um bom quartinho em Cardiff por dois ou trs xelins e vai poder gastar o resto com as suas coisas. - Ele afagou seu joelho. - E, quem sabe, talvez conhea outro homem generoso para facilitar um pouco a sua vida... hein? A senhorita  uma moa muito atraente, sabia?
  Ethel fingiu no entender o que ele estava dizendo. A ideia de ser amante de um
 
216


advogado repulsivo como Solman lhe dava engulhos. Ser que ele pensava mesmo que poderia assumir o lugar de Fitz? Ela no deu ouvidos s suas insinuaes.
-		Tem alguma condio? - indagou com frieza.
-		Condio?
-		A oferta do conde tem alguma condio?
Solman pigarreou.
-		As de sempre,  claro.
-		As de sempre? Ento o senhor j fez isso antes.
-		No para o conde Fitzherbert - respondeu ele depressa.
-		Mas para outros, sim.
-		Vamos nos ater ao assunto em pauta, por favor.
-		Pode continuar.
-		A senhorita est proibida de pr o nome do conde na certido de nascimento da criana, ou de revelar para quem quer que seja, de qualquer outra forma, que ele  o pai.
-		E pela sua experincia, Sr. Solman, as mulheres em geral aceitam essas suas condies?
-		Sim.
 claro que aceitam, pensou ela com amargura. Que alternativa lhes resta? Como no tm direito a nada, pegam o que conseguem obter.  bvio que elas aceitam as condies.
-		Algo mais?
-		Depois que for embora de Ty Gwyn, a senhorita no deve fazer nenhuma tentativa para entrar em contato com o conde.
Ento ele no quer nunca mais me ver nem conhecer o prprio filho, pensou Ethel. A decepo brotou dentro dela como uma onda de fraqueza. Se no estivesse sentada, poderia ter cado no cho. Cerrou os dentes para conter as lgrimas. Depois de se controlar, falou:
-		Algo mais?
-		Acho que  s.
Ethel se levantou.
Solman disse:
-		A senhorita dever entrar em contato comigo para indicar onde devo realizar os pagamentos. - Ele sacou uma caixinha de prata e tirou l de dentro um carto de visita.
-		No - disse Ethel quando ele lhe ofereceu o carto.
-		Mas vai precisar disso para entrar em contato comigo...

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   -		No, no vou - tornou a dizer ela.
   -		Como assim?
   -		A oferta no  aceitvel.
   -		Ora, Srta. Williams, no seja boba...
   -		Vou repetir, Sr. Solman, para que o senhor no tenha dvidas. A oferta no
 aceitvel. Minha resposta  no. No tenho mais nada a lhe dizer. Tenha um
bom dia. - Ela saiu e bateu a porta.
   Voltou para o quarto, trancou-se e caiu em um pranto angustiado.
   Como Fitz podia ser to cruel? Ser possvel que nunca mais queria v-la de
novo? Nem ao seu filho? Ser que ele acreditava mesmo que tudo o que havia
acontecido entre os dois podia ser apagado por 24 libras por ano?
   Ele de fato no a amava mais? Ser que algum dia havia amado? Ela era uma
boba, afinal?
   Havia pensado que ele a amava. Tivera certeza de que isso significava alguma
coisa. Talvez ele houvesse fingido o tempo todo para engan-la, mas ela achava
que no. Uma mulher percebia quando um homem estava fingindo.
   Ento o que ele estava fazendo agora? Provavelmente reprimindo os prprios
sentimentos. Quem sabe no era um homem de emoes levianas? Era possvel.
Talvez a houvesse amado de verdade, mas com um amor fcil de esquecer quando se tornasse inconveniente. No auge da paixo, ela poderia muito bem no ter
percebido essa sua fraqueza de carter.
   Pelo menos a crueldade dele tornava mais fcil para ela negociar. J no precisava pensar nos sentimentos de Fitz. Podia se concentrar em tentar conseguir o
melhor para ela mesma e para o beb. Precisava ter sempre em mente como Da
teria conduzido a situao. Apesar da lei, uma mulher no era totalmente impotente.
   Naquele instante, Fitz deveria estar angustiado, imaginou ela. Provavelmente
tinha pensado que ela iria aceitar a oferta, ou no pior dos casos exigir mais dinheiro; assim, teria a sensao de que o seu segredo estava bem guardado. Agora, era
quase certo que estivesse perplexo e aflito.
   Ethel no dera a Solman a oportunidade de perguntar o que ela de fato queria.
Eles que tateassem no escuro um pouco. Fitz comearia a ficar com medo de que
Ethel pretendesse se vingar, contando  princesa Bea sobre o beb.
   Ela olhou pela janela, em direo ao relgio no telhado da estrebaria. Faltavam
alguns minutos para o meio-dia. No gramado da frente, os criados estariam se
preparando para servir o almoo aos filhos dos mineradores. A princesa Bea
gostava de se reunir com a governanta por volta do meio-dia. Geralmente para
reclamar de alguma coisa: no havia gostado das flores no hall de entrada, os
   
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uniformes dos lacaios no estavam bem passados, a tinta estava descascando no patamar da escada. A governanta, por sua vez, teria perguntas a fazer sobre que quartos atribuir a quais hspedes, sobre a reposio da loua e dos artigos de cristal, sobre a contratao e a demisso de criadas e ajudantes de cozinha. Fitz habitualmente ia  sala de estar matutina por volta de meio-dia e meia para tomar uma taa de xerez antes do almoo.
   Nessa hora, Ethel iria aumentar a presso.
Fitz observava os filhos dos mineradores fazendo fila para o almoo - que eles chamavam de "janta". Tinham os rostos sujos, os cabelos desgrenhados e as roupas rasgadas, mas pareciam felizes. Crianas eram uma coisa incrvel. Aquelas dali estavam entre as mais pobres da regio, e seus pais se encontravam no meio de uma disputa feroz, mas nenhuma delas dava mostras disso.
   Desde que se casara com Bea, cinco anos antes, Fitz havia ansiado por um filho. Ela sofrera um aborto espontneo, e a ideia de que isso pudesse se repetir o aterrorizava. Da ltima vez, ela tivera um chilique s porque ele havia cancelado a viagem dos dois  Rssia. Se descobrisse que ele havia engravidado a governanta, sua fria seria incontrolvel.
   E esse segredo terrvel estava nas mos de uma empregada.
   Ele estava se roendo de preocupao. Aquela era uma punio cruel para seu pecado. Em outras circunstncias, o fato de ter um filho com Ethel talvez at lhe desse alguma alegria. Ele poderia ter instalado me e filho em uma casinha em Chelsea para visit-los uma vez por semana. Comovido por esse devaneio, sentiu uma nova pontada de arrependimento e nostalgia. No queria ser duro com Ethel. Seu amor havia lhe proporcionado grande prazer: seus beijos arrebatados, seu toque vido, o calor de sua paixo juvenil. Mesmo quando estava lhe dando a m notcia, ele havia desejado poder acariciar aquele corpo esguio e senti-la beijar seu pescoo daquele jeito guloso que ele achava to excitante. Contudo, precisava endurecer o prprio corao.
   Alm de ser a mulher mais sensual que ele jamais havia beijado, ela era tambm inteligente, bem informada e divertida. Havia lhe contado que seu pai sempre conversava com ela sobre assuntos da atualidade. E a governanta de Ty Gwyn tinha o direito de ler os jornais do conde depois que o mordomo acabasse de l-los - uma regra da ala dos criados que Fitz desconhecia. Ethel lhe fazia perguntas inesperadas que ele nem sempre sabia responder, como, por exemplo: "Quem
   
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governava a Hungria antes dos austracos?" Ele sentiria falta disso, pensou com tristeza.
Ethel, no entanto, no estava se comportando como seria de esperar de uma amante rejeitada. Solman ficara abalado com a conversa que tivera com ela. "O que ela quer?" perguntara-lhe Fitz, mas Solman no sabia. Fitz nutria uma suspeita terrvel de que Ethel talvez contasse a histria toda para Bea, s por causa de algum desejo moralista deturpado de revelar a verdade. Que Deus me ajude a mant-la afastada da minha mulher, rezou ele.
Ficou surpreso ao ver a forma baixinha e rotunda de Perceval Jones atravessar o gramado com uma cala verde na altura dos joelhos e botas de caminhada.
-		Bom dia, senhor conde - disse o prefeito, tocando o chapu de feltro marrom.
-		Bom dia, Jones. - Como presidente da Celtic Minerais, Jones era fonte de grande parte da riqueza de Fitz, mas mesmo assim aquele homem o desagradava.
-		As notcias no so boas - disse Jones.
-		De Viena, o senhor quer dizer? Fiquei sabendo que o imperador austraco ainda est burilando os termos de seu ultimato  Srvia.
-		No, estou falando da Irlanda. Os habitantes da provncia de Ulster no querem aceitar a autonomia. Isso far deles uma minoria dentro de um governo catlico. O Exrcito j est se rebelando.
Fitz fechou o rosto. No gostava de ouvir falar em motim no Exrcito britnico.
-		Independentemente do que os jornais digam - falou ele, tenso -, no acredito que os oficiais britnicos iro desobedecer s ordens de seu governo soberano.
-		Mas eles j desobedeceram! - disse Jones. - E quanto ao motim na plancie de Curragh?
-		No houve desobedincia alguma ali.
-		Cinquenta e sete oficiais renunciaram depois de receber ordens para atacar os Voluntrios de Ulster. O senhor pode no chamar isso de motim, milorde, mas todos os outros chamam.
Fitz soltou um grunhido. Infelizmente, Jones tinha razo. A verdade era que os oficiais ingleses se recusavam a atacar seus compatriotas para defender uma turba de catlicos irlandeses.
-		Ns nunca deveramos ter prometido a independncia  Irlanda - disse ele.
-		Nisso eu concordo com o senhor - falou Jones. - Mas, na verdade, eu vim lhe falar sobre esta questo aqui. - Ele apontou para as crianas, sentadas em bancos diante de mesas apoiadas em cavaletes, comendo bacalhau cozido com repolho. - Gostaria que o senhor pusesse um fim nisso.
Fitz no gostava que gente abaixo dele na escala social lhe dissesse como agir.

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-		Eu no vou deixar as crianas de Aberowen morrerem de fome, mesmo que a culpa disso seja dos pais.
-		O senhor est s prolongando a greve.
O fato de Fitz receber royalties por cada tonelada de carvo extrada no significava, na sua opinio, que fosse obrigado a tomar partido dos proprietrios da mina contra os trabalhadores. Ofendido, ele falou:
-		A greve  problema seu, no meu.
-		Mas o dinheiro o senhor no recusa.
Fitz ficou indignado.
-		No tenho mais nada a lhe dizer. - Ele se virou para ir embora.
Jones se mostrou arrependido na mesma hora:
-		Sinto muito, milorde, por favor, me perdoe... foi um comentrio impensado e insensato, mas essa situao toda  extremamente desgastante.
Era difcil para Fitz recusar um pedido de desculpas. Ele no se deixou dobrar, mas mesmo assim tornou a se virar e respondeu a Jones com cortesia:
-		Est bem, mas continuarei a alimentar as crianas.
-		Milorde, o senhor precisa entender que um minerador pode ser teimoso  prpria custa e suportar muitas dificuldades por causa de seu orgulho tolo, mas, no final das contas, o que o faz ceder  ver os filhos passarem fome.
-		Mas o senhor continua operando a mina da mesma forma.
-		Com mo de obra estrangeira de terceira categoria. A maioria dos homens no foi treinada para o trabalho e produz pouco. Ns os estamos usando sobretudo para a manuteno dos tneis e para cuidar dos cavalos. No estamos extraindo muito carvo.
-		Eu juro que no consigo entender por que vocs despejaram aquelas pobres vivas de suas casas. Eram s oito e, afinal de contas, elas perderam os maridos dentro da maldita mina.
-		 um precedente arriscado. A casa est atrelada ao minerador. Se abrirmos mo disso, vamos terminar como simples proprietrios de barracos.
Ento talvez no devessem ter construdo barracos, pensou Fitz, mas segurou a lngua. No queria prolongar a conversa com aquele tiranozinho pomposo. Olhou para o relgio. Era meio-dia e meia: hora de uma taa de xerez.
-		No adianta, Jones - disse ele. - No vou travar as suas batalhas no seu lugar. Tenha um bom dia. - E saiu andando a passos largos em direo  casa.
Jones era a menor de suas preocupaes. O que ele iria fazer em relao a Ethel? Precisava garantir que Bea no tivesse nenhum aborrecimento. Alm do perigo que isso representava para o filho que estava por nascer, ele sentia que

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talvez a gravidez pudesse ser um novo comeo para seu casamento. Talvez aquela
criana os aproximasse e recriasse a ternura e a intimidade que os dois tinham
no incio do relacionamento. Mas essa esperana iria por gua abaixo se Bea descobrisse que ele tivera um caso com a governanta. Ela ficaria uma fera.
   Fitz sentiu-se grato pela temperatura mais amena do hall de entrada, com seu
piso de lajotas e seu teto gtico de madeira. Aquela decorao feudal havia sido
escolhida por seu pai. O nico livro que ele lera, com exceo da Bblia, era Declnio
e queda do Imprio Romano, de Gibbon. Segundo ele, o Imprio Britnico, ainda
mais potente do que o romano, teria o mesmo destino a menos que os nobres lutassem para proteger suas instituies, sobretudo a Marinha Real, a Igreja Anglicana
e o Partido Conservador. Fitz no tinha dvidas de que seu pai estava certo.
   Uma taa de xerez seco caa muito bem antes do almoo. A bebida o deixava
alerta e abria seu apetite. Com uma agradvel sensao de expectativa, ele adentrou a sala de estar matutina. E ficou horrorizado ao ver Ethel conversando com
Bea. Deteve-se na soleira da porta e ficou olhando para as duas, consternado. O
que Ethel estava dizendo? Ser que ele havia chegado tarde demais?
   -		O que est havendo aqui? - perguntou com rispidez.
   Bea olhou para ele com ar de surpresa e disse calmamente:
   -		Estou conversando sobre fronhas de travesseiro com minha governanta,
Voc esperava algo mais dramtico? - Seu sotaque russo enrolou o erre da palavra "dramtico".
   Por um instante, ele no soube o que dizer. Percebeu que estava encarando sua
mulher e sua amante. Pensar nas intimidades que havia tido com ambas era perturbador.
   -		No sei - murmurou ele, indo se sentar diante de uma escrivaninha, de costas para elas.
   As duas continuaram a conversa. De fato, o assunto eram as fronhas: quanto
tempo duravam, como as usadas podiam ser remendadas e usadas pelos criados
e se era melhor compr-las bordadas ou lisas para depois mandar as criadas bordarem. Fitz, no entanto, continuava abalado. Aquela pequena cena de patroa e
empregada entretidas em uma conversa tranquila lembrou-lhe como seria fcil
para Ethel contar a verdade a Bea. Aquilo no podia seguir assim. Ele precisava
tomar uma atitude.
   Pegou na gaveta uma folha de papel de carta azul encabeada pelo braso da
famlia, mergulhou uma pena no tinteiro e escreveu: "Encontre-me depois do
almoo." Pressionou o mata-borro sobre a carta e a inseriu dentro de um envelope da mesma cor.
 
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Dali a alguns minutos, Bea dispensou Ethel. Quando ela estava de sada, Fitz disse, sem virar a cabea.
-		Williams, venha at aqui, por favor.
Ela veio at o seu lado. Ele notou o leve aroma de sabonete perfumado - ela havia confessado que os roubava de Bea. Por mais irritado que estivesse, ele se sentia desconfortavelmente consciente da proximidade de suas coxas esbeltas e firmes sob a seda preta do vestido de governanta. Sem olhar para ela, entregou-lhe o envelope.
-		Mande algum ao consultrio do veterinrio na cidade para comprar um frasco desse remdio para ces.  para tosse dos canis.
-		Pois no, meu amo. - Ela saiu da sala.
Ele resolveria aquela situao dentro de poucas horas.
Serviu sua taa de xerez. Ofereceu uma a Bea, mas ela no quis. A bebida o aqueceu e aliviou-lhe a tenso. Ele foi se sentar ao lado da mulher, que lhe deu um sorriso simptico.
-		Como est se sentindo? - perguntou ele.
-		Fico enjoada pela manh - disse ela. - Mas depois passa. Agora estou bem.
Ele logo voltou a pensar em Ethel. Ela o colocara na palma da mo. No tinha
dito nada, mas implicitamente estava ameaando contar tudo a Bea. Era muito astucioso de sua parte. Fitz estava aflito e sem ter o que fazer. Quisera ele poder resolver o assunto ainda mais cedo, em vez de somente  tarde.
O casal almoou na sala de jantar pequena, sentado a uma mesa de carvalho de pernas quadradas que poderia muito bem ter sado de um mosteiro medieval. Bea lhe disse ter descoberto que havia alguns russos em Aberowen.
-		Mais de cem, segundo Nina.
Com esforo, Fitz afastou Ethel do pensamento.
-		Eles devem fazer parte dos fura-greves trazidos por Perceval Jones.
-		Parece que esto sendo marginalizados. No conseguem ser atendidos nas lojas ou nos cafs.
-		Preciso pedir ao reverendo Jenkins que faa um sermo sobre amor ao prximo, mesmo que o prximo seja um fura-greve.
-		Voc no pode simplesmente ordenar que os lojistas os atendam?
Fitz sorriu.
-		No, querida, no neste pas.
-		Bem, eu sinto pena deles e gostaria de fazer alguma coisa para ajud-los.
Isso o deixou satisfeito.
-		 um impulso bondoso da sua parte. O que voc sugere?

223
	

-		Acho que em Cardiff h uma igreja ortodoxa russa. Vou mandar vir um
padre de l para rezar uma missa para os russos um domingo desses.
Fitz franziu o cenho. Bea havia se convertido ao anglicanismo ao se casar com ele,
mas ele sabia que a mulher ainda ansiava pela igreja de sua infncia - e via isso como
um sinal de que ela era infeliz em seu pas de adoo. Mas no queria contrari-la.
-		timo - falou.
-		Ns poderamos deix-los jantar na ala dos criados.
-		 uma ideia generosa, querida, mas talvez eles sejam homens rudes.
-		Ns daremos comida apenas queles que comparecerem  missa. Assim
exclumos os judeus e os piores arruaceiros.
-		Muito sagaz. Embora os moradores da cidade talvez passem a v-la com
maus olhos.
-		Mas que diferena isso faz para mim ou para voc?
Ele aquiesceu.
-		Est certo. Jones tem reclamado que eu estou apoiando a greve por dar de
comer s crianas. Se voc receber os fura-greves, pelo menos ningum poder
dizer que estamos tomando partido.
-		Obrigada - disse ela.
A gravidez j havia melhorado o relacionamento dos dois, pensou Fitz.
Durante o almoo, ele bebeu duas taas de vinho do Reno, porm sua ansiedade voltou ao sair da sala de jantar e tomar o rumo da Sute Gardnia. Seu destino estava nas mos de Ethel. O temperamento dela era suave e emotivo como
o de qualquer mulher, mas, apesar disso, no aceitava ordens de ningum. Ele
no conseguia control-la, e isso o apavorava.
Contudo, Ethel ainda no estava no quarto. Ele olhou para o relgio. Eram
duas e quinze. Ele dissera "depois do almoo". Ethel saberia a que horas o caf
tinha sido servido e, portanto, deveria estar  sua espera. Ele no havia especificado o local, mas ela sem dvida seria capaz de adivinhar.
Ele comeou a ficar apreensivo.
Passados cinco minutos, ficou tentado a ir embora. Ningum o deixava esperando daquele jeito. No entanto, no queria deixar o assunto sem soluo por
mais um dia, nem sequer por mais uma hora, ento ficou.
Ela entrou no quarto s duas e meia.
-		O que voc est tentando fazer comigo? - perguntou ele, zangado.
Ela ignorou a pergunta.
-		Onde voc estava com a cabea para me mandar falar com um advogado de
Londres?

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-		Pensei que assim seria menos emotivo.
-		No seja idiota. - Fitz ficou chocado. Ningum falava assim com ele desde os tempos da escola. - Eu vou ter um filho seu - continuou ela. - Como isso poderia no ser emotivo?
Ela estava certa, havia sido uma tolice da parte dele, e as suas palavras o atingiram, mas ao mesmo tempo ele no pde deixar de apreciar a musicalidade do seu sotaque - a palavra "emotivo" ganhava uma nota diferente para cada slaba, fazendo-a parecer uma melodia.
-		Desculpe - disse ele. - Eu pago o dobro...
-		No piore as coisas, Teddy - falou ela, porm seu tom estava mais brando. - No negocie comigo como se tudo fosse uma simples questo de preo.
Fitz apontou para ela um dedo acusador.
-		Voc no pode falar com minha mulher, est me ouvindo? Eu no vou permitir!
-		No me d ordens, Teddy. Eu no tenho motivo nenhum para lhe obedecer.
-		Como voc se atreve a falar assim comigo?
-		Cale a boca e escute, que eu vou lhe explicar.
O tom de voz dela o estava deixando enfurecido, mas ele se lembrou de que no podia se dar ao luxo de hostiliz-la.
-		Ento fale - disse.
-		Voc agiu de forma muito insensvel comigo.
Ele sabia que era verdade, por isso sentiu uma pontada de culpa. Estava arrasado por t-la magoado. Mas tentou no demonstrar isso.
-		Ainda te amo demais para querer estragar a sua felicidade - continuou ela.
Ele se sentiu ainda pior.
-		No quero magoar voc - disse Ethel. Ela engoliu em seco e se virou para o outro lado, e ele viu lgrimas em seus olhos. Comeou a falar, mas ela ergueu a mo para silenci-lo. - Voc est me pedindo para abandonar meu emprego e minha casa, ento precisa me ajudar a comear uma vida nova.
-		 claro - falou ele. - Se for isso que voc deseja. - Falar em termos mais prticos ajudava ambos a reprimir seus sentimentos.
-		Eu vou para Londres.
-		Boa ideia. - Ele no pde deixar de se sentir satisfeito: ningum em Aberowen saberia que ela tivera um filho, muito menos de quem era a criana.
-		Voc vai me comprar uma casinha. Nada luxuoso... um bairro operrio j estaria de timo tamanho. Mas eu quero seis cmodos, para poder morar no trreo e ter um inquilino. O aluguel vai custear os reparos e a manuteno da casa. Mesmo assim, vou ter que trabalhar.

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-		Voc refletiu bastante sobre o assunto.
-		Imagino que esteja se perguntando quanto isso ir lhe custar, mas no quer fazer a pergunta, porque um cavalheiro no gosta de perguntar o preo das coisas.
Era verdade.
-		Eu pesquisei no jornal - disse ela. - Uma casa assim custa algo em torno de 300 libras. Provavelmente sair mais barato do que me pagar duas libras por ms pelo resto da vida.
Trezentas libras no era nada para Fitz. Bea era capaz de gastar essa quantia em roupas numa s tarde na Maison Paquin de Paris.
-		Mas voc prometeria guardar segredo? - perguntou ele.
-		E prometo amar e cuidar do seu filho, e criar o menino ou a menina para que cresa feliz, saudvel e bem instrudo, mesmo que voc no esteja dando nenhum sinal de estar preocupado com isso.
Ele ficou indignado, mas percebeu que Ethel estava certa. Mal havia pensado na criana.
-		Sinto muito - desculpou-se. - Estou preocupado demais com Bea.
-		Eu sei - disse ela, suavizando a voz como sempre acontecia quando ele deixava sua aflio transparecer.
-		Quando voc vai embora?
-		Amanh de manh. Estou com tanta pressa quanto voc. Vou pegar o trem para Londres e comear imediatamente a procurar uma casa. Assim que encontrar o imvel, escreverei para Solman.
-		Voc vai ter que ficar hospedada em algum lugar enquanto procura a casa.
-		Ele tirou a carteira do bolso interno do palet e lhe estendeu duas notas brancas de cinco libras.
Ethel sorriu.
-		Voc no faz mesmo a menor ideia do preo das coisas, no , Teddy? - Ela lhe devolveu uma das notas. - Cinco libras so mais do que suficientes.
Ele fez cara de ofendido.
-		No quero que ache que estou sendo mesquinho com voc.
Ela mudou de postura e, por um instante, Fitz vislumbrou a raiva que a corroa por dentro.
-		Ah, mas voc est sendo mesquinho sim, Teddy - disse ela com amargura.
-		S que no em matria de dinheiro.
-		Somos os dois responsveis - falou ele na defensiva, olhando de relance para a cama.
-		Mas s um de ns vai ter um filho.

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  -		Bom, no vamos bater boca. Vou dizer a Solman para fazer o que voc sugeriu.
   Ela estendeu a mo.
  -		Adeus, Teddy. Sei que ir cumprir sua palavra. - A voz de Ethel estava firme, mas ele podia ver que ela se esforava para manter a compostura.
   Ele apertou sua mo, embora isso parecesse estranho para duas pessoas que j haviam feito amor com paixo.
  -		Pode contar com isso - disse.
  -		Agora, por favor, v embora, rpido - disse ela, virando-se para o lado.
   Ele ainda hesitou alguns instantes, mas ento saiu do quarto.
   Enquanto se afastava, ficou surpreso e envergonhado ao sentir lgrimas nada viris brotarem de seus olhos.
  -		Adeus, Ethel - sussurrou ele para o corredor vazio. - Que Deus a abenoe e a proteja.
IV
Ethel foi at o depsito de bagagens do sto e roubou uma mala pequena, velha e surrada. Ningum jamais daria falta dela. A mala pertencera ao pai de Fitz e tinha seu braso gravado no couro: a dourao j havia se desgastado h muito tempo, mas ainda era possvel distinguir o desenho. Ela ps l dentro suas meias, sua roupa de baixo e alguns dos sabonetes perfumados da princesa.
   Deitada na cama naquela noite, decidiu que afinal no queria ir para Londres. Estava assustada demais para passar por tudo aquilo sozinha. Queria ficar com a sua famlia. Precisava fazer perguntas  me sobre a gravidez. Seria melhor que estivesse em um lugar conhecido quando o beb chegasse. Seu filho iria precisar dos avs e do tio Billy.
   Pela manh, vestiu as prprias roupas, deixou o uniforme de governanta pendurado no gancho e saiu s escondidas de Ty Gwyn bem cedo. No final da estrada de acesso, virou-se e olhou para a casa, com suas pedras encardidas de p de carvo, suas longas fileiras de janelas que refletiam o sol nascente, e pensou em quanto havia aprendido desde que chegara ali para trabalhar aos 13 anos, recm-sada da escola. Agora sabia como vivia a elite. Eles comiam pratos estranhos, preparados de um jeito complicado, e desperdiavam mais do que comiam. Todos falavam com o mesmo sotaque contido, mesmo alguns dos estrangeiros. Ela havia manuseado as roupas de baixo sofisticadas das mulheres ricas, feitas de algodo da melhor qualidade e de seda delicada, costuradas  mo, bordadas e debruadas de renda, 12 peas de cada empilhadas nas gavetas de suas cmodas.
   
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Era capaz de olhar para um aparador e dizer na hora em que sculo ele tinha sido fabricado. E, acima de tudo, pensou com amargura, havia aprendido que no se deve confiar no amor.
Ela desceu a encosta da montanha at Aberowen e tomou o caminho de Wellington Row. Como sempre, a porta da casa de seus pais estava destrancada. Ela entrou. O cmodo principal, a cozinha, era menor do que a Sala dos Vasos de Ty Gwyn, usada apenas para compor os arranjos de flores.
Mam estava sovando massa de po, mas, ao ver a mala, parou o que estava fazendo e disse:
-		Qual foi o problema?
-		Eu voltei para casa - disse Ethel. Ela pousou a mala no cho e sentou-se diante da mesa quadrada da cozinha. Estava envergonhada demais para contar o que havia acontecido.
Mam, no entanto, adivinhou.
-		Voc foi demitida!
Ethel foi incapaz de olhar para a me.
-		Fui. Sinto muito, Mam.
Mam enxugou as mos em um pano de prato.
-		O que voc fez? - perguntou ela, irritada. - Pode ir dizendo!
Ethel deu um suspiro. O que a estava detendo?
-		Fiquei grvida - disse ela.
-		Ah, no... sua desnaturada!
Ethel reprimiu as lgrimas. Esperava compreenso, no condenao.
-		Eu sou mesmo uma desnaturada - falou. Tirou o chapu, tentando manter a compostura.
-		Essa histria toda subiu  sua cabea... trabalhar na casa grande, conhecer o rei e a rainha. Fez voc esquecer a forma como foi criada.
-		Acho que a senhora tem razo.
-		Seu pai vai morrer de desgosto.
-		Ele no vai ter que parir - disse Ethel com sarcasmo. - Imagino que v ficar bem.
-		No seja atrevida. Ele vai ficar com o corao partido.
-		Onde ele est?
-		Em outra reunio sobre a greve. Pense na posio dele na cidade: membro do conselho da capela, representante dos mineradores, secretrio do Partido Trabalhista Independente... como ele vai conseguir ficar de cabea erguida nas assembleias, com todo mundo dizendo que a filha dele  uma vadia?

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Ethel no conseguiu mais se controlar.
-		Eu sinto muito por causar tanta vergonha a ele - falou, comeando a chorar.
A expresso de Mam mudou.
-		Fazer o qu? - disse ela. - Essa  a histria mais antiga do mundo. - Ela deu a volta na mesa e abraou Ethel com fora junto ao peito. - Passou, passou - disse, da mesma forma que costumava fazer quando Ethel era uma menina e ralava o joelho.
Depois de algum tempo, os soluos de Ethel foram diminuindo.
Mam a soltou e disse:
-		 melhor tomarmos uma xcara de ch. - A chaleira ficava permanentemente na boca do fogo. Ela ps folhas de ch dentro de um bule e despejou por cima a gua fervente, mexendo em seguida com uma colher de pau. - Para quando  o beb?
-		Fevereiro.
-		Ai, meu Deus! - Mam deu as costas para o fogo e olhou para Ethel. - Eu vou ser av!
As duas riram. Mam ps xcaras sobre a mesa e serviu o ch. Ethel bebeu um pouco e se sentiu melhor.
-		Seus partos foram fceis ou difceis? - quis saber ela.
-		No existe parto fcil, mas, segundo a minha me, os meus foram melhores do que a maioria. Mesmo assim, fiquei com as costas ruins depois de Billy.
Billy desceu a escada perguntando:
-		Quem est falando de mim? - Ele podia dormir at mais tarde porque estava em greve, percebeu Ethel. A cada vez que o via, ele lhe parecia mais alto e mais largo.
-		Oi, Eth - disse ele, beijando-a e fazendo-a sentir seu bigode spero. - Que mala  essa? - Sentou-se  mesa e Mam lhe serviu ch.
-		Eu fiz bobagem, Billy - falou Ethel. - Vou ter um filho.
Ele a encarou, chocado demais para falar. Ento enrubesceu, sem dvida pensando no que ela havia feito para ficar grvida. Olhou para o cho, constrangido. Em seguida, tomou um pouco de ch. Por fim, perguntou:
-		Quem  o pai?
-		Ningum que voc conhea. - Ela havia pensado no assunto e inventado uma histria. - Um lacaio que foi a Ty Gwyn com um dos convidados, mas ele agora entrou para o Exrcito.
-		Mas vai cuidar de voc.
-		Eu nem sei onde ele est.

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-		Vou encontrar esse patife.
Ethel ps a mo em seu brao.
-		No fique zangado, meu lindo. Se precisar da sua ajuda, eu peo.
Billy obviamente no sabia o que dizer. Era evidente que ameaas de vingana de nada adiantariam, mas ele no conseguia reagir de outra forma. Parecia desnorteado. Tinha apenas 16 anos.
Ethel se lembrou de quando o irmo era um beb. Tinha apenas cinco anos quando ele nascera, mas ficara completamente fascinada por ele, por sua perfeio e sua vulnerabilidade. Logo eu tambm terei um lindo beb indefeso, pensou - e no sabia se devia se sentir feliz ou aterrorizada.
-		Imagino que Da no v aceitar isso calado - falou Billy.
-		 o que me preocupa - disse Ethel. - Gostaria de poder fazer alguma coisa para melhorar as coisas para ele.
Gramper desceu.
-		Mandaram voc embora? - disse ele ao ver a mala. - Foi por atrevimento?
-		No seja cruel, papai - disse Mam. - Ela est esperando um filho.
-		Caramba! - comentou Gramper. - Foi um dos figures l da casa grande? Eu no me espantaria se tivesse sido o prprio conde.
-		No diga besteira, Gramper - falou Ethel, espantada por ele ter adivinhado a verdade to depressa.
-		Foi um lacaio que veio com um dos convidados - disse Billy. - Ele agora est no Exrcito. Ela no quer que a gente v atrs dele.
-		Ah, ? - disse Gramper. Ethel podia ver que seu av no estava convencido, porm ele no insistiu. Em vez disso, acrescentou: - Isso  a italiana que existe dentro de voc, minha menina. Sua av tinha o sangue quente. Se eu no tivesse me casado com ela, teria arranjado encrenca. Mesmo assim, ela nem quis esperar o casamento. Na verdade...
-		Pai! - interrompeu Mam. - No na frente das crianas.
-		O que pode choc-las depois disso? - disse ele. - Estou velho demais para contos de fadas. As moas querem se deitar com os rapazes, e a vontade  to grande que elas vo em frente, casadas ou no. Qualquer um que tente dizer outra coisa  um tolo... e isso inclui o seu marido, Cara.
-		Cuidado com o que diz - falou Mam.
-		Ah, esquea - disse Gramper, calando-se e se pondo a tomar seu ch.
Minutos depois, Da entrou na casa. Mam olhou para ele com surpresa.
-		Voc chegou cedo! - disse ela.
Ele ouviu o desprazer na voz da mulher.

230
 

-		Ouvindo voc, parece at que no sou bem-vindo. Mam se levantou da mesa, vagando uma cadeira para ele.
-		Vou fazer mais ch. Da no se sentou.
-		A reunio foi cancelada. - Seus olhos recaram sobre a mala de Ethel. - O que  isso?
Todos olharam para Ethel. Ela viu medo no rosto de Mam, rebeldia no de Billy e uma espcie de resignao no de Gramper. Ento percebeu que cabia a ela responder  pergunta.
-		Tenho uma coisa para lhe contar, Da - falou. - O senhor vai ficar zangado, e tudo que eu posso dizer  que sinto muito.
O semblante dele ficou carregado.
-		O que foi que voc fez?
-		Sa do meu emprego em Ty Gwyn.
-		Isso no  motivo para sentir muito. Nunca gostei de ver voc se curvando e se rebaixando para aqueles parasitas.
-		Eu fui embora por um motivo.
Ele chegou mais perto e ficou parado ao lado dela.
-		Bom ou ruim?
-		Estou em apuros. Ele pareceu furioso.
-		Espero que no esteja querendo dizer o que as garotas querem dizer quando falam assim.
Ela baixou os olhos para a mesa e assentiu.
-		Voc... - Ele se deteve, buscando as palavras certas. - Voc cedeu  tentao moral?
-		Cedi.
-		Sua desnaturada!
A mesma expresso que Mam tinha usado. Ethel se encolheu de medo do pai, embora no esperasse de fato que ele fosse lhe bater.
-		Olhe para mim! - ordenou ele.
Ela ergueu os olhos para encar-lo em meio a uma nvoa de lgrimas.
-		Ento voc est me dizendo que cometeu o pecado da carne?
-		Eu sinto muito, Da.
-		Com quem? - gritou ele.
-		Com um lacaio.
-		Como ele se chama?

231
 

-		Teddy. - O nome lhe escapou antes de ela conseguir pensar.
-		Teddy de qu?
-		No importa.
-		No importa? Como assim no importa?
-		Ele esteve na casa durante uma visita de seu patro. Quando percebi minha situao, ele j havia entrado para o Exrcito. Perdi contato com ele.
-		Durante uma visita? Perdeu contato? - A voz de Da se transformou em um rugido irado. - Voc quer dizer que nem sequer est noiva dele? Cometeu esse pecado... - Ele falou atropeladamente, mal conseguindo articular as palavras repulsivas. - Voc cometeu este pecado imundo de forma leviana?
-		No fique zangado, Da - disse Mam.
-		No ficar zangado? Ento quando  que um homem deveria se zangar?
Gramper tentou acalm-lo.
-		No se altere, Dai. Gritar no adianta nada.
-		Gramper, sinto muito ter de lembrar a voc que esta  a minha casa, e quem decide o que adianta ou no sou eu.
-		Est bem, est bem - falou Gramper com voz tranquila. - Como quiser.
Mam no estava disposta a desistir:
-		Da, no diga nada de que v se arrepender.
As tentativas de acalmar a fria de Da conseguiram apenas irrit-lo ainda mais.
-		Eu no vou acatar ordens de nenhuma mulher nem de nenhum velho! - gritou ele. Apontou o dedo para Ethel. - E no vou tolerar uma fornicadora em casa! Fora daqui!
Mam comeou a chorar.
-		No, por favor no diga isso.
-		Fora! - gritou ele. - E nunca mais volte!
-		Mas o seu neto! - disse Mam.
Billy interveio.
-		Da, o senhor acataria a palavra de Deus? Jesus falou: "Eu no vim chamar justos, mas pecadores, ao arrependimento." Evangelho segundo Lucas, captulo cinco, versculo 32.
Da virou-se para o filho.
-		Deixe-me lhe dizer uma coisa, seu menino ignorante. Meus avs nunca se casaram. Ningum sabe quem foi meu av. Minha av desceu ao nvel mais baixo que uma mulher pode descer.
Mam soltou um arquejo. Ethel ficou chocada e pde ver que Billy tambm estava atnito. Gramper fez uma expresso de quem j sabia.

232
 

-		Ah, sim - falou Da, abaixando a voz. - Meu pai foi criado em uma casa de tolerncia, se  que vocs me entendem; um lugar frequentado por marinheiros, l no cais do porto de Cardiff. Ento, um dia, quando a me dele estava bbada de cair, Deus guiou seus passos infantis at a escola dominical de uma igreja, onde ele encontrou Jesus. No mesmo lugar, aprendeu a ler e escrever e, com o passar do tempo, criou os prprios filhos dentro dos caminhos da retido.
-		David, voc nunca me contou isso - disse Mam com brandura. Ela raramente chamava o marido pelo nome de batismo.
-		Eu esperava nunca mais ter que pensar no assunto. - O semblante de Da estava contorcido em uma mscara de vergonha e ira. Ele se apoiou na mesa e fitou os olhos da filha, sua voz se transformando em um sussurro. - Quando cortejei sua me, ns ficvamos de mos dadas e eu a beijava no rosto todas as noites at o dia do casamento. - Ele deu um soco na mesa, fazendo as xcaras tremerem. - Pela graa de nosso Senhor Jesus Cristo, minha famlia se ergueu rastejando da sarjeta ftida. - Sua voz voltou a se tornar um grito. - Ns nunca mais voltaremos para l! Nunca mais! Nunca! Nunca!
Houve um longo intervalo de silncio atnito.
Da olhou para Mam.
-		Ponha Ethel para fora daqui - disse ele.
Ethel se levantou.
-		Minha mala est feita e eu tenho algum dinheiro. Vou pegar o trem para Londres. - Ela encarou o pai com firmeza. - No vou arrastar minha famlia para a sarjeta.
Billy pegou a mala da irm.
-		Aonde voc pensa que est indo, garoto? - perguntou Da.
-		Vou acompanh-la at a estao - disse Billy com ar amedrontado.
-		Ela que carregue a prpria mala.
Billy se abaixou para larg-la, mas ento mudou de ideia. Uma expresso determinada tomou conta de seu rosto.
-		Vou acompanh-la at a estao - repetiu ele.
-		Voc vai fazer o que eu estou mandando! - berrou Da.
Billy ainda parecia assustado, mas desta vez tambm havia rebeldia em sua atitude.
-		O que o senhor vai fazer? Me expulsar de casa tambm?
-		Eu vou pr voc de bruos no colo e lhe dar uma surra - falou Da. - Voc ainda no passou da idade para isso.
Billy estava plido, mas olhou Da nos olhos.

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-		Passei, sim - disse ele. - J passei dessa idade. - Ele transferiu a mala para a mo esquerda e cerrou o punho direito.
Da deu um passo  frente.
-		Voc vai ver no que d cerrar o punho para mim, garoto.
-		No! - gritou Mam. Ela se interps entre pai e filho e deu um empurro no peito de Da. - J chega. No vou tolerar briga na minha cozinha. - Ela apontou o dedo para o rosto de Da. - David Williams, abaixe essas mos. Lembre-se de que voc  membro do conselho da Capela de Bethesda. O que as pessoas iriam pensar?
Isso o acalmou.
Mam virou-se para Ethel.
-		 melhor voc ir. Billy vai com voc. Saiam daqui, depressa.
Da sentou-se  mesa.
Ethel deu um beijo na me.
-		Adeus, Mam.
-		Escreva para mim - disse Mam.
-		No se atreva a escrever para ningum desta casa! - falou Da. - Suas cartas sero queimadas ainda no envelope!
Mam virou as costas, chorando. Ethel saiu e Billy foi atrs.
Os irmos desceram as ruas ngremes at o centro da cidade. Ethel manteve os olhos no cho, sem querer falar com nenhum conhecido e ter de explicar para onde estava indo.
Na estao, comprou uma passagem para Paddington.
-		Bem - disse Billy enquanto os dois aguardavam na plataforma. - Dois choques em um dia s. Primeiro voc, depois Da.
-		Ele guardou isso dentro de si todos esses anos - disse Ethel. - No  de admirar que seja to rgido. Quase consigo perdo-lo por ter me expulsado de casa.
-		Mas eu no - disse Billy. - A nossa f professa redeno e misericrdia, no guardar as coisas dentro de si e punir os outros.
Um trem de Cardiff chegou  estao e Ethel viu Walter von Ulrich saltar. Ele levou a mo ao chapu para cumpriment-la, o que foi uma gentileza de sua parte: cavalheiros em geral no faziam isso com criadas. Lady Maud lhe dissera ter rompido com ele. Talvez ele estivesse ali para reconquist-la. Em seu ntimo, Ethel lhe desejou boa sorte.
-		Quer que eu compre um jornal para voc? - ofereceu Billy.
-		No, querido, obrigada - respondeu ela. - Acho que eu no conseguiria me concentrar na leitura.
Enquanto seu trem no chegava, ela disse:

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-		Voc se lembra do nosso cdigo? - Quando crianas, os dois haviam inventado uma forma simples de escrever bilhetes que seus pais no conseguiam entender.
Por um instante, Billy pareceu no entender, mas ento sua expresso se iluminou.
-		Ah, sim.
-		Vou escrever para voc em cdigo, assim Da no vai conseguir ler.
-		Certo - disse ele. - E mande a carta por Tommy Griffiths.
O trem entrou na estao em meio a nuvens de vapor. Billy abraou Ethel. Ela podia ver que o irmo estava tentando no chorar.
-		Cuide-se - recomendou ela. - E cuide da nossa Mam.
-		Certo - disse ele, enxugando os olhos com a manga. - Ns vamos ficar bem. Tome cuidado l em Londres.
-		Vou tomar.
Ethel embarcou e foi se sentar junto  janela. Minutos depois, a composio deixou a estao. Conforme o trem ganhava velocidade, ela viu o guindaste da entrada da mina se afastando e imaginou se algum dia tornaria a ver Aberowen.
J era tarde quando Maud tomou o caf da manh com a princesa Bea. A princesa estava de timo humor. Em geral, reclamava muito da vida na Inglaterra - embora Maud se lembrasse, do tempo que passara quando criana na embaixada britnica, que a vida na Rssia era muito mais desconfortvel: as casas eram frias, as pessoas rabugentas, os servios pouco confiveis e o governo desorganizado. Naquele dia, contudo, Bea no tinha do que se queixar. Estava feliz por finalmente ter concebido um filho.
Chegou inclusive a falar bem de Fitz.
-		Ele salvou minha famlia - disse ela para Maud. - Foi ele quem quitou as hipotecas de nossa propriedade. Mas at hoje no h ningum para herd-la, j que meu irmo no tem filhos. Seria uma tragdia se todas as terras de Andrei e todas as de Fitz fossem parar nas mos de algum primo distante.
Maud no conseguia ver isso como uma tragdia. O primo distante em questo poderia muito bem ser seu filho. Mas ela jamais havia esperado herdar uma fortuna, de modo que no pensava muito nesse tipo de coisa.
Enquanto tomava caf e brincava com uma torrada, Maud percebeu que no estava sendo muito boa companhia naquela manh. Sentia-se oprimida pelo papel de parede vitoriano espalhafatoso, que cobria o teto e as paredes com sua estampa de folhagem, embora tivesse convivido com ele a vida inteira.

235
 

   Ela no havia contado  famlia sobre seu romance com Walter, de modo que agora no podia lhes dizer que estava tudo terminado, e isso significava que no tinha ningum para ampar-la. A nica que conhecia a histria era Williams, a vivaz governanta, e ela parecia ter sumido.
   Maud leu a reportagem do Times sobre o discurso de Lloyd George na noite anterior, durante o jantar na Mansion House, a residncia oficial do prefeito de Londres. Ele havia se mostrado otimista em relao  crise nos Blcs, dizendo que ela poderia ser solucionada de forma pacfica. Maud esperava que ele tivesse razo. Embora houvesse rompido com Walter, ainda ficava horrorizada ao pensar que ele talvez precisasse vestir um uniforme para ser morto ou aleijado em uma guerra.
   No mesmo jornal, leu uma matria curta escrita em Viena e intitulada A AMEAA SRVIA. Perguntou a Bea se a Rssia iria defender a Srvia contra os austracos.
  -		Espero que no! - respondeu Bea, alarmada. - No quero que meu irmo v  guerra.
   As duas estavam na sala de jantar pequena. Maud se lembrava de tomar o caf da manh ali com Fitz e Walter durante as frias escolares, quando tinha 12 anos e os meninos 17. Os dois tinham um apetite de leo, recordou, e toda manh devoravam ovos, linguias e imensas pilhas de torradas com manteiga antes de irem montar a cavalo ou nadar no lago. Walter, bonito e estrangeiro, era uma presena muito glamourosa. Tratava-a com a mesma cortesia que dedicaria a algum da prpria idade, o que era lisonjeiro para uma menina to jovem  e, como ela via agora, uma forma sutil de flerte.
   Enquanto ela estava imersa nessas lembranas, o mordomo Peei entrou e, para seu espanto, disse a Bea:
  -		Herr Von Ulrich est aqui, Alteza.
   No era possvel Walter estar ali, pensou Maud, atarantada. Ou ser que era Robert? Igualmente improvvel.
   Logo em seguida, Walter entrou na sala.
   Maud estava estupefata demais para falar.
  -		Que surpresa agradvel, Herr Von Ulrich - disse Bea.
   Walter usava um terno de vero leve feito de um tweed claro, cinza-azulado, com uma gravata de cetim azul. Maud desejou estar vestindo outra coisa que no o vestido simples de cor creme, bufante nos quadris, que lhe parecera perfeitamente apropriada para tomar caf da manh com a cunhada.
  -		Perdoe a minha intruso, princesa - disse Walter a Bea. - Tive de ir ao nosso
   
236
 

consulado em Cardiff para resolver uma situao desagradvel... alguns marinheiros alemes arrumaram problemas com a polcia de l.
Que mentira. Walter era adido militar: tirar marinheiros da cadeia no fazia
parte do seu trabalho.
-		Bom dia, lady Maud - disse ele, apertando sua mo. - Que surpresa encantadora encontr-la aqui.
Outra mentira, pensou ela. Ele estava ali para v-la. Ela sara de Londres para
fugir ao seu assdio, mas no poderia negar que, no fundo de seu corao, estava satisfeita com a insistncia de Walter em segui-la at ali. Alvoroada, disse
apenas:
-		Ol, como vai o senhor?
-		Venha tomar caf conosco, Herr Von Ulrich - disse Bea. - O conde saiu para
cavalgar, mas logo estar de volta. - Ela naturalmente supunha que Walter estava ali para ver Fitz.
-		Quanta gentileza a sua. - Walter se sentou.
-		Vai ficar para o almoo?
-		Eu adoraria. Depois tenho que pegar um trem de volta para Londres.
Bea se levantou.
-		 melhor eu avisar  cozinheira.
Walter levantou-se com um pulo e puxou a cadeira de Bea.
-		Fique conversando com lady Maud - disse ela ao sair da sala. - Tente alegr-la.
Ela est preocupada com a situao internacional.
Ao ouvir o tom de gozao na voz de Bea, Walter arqueou as sobrancelhas.
-		Todas as pessoas sensatas esto preocupadas com a situao internacional -
falou ele.
Maud ficou constrangida. Desesperada para encontrar algo a dizer, apontou
para o Times.
-		Voc acha que  verdade que a Srvia convocou 70 mil reservistas?
-		Duvido que eles sequer tenham 70 mil reservistas - respondeu Walter com
gravidade. - Mas esto tentando aumentar a presso. Esperam que o risco de
uma guerra mais generalizada deixe a ustria cautelosa.
-		Por que os austracos esto demorando tanto para fazer suas reivindicaes
ao governo srvio?
-		Oficialmente, eles esto esperando o fim do perodo de colheita antes de
fazer qualquer coisa que possa obrig-los a convocar homens para o Exrcito.
Extraoficialmente, eles sabem que o presidente e o ministro das Relaes
Exteriores franceses esto neste momento na Rssia, o que torna perigosamente

237
 

fcil para os dois aliados orquestrarem uma reao em comum. No vai haver nenhum comunicado austraco antes de o presidente Poincar ir embora de So Petersburgo.
Como seu raciocnio era lmpido, pensou Maud. Adorava isso nele.
Subitamente, ele perdeu a reserva. Sua mscara formal de cortesia caiu e a angstia dominou seu rosto. Atropelando as palavras, ele falou:
-		Por favor, volte para mim.
Ela abriu a boca para falar, mas sua garganta parecia bloqueada pela emoo e nenhuma palavra saiu.
-		Sei que voc rompeu comigo para o meu prprio bem - falou ele, desolado -, mas isso no vai funcionar. Eu a amo demais.
Maud encontrou as palavras.
-		Mas o seu pai...
-		Ele que decida o prprio destino. No posso obedecer-lhe, no em relao a isso. - A voz dele se transformou em um sussurro. - No suportaria perder voc.
-		Ele pode estar certo: talvez um diplomata alemo no possa ter uma esposa inglesa, pelo menos no agora.
-		Nesse caso, eu seguirei outra carreira. Mas nunca poderia encontrar outra mulher como voc.
Ela cedeu e seus olhos se marejaram de lgrimas.
Ele estendeu a mo por cima da mesa para segurar a sua.
-		Posso falar com seu irmo?
Ela embolou seu guardanapo de linho branco e enxugou as lgrimas.
-		No fale com Fitz ainda - disse. - Espere alguns dias, at a crise srvia passar.
-		Talvez isso leve mais do que alguns dias.
-		Se for assim, ns tornaremos a pensar no assunto.
-		Farei como voc desejar,  claro.
-		Eu amo voc, Walter. Acontea o que acontecer, quero ser sua mulher.
Ele beijou sua mo.
-		Obrigado - falou em tom solene. - Voc fez de mim um homem muito feliz.
Um silncio tenso tomou conta da casa de Wellington Row. Mam preparou o jantar e Da, Billy e Gramper comeram, mas ningum disse muita coisa. Billy sentia- se corrodo por uma raiva que no podia expressar.  tarde, havia subido a encosta da montanha e caminhado sozinho por muitos quilmetros.

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Na manh seguinte, a histria de Jesus e da mulher adltera no parava de lhe vir  mente. Sentado na cozinha com suas roupas de domingo, enquanto esperava a hora de sair com os pais e o av para a Capela de Bethesda, onde assistiriam  comunho, abriu sua Bblia no Evangelho segundo Joo e encontrou o captulo oito. Leu a histria vrias vezes. Parecia falar exatamente do tipo de crise que havia atingido a sua famlia.
Na capela, continuou a pensar na histria. Olhou em volta para seus amigos e vizinhos: a Sra. Dai dos Pneis, John Jones da Loja, a Sra. Ponti e seus dois filhos grandes, Hewitt Seboso... Todos sabiam que Ethel havia sado de Ty Gwyn na vspera e pegado um trem para Paddington; e, embora no soubessem por que, podiam adivinhar. Em suas mentes, eles j a estavam julgando. Mas Jesus no estava.
Durante os hinos e as preces improvisadas, ele concluiu que o Esprito Santo o estava instruindo a ler aqueles versculos em voz alta. Por volta do final do culto, ele se levantou e abriu a Bblia.
Ouviu-se um murmrio discreto de surpresa. Ele era um pouco jovem para liderar a congregao. Contudo, no havia limite de idade: o Esprito Santo poderia inspirar qualquer um.
-		Alguns versculos do Evangelho de Joo - disse ele. Sua voz exibia um leve tremor e ele tentou firm-la. - "Disseram a Jesus: 'Mestre, esta mulher foi surpreendida em ato de adultrio.'"
Um silncio repentino baixou sobre a Capela de Bethesda: ningum se movia, sussurrava ou tossia.
Billy continuou a leitura:
-		"'Na Lei, Moiss nos ordena apedrejar tais mulheres. E o Senhor, que diz?' Eles estavam usando essa pergunta como armadilha, a fim de terem uma base para acus-lo. Mas Jesus inclinou-se e comeou a escrever no cho com o dedo. Visto que continuavam a interrog-lo, ele se levantou e lhes disse..."
Nesse ponto, Billy fez uma pausa e ergueu os olhos.
Com nfase deliberada, falou:
-		"Se algum de vocs estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela.'"
Todos os outros rostos da capela o fitavam. Ningum se mexia.
Billy prosseguiu:
-		"Inclinou-se novamente e continuou escrevendo no cho. Os que o ouviram foram saindo, um de cada vez, comeando pelos mais velhos. Jesus ficou s, com a mulher em p diante dele. Ento Jesus ps-se em p e perguntou-lhe: - Mulher, onde esto eles? Ningum a condenou? - Ningum, Senhor, disse ela."

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Billy ergueu os olhos do livro. No precisava ler a ltima linha: j a conhecia de cor. Olhou para o rosto ptreo do pai e falou bem devagar:
-		"Declarou Jesus: - Eu tambm no a condeno. Agora v e abandone sua vida de pecado."
Depois de uma longa pausa, ele fechou a Bblia com um estalo que ecoou pelo silncio feito um trovo.
-		Essa  a Palavra de Deus - falou.
Ele no se sentou. Em vez disso, encaminhou-se para a sada. A congregao inteira o encarava, fascinada. Ele abriu a grande porta de madeira e saiu da capela.
Nunca mais voltou l.

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CAPTULO NOVE
Final de julho de 1914

Walter von Ulrich no sabia tocar o ragtime.
Sabia tocar as melodias, que eram simples. Sabia tocar os acordes caractersticos, que geralmente usavam um intervalo de stima bemol. E sabia tocar os
dois juntos - mas a msica no soava como ragtime. O ritmo lhe escapava. O resultado parecia mais algo executado por uma banda de rua em algum parque de Berlim.
Para quem conseguia tocar sonatas de Beethoven sem esforo, era frustrante.
   Maud havia tentado lhe ensinar o ritmo naquela manh de sbado em Ty Gwyn,
no piano vertical Bechstein, entre os vasos de palmeiras da pequena sala de estar
matutina, com o sol de vero a entrar pelas janelas altas. Eles haviam se sentado
lado a lado na banqueta do piano, de braos dados, e Maud rira das suas tentativas. Tinha sido um momento de suprema felicidade.
   O humor de Walter havia piorado quando ela lhe contou como seu pai a convencera a romper com ele. Se tivesse encontrado o pai na noite em que retornara
a Londres, teria havido um confronto. Otto, no entanto, viajara para Viena, e
Walter precisou engolir a prpria raiva. Continuava sem ver o pai desde ento.
   Ele havia concordado com a sugesto de Maud de guardarem segredo sobre
seu relacionamento at o fim da crise nos Blcs. Embora a situao tivesse se
acalmado, a crise ainda perdurava. J fazia quase quatro semanas desde o assassinato em Sarajevo, porm o imperador austraco ainda no enviara aos srvios
o comunicado que vinha formulando h tanto tempo. A demora fez crescer em
Walter a esperana de que os nimos houvessem arrefecido e de que as opinies
moderadas tivessem prevalecido em Viena.
   Sentado diante do piano de cauda pequeno na sala de estar compacta de seu
apartamento na Piccadilly, ele refletiu que os austracos tinham muitas alternativas que no uma guerra para punir a Srvia e aplacar seu orgulho ferido. Por
exemplo, poderiam forar o governo srvio a fechar os jornais antiaustracos e
expulsar os nacionalistas do Exrcito e do funcionalismo pblico do pas. Os srvios provavelmente se sujeitariam a isso: seria humilhante, mas melhor do que
uma guerra que eles no poderiam vencer.
   Assim os lderes dos grandes pases da Europa poderiam relaxar e se concentrar em seus problemas domsticos. Os russos poderiam esmagar a greve geral
   
241
 

1
que os assolava, os ingleses poderiam apaziguar os protestantes irlandeses revoltados e os franceses poderiam saborear o julgamento por assassinato de Madame Caillaux, que matara a tiros o editor do Le Figaro por publicar as cartas de amor de seu marido.
   E Walter poderia se casar com Maud.
   Era nisso que ele estava concentrado agora. Quanto mais pensava nas dificuldades, mais decidido ficava a suplant-las. Depois de contemplar durante alguns dias a perspectiva infeliz de uma vida sem a mulher que amava, tinha ainda mais certeza de querer despos-la, fosse qual fosse o preo que ambos tivessem que pagar. Enquanto acompanhava com interesse o jogo diplomtico travado no tabuleiro de xadrez da Europa, examinava cada movimento para avaliar primeiro seu efeito sobre ele e Maud, e somente depois sobre a Alemanha e o mundo.
   Iria encontr-la naquela noite durante o jantar e, em seguida, no baile da duquesa de Sussex. J havia vestido o fraque e a gravata. Era hora de partir. Porm, assim que fechou a tampa do piano, a campainha tocou e seu criado anunciou o conde Robert von Ulrich.
   Robert parecia mal-humorado. Walter estava habituado quela expresso. Na poca em que os dois estudavam juntos em Viena, Robert tinha sido um rapaz atormentado e infeliz. Seus sentimentos costumavam atra-lo de forma irresistvel na direo de um grupo que ele fora criado para considerar decadente. Ento, ao voltar para casa de uma noite passada na companhia de homens como ele, exibia aquela mesma expresso, ao mesmo tempo culpada e desafiadora. Com o tempo, acabaria descobrindo que a homossexualidade, assim como o adultrio, era condenada oficialmente, mas pelo menos nos crculos mais sofisticados extraoficialmente tolerada. E, assim, conseguiu fazer as pazes consigo mesmo. Naquele instante, a expresso no rosto de Robert tinha algum outro motivo.
  -		Acabo de ver o texto do comunicado do imperador - falou ele sem delongas.
   O corao de Walter saltou no peito, esperanoso. Talvez aquele fosse o desfecho pacfico que ele vinha aguardando.
  -		E o que ele diz?
   Robert lhe estendeu uma folha de papel.
  -		Eu copiei a parte mais importante.
  -		A mensagem j foi entregue ao governo da Srvia?
  -		Sim, s seis da manh, horrio de Belgrado.
   Havia dez exigncias. Walter constatou com alvio que as trs primeiras seguiam a linha que ele previra: a Srvia deveria proibir a circulao dos jornais liberais, dissolver a sociedade secreta chamada Mo Negra e conter a propaganda
   
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nacionalista. Talvez, no final das contas, os moderados de Viena houvessem vencido a discusso, pensou aliviado.
     A princpio, o item quatro parecia razovel - os austracos exigiam que os nacionalistas que trabalhassem para o servio pblico srvio fossem expulsos de seus cargos -, mas havia um porm: quem daria os nomes seria a ustria.
-		Isso me parece um pouco pesado - disse Walter, aflito. - O governo da Srvia no pode simplesmente demitir qualquer um ao bel-prazer dos austracos.
Robert deu de ombros.
-		Sero obrigados a fazer isso.
-		Suponho que sim. - Em nome da paz, Walter torcia para que o fizessem.
Mas o pior ainda estava por vir.
O item cinco exigia que a ustria auxiliasse o governo srvio a acabar com a subverso, enquanto o item seis, leu Walter consternado, insistia para que oficiais austracos participassem do inqurito judicial relativo ao assassinato.
-		Mas a Srvia no pode concordar com isso! - protestou Walter. - Seria o mesmo que abrir mo da sua soberania.
Robert fechou ainda mais o rosto.
-		No  bem assim - disse ele com impacincia.
-		Nenhum pas do mundo concordaria com isso.
-		A Srvia vai concordar. Ou isso, ou ser destruda.
-		Em uma guerra?
-		Se for preciso.
-		Uma guerra que poderia se espalhar pela Europa inteira!
Robert brandiu o dedo.
-		No se os outros governos se mostrarem sensatos.
Ao contrrio do seu, pensou Walter, mas engoliu a resposta e continuou a ler. Os itens restantes estavam formulados com arrogncia, mas os srvios provavelmente poderiam aceit-los: prender os conspiradores, impedir o contrabando de armas para o territrio austraco e reprimir manifestaes antiaustracas de oficiais srvios.
O prazo para resposta, no entanto, era de 48 horas.
-		Meu Deus, isso  rigoroso demais - comentou Walter.
-		Qualquer um que desafie o imperador austraco deve esperar uma resposta rigorosa.
-		Sim, eu sei, mas ele nem sequer lhes deu margem para uma sada digna.
-		E por que deveria dar?
Walter deu vazo  sua raiva.

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   -		Pelo amor de Deus, o imperador por acaso quer uma guerra?
   -		A famlia do imperador, a dinastia dos Habsburgo, vem governando grandes regies da Europa h centenas de anos. O imperador Francisco Jos tem certeza de que a inteno de Deus  que ele governe os povos eslavos inferiores.  o seu destino.
   -		Que Deus nos proteja dos homens predestinados - murmurou Walter. - Minha embaixada j viu isto?
   -		Ela ver a qualquer momento.
    Walter se perguntou como os demais iriam reagir. Aceitariam aquele documento, como Robert, ou ficariam indignados como Walter? Haveria um grito de protesto internacional, ou apenas um impotente dar de ombros diplomtico? Ele iria descobrir naquela mesma noite. Olhou para o relgio sobre a lareira.
   -		Estou atrasado para o jantar. Voc vai ao baile da duquesa de Sussex mais tarde?
   -		Vou. Vejo voc l.
    Eles saram da casa e se separaram na rua. Walter tomou o rumo da casa de Fitz, onde iria jantar. Sentia-se ofegante, como se tivesse sido nocauteado. A guerra que ele tanto temia estava perigosamente prxima.
    Chegou bem a tempo de fazer uma reverncia diante da princesa Bea, que usava um vestido lils adornado por laos de seda, e apertar a mo de Fitz, inacreditavelmente elegante com uma camisa de colarinho de bico e uma gravata-borboleta branca; logo em seguida, foi anunciado o jantar. Walter ficou feliz ao ser escolhido para acompanhar Maud at a mesa. Ela usava um vestido vermelho-escuro feito de algum tecido macio, que modelava seu corpo bem do jeito que Walter gostava. Enquanto segurava a cadeira para ela sentar, comentou:
   -		Que vestido encantador.
   -		Paul Poiret - informou ela, citando um estilista to famoso que at mesmo Walter j ouvira falar nele. Ela abaixou um pouco a voz. - Achei mesmo que voc fosse gostar.
    O comentrio era apenas ligeiramente ntimo, mas mesmo assim causou um frisson nele, que foi rapidamente seguido por um calafrio de medo ao pensar que ainda podia perder aquela mulher fascinante.
    A casa de Fitz no chegava a ser um palcio. A sala de jantar comprida, situada na esquina da rua, tinha vista para duas vias pblicas diferentes. Candelabros eltricos iluminavam o recinto, apesar da claridade da tardinha de vero l fora, e o reflexo das luzes cintilava nas taas de cristal e nos talheres de prata alinhados em cada lugar da mesa. Ao olhar em volta para as outras convidadas, Walter
    
244
 

ficou novamente maravilhado com os decotes indecentes que as inglesas de classe alta exibiam no jantar.
Essas, no entanto, eram observaes de adolescente. J estava na hora de ele se casar.
Assim que Walter se sentou, Maud tirou um dos sapatos e subiu o dedo do p coberto apenas com a meia pela perna de sua cala. Ele lhe deu um sorriso, mas ela viu na mesma hora que ele estava preocupado.
-		O que houve? - perguntou.
-		Puxe uma conversa sobre o ultimato austraco - murmurou ele. - Diga que ouviu falar que ele j foi entregue.
Maud dirigiu a palavra a Fitz, que estava sentado na cabeceira da mesa.
-		Parece que o comunicado do imperador austraco foi finalmente entregue em Belgrado - disse ela. - Voc ouviu alguma notcia, Fitz?
Fitz pousou sua colher de sopa.
-		A mesma que voc. Mas ningum sabe o que ele diz.
-		A meu ver, o comunicado  muito duro. Os austracos insistem em participar do processo judicial srvio. - falou Walter.
-		Participar! - exclamou Fitz. - Mas, se o primeiro-ministro srvio concordar com isso, ser obrigado a renunciar.
Walter aquiesceu. Fitz previa as mesmas consequncias que ele.
-		 quase como se os austracos quisessem a guerra. - Ele estava perigosamente perto de se referir com deslealdade a um dos aliados da Alemanha, porm estava aflito o suficiente para no dar importncia a isso. Cruzou olhares com Maud. Ela estava plida e calada. Tambm percebera a ameaa na mesma hora.
-		 claro que h de se entender a posio de Francisco Jos - disse Fitz. - Se no for abordada com firmeza, a subverso nacionalista pode desestabilizar um imprio. - Walter sups que o amigo estivesse pensando nos separatistas irlandeses e nos beres sul-africanos que ameaavam o Imprio Britnico. - Mas no  preciso um martelo para se quebrar uma noz - concluiu.
Lacaios levaram embora os pratos de sopa e serviram outro vinho. Walter no bebeu nada. A noite seria longa e ele precisaria estar com a mente lcida.
-		Eu por acaso encontrei o primeiro-ministro Asquith hoje - disse Maud em voz baixa. - Ele comentou que pode haver um verdadeiro apocalipse. - Ela parecia assustada. - Para falar a verdade, eu no acreditei... mas agora vejo que ele talvez tivesse razo.
-		 o que todos tememos - disse Fitz.
Como sempre, Walter ficou impressionado com os contatos de Maud. Ela frequentava

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com desenvoltura os homens mais poderosos de Londres. Lembrou-se de que, quando Maud tinha 11 ou 12 anos e o pai era ministro de um governo conservador, ela questionava seus colegas de gabinete com seriedade quando estes visitavam Ty Gwyn; e, mesmo naquela poca, homens desse naipe a escutavam com ateno e respondiam pacientemente s suas perguntas.
   -		Olhando pelo lado bom - prosseguiu ela -, se houver uma guerra, Asquith acredita que a Gr-Bretanha no precisar se envolver.
    Walter sentiu o corao mais leve. Se a Gr-Bretanha ficasse de fora, a guerra no precisaria separ-lo de Maud.
    Fitz, no entanto, parecia discordar daquilo.
   -		 mesmo? - indagou. - Mesmo que... - Ele olhou para Walter. - Perdoe-me, Von Ulrich... mesmo que a Frana seja derrotada pela Alemanha?
   -		Segundo Asquith, ns seremos espectadores - respondeu Maud.
   -		Confirmando meus antigos temores - disse Fitz, pomposo -, o governo no entende o equilbrio de poder na Europa.
    Na condio de conservador, o conde via o governo liberal com desconfiana, alm de nutrir um dio pessoal por Asquith, que havia debilitado a Cmara dos Lordes. Porm, e mais importante ainda, Fitz no estava totalmente horrorizado com a possibilidade de uma guerra. De certo modo, temia Walter, ele talvez fosse at simptico  ideia, da mesma forma que Otto. E com certeza preferia o conflito a qualquer tipo de enfraquecimento do poder britnico.
   -		Voc tem certeza, meu caro Fitz, de que uma vitria alem sobre a Frana perturbaria de fato o equilbrio de poder? - indagou Walter. Esse era um assunto um tanto delicado para um jantar, contudo a questo era importante demais para ser varrida para debaixo do tapete caro de Fitz.
   -		Com todo o respeito ao seu honrado pas e a Sua Majestade, o Kaiser Guilherme, creio que a Gr-Bretanha no poderia permitir que a Alemanha assumisse o controle da Frana - disse Fitz.
    Era esse o problema, pensou Walter, esforando-se ao mximo para no deixar transparecer a raiva e a frustrao que aquelas palavras provocavam nele. Um ataque alemo  Frana, aliada russa, seria na verdade uma medida defensiva - contudo, os ingleses falavam como se a Alemanha estivesse tentando dominar a Europa. Forando um sorriso amigvel, ele disse:
   -		Ns derrotamos a Frana 43 anos atrs, no conflito que vocs chamam de guerra franco-prussiana. A Gr-Bretanha foi uma espectadora nessa ocasio. E vocs no sofreram com a nossa vitria.
   -		Foi o que Asquith disse - acrescentou Maud.
    
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-		Existe uma diferena - falou Fitz. - Em 1871, a Frana foi derrotada pela Prssia e por um grupo de reinos germnicos menos importantes. Depois da guerra, essa coalizo se tornou um pas s, a Alemanha que conhecemos... e tenho certeza de que voc vai concordar, Von Ulrich, meu velho amigo, que a Alemanha hoje  uma presena mais formidvel do que a velha Prssia.
Homens como Fitz eram muito perigosos, pensou Walter. Com suas boas maneiras, podiam conduzir o mundo  destruio. Ele se esforou para manter leve o tom da resposta.
-		Voc tem razo,  claro... mas talvez formidvel no seja sinnimo de hostil.
-		 essa a questo, no  mesmo?
Do outro lado da mesa, Bea tossiu em reprovao. Sem dvida, considerava aquele assunto controverso demais para uma conversa educada. Jovial, falou:
-		Est animado para ir ao baile da duquesa, Herr Von Ulrich?
Walter sentiu-se repreendido.
-		Tenho certeza de que o baile vai ser absolutamente esplndido - respondeu com entusiasmo, sendo recompensado com um grato menear de cabea da anfitri.
-		Voc dana to bem! - comentou tia Herm.
Walter presenteou a velha senhora com um sorriso caloroso.
-		A senhora me concederia a honra da primeira dana, lady Hermia?
Ela ficou lisonjeada.
-		Valha-me Deus, estou velha demais para danar. Alm disso, vocs, jovens, conhecem passos que no existiam quando eu era debutante.
-		A ltima sensao  a xarda, uma dana folclrica hngara. Talvez eu deva lhe ensinar.
-		Voc acha que isso se configuraria um incidente diplomtico? - perguntou Fitz.
No teve muita graa, mas todos riram, e a conversa passou para outros assuntos triviais, porm seguros.
Depois do jantar, os convivas embarcaram em carruagens para percorrer os 400 metros at Sussex House, o palcio do duque na Park Lane.
A noite havia cado e todas as janelas do palcio estavam iluminadas: a duquesa tinha finalmente cedido e mandado instalar energia eltrica. Walter subiu a escadaria grandiosa e adentrou o primeiro dos luxuosos sales de recepo. A orquestra tocava a msica mais popular dos ltimos anos, "Alexander s Ragtime Band". Sua mo esquerda comeou a se agitar: o ritmo sincopado era fundamental naquele gnero.

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   Walter cumpriu a promessa e danou com tia Herm. Esperava que ela tivesse vrios pares, para que ficasse cansada e fosse cochilar em uma sala anexa, deixando Maud sem acompanhante. Ele no parava de pensar no que os dois tinham feito na biblioteca daquela casa poucas semanas antes. Suas mos comichavam, tamanha a vontade de toc-la atravs daquele vestido justo.
   Antes, porm, ele tinha trabalho a fazer. Fez uma mesura para tia Herm, aceitou uma taa de champanhe ros oferecida por um lacaio e comeou a circular pela festa. Passou pelo Pequeno Salo de Baile, pelo Salo Intermedirio e pelo Grande Salo de Baile, conversando com os convidados dos meios poltico e diplomtico. Todos os embaixadores em Londres tinham sido convidados, e muitos estavam ali, entre eles o chefe de Walter, prncipe Lichnowsky. Vrios membros do Parlamento tambm haviam comparecido. A maioria era conservadora, como a duquesa, mas havia alguns liberais, incluindo diversos ministros do governo. Robert estava entretido em uma conversa com lorde Remarc, subsecretrio do Departamento de Guerra. No havia nenhum membro trabalhista do Parlamento  vista: a duquesa se considerava uma mulher de mente aberta, mas havia limites para tudo.
   Walter ficou sabendo que os austracos tinham enviado cpias de seu ultimato para todas as principais embaixadas de Viena. Ele seria transmitido por cabo para Londres e traduzido naquela mesma noite, de modo que pela manh todos saberiam seu contedo. A maioria das pessoas estava chocada com as exigncias, mas ningum sabia o que fazer a respeito.
    uma da manh, ele j havia descoberto tudo o que podia, ento saiu  procura de Maud. Desceu a escada at o jardim, onde uma ceia estava servida sob uma tenda listrada. Como se servia comida na alta sociedade inglesa! Encontrou Maud manuseando um cacho de uvas. Felizmente, no havia sinal de tia Herm.
   Walter deixou de lado suas preocupaes.
  -		Como  que vocs ingleses conseguem comer tanto? - perguntou a Maud em tom de brincadeira. - A maioria das pessoas aqui tomou um caf da manh reforado, fez uma refeio de cinco u seis pratos na hora do almoo, tomou um ch com sanduches e bolos e jantou pelo menos oito pratos. Ser que ainda precisam mesmo de sopa, codornas recheadas, lagosta, pssegos e sorvete?
   Maud riu.
  -		Voc nos acha vulgares, no ?
   Ele no achava isso, mas, para provoc-la, fingiu que sim.
  -		Bem, o que os ingleses tm em termos de cultura?
   Segurou-a pelo brao e, como se andasse a esmo, afastou-a da tenda para dentro
   
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do jardim. Lmpadas decorativas enfeitavam as rvores, emitindo um brilho fraco. Nos caminhos sinuosos entre os arbustos, alguns poucos casais caminhavam e conversavam, um ou outro com as mos dadas discretamente na penumbra. Walter tornou a ver Robert com lorde Remarc e imaginou se eles tambm estariam vivendo um romance.
-		Quem so os compositores ingleses? - perguntou, ainda provocando Maud. - Gilbert e Sullivan. E os pintores? Enquanto os impressionistas franceses estavam mudando a forma como o mundo v a si mesmo, os ingleses pintavam crianas de bochechas rosadas brincando com cachorrinhos. E as peras? Todas italianas, quando no alems. E os bals? Russos.
-		Mesmo assim ns dominamos meio mundo - disse ela com um sorriso zombeteiro.
Ele tomou-a nos braos.
-		E sabem tocar o ragtime.
-		 fcil, basta aprender o ritmo.
-		 justamente essa parte que eu acho difcil.
-		Voc precisa de aulas.
Ele colou os lbios  orelha de Maud e sussurrou:
-		Pode me ensinar, por favor? - O sussurro se transformou em gemido quando ela o beijou e, depois disso, eles passaram algum tempo sem dizer nada.
Isso foi na madrugada de sexta-feira, 24 de julho. Na noite seguinte, quando Walter compareceu a outro jantar e outro baile, o boato que todos repetiam era que os srvios iriam acatar todas as exigncias da ustria, solicitando apenas um esclarecimento quanto aos itens cinco e seis. Os austracos certamente no rejeitariam uma resposta to submissa, pensou Walter com animao. A menos,  claro, que estivessem determinados a ter uma guerra de qualquer forma.
A caminho de casa, no raiar do dia de sbado, ele passou na embaixada para anotar o que havia descoberto no decorrer da noite. Estava sentado diante de sua escrivaninha quando o embaixador em pessoa, prncipe Lichnowsky, apareceu vestindo um impecvel traje formal e carregando uma cartola cinza. Surpreso, Walter se levantou com um pulo, fez uma reverncia e disse:
-		Bom dia, Alteza.
-		Voc chegou bem cedo, Von Ulrich - comentou o embaixador. Ento, ao reparar no traje de gala de Walter, concluiu: - Ou melhor, bem tarde. - O 

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embaixador era um homem bonito, porm de traos rsticos, com um nariz grande e adunco sobre o bigode.
  -		Eu s estava escrevendo algumas observaes para o senhor sobre as conversas que ouvi ontem  noite. Posso fazer algo por Vossa Alteza?
  -		Fui convocado por Sir Edward Grey. Pode vir comigo e tomar notas, se tiver outro palet.
   Walter ficou eufrico. O ministro das Relaes Exteriores da Gr-Bretanha era um dos homens mais poderosos do mundo. Walter j cruzara com ele no pequeno crculo da diplomacia londrina,  claro, mas os dois nunca haviam trocado mais do que umas poucas palavras. Agora, com aquele convite casual tpico de Lichnowsky, Walter estava prestes a assistir a um encontro informal entre dois homens que estavam decidindo o futuro da Europa. Gottfried von Kessel ficaria verde de inveja, pensou.
   Repreendeu a si mesmo pelo pensamento mesquinho. Aquele poderia ser um encontro decisivo. Ao contrrio do imperador austraco, Grey talvez no quisesse uma guerra. Seria esse o objetivo do encontro? Evitar o conflito? Grey era difcil de prever. Que partido iria tomar? Se fosse contra a guerra, Walter faria tudo ao seu alcance para ajud-lo.
   Ele guardava uma sobrecasaca em um gancho atrs da porta exatamente para emergncias como aquela. Tirou o fraque e abotoou o palet diurno por cima do colete branco. Pegou um bloco de anotaes e deixou o prdio com o embaixador.
   Os dois atravessaram o St. Jamess Park em meio ao ar fresco do incio da manh. Walter contou ao chefe os rumores que ouvira sobre a resposta da Srvia. O embaixador tinha seus prprios boatos a relatar.
  -		Albert Ballin jantou com Winston Churchill ontem  noite - falou. Ballin, magnata alemo do comrcio martimo, era prximo do Kaiser, embora fosse judeu. Churchill comandava a Marinha Real. - Adoraria saber o que foi dito - concluiu Lichnowsky.
   O prncipe evidentemente temia que o Kaiser estivesse passando por cima dele e mandando recados para os britnicos por intermdio de Ballin.
  -		Tentarei descobrir - disse Walter, grato pela oportunidade.
   Os dois adentraram o Ministrio das Relaes Exteriores, edifcio neoclssico que fazia Walter pensar em um bolo de casamento. Foram conduzidos at a suntuosa sala do ministro, com vista para o parque. Somos o povo mais rico do mundo, pareciam dizer os britnicos com aquele prdio, e podemos fazer o que quisermos com o restante de vocs.
   Sir Edward Grey era um homem magro cujo rosto parecia uma caveira. No
   
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gostava de estrangeiros e quase nunca viajava para o exterior: para os britnicos, isso fazia dele um ministro das Relaes Exteriores perfeito.
-		Muito obrigado por virem - disse ele, educado. Estava sozinho, com exceo de um auxiliar que segurava um bloco de anotaes. Assim que todos se sentaram, Grey foi direto ao assunto: - Temos de fazer o possvel para acalmar a situao nos Blcs.
A esperana de Walter cresceu. Aquilo soava pacfico. O ministro no queria guerra.
Lichnowsky aquiesceu. O prncipe pertencia  ala pacifista do governo alemo. Havia despachado um telegrama incisivo para Berlim instando seu governo a refrear os austracos. Discordava do pai de Walter e dos demais que acreditavam ser melhor para a Alemanha travar uma guerra agora do que mais tarde, quando Rssia e Frana talvez estivessem mais fortes.
Grey prosseguiu.
-		O que quer que os austracos faam no deve ser ameaador o bastante para a Rssia a ponto de provocar uma reao militar do czar.
Exatamente, pensou Walter, animado.
Lichnowsky obviamente concordava com esse ponto de vista.
-		Se me permite, ministro, o senhor acertou na mosca - disse.
Grey no dava a mnima para elogios.
-		Minha sugesto  que vocs e ns, ou seja, a Alemanha e a Gr-Bretanha, peamos juntos aos austracos que aumentem o prazo para a resposta. - Pensativo, ele relanceou os olhos para o relgio na parede: passava um pouco das seis da manh. - Eles exigiram uma resposta at as seis da tarde de hoje, horrio de Belgrado. Dificilmente se recusariam a dar mais um dia aos srvios.
Walter ficou desapontado. Esperava que Grey tivesse um plano para salvar o mundo. Aquele adiamento era irrisrio. Talvez no fizesse nenhuma diferena. E, na opinio do jovem diplomata, os austracos eram to beligerantes que poderiam sim recusar o pedido, por menor que fosse. No entanto, ningum o consultou - e, levando em conta a companhia estratosfericamente elevada em que se encontrava, no falaria nada a menos que lhe dirigissem a palavra.
-		Que ideia esplndida - disse Lichnowsky. - Vou transmiti-la a Berlim com meu aval.
-		Obrigado - agradeceu Grey. - Mas, se isso no funcionar, tenho outra sugesto.
Ento Grey na verdade no estava muito confiante em que os austracos dariam
mais tempo  Srvia, pensou Walter.
O ministro seguiu falando:

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-		Proponho que Gr-Bretanha, Alemanha, Itlia e Frana se unam como mediadores, reunindo-se em uma conferncia de quatro potncias para produzir uma soluo que satisfaa  ustria sem ameaar a Rssia.
Agora sim, pensou Walter com empolgao.
-		 claro que a ustria no concordaria de antemo em se restringir s decises da conferncia - continuou Grey. - Mas isso no  necessrio. Poderamos solicitar que o imperador austraco ao menos no tome nenhuma atitude antes de ouvir o que a conferncia tem a dizer.
Walter ficou radiante. Seria difcil para a ustria recusar um plano concebido tanto por seus aliados quanto por seus rivais.
Lichnowsky tambm parecia satisfeito.
-		Recomendarei isso a Berlim com grande nfase.
-		Foi muita bondade do senhor vir me encontrar assim to cedo - disse Grey.
Lichnowsky tomou isso como uma dispensa e se levantou.
-		No h de qu - falou. - O senhor ir a Hampshire hoje?
Os hobbies de Grey eram a pesca com vara e a observao de pssaros, e seus momentos de maior felicidade se davam em seu chal s margens do rio Itchen, em Hampshire.
-		 noite, espero - respondeu Grey. - O tempo est maravilhoso para pescar.
-		Desejo ao senhor um bom domingo de descanso - disse Lichnowsky, ao que os dois se retiraram.
Enquanto atravessavam o parque de volta, Lichnowsky falou:
-		Os ingleses so espantosos. A Europa est  beira de uma guerra e o ministro das Relaes Exteriores vai pescar.
Walter estava exultante. Grey poderia no ter o menor senso de urgncia, mas era a primeira pessoa a sugerir uma soluo factvel. Walter estava grato. Vou convid-lo para o meu casamento, pensou, e fazer um agradecimento a ele no discurso.
Quando chegaram  embaixada, ele ficou surpreso ao se deparar com o pai.
Otto acenou para Walter acompanh-lo at sua sala. Gottfried von Kessel estava l. Walter estava louco para confrontar o pai em relao a Maud, mas no iria abordar esse tipo de assunto na frente de Von Kessel, ento disse:
-		A que horas voc chegou?
-		Faz alguns minutos. Vim de barco de Paris e peguei o trem de integrao noturno. O que voc estava fazendo com o embaixador?
-		Fomos convocados para uma reunio com Sir Edward Grey. - Walter ficou satisfeito ao ver uma expresso invejosa cruzar o semblante de Von Kessel.

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-		E o que ele tinha a dizer? - quis saber Otto.
-		Ele props uma conferncia de quatro potncias para mediar a situao entre a ustria e a Srvia.
-		Que perda de tempo - afirmou Von Kessel.
Walter o ignorou e perguntou ao pai:
-		O que o senhor acha?
Otto apertou os olhos.
-		Interessante - disse ele. - Grey  astuto.
Walter no conseguiu conter seu entusiasmo.
-		Acha que o imperador austraco pode concordar?
-		De forma alguma.
Von Kessel deu uma risadinha sarcstica.
Walter ficou arrasado.
-		Mas por qu?
-		E se a conferncia propuser uma soluo e ela for rejeitada pela ustria? - indagou Otto.
-		Grey mencionou essa possibilidade. Ele disse que a ustria no seria obrigada a aceitar as recomendaes da conferncia.
Otto sacudiu a cabea.
-		 claro que no... mas e depois? Se a Alemanha participar de uma conferncia para fazer uma proposta de paz e a ustria rejeitar nossa proposta, como poderamos apoiar os austracos quando eles entrarem em guerra?
-		No seria possvel.
-		Ento o objetivo de Grey ao sugerir algo assim  criar uma ciso entre a ustria e a Alemanha.
-		Ah! - Walter sentiu-se tolo. No havia percebido nada disso. Seu otimismo caiu por terra. Desanimado, ele tornou a falar: - Ento ns no vamos apoiar o plano de paz de Grey?
-		No h a menor chance - respondeu seu pai.
A proposta de Sir Edward Grey no deu em nada e Walter e Maud ficaram observando, hora aps hora, o mundo se aproximar cada vez mais do desastre.
O dia seguinte era um domingo e Walter foi se encontrar com Anton. Mais uma vez, todos estavam desesperados para saber o que os russos fariam. Os srvios tinham cedido a quase todas as exigncias da ustria, solicitando apenas

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mais tempo para debater as duas clusulas mais severas. Os austracos, no entanto, haviam anunciado que isso era inaceitvel, de modo que a Srvia j havia comeado a mobilizar seu pequeno Exrcito. O confronto era iminente, mas a Rssia participaria ou no?
Walter foi  Igreja de St. Martin-in-the-Fields, que no ficava no campo, como I a palavra fields poderia indicar, mas sim na Trafalgar Square, o cruzamento mais movimentado de Londres. A igreja era uma construo setecentista em estilo palladiano e Walter ponderou que seus encontros com Anton, alm de lhe proporcionarem informaes sobre as intenes da Rssia, estavam lhe dando aulas de histria da arquitetura inglesa.
Ele subiu os degraus da igreja e adentrou a nave por entre as colunas imensas. Olhou em volta, ansioso: mesmo nas melhores circunstncias, temia que Anton no fosse aparecer - e aquele seria o pior momento possvel para o homem desistir. O interior da igreja era bem iluminado por uma grande janela de trs folhas em estilo veneziano na extremidade leste da nave, e ele viu Anton na mesma hora. Aliviado, sentou-se ao lado do espio vingativo poucos segundos antes de a missa comear.
Como sempre, os dois conversaram durante os hinos.
-		O Conselho de Ministros se reuniu na sexta-feira - disse Anton.
Walter sabia disso.
-		O que eles resolveram?
-		Nada. Eles s fazem recomendar. Quem resolve  o czar.
Walter sabia disso tambm. Controlou a impacincia.
-		Desculpe. O que eles recomendaram?
-		Permitir que quatro circunscries militares russas se preparem para a mobilizao.
-		No! - O grito de Walter foi involuntrio, e as pessoas que cantavam o hino  sua volta se viraram para olhar. Aquele era o primeiro passo em direo  guerra. Acalmando-se com esforo, tornou a falar: - O czar concordou?
-		Ele sancionou a deciso ontem.
Em desespero, Walter perguntou:
-		Quais circunscries?
-		Moscou, Kazan, Odessa e Kiev.
Durante as preces, Walter imaginou um mapa da Rssia. Moscou e Kazan ficavam no meio do vasto pas, a mais de 1500 quilmetros de suas fronteiras europeias, mas Odessa e Kiev ficavam no sudoeste, perto dos Blcs. No hino seguinte, ele falou:

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-		Eles esto se mobilizando contra a ustria.
-		No  uma mobilizao...  um preparativo para a mobilizao.
-		J entendi - disse Walter, paciente. - Mas ontem ns estvamos falando sobre a ustria atacar a Srvia, um conflito balcnico de pouca importncia. Hoje estamos falando na ustria e na Rssia e em uma guerra de vulto na Europa.
O hino terminou e Walter aguardou o seguinte com inquietao. Criado pela me, uma protestante devota, ele sempre sentia uma ponta de culpa ao usar os cultos como disfarce para seu trabalho clandestino. Fez uma prece breve para ser perdoado.
Quando a congregao voltou a cantar, Walter disse:
-		Por que eles esto com tanta pressa de fazer esses preparativos para a guerra?
Anton deu de ombros.
-		Os generais disseram ao czar: "Cada dia que o senhor demora d uma vantagem ao inimigo."  sempre a mesma coisa.
-		Ser que eles no percebem que os preparativos tornam a guerra mais provvel?
-		Soldados querem ganhar guerras, no evit-las.
O hino terminou e o culto chegou ao fim. Quando Anton se levantou, Walter segurou-lhe o brao.
-		Precisamos nos ver com mais frequncia - falou.
Anton exibiu uma expresso de pnico.
-		Ns j conversamos sobre isso...
-		Pouco importa. A Europa est  beira de uma guerra. Voc diz que os russos esto se preparando para a mobilizao em algumas circunscries. E se eles autorizarem outras circunscries a ficarem a postos? Que outras atitudes iro tomar? Quando  que preparativos viram uma mobilizao de verdade? Eu vou precisar de relatrios dirios. De hora em hora seria melhor.
-		No posso correr esse risco. - Anton tentou desvencilhar o brao.
Walter apertou com mais fora.
-		Encontre-me na Abadia de Westminster todos os dias de manh antes de ir para a embaixada. No Canto dos Poetas, no transepto sul. A igreja  to grande que ningum vai reparar em ns.
-		De jeito nenhum.
Walter deu um suspiro. Teria de fazer ameaas, o que o desagradava, entre outras coisas porque criava um risco de o espio desistir totalmente de colaborar. Mas ele precisava correr esse risco.
-		Se voc no aparecer l amanh, irei  sua embaixada procur-lo.

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    Anton empalideceu.
   -		Voc no pode fazer isso! Eles vo me matar!
   -		Eu preciso das informaes! Estou tentando evitar uma guerra.
   -		Eu toro para que haja uma guerra - disse o pequeno auxiliar de escritrio com ferocidade. Sua voz se transformou em um sibilo: - Espero que o meu pas seja esmagado e destrudo pelo Exrcito alemo. - Walter o encarava, atnito. - Espero que o czar seja morto, brutalmente assassinado, junto com toda a sua famlia. E toro para todos eles irem para o inferno, como merecem.
    Ele deu meia-volta e saiu depressa da igreja em direo ao burburinho da Trafalgar Square.
Nas tardes de tera-feira, durante a hora do ch, a princesa Bea podia ser "encontrada em casa". Era quando suas amigas iam visit-la para conversar sobre as festas s quais tinham ido e para exibir seus trajes diurnos. Maud era obrigada a comparecer, assim como tia Herm, uma vez que ambas eram parentes pobres que viviam da generosidade de Fitz. Nesse dia, quando tudo sobre o que queria falar era se haveria ou no uma guerra, Maud achou as conversas particularmente imbecilizantes.
    A sala de estar da casa de Mayfair era moderna. Bea sempre seguia as tendncias da decorao. Cadeiras e sofs de bambu do mesmo feitio estavam dispostos em pequenos grupos para facilitar a conversa, mas deixando bastante espao para que as pessoas circulassem. O estofado tinha uma estampa lils discreta e o tapete era marrom-claro. A parede no era coberta de papel, mas pintada num tom de bege que acalmava os sentidos. No havia nenhum aglomerado vitoriano de fotografias emolduradas, enfeites, almofadas e vasos. As pessoas chiques diziam que no era preciso ostentar a prpria riqueza abarrotando os cmodos de coisas. Maud concordava.
    Entretida com a duquesa de Sussex, Bea fofocava sobre a amante do primeiro-ministro, Venetia Stanley. Sua cunhada deveria estar preocupada, pensou Maud; se a Rssia entrasse em guerra, o irmo dela, prncipe Andrei, teria de lutar. Bea, no entanto, parecia muito tranquila. Na verdade, estava particularmente bonita naquele dia. Talvez tivesse um amante. Isso no era raro nos crculos sociais mais elevados, em que muitos dos casamentos eram de convenincia. Algumas pessoas reprovavam o adultrio - a duquesa era capaz de riscar uma mulher adltera de sua lista de convidados para todo o sempre -, mas outras faziam vista grossa. Porm Maud no achava realmente que Bea fosse desse tipo.
    
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Fitz, que dera uma escapulida de uma hora da Cmara dos Lordes, entrou para o ch. Walter veio logo atrs dele. Estavam ambos elegantes, de terno cinza e colete transpassado. Sem querer, Maud os imaginou usando uniformes militares. Se a guerra se alastrasse, era provvel que ambos tivessem de lutar - quase com certeza em lados opostos. Seriam oficiais, mas nenhum dos dois usaria artifcios para conseguir um cargo seguro no quartel-general: iriam querer conduzir os soldados na frente de batalha. Os dois homens que amava talvez acabassem atirando um contra o outro. Ela sentiu um calafrio. Era uma ideia insuportvel.
Maud evitou cruzar olhares com Walter. Tinha a sensao de que as mais intuitivas das amigas de Bea j haviam percebido quanto tempo os dois passavam conversando. No se importava com essas desconfianas - elas logo ficariam sabendo a verdade afinal -, mas no queria que os boatos chegassem aos ouvidos de Fitz antes de ele ser oficialmente informado. Caso contrrio, seu irmo ficaria extremamente ofendido. Assim, ela vinha tentando no deixar seus sentimentos transparecerem.
Fitz sentou-se ao seu lado. Tentando encontrar um assunto que no envolvesse Walter, ela pensou em Ty Gwyn e perguntou:
-		Que fim levou aquela sua governanta galesa, Williams? Ela sumiu e, quando perguntei aos outros criados, todos me deram respostas vagas.
-		Tive de mand-la embora - respondeu Fitz.
-		Nossa! - Maud ficou surpresa. - No sei por que, mas eu tinha a impresso de que voc gostava dela.
-		No especialmente. - Ele parecia encabulado.
-		O que ela fez para desagrad-lo?
-		Ela sofreu as consequncias da falta de castidade.
-		Fitz, deixe de ser pomposo! - falou Maud, rindo. - Est querendo dizer que ela ficou grvida?
-		Fale baixo, por favor. Voc conhece a duquesa.
-		Pobre Williams. Quem  o pai?
-		Minha cara, voc acha que eu perguntei?
-		No, claro que no. Espero que ele "faa a coisa certa", como se diz.
-		Pouco me importa. Pelo amor de Deus, ela  uma criada.
-		Voc no costuma ser to insensvel em relao aos seus empregados.
-		No se deve recompensar a imoralidade.
-		Eu gostava de Williams. Ela era mais inteligente e interessante do que a maioria destas dondocas aqui.
-		No seja ridcula.

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Maud desistiu. Por algum motivo, Fitz estava fingindo no ligar para Williams. Mas seu irmo nunca gostava de se explicar, e era intil pression-lo.
Walter se aproximou dos dois, equilibrando uma xcara, um pires e um pratinho de bolo em uma das mos. Sorriu para Maud, porm dirigiu-se a Fitz.
-		Voc conhece Churchill, no conhece?
-		O pequeno Winston? - disse Fitz. -  claro que conheo. Ele comeou a carreira no meu partido, mas depois virou liberal. Acho que no fundo ele ainda  um conservador como ns.
-		Na sexta-feira passada, ele jantou com Albert Ballin. Eu adoraria saber o que Ballin tinha a dizer.
-		Eu posso lhe contar... Winston anda repetindo para todo mundo. Em caso de guerra, Ballin falou que, se a Gr-Bretanha ficar de fora, a Alemanha promete deixar a Frana intacta depois do conflito, sem reivindicar nenhum territrio a mais... ao contrrio da ltima vez, em que eles anexaram a Alscia e a Lorena sem a menor cerimnia.
-		Ah - comentou Walter com satisfao. - Obrigado. Venho tentando descobrir isso h dias.
-		A sua embaixada no sabe?
-		Est claro que o objetivo era fazer essa mensagem evitar os canais diplomticos normais.
Maud estava intrigada. Aquela parecia uma frmula promissora para manter a Gr-Bretanha fora de uma guerra na Europa. Talvez Fitz e Walter no precisassem atirar um no outro, afinal.
-		Como Winston reagiu? - perguntou ela.
-		De forma evasiva - respondeu Fitz. - Ele relatou a conversa ao gabinete, mas ela no foi discutida.
Maud estava prestes a perguntar, indignada, por que no, quando Robert von Ulrich apareceu com um ar desolado, como se tivesse sido informado naquele instante da morte de algum querido.
-		Mas o que h de errado com Robert? - disse Maud enquanto ele fazia uma reverncia para Bea.
Robert ento se virou, dirigindo-se a todos os presentes.
-		A ustria declarou guerra  Srvia - anunciou.
Por um instante, Maud teve a impresso de que o mundo havia parado. Ningum se mexeu, ningum falou nada. Ela encarou a boca de Robert debaixo do bigode retorcido e desejou que ele retirasse as palavras que acabara de dizer. Ento o relgio sobre a lareira bateu e um murmrio de consternao se ergueu na sala.

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Os olhos de Maud se encheram de lgrimas. Walter lhe ofereceu um leno de linho branco dobrado com esmero.
-		Voc vai ter que lutar - disse ela a Robert.
-		 claro que sim - respondeu Robert. Falou depressa, como se estivesse afirmando o bvio, mas parecia amedrontado.
Fitz se levantou.
-		 melhor eu voltar para a Cmara e descobrir o que est acontecendo.
Vrias outras pessoas foram embora. Na agitao generalizada, Walter falou
baixinho com Maud:
-		De repente, a proposta de Albert Ballin ficou dez vezes mais importante.
Maud achava o mesmo.
-		Ser que ns podemos fazer alguma coisa?
-		Preciso saber o que o governo britnico de fato pensa a respeito.
-		Vou tentar descobrir. - Ela estava grata pela oportunidade de agir.
-		Tenho que voltar para a embaixada.
Maud observou Walter partir, desejando poder lhe dar um beijo de despedida. A maioria dos convidados foi embora na mesma hora e Maud subiu s escondidas para seu quarto.
Uma vez l, tirou o vestido e se deitou na cama. Pensar em Walter indo  guerra a fez chorar descontroladamente. Depois de algum tempo, acabou pegando no sono.
Quando acordou, j era hora de sair. Ela havia sido convidada para o sarau de lady Glenconner. Sentiu-se tentada a ficar em casa, mas ento lhe ocorreu que poderia haver um ou dois ministros do governo na casa dos Glenconner. Talvez pudesse descobrir algo til para Walter. Levantou-se e foi se vestir.
Maud e tia Herm atravessaram o Hyde Park na carruagem de Fitz at Queen Annes Gate, onde os Glenconner moravam. Entre os convidados estava Johnny Remarc, amigo de Maud e subsecretrio no Departamento de Guerra; mais importante que isso, contudo, era que Sir Edward Grey estava presente. Ela se decidiu a falar com ele sobre Albert Ballin.
A msica comeou antes de a oportunidade surgir e ela se sentou para escutar. Campbell Mclnnes cantava uma seleo de canes de Hndel - compositor alemo que vivera em Londres durante a maior parte da vida, pensou Maud com ironia.
Durante o recital, ela ficou observando discretamente Sir Edward Grey. No gostava muito dele, que pertencia a um grupo poltico chamado imperialistas liberais, mais tradicional e conservador do que a maioria do partido. No entanto, sentiu uma compaixo repentina por Grey. Ele nunca fora um homem alegre,

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mas naquela noite seu rosto cadavrico parecia muito plido, como se ele carregasse nos ombros todo o peso do mundo - o que obviamente era o caso.
Mclnnes cantava bem e Maud imaginou com pesar quanto Walter teria apreciado aquela noite, caso no estivesse ocupado demais para comparecer.
Assim que a msica terminou, ela encurralou o ministro das Relaes Exteriores.
-		O Sr. Churchill me disse que lhe transmitiu um recado interessante de Albert Ballin - disse ela. Viu o semblante de Grey se retesar, mas continuou assim mesmo. - Se ns ficarmos de fora de uma guerra na Europa, a Alemanha promete no anexar nenhum territrio francs.
-		Algo desse tipo - respondeu Grey com frieza.
Estava claro que ela havia puxado um assunto indigesto. As regras de etiqueta exigiam que o abandonasse na mesma hora. Aquilo, contudo, no era apenas uma manobra diplomtica: dizia respeito ao fato de Fitz e Walter terem ou no de ir  guerra. Ela insistiu:
-		Pelo que entendi, a principal preocupao do senhor  que o equilbrio de poder na Europa no seja perturbado, ento imaginei que a proposta de Herr Ballin pudesse ser satisfatria para ns. Eu estava enganada?
-		Com toda a certeza - respondeu ele. - Essa proposta  infame. - O ministro estava quase alterado.
Maud se desanimou. Como ele podia desdenhar a proposta de Ballin? Ela representava uma centelha de esperana!
-		O senhor poderia explicar a uma simples mulher, que no entende esses assuntos com tanta rapidez, por que diz isso com tanta firmeza? - pediu ela.
-		Fazer o que Ballin sugeriu seria o mesmo que preparar o terreno para a Alemanha invadir a Frana. Ns seramos cmplices. Estaramos traindo de forma srdida um pas amigo.
-		Ah - disse ela. - Acho que entendi.  como se algum dissesse: "Vou assaltar seu vizinho, mas, se voc ficar quieto e no interferir, prometo no queimar a casa dele tambm."  isso?
Grey se mostrou um pouco mais caloroso.
-		Uma boa analogia - falou, com um sorriso mirrado. - Eu prprio vou us-la.
-		Obrigada - disse Maud. No poderia estar mais decepcionada, e sabia que seu rosto mostrava isso, mas no conseguia evitar. - Infelizmente, isso nos deixa perigosamente prximos da guerra - concluiu com desnimo.
-		Temo que sim - respondeu o ministro das Relaes Exteriores.

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Como a maioria dos parlamentos mundo afora, o britnico era dividido em duas cmaras. Fitz era membro da Cmara dos Lordes, que inclua a nata da aristocracia, os bispos e os juzes do alto escalo. A Cmara dos Comuns era formada por representantes eleitos conhecidos como membros do Parlamento. Ambas se reuniam no Palcio de Westminster, prdio gtico vitoriano construdo para esse fim e dotado de uma torre com relgio. O relgio era chamado de Big Ben, embora Fitz gostasse de esclarecer que esse na verdade era o nome do grande sino existente no palcio.
   Quando o Big Ben bateu o meio-dia da quarta-feira, 29 de julho, Fitz e Walter pediram um xerez para tomar antes do almoo na varanda ao lado do malcheiroso rio Tmisa. Fitz, como sempre, admirou o palcio com satisfao: era extraordinariamente grande, rico e slido, assim como o imprio governado a partir de suas salas e corredores. O prdio parecia capaz de durar mil anos - mas ser que o imprio iria sobreviver? Fitz sentiu um calafrio ao pensar nas ameaas que pairavam sobre ele: sindicalistas arruaceiros, mineradores em greve, o Kaiser, o Partido Trabalhista, os irlandeses, as militantes feministas - at a prpria irm.
   No entanto, no deu vazo a esses pensamentos sombrios, principalmente por estar diante de um convidado estrangeiro.
  -		Este lugar parece um clube - falou, descontrado. - Tem bares, sales de jantar, alm de uma senhora biblioteca. E eles s deixam as pessoas adequadas entrarem. - Nesse instante, um membro liberal do Parlamento passou acompanhado de um membro liberal da Cmara dos Lordes, ao que Fitz concluiu: - Embora de vez em quando a ral consiga passar pelo porteiro.
   Walter estava animado com as ltimas notcias.
  -		Voc j soube? - indagou ele. - O Kaiser mudou completamente de atitude.
   Fitz no estava sabendo.
  -		Como assim?
  -		Ele disse que a resposta srvia no deixa mais motivos para uma guerra e que os austracos no devem marchar alm de Belgrado.
   Fitz desconfiava dos planos de paz. Sua maior preocupao era que a Gr-Bretanha mantivesse seu posto de nao mais poderosa do mundo. Temia que o governo liberal colocasse isso a perder em nome de alguma crena tola de que todas as naes eram igualmente soberanas. Sir Edward Grey era um homem bastante sensato, mas poderia ser afastado pela ala esquerdista do partido - provavelmente liderada por Lloyd George -, e, nesse caso, tudo seria possvel.
   
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-		No marchar alm de Belgrado - disse ele, pensativo. A capital srvia ficava na fronteira: para captur-la, o Exrcito austraco teria de se aventurar menos de dois quilmetros no territrio da Srvia. Os russos poderiam ser convencidos a considerar isso uma ao policial interna que no constitua ameaa para eles. - Pergunto-me o que isso significa.
Fitz no queria a guerra, mas parte dele acalentava em segredo essa possibilidade. Seria sua oportunidade de provar a prpria coragem. Seu pai havia sido condecorado por sua participao em batalhas navais, mas Fitz jamais participara de um combate. Um homem precisava fazer certas coisas antes de poder realmente ser chamado de homem - e lutar pelo rei e pelo pas era uma delas.
Eles foram abordados por um mensageiro vestido com libr - cala de veludo na altura do joelho e meias de seda brancas.
-		Boa tarde, conde Fitzherbert - disse ele. - Seus convidados j chegaram e foram direto para o salo de jantar.
Depois de o mensageiro se retirar, Walter perguntou:
-		Por que vocs os obrigam a se vestirem desse jeito?
-		Tradio - respondeu Fitz.
Os dois esvaziaram suas taas e entraram. O corredor ostentava um tapete vermelho grosso e paredes revestidas de lambris entalhados. Eles seguiram at o salo de jantar dos membros da Cmara dos Lordes. Maud e tia Herm j estavam  mesa.
Aquele almoo fora ideia de Maud: Walter nunca tinha entrado no palcio, dissera ela. Enquanto Walter fazia uma mesura e Maud lhe dava um caloroso sorriso, um pensamento despropositado cruzou a mente de Fitz: ser que havia uma certa tendresse entre eles? No, isso era ridculo. Maud era capaz de qualquer coisa,  claro, mas Walter era um homem sensato demais para cogitar um matrimnio anglo-germnico em um momento de tenso como aquele. Alm do mais, os dois eram como irmos.
Quando os homens se sentaram, Maud disse:
-		Estive na sua clnica peditrica hoje pela manh, Fitz.
Ele arqueou as sobrancelhas.
-		A clnica  minha?
-		Quem paga as contas  voc.
-		Pelo que me lembro, foi voc quem me disse que deveria haver uma clnica no East End para mes e filhos sem nenhum homem para sustent-los. Eu apenas concordei e, quando percebi, j estava recebendo as contas.
-		Como voc  generoso!

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   Fitz no se incomodava com aquilo. Um homem da sua condio tinha que fazer caridade, e era cmodo que Maud se encarregasse de todo o trabalho. Ele no espalhava aos quatro ventos que a maioria das mes que frequentavam a clnica no era casada nem nunca fora: no queria escandalizar sua tia duquesa.
  -		Duvido que voc adivinhe quem apareceu l mais cedo - prosseguiu Maud. - Williams, a governanta de Ty Gwyn. - Fitz ficou gelado. - Ns falamos sobre ela ontem  noite! - acrescentou Maud alegremente.
   Fitz tentou manter uma expresso de indiferena inabalvel. Como a maioria das mulheres, Maud tinha grande talento para interpretar os sentimentos masculinos. No queria que ela desconfiasse da verdadeira natureza de seu envolvimento com Ethel: era embaraoso demais.
   Ele sabia que Ethel estava em Londres. Encontrara uma casa em Aldgate, que Fitz instrura Solman a comprar no nome dela. Fitz temia o constrangimento de encontr-la na rua, mas fora Maud quem havia topado com ela.
   Por que teria ido  clnica? Fitz esperava que ela estivesse passando bem.
  -		Espero que ela no esteja doente - disse ele, tentando imprimir o tom de um simples comentrio corts.
  -		Nada grave - disse Maud.
   Fitz sabia que as grvidas costumavam sofrer pequenas mazelas. Bea tivera um sangramento que a deixara preocupada, mas o professor Rathbone garantira que isso era comum por volta do terceiro ms e que geralmente no queria dizer nada, embora ela no devesse fazer muito esforo - no que houvesse o menor risco de Bea fazer esforo.
  -		Eu me lembro de Williams - disse Walter. - Cabelos encaracolados e um sorriso atrevido. Quem  o marido dela?
  -		Um lacaio que visitou Ty Gwyn com o patro alguns meses atrs - respondeu Maud. -Teddy Williams  o nome dele.
   Fitz sentiu o rosto corar um pouco. Ento ela vinha chamando aquele marido imaginrio de Teddy! Ele desejou que Maud no a tivesse encontrado. Queria esquecer Ethel. Mas ela se recusava a ir embora. Para esconder o constrangimento, ele fingiu olhar em volta  procura de um garom.
   Disse a si mesmo que precisava parar de frescura. Ethel era uma criada e ele um conde. Os homens da aristocracia sempre haviam buscado o prazer onde pudessem encontr-lo. Esse tipo de coisa acontecia h centenas de anos, provavelmente milhares. Deixar-se levar por sentimentalismos era uma tolice.
   Ele mudou de assunto repetindo, para as senhoras, as notcias de Walter sobre o Kaiser.
   
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-		Tambm fiquei sabendo - disse Maud. - Deus permita que os austracos lhe deem ouvidos - acrescentou ela com fervor.
Fitz ergueu uma sobrancelha para a irm.
-		Por que tanto alvoroo?
-		Eu no quero que voc leve um tiro! - disse ela. - E no quero que Walter seja nosso inimigo. - A voz dela ficou embargada, e Fitz se perguntou por que as mulheres eram sempre to emotivas.
-		Lady Maud, a senhorita por acaso sabe como as sugestes do Kaiser foram recebidas por Asquith e Grey? - indagou Walter.
Maud se recomps.
-		Grey disse que, combinadas com a sua proposta de uma conferncia de quatro poderes, elas poderiam evitar a guerra.
-		Excelente! - disse Walter. - Era essa a minha esperana. - Ele estava entusiasmado como um menino, e a expresso em seu rosto fez Fitz se lembrar de quando ainda estavam na escola. Era daquele jeito que Walter tinha ficado ao ganhar o Prmio de Msica durante a gincana anual.
-		Vocs viram que aquela horrvel Madame Caillaux foi inocentada? - disse tia Herm.
Fitz ficou pasmo.
-		Inocentada? Mas ela deu um tiro naquele homem! Foi a uma loja, comprou uma arma, colocou balas nela, foi at a redao do Le Figaro, pediu para ver o editor e o alvejou at a morte... como pode no ser culpada?
-		Ela disse: "Essas armas disparam sozinhas." - respondeu tia Herm. - Francamente!
Maud soltou uma risada.
-		O jri deve ter gostado dela - disse Fitz. Estava irritado com Maud por ela ter rido. Jris volveis eram uma ameaa  ordem social. No se podia tratar assassinato de forma leviana. - Tpico dos franceses - falou ele com repulsa.
-		Eu admiro Madame Caillaux - disse Maud.
Fitz soltou um grunhido de reprovao.
-		Como voc pode falar isso sobre uma assassina?
-		Acho que mais gente deveria atirar em editores de jornal - disse ela, gracejando. - Talvez isso melhore a qualidade da imprensa.
No dia seguinte, uma quinta-feira, Walter ainda estava cheio de esperana quando foi visitar Robert.

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Apesar da presso de homens como Otto, o Kaiser ainda hesitava. O ministro da Guerra alemo, Erich von Falkenhayn, havia exigido uma declarao Zustand drohender Kriegsgefahr, uma ao preliminar que acenderia o pavio da guerra - mas o Kaiser havia se recusado a faz-la, pois acreditava ser possvel evitar um conflito generalizado se os austracos no marchassem alm de Belgrado. E, quando o czar russo ordenara a mobilizao de seu exrcito, o Kaiser Guilherme enviara um telegrama pessoal pedindo-lhe que reconsiderasse a questo.
Os dois eram primos. A me do Kaiser e a sogra do czar tinham sido irms, ambas filhas da rainha Vitria. Os monarcas falavam-se em ingls e se tratavam por "Nicky" e "Willy". A mensagem do primo Willy havia comovido o czar Nicolau, que emitira uma contraordem para deter a mobilizao.
Se ambos conseguissem se manter firmes, talvez o futuro pudesse sorrir para Walter e Maud e para milhes de outras pessoas que s queriam viver em paz.
A embaixada austraca era uma das casas mais imponentes da prestigiosa Belgrave Square. Walter foi conduzido at a sala de Robert. Os dois sempre compartilharam informaes. No havia motivo para ser de outra forma: seus dois pases eram aliados prximos.
-		O Kaiser parece decidido a fazer funcionar seu plano de "no marchar alm de Belgrado" - disse Walter enquanto se sentava. - Depois, todas as questes pendentes podero ser solucionadas.
Robert no demonstrava o mesmo otimismo.
-		No vai dar certo - falou.
-		Mas por que no?
-		Ns no estamos dispostos a parar em Belgrado.
-		Pelo amor de Deus! - disse Walter. - Voc tem certeza?
-		A questo vai ser discutida pelos ministros em Viena amanh de manh, mas temo que o resultado j esteja certo. No podemos parar em Belgrado sem garantias da Rssia.
-		Garantias? - repetiu Walter, indignado. - Vocs precisam parar de lutar e depois conversar sobre os problemas. No podem exigir garantias de antemo!
-		Infelizmente ns no pensamos assim - disse Robert, inflexvel.
-		Mas ns somos seus aliados. Como vocs podem rejeitar nosso plano de paz?
-		 simples. Pense um pouco. O que vocs podem fazer? Se a Rssia se mobilizar, ficaro ameaados e tero de se mobilizar tambm.
Walter estava prestes a protestar, mas viu que Robert tinha razo. O Exrcito russo, uma vez mobilizado, seria uma ameaa grande demais.

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Robert prosseguiu sem d:
-		Vocs so obrigados a lutar do nosso lado, quer queiram, quer no. - Seu rosto assumiu uma expresso contrita. - Perdoe-me se eu estiver soando arrogante. Estou apenas expondo a realidade.
-		Que inferno! - disse Walter. Estava com vontade de chorar. Vinha se agarrando a uma esperana, mas as palavras implacveis de Robert o haviam abalado. - A situao est degringolando, no ? - falou. - Os que querem a paz vo sair perdendo.
A voz de Robert mudou e, de repente, ele pareceu triste.
-		Eu sabia disso desde o princpio - falou ele. - A ustria tem que atacar.
At ento, Robert havia soado impetuoso, no triste. Por que a mudana? Para
sondar o primo, Walter disse:
-		Voc talvez precise sair de Londres.
-		Voc tambm.
Walter assentiu. Se a Gr-Bretanha entrasse na guerra, todo o corpo diplomtico austraco e alemo teria que voltar para seus respectivos pases sem delongas. Ele abaixou a voz:
-		Voc... vai sentir falta de algum em especial?
Robert assentiu. Havia lgrimas em seus olhos.
Walter arriscou um palpite:
-		Lorde Remarc?
Robert deu uma risada sem alegria.
-		 to bvio assim?
-		S para quem conhece voc.
-		Johnny e eu achamos que estivssemos sendo to discretos... - Robert sacudiu a cabea, pesaroso. - Pelo menos voc pode se casar com Maud.
-		Quem me dera.
-		O que o impede?
-		Um casamento entre um alemo e uma inglesa, com os dois pases em guerra? Ela seria rejeitada por todos que conhece. E eu tambm. No meu caso, no ligaria para isso, mas jamais poderia impor algo assim a ela.
-		Casem-se em segredo.
-		Em Londres?
-		Casem-se em Chelsea. Ningum conhece vocs l.
-		No  preciso morar no local?
-		Basta mostrar um envelope com seu nome e um endereo no bairro. Eu moro em Chelsea... posso lhe dar uma carta endereada ao Sr. Von Ulrich. - Ele

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vasculhou uma das gavetas de sua escrivaninha. - Tome. Uma conta do meu alfaiate endereada ao limo. Von Ulrich. Eles acham que Von  o meu primeiro nome.
-		Talvez no haja mais tempo.
-		Voc pode pedir uma autorizao especial.
-		Minha nossa! - exclamou Walter. Estava atordoado. - Voc tem razo. Posso mesmo.
-		Vai precisar ir  prefeitura.
-		Sim.
-		Quer que eu lhe mostre onde fica?
Walter refletiu por um bom tempo, ento falou:
-		Quero, por favor.
Vil
- Os generais venceram - disse Anton na sexta-feira, 31 de julho, parado em frente ao tmulo de Eduardo, o Confessor na Abadia de Westminster. - O czar cedeu ontem  tarde. Os russos esto se mobilizando.
Aquilo era uma sentena de morte. Walter sentiu seu corao gelar.
-		 o comeo do fim - continuou Anton, e Walter pde ver o brilho da vingana nos olhos dele. - Os russos se acham fortes porque tm o maior exrcito do mundo. Mas a liderana deles  fraca. Vai ser o apocalipse.
Era a segunda vez na semana que Walter ouvia a mesma palavra. Mas, dessa vez, sabia que ela era justificvel. Em poucas semanas, o Exrcito russo de seis milhes de homens - seis milhes - estaria reunido nas fronteiras da Alemanha e da Hungria. Nenhum lder europeu poderia ignorar uma ameaa dessas. A Alemanha teria que se mobilizar; o Kaiser no tinha mais escolha.
No havia nada que Walter pudesse fazer. Em Berlim, o Estado-Maior Geral pressionava pela mobilizao alem e o chanceler, Theobald von Bethmann-Hollweg, havia prometido uma deciso at o meio-dia de sexta. Aquela notcia significava que lhe restava apenas uma deciso a tomar.
Walter precisava informar Berlim imediatamente. Despediu-se s pressas de Anton e saiu da igreja majestosa. Caminhou o mais rpido que pde pela ruela chamada Storeys Gate, seguiu trotando pela borda leste do St. Jamess Park e subiu correndo os degraus junto ao monumento ao duque de York para entrar na embaixada alem.
A porta da sala do embaixador estava aberta. O prncipe Lichnowsky estava

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sentado  sua mesa, com Otto em p ao seu lado. Gottfried von Kessel estava ao telefone. Havia mais uma dzia de pessoas na sala, enquanto auxiliares de escritrio entravam e saam apressados.
Walter estava sem ar. Ofegante, perguntou ao pai:
-		O que est acontecendo?
-		Berlim recebeu um cabo de nossa embaixada em So Petersburgo que diz apenas: "Primeiro dia de mobilizao 31 de julho." Eles esto tentando confirmar a informao.
-		O que Von Kessel est fazendo?
-		Mantendo aberta a linha de telefone com Berlim para termos notcias.
Walter respirou fundo e deu um passo  frente.
-		Alteza - disse ele ao prncipe Lichnowsky.
-		Sim?
-		Posso confirmar a mobilizao russa. Minha fonte me informou menos de uma hora atrs.
-		Certo. - Lichnowsky estendeu a mo para o telefone e Von Kessel lhe passou o aparelho.
Walter olhou para o relgio. Faltavam dez minutos para as onze - muito pouco para o prazo de meio-dia em Berlim.
-		A mobilizao russa foi confirmada por uma fonte segura aqui - disse Lichnowsky ao telefone.
Ele passou alguns segundos escutando. A sala estava em silncio. Ningum se movia.
-		Sim - falou Lichnowsky por fim. - Entendo. Muito bem.
Ele desligou com um clique que pareceu uma trovoada.
-		O chanceler decidiu - disse ele. Em seguida, repetiu as palavras que Walter vinha temendo ouvir. - Zustand drohender Kriegsgefahr. Preparem-se para a guerra iminente.

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CAPTULO DEZ
13 de agosto de 1914

Maud estava louca de preocupao. Na manh de sbado, sentada na sala do
caf da manh da casa de Mayfair, no conseguia comer nada. O sol de
vero entrava pelas janelas altas. A decorao deveria trazer uma sensao de paz
- tapetes persas, paredes verde-gua, cortinas azul-claras -, mas nada conseguia
acalm-la. A guerra estava chegando e ningum parecia capaz de impedi-la: nem
o Kaiser, nem o czar, nem Sir Edward Grey.
Bea entrou, usando um vestido de vero difano e um xale de renda. Grout, o
mordomo, serviu-lhe caf com as mos enluvadas e ela apanhou um pssego em
uma fruteira.
Maud olhou para o jornal, mas no conseguiu passar das manchetes. Estava
nervosa demais para se concentrar. Atirou o jornal de lado. Grout o pegou,
dobrando-o com perfeio.
-		No se preocupe, senhora - disse ele. - Ns daremos uma sova nos alemes
se for preciso.
Ela o fuzilou com o olhar, mas no disse nada. Era uma tolice discutir com
criados - eles sempre acabavam concordando, por deferncia.
Com tato, tia Herm se livrou do mordomo.
-		Tenho certeza de que voc est certo, Grout - falou. - Traga mais uns brioches quentes, sim?
Fitz entrou. Perguntou a Bea como estava se sentindo, e ela deu de ombros.
Maud percebia que algo no relacionamento dos dois havia mudado, mas estava
distrada demais para pensar no assunto. Sem demora, perguntou a Fitz:
-		O que aconteceu ontem  noite? - Sabia que ele havia se reunido com a
cpula do Partido Conservador em uma casa de campo chamada Wargrave.
-		F.E. apareceu com um recado de Winston. - F.E. Smith, membro conservador do Parlamento, era amigo ntimo do liberal Winston Churchill. - Ele props
um governo de coalizo formado por liberais e conservadores.
Maud ficou chocada. Em geral, sabia o que estava acontecendo nos crculos
liberais, mas o primeiro-ministro Asquith havia guardado esse segredo.
-		Isso  inadmissvel! - disse ela. - Assim a guerra se torna mais provvel
ainda.

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Com uma calma irritante, Fitz pegou algumas linguias na travessa aquecida sobre o aparador.
-		A ala esquerdista do Partido Liberal  quase pacifista. Imagino que Asquith esteja com medo de que eles tentem atar suas mos. Mas ele no tem apoio suficiente no prprio partido para derrub-los. Para quem pode pedir ajuda? S mesmo para os conservadores. Da a proposta de coalizo.
Era o que Maud temia.
-		O que Bonar Law disse sobre a proposta? - Andrew Bonar Law era o lder dos conservadores.
-		Ele recusou.
-		Graas a Deus.
-		E eu o apoiei.
-		Por qu? Voc no quer que Bonar Law tenha um cargo no governo?
-		Estou esperando mais do que isso. Se Asquith quer a guerra e se Lloyd George liderar uma rebelio da ala esquerdista, os liberais talvez fiquem divididos demais para governar. Nesse caso, o que aconteceria? Ns, conservadores, precisaramos assumir... e Bonar Law se tornaria primeiro-ministro.
Furiosa, Maud disse:
-		Est vendo como tudo parece conspirar a favor da guerra? Asquith quer uma coalizo com os conservadores porque eles so mais agressivos. Se Lloyd George liderar uma rebelio contra Asquith, os conservadores assumiro o poder de qualquer forma. Todos esto disputando posies em vez de lutar pela paz!
-		E voc? - indagou Fitz. - Foi a Halkyn House ontem  noite? - A casa do conde de Beauchamp era o quartel-general da ala pacifista.
Maud se animou. Havia uma nesga de esperana.
-		Asquith convocou uma reunio do gabinete para hoje de manh. - Algo raro de acontecer aos sbados. - Morley e Burns querem uma declarao de que a Gr-Bretanha no lutar contra a Alemanha em hiptese alguma.
Fitz sacudiu a cabea.
-		Eles no podem antecipar a deciso dessa forma. Grey renunciaria no ato.
-		Grey vive ameaando renunciar, mas nunca o faz.
-		Mesmo assim, eles no podem correr o risco de uma ciso no gabinete agora, com seus adversrios  espera de uma oportunidade, ansiosos para assumir o comando.
Maud sabia que Fitz estava certo. Poderia ter gritado de tanta frustrao.
Bea largou a faca e emitiu um rudo estranho.
-		Voc est bem, querida? - perguntou Fitz.

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Ela se levantou, segurando a barriga. Estava plida.
-		Com licena - falou, saindo s pressas da sala.
Maud se levantou, preocupada.
-		 melhor eu ir ajud-la.
-		Deixe que eu vou - disse Fitz, surpreendendo-a. - Termine seu caf.
A curiosidade de Maud a impediu de desconsiderar o assunto. Enquanto Fitz
ia at a porta, ela perguntou:
-		Bea est tendo enjoos matinais?
Fitz parou na soleira.
-		No conte a ningum - disse ele.
-		Parabns. Estou muito feliz por vocs.
-		Obrigado.
-		Mas a criana... - A voz de Maud ficou presa na garganta.
-		Ah! - disse tia Herm, compreendendo. - Mas que maravilha!
Com esforo, Maud prosseguiu.
-		A criana vai nascer em um mundo em guerra?
-		Misericrdia - disse tia Herm. - Eu no tinha pensado nisso.
Fitz deu de ombros.
-		No far diferena para um recm-nascido.
Maud sentiu que lgrimas lhe subiam aos olhos.
-		Para quando  o beb?
-		Janeiro - respondeu Fitz. - Por que voc est to abalada?
-		Fitz - disse Maud, incapaz de conter as lgrimas. - Fitz, ser que voc ainda
vai estar vivo?
A manh de sbado foi frentica na embaixada alem. Walter estava na sala do embaixador, filtrando telefonemas, trazendo telegramas e tomando notas. Aquele deveria estar sendo o momento mais empolgante de sua vida, no estivesse ele to preocupado com seu futuro com Maud. No entanto, no conseguia saborear a adrenalina de participar de um grande jogo de poder internacional porque estava torturado pelo medo de que ele e a mulher que amava fossem se tornar inimigos de guerra.
J no havia mais mensagens cordiais entre Willy e Nicky. Na tarde da vspera, o governo alemo havia transmitido um ultimato frio aos russos, dando-lhes 12 horas para deterem a mobilizao de seu monstruoso exrcito.

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   O prazo havia passado sem nenhuma resposta de So Petersburgo.
   Mesmo assim, Walter ainda acreditava que a guerra pudesse ficar limitada ao leste da Europa, de modo que a Alemanha e a Gr-Bretanha talvez continuassem amigas. O embaixador Lichnowsky compartilhava seu otimismo. At mesmo Asquith tinha dito que a Frana e a Gr-Bretanha poderiam ficar como espectadoras. Afinal de contas, nenhum dos dois pases tinha muito envolvimento com o futuro da Srvia e da regio dos Blcs.
   A chave de tudo era a Frana. Berlim havia despachado um segundo ultimato na tarde anterior, desta vez para Paris, pedindo que os franceses se declarassem neutros. Era uma chance mnima, embora Walter se agarrasse a ela com desespero. O ultimato vencia ao meio-dia. Enquanto isso, Joseph Joffre, chefe do Estado-Maior, havia exigido a mobilizao imediata do Exrcito francs e o governo se reuniria naquela manh para deliberar sobre o assunto. Como em qualquer pas, pensou Walter com pessimismo, os oficiais do Exrcito estavam pressionando seus chefes polticos para que dessem os primeiros passos rumo  guerra.
   A dificuldade de prever que partido os franceses tomariam era frustrante.
   s 10h45, faltando 75 minutos para o prazo da Frana se esgotar, Lichnowsky recebeu uma visita surpresa: Sir William Tyrrell. Oficial importante, com larga experincia em assuntos internacionais, Tyrrell era secretrio particular de Sir Edward Grey. Walter o conduziu imediatamente  sala do embaixador. Com um gesto, Lichnowsky pediu a Walter que ficasse.
   Tyrrell falou em alemo:
  -		O ministro das Relaes Exteriores pediu que eu lhes avisasse que um conselho de ministros reunido neste exato momento talvez lhe permita fazer um pronunciamento para vocs.
   Tratava-se obviamente de um discurso ensaiado. Embora o alemo de Tyrrell fosse perfeitamente fluente, ainda assim Walter no conseguiu entender o que aquilo significava. Lanou um olhar para Lichnowsky e viu que ele tambm estava confuso.
  -		Um pronunciamento que talvez se mostre til para evitar a grande catstrofe - prosseguiu Tyrrell.
   Aquilo era animador, porm vago. Walter teve vontade de dizer: V direto ao assunto!
   Lichnowsky respondeu com a mesma formalidade diplomtica forada.
  -		Que indicaes o senhor pode me dar em relao ao teor do pronunciamento, Sir William?
   
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Pelo amor de Deus, pensou Walter, esta  uma questo de vida ou morte!
O representante do governo falou com uma preciso calculada:
-		Existe a possibilidade de que, se a Alemanha no atacar a Frana, tanto a Frana quanto a Gr-Bretanha venham a repensar se esto de fato obrigadas a intervir no conflito na Europa Oriental.
Walter ficou to chocado que deixou cair o lpis. A Frana e a Gr-Bretanha fora da guerra - era o que ele queria! Encarou Lichnowsky. O embaixador tambm parecia surpreso e exultante.
-		Isso  muito promissor - disse ele.
Tyrrell ergueu uma das mos em sinal de cautela.
-		Entenda, por favor, que no posso prometer nada.
Claro, pensou Walter, mas o senhor no veio aqui para jogar conversa fora.
-		Ento deixe-me dizer somente que uma proposta de restringir a guerra ao leste da Europa seria examinada com grande interesse por Sua Majestade o Kaiser Guilherme e pelo governo alemo - falou Lichnowsky.
-		Obrigado. - Tyrrell se levantou. - Transmitirei essa resposta a Sir Edward.
Walter conduziu Tyrrell at a sada. Estava eufrico. Se a Frana e a Gr-
-Bretanha ficassem fora da guerra, nada poderia impedi-lo de se casar com Maud. Estaria ele se iludindo?
Retornou  sala do embaixador. Antes que os dois pudessem conversar sobre o que Tyrrell dissera, o telefone tocou. Walter atendeu e ouviu uma voz inglesa conhecida dizer:
-		Aqui  Grey. Posso falar com Sua Excelncia?
-		Naturalmente, senhor. - Walter passou o fone para o embaixador. - Sir Edward Grey.
-		Lichnowsky falando. Bom dia... Sim, Sir William acaba de sair daqui...
Walter ficou encarando o embaixador, ouvindo com sofreguido a sua metade da conversa e tentando interpretar suas expresses.
-		 uma sugesto muito interessante... Permita-me deixar clara a nossa posio. A Alemanha no tem nada contra a Frana ou a Gr-Bretanha.
Grey parecia estar corroborando o que Tyrrell tinha dito. Os ingleses sem dvida estavam levando aquilo muito a srio.
-		Est claro que a mobilizao russa  uma ameaa que no pode ser ignorada - disse Lichnowsky -, mas  uma ameaa  nossa fronteira oriental e  de nossa aliada, a ustria-Hungria. Ns pedimos  Frana uma garantia de neutralidade. Se a Frana puder nos dar isso, ou se, como alternativa, a Gr-Bretanha puder garantir a neutralidade francesa, no haver motivo para uma guerra na

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Europa Ocidental... Obrigado, ministro. Perfeito... ligarei para o senhor s trs e meia da tarde de hoje. - Ele desligou.
Ele olhou para Walter. Ambos sorriram, triunfantes.
-		Ora - disse Lichnowsky -, por essa eu no esperava!
Ill
Maud estava em Sussex House, onde um grupo de influentes membros conservadores das cmaras dos Comuns e dos Lordes havia se reunido na sala de estar matutina da duquesa para tomar ch. Foi ento que Fitz apareceu, bufando de raiva.
-		Asquith e Grey esto desmoronando! - exclamou ele, apontando para um suporte de bolo feito de prata. - Desmoronando como aquela broa despedaada. Eles vo trair nossos amigos. Sinto vergonha de ser britnico.
Maud vinha temendo isso. Fitz no fazia concesses. Para o irmo, cabia  Gr-Bretanha dar ordens e ao mundo obedec-las. A ideia de que o governo tivesse que negociar com terceiros em p de igualdade lhe causava repulsa. E o nmero de pessoas que concordavam com ele era preocupante.
-		Acalme-se, Fitz querido, e conte-nos o que aconteceu - pediu a duquesa.
-		Asquith mandou uma carta para Douglas hoje de manh - disse Fitz. Maud sups que ele estivesse se referindo ao general Sir Charles Douglas, chefe do Estado-Maior Imperial. - O nosso primeiro-ministro pretendia deixar registrado que o governo jamais havia prometido enviar soldados britnicos  Frana no caso de guerra contra a Alemanha!
Maud, que era a nica liberal no recinto, sentiu-se obrigada a defender o governo:
-		Mas  verdade, Fitz. Asquith est s deixando claro que as nossas alternativas ainda esto em aberto.
-		Ento para que serviram todas as conversas que tivemos com as Foras Armadas francesas?
-		Para explorar possibilidades! Para fazer planos de contingncia! Conversas no so contratos... sobretudo em termos de poltica internacional.
-		Amigos so amigos. A Gr-Bretanha  um lder mundial. Uma mulher no entende a complexidade desse tipo de situao, mas as pessoas esperam que ns protejamos nossos vizinhos. Como cavalheiros, temos averso a qualquer indcio de engodo e deveramos agir da mesma forma como pas.
Era esse o tipo de conversa que ainda podia levar a Gr-Bretanha a se envolver

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em uma guerra, pensou Maud, sentindo uma pontada de pnico. No conseguia de forma alguma fazer o irmo entender o perigo. O amor que nutriam um pelo outro sempre tinha sido mais forte do que suas diferenas polticas, mas agora os dois estavam to contrariados que poderiam brigar feio. E, quando Fitz se desentendia com algum, nunca fazia as pazes. No entanto, era ele quem teria de lutar e, quem sabe, morrer - baleado, transpassado por uma baioneta ou destroado por uma bomba. Ele e Walter tambm. Como Fitz no enxergava isso? Maud tinha vontade de gritar.
   Enquanto ela lutava para encontrar as palavras certas, um dos presentes falou. Maud o reconheceu como o editor da seo internacional do jornal The Times, um homem chamado Steed.
  -		Eu posso lhes dizer que est havendo uma suja tentativa financeira internacional por parte dos judeus alemes para intimidar meu jornal e faz-lo defender a neutralidade - disse ele.
   A duquesa contraiu os lbios: no gostava do linguajar chulo da imprensa marrom.
  -		Por que o senhor diz isso? - perguntou Maud a Steed com frieza.
  -		Lorde Nathan Rotschild falou ontem com nosso editor de economia - respondeu o jornalista. - Ele quer que moderemos o tom antialemo de nossos artigos em nome da paz.
   Maud conhecia Natty Rotschild, que era um liberal.
  -		E o que lorde Northcliffe pensa sobre o pedido de Rotschild? - perguntou ela. Northcliffe era o dono do jornal.
   Steed sorriu.
  -		Ele mandou que publicssemos um artigo ainda mais duro hoje. - Steed pegou um exemplar do Times em uma mesa de canto e o brandiu no ar. - "A paz no  nosso maior interesse" - citou.
   Maud no conseguia pensar em nada mais desprezvel do que incentivar a guerra de forma to deliberada. Notou que at Fitz achava repulsiva a atitude frvola do jornalista. Ela estava prestes a dizer algo quando o irmo, cuja cordialidade jamais falhava, nem mesmo diante dos homens mais grosseiros, mudou de assunto.
  -		Encontrei h pouco o embaixador francs, Paul Cambon, saindo do Ministrio das Relaes Exteriores - disse. - Estava branco como papel. "Ils vont nous lcher", disse ele. "Eles vo nos abandonar." Tinha acabado de conversar com Grey.
  -		Voc sabe o que Grey disse para deixar Monsieur Cambon to abalado? - perguntou a duquesa.
   
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-		Sei, Cambon me disse. Parece que os alemes esto dispostos a deixar a Frana em paz se ela prometer ficar fora da guerra... E, se os franceses recusarem essa proposta, os britnicos no se sentiro obrigados a defend-los.
Maud sentiu pena do embaixador francs, mas seu corao deu um pulo de esperana diante da possibilidade de a Gr-Bretanha no participar da guerra.
-		Mas a Frana  obrigada a recusar essa proposta - argumentou a duquesa. - Ela assinou um tratado com a Rssia, pelo qual um pas deve ajudar o outro em caso de guerra.
-		Exatamente! - disse Fitz com irritao. - De que adianta fazer alianas internacionais se  para romp-las em momentos de crise?
-		Isso  tolice - retrucou Maud, ciente de que estava sendo grosseira, mas pouco se importando. - As alianas internacionais so rompidas sempre que os pases julgam conveniente. A questo no  essa.
-		E posso saber qual ? - perguntou Fitz com voz glida.
-		Eu acho que Asquith e Grey esto apenas tentando dar um choque de realidade nos franceses. A Frana no conseguiria derrotar a Alemanha sem a nossa ajuda. Se acharem que podem ter de lutar sozinhos, talvez os franceses assumam uma postura pacifista e pressionem seus aliados russos a abrirem mo de uma guerra contra a Alemanha.
-		E a Srvia?
-		Mesmo a esta altura, no  tarde demais para a Rssia e a ustria se sentarem  mesa e negociarem uma soluo para os Blcs aceitvel para ambas - disse Maud.
O silncio que se seguiu durou vrios segundos, ento Fitz falou:
-		Duvido muito que v acontecer coisa parecida.
-		Mas no deveramos - disse Maud, notando, enquanto falava, o desespero na prpria voz -, no deveramos manter viva essa esperana?
Sentada em seu quarto, Maud no conseguia reunir foras para mudar de roupa e ir jantar. Sua criada havia separado um vestido e algumas jias, porm Maud s conseguia olhar para eles.
No perodo conhecido como temporada londrina, que se estendia do final da Pscoa at meados de agosto, ela costumava ir a festas quase todas as noites, porque grande parte da poltica e da diplomacia que tanto a fascinavam ocorria durante eventos sociais. Naquela noite, contudo, sentia-se incapaz de sair - no

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conseguiria se mostrar glamourosa e encantadora; no conseguiria convencer homens poderosos a lhe dizer o que estavam pensando; no conseguiria jogar o jogo de faz-los mudar de opinio sem que eles desconfiassem que estavam sendo convencidos.
Walter iria  guerra. Vestiria um uniforme e portaria uma arma, e soldados inimigos iriam disparar contra ele bombas, morteiros e rajadas de metralhadora para tentar mat-lo ou feri-lo de tal forma que ele jamais voltaria a ficar em p. Ela tinha dificuldade de pensar em qualquer outra coisa e vivia  beira das lgrimas. Chegara at a trocar palavras speras com seu adorado irmo.
Algum bateu na porta. Grout estava em p do lado de fora.
-		Herr Von Ulrich est aqui, senhora - anunciou o mordomo.
Maud ficou chocada. No estava esperando Walter. O que ele estaria fazendo ali?
Ao perceber sua surpresa, Grout acrescentou:
-		Quando eu disse que meu patro no estava em casa, ele pediu para ver a senhorita.
-		Obrigada - disse Maud, passando por Grout e comeando a descer a escada.
Grout ainda falou:
-		Herr Von Ulrich est na sala de estar. Vou avisar a lady Hermia para se juntar a vocs. - At mesmo Grout sabia que Maud no devia ser deixada sozinha com um rapaz. Tia Herm, no entanto, no era nada rpida, de modo que vrios minutos se passariam antes de ela chegar.
Maud entrou s pressas na sala de estar e se atirou nos braos de Walter.
-		Walter, o que ns vamos fazer? - lamentou-se. - 
Ele a abraou com fora, fitando-a em seguida com expresso grave. Seu rosto
estava sombrio e abatido. Era como se tivesse recebido a notcia da morte de algum.
-		A Frana no respondeu ao ultimato alemo - disse ele.
-		Eles no disseram nada? - perguntou ela com um grito.
-		O nosso embaixador em Paris insistiu em receber uma resposta. A mensagem do primeiro-ministro Viviani foi: "A Frana cuidar de seus prprios interesses." Eles no vo prometer neutralidade.
-		Mas talvez ainda haja tempo...
-		No. Eles decidiram se mobilizar. Joffre ganhou a discusso... assim como os militares de todos os pases. Os telegramas foram enviados s quatro da tarde de hoje, horrio de Paris.
-		Mas tem que haver alguma coisa que vocs possam fazer!

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Fitz sentiu raiva ao ver uma passeata contra a guerra ocupar a Trafalgar Square na tarde de domingo.
    Keir Hardie, membro trabalhista da Cmara dos Comuns, estava discursando, vestido com um terno de tweed. Parece um guarda de caa, pensou Fitz. Em p no pedestal da Coluna de Nelson, Hardie gritava com a voz rouca em seu sotaque escocs, denegrindo a lembrana do heri que morreu pela Gr-Bretanha na batalha de Trafalgar.
    Ele dizia que a guerra iminente seria a maior catstrofe que o mundo j havia testemunhado. Representava um distrito minerador - Merthyr, prximo a Aberowen. Era filho ilegtimo de uma criada e, antes de entrar para a poltica, havia sido minerador. O que aquele sujeito sabia sobre a guerra?
    Fitz se afastou, enojado, e entrou na casa da duquesa para tomar o ch. No hall de entrada, deparou com Maud, que estava muito entretida em uma conversa com Walter. Para seu profundo pesar, a crise o estava afastando de ambos. Ele amava a irm e gostava muito de Walter, porm Maud era liberal e Walter era alemo, assim, em um momento como aquele, era difcil sequer lhes dirigir a palavra. De qualquer maneira, ele fez o possvel para soar simptico quando disse a Maud:
-		A Alemanha agora ficou sem alternativas - disse ele. - No podemos lutar contra a Rssia com uma Frana hostil atrs de ns, armada e vida para recuperar a Alscia-Lorena. Ento devemos atacar a Frana. O Plano Schlieffen j foi acionado. Em Berlim, as multides esto cantando o Kaiserhymne nas ruas.
-		Voc vai ter que se juntar ao seu regimento - disse ela, sem conseguir segurar as lgrimas.
-		Naturalmente.
Ela enxugou o rosto. Seu leno era pequeno demais, um retalho idiota, de cambraia de linho bordada. Em vez do leno, usou a manga da roupa.
 - Quando ter que ir embora de Londres? indagou. 
-		Vai demorar alguns dias. - Maud notou que ele prprio estava contendo as lgrimas. - Existe alguma chance de a Gr-Bretanha ficar de fora da guerra? - perguntou. - Assim eu pelo menos no estaria lutando contra o seu pas.
-		No sei - respondeu Maud. - O futuro dir. - Ela o puxou para mais perto. - Por favor, me abrace forte. - Ento, recostou a cabea em seu ombro e fechou os olhos.
 
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-		Ouvi dizer que a reunio do gabinete hoje de manh foi atribulada.
Ela aquiesceu.
-		Churchill mobilizou a frota ontem  noite sem consultar ningum. Pela manh, John Burns renunciou em protesto.
-		No posso fingir que lamento. - Burns era um velho radical, o mais fervoroso antibelicista dos ministros do gabinete. - Ento os demais devem ter apoiado a ao de Winston.
-		Com relutncia.
-		Devemos agradecer pelas pequenas coisas. - Fitz ficava consternado ao pensar que, em um momento de perigo para a nao, o governo estivesse nas mos daqueles esquerdistas titubeantes.
-		Mas recusaram o pedido de Grey para nos comprometermos a defender a Frana - disse Maud.
-		Continuam agindo como covardes, ento - comentou Fitz. Sabia que estava sendo grosseiro com a irm, mas sentia-se contrariado demais para se conter.
-		No exatamente - disse Maud com tranquilidade. - Eles concordaram em impedir a Marinha alem de atravessar o canal da Mancha para atacar a Frana.
Fitz se animou um pouco.
-		Bem, j  alguma coisa.
-		O governo alemo reagiu dizendo que no temos nenhuma inteno de mandar navios atravessarem o canal da Mancha - interveio Walter.
-		Viu o que acontece quando se age com firmeza? - perguntou Fitz a Maud.
-		No seja to presunoso, Fitz - respondeu ela. - Se ns entrarmos em guerra, ser porque pessoas como voc no se esforaram o suficiente para evit-la.
-		Ah,  mesmo? - Ele estava ofendido. - Bem, nesse caso, deixe-me lhe dizer uma coisa. Falei com Sir Edward Grey ontem  noite no clube Brooks. Ele pediu tanto aos franceses quanto aos alemes que respeitassem a neutralidade da Blgica. Os franceses concordaram na hora. - Fitz lanou um olhar desafiador para Walter. - Os alemes no responderam.
-		 verdade. - Walter deu de ombros, como se pedisse desculpas. - Meu caro Fitz, voc, como soldado, entende que ns no poderamos dar uma resposta, fosse ela positiva ou negativa, sem revelarmos nossos planos de guerra.
-		De fato, eu entendo, mas, levando-se em conta o que eu disse, quero saber por que minha irm me considera um fomentador da guerra, enquanto voc seria um pacifista.
Maud se esquivou da pergunta.
-		Lloyd George acha que a Gr-Bretanha deveria intervir apenas se o Exrcito

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alemo invadir o territrio belga de forma significativa. Ele talvez proponha isso na reunio do gabinete hoje  noite.
    Fitz sabia o que isso significava. Furioso, falou:
   -		Ento vamos dar  Alemanha permisso para atacar a Frana pela extremidade sul da Blgica?
   -		Esse me parece ser exatamente o sentido da proposta.
   -		Eu sabia - disse Fitz. - Traidores de uma figa. Eles esto querendo se desobrigar do seu dever. Faro qualquer coisa para evitar uma guerra!
   -		Quem me dera voc tivesse razo - falou Maud.
VI
Maud fora  Cmara dos Comuns na segunda-feira  tarde para ouvir o discurso de Sir Edward Grey aos membros do Parlamento. Todos concordavam que seria um divisor de guas. Tia Herm foi tambm. Pela primeira vez, Maud sentiu-se grata pela companhia reconfortante de uma senhora de idade.
    O destino de Maud seria decidido naquela tarde, bem como o de milhares de homens em idade militar. Dependendo do que Grey dissesse e de como o Parlamento reagisse, mulheres da Europa inteira poderiam ficar vivas e seus filhos, rfos.
    Maud j no sentia mais raiva - talvez tivesse esgotado todo o seu rancor. Agora tudo o que sentia era medo. Guerra ou paz, casamento ou solido, vida ou morte: seu destino.
    Era feriado, de modo que uma imensa populao de bancrios, funcionrios pblicos, advogados, corretores da Bolsa e comerciantes da cidade estava de folga. A maioria parecia ter se aglomerado nas cercanias das grandes reparties do governo em Westminster, na esperana de saber as notcias em primeira mo. O chofer conduziu lentamente a limusine Cadillac de sete lugares de Fitz por entre a multido reunida na Trafalgar Square, na Avenida Whitehall e na Parliament Square. O tempo estava nublado mas quente, e os jovens mais modernos usavam chapus de palha. Maud viu um reclame do Evening Standard que dizia:  BEIRA DA CATSTROFE.
    A multido vibrou quando o carro parou em frente ao Palcio de Westminster, soltando um grunhido de decepo quando no viu nada mais interessante do que duas senhoras sarem de dentro dele. As pessoas queriam ver seus heris, homens como Lloyd George e Keir Hardie.
    Aquele palcio era um smbolo da obsesso vitoriana com a decorao, pensou
    
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Maud.
 A pedra era intrincadamente esculpida, todas as paredes eram revestidas de lambris, os ladrilhos do piso e os vitrais eram multicoloridos e os tapetes todos estampados.
Embora fosse feriado, os parlamentares estavam reunidos, e o prdio estava cheio de membros das cmaras dos Comuns e dos Lordes, a maioria ostentando o uniforme da casa, composto de casaca preta e cartola de seda tambm preta. Somente os membros trabalhistas contrariavam o cdigo de vestimenta usando ternos de tweed ou de passeio.
Maud sabia que a ala pacifista ainda era maioria no gabinete. Lloyd George obtivera uma vitria na vspera e o governo no iria intervir caso a Alemanha cometesse uma violao meramente tcnica do territrio belga.
Para melhorar um pouco a situao, os italianos haviam declarado neutralidade, dizendo que seu tratado com a ustria s os obrigava a entrar em uma guerra defensiva, enquanto as aes austracas na Srvia eram claramente ofensivas. At ali, pensou Maud, a Itlia era o nico pas a ter demonstrado algum bom senso.
Fitz e Walter aguardavam no saguo central em formato octogonal. Maud perguntou na mesma hora:
-		No fiquei sabendo o que aconteceu na reunio de hoje de manh do gabinete... e vocs?
-		Mais trs renncias - disse Fitz. - Morley, Simon e Beauchamp.
Todos os trs eram contra a guerra. Maud ficou desanimada, mas tambm intrigada.
-		E Lloyd George, no?
-		No.
-		Que estranho! - Ela sentiu um calafrio, como se pressentisse algo ruim. Teria havido uma ciso na ala pacifista? - O que Lloyd George est tramando?
-		No sei, mas posso adivinhar - respondeu Walter. Ele exibia um ar solene. - Ontem  noite, a Alemanha exigiu salvo-conduto para os nossos soldados atravessarem a Blgica.
Maud arquejou de espanto.
-		O governo belga ficou reunido das nove da noite de ontem at as quatro da manh de hoje, depois rejeitou o pedido e disse que o pas iria  guerra - continuou Walter.
Aquilo era terrvel.
-		Ento Lloyd George estava errado... - disse Fitz. - O Exrcito alemo no vai cometer uma violao meramente tcnica.
Walter no disse nada, mas abriu os braos em um gesto de impotncia.

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    Maud temia que o ultimato brutal da Alemanha, bem como a insubordinao temerria do governo belga, pudesse ter minado a ala pacifista do gabinete. Blgica e Alemanha lembravam demais Davi e Golias. Lloyd George tinha um faro para a opinio pblica. Teria ele sentido que o clima estava prestes a mudar?
    - Precisamos tomar nossos lugares - disse Fitz.
    Muito apreensiva, Maud atravessou uma pequena porta e subiu a escadaria comprida que dava na Galeria dos Espectadores, com vista para a sala da Cmara dos Comuns. Era ali que se reunia o governo soberano do Imprio Britnico. Naquele lugar, questes de vida ou morte eram decididas para os 444 milhes de pessoas que viviam, de uma forma ou de outra, sob domnio britnico. Sempre que entrava ali, Maud ficava impressionada com o tamanho do recinto, que era menor do que a maioria das igrejas de Londres.
    Governo e oposio estavam sentados frente a frente em fileiras sucessivas de bancos, separados por um espao que - segundo rezava a lenda - tinha o comprimento de duas espadas, de modo a impedir uma luta entre os oponentes. Durante a maior parte dos debates, a Cmara ficava quase vazia, com no mximo uma dzia de parlamentares esparramados  vontade sobre os estofados de couro verde. Naquele dia, porm, os bancos estavam apinhados e os membros do Parlamento que no haviam conseguido encontrar um lugar encontravam-se de p junto  porta. Apenas as fileiras da frente estavam vazias, uma vez que esses lugares eram tradicionalmente reservados para os ministros do governo, de um lado, e para os lderes da oposio do outro.
    Era sugestivo, pensou Maud, que o debate fosse ocorrer naquela sala, em vez de na Cmara dos Lordes. Na verdade, muitos dos membros da cmara alta, a exemplo de Fitz, estavam na galeria como observadores. A autoridade da Cmara dos Comuns provinha do fato de seus membros terem sido eleitos por voto popular - embora o direito de voto fosse restrito a pouco mais da metade dos homens adultos e no se estendesse s mulheres. Asquith passara a maior parte do seu mandato como primeiro-ministro lutando contra os membros da Cmara dos Lordes, sobretudo quando o assunto eram os planos de Lloyd George de conceder uma pequena penso aos idosos. As batalhas tinham sido ferozes, mas os Comuns sempre haviam sado vitoriosos. O motivo por trs disso, segundo Maud, era que a aristocracia inglesa morria de medo de que a Revoluo Francesa se repetisse no pas, de modo que no final sempre fazia uma concesso.
    Os ocupantes das primeiras fileiras entraram e Maud percebeu na mesma hora o clima que reinava entre os liberais. O primeiro-ministro Asquith sorria depois
    
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de ouvir algum comentrio do quacre Joseph Pease, e Lloyd George conversava com Sir Edward Grey.
  -		Minha nossa! - murmurou ela.
  -		O que foi? - quis saber Walter, sentado ao seu lado.
  -		Olhe s para eles - disse Maud. - Parece at uma reunio de amigos. Esqueceram as desavenas.
  -		No d para saber isso s de olhar.
  -		D, sim.
   O presidente entrou usando uma peruca antiquada e foi se sentar no trono elevado. Ele chamou o ministro das Relaes Exteriores e Grey ps-se de p; seu rosto emaciado estava plido e aflito.
   Grey no tinha talento para a oratria. Era prolixo e maante. Mesmo assim, os membros do Parlamento apinhados nos bancos e os visitantes na galeria lotada o escutaram em meio a um silncio atento, aguardando com pacincia a parte mais importante.
   Ele falou durante 45 minutos antes de mencionar a Blgica. Ento, por fim, revelou os detalhes do ultimato alemo que Walter havia explicado a Maud cerca de uma hora antes. Os membros do Parlamento ficaram em polvorosa. Maud constatou que, como ela havia temido, aquilo mudava tudo. As duas alas do Partido Liberal - os imperialistas de direita e os esquerdistas defensores dos direitos das pequenas naes - ficaram indignadas.
   Grey citou Gladstone e perguntou:
  -		Ser que, nas atuais circunstncias, este pas, dotado de tamanha influncia e poder, ficar parado sem fazer nada diante do crime mais grave que j maculou as pginas da histria, tornando-se assim participante desse pecado?
   Mas que tolice, pensou Maud. A invaso da Blgica no seria o crime mais grave da histria. E quanto ao massacre de Cawnpore? E quanto ao trfico de escravos? A Gr-Bretanha no intervinha sempre que um pas era invadido. Era um absurdo afirmar que esse tipo de inao tornava o povo britnico participante do pecado.
   No entanto, poucos ali pensavam como ela. Os parlamentares de ambos os lados aplaudiram. Maud observou, consternada, a primeira fila reservada para os governantes. Todos os ministros que na vspera se opunham fervorosamente  guerra agora aquiesciam em sinal de aprovao: o jovem Herbert Samuel; Lewis "Lulu" Harcourt; o quacre Joseph Pease, presidente da Sociedade para a Paz; e, o que era ainda pior, o prprio Lloyd George. Ela percebeu, desesperada, que o fato de Lloyd George estar apoiando Grey significava que a batalha poltica havia chegado ao fim. A ameaa alem  Blgica unira as duas alas opostas.
   
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    Grey no era capaz de mobilizar as emoes de seus ouvintes como Lloyd George - e tampouco soava como um profeta do Antigo Testamento como era o caso de Churchill. Naquele dia, contudo, ele no precisava desses talentos, pensou Maud: os fatos davam conta de todo o trabalho. Ela se virou para Walter e perguntou, com um sussurro exaltado:
   -		Por qu? Por que a Alemanha fez isso?
    O rosto dele se contorceu em uma expresso de agonia, mas Walter respondeu com a mesma lgica serena de sempre:
   -		Ao sul da Blgica, a fronteira entre Alemanha e Frana  muito bem fortificada. Se atacssemos ali, ns venceramos, mas seria demorado... a Rssia teria tempo de se mobilizar e nos atacar por trs. A nica forma de garantirmos uma vitria rpida  cruzando a Blgica.
   -		Mas isso tambm garante que a Gr-Bretanha vai entrar em guerra contra vocs!
    Walter assentiu.
   -		Mas o Exrcito britnico  pequeno. Vocs contam apenas com a Marinha, e esta no  uma guerra naval. Nossos generais acham que a Gr-Bretanha no far muita diferena.
   -		Voc concorda?
   -		Na minha opinio, nunca  inteligente transformar um vizinho rico e poderoso em inimigo. Mas eu fui voto vencido.
    E era isso que havia acontecido repetidas vezes ao longo das ltimas duas semanas, pensou Maud, sem esperanas. Em todos os pases, aqueles que eram contra a guerra haviam sido derrotados. Os austracos tinham atacado a Srvia quando poderiam ter evitado isso; os russos se mobilizaram em vez de negociar; os alemes se recusaram a participar de uma conferncia internacional para resolver a questo; os franceses haviam desdenhado a oportunidade de permanecerem neutros; e agora os britnicos estavam prestes a entrar na guerra quando poderiam facilmente ter ficado de fora.
    Grey havia chegado ao final de seu discurso.
   -		Eu expus a esta Casa os fatos mais importantes, e se, como no parece improvvel, ns formos forados, e forados rapidamente, a tomar uma posio firme em relao a essas questes, ento eu acredito que, quando o pas perceber o que est emfogo, quais so os verdadeiros problemas, a magnitude dos perigos iminentes no oeste da Europa, coisas que me esforcei para descrever diante desta Casa, seremos apoiados integralmente no apenas pela Cmara dos Comuns, mas pela determinao, pela confiana, pela coragem e pela resistncia do pas inteiro.
    
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   Ele foi se sentar ao som de uma vibrao generalizada. No houvera votao e Grey sequer fizera qualquer proposta, mas a reao do Parlamento deixava claro que seus membros estavam prontos para a guerra.
   Andrew Bonar Law, lder da oposio, levantou-se para dizer que o governo podia contar com o apoio dos conservadores. Isso no surpreendeu Maud: eles sempre se mostravam mais belicosos do que os liberais. No entanto, ficou pasma, assim como todos os demais, quando o lder nacionalista irlands disse o mesmo. Maud teve a sensao de estar vivendo em um hospcio. Seria ela a nica pessoa do mundo a querer a paz?
   O nico a se opor foi o lder do Partido Trabalhista.
  -		Eu acho que ele est errado - disse Ramsay MacDonald, referindo-se a Grey. - Acho que o governo que ele representa e do qual  porta-voz est errado. Acho que o veredicto da histria ser que eles esto errados.
   Mas ningum lhe deu ouvidos. Alguns membros do Parlamento j deixavam a sala. A galeria tambm estava se esvaziando. Fitz se levantou e o resto do grupo o imitou. Maud os seguiu, aptica. Mais abaixo, na sala da Cmara, MacDonald dizia:
  -		Se um cavalheiro correto e honrado tivesse vindo aqui hoje e nos dito que nosso pas corre perigo, pouco me importaria o seu partido ou a sua classe: ns o apoiaramos... De que adianta falarmos em ajudar a Blgica quando na verdade vocs esto entrando em uma guerra que envolver toda a Europa? - Maud saiu da galeria e no ouviu mais nada.
   Aquele era o pior dia de sua vida. Seu pas iria travar uma guerra desnecessria, seu irmo e o homem que ela amava arriscariam as prprias vidas e ela seria separada de seu noivo, talvez para sempre. No havia mais esperana alguma - ela estava dominada pelo desespero.
   O grupo desceu a escadaria liderado por Fitz.
  -		Foi muito interessante, meu caro Fitz - disse tia Herm com educao, como se tivesse sido levada a uma exposio de arte que acabou se revelando melhor do que o esperado.
   Walter segurou o brao de Maud para det-la. Ela esperou que trs ou quatro pessoas os ultrapassassem, at Fitz no poder mais escut-los. Mas no estava preparada para o que ouviu.
  -		Case-se comigo - disse Walter em voz baixa.
   Seu corao disparou.
  -		O qu? - sussurrou ela. - Como?
  -		Por favor, case-se comigo, amanh.
285

 
-		Mas no  possvel...
-		Eu consegui uma autorizao especial. - Ele apalpou o bolso da frente do
palet. - Fui ao Cartrio de Chelsea na sexta-feira.
A cabea de Maud estava a mil. Tudo o que ela conseguiu dizer foi:
-		Ns combinamos que iramos esperar. - Logo que disse essas palavras, ela
quis retir-las.
Ele, no entanto, j estava falando outra vez:
-		Ns j esperamos. A crise acabou. Amanh ou depois o seu pas e o meu
estaro em guerra. Eu terei que ir embora da Gr-Bretanha. Quero me casar com
voc antes de partir.
-		Ns no sabemos o que vai acontecer! - disse ela.
-		 verdade. Mas, seja qual for o futuro, eu quero que voc seja minha mulher.
-		Mas... - Maud se calou. Por que estava fazendo objees? Ele estava certo.
Ningum sabia o que o futuro reservava, mas isso j no fazia mais diferena. Ela
queria ser a mulher dele, e nenhum futuro que pudesse conceber mudaria isso.
Antes que ela pudesse dizer qualquer outra coisa, os dois chegaram ao p da
escadaria e adentraram o saguo central, onde uma multido em polvorosa conversava com animao. Maud estava louca para fazer mais perguntas a Walter,
mas Fitz, galante, insistiu em acompanh-la at a rua, juntamente com tia Herm,
por causa da confuso. Uma vez na Parliament Square, Fitz ps as duas dentro
do carro. O chofer acionou a manivela automtica, o motor roncou e o carro se
afastou aos solavancos, deixando Fitz e Walter em p na calada junto  multido de cidados que esperavam para conhecer o seu destino.
Maud queria ser a mulher de Walter. Era a nica coisa de que tinha certeza.
Agarrou-se a esse pensamento enquanto perguntas e dvidas zuniam pela sua
cabea. Deveria abraar os planos de Walter, ou seria melhor esperar? Caso concordasse em se casar com ele no dia seguinte, para quem daria a notcia? Qual
seria o destino deles aps a cerimnia? Ser que iriam morar juntos? Se fosse
assim, onde?
Naquela noite, antes do jantar, a criada lhe trouxe um envelope em uma bandeja de prata. Dentro dele, havia uma nica folha de papel grosso de cor creme
coberta com a caligrafia precisa e reta de Walter em tinta azul.

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Meu grande amor,
s trs e meia da tarde de amanh, estarei esperando voc em um carro em frente  casa de Fitz. Estarei acompanhado das duas testemunhas necessrias. Devemos estar no cartrio s quatro. Reservei uma sute no Hotel Hyde. J me registrei no hotel, assim poderemos ir para o quarto sem perdermos tempo no saguo. Seremos o Sr. e a Sra. Woolridge. No se esquea do vu.
Eu te amo, Maud.
Seu prometido,
W.
Com a mo trmula, ela pousou a folha de papel sobre o tampo de mogno encerado de sua penteadeira. Sua respirao estava acelerada. Ficou encarando o papel de parede florido e tentou pensar com calma.
Ele havia escolhido bem o horrio: o meio da tarde era uma hora tranquila, em que Maud talvez conseguisse sair de casa sem ningum notar. Tia Herm sempre tirava um cochilo depois do almoo, enquanto Fitz estaria na Cmara dos Lordes.
Fitz no podia ficar sabendo com antecedncia, ou ento tentaria impedi-la. Talvez simplesmente a trancasse no quarto. Poderia at mandar intern-la em um hospcio. Um aristocrata rico poderia fazer isso com uma mulher da famlia sem muita dificuldade. Tudo o que Fitz precisaria era encontrar dois mdicos dispostos a concordar com ele que sua irm devia estar louca por querer se casar com um alemo.
Ela no iria contar a ningum.
O nome falso e o vu indicavam que Walter pretendia agir de forma clandestina. O Hyde era um hotel discreto em Knightsbridge, onde dificilmente encontrariam qualquer conhecido. Ela sentiu um calafrio ao pensar que passaria a noite com Walter.
Mas o que os dois fariam no dia seguinte? No se podia manter um casamento em segredo para sempre. Walter iria embora da Gr-Bretanha dali a dois ou trs dias. Ser que ela o acompanharia? Tinha medo de que fosse prejudicar sua carreira. Como ele inspiraria confiana de que iria lutar por seu pas se fosse casado com uma inglesa? E, se de fato lutasse, ele estaria longe de casa - ento de que adiantava ela ir para a Alemanha?
Apesar de todas as incertezas, Maud estava tomada por um entusiasmo delicioso.
- Sra. Woolridge - disse para o quarto  sua volta, abraando o prprio corpo de tanta alegria.

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CAPTULO ONZE
4 DE AGOSTO DE 1914

Quando o dia raiou, Maud se levantou e sentou-se  penteadeira para escrever
,uma carta. Tinha na gaveta uma pilha do papel de carta azul de Fitz e os
criados enchiam seu tinteiro prata diariamente. Meu querido, comeou ela, e
ento parou para pensar.
  Reparou em seu reflexo no espelho oval. Tinha os cabelos despenteados e a
camisola amarrotada. Uma expresso preocupada vincava sua testa e repuxava os
cantos de sua boca para baixo. Ela tirou um pedao de alguma verdura que estava preso entre os dentes. Se ele me visse agora, pensou, talvez desistisse de se
casar comigo. Ento percebeu que, caso seguisse o plano de Walter, era exatamente daquela forma que ele a veria na manh do dia seguinte. Era um pensamento estranho, ao mesmo tempo empolgante e assustador.
  Ela escreveu:
  Sim, de todo meu corao, eu quero me casar com voc. Mas qual  o seu plano?
Onde iramos viver?
  Ela havia passado metade da noite pensando sobre isso. Os obstculos pareciam imensos.
  Se voc ficar na Gr-Bretanha, ser posto em um campo de deteno. Se formos
para a Alemanha, nunca poderei v-lo porque voc estar longe de casa, no Exrcito.
  Alm disso, parentes dos dois talvez criassem mais problemas do que as autoridades.
  Quando vamos contar s nossas famlias sobre o casamento? No antes, por
favor, porque Fitz encontrar uma maneira de nos impedir. Mesmo depois, teremos
problemas com ele e com seu pai. Diga-me o que est pensando.
  Eu te amo muito.
  Ela lacrou o envelope e o endereou ao apartamento de Walter, que ficava a
menos de 500 metros de distncia. Tocou a sineta e, dentro de poucos minutos, sua
criada bateu  porta. Sanderson era uma moa rolia de sorriso largo. Maud falou:
  -		Se o Sr. Ulrich tiver sado, v  embaixada alem em Carlton House Terrace.
Seja como for, espere a resposta dele. Entendido?
  -		Sim, senhora.
  -		No comente com nenhum dos outros criados sobre o que est fazendo.
  Um ar preocupado tomou conta do rosto jovem de Sanderson. Muitas criadas

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eram cmplices das intrigas das patroas, porm Maud nunca tivera romances secretos, de modo que Sanderson no estava acostumada a dissimulaes.
-		O que devo dizer quando o Sr. Grout me perguntar aonde estou indo?
Maud pensou por alguns instantes.
-		Diga a ele que precisa comprar um certo tipo de artigo feminino para mim.
-		O constrangimento iria refrear a curiosidade de Grout.
-		Sim, senhora.
Sanderson foi embora e Maud se vestiu.
No sabia bem como iria conseguir manter uma fachada de normalidade diante da famlia. Fitz talvez no reparasse em sua mudana de humor - os homens quase nunca percebiam essas coisas -, mas tia Herm no era to distrada assim.
Ela desceu na hora do caf da manh, embora estivesse tensa demais para ter fome. Tia Herm comia um peixe defumado e o cheiro deixou Maud bastante enjoada. Ela se ps a bebericar um caf.
Em poucos minutos, Fitz apareceu. Serviu-se do peixe defumado sobre o aparador e abriu o Times. O que costumo fazer nessas horas?, perguntou-se Maud. Converso sobre poltica. Ento  isso que devo fazer.
-		Aconteceu alguma coisa ontem  noite? - perguntou.
-		Encontrei-me com Winston depois da reunio do gabinete - respondeu Fitz.
-		Ns vamos pedir ao governo alemo que retire seu ultimato  Blgica. - Ele imprimiu uma nfase desdenhosa ao verbo pedir.
Maud no se atreveu a ter esperanas.
-		Isso significa que ns ainda no desistimos totalmente de buscar a paz?
-		Como se fizesse alguma diferena - disse ele com desprezo. - O que quer que os alemes estejam pensando, duvido que mudem de ideia por causa de um pedido educado.
-		Um homem que est se afogando se agarra at a um graveto.
-		No estamos nos agarrando a graveto nenhum. Estamos executando os rituais que antecedem uma declarao de guerra.
Ele tinha razo, pensou ela com desnimo. Todos os governos prefeririam afirmar que, embora no desejassem a guerra, tinham sido forados a entrar nela. Fitz no demonstrava ter noo do perigo que ele prprio corria, nem sinal de que aquele duelo diplomtico poderia acabar lhe causando um ferimento mortal. Maud, ao mesmo tempo que ansiava por proteg-lo, tinha vontade de esgan-lo por sua teimosia inconsequente.
Para se distrair, ela folheou o Manchester Guardian. Nele, havia um anncio de pgina inteira publicado pela Liga da Neutralidade com o slogan: "Britnicos,

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cumpram o seu dever e mantenham seu pas fora de uma guerra cruel e estpida." Maud ficou satisfeita ao constatar que alguns ainda pensavam como ela. Mas eles no tinham a menor chance de vencer.
Sanderson chegou trazendo um envelope em uma bandeja de prata. Com um choque, Maud reconheceu a caligrafia de Walter. Ficou indignada. Onde a criada estava com a cabea? Ser que no percebia que, se a primeira mensagem era segredo, a resposta tambm deveria ser?
Ela no podia ler o bilhete de Walter na frente do irmo. Com o corao disparado, pegou-o com um desinteresse fingido, largando-o ao lado do prato. Em seguida, pediu mais caf para Grout.
Para esconder o pnico que sentia, olhou para o jornal. Fitz no censurava sua correspondncia, mas, como chefe da famlia, tinha o direito de ler qualquer carta endereada a parentes do sexo feminino que morassem na sua casa. Nenhuma mulher respeitvel se oporia a isso.
Maud precisava terminar o caf da manh quanto antes e levar o bilhete ainda fechado consigo. Tentou comer um pedao de torrada, forando as migalhas pela garganta seca abaixo.
Fitz ergueu os olhos do jornal.
- No vai ler a carta? - quis saber ele. Ento, para seu horror, acrescentou: - A letra parece a de Von Ulrich.
Maud no teve escolha. Abriu o envelope usando uma faca de manteiga limpa, enquanto tentava manter uma expresso neutra no rosto.
Nove da manh.
Meu grande amor,
Todos ns aqui na embaixada recebemos a ordem de fazer as malas, pagar as contas e estar prontos para deixar a Gr-Bretanha a qualquer hora.
Voc e eu no devemos contar nosso plano a ningum. Amanh voltarei para a Alemanha e voc ficar aqui, morando com seu irmo. Todos concordam que essa guerra no pode durar mais do que algumas semanas, ou, no mximo, alguns meses. Assim que ela terminar, se ambos ainda estivermos vivos, daremos ao mundo a nossa boa notcia e comearemos nossa nova vida juntos.
E, caso no sobrevivamos  guerra, por favor, que tenhamos ao menos uma noite de felicidade como marido e mulher.
Eu te amo.
W.
P.S.: A Alemanha invadiu a Blgica h uma hora.

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A cabea de Maud estava em alvoroo. Um casamento secreto! Ningum iria saber. Por ignorarem seu casamento com uma inimiga, os superiores de Walter continuariam a confiar nele. Alm disso, ele poderia lutar conforme exigia sua honra e at mesmo trabalhar no servio secreto. Julgando-a solteira, outros homens continuariam a cortejar Maud, mas isso no seria problema: h anos ela descartava pretendentes. Os dois viveriam separados at o final da guerra, que terminaria no mximo dali a alguns meses.
Fitz interrompeu seus devaneios.
-		O que ele diz?
Maud teve um branco. No podia contar nada disso ao irmo. Como iria responder  sua pergunta? Baixou os olhos para a folha de papel grosso creme e para a caligrafia reta e viu o P.S.
-		Ele diz que a Alemanha invadiu a Blgica s oito horas da manh de hoje.
Fitz pousou o garfo.
-		Ento  isso. - Ele parecia chocado.
-		A pequena Blgica! - exclamou tia Herm. - Esses alemes so mesmo uns brutamontes terrveis. - Ento, parecendo confusa, acrescentou: - Tirando Herr Von Ulrich,  claro. Ele  encantador.
-		Era uma vez o pedido educado do governo britnico - disse Fitz.
-		Isso  uma loucura - falou Maud, desolada. - Milhares de homens morrero em uma guerra que ningum quer.
-		Imaginei que voc fosse apoiar a guerra - disse Fitz, puxando uma discusso. - Afinal de contas, ns vamos defender a Frana, que  a nica outra democracia de verdade na Europa. E nossos inimigos sero a Alemanha e a ustria, cujos parlamentos eleitos so praticamente fantoches.
-		Mas a nossa aliada vai ser a Rssia - comentou Maud com amargura. - De modo que estaremos lutando para proteger a monarquia mais brutal e retrgrada da Europa.
-		Entendo o que quer dizer.
-		Todos na embaixada receberam ordens para fazer as malas - disse ela. - Talvez no tornemos a ver Walter. - Ela pousou a carta sobre a mesa com um gesto casual.
No funcionou.
-		Posso ver? - pediu Fitz.
Maud gelou. Jamais poderia mostrar a carta ao irmo. Ele no iria apenas trancafi-la: se lesse a frase sobre uma noite de felicidade, seria capaz de pegar uma arma e dar um tiro em Walter.

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-		Posso? - repetiu Fitz, estendendo a mo.
-		Claro - respondeu ela, hesitando mais um instante. Por fim, fez meno de
apanhar a carta. No ltimo segundo, em um arroubo de inspirao, derrubou
sua xcara, derramando caf sobre o papel. - Ah, que desastrada! - falou, perce-
bendo com alvio que o caf tinha feito a tinta azul borrar e as palavras ficarem
ilegveis.
Grout deu um passo  frente e comeou a limpar a baguna. Fingindo tentar
ajud-lo, Maud recolheu a carta e a dobrou, garantindo assim que qualquer palavra intocada pelo caf ficasse ensopada.
-		Sinto muito, Fitz - desculpou-se. - Mas, de qualquer maneira, ele no dizia
mais nada.
-		Tudo bem - falou seu irmo, voltando a ler o jornal.
Maud levou as duas mos ao colo para disfarar como tremiam.
Isso foi apenas o comeo.
Seria difcil para Maud sair de casa sozinha. Como qualquer dama da aristocracia, ela no deveria ir a lugar nenhum desacompanhada. Os homens fingiam
que isso se dava por estarem muito preocupados com a segurana de suas mulheres, quando na verdade era uma forma de controle. Algo que sem dvida iria perdurar at as mulheres conquistarem o direito de voto.
Maud havia passado metade da vida encontrando formas de burlar essa regra.
Teria que sair de casa de fininho, sem ser vista. Seria bem complicado. Embora
apenas quatro membros da famlia morassem na manso de Fitz em Mayfair,
havia pelo menos uma dzia de empregados ali a qualquer hora do dia.
E depois ainda teria de passar a noite inteira fora sem ningum perceber.
Maud executou seu plano com esmero.
-		Estou com dor de cabea - disse ao terminar de almoar. - Bea, voc me perdoaria se eu no descesse para jantar hoje  noite?
-		 claro que sim - respondeu Bea. - Posso fazer alguma coisa? Quer que eu
mande chamar o professor Rathbone?
-		No, obrigada, no  nada grave. - Uma dor de cabea nada grave era um
eufemismo para menstruao, de modo que todos aceitavam a desculpa sem
maiores perguntas.
At ali, tudo bem.
Ela subiu ao quarto e tocou a sineta para chamar a criada.

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  -		Sanderson, vou me deitar - falou, iniciando um discurso bem ensaiado. - Provavelmente ficarei na cama pelo resto do dia. Por favor, avise aos outros criados que no quero ser incomodada, seja qual for o motivo. Talvez eu pea para trazerem o jantar numa bandeja, mas duvido: me parece que eu seria capaz de dormir at amanh.
   Isso deveria garantir que sua ausncia passasse despercebida at o fim do dia.
  -		Est doente, senhora? - perguntou Sanderson com ar preocupado. Algumas senhoras ficavam acamadas com frequncia, mas isso era raro no caso de Maud.
  -		 o mal feminino de sempre, s pior que de costume.
   Maud pde ver que Sanderson no estava acreditando nela. Pela manh, a empregada j havia sido despachada para entregar um recado secreto, algo que jamais acontecera antes. Sanderson sabia que alguma coisa estranha estava acontecendo. Mas criadas no tinham permisso para interrogar suas patroas. Sanderson teria que continuar na dvida.
  -		E no me acorde amanh de manh - acrescentou Maud. No sabia a que horas iria voltar, nem como entraria de volta na casa sem ser notada.
   Sanderson foi embora. Eram trs e quinze. Maud tirou a roupa depressa e ento examinou seu armrio.
   No estava acostumada a escolher as prprias roupas - em geral, quem fazia isso era Sanderson. O chapu do seu vestido de passeio preto tinha um vu, mas ela no poderia usar preto no prprio casamento.
   Olhou para o relgio sobre a lareira: trs e vinte. No havia tempo a perder.
   Ela escolheu um traje francs cheio de estilo. Vestiu uma blusa de renda branca justa, cujo colarinho alto realava seu pescoo comprido. Por cima, ps um vestido azul-celeste to claro que era quase branco. Em sintonia com a moda ousada da poca, ele terminava uns cinco centmetros acima do tornozelo. Colocou tambm um chapu de palha azul-escuro de aba larga, com um vu da mesma cor, apanhando uma sombrinha azul vistosa com forro branco. Tinha uma bolsa de veludo azul, fechada por um cordo, que combinava com a roupa. Dentro dela, guardou um pente, um pequeno frasco de perfume e roupa de baixo limpa.O relgio bateu as trs e meia. Walter j deveria estar esperando na rua. Ela sentiu o corao esmurrar-lhe o peito.
   Jogou o vu sobre o rosto e examinou-se em um espelho de corpo inteiro. No era exatamente um vestido de casamento, mas ela imaginava que no destoaria em um cartrio. Nunca havia assistido a um casamento civil, ento no podia ter certeza.
   Tirou a chave do trinco e ficou parada diante da porta fechada, escutando.
   
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No queria cruzar com ningum que pudesse question-la. Talvez no houvesse problema se fosse vista por um lacaio ou por um engraxate - que estariam se lixando para o que ela fizesse mas, quela altura, todas as criadas j deveriam estar sabendo que ela estava indisposta e, caso esbarrasse com algum da famlia, sua mentira seria desmascarada no ato. Pouco se importava com o constrangimento, mas temia que tentassem impedi-la.
    Estava prestes a abrir a porta quando escutou passos pesados e sentiu um leve cheiro de fumaa. Era provavelmente Fitz, ainda terminando seu charuto de depois do almoo, saindo para a Cmara dos Lordes ou talvez para o clube Whites. Ela aguardou com impacincia.
    Aps alguns instantes de silncio, espiou para fora do quarto. O amplo corredor estava deserto. Atravessou a porta, trancando-a logo em seguida e guardando a chave dentro da bolsa de veludo. Assim, qualquer pessoa que tentasse abrir a porta pensaria que ela estava dormindo l dentro.
    Percorreu em silncio o corredor acarpetado at chegar ao alto da escada. Olhou para baixo e viu que no havia ningum no hall do trreo. Ento, desceu os degraus rapidamente. Quando chegou ao patamar intermedirio, ouviu um barulho e congelou. A porta do poro se abriu e Grout surgiu l de dentro. Maud prendeu a respirao. Ficou encarando o domo calvo da cabea de Grout mais abaixo enquanto ele atravessava o hall carregando dois decantadores de vinho do Porto. Ele estava de costas para a escada e entrou na sala de jantar sem levantar os olhos.
    Quando a porta da sala se fechou atrs dele, Maud desceu correndo o ltimo lance da escada, esquecendo qualquer cautela. Abriu a porta da frente e, baten- do-a s suas costas, saiu de casa. Desejou ter se lembrado de fech-la delicadamente, mas era tarde demais.
    Em Mayfair, a rua tranquila ardia sob o sol de agosto. Depois de olhar para um lado e para outro, viu uma carroa de peixeiro puxada a cavalo, uma bab passeando com um carrinho e um taxista trocando a roda de um txi motorizado. Cem metros mais  frente, do outro lado da rua, havia um carro branco com uma capota de lona azul estacionado. Maud, que gostava de carros, reconheceu naquele o Benz 10/30 de Robert, primo de Walter.
    Enquanto Maud atravessava a rua, Walter desceu do carro, e o corao dela se encheu de alegria. Ele usava um fraque cinza-claro enfeitado com um cravo branco. Seus olhares se cruzaram e ela notou, pela expresso no rosto dele, que at aquele momento ele no tinha certeza se ela viria. Esse pensamento fez uma lgrima brotar no olho de Maud.
    
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Mas agora o semblante de Walter estava radiante de satisfao. Que coisa estranha e maravilhosa, pensou ela, ser capaz de causar tamanha felicidade a outra pessoa.
Ela olhou de volta para a casa de Fitz com nervosismo. Grout estava  porta, olhando de um lado para outro da rua com uma expresso intrigada. Maud sups que ele tivesse escutado a porta bater. Decidida, virou o rosto para a frente e o pensamento que lhe passou pela cabea foi: Enfim livre!
Walter beijou-lhe a mo. Ela queria lhe dar um beijo de verdade, mas o vu atrapalhava. Alm disso, no era de bom tom antes do casamento. Tambm no havia necessidade de se jogar todas as convenes pela janela.
Maud viu que Robert estava ao volante. Ao v-la, ele tocou sua cartola cinza para cumpriment-la. Walter confiava no primo. Ele seria uma das testemunhas.
Walter ento abriu a porta e Maud entrou no banco de trs. J havia algum l dentro, e Maud reconheceu a governanta de Ty Gwyn.
-		Williams! - exclamou.
A governanta sorriu.
-		Acho que agora  melhor a senhora me chamar de Ethel - respondeu ela. - Vou ser testemunha do seu casamento.
-		 claro... desculpe. - Em um impulso, Maud a abraou. - Obrigada por ter vindo.
O carro comeou a andar.
Maud se inclinou para a frente e perguntou a Walter:
-		Como voc achou Ethel?
-		Voc me disse que ela havia aparecido na sua clnica. Peguei o endereo dela com o Dr. Greenward. Sabia que voc confiava nela, porque a escolheu para nos acompanhar naquele passeio em Ty Gwyn.
Ethel estendeu um ramalhete de flores para Maud.
-		Seu buqu.
Era um buqu de rosas cor-de-rosa: a flor da paixo. Ser que Walter conhecia a linguagem das flores?
-		Quem escolheu as flores?
-		Foi sugesto minha - disse Ethel. - E Walter gostou quando expliquei o significado. - Ela enrubesceu.
Maud percebeu que Ethel sabia quanto os dois estavam apaixonados, pois vira o beijo que haviam trocado.
-		Esto perfeitas - falou.
Ethel usava um vestido cor-de-rosa claro que parecia novo e um chapu 

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decorado com mais rosas como as do buqu. Walter provavelmente tinha pagado por aquela roupa. Como ele era atencioso.
   O carro desceu a Park Lane e pegou o caminho para Chelsea. Eu vou me casar, pensou Maud. No passado, sempre que pensava no prprio casamento, imaginava que seria igual ao de todas as suas amigas - um dia interminvel de cerimnias maantes. Daquele jeito era bem melhor. Nada de planejamento, lista de convidados ou buf. Nada de hinos, discursos ou parentes bbados tentando beij-la: apenas os noivos e duas pessoas de quem gostavam e em quem confiavam.
   Ela afastou da mente qualquer pensamento sobre o futuro. A Europa estava em guerra, e tudo poderia acontecer. Iria apenas aproveitar o dia e a noite que tinha pela frente.
   Enquanto desciam a Kings Road, ela de repente comeou a ficar aflita. Segurou a mo de Ethel para tomar coragem. Teve uma viso aterrorizante de Fitz seguindo-os em seu Cadillac aos gritos de "Segurem essa mulher!" Maud olhou para trs. Obviamente, no havia sinal de seu irmo, ou do carro dele.
   Pararam em frente  fachada clssica da prefeitura de Chelsea. Robert tomou o brao de Maud e a conduziu escada acima at a entrada, enquanto Walter seguia atrs com Ethel. Transeuntes paravam para olhar: todo mundo adorava um casamento.
   Por dentro, o prdio tinha uma decorao vitoriana extravagante, com piso de lajotas coloridas e frisos de gesso nas paredes. Parecia um lugar adequado para se casar.
   Eles tiveram de esperar no saguo: o casamento das trs e meia ainda no havia terminado. Os quatro ficaram em p, formando um pequeno crculo, e ningum conseguiu pensar em nada para dizer. Maud sorveu o aroma das rosas que segurava e o perfume lhe subiu  cabea, dando-lhe a sensao de ter virado uma taa inteira de champanhe.
   Alguns minutos depois, o grupo do casamento anterior saiu da sala - a noiva usava um vestido comum e o noivo um uniforme de sargento do Exrcito. Talvez eles tambm houvessem tomado uma deciso repentina por causa da guerra.
   Maud e seus acompanhantes entraram. O tabelio estava sentado diante de uma mesa simples, de fraque e gravata prateada. Tinha um cravo preso  lapela, o que Maud achou um detalhe simptico. Atrs dele havia um escrevente vestido com um terno comum. Eles se apresentaram como o Sr. Von Ulrich e a Srta. Maud Fitzherbert. Maud levantou o vu.
   - Srta. Fitzherbert, trouxe algum documento de identidade? - perguntou o tabelio.
   
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Ela no entendeu a que ele estava se referindo.
Ao ver seu olhar de incompreenso, ele acrescentou:
-		Sua certido de nascimento, talvez?
Ela no havia levado sua certido de nascimento. No sabia que haveria necessidade e, mesmo que soubesse, teria sido impossvel obt-la, pois Fitz a guardava no cofre junto com outros documentos da famlia, como o prprio testamento. O pnico a dominou.
Ento Walter disse:
-		Creio que isto aqui v servir. - Ele tirou do bolso um envelope carimbado e franqueado cujo destinatrio era a Srta. Maud Fitzherbert, no endereo da clnica peditrica. Devia ter apanhado o envelope quando foi falar com o Dr. Greenward. Quanta esperteza sua.
O tabelio entregou de volta o envelope sem nenhuma objeo.
-		 meu dever lembrar-lhes a natureza solene e oficial dos votos que esto prestes a fazer - disse ele.
Maud se sentiu ligeiramente ofendida ante a sugesto de que ela talvez no soubesse o que estava fazendo, mas logo se deu conta de que ele era obrigado a dizer isso a todo mundo.
Walter se empertigou.  isso, pensou Maud: agora no tem mais volta. No lhe restava a menor dvida de que queria se casar com Walter - porm, mais do que isso, tinha plena conscincia de que chegara aos 23 anos sem ter conhecido nenhum outro homem com quem houvesse ao menos considerado a possibilidade de se casar. Todos os que conhecera tratavam as mulheres em geral, e ela em particular, como crianas crescidas. Apenas Walter era diferente. Era ele ou ningum.
O tabelio recitava palavras para Walter repetir:
-		Eu declaro solenemente no ter conhecimento de qualquer impedimento legal para que eu, Walter von Ulrich, possa me unir em matrimnio a Maud Elizabeth Fitzherbert. - Ele pronunciou o prprio nome  moda inglesa, fazendo o "w" soar como um "u", e no como um "v".
Enquanto ele falava, Maud observava seu rosto. A voz de Walter soava firme e clara.
Ele, por sua vez, a observou com um ar solene enquanto ela fazia sua declarao. Maud adorava aquela seriedade. A maioria dos homens, at os mais inteligentes, assumia um tom bobo ao falar com mulheres. Walter se dirigia a ela da mesma forma articulada com que falava com Robert ou com Fitz e, alm disso - o que era ainda menos frequente -, escutava suas respostas.
Em seguida vieram os votos. Walter a encarou nos olhos enquanto a aceitava

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como esposa e, desta vez, ela ouviu um frmito de emoo em sua voz. Essa era outra coisa que adorava: sabia ser capaz de abalar sua seriedade. Ela possua o dom de faz-lo tremer de amor, de felicidade ou de desejo.
   Ela fez o mesmo voto:
  -		Solicito que as pessoas aqui presentes sejam testemunhas de que eu, Maud Elizabeth Fitzherbert, aceito voc, Walter von Ulrich, como meu legtimo esposo. - Sua voz no falhou e ela sentiu-se constrangida por no ter ficado visivelmente emocionada; mas no era esse o seu estilo. Ela preferia se mostrar calma mesmo quando estava nervosa. Walter entendia isso e, mais do que ningum, conhecia a tormenta invisvel de paixo que se agitava em seu peito.
  -		O senhor trouxe a aliana? - perguntou o tabelio.
   Maud sequer havia pensado nisso, mas Walter sim. Tirou do bolso do colete uma aliana de ouro simples, tomou-lhe a mo e ps o anel em seu dedo. Devia ter tentado adivinhar o tamanho, mas o anel ficou quase perfeito, talvez apenas um nmero maior do que o seu. Como o casamento dos dois era um segredo, ela ainda levaria algum tempo para usar a aliana.
  -		Eu agora os declaro marido e mulher - disse o tabelio. - Pode beijar a noiva.
   Walter beijou-lhe suavemente os lbios. Ela o abraou pela cintura e o puxou para mais perto.
  -		Eu te amo - sussurrou ela.
  -		Agora a certido de casamento - disse o tabelio. - Talvez prefira se sentar... Sra. Von Ulrich.
   Walter sorriu, Robert deu uma risadinha e Ethel vibrou discretamente. Maud sentiu que o tabelio gostava de ser o primeiro a chamar a noiva por seu nome de casada. Todos ento se sentaram e o escrevente comeou a preencher a certido. Walter listou a profisso do pai como oficial do Exrcito, e seu local de nascimento como Danzig. Maud declarou que seu pai, George Fitzherbert, era agricultor - de fato, Ty Gwyn tinha um pequeno rebanho de ovelhas, de modo que no deixava de ser verdade -, e que seu local de nascimento era Londres. Robert e Ethel assinaram como testemunhas.
   De repente, estava tudo acabado, e os quatro saram da sala e atravessaram o saguo - no qual outra noiva bonita esperava ao lado de um noivo nervoso a hora de assumir um compromisso para a vida inteira. Enquanto os dois desciam de braos dados a escadaria em direo ao carro parado no acostamento, Ethel atirou um punhado de confetes em cima deles. Entre os passantes, Maud notou uma mulher de classe mdia, mais ou menos da sua idade, segurando um embrulho.
   
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A mulher deu uma boa olhada em Walter, voltando em seguida sua ateno para Maud, que pde perceber a inveja em seus olhos. Sim, pensou Maud, eu sou uma garota de sorte.
   Walter e Maud sentaram-se no banco de trs, enquanto Robert e Ethel se acomodaram na frente. Quando o carro partiu, Walter pegou a mo de Maud e a beijou. Os dois trocaram olhares e riram. Maud j tinha visto outros casais agirem daquele mesmo jeito, que sempre considerara bobo e piegas, mas naquele instante lhe parecia a coisa mais natural do mundo.
   Em poucos minutos, os quatro chegaram ao Hotel Hyde. Maud tirou o vu. Walter a segurou pelo brao e os dois atravessaram o saguo at a escada.
  -		Vou pedir o champanhe - disse Robert.
   Walter havia reservado a melhor sute, que enchera de flores. Devia haver uma centena de rosas no quarto. Os olhos de Maud se encheram de lgrimas e Ethel soltou um arquejo de admirao. Sobre um aparador via-se uma grande fruteira repleta de frutas e uma caixa de chocolates. O sol da tarde brilhava atravs das janelas amplas sobre poltronas e sofs estofados com tecidos de cor viva.
  -		Vamos nos acomodar! - disse Walter com animao.
   Enquanto Maud e Ethel inspecionavam a sute, Robert entrou seguido por um garom, que trazia champanhe e taas em uma bandeja. Walter estourou a rolha e serviu. Quando todos estavam cada um com seu copo, Robert disse:
  -		Eu gostaria de propor um brinde. - Ele pigarreou e Maud percebeu, achando graa, que Robert estava prestes a fazer um discurso.
  -		Meu primo Walter  um homem incomum - comeou ele. - Sempre pareceu mais velho do que eu, embora na verdade tenhamos a mesma idade. Quando estudvamos juntos em Viena, ele nunca ficava bbado. Se sassemos em grupo  noite para visitar determinados estabelecimentos da cidade, ele ficava em casa estudando. Cheguei a achar que fosse o tipo de homem que no gostasse de mulheres. - Robert sorriu com ironia. - Na verdade, quem era assim era eu... mas essa  outra histria, como dizem os ingleses. Walter ama sua famlia e seu trabalho, e ama a Alemanha, mas nunca amou mulher nenhuma... at agora. Ele mudou. - Robert abriu um sorriso maroto. - Vive comprando gravatas novas. No para de me fazer perguntas: quando  que se deve beijar uma garota, se um homem deve usar gua-de-colnia, que cores lhe caem melhor... como se eu fizesse ideia do que agrada s mulheres. E o mais terrvel de tudo, na minha opinio - Robert fez uma pausa teatral. - Ele agora toca o ragtime!
   Os demais riram. Robert ergueu a taa.
  -		Um brinde  mulher que provocou essas mudanas todas...  noiva!
   
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Depois que todos beberam, para surpresa de Maud, Ethel falou.
-		Cabe a mim propor o brinde ao noivo - disse ela, como se tivesse passado a vida inteira fazendo discursos.
Como uma criada vinda do Pas de Gales havia adquirido tamanha desenvoltura? Ento Maud se lembrou de que o pai de Ethel era pregador da igreja e ativista poltico, de modo que a moa tinha a quem puxar.
-		Lady Maud  diferente de qualquer outra mulher da sua classe que eu j conheci - comeou Ethel. - Quando comecei a trabalhar como criada em Ty Gwyn, ela foi a nica da famlia a prestar ateno em mim. Aqui em Londres, quando alguma jovem solteira tem um beb, a maioria das damas respeitveis da sociedade se limita a resmungar sobre decadncia moral, enquanto Maud lhes proporciona uma ajuda prtica, real. Na regio do East End, ela  considerada uma santa. Mas tambm tem l seus defeitos, e eles so graves.
O que ser que ela vai dizer?, pensou Maud.
-		Ela  sria demais para atrair um homem normal - prosseguiu Ethel. - Todos os solteiros mais cobiados de Londres j se interessaram por sua beleza e por sua personalidade alegre, mas logo foram afugentados por sua inteligncia e por seu obstinado realismo poltico. J faz algum tempo que eu percebi que s um homem raro seria capaz de conquist-la. Ele teria de ser inteligente, mas com a mente aberta; dotado de uma moral de ferro, sem ser ortodoxo; forte, mas no dominador. - Ethel sorriu. - Achei que isso fosse impossvel. Ento, em janeiro, ele subiu a colina vindo de txi da estao de trem de Aberowen, entrou em Ty Gwyn e a espera terminou. - Ela ergueu a taa. - Ao noivo!
Todos tornaram a beber e Ethel agarrou o brao de Robert.
-		Agora voc pode me levar para jantar no Ritz - disse ela.
Walter fez cara de surpresa.
-		Pensei que fssemos todos jantar aqui, juntos - falou.
Ethel lanou-lhe um olhar cheio de malcia.
-		Ora, no seja bobo - disse. Ento andou at a porta, arrastando Robert.
-		Boa noite - disse Robert, embora fossem apenas seis da tarde. Os dois saram e fecharam a porta.
Maud riu. Walter falou:
-		Essa governanta  muito inteligente.
-		Ela me entende - disse Maud. Foi at a porta e girou a chave. - E agora... - prosseguiu. - O quarto.
-		Voc prefere tirar a roupa sozinha? - perguntou Walter com ar preocupado.
-		Na verdade, no - respondeu Maud. - Voc no gostaria de assistir?

300
 

Ele engoliu em seco e, quando falou, sua voz saiu um pouco rouca.
-		Sim, por favor - disse. - Gostaria, sim. - Ele segurou a porta do quarto para
	ela passar.
Apesar da demonstrao de ousadia, ela estava nervosa ao se sentar na beira
da cama e tirar os sapatos. Ningum a via nua desde os seus 8 anos. Como nunca
tinha visto o corpo de outra mulher, no sabia se o seu era bonito. Em comparao aos nus exibidos nos museus, seus seios eram pequenos e seus quadris largos.
E havia entre as suas pernas um tufo de pelos que os quadros nunca mostravam.
Ser que Walter acharia seu corpo feio?
Ele tirou o palet e o colete e pendurou-os com naturalidade. Ela imaginou
que um dia iriam se acostumar com aquilo. Afinal, era algo que as pessoas faziam
o tempo todo. Apesar disso, de certa forma era uma sensao estranha, mais intimidadora do que excitante.
Ela tirou as meias e o chapu. No estava usando mais nada de suprfluo. O
passo seguinte era o mais importante. Ela se levantou.
Walter parou de desatar a gravata.
Com gestos rpidos, Maud abriu o vestido e o deixou cair no cho. Ento tirou
a angua e puxou a blusa de renda por cima da cabea. Ficou parada na frente
dele s com a roupa de baixo e observou sua expresso.
-		Como voc  linda! - disse ele, meio falando, meio sussurrando.
Maud sorriu. Ele sempre dizia a coisa certa.
Walter tomou-a nos braos e a beijou. Maud comeou a se sentir menos ansiosa,
quase relaxada. Saboreou o contato da boca dele contra a sua, os lbios delicados,
os pelos do bigode. Acariciou sua bochecha, apertou o lbulo de sua orelha entre
as pontas dos dedos e passou a mo por toda a extenso de seu pescoo, experimentando todas aquelas sensaes com mais intensidade do que nunca e pensando: "Isto tudo agora  meu."
-		Vamos nos deitar - disse ele.
-		No - respondeu ela. - Ainda no. - Deu um passo para longe dele. -
Espere. - Ela ento tirou o corselete, revelando que usava uma daquelas peas
femininas modernas chamada suti. Levando as mos at as costas, Maud abriu
o fecho e jogou a pea no cho. Olhou para ele com uma expresso audaciosa,
como se o desafiasse a no gostar dos seus seios.
-		Eles so lindos... posso beij-los? - perguntou ele.
-		Voc pode fazer o que quiser - respondeu ela, sentindo-se deliciosamente
libertina.
Ele curvou a cabea e beijou um seio e depois o outro, fazendo os lbios 

301


roarem delicadamente seus mamilos, que se retesaram de repente, como se o ar houvesse esfriado. Ela teve um desejo sbito de fazer o mesmo com ele, mas ficou em dvida se ele acharia estranho.
Walter poderia ter ficado beijando seus seios at o fim dos tempos. Ela o afastou com delicadeza.
-		Tire o resto da roupa - falou. - Depressa.
Ele tirou os sapatos, as meias, a camisa, a camiseta que usava por baixo e a cala e ento hesitou.
-		Estou encabulado - falou, rindo. - No sei por qu.
-		Eu vou primeiro - disse ela. Em seguida, desatou o cordo da calcinha e a tirou. Quando ergueu os olhos, ele tambm estava nu, e ela constatou, chocada, que seu pnis se erguia, teso, do tufo de pelos claros em sua virilha. Lembrou-se de quando o havia segurado por cima da roupa na pera e desejou toc-lo de novo.
-		Agora podemos nos deitar? - perguntou ele.
Seu pedido soou to correto que ela riu. Uma expresso magoada atravessou o semblante de Walter e ela imediatamente se arrependeu de ter rido.
-		Eu te amo - disse Maud, fazendo a expresso dele se desanuviar. - Por favor, vamos nos deitar. - Ela se sentia capaz de explodir de tanta excitao.
No incio, os dois ficaram deitados lado a lado, beijando-se e tocando-se.
-		Eu te amo - repetiu ela. - Quanto tempo voc vai levar para ficar cansado de me ouvir dizer isso?
-		Eu nunca vou me cansar - respondeu ele, galante.
Maud acreditou nele.
Depois de algum tempo, Walter perguntou:
-		Agora?
Ela fez que sim com a cabea, abrindo as pernas. Ele se deitou por cima dela, apoiando o prprio peso nos cotovelos. Ela estava tensa de tanta expectativa. Passando o peso do corpo para o brao esquerdo, Walter levou a mo at o meio de suas pernas e Maud pde sentir os dedos dele afastando seus lbios midos, seguidos por algo maior. Ele fez fora para a frente e ela sentiu uma dor repentina. Soltou um grito
-		Desculpe! - disse ele. - Machuquei voc. Sinto muito, muito mesmo.
-		Espere s um instante - pediu ela. A dor no era muito forte. Ela estava mais chocada do que qualquer outra coisa. - Tente de novo - falou. - Mas devagar.
Ela sentiu a cabea do pnis dele tocar seus lbios novamente e soube que ele no conseguiria entrar: era grande demais, ou ento ela era apertada demais, ou as duas coisas. Mesmo assim, deixou-o insistir, torcendo para tudo dar certo.

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Doeu, mas desta vez ela cerrou os dentes e conteve o grito. Seu estoicismo de nada adiantou. Depois de alguns instantes, ele desistiu.
-		No entra - falou.
-		Qual  o problema? - perguntou ela, entristecida. - Achei que isso devesse acontecer naturalmente.
-		No entendo - disse ele. - No tenho experincia.
-		E eu menos ainda. - Ela estendeu a mo para baixo e empunhou seu pnis. Adorava a sensao de t-lo nas mos, ao mesmo tempo rijo e tenro. Tentou gui-lo para dentro de si, erguendo os quadris para facilitar, mas depois de alguns instantes ele se afastou, dizendo:
-		Ai! Desculpe! Est doendo em mim tambm.
-		Voc acha que  maior do que o normal? - perguntou ela, hesitante.
-		No. Quando estava no Exrcito, vi vrios homens nus. Alguns so bem grandes, e sentem muito orgulho disso, mas eu estou na mdia. De qualquer forma, nunca ouvi nenhum deles reclamar desse tipo de dificuldade.
Maud aquiesceu. O nico outro pnis que tinha visto na vida era o de Fitz e, at onde se lembrava, era mais ou menos do mesmo tamanho do de Walter.
-		Talvez eu seja apertada demais.
Ele fez que no com a cabea.
-		Quando eu tinha 16 anos, passei uma temporada no castelo da famlia de Robert na Hungria. Eles tinham uma criada, Greta, que era muito... cheia de vida. No chegamos a ter relaes, mas fizemos algumas experincias. Eu a toquei da mesma forma que toquei voc na biblioteca de Sussex House. Espero que no fique irritada por eu estar lhe contando isso.
Ela lhe deu um beijo no queixo.
-		Nem um pouco.
-		Greta no era muito diferente de voc nesse departamento.
-		Ento qual  o problema?
Ele deu um suspiro e rolou o corpo para sair de cima dela. Ps o brao sob sua cabea e puxou-a para si, beijando-lhe a testa.
-		Ouvi dizer que os casais recm-casados s vezes tm dificuldades. Alguns homens ficam to nervosos que sequer conseguem ter uma ereo. Tambm ouvi falar que outros ficam excitados demais e ejaculam antes mesmo da relao em si. Acho que devemos ser pacientes e carinhosos e ver o que acontece.
-		Mas ns s temos uma noite! - Maud comeou a chorar.
Walter a afagou e disse:
-		Calma, calma.

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   No adiantou. Ela se sentia um grande fracasso. Achei que eu fosse to esperta, pensou, por ter escapado do meu irmo e me casado com Walter em segredo, e agora a coisa toda se transformou em um desastre. Estava decepcionada por si mesma, porm mais ainda por Walter. Como devia ser terrvel para ele esperar at os 28 anos e ento se casar com uma mulher incapaz de satisfaz-lo!
   Queria poder conversar com algum sobre aquilo, com outra mulher - mas com quem? A ideia de abordar o assunto com tia Herm era ridcula. Algumas mulheres compartilhavam segredos com suas criadas, porm Maud nunca tivera esse tipo de relao com Sanderson. Talvez pudesse falar com Ethel. Pensando bem, fora ela quem lhe dissera que era normal ter pelos entre as pernas. Mas Ethel fora embora com Robert.
   Walter sentou-se na cama.
   - Vamos pedir o jantar... quem sabe Uma garrafa de vinho - disse ele. - Podemos nos sentar  mesa como marido e mulher e conversar sobre assuntos corriqueiros. Depois, mais tarde, tentamos outra vez.
   Maud estava sem apetite e no conseguia se imaginar jogando conversa fora, mas, como no tinha ideia melhor, aceitou. Desanimada, colocou suas roupas de volta. Walter se vestiu depressa, foi at o cmodo ao lado e tocou a sineta para chamar um garom. Ela o ouviu pedir frios, peixe defumado, saladas e uma garrafa de vinho do Reno.
   Os dois se sentaram ao lado de uma janela aberta e ficaram olhando a rua l embaixo. O reclame de um jornal dizia ULTIMATO BRITNICO  ALEMANHA. Walter poderia morrer naquela guerra. Ela no queria que ele morresse virgem.
   Quando a comida chegou, Walter a chamou e ela foi se juntar a ele no cmodo ao lado. O garom havia coberto a mesa com uma toalha branca e servido salmo defumado, lascas de presunto, alface, tomate, pepino e fatias de po de forma. Ela no estava com fome, mas bebericou o vinho branco que ele serviu e mordiscou um pedao de salmo para demonstrar boa vontade.
   No fim das contas, eles de fato jogaram conversa fora. Walter relembrou a prpria infncia, a me e os estudos em Eton. Maud falou das festas de Ty Gwyn quando seu pai ainda era vivo. Os homens mais poderosos do pas eram convidados para elas e sua me precisava acomodar os hspedes de modo que ficassem perto de suas amantes.
   No incio, Maud sentiu que estava forando assunto, como se os dois mal se conhecessem, mas logo ambos relaxaram, voltando a conversar com a intimidade de sempre, e ela simplesmente passou a dizer o que lhe vinha  cabea. O garom tirou a mesa do jantar e os dois passaram para o sof, onde continuaram a
   
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conversar, de mos dadas. Especularam sobre a vida sexual alheia: a de seus pais, a de Fitz, a de Robert, a de Ethel e at mesmo a da duquesa. Maud ficou fascinada ao ouvir que existiam homens como Robert e descobrir onde eles se encontravam, como se reconheciam e o que faziam juntos. Walter lhe disse que eles se beijavam da mesma forma que os homens beijavam as mulheres e que faziam o que ela fizera com ele na pera, alm de outras coisas... Embora Walter dissesse no ter certeza quanto aos detalhes, Maud achou que ele sabia, mas tinha vergonha de contar.
   Ficou surpresa quando o relgio sobre a lareira bateu a meia-noite.
  -		Vamos para a cama - falou. - Quero me deitar nos seus braos, mesmo que as coisas no aconteam como deveriam.
  -		Est bem. - Ele se levantou. - Voc se importa se eu fizer uma coisa antes? H um telefone para os hspedes no saguo do hotel. Eu gostaria de ligar para a embaixada.
  -		 claro.
   Ele saiu. Maud foi at o banheiro mais adiante no corredor e depois voltou para a sute. Tirou a roupa e se deitou na cama. Quase no se importava mais com o que poderia ou no acontecer. Eles se amavam e estavam juntos - e, se isso fosse tudo, j seria o suficiente.
   Walter voltou dali a alguns minutos. Tinha a expresso carregada e ela soube na mesma hora que as notcias eram ruins.
  -		A Gr-Bretanha declarou guerra  Alemanha - disse ele.
  -		Ah, Walter, eu sinto tanto!
  -		A embaixada recebeu o comunicado uma hora atrs. O jovem Nicholson o trouxe do Ministrio das Relaes Exteriores e tirou o prncipe Lichnowsky da cama para mostr-lo.
   Ambos j davam isso como praticamente certo, mas, mesmo assim, a realidade atingiu Maud como um soco. Ela podia ver que Walter tambm estava abalado.
   Ele tirou as roupas de forma automtica, como se h anos se despisse na sua frente.
  -		Ns vamos embora amanh - disse. Quando ele tirou a roupa de baixo, Maud viu que, no estado normal, seu pnis era pequeno e enrugado. - Tenho que estar na estao da Liverpool Street, com as malas feitas, s dez da manh. - Ele desligou a luz eltrica e foi se deitar junto dela.
   Os dois ficaram ali, lado a lado, sem se tocarem, e durante alguns instantes terrveis Maud pensou que ele fosse adormecer daquela forma. Mas ento Walter se virou para ela, tomou-a nos braos e beijou-lhe a boca. Apesar de tudo, ainda
   
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estava cheia de desejo por ele; na verdade, era como se os problemas a houvessem feito am-lo com mais ardor e desespero. Ela sentiu o pnis de Walter crescer e se retesar contra seu ventre macio. Logo em seguida, ele a cobriu com seu corpo. Como antes, se apoiou no brao esquerdo e ps-se a toc-la com a mo direita. Como antes, ela sentiu seu membro duro pressionar-lhe os lbios. Doeu novamente - mas no por muito tempo. Desta vez, ele a penetrou.
   Houve mais alguns segundos de resistncia, mas ento ela perdeu a virgindade. De repente, ele estava dentro dela por inteiro e os dois estavam envolvidos no mais antigo dos abraos.
   - Ah, graas aos cus - disse ela. Ento o alvio cedeu lugar ao prazer e ela comeou a se movimentar, com alegria, no mesmo ritmo que ele - e, por fim, os dois fizeram amor.
   
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PARTE DOIS
GUERRA DE GIGANTES

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CAPTULO DOZE


De incio a meados de agosto de 1914

Katerina estava angustiada. Quando os cartazes referentes  mobilizao comearam a se espalhar por toda So Petersburgo, ela se sentou no quarto de
penso de Grigori e chorou, passando os dedos de forma distrada pela cabeleira loura e repetindo:
   - O que ser de mim? O que ser de mim?
   Isso o fez querer tom-la nos braos, beij-la at secar-lhe as lgrimas e prometer que jamais a abandonaria. Porm essa era uma promessa que ele no podia
fazer e, alm do mais, ela amava seu irmo.
   Grigori j havia prestado servio militar, portanto era reservista e teoricamente
estava pronto para o combate. Mas, na verdade, havia passado a maior parte do
treinamento apenas marchando e construindo estradas. Ainda assim, imaginava
que fosse estar entre os primeiros convocados.
   Isso o deixava possesso. Aquela guerra era to idiota e intil quanto qualquer
outra medida do czar. Um assassinato ocorrera na Bsnia e, um ms depois, a
Rssia entrava em guerra contra a Alemanha! Milhares de trabalhadores e camponeses iriam morrer de ambos os lados - e ningum ganharia nada com isso.
Para Grigori, assim como para todas as pessoas que ele conhecia, isso provava
que a nobreza russa era burra demais para governar.
   Ainda que ele sobrevivesse, a guerra estragaria seus planos. Ele estava economizando para comprar outra passagem para os Estados Unidos. Com o salrio
que recebia da Metalrgica Putilov, talvez conseguisse fazer isso em dois ou trs
anos, mas, com o soldo do exrcito, levaria sculos. Por quantos anos mais precisaria suportar a injustia e a brutalidade do governo do czar?
   Katerina o preocupava mais ainda. O que ela faria caso ele precisasse ir  guerra?
Ela dividia um quarto com outras trs garotas na penso e trabalhava na metalrgica, embalando balas de fuzil em caixas de papelo. No entanto, teria que
parar de trabalhar quando o beb nascesse, pelo menos por algum tempo. Sem
Grigori, como faria para se manter e sustentar o beb? Ela ficaria numa situao
muito difcil - e ele sabia o que garotas camponesas faziam em So Petersburgo
quando precisavam desesperadamente de dinheiro. Pediu a Deus que a poupasse
de precisar vender o prprio corpo nas ruas.
   
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   Contudo, ele no foi convocado no primeiro dia e tampouco na primeira semana. Segundo os jornais, dois milhes e meio de reservistas haviam sido mobilizados no ltimo dia de julho, mas isso no passava de boato. Era impossvel que tantos homens fossem reunidos, uniformizados e despachados em trens para a frente de batalha em apenas um dia, ou mesmo em um ms. Eles eram convocados em grupos, alguns mais cedo, outros mais tarde.
    medida que os primeiros dias quentes de agosto foram passando, Grigori comeou a pensar que talvez o tivessem deixado de fora. Era uma possibilidade sedutora. O Exrcito era uma das instituies mais mal geridas daquele pas lamentavelmente desorganizado, ento era provvel que milhares de homens fossem ignorados por pura incompetncia.
   Katerina se habituara a passar em seu quarto todos os dias de manh bem cedo, enquanto ele preparava o caf. Era o melhor momento do dia de Grigori. Nessas horas, ele j estava sempre de banho tomado e vestido, mas ela aparecia com o vestido que usava para dormir e os cabelos adoravelmente despenteados, bocejando. Agora que estava engordando, a roupa parecia pequena para ela. Pelos seus clculos, Katerina deveria estar grvida de quatro meses e meio. Os seios e os quadris dela estavam maiores, enquanto sua barriga exibia uma protuberncia discreta. A voluptuosidade de Katerina era uma tortura deliciosa. Grigori se esforava para no ficar olhando para o seu corpo.
   Certa manh, ela apareceu enquanto Grigori preparava dois ovos mexidos em uma frigideira. Ele no podia mais se dar ao luxo de limitar o caf da manh a um mingau: o filho ainda por nascer de seu irmo precisava de comida de verdade para crescer forte e saudvel. Quase todos os dias, Grigori tinha algo de nutritivo para dividir com Katerina: presunto, arenque, ou ento linguia, o prato preferido dela.
   Katerina vivia com fome. Ela se sentou  mesa, cortou uma fatia grossa de po preto e comeou a comer, impaciente demais para esperar. Com a boca cheia, falou:
  -		Quando um soldado morre, quem fica com seu soldo?
   Grigori se lembrava de ter fornecido o nome e o endereo de seu parente mais prximo.
  -		No meu caso, Lev - respondeu.
  -		Fico pensando se ele j est nos Estados Unidos.
  -		Deve estar. A viagem no leva oito semanas.
  -		Espero que ele tenha arranjado um emprego.
  -		No se preocupe. Ele deve estar bem. Todos gostam dele. - Grigori sentiu uma pontada de ressentimento do irmo. Era Lev quem deveria estar ali na Rssia, cuidando de Katerina e do beb que estava por vir e ainda se preocupando
   
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com a mobilizao, enquanto Grigori comeava a vida nova para a qual havia
economizado e que passara tanto tempo planejando. Mas Lev havia lhe roubado
essa possibilidade. Mesmo assim, Katerina se afligia com o homem que a abandonara, no com o que tinha ficado ao seu lado.
-		Tenho certeza de que ele est bem nos Estados Unidos, mas, de qualquer
forma, queria que recebssemos uma carta dele - disse ela.
Grigori raspou o canto de um queijo duro por cima dos ovos e acrescentou um
pouco de sal. Perguntou-se com tristeza se algum dia teriam notcias dos Estados
Unidos. Lev nunca tinha sido uma pessoa sentimental - poderia muito bem ter
decidido deixar o passado para trs, como um lagarto que se livra da pele antiga.
Grigori, no entanto, no deu voz a esse pensamento por respeito a Katerina, que
ainda esperava que ele fosse mandar busc-la.
-		Voc acha que vai ter que ir  guerra? - perguntou ela.
-		No se eu puder evitar. Por que estamos lutando?
-		Dizem que  pela Srvia.
Grigori serviu, com uma colher, os ovos em dois pratos e sentou-se  mesa.
-		A questo  se a Srvia vai ser tiranizada pelo imperador austraco ou pelo
czar russo. Seja como for, duvido que os srvios liguem para isso. Eu, com certeza, no ligo. - Ele comeou a comer.
-		Pelo czar, ento.
-		Eu lutaria por voc, por Lev, por mim mesmo ou por seu beb... mas pelo
czar? No.
Katerina comeu os ovos depressa e limpou o prato com uma segunda fatia
de po.
-		De que nomes de menino voc gosta?
-		Meu pai se chamava Sergei, e o pai dele, Tikhon.
-		Eu gosto de Mikhail - disse ela. - Como o arcanjo.
-		Voc e quase todo mundo. Por isso  um nome to comum.
-		Talvez eu devesse batizar o beb de Lev. Ou mesmo de Grigori.
Ao ouvir isso, Grigori ficou comovido. Adoraria ter um sobrinho com o
mesmo nome que o seu. Mas no gostava de exigir nada de Katerina.
-		Lev seria um bom nome - falou.
O apito da metalrgica tocou - um som que se podia ouvir em todo o bairro
de Narva - e Grigori se levantou para sair.
-		Eu lavo os pratos - disse Katerina. Seu expediente s comeava s sete, uma
hora depois que o de Grigori.
Ela virou a bochecha para cima e Grigori a beijou. Foi apenas um beijo rpido,

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 e ele no deixou que os lbios se demorassem, mas, ainda assim, se deliciou com a maciez de sua pele e com o cheiro clido de seu pescoo, que lembrava uma cama quentinha.
Ento ps a boina na cabea e saiu.
Embora fosse cedo, o clima de vero j estava quente e mido. Grigori comeou a suar enquanto caminhava a passos largos pelas ruas.
Nos dois meses desde a partida de Lev, Grigori e Katerina haviam estabelecido uma amizade constrangida. Ela confiava nele e ele cuidava dela, mas no era isso que nenhum dos dois queria. Grigori queria amor, no amizade. Katerina queria Lev, no Grigori. Mas assegurar que ela se alimentasse bem proporcionava satisfao a Grigori. Era a nica forma que ele tinha de expressar seu amor. Dificilmente poderiam ficar como estavam muito tempo, porm, quela altura, era difcil pensar a longo prazo. Ele ainda tinha planos de fugir da Rssia e de conseguir chegar  terra prometida: os Estados Unidos.
Cartazes de mobilizao haviam sido afixados ao porto da metalrgica e os homens estavam reunidos em volta deles, os analfabetos pedindo aos outros que lessem em voz alta. Grigori se viu parado ao lado de Isaak, o capito do time de futebol. Ambos tinham a mesma idade e haviam servido o Exrcito juntos. Grigori correu os olhos pelos avisos, procurando o nome de sua unidade.
Desta vez, estava l.
Ele tornou a ler, mas no havia dvida: regimento de Narva.
Foi descendo pela lista at encontrar seu nome.
No havia acreditado de fato que aquilo pudesse acontecer. Mas vinha enganando a si mesmo. Tinha 25 anos, era forte e estava em boa forma fsica: o soldado perfeito.  claro que iria  guerra.
O que seria de Katerina? E do beb?
Isaak soltou um palavro. Seu nome tambm estava na lista.
Uma voz atrs deles disse:
-		No precisam se preocupar.
Eles se viraram e deram de cara com a forma esguia de Kanin, o amigvel supervisor da seo de fundio, um engenheiro de seus 30 e poucos anos.
-		Como assim no precisamos nos preocupar? - repetiu Grigori com ceticismo. - Katerina est grvida de Lev e no tem ningum para cuidar dela. O que eu vou fazer?
-		Fui falar com o responsvel pela mobilizao neste bairro - disse Kanin. - Ele prometeu conseguir dispensa para qualquer operrio meu. Somente os arruaceiros tero de ir.

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O corao de Grigori saltou no peito com esperana renovada. Parecia bom
demais para ser verdade.
-		O que ns temos que fazer? - perguntou Isaak.
-		 s no irem ao quartel. Vocs no vo ter problema nenhum. Est tudo
combinado.
Isak tinha um temperamento agressivo - sem dvida era isso que o tornava
to bom no esporte - e no se contentou com a resposta de Kanin.
-		Combinado como? - quis saber.
-		O Exrcito fornece  polcia uma lista dos homens que no comparecem e a
polcia tem que apanh-los. O nome de vocs simplesmente no estar na lista.
Isaak soltou um grunhido de insatisfao. Como ele, Grigori no gostava daquele tipo de acerto semioficial - havia margem demais para algo sair errado -, mas
lidar com o governo era sempre assim. Kanin devia ter subornado um oficial, ou
ento feito algum outro tipo de favor. Criar caso por causa disso era intil.
-		Que timo - disse Grigori a Kanin. - Obrigado.
-		No me agradeam - respondeu Kanin com brandura. - Eu fiz isso por
mim... e pela Rssia. Ns precisamos de homens qualificados como vocs para
fabricar trens, no para deter as balas alems. Isso um campons analfabeto pode
fazer. Os governantes ainda no entenderam essa questo, mas com o tempo vo
entender. E ainda me agradecero pelo que estou fazendo.
Grigori e Isaak atravessaram os portes da fbrica.
-		Acho que podemos confiar nele - disse Grigori. - O que temos a perder? -
Os dois fizeram fila para bater o ponto, deixando cair um quadradinho de metal
numerado dentro de uma caixa. -  uma boa notcia - completou.
Isaak no estava convencido.
-		Eu s queria me sentir mais seguro - disse ele.
Ambos se encaminharam para a seo onde eram fabricadas as rodas. Grigori
afastou as preocupaes da cabea e se preparou para o dia de trabalho. A Metalrgica Putilov estava produzindo mais trens do que nunca. O Exrcito tinha que
partir do princpio de que locomotivas e vages seriam destrudos por bombas,
de modo que seria necessrio repor peas assim que os combates comeassem. A
equipe de Grigori estava sendo pressionada a produzir rodas mais depressa.
Ele comeou a arregaar as mangas assim que entrou na oficina. Tratava-se de
um galpo pequeno, que a fornalha deixava quente durante o inverno e um verdadeiro forno naquela poca, o auge do vero. O metal rangia e estalava ao ser
moldado e polido pelos tornos.
Grigori viu Konstantin em p diante de seu torno e franziu as sobrancelhas ao

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notar a postura do amigo. A expresso de Konstantin transmitia um aviso: alguma coisa estava errada. Isaak tambm percebeu. Reagindo mais rpido que Grigori, ele se deteve, segurou o brao de Grigori e disse:
   - O qu...?
   No pde terminar a pergunta.
   Um homem de uniforme preto e verde saiu de trs da fornalha e golpeou Grigori no rosto com uma marreta.
   Ele tentou se esquivar, mas foi um segundo mais lento do que o necessrio e, embora tenha se encolhido, a cabea de madeira da ferramenta grande o atingiu no alto da ma do rosto, derrubando-o no cho. Uma dor agonizante varou sua cabea e ele soltou um berro.
   Sua viso demorou vrios segundos para clarear. Por fim, ergueu os olhos e viu a silhueta corpulenta de Mikhail Pinsky, capito de polcia daquele distrito.
   Deveria ter imaginado que aquilo fosse acontecer. Havia se safado com facilidade demais daquela briga em fevereiro. Policiais nunca esqueciam esse tipo de coisa.
   Ele tambm viu Isaak brigando com o parceiro de Pinsky, Ilya Kozlov, e dois outros policiais.
   Grigori continuou no cho. No iria revidar a menos que fosse obrigado. Pinsky que se vingasse, quem sabe assim ficaria satisfeito.
   No instante seguinte, no conseguiu manter essa deciso.
   Pinsky ergueu a marreta. Percebendo o bvio em um lampejo, Grigori viu que a arma era sua prpria ferramenta, usada para encaixar os moldes na areia de fundio. Ento ela desceu em direo  sua cabea.
   Ele se inclinou para a direita, mas Pinsky corrigiu o golpe, fazendo a pesada ferramenta de carvalho bater no seu ombro esquerdo. Ele soltou um rugido de dor e raiva. Enquanto Pinsky recuperava o equilbrio, Grigori se levantou com um pulo. Seu brao esquerdo pendia frouxo e intil, mas no havia nada de errado com o direito, de modo que ele recuou o punho para acertar Pinsky, sem pensar nas consequncias.
   Nunca chegou a desferir o soco. Dois homens de uniforme preto e verde em quem Grigori no havia reparado se materializaram de cada lado dele, agarrando seus braos e o imobilizando. Ele tentou em vo se desvencilhar de seus captores. Atravs de uma nvoa de raiva, viu Pinsky recuar a marreta e desferir outro golpe. A pancada o atingiu no peito e ele sentiu as costelas se partirem. O golpe seguinte foi mais baixo, atingindo-lhe a barriga. Ele teve um espasmo e vomitou o caf da manh. Ento uma nova marretada atingiu a lateral da sua cabea. Por
   
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alguns segundos, ele perdeu os sentidos e, quando voltou a si, seu corpo pendia mole dos braos dos dois policiais. Isaak tambm estava imobilizado por dois outros homens.
-		Mais calmo agora? - perguntou Pinsky.
Grigori cuspiu sangue. Seu corpo inteiro doa e ele no conseguia pensar direito. O que estava acontecendo? Pinsky o detestava, mas alguma coisa deveria ter acontecido para provocar aquilo. E era muita audcia dele, agir bem ali no meio da fbrica, cercado por trabalhadores que no tinham motivo algum para gostar da polcia. Por alguma razo, ele devia estar se sentindo seguro de si.
Pinsky ergueu a marreta e assumiu uma expresso pensativa, como se estivesse cogitando desferir mais um golpe. Grigori se contraiu e lutou contra a tentao de implorar clemncia. Ento Pinsky perguntou:
-		Qual  o seu nome?
Grigori tentou falar. A princpio, tudo o que saiu de sua boca foi sangue. Por fim, ele conseguiu dizer:
-		Grigori Sergeivich Peshkov.
Pinsky lhe deu outra marretada na barriga. Grigori gemeu e vomitou sangue.
-		Mentiroso - disse Pinsky. - Qual  o seu nome? - Ele tornou a erguer a marreta.
Konstantin se afastou de seu torno para chegar mais perto.
-		Senhor agente, este homem  Grigori Peshkov! - protestou ele. - Todos ns o conhecemos h muitos anos!
-		No minta para mim - disse Pinsky, levantando mais um pouco a marreta. - Ou vai ter um gostinho disto aqui.
A me de Konstantin, Varya, se manifestou.
-		No  mentira, Mikhail Mikhailovich - disse ela. O uso do patronmico significava que ela conhecia Pinsky. - Ele  quem diz ser. - Ela ficou parada com os braos cruzados sobre o peito farto, como se desafiasse o policial a duvidar dela.
-		Ento explique isto aqui - falou Pinsky, sacando do bolso uma folha de papel. - Grigori Sergeivich Peshkov deixou So Petersburgo dois meses atrs a bordo do Anjo Gabriel.
Kanin, o supervisor, apareceu e perguntou:
-		O que est acontecendo aqui? Por que ningum est trabalhando?
Pinsky apontou para Grigori.
-		Este homem  Lev Peshkov, irmo de Grigori... procurado pelo assassinato de um policial!
Todos comearam a gritar ao mesmo tempo. Kanin levantou a mo para pedir silncio e disse:

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-		Senhor agente, eu conheo tanto Grigori quanto Lev Peshkov e passei vrios anos vendo os dois quase diariamente. Como todos os irmos, eles se parecem, mas posso lhe garantir que este aqui  Grigori. E o senhor est impedindo o trabalho desta seo.
-		Se este aqui  Grigori - disse Pinsky, com ar de quem lana mo de um trunfo -, ento quem embarcou no Anjo Gabriel?
Assim que ele fez a pergunta, a resposta ficou clara. Depois de alguns instantes, Pinsky se deu conta e ficou com cara de bobo.
-		Meu passaporte e minha passagem foram roubados - disse Grigori.
Pinsky comeou a enrubescer.
-		E por que voc no deu queixa  polcia?
-		De que iria adiantar? Lev j tinha sado do pas. Vocs no iriam conseguir traz-lo de volta, e menos ainda meus documentos.
-		Isso faz de voc cmplice da fuga dele.
Kanin tornou a intervir.
-		Capito Pinsky, o senhor comeou acusando este homem de assassinato. Talvez isso fosse motivo suficiente para paralisar a produo da seo de rodas. Mas j reconheceu que estava enganado e agora est alegando apenas que meu funcionrio no deu queixa do roubo de alguns documentos. Enquanto isso, seu pas est em guerra e o senhor est atrasando a fabricao de locomotivas de vital importncia para o Exrcito russo. A menos que queira ver seu nome mencionado no nosso prximo relatrio ao alto-comando do Exrcito, sugiro que encerre seu trabalho aqui imediatamente.
Pinsky olhou para Grigori.
-		Qual  a sua unidade de reservistas?
Grigori respondeu sem pensar:
-		O regimento de Narva.
-		R! - disse Pinsky. - Eles foram convocados hoje. - O policial olhou para Isaak. - Voc tambm, aposto.
Isaak permaneceu calado.
-		Podem solt-los - ordenou Pinsky.
Grigori cambaleou quando lhe soltaram os braos, mas conseguiu ficar de p.
-		 melhor vocs aparecerem no quartel conforme solicitado - disse Pinsky a Grigori e Isaak. - Seno vou atrs de vocs. - Ele deu meia-volta e saiu com o pouco de dignidade que lhe restava. Seus homens o acompanharam.
Grigori deixou-se cair sobre um banquinho. Sua cabea latejava, suas costelas doam e ele sentia a barriga machucada. Precisava se encolher em um canto e 

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desmaiar. O pensamento que o mantinha acordado era um desejo ardente de destruir Pinsky e todo o sistema do qual ele fazia parte. Um dia, ele no parava de pensar, ns vamos acabar com Pinsky, com o czar e com tudo o que eles representam.
-		O Exrcito no vir atrs de vocs - disse Kanin. - Isso eu j garanti... mas infelizmente no posso fazer nada quanto  polcia.
Grigori meneou a cabea com raiva. Era o que ele temia. O golpe mais violento de Pinsky, pior do que qualquer um que houvesse desferido com a marreta, era garantir que Grigori e Isaak se apresentassem ao Exrcito.
-		No gosto da ideia de perd-lo - disse Kanin. - Voc tem sido um bom operrio. - Ele parecia sinceramente comovido, mas estava de mos atadas. Ficou calado por mais alguns segundos, ento ergueu as mos para o alto em um gesto de impotncia e saiu do galpo.
Varya surgiu na frente de Grigori com uma tigela cheia de gua e um pano limpo. Limpou o sangue do seu rosto. Era uma mulher corpulenta, mas suas mos largas tinham um toque delicado.
-		Voc deveria ir para o alojamento da fbrica - disse ela. - Achar uma cama vazia e se deitar por uma hora.
-		No - respondeu Grigori. - Eu vou para casa.
Varya deu de ombros e virou-se para Isaak, cujos ferimentos no eram to graves.
Com esforo, Grigori se levantou e a fbrica rodopiou  sua volta por alguns segundos. Quando ele titubeou, Konstantin segurou-lhe o brao, mas, depois de algum tempo, se sentiu capaz de ficar em p sozinho.
Konstantin recolheu a boina do amigo do cho e a devolveu a ele.
Quando Grigori comeou a andar, sentiu-se trpego, mas recusou com um gesto qualquer oferta de ajuda. Ento, depois de alguns passos, voltou a andar normalmente. O esforo clareou sua mente, mas a dor em suas costelas o obrigava a pisar com cuidado. Ele foi percorrendo devagar o labirinto de bancos e tornos, fornalhas e prensas, at chegar ao lado de fora do galpo e depois ao porto da fbrica.
Foi quanto topou com Katerina, que estava chegando.
-		Grigori! - exclamou ela. - Voc foi convocado, eu vi o cartaz! - Ela ento reparou em seu rosto ferido. - O que aconteceu?
-		Tive um encontro com seu chefe de polcia preferido.
-		Pinsky, aquele porco. Voc est ferido!
-		Os machucados vo melhorar.
-		Vou levar voc para casa.
Grigori ficou surpreso. Aquilo era uma inverso de papis. Katerina nunca havia se oferecido para cuidar dele antes.

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-		Posso chegar l sozinho - disse ele.
-		Mas eu vou com voc mesmo assim.
Ela o tomou pelo brao e os dois saram caminhando pelas ruas estreitas na contramo do fluxo de milhares de trabalhadores que se dirigiam  fbrica. O corpo de Grigori doa e ele se sentia mal; mesmo assim era uma alegria caminhar de braos dados com Katerina enquanto o sol nascia por sobre as casas mal conservadas e as ruas sujas.
A caminhada pelo trajeto conhecido, no entanto, o deixou mais cansado do que ele esperava. Ento, quando por fim chegaram em casa, ele se sentou pesadamente sobre a cama, deitando-se logo em seguida.
-		Eu tenho uma garrafa de vodca escondida no quarto das meninas - disse Katerina.
-		No, obrigado, mas gostaria de um ch.
Grigori no tinha um samovar em casa, mas ela preparou o ch em uma panela e lhe entregou uma xcara na qual havia colocado um torro de acar. Depois de beber, ele se sentiu um pouco melhor.
-		O pior de tudo  que eu poderia ter escapado da convocao... - falou. - Mas Pinsky jurou que ia garantir que isso no acontecesse.
Ela se sentou ao seu lado na cama e tirou um panfleto do bolso.
-		Uma das meninas me deu isto aqui.
Grigori olhou de relance para o papel. Parecia algo sem graa e oficial, como uma publicao do governo. O ttulo era "Ajuda s Famlias dos Soldados".
-		Se voc for esposa de um soldado, tem direito a uma penso mensal do Exrcito - disse Katerina. - No  s para os pobres, qualquer um pode receber.
Grigori se lembrava vagamente de ter ouvido falar nisso. Como no lhe dizia respeito, no tinha dado muita importncia ao assunto.
-		E no  s isso - continuou Katerina. - Voc tambm tem descontos na compra de combustvel para calefao e de passagens de trem e ainda recebe uma ajuda para custear a educao dos filhos.
-		Que maravilha! - disse Grigori. Ele queria dormir. - Chega a ser estranho tanto bom senso vindo do Exrcito.
-		Mas  preciso ser casada.
Grigori ficou mais atento. Ser possvel que ela estava pensando...?
-		Por que voc est me dizendo isso? - perguntou ele.
-		Do jeito que as coisas esto agora, eu no vou receber nada.
Grigori se apoiou em um dos cotovelos e olhou para ela. De repente, seu corao estava disparado.

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-		Se eu fosse casada com um soldado, minha situao seria melhor - disse ela. - E a do meu filho tambm.
-		Mas... voc ama Lev.
-		Eu sei. - Ela comeou a chorar. - Mas Lev est nos Estados Unidos e nem sequer se d ao trabalho de escrever perguntando como estou.
-		Mas ento... o que voc quer fazer? - Grigori sabia a resposta, mas precisava escut-la.
-		Eu quero me casar - disse ela.
-		S para ter direito  penso de uma esposa de soldado.
Ela aquiesceu, eliminando com esse gesto uma esperana tnue e ingnua que havia brotado no peito dele por um instante.
-		Seria to importante para mim... - disse ela. - Ter um dinheirinho quando o beb nascesse... principalmente agora que voc vai estar longe, no Exrcito.
-		Eu entendo - disse ele com o corao pesado.
-		Podemos nos casar? - indagou ela. - Por favor?
-		Sim - respondeu ele. -  claro que podemos.
Cinco casais foram unidos ao mesmo tempo na Igreja da Virgem Abenoada. O padre correu com a cerimnia e Grigori observou, irritado, que ele no encarava ningum nos olhos. Aquele homem mal teria percebido se uma das noivas fosse um gorila.
Grigori pouco se importava. Sempre que passava por uma igreja, lembrava-se do padre que havia tentado ter algum tipo de relao sexual com Lev quando o irmo tinha 11 anos. O desprezo de Grigori pelo cristianismo havia sido reforado mais tarde pelas palestras sobre atesmo do grupo de discusso bolchevique de Konstantin.
Grigori e Katerina estavam se casando s pressas, assim como os outros quatro casais. Todos os noivos estavam fardados. A mobilizao havia provocado uma onda de matrimnios e a Igreja estava se esforando para dar conta da demanda. Grigori detestava aquela farda; para ele, um smbolo de servido.
No havia contado a ningum sobre o casamento. No via nele motivo para comemorao. Katerina deixara bem claro que se tratava de uma medida puramente prtica, uma forma de conseguir o dinheiro do governo. Nesse sentido, era uma tima ideia - e, quando estivesse no Exrcito, Grigori ficaria menos ansioso ao saber que ela gozava de alguma segurana financeira. Mesmo assim, no

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conseguia evitar a sensao de que aquele casamento tinha algo de horrivelmente
farsesco.
J Katerina no foi to reservada, de modo que todas as moas da penso estavam na igreja, assim como vrios operrios da metalrgica.
Depois da cerimnia, houve uma festa no quarto que Katerina dividia com as
meninas, com cerveja, vodca e um violinista que tocou msicas folclricas
conhecidas por todos. Quando as pessoas comearam a ficar embriagadas, Grigori
saiu de fininho e foi para seu quarto. Tirou as botas e se deitou na cama vestindo
a cala e a camisa do uniforme. Apagou a vela com um sopro, mas conseguia
enxergar graas  luz da rua. Ainda estava dolorido por causa da surra de Pinsky:
sentia dor no brao esquerdo sempre que tentava us-lo e uma pontada nas costelas fraturadas a cada vez que se virava na cama.
No dia seguinte, estaria a bordo de um trem rumo ao oeste. Os combates
comeariam a qualquer momento. Ele estava com medo: somente um louco no
ficaria. Mas era um homem inteligente e decidido e faria o melhor para permanecer vivo - como vinha fazendo desde a morte da me.
Ainda estava acordado quando Katerina entrou no quarto.
-		Voc saiu cedo da festa - reclamou ela.
-		No queria ficar bbado.
Ela suspendeu a saia do vestido.
Ele ficou estupefato. No conseguiu desgrudar os olhos do corpo desenhado
pela luz dos postes da rua, das longas curvas das coxas e dos cachos louros. Ficou
excitado e confuso.
-		O que voc est fazendo? - perguntou.
-		Indo para a cama,  claro.
-		Aqui, no.
Ela descalou os sapatos.
-		Que histria  essa? Ns agora somos casados.
-		S para voc poder receber a penso.
-		Mesmo assim, voc merece alguma coisa em troca. - Ela se deitou na cama
e beijou-lhe a boca com hlito de vodca.
Grigori no conseguiu evitar o desejo que nasceu dentro dele, fazendo-o corar
de paixo e de vergonha. Apesar disso, conseguiu articular um "No" com a voz
engasgada.
Ela puxou a mo dele e a encostou no seu seio. Ele a acariciou, contra a vontade, apertando com delicadeza a carne macia e encontrando, com a ponta dos
dedos, o mamilo atravs do tecido grosseiro do vestido.

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-		Est vendo? - disse ela. - Voc quer.
Seu tom de voz triunfante o deixou zangado.
-		 claro que quero - respondeu ele. - Eu amei voc desde o primeiro dia em que a vi. Mas voc ama Lev.
-		Ai, por que voc vive pensando em Lev?
-		 um hbito que tenho desde que ele era pequeno e vulnervel.
-		Bom, ele agora  um homem feito, alm disso, no liga a mnima para voc ou para mim. Ele pegou seu passaporte, sua passagem e seu dinheiro e nos deixou sem nada a no ser este beb.
Ela estava certa: Lev sempre fora egosta.
-		Mas voc no ama seus parentes porque eles so gentis e compreensivos. Voc os ama porque so seus parentes.
-		Ah, d um presente para voc mesmo - disse ela, irritada. - Amanh voc vai entrar para o Exrcito. Duvido que queira morrer arrependido por no ter trepado comigo quando teve a oportunidade.
Ele estava muito tentado. Ainda que ela estivesse meio embriagada, o corpo ao seu lado era quente e convidativo. No teria ele direito a uma noite de prazer?
Katerina subiu a mo pela perna dele e empunhou seu pnis rijo.
-		Vamos, voc se casou comigo, agora pode muito bem gozar dos seus direitos.
E era justamente esse o problema, pensou Grigori. Ela no o amava. Estava
se oferecendo em pagamento pelo que ele tinha feito. Aquilo era prostituio. Sentiu-se to ofendido que ficou com raiva - e o fato de estar louco para ceder s fazia piorar a situao.
Ela comeou a esfregar seu membro para cima e para baixo. Furioso e exaltado, ele a empurrou. O empurro foi mais violento do que pretendia e a fez cair da cama.
Ela soltou um grito de surpresa e dor.
Aquela no fora sua inteno, mas ele estava furioso demais para se desculpar.
Durante vrios segundos, Katerina ficou deitada no cho, chorando e praguejando ao mesmo tempo. Ele resistiu  tentao de ajud-la. Com dificuldade, ela se levantou, titubeando por causa da vodca.
-		Seu porco! - falou. - Como pode ser to cruel? - Ela endireitou o vestido, cobrindo as belas pernas. - Que tipo de noite de npcias  este para uma garota... ser chutada para fora da cama do prprio marido?
As palavras deixaram Grigori sentido, mas ele continuou deitado sem dizer nada.
-		Nunca pensei que voc pudesse ter um corao to duro - disse ela, irada. -

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V para o inferno! V para o inferno! - Ela recolheu os sapatos, abriu a porta com violncia e saiu do quarto pisando firme.
   Grigori se sentiu totalmente arrasado. Em seu ltimo dia como civil, havia brigado com a mulher que adorava. Agora, se viesse a morrer em combate, morreria infeliz. Que mundo podre, pensou, que vida miservel!
   Ele foi at a porta para fech-la e ouviu Katerina no quarto ao lado, falando com uma jovialidade forada:
   - Grigori no conseguiu... estava bbado demais! - disse ela. - Algum me d mais um pouco de vodca e vamos danar outra msica!
   Ele bateu a porta e se jogou na cama.
Ill
Grigori acabou tendo um sono agitado. Na manh seguinte, acordou cedo. Lavou-se, vestiu a farda e comeu um pouco de po.
   Quando passou a cabea pela porta do quarto das meninas, viu que todas dormiam profundamente e que o cho estava coberto de garrafas, e o ar carregado de fumaa de cigarro e ranoso de cerveja derramada. Passou um minuto inteiro encarando Katerina, que dormia com a boca aberta. Ento saiu da casa, sem saber se algum dia tornaria a v-la, dizendo a si mesmo que no se importava.
   Mas seu humor melhorou com a animao e a correria de se apresentar ao regimento, receber arma e munio, encontrar o trem certo e conhecer os novos companheiros. Ele tirou Katerina da cabea e comeou a pensar no futuro.
   Embarcou em um trem junto com Isaak e vrias outras centenas de reservistas, todos vestidos com as calas e tnicas de seu novo uniforme cinza-esverdeado. Como os demais, carregava um fuzil Mosin-Nagant de fabricao russa que, com sua comprida baioneta pontuda, tinha a mesma altura que ele. O grande hematoma deixado pela marreta, que cobria quase totalmente um dos lados de seu rosto, fez os outros pensarem que ele era algum tipo de criminoso, o que os levou a trat-lo com um respeito cauteloso. O trem saiu de So Petersburgo cuspindo fumaa e foi resfolegando em um ritmo constante por campos e florestas.
   O sol poente estava diante do trem,  direita, o que significava que estavam indo para sudoeste, na direo da Alemanha. Isso parecia evidente para Grigori, porm, quando comentou a respeito com seus companheiros de farda, eles ficaram surpresos e impressionados: a maioria no sabia onde ficava a Alemanha.
   Aquela era a segunda vez que andava de trem na vida, e se lembrou com clareza da primeira. Quando tinha 11 anos, sua me o havia levado a So Petersburgo
   
321
 

junto com Lev. Fazia poucos dias que seu pai tinha sido enforcado. A cabea do pequeno Grigori estava cheia de medo e tristeza, mas, como qualquer criana, ele ficara muito entusiasmado com a viagem: o cheiro de leo da locomotiva gigantesca, as rodas imensas, a camaradagem dos camponeses no vago de terceira classe e a velocidade estonteante com a qual a paisagem campestre passava pela janela. Ele voltou a experimentar um pouco do mesmo entusiasmo e no pde deixar de sentir que havia iniciado uma aventura que poderia ser no s terrvel, mas tambm empolgante.
   Desta vez, no entanto, ele viajava em um vago de animais, assim como todos, exceto os oficiais. O vago abrigava cerca de 40 homens: operrios de So Petersburgo com a pele clara e malcia no olhar; camponeses de barbas compridas e voz arrastada, que examinavam tudo com uma curiosidade cheia de fascnio; e meia dzia de judeus de olhos e cabelos escuros.
   Um dos judeus sentou-se ao lado de Grigori e se apresentou como David. Segundo ele, seu pai fabricava baldes de ferro no quintal dos fundos de sua casa e depois os vendia de vilarejo em vilarejo. Havia muitos judeus no Exrcito, explicou, porque era mais difcil para eles conseguir uma dispensa do servio militar.
   Estavam todos sob o comando de um tal sargento Gavrik, um soldado comum que parecia ansioso, ladrava ordens e blasfemava muito. Ele fingia pensar que todos os homens fossem camponeses e os chamava de fodedores de vacas. Tinha a mesma idade de Grigori, jovem demais para ter participado da guerra contra o Japo de 1904-1905, e Grigori imaginava que, por baixo de toda aquela bravata, ele estava com medo.
   De tantas em tantas horas, o trem parava em uma estao do interior e os homens desciam. s vezes recebiam sopa e cerveja, outras, apenas gua. Entre as paradas, ficavam sentados no cho do vago. Gavrik se certificou de que todos sabiam limpar o fuzil e relembrou-lhes as diferentes patentes militares e as formas de tratamento que deviam ser usadas com os oficiais. Tenentes e capites eram "Sua Excelncia", mas os oficiais de alta patente demandavam uma srie de ttulos honorficos que iam at "Mais Alto Fulgor" para os que tambm fossem aristocratas.
   No segundo dia, Grigori calculou que j estivessem no territrio da Polnia russa.
   Perguntou ao sargento de que seo do Exrcito faziam parte. Sabia que formavam o regimento de Narva, mas ningum lhes dissera como se encaixavam no contexto global das Foras Armadas.
   - No  da sua conta, porra. - disse Gavrik. - V para onde mandarem, faa o que disserem e pronto. - Grigori imaginou que ele no soubesse a resposta.
   Um dia e meio depois, o trem parou em uma cidade chamada Ostrolenka.
   
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Grigori nunca tinha ouvido falar nela, mas pde ver que era o final da linha do trem, ento imaginou que deveria ficar prxima  fronteira alem. Centenas de vages estavam sendo desembarcados ali. Homens e cavalos suavam e se esforavam para retirar imensas peas de artilharia dos trens. Milhares de soldados aguardavam enquanto oficiais carrancudos tentavam agrup-los em pelotes e companhias. Ao mesmo tempo, toneladas de mantimentos precisavam ser transferidas para carroas puxadas a cavalo: peas de carne, sacos de farinha, barris de cerveja, caixotes de munio, embalagens contendo projteis e muitas toneladas de aveia para alimentar todos os cavalos.
   Em determinado momento, Grigori viu o rosto odiado do prncipe Andrei. Ele usava uma farda suntuosa - Grigori no conhecia to bem os emblemas e listras para identificar seu regimento ou sua patente - e estava montado em um cavalo baio de grande porte. Um cabo vinha atrs dele, carregando um canrio dentro de uma gaiola. Eu poderia mat-lo agora com um tiro e vingar meu pai, pensou Grigori.  claro que era uma ideia idiota, mas ele ficou alisando o gatilho do fuzil enquanto o prncipe e seu pssaro engaiolado desapareciam em meio  multido.
   O tempo estava quente e seco. Naquela noite, Grigori dormiu no cho com o restante dos homens de seu vago. Atinou que formavam um peloto e que ficariam juntos por algum tempo. Na manh seguinte, foram apresentados ao seu comandante, um segundo-tenente aflitivamente jovem chamado Tomchak. Ele os conduziu por uma estrada que seguia em direo ao noroeste, fazendo-os sair de Ostrolenka.
   O tenente Tomchak disse a Grigori que eles formavam a Unidade 13, comandada pelo general Klyuev, que fazia parte do Segundo Exrcito sob as ordens do general Samsonov. Os outros homens ficaram assustados quando Grigori transmitiu essa notcia a eles, pois o nmero 13 trazia m sorte, e o sargento Gavrik disse:
   - Eu disse a voc que isso no era da sua conta, Peshkov, sua bicha de merda.
   O peloto no estava muito longe da cidade quando a estrada pavimentada terminou, virando uma trilha de areia que cortava uma floresta. Os veculos de mantimentos atolaram e os condutores perceberam que um nico cavalo no conseguia puxar uma carroa do Exrcito cheia por um solo arenoso. Todos os cavalos tiveram de ser desarreados e reatrelados de dois em dois, de modo que metade dos vages teve de ser abandonada  beira da estrada.
   Eles marcharam o dia inteiro e dormiram outra vez ao relento. A cada noite, antes de dormir, Grigori pensava com seus botes: mais um dia e eu ainda estou vivo para cuidar de Katerina e do beb.
   Naquela noite Tomchak no recebeu nenhuma ordem, portanto eles passaram
   
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a manh seguinte inteira sentados debaixo das rvores. Grigori achou timo: a
marcha da vspera o deixara com as pernas doloridas e as botas novas machucavam seus ps. Os camponeses estavam acostumados a passar o dia inteiro caminhando e riam da fraqueza dos recrutas da cidade.
 Ao meio-dia, um mensageiro trouxe, com quatro horas de atraso, ordens de
que deveriam ter partido s oito da manh.
   No havia como prover os homens de gua durante a marcha, ento eles
tinham que beber dos poos e riachos que surgiam pelo caminho. Logo aprenderam a beber o mximo de gua possvel a cada oportunidade e a manter seus
respectivos cantis sempre cheios. Tampouco era possvel cozinhar - e a nica
comida que recebiam eram bolachas duras e secas. De poucos em poucos quilmetros, eram convocados para ajudar a desatolar um canho de algum brejo ou
banco de areia.
   Eles marcharam at o pr do sol e dormiram novamente debaixo das rvores.
   Na metade do terceiro dia, emergiram da mata e se depararam com uma bela
casa de fazenda localizada entre campos de aveia e trigo maduro. Tinha dois
andares e um telhado ngreme. No quintal havia uma fonte de concreto e uma
construo de pedra baixa que parecia um chiqueiro, embora estivesse limpo. O
lugar parecia a propriedade de algum rico dono de terras, ou talvez do filho caula de algum nobre. Estava trancado e deserto.
   Quase dois quilmetros mais adiante, para espanto geral, a estrada cortava um
vilarejo inteiro composto de propriedades do mesmo tipo, todas abandonadas.
Grigori comeou a se dar conta de que havia cruzado a fronteira com a Alemanha
e de que aquelas eram as casas luxuosas dos agricultores alemes que, junto com
suas famlias e animais, haviam fugido para escapar do Exrcito russo que se aproximava. Mas onde estavam os casebres dos camponeses pobres? Que fim tinha
levado a sujeira dos porcos e das vacas? Por que no havia nenhum curral de
madeira caindo aos pedaos, com as paredes remendadas e buracos no telhado?
   Os soldados ficaram radiantes.
  -		Eles esto fugindo de ns! - disse um dos camponeses. - Esto com medo
dos russos. Ns vamos conquistar a Alemanha sem disparar um tiro!
   Por frequentar o grupo de discusso de Konstantin, Grigori sabia que o plano
alemo era conquistar antes a Frana para s depois lidar com a Rssia. Os alemes no estavam se rendendo, mas apenas escolhendo o melhor momento para
lutar. Mesmo assim, seria surpreendente se estivessem de fato abrindo mo
daquele territrio to rico sem resistncia.
  -		Que parte da Alemanha  esta, Excelncia? - perguntou ele a Tomchak.
   
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-		Eles a chamam de Prssia Oriental.
-		 a parte mais rica da Alemanha?
-		Creio que no - respondeu o tenente. - No estou vendo nenhum palcio.
-		O povo comum da Alemanha  rico o suficiente para morar em casas como essas?
-		Varece que sim.
Era bvio que Tomchak, que parecia recm-sado da escola, no sabia muito mais do que Grigori.
Grigori continuou andando, mas sentia-se desmoralizado. Considerava-se um homem bem informado, mas no fazia ideia de que os alemes vivessem to bem.
Foi Isaak quem deu voz s suas inseguranas.
-		Nosso Exrcito j est com dificuldade para nos alimentar, apesar de nenhum tiro ter sido disparado ainda - falou em voz baixa. - Como vamos lutar contra um povo to bem organizado a ponto de criar porcos em chiqueiros de pedra?
Walter estava eufrico com os acontecimentos na Europa. Tudo indicava que a guerra seria curta e que a Alemanha conquistaria uma vitria rpida. Ele poderia reencontrar Maud no Natal.
A menos,  claro, que morresse. Mas, se fosse o caso, morreria um homem feliz.
Ele estremecia de alegria sempre que se lembrava da noite que haviam passado juntos. No tinham desperdiado seu precioso tempo dormindo. Fizeram amor trs vezes. No fim das contas, a penosa dificuldade inicial s intensificara a euforia de ambos. Entre cada uma das vezes, haviam ficado deitados lado a lado, conversando e afagando preguiosamente um ao outro. Nenhuma conversa se comparava s que tiveram. Tudo o que pudesse dizer a si mesmo, Walter podia dizer a Maud. Nunca se sentira to ntimo de outra pessoa.
Perto do raiar do dia, os dois haviam comido todas as frutas da fruteira e todos os chocolates da caixa. Por fim, tiveram que ir embora: Maud para voltar s escondidas para a casa de Fitz - dizendo aos empregados que sara para dar uma caminhada matinal - e Walter rumo ao seu apartamento, para trocar de roupa, fazer as malas e deixar instrues com o lacaio para enviar seus demais pertences por navio a sua casa em Berlim.
No txi, durante o curto trajeto entre os distritos de Knightsbridge e Mayfair, eles ficaram segurando as mos um do outro com fora, sem dizer muita coisa. Walter mandara o motorista parar na esquina da casa de Fitz. Maud o beijara

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uma ltima vez, enroscando a lngua na dele com uma paixo desesperada, indo embora em seguida e deixando-o a pensar se um dia tornaria a v-la.
   A guerra havia comeado bem. O exrcito alemo avanava de forma implacvel pela Blgica. Mais ao sul, os franceses - movidos mais pelo entusiasmo do que pela estratgia - haviam invadido a Lorena apenas para serem triturados pela artilharia alem. Agora estavam em franca retirada.
   O Japo havia entrado na guerra ao lado da Frana e da Gr-Bretanha, o que infelizmente no permitia que soldados russos no Extremo Oriente fossem transferidos para a frente de batalha na Europa. Os norte-americanos, contudo, para grande alvio de Walter, haviam confirmado sua neutralidade. Como o mundo havia ficado pequeno, refletiu ele: o Japo ficava no limite oriental do mundo, e os Estados Unidos no limite ocidental. Aquela guerra dava a volta ao mundo.
   De acordo com os servios de inteligncia alemes, os franceses haviam enviado uma srie de telegramas para So Petersburgo implorando ao czar que atacasse, na esperana de que isso distrasse os alemes. Os russos, por sua vez, haviam se movido depressa demais, contrariando todas as previses. Seu Primeiro Exrcito tinha surpreendido o mundo inteiro ao cruzar a fronteira alem em apenas 12 dias de mobilizao. Enquanto isso, o Segundo Exrcito invadia o pas mais ao sul, a partir do terminal ferrovirio de Ostrolenka, em uma trajetria que faria as duas frentes se encontrarem perto de uma cidade chamada Tannenberg. Nenhum dos dois exrcitos encontrou qualquer oposio.
   A estranha apatia alem que tornou isso possvel no tardou a acabar. O comandante supremo da regio, general Prittwitz, conhecido como Der Dicke, O Gordo, foi rapidamente afastado pelo alto-comando e substitudo pela dupla formada por Paul von Hindenburg, que teve de abandonar sua aposentadoria, e Erich Ludendorff, um dos poucos oficiais veteranos que no tinha o "von" dos aristocratas no sobrenome. Aos 49 anos, Ludendorff era tambm um dos generais mais jovens. Walter o admirava por ter chegado to alto por puro mrito e estava feliz em ser seu contato com a inteligncia.
   No dia 23 de agosto, um domingo, enquanto estavam indo da Blgica para a Prssia, eles fizeram uma breve parada em Berlim. L, Walter pde passar alguns instantes com a me na plataforma da estao. Seu nariz fino estava avermelhado por causa de um resfriado de vero. Ela o abraou com fora, tremendo de emoo.
  -		Voc est bem - disse.
  -		Sim, me, estou bem.
  -		Estou muito preocupada com Zumwald. Os russos esto to perto! - Zumwald era a propriedade rural dos Von Ulrich, no leste do pas.
   
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-		Tenho certeza de que vai ficar tudo bem.
Ela no se deixou convencer com tanta facilidade.
-		Eu falei com a esposa do Kaiser. - Sua me a conhecia bem. - Vrias outras senhoras fizeram o mesmo.
-		Voc no deveria incomodar a famlia real - disse Walter, repreendendo a me. - Eles j tm muito com que se preocupar.
Sua me fungou.
-		No podemos deixar nossas propriedades nas mos do Exrcito russo!
Walter sentia o mesmo. Ele tambm detestava pensar nos camponeses russos primitivos e seus senhores brbaros sempre de chicote na mo pisoteando os pastos e pomares bem cuidados da propriedade dos Von Ulrich. Aqueles agricultores alemes to esforados, com suas mulheres musculosas, seus filhos asseados e seu gado gordo, mereciam proteo. No era esse o motivo da guerra? Alm disso, ele planejava um dia levar Maud para conhecer Zumwald e mostrar o lugar para sua esposa.
-		Ludendorff vai deter o avano dos russos, me - disse ele, torcendo para que fosse verdade.
Antes que ela pudesse responder, o trem apitou e Walter lhe deu um beijo, embarcando em seguida.
Ele sentia uma pontada de responsabilidade pessoal pelas derrotas alems na frente oriental. Foi um dos especialistas em inteligncia a prever que os russos no conseguiriam atacar to depressa uma vez ordenada a mobilizao. Sempre que pensava nisso, ficava mortificado de vergonha. Porm desconfiava que no tivesse se enganado por completo, e que os russos estavam enviando  frente de batalha tropas despreparadas e sem suprimentos adequados.
Quando chegou  Prssia Oriental mais tarde naquele mesmo domingo, acompanhado pela comitiva de Ludendorff, essa desconfiana foi reforada por relatrios segundo os quais o Primeiro Exrcito russo, ao norte, havia parado de avanar. Ele havia penetrado apenas uns poucos quilmetros em territrio alemo e, segundo a lgica militar, deveria seguir em frente. O que os russos estavam esperando? Walter suspeitava que estivessem ficando sem comida.
A frente sul do Exrcito russo, no entanto, continuava a avanar - e a prioridade de Ludendorff era det-la.
Na manh seguinte, segunda-feira, 24 de agosto, Walter entregou a Ludendorff dois relatrios de valor inestimvel. Eram duas mensagens telegrficas dos russos, interceptadas e traduzidas pelo servio de inteligncia alemo.
A primeira, enviada s cinco e meia daquela manh pelo general Rennenkampf, ordenava ao Primeiro Exrcito russo que retomasse a marcha.

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Finalmente Rennenkampf havia voltado a agir, mas, em vez de tomar o rumo do sul para encontrar o Segundo Exrcito e reunir as duas frentes, estava avanando de forma inexplicvel para oeste, o que no representava ameaa alguma para as foras alems.
A segunda mensagem fora enviada meia hora mais tarde pelo general Samsonov, comandante do Segundo Exrcito russo. Ele ordenava s suas Unidades 13 e 15 que fossem ao encalo da Unidade XX dos alemes, que ele acreditava estar batendo em retirada.
-		Isso  espantoso! - comentou Ludendorff. - Como foi que conseguimos estas informaes? - Ele tinha um ar desconfiado, como se Walter pretendesse engan-lo. J Walter tinha a impresso de que Ludendorff suspeitava dele por v-lo como um membro da antiga aristocracia militar. - Ns sabemos os cdigos deles? - quis saber o general.
-		Eles no usam cdigos - disse-lhe Walter.
-		Eles enviam ordens s claras? Meu Deus, mas por qu?
-		Os soldados russos no so instrudos o bastante para lidar com cdigos - explicou Walter. - As informaes que colhemos antes da guerra indicaram que mal h homens alfabetizados suficientes para operar os transmissores de telgrafo.
-		Ento por que no usam telefones de campanha? Uma chamada telefnica no pode ser interceptada.
-		Acho que eles provavelmente ficaram sem fios de telefone.
Ludendorff tinha os lbios virados para baixo, um queixo proeminente e parecia estar sempre franzindo o cenho de um jeito agressivo.
-		Isso no poderia ser um truque, poderia?
Walter fez que no com a cabea.
-		Essa ideia  inconcebvel, senhor. Os russos mal conseguem se comunicar por vias normais. Usar sinais falsos de telgrafo para enganar o inimigo est to fora da capacidade deles quanto voar at a Lua.
Ludendorff curvou a cabea calva por cima do mapa sobre a mesa  sua frente. Ele era um trabalhador incansvel, porm muitas vezes se via assaltado por dvidas terrveis, e Walter imaginou que o que o impulsionava era o medo do fracasso. Ludendorff ps o dedo sobre o mapa.
-		As Unidades 13 e 15 de Samsonov formam o centro da linha de frente russa - disse ele. - Se elas avanarem...
Walter percebeu na mesma hora o que Ludendorff estava pensando: os russos poderiam ser atrados para uma armadilha, ficando cercados por trs lados.
-		 nossa direita, temos Von Franois e sua Unidade I. Ao centro, Scholtz e a

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Unidade XX, que recuou um pouco, mas no est batendo em retirada, ao contrrio do que os russos parecem pensar. E,  nossa esquerda, porm 50 quilmetros
mais ao norte, temos Mackensen e a Unidade XVII. Mackensen est de olho na
frente norte dos russos, mas, se esse grupo estiver se dirigindo para o lado errado, talvez possamos ignor-lo, por enquanto, e mandar Mackensen avanar para o sul.
  -		Uma manobra clssica - disse Walter. Era simples, mas ele prprio no havia
cogitado aquela medida antes de Ludendorff a assinalar. Era por isso que Ludendorff
era general, pensou com admirao.
  -		Mas isso s vai funcionar se Rennenkampf e o Primeiro Exrcito russo continuarem avanando na direo errada.
  -		O senhor viu a mensagem interceptada. As ordens russas j foram emitidas.
  -		Vamos torcer para Rennenkampf no mudar de ideia.
O batalho de Grigori estava sem comida, mas uma carroa cheia de ps havia
chegado, de modo que eles fizeram uma trincheira. Os homens se revezavam
para cavar, substituindo-se a cada meia hora, portanto, no demorou muito. No
ficou perfeita, mas daria para o gasto.
   Mais cedo naquele mesmo dia, Grigori, Isaak e seus camaradas haviam passado por uma posio alem abandonada. Na ocasio, Grigori percebera que as
trincheiras inimigas eram cavadas em uma espcie de zigue-zague, o que formava reentrncias a intervalos regulares, de modo que no se conseguia ver muito 
frente. O tenente Tomchak disse que essas reentrncias se chamavam recessos, mas
ele no sabia para que serviam. No ordenou a seus homens que copiassem o
modelo alemo. Grigori, no entanto, estava certo de que ele tinha alguma funo.
   Grigori ainda no havia disparado sua arma. Ouvira tiros de fuzil, de metralhadora e de canho, e sua unidade conquistara um bom pedao de territrio
alemo, mas, at aquele momento, ele no tinha atirado em ningum e ningum
atirara nele. Aonde quer que os soldados da Unidade 13 chegassem, eles descobriam que os alemes haviam acabado de fugir.
   Isso no fazia o menor sentido. Aos poucos ele percebia que, na guerra, o caos
reinava. Ningum sabia ao certo onde estava ou quem era o inimigo. Dois homens
do peloto de Grigori tinham morrido, mas no pelas mos dos alemes: um
havia dado um tiro de fuzil na prpria coxa por acidente e sangrara at a morte
com uma rapidez espantosa, enquanto o outro havia sido pisoteado por um cavalo
desembestado e nunca mais recobrara a conscincia.
 
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   H dias que eles no viam uma carroa de comida. Suas raes de emergncia e at as bolachas tinham acabado. Estavam todos em jejum desde a manh da vspera. Depois de cavarem a trincheira, foram dormir com fome. Felizmente era vero, ento pelo menos no estavam com frio.
   O tiroteio comeou ao raiar do dia seguinte.
   O barulho surgiu  esquerda de Grigori, a alguma distncia de onde estavam, mas ele pde ver nuvens de metralha explodindo no ar e a terra solta jorrar repentinamente do solo onde os projteis aterrissavam. Sabia que deveria estar apavorado, mas no estava. Estava com fome, com sede, cansado, dolorido e entediado, mas no com medo. Imaginou se os alemes estariam sentindo o mesmo.
   Tambm havia fogo cerrado  sua direita, alguns quilmetros mais ao norte, mas, no local onde estavam, reinava o silncio.
  -		Parece o olho do furaco - comentou David, o vendedor de baldes judeu.
   Logo chegaram ordens para que avanassem. Cansados, abandonaram suas
trincheiras e seguiram em frente.
  -		Imagino que deveramos ficar gratos - disse Grigori.
  -		Gratos por qu? - quis saber Isaak.
  -		Marchar  melhor do que lutar. Nossos ps esto cheios de bolhas, mas estamos vivos.
    tarde, eles se aproximaram de uma cidade que o tenente Tomchak disse se chamar Allenstein. Reuniram-se nos arredores em formao de marcha e assim adentraram o centro.
   Para surpresa geral, Allenstein estava repleta de cidados alemes bem vestidos tocando normalmente suas rotinas de quinta-feira  tarde, pondo cartas no correio, fazendo compras e passeando com bebs em carrinhos. A unidade de Grigori parou em um pequeno parque, onde os homens se sentaram  sombra de rvores altas. Tomchak entrou em uma barbearia prxima e saiu de l barbeado e com os cabelos cortados. Isaak foi comprar vodca, mas voltou dizendo que o Exrcito havia postado sentinelas na entrada de todas as lojas de bebidas alcolicas com ordens para no deixarem os soldados entrar.
   Por fim, um cavalo e uma carroa apareceram com um barril de gua fresca. Os homens fizeram fila para encher os cantis. Conforme a tarde avanava e a temperatura diminua, outras carroas chegaram com pes comprados ou requisitados s padarias da cidade. A noite caiu e eles dormiram sob as rvores.
   Quando o dia raiou, no houve desjejum. Um batalho foi deixado para trs para garantir o domnio da cidade, enquanto Grigori e o restante da Unidade 13 saram marchando de Allenstein, rumo ao sudoeste pela estrada para Tannenberg.
   
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   Embora ainda no houvessem travado combate, Grigori percebeu que o clima entre os oficiais tinha mudado. Estavam sempre percorrendo as fileiras de homens a passos largos e se reuniam em grupinhos agitados para conversar. Vozes se alteravam, enquanto um major apontava para um lado e um capito gesticulava na direo oposta. Grigori continuava ouvindo artilharia pesada ao norte e ao sul, embora o barulho parecesse estar avanando para leste, ao passo que a Unidade 13 seguia para oeste.
  -		De quem  essa artilharia? - perguntou o sargento Gavrik. - Nossa ou deles? E por que est indo para leste, quando ns estamos indo para oeste? - O fato de o sargento no ter dito nenhum palavro sugeriu a Grigori que ele estava seriamente preocupado.
   A alguns quilmetros de Allenstein, um batalho ficou para trs para proteger a retaguarda, o que surpreendeu Grigori, pois ele supunha que o inimigo estivesse  frente, no atrs. A Unidade 13 estava minguando, pensou ele com uma expresso carregada.
   Mais ou menos no meio do dia, seu batalho foi destacado da formao principal. Enquanto seus camaradas prosseguiam rumo ao sudoeste, seu grupo foi conduzido para o sudeste por uma trilha larga que atravessava uma floresta.
   Foi ali que, finalmente, Grigori se deparou com o inimigo.
   O batalho parou para descansar junto a um riacho e os homens encheram os cantis. Grigori se embrenhou na mata para fazer suas necessidades. Estava em p atrs de um tronco grosso de pinheiro quando ouviu um barulho  sua esquerda e, para sua surpresa, a poucos metros de onde estava, viu um oficial alemo fardado, inclusive com o capacete pontudo, em cima de um belo cavalo negro. O alemo espiava com um telescpio o local onde o batalho havia parado. Grigori se perguntou o que ele estava olhando: no conseguiria ver muito longe entre as rvores. Talvez quisesse descobrir se os uniformes eram russos ou alemes. De to imvel, mais parecia um monumento numa praa em So Petersburgo, embora seu cavalo no estivesse to tranquilo, movendo-se e repetindo o barulho que o havia alertado.
   Grigori abotoou a cala com cuidado, pegou o fuzil e recuou sem se virar, mantendo sempre a rvore entre ele e o alemo.
   De repente, o homem se moveu. Grigori sentiu medo por um instante, pensando que tivesse sido visto. O alemo, no entanto, fez o cavalo dar meia-volta com habilidade e, colocando o animal para trotar, seguiu rumo a oeste.
   Grigori voltou correndo para junto do sargento Gavrik.
  -		Eu vi um alemo! - disse ele.
  -		Onde?
   
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Grigori apontou.
-		Ali... eu estava dando uma mijada.
-		Tem certeza de que era um alemo?
-		Ele estava de capacete pontudo.
-		O que ele estava fazendo?
-		Estava montado a cavalo, usando um telescpio para olhar para c.
-		Um batedor! - exclamou Gavrik. - Voc atirou nele?
Somente ento Grigori recordou que estava ali para matar soldados alemes, no para fugir deles.
-		Pensei que deveria vir contar ao senhor - disse ele com voz fraca.
-		Seu veadinho, por que voc acha que ns lhe demos uma arma, porra? - berrou Gavrik.
Grigori olhou para o fuzil carregado que trazia na mo, com sua baioneta amedrontadora. Era bvio que deveria t-lo usado. Onde estava com a cabea?
-		Eu sinto muito - falou.
-		Agora que voc o deixou escapar, o inimigo sabe onde estamos!
Grigori se sentiu humilhado. No havia sido treinado para aquele tipo de situao quando serviu o Exrcito, mas deveria ter conseguido se virar sozinho.
-		Em que direo ele foi? - quis saber Gavrik.
Pelo menos isso Grigori sabia responder.
-		Para oeste.
Gavrik deu-lhe as costas e andou depressa at o tenente Tomchak, que fumava encostado em uma rvore. Logo em seguida, Tomchak jogou o cigarro no cho e correu em direo ao major Bobrov, um oficial mais velho e boa-pinta, com uma cabeleira grisalha.
Depois disso, tudo aconteceu depressa. Eles no tinham artilharia, mas a seo de metralhadoras descarregou suas armas. Os 600 homens do batalho foram espalhados em uma linha irregular de um quilmetro de comprimento, estendendo-se de norte a sul. Alguns homens foram escolhidos para seguir em frente. Os demais comearam a avanar lentamente para oeste, em direo ao sol da tarde que se punha em meio  folhagem.
Minutos depois, o primeiro projtil aterrissou. Depois de cruzar o ar com um barulho estridente, ele varou as copas das rvores, finalmente atingindo o cho poucos metros atrs de Grigori e explodindo com um estrondo grave que fez a terra tremer.
-		Aquele batedor informou a nossa distncia - disse Tomchak. - Eles esto atirando na nossa posio anterior. Ainda bem que samos de l.
Os alemes, no entanto, tambm sabiam usar a lgica, de modo que pareceram

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notar o prprio erro, pois o projtil seguinte aterrissou bem diante da linha russa que avanava.
   Os homens em volta de Grigori comearam a ficar nervosos. No paravam de olhar ao redor com os fuzis em riste, xingando uns aos outros  menor provocao. David olhava o tempo todo para cima, como se achasse ser capaz de ver uma bomba chegando e dribl-la. Isaak estava com a mesma expresso agressiva que costumava exibir no campo de futebol quando o time adversrio comeava a jogar sujo. Grigori descobriu que a ideia de que algum estava dando o melhor de si para mat-lo era incrivelmente opressiva. Sentia-se como se tivesse recebido uma notcia muito ruim mas no conseguisse recordar direito qual era ela. Teve uma fantasia boba de cavar um buraco no cho e se esconder l dentro.
   Perguntou-se quanto os artilheiros conseguiam enxergar. Haveria um observador situado no alto de uma colina, rastreando a floresta com um potente binculo alemo? Um s homem ficava invisvel em uma floresta, mas talvez fosse possvel ver 600 se movendo juntos em meio s rvores.
   Algum havia decidido que a distncia estava certa, pois nos prximos segundos houve uma chuva de projteis, sendo que alguns acertaram em cheio. Grigori se viu cercado de estrondos ensurdecedores, chafarizes de terra jorrando pelo ar, homens aos berros e partes de corpos humanos que voavam pelos ares. Aterrorizado, ele tremia. No havia nada a fazer, nenhum jeito de se proteger: ou o projtil acertava voc, ou no. Grigori apertou o passo, como se andar mais depressa pudesse ajudar. Os outros devem ter pensado a mesma coisa, porque, sem receberem ordem alguma, puseram-se a andar em ritmo acelerado.
   Grigori segurava o fuzil com as mos suadas, tentando no entrar em pnico. Mais bombas caram, atrs dele e na sua frente,  esquerda e  direita. Ele correu mais depressa.
   O fogo de artilharia ficou to cerrado que ele no conseguia mais distinguir um projtil do outro: o barulho era um s, contnuo, como uma centena de trens em alta velocidade. Ento o batalho pareceu sair da linha de fogo, pois os projteis comearam a aterrissar s suas costas. O bombardeio logo arrefeceu. Pouco depois, Grigori entendeu por qu.  sua frente, uma metralhadora comeou a disparar e ele percebeu, com um pavor nauseante, que estava prximo da linha inimiga.
   Rajadas de metralhadora alvejaram a floresta, rasgando a folhagem e estraalhando os pinheiros. Grigori ouviu um grito ao seu lado e viu Tomchak cair. Ajoelhou-se ao lado do tenente e viu sangue em seu rosto e no peito da farda. Horrorizado, notou que um de seus olhos havia sido destroado. Tomchak tentou se mexer e soltou um grito de dor.
   
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   -		O que  que eu fao? - perguntou Grigori. Teria conseguido fazer um curativo em um ferimento superficial, mas como ajudar um homem que levara um tiro no olho?
   Ele sentiu um impacto na cabea e, quando ergueu os olhos, viu Gavrik passar correndo por ele, gritando:
   -		Continue correndo, Peshkov, seu imbecil!
   Ainda ficou olhando mais um pouco para Tomchak. Pareceu-lhe que o oficial no estava mais respirando. Era impossvel ter certeza, mesmo assim se levantou e saiu correndo.
   O tiroteio se intensificou. O medo de Grigori se transformou em raiva. As balas do inimigo trouxeram  tona uma sensao de indignao. No fundo de sua mente, sabia que era um sentimento irracional, mas no conseguia evit-lo. De repente, teve vontade de matar aqueles desgraados. Uns 200 metros mais  frente, depois de uma clareira, viu uniformes cinza e capacetes pontudos. Apoiou-se sobre um dos joelhos atrs de uma rvore, deu uma espiada pela lateral do tronco, ergueu o fuzil, mirou em um alemo e, pela primeira vez, puxou o gatilho.
   Nada aconteceu - ento ele se lembrou da trava de segurana.
   No era possvel destravar um Mosin-Nagant com ele sobre o ombro. Abaixou a arma, sentou-se no cho atrs da rvore, aninhou a coronha do fuzil na dobra do cotovelo e girou o grande ferrolho serrilhado que liberava a culatra.
   Olhou em volta. Assim como ele, seus camaradas haviam parado de correr e buscado proteo. Vrios estavam disparando, outros recarregavam as armas, e outros, feridos, contorciam-se em agonia, alguns j tomados pela paralisia da morte.
   Grigori espiou novamente por trs do tronco da rvore, levou o fuzil ao ombro e apertou os olhos para enxergar ao longo do cano. Viu a ponta de um fuzil saindo de um arbusto e um capacete pontudo logo acima. Com o corao cheio de dio, apertou o gatilho cinco vezes com rapidez. O fuzil no qual ele estava mirando recuou depressa, mas no caiu, de modo que Grigori imaginou ter errado. Sentiu-se decepcionado e frustrado.
   O Mosin-Nagant s disparava cinco tiros. Ele abriu a bolsa de munio e recarregou a arma. Agora queria matar alemes o mais rpido possvel.
   Quando tornou a espiar de trs da rvore, viu um alemo correndo por uma clareira na mata. Esvaziou o pente, mas o homem continuou a correr e desapareceu atrs de um grupo de rvores jovens.
   Grigori percebeu que de nada adiantava apenas atirar. Acertar o inimigo era difcil - muito mais difcil - em um combate de verdade do que nos poucos treinamentos de tiro ao alvo que havia recebido. Teria de se esforar mais.
   
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Quando estava recarregando de novo, ouviu uma metralhadora abrir fogo, e a
vegetao ao seu redor foi crivada de balas. Ele pressionou as costas no tronco
da rvore e encolheu as pernas, tornando-se um alvo menor. Aos seus ouvidos,
parecia que a metralhadora estava a uns 200 metros  sua esquerda.
Quando os tiros cessaram, ele ouviu Gavrik gritar:
-		Mirem naquela metralhadora, seus imbecis! Atirem enquanto eles estiverem
recarregando! Grigori esticou a cabea para fora,  procura da metralhadora. Viu
o trip montado entre duas rvores grandes. Mirou o fuzil, mas ento se deteve.
No adianta s atirar, lembrou a si mesmo. Respirou pausadamente, posicionou
o cano pesado e mirou em um capacete pontudo. Abaixou um pouco o cano, at
conseguir ver o peito do alemo. O dlm do uniforme estava aberto no pescoo: o homem sentia calor por conta do esforo.
Grigori puxou o gatilho.
E errou. O alemo pareceu no ter notado o tiro. Grigori nem desconfiava
onde tinha ido parar a bala.
Disparou de novo, esvaziando o pente inteiro em vo. Era enlouquecedor.
Aqueles porcos estavam tentando mat-lo e ele era incapaz de acertar um deles que
fosse. Talvez estivesse longe demais. Ou talvez simplesmente fosse um mau atirador.
A metralhadora tornou a abrir fogo e todos congelaram.
O major Bobrov apareceu, rastejando de quatro pelo cho da floresta.
-		Ei, vocs! - gritou ele. - Ao meu comando, avancem para cima daquela
metralhadora!
Voc s pode estar maluco, pensou Grigori. Mas eu no estou.
O sargento Gavrik repetiu a ordem.
-		Preparem-se para atacar o ninho da metralhadora! Aguardem o meu
comando!
Bobrov se levantou e saiu correndo agachado pela linha de fogo. Grigori o
ouviu gritar a mesma ordem um pouco mais adiante. Voc est gastando saliva 
toa, pensou ele. Est achando que somos um peloto suicida, por acaso?
O barulho da metralhadora cessou e o major se levantou, expondo-se sem a
menor cautela. Havia perdido o capacete, de modo que seus cabelos grisalhos
faziam dele um alvo fcil.
-		Agora! - gritou ele.
Gavrik repetiu a ordem.
-		Vo, vo, vo!
Para servirem de exemplo, Bobrov e Gavrik saram correndo por entre as rvores em direo ao ninho da metralhadora. De repente, Grigori se viu fazendo a
 
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mesma coisa, varando os arbustos e pulando por cima de troncos cados, correndo meio agachado e tentando no deixar cair o fuzil difcil de carregar. A metralhadora continuou silenciosa, mas os alemes puseram-se a atirar com todas as outras armas que tinham. O efeito de dezenas de fuzis atirando ao mesmo tempo pareceu igualmente ruim, mas Grigori continuou correndo como se no tivesse alternativa. Conseguia ver a equipe responsvel pela metralhadora recarregando a arma em desespero, manuseando atabalhoadamente o pente, com os rostos plidos de medo. Alguns dos russos j estavam disparando, porm Grigori no teve tanta presena de esprito - simplesmente correu. Ainda estava um pouco longe da metralhadora quando viu trs alemes escondidos atrs de um arbusto. Pareciam muito jovens, encarando-o com suas caras assustadas. Partiu para cima deles com a baioneta do fuzil erguida  sua frente como uma lana medieval. Ouviu algum gritar e percebeu que era ele prprio. Os trs soldados saram correndo.
   Ele os perseguiu, mas, como estava fraco de fome, eles se distanciaram com facilidade. Cem metros depois parou, exausto. Por toda parte, alemes fugiam perseguidos por russos. A equipe da metralhadora havia abandonado sua arma. Grigori imaginou que devesse estar atirando, mas por ora no tinha energia para erguer o fuzil.
   O major Bobrov reapareceu, correndo junto  linha de soldados russos.
   -		Em frente! - gritou ele. - No os deixem fugir! Matem todos, ou eles vo voltar outro dia para atirar em vocs! Vo!
   Sem foras, Grigori comeou a correr. Ento a situao mudou. Ele ouviu um tumulto  sua esquerda: tiros, gritos, palavres. De repente, soldados russos surgiram daquela direo, correndo a toda a velocidade. Bobrov, que estava ao lado de Grigori, exclamou:
   -		Mas que droga  essa?
   Grigori ento percebeu que eles estavam sendo atacados pelo flanco.
   -		Aguentem firme! - gritou Bobrov. - Protejam-se e atirem!
   Ningum lhe deu ouvidos. Os recm-chegados se enfiaram pela mata, em pnico, e os camaradas de Grigori comearam a se juntar  debandada, virando para a direita e disparando rumo ao norte.
   -		Ei, vocs, mantenham a posio! - gritava Bobrov. Ele sacou a pistola. - Eu disse para manterem a posio! - O major mirou nos soldados russos que passavam correndo por ele. - Estou avisando: vou atirar nos desertores! - Ouviu-se um estalo e os cabelos do oficial se tingiram de sangue. Ele caiu no cho. Grigori no sabia se Bobrov havia sido abatido por uma bala perdida alem ou por uma de seus prprios companheiros.
   Grigori deu meia-volta e saiu correndo com os outros.
   
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   quela altura, os tiros vinham de todos os lados. Grigori no sabia quem estava atirando em quem. Os russos se espalharam pela mata e aos poucos ele parecia estar deixando para trs o barulho do combate. Seguiu correndo at no aguentar mais, ento finalmente desabou sobre um tapete de folhas, incapaz de se mexer. Ficou um bom tempo deitado ali, sentindo-se paralisado. Ainda estava segurando o fuzil, o que foi uma surpresa: no sabia por que no o havia largado.
   Por fim, ele se levantou vagarosamente. H algum tempo sua orelha direita estava dolorida. Ao toc-la, soltou um grito de dor. Seus dedos voltaram pegajosos de sangue. Com delicadeza, tornou a apalp-la. Para seu horror, notou que ela havia sido quase toda arrancada. Tinha sido ferido sem perceber. Em algum momento, uma bala levara embora a metade de cima da sua orelha.
   Ele verificou o fuzil. O pente estava vazio. Recarregou a arma, embora no soubesse ao certo por que: parecia incapaz de acertar quem quer que fosse. Armou a trava de segurana.
   Parecia-lhe que os russos haviam cado em uma emboscada. Tinham sido instigados a seguir em frente at ficarem cercados, e ento os alemes fecharam a arapuca.
   O que ele deveria fazer agora? No havia ningum por perto, de modo que no podia perguntar a nenhum oficial quais eram as ordens. Contudo, no podia ficar onde estava. A unidade havia batido em retirada, isso era certo, ento imaginou que devesse voltar. Se ainda restasse algo das tropas russas, elas supostamente estariam a leste dali.
   Ele deu as costas para o sol poente e comeou a andar. Moveu-se da forma mais silenciosa possvel pela floresta, sem saber onde os alemes poderiam estar. Perguntou a si mesmo se o Segundo Exrcito inteiro no teria sido derrotado e fugira, dando-se conta de que poderia morrer de fome naquela floresta.
   Uma hora depois, parou para beber gua de um regato. Cogitou limpar o ferimento, mas decidiu que talvez fosse melhor deix-lo quieto. Depois de matar a sede, resolveu descansar de ccoras, com os olhos fechados. Logo iria escurecer. Felizmente o tempo estava seco e ele podia dormir no cho.
   Estava quase pegando no sono quando ouviu um barulho. Erguendo os olhos, ficou chocado ao ver um oficial alemo a cavalo movendo-se vagarosamente em meio s rvores, a 10 metros dali. O homem havia passado sem reparar em Grigori agachado junto ao regato.
   Furtivamente, Grigori pegou o fuzil e girou a trava de segurana. Ajoelhando-se, levou a arma ao ombro e mirou com cuidado no meio das costas do alemo. O homem estava a 15 metros dele, uma distncia curta para um tiro de fuzil.

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   No ltimo segundo, o alemo foi alertado por um sexto sentido e se virou na sela.
   Grigori apertou o gatilho.
   O barulho foi ensurdecedor no silncio da floresta. O cavalo saltou para a frente. O oficial caiu de lado e bateu no cho, porm um de seus ps continuou preso ao estribo. O cavalo ainda o arrastou por uns 100 metros pela vegetao rasteira, mas ento desacelerou at parar.
   Grigori ficou prestando ateno para ver se o som do tiro havia atrado alguma outra pessoa. No entanto, a nica coisa que ouviu foi a brisa suave de fim de tarde agitando as folhas.
   Andou em direo ao cavalo. Quando chegou mais perto, levou o fuzil ao ombro e apontou-o para o oficial, mas sua cautela se mostrou desnecessria. O homem estava imvel, com o rosto virado para cima, os olhos arregalados, o capacete pontudo cado no cho ao seu lado. Tinha cabelos louros cortados rente  cabea e olhos verdes muito bonitos. Talvez fosse o mesmo homem que Grigori tinha visto mais cedo: ele no conseguiu ter certeza. Lev saberia - teria se lembrado do cavalo.
   Grigori abriu os alforjes que ladeavam a sela. Um deles continha mapas e um telescpio. O outro, uma linguia e um naco grande de po preto. Grigori estava faminto. Mordeu um pedao da linguia. A carne estava carregada de pimenta, ervas e alho. A pimenta deixou suas bochechas quentes e suadas. Mastigou depressa, engoliu e, em seguida, enfiou um pouco do po na boca. A comida estava to boa que ele se sentiu capaz de chorar. Ficou em p ali, recostado no flanco do enorme cavalo e comendo o mais depressa possvel, enquanto o homem que havia matado o encarava com seus olhos verdes vidrados.
- Nossa estimativa  de 30 mil russos mortos, meu general - disse Walter a Ludendorff. Estava tentando no deixar sua euforia transparecer demais, mas a vitria alem era to acachapante que ele no conseguia tirar o sorriso do rosto.
   Ludendorff mantinha uma calma inabalvel.
  -		Quantos prisioneiros?
  -		Na ltima contagem, cerca de 92 mil, senhor.
   Era uma estatstica incrvel, mas Ludendorff absorveu a informao com serenidade.
  -		Algum general?
  -		O general Samsonov se matou com um tiro. Temos o cadver. Martos, comandante da Unidade 15 dos russos, foi capturado. Ns confiscamos 500 peas de artilharia.
   
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CAPTULO TREZE
                                 
setembro a dezembro de 1914
                            
O  som de uma mulher chorando acordou Fitz.
       A princpio, ele achou que fosse Bea. Ento se lembrou de que sua mulher
estava em Londres e ele em Paris. A mulher ao seu lado na cama no era uma
princesa grvida de 23 anos, mas sim uma garonete francesa de 19 com um
rosto angelical.
Apoiou-se em um dos cotovelos e olhou para ela. A moa tinha clios louros
que repousavam em suas faces como borboletas sobre ptalas de flores. Eles
agora estavam molhados de lgrimas.
-		Jai peur - soluou ela. - Estou com medo.
Ele acariciou-lhe os cabelos.
- Fique calma. - falou. - Havia aprendido mais francs com
mulheres como Gini do que em todo seu tempo na escola. Gini era apelido de
Ginette, que por sua vez tambm parecia inventado. Seu nome de batismo provavelmente era algo prosaico, como Franoise.
Era uma manh de sol e uma brisa morna entrava pela janela aberta do quarto de Gini. Fitz no estava ouvindo tiros ou botas marchando sobre as pedras do
calamento.
-		Paris ainda no caiu - murmurou ele em um tom de voz tranquilizador.
No foi um comentrio feliz, pois provocou novos soluos.
Fitz olhou para o relgio de pulso. Eram oito e meia. Tinha que estar de volta
ao seu hotel s dez sem falta.
-		Se os alemes chegarem, voc cuida de mim? - perguntou Gini.
-		 claro, chrie - respondeu ele, dissimulando uma pontada de culpa. Se
pudesse, at cuidaria dela, mas no seria a maior de suas prioridades.
-		Quando eles vo chegar? - perguntou ela com uma vozinha mida.
Fitz bem gostaria de saber. O Exrcito alemo era duas vezes maior do que o servio de inteligncia francs previra. Havia avanado de forma implacvel pelo noroeste da Frana, ganhando todas as batalhas. Agora, a avalanche tinha alcanado uma
frente ao norte de Paris - onde exatamente, Fitz descobriria dentro de poucas horas.
-		H quem diga que a cidade no vai ser defendida - disse Gini, ainda chorando. -  verdade?

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   Essa era outra coisa que Fitz no sabia. Caso Paris resistisse, a cidade seria castigada pela artilharia alem. Suas esplndidas construes seriam destrudas, crateras seriam abertas em seus amplos bulevares, seus bistrs e lojas seriam transformados em entulho. Era tentador pensar que a cidade deveria se render para escapar de tudo isso.
  -		Talvez seja melhor para vocs - disse ele a Gini, fingindo sinceridade. - Voc vai fazer amor com um general prussiano gordo que a chamar de Liebling.
  -		Eu no quero nenhum prussiano. - A voz dela se tornou um sussurro. -  voc quem eu amo.
   Talvez amasse mesmo, pensou ele; ou talvez o visse apenas como uma passagem para longe dali. Todos os que podiam estavam deixando a cidade, mas isso no era fcil. A maioria dos carros particulares havia sido confiscada pelo Exrcito. Os trens poderiam ser requisitados a qualquer momento e os passageiros civis expulsos dos vages e abandonados no meio do nada. Um txi at Bordeaux custava 1.500 francos, o preo de uma casa pequena.
  -		Talvez isso no acontea - disse-lhe ele. - Os alemes devem estar exaustos a esta altura. J faz um ms que esto marchando e lutando. No vo aguentar esse ritmo para sempre.
   Ele de fato acreditava um pouco nisso. Os franceses haviam lutado com afinco durante a retirada. Seus soldados estavam exaustos, famintos e desmoralizados, mas poucos tinham sido capturados e somente um punhado de armas tinha sido perdido. O inabalvel chefe do Estado-Maior do Exrcito francs, general Joffre, conseguira manter as foras aliadas unidas e recuar at uma frente a sudeste de Paris, onde estava reorganizando suas tropas. Tambm fora implacvel ao afastar oficiais veteranos que no haviam se mostrado  altura da situao: dois comandantes de exrcito, sete comandantes de unidade e dezenas de outros oficiais tinham sido dispensados sem d.
   Os alemes no percebiam isso. Fitz tinha lido mensagens alems decodificadas que davam a impresso de um excesso de confiana. O alto-comando alemo chegara at mesmo a deslocar soldados da Frana para mand-los como reforo para a Prssia Oriental. Fitz achava que isso poderia ser um erro. Os franceses ainda no estavam derrotados.
   Quanto aos britnicos, ele no tinha tanta certeza.
   A Fora Expedicionria Britnica era pequena: cinco divises e meia, em comparao com as 70 divises francesas atualmente mobilizadas. Os britnicos haviam lutado bravamente em Mons, deixando Fitz orgulhoso; mas em cinco dias tinham perdido 15 mil de seus 100 mil homens e, em seguida, bateram em retirada.
   
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   Os Fuzileiros Galeses faziam parte das foras britnicas, porm Fitz no estava entre eles. A princpio, ficara desapontado ao ser enviado a Paris como oficial de ligao entre os franceses e os britnicos; ansiava por combater com seu regimento. Tinha certeza de que os generais o estavam tratando como um amador, que deveria ser enviado para um lugar onde no pudesse causar maiores estragos. No entanto, ele conhecia Paris e falava francs, de modo que no podia negar ser qualificado para o cargo.
   No fim das contas, sua funo se mostrou mais importante do que ele imaginara. As relaes entre os comandantes franceses e seus equivalentes britnicos eram perigosamente ruins. A Fora Expedicionria Britnica era comandada por um sujeito melindroso, criador de caso, que se chamava Sir John French, sobrenome que, por si s, causava certa confuso. Logo de incio, ele se ofendera ao considerar que o general Joffre havia deixado de consult-lo em determinada questo e ficara emburrado. Apesar do clima de hostilidade, Fitz se esforava para sustentar o fluxo de dados e informaes de inteligncia entre os dois comandantes aliados.
   Tudo isso era constrangedor e um pouco vergonhoso, e Fitz, como representante britnico, sentia-se humilhado com o mal disfarado desprezo dos oficiais franceses. Mas a situao havia piorado drasticamente na semana anterior. Sir John dissera a Joffre que seus soldados precisavam de dois dias de descanso. No dia seguinte, ampliara a solicitao para 10 dias. Os franceses tinham ficado horrorizados, e Fitz sentira uma profunda vergonha de seu pas, tinha ido se queixar com o coronel Hervey, o ajudante lambe-botas de Sir John, porm sua reclamao fora recebida com indignao e negativas. No fim das contas, Fitz havia falado ao telefone com lorde Remarc, que era subsecretrio no Departamento de Guerra. Os dois tinham estudado juntos em Eton e Remarc era um dos amigos fofoqueiros de Maud. Fitz no se sentira confortvel passando por cima de seus oficiais superiores dessa forma, mas a situao da luta por Paris era to periclitante que ele sentira que precisava agir. Havia aprendido que o patriotismo no era uma coisa to simples assim.
   O efeito de sua reclamao foi explosivo. O primeiro-ministro Asquith despachou para Paris o novo ministro da Guerra, lorde Kitchener, e Sir John acabou sendo duramente repreendido por seu chefe. Fitz tinha grandes esperanas de que ele seria substitudo em breve. E, mesmo que no fosse, pelo menos o homem talvez sasse daquela letargia.
   Fitz logo iria descobrir.
   Ele se virou de costas para Gini e ps os ps no cho.
   - J est indo embora? - perguntou ela.
   
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Ele se levantou da cama.
-		Preciso trabalhar.
Ela afastou com as pernas o lenol que a cobria. Fitz admirou seus seios perfeitos. Ela notou seu olhar, sorriu em meio s lgrimas e abriu as pernas de forma convidativa.
Ele resistiu  tentao.
-		Faa um caf, chrie - pediu.
Gini vestiu um roupo de seda verde-claro e foi esquentar a gua enquanto Fitz se vestia. Na noite anterior, ele havia jantado na embaixada britnica vestido com o uniforme de seu regimento, mas depois do jantar havia trocado o casaco vermelho chamativo por um smoking curto para se misturar aos seus inferiores.
Ela lhe estendeu um caf forte em uma xcara grande que mais parecia uma tigela.
-		Vou esperar por voc hoje  noite no Clube Albert - falou.
As casas noturnas, assim como os teatros e cinemas, estavam oficialmente fechadas. At mesmo o Folies Bergre estava s escuras. Os cafs fechavam s oito e os restaurantes s nove e meia. Mas no era to fcil pr fim  vida noturna de uma grande cidade. Assim, homens empreendedores como Albert no tardaram a abrir casas clandestinas onde podiam vender champanhe a preos exorbitantes.
-		Vou tentar chegar l  meia-noite - respondeu ele.
O caf estava amargo, mas levou embora os ltimos vestgios de sonolncia. Ele entregou a Gini um soberano britnico. Era um pagamento generoso por uma noite e, em tempos como aqueles, as pessoas preferiam de longe ouro a cdulas.
Quando foi dar um beijo de despedida em Gini, ela o abraou.
-		Voc vai estar l hoje  noite, no vai? - perguntou.
Fitz sentiu pena dela. Seu mundo estava ruindo, e ela no sabia o que fazer. Quem lhe dera poder abrig-la sob a sua asa e prometer cuidar dela, mas era impossvel. Sua mulher estava grvida e qualquer aborrecimento poderia fazer Bea perder o beb. Mesmo que ele fosse solteiro, comprometer-se com uma prostituta francesa o transformaria em motivo de piada. De toda forma, Gini era apenas uma entre vrios milhes. Com exceo dos mortos, todos estavam com medo.
-		Vou fazer o possvel - falou ele, desprendendo-se do abrao.
Seu Cadillac azul estava parado no acostamento. Uma pequena bandeira da Gr-Bretanha tremulava sobre o capo. No havia muitos carros particulares na rua e a maioria ostentava uma bandeira, em geral da Frana ou da Cruz Vermelha, para deixar claro que eles estavam sendo usados para tarefas indispensveis  guerra.
Trazer o carro de Londres at l havia exigido um uso inescrupuloso dos 

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contatos de Fitz e uma pequena fortuna em subornos, porm ele estava satisfeito por ter insistido. Precisava transitar diariamente entre o quartel-general britnico e o francs, e era um alvio no precisar implorar por um carro ou um cavalo dos sobrecarregados exrcitos.
   Ele acionou a ignio automtica e o motor deu partida e comeou a girar. Quase no havia trfego nas ruas. At os nibus tinham sido requisitados para suprir o Exrcito na frente de batalha. Ele teve que parar para dar passagem a um grande rebanho de ovelhas que cruzava a cidade, provavelmente a caminho da Gare de l'Est para ser despachado em um trem a fim de alimentar as tropas.
   Ficou intrigado ao ver uma pequena multido reunida em volta de um cartaz recm-colado ao muro do Palais Bourbon. Parou o carro e juntou-se s pessoas que estavam lendo o texto.
EXRCITO DE PARIS CIDADOS DE PARIS
   Fitz examinou a parte de baixo do cartaz e viu que trazia a assinatura do general Gallini, comandante militar da cidade. Gallini, um oficial veterano e linha-dura, havia sido conclamado a abandonar a aposentadoria. Era famoso por suas reunies em que ningum podia se sentar: segundo ele, as pessoas decidiam mais rpido assim.
   Como de hbito, sua mensagem era concisa:
Os membros do Governo da Repblica deixaram Paris para renovar as foras de defesa nacionais.
   Fitz ficou assombrado. O governo tinha fugido! Os dias anteriores foram marcados por boatos de que os ministros iriam bater em retirada para Bordeaux, mas os polticos haviam hesitado, pois no queriam abandonar a capital. Agora, porm, tinham ido embora. Era um pssimo sinal.
   O restante do comunicado possua um tom desafiador:
Fui incumbido da tarefa de defender Paris do invasor.
   Ento, no fim das contas, Paris no vai se render, pensou Fitz. A cidade vai lutar. Isso era timo! Com certeza favorecia os interesses britnicos. Se a capital tinha de cair, que pelo menos o inimigo fosse obrigado a pagar caro pela conquista.
Dever este que cumprirei sejam quais forem as consequncias.

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Fitz no pde deixar de sorrir. Deus abenoe os veteranos.
As reaes das pessoas  sua volta eram variadas. Alguns comentrios eram de admirao. Gallini era um lutador e no deixaria que tomassem Paris, disse algum em tom de satisfao. Outros se mostravam mais realistas. O governo nos abandonou, lamentou uma mulher, concluindo que os alemes chegariam a qualquer momento. Um homem com uma maleta contou que havia mandado a esposa e os filhos para a casa do irmo no interior. Uma mulher bem-vestida disse ter estocado 30 quilos de feijo no armrio da cozinha.
Fitz, por sua vez, sentiu apenas que a contribuio britnica ao esforo de guerra e sua participao nela haviam se tornado mais importantes do que nunca.
Com uma profunda sensao de mau agouro, conduziu o carro at o Ritz.
Entrou no saguo do hotel e foi at um telefone pblico. De l, ligou para a embaixada britnica e deixou um recado para o embaixador, contando-lhe sobre o comunicado de Gallini, caso a notcia ainda no tivesse chegado  rue du Faubourg Saint-Honor.
Ao sair da cabine, topou com o ajudante de Sir John, coronel Hervey.
Hervey olhou para o smoking de Fitz e disse:
-		Major Fitzherbert! Quer me explicar por que est vestido assim?
-		Bom dia, coronel - disse Fitz, fazendo questo de no responder  pergunta. Era evidente que havia passado a noite fora.
-		Ora essa, so nove da manh! Por acaso no sabe que estamos em guerra?
Mais uma pergunta que no precisava de resposta. Calmo, Fitz perguntou:
-		Posso fazer alguma coisa pelo senhor?
Hervey era um brigo que detestava aqueles que no conseguia intimidar.
-		Deixe de insolncia, major - respondeu ele. - J estamos ocupados demais com esses malditos visitantes de Londres interferindo em tudo.
Fitz arqueou uma das sobrancelhas.
-		Lorde Kitchener  o ministro da Guerra.
-		Os polticos deveriam nos deixar fazer nosso trabalho. Mas foram atiados por algum com amigos importantes. - Ele parecia desconfiar de Fitz, mas no tinha coragem de dizer s claras.
-		No me diga que o senhor ficou surpreso com o fato de o Departamento de Guerra se mostrar preocupado - disse Fitz. - Dez dias de descanso, com os alemes s portas da cidade!
-		Os homens esto exaustos!
-		Daqui a alguns  dias a guerra pode muito bem ter acabado. Para que ns estaremos  aqui, se no  para salvar Paris?
 
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  -		Kitchener tirou Sir John de seu quartel-general em um dia de combate crucial - disparou Hervey.
  -		Pelo que vi, Sir John no estava com tanta pressa assim de voltar para junto de suas tropas - rebateu Fitz. - Na noite em questo, eu o vi jantando aqui mesmo no Ritz. - Sabia que estava sendo desaforado, mas no conseguia se controlar.
  -		Suma da minha frente - disse Hervey.
   Fitz deu meia-volta e subiu a escada.
   No estava to despreocupado quanto fingira estar. Nada o faria baixar a crista para idiotas como Hervey, mas era importante para ele ter uma carreira militar bem-sucedida. Detestava a ideia de que as pessoas talvez comentassem que ele no era um homem da mesma categoria do pai. Hervey no tinha grande serventia para o Exrcito porque gastava todo o seu tempo e energia favorecendo seus protegidos e sabotando seus rivais, mas, por outro lado, tinha o poder de arruinar as carreiras dos homens que estivessem concentrados em outros assuntos, tais como ganhar a guerra.
   Fitz ficou remoendo aquilo enquanto tomava banho, fazia a barba e vestia seu uniforme cqui de major dos Fuzileiros Galeses. Sabendo que provavelmente no comeria nada at a hora do jantar, ligou para o servio de quarto e pediu uma omelete acompanhada de mais caf.
   s dez em ponto, seu dia de trabalho comeou e ele tirou da cabea o odioso Hervey. O tenente Murray, um escocs jovem e sagaz, chegou do quartel-general da Gr-Bretanha, trazendo para a sute de Fitz a poeira da rua e o relatrio de reconhecimento areo daquela manh.
   Fitz traduziu o documento para o francs rapidamente e o redigiu com sua caligrafia clara e bem desenhada no papel de carta azul-claro do Ritz. Todas as manhs avies britnicos sobrevoavam as posies alems e registravam a direo em que as foras inimigas estavam se movendo. Cabia a Fitz transmitir essa informao ao general Gallini o mais depressa possvel.
   Quando estava atravessando o saguo do hotel, foi chamado pelo porteiro-chefe para atender a um telefonema.
   A voz que perguntou " voc, Fitz?" soou distante e distorcida, mas, para seu espanto, era a inconfundvel voz de sua irm Maud.
  -		Como voc conseguiu ligar para c? - perguntou ele. Somente o governo e os militares podiam telefonar de Londres para Paris.
  -		Estou na sala de Johnny Remarc, no Departamento de Guerra.
  -		Que bom ouvir sua voz - disse Fitz. - Como voc est?
  -		Esto todos muito preocupados por aqui - respondeu ela. - No incio, os
   
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jornais publicavam apenas notcias boas. S quem conhecesse um pouco de geografia entendia que, depois de cada vitria honrosa dos franceses, os alemes pareciam ter avanado mais 80 quilmetros pelo territrio da Frana. Mas, no domingo, o Times publicou uma edio especial. No  curioso? O jornal dirio  to cheio de mentiras que, quando resolvem dizer a verdade, eles precisam circular uma edio extra.
Ela estava tentando ser espirituosa e cnica, mas Fitz conseguia detectar o medo e a raiva ocultos.
-		O que a edio especial dizia?
-		Ela mencionava o nosso "exrcito enfraquecido e em franca retirada". Asquith est uma fera. Agora todos imaginam que Paris v cair a qualquer momento. - Ento, perdendo a fachada de tranquilidade, Maud deixou escapar um soluo ao perguntar: - Fitz, voc vai ficar bem?
Ele no podia mentir para a irm.
-		No sei. O governo se transferiu para Bordeaux. Sir John French levou uma bronca feia, mas continua aqui.
-		Sir John deu queixa ao Departamento de Guerra de que Kitchener foi a Paris vestido com um uniforme de marechal de campo, o que foi uma quebra de etiqueta porque ele agora  ministro do governo e, portanto, civil.
-		Meu Deus. Em uma hora dessas, ele fica pensando em etiqueta! Por que no o demitiram?
-		Segundo Johnny, as pessoas veriam isso como um reconhecimento de que fracassamos.
-		E se Paris for tomada pelos alemes? Como as pessoas vero isso?
-		Ai, Fitz! - Maud comeou a chorar. - E o beb que Bea est esperando... 
-		Como vai Bea? - perguntou Fitz, sentindo-se culpado ao recordar onde havia passado a noite.
Maud fungou e engoliu em seco. Mais calma, falou:
-		Bea est passando bem e parou de ter aqueles enjoos matinais desagradveis.
-		Diga a ela que estou com saudades.
Houve um chiado de interferncia e outra voz entrou na linha por alguns segundos, desaparecendo em seguida. Isso significava que a ligao poderia cair a qualquer momento. Quando Maud tornou a falar, sua voz estava chorosa:
-		Fitz, quando isso vai terminar?
-		Nos prximos dias - respondeu Fitz. - De uma forma ou de outra.
-		Por favor, cuide-se bem!
 
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  -		No se preocupe.
   O telefone ficou mudo.
   Fitz ps o fone no gancho, deu uma gorjeta ao porteiro-chefe e saiu em direo  Place Vendme.
   Ele entrou no carro e saiu da praa. Maud o deixara perturbado ao mencionar a gravidez de Bea. Fitz estava disposto a morrer por seu pas e esperava morrer com bravura, mas queria conhecer seu beb. Era um pai de primeira viagem e estava ansioso para conhecer o filho, v-lo aprender e crescer, ajud-lo a se tornar adulto. No queria que seu filho ou filha fosse criado sem pai.
   Ele atravessou o rio Sena at o complexo de edifcios militares conhecido como Les Invalides. Gallini havia estabelecido seu quartel-general em uma escola das cercanias chamada Lyce Victor-Duruy, que ficava atrs de um bosque. A entrada era muito bem vigiada por sentinelas vestidos com dlms de um azul vivo e calas e barretes vermelhos, uma roupa muito mais elegante do que o uniforme cqui cor de lama do Exrcito britnico. Os franceses ainda no haviam percebido que a preciso dos fuzis modernos fazia com que os soldados de hoje em dia precisassem desaparecer em meio  paisagem.
   Os guardas j conheciam Fitz, de modo que ele entrou direto no prdio. Era uma escola para meninas, com desenhos de animais de estimao e flores e verbos latinos conjugados em quadros-negros que haviam sido afastados do caminho. Os fuzis das sentinelas e as botas dos oficiais pareciam uma ofensa  delicadeza que antes reinava ali.
   Fitz foi imediatamente para a sala de reunies. Logo que entrou, sentiu o clima de entusiasmo. Na parede, havia um grande mapa da regio metropolitana da Frana, no qual as posies dos exrcitos haviam sido marcadas com alfinetes. Gallini era um homem alto, magro e aprumado, apesar do cncer de prstata que o levara a se aposentar em fevereiro. De volta  sua farda, ele examinava o mapa com uma expresso agressiva atravs do pincen.
   Fitz bateu continncia e cumprimentou com um aperto de mo, ao estilo francs, o major Dupuys, seu equivalente no Exrcito aliado. Em seguida, perguntou-lhe num sussurro o que estava acontecendo.
  -		Ns estamos seguindo Von Kluck - falou Dupuys.
   Gallini tinha uma esquadrilha de nove aeronaves velhas que vinha usando para monitorar os movimentos do exrcito invasor. O general Von Kluck comandava o Primeiro Exrcito, que era a fora terrestre alem mais prxima de Paris.
  -		O que vocs descobriram? - perguntou Fitz.
  -		Recebemos dois relatrios. - Dupuys apontou para o mapa. - Nosso 
   
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reconhecimento areo indica que Von Kluck est indo para sudeste, em direo ao
rio Marne.
Isso confirmava o relatrio dos britnicos. Caso mantivesse essa trajetria, o
Primeiro Exrcito passaria a leste de Paris. E, como Von Kluck comandava a ala
direita dos alemes, isso significava que todas as suas tropas iriam passar ao largo
da cidade. Ser que Paris seria poupada afinal?
-		Temos tambm um relatrio de um batedor da cavalaria que sugere o
mesmo - continuou Dupuys.
Fitz assentiu, pensativo.
-		Na teoria militar alem,  preciso antes destruir o exrcito inimigo, para s
depois invadir as cidades.
-		Mas voc no est vendo? - indagou Dupuys com animao. - Eles esto
deixando o flanco exposto!
Fitz estava preocupado demais com o destino de Paris para pensar nisso. Agora
percebia que Dupuys estava certo e que esse era o motivo do clima de entusiasmo.
Se as informaes da inteligncia estivessem corretas, Von Kluck havia cometido
um erro militar clssico. O flanco de um exrcito era mais vulnervel do que a sua
frente. Atac-lo por ali era como lhe dar uma punhalada nas costas.
O que levara Von Kluck a cometer aquele erro? Ele deveria pensar que os franceses estavam to enfraquecidos que seriam incapazes de contra-atacar.
De qualquer forma, estava enganado.
Fitz dirigiu a palavra ao general.
-		Creio que isto aqui vai interess-lo bastante, senhor - falou, entregando-lhe
um envelope. -  o nosso reconhecimento areo de hoje pela manh.
-		Ah! - exclamou Gallini, empolgado.
Fitz se aproximou do mapa.
-		O senhor me permite, meu general?
O general meneou a cabea, aquiescendo. Os britnicos no eram muito queridos, mas qualquer informao era bem-vinda.
Aps consultar o original em ingls, Fitz disse:
-		Segundo as nossas informaes, o exrcito de Von Kluck est aqui. - Ele pregou outro alfinete no mapa. - E est se movendo para c. - Aquilo confirmava o
que os franceses j estavam pensando.
A sala ficou em silncio por alguns instantes.
-		Ento  verdade - falou Dupuys em  voz baixa. - Eles expuseram seu flanco.
Os olhos do general Gallini cintilavam por trs do pincen.
-		Ento - disse ele esta  a nossa hora de atacar.

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O auge do pessimismo de Fitz foi s trs da manh, deitado ao lado do corpo esbelto de Gini, quando o sexo j havia terminado e ele se viu sentindo saudades da esposa. Naquela hora, pensou, desanimado, que Von Kluck com certeza iria se dar conta do prprio erro e reverter a trajetria de seu exrcito.
Na manh seguinte, contudo, sexta-feira, 4 de setembro, para alegria da resistncia francesa, Von Kluck prosseguiu rumo ao sudeste. Isso bastou para o general Joffre. Ele deu ordens para o Sexto Exrcito francs sair de Paris na manh seguinte e atacar a retaguarda dos alemes.
Os britnicos, no entanto, continuaram a recuar.
 noite, quando Fitz encontrou Gini no Clube Albert, ele estava desesperado.
-		Esta  a nossa ltima oportunidade - explicou ele enquanto tomava um coquetel de champanhe que no melhorava em nada seu humor. - Se conseguirmos abalar os alemes seriamente agora que eles esto exaustos e que suas linhas de abastecimento esto mais distantes do que nunca, podemos deter seu avano. Mas, se este contra-ataque fracassar, Paris vai cair.
Sentada em um dos bancos do bar, ela cruzou as pernas compridas com um leve roar das meias de seda.
-		Mas por que voc est to abatido?
-		Porque, numa hora destas, os britnicos esto recuando. Se Paris cair agora, ns nunca superaremos tanta vergonha.
-		O general Joffre precisa enfrentar Sir John e exigir que os britnicos lutem! Voc precisa falar com Joffre pessoalmente!
-		Ele no recebe majores britnicos. Alm do mais,  bem provvel que achasse que  algum truque de Sir John. O que me deixaria encrencado, por mais que eu esteja me lixando para isso.
-		Ento fale com um dos conselheiros dele.
-		O problema  o mesmo. Eu no posso entrar no quartel-general do Exrcito francs e anunciar que eles esto sendo trados pelos britnicos.
-		Mas poderia ter uma conversa discreta com o general Lourceau, sem que ningum ficasse sabendo.
-		Como?
-		Ele est sentado bem ali.
Fitz acompanhou o olhar de Gini e viu um francs de cerca de 60 anos,  paisana, sentado  mesa com uma moa de vestido vermelho.
-		Ele  muito simptico - acrescentou Gini.

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-		Voc o conhece?
-		Ns fomos amigos durante algum tempo, mas ele preferiu Lizette.
Fitz hesitou. Mais uma vez, estava cogitando passar por cima de seus superiores. Porm aquela no era hora para sutilezas. Paris estava em jogo. Ele precisava fazer tudo ao seu alcance.
-		Apresente-me a ele - falou.
-		Me d s um minuto. - Com elegncia, Gini desceu do banco e atravessou o salo, rebolando de leve ao som do piano que tocava um ragtime, at chegar  mesa do general. Deu-lhe um beijo nos lbios, sorriu para a moa que o acompanhava e sentou-se. Aps alguns instantes de conversa animada, ela acenou para Fitz.
Lourceau se levantou e os dois homens trocaram um aperto de mos.
-		 uma honra conhec-lo, senhor - disse Fitz.
-		Este no  um lugar para conversas srias - falou o general. - Mas Gini me garantiu que o senhor tem algo urgentssimo para me dizer.
-		No tenha dvidas - respondeu Fitz, sentando-se.
No dia seguinte, Fitz foi ao acampamento britnico na comuna de Melun, 40 quilmetros a sudeste de Paris, onde ficou sabendo, para sua consternao, que a Fora Expedicionria continuava a recuar.
Talvez sua mensagem no tivesse chegado aos ouvidos do general Joffre. Ou talvez sim e Joffre simplesmente achasse que no havia nada a fazer.
Fitz entrou em Vaux-le-Pnil, o magnfico castelo em estilo Lus XV que Sir John vinha usando como quartel-general, e topou com o coronel Hervey no saguo.
-		Senhor, posso perguntar por que estamos recuando quando nossos aliados esto lanando um contra-ataque? - disse ele com a maior educao possvel.
-		No, no pode - respondeu Hervey.
Fitz insistiu, engolindo a raiva.
-		Os franceses acham que eles e os alemes esto em p de igualdade, e que mesmo o nosso pequeno contingente pode fazer a diferena.
Hervey soltou uma risada sarcstica.
-		Tenho certeza de que eles acham isso. - Ele falava como se os franceses no tivessem o direito de exigir a ajuda de seus aliados.
Fitz sentiu que estava perdendo o autocontrole.

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-		Paris pode cair por causa da nossa covardia!
-		No se atreva a usar essa palavra, major.
-		Ns fomos mandados para c para defender a Frana. Esta pode ser a batalha decisiva. - Fitz no pde deixar de erguer a voz. - Se Paris for perdida, e com ela a Frana inteira, como iremos explicar, quando voltarmos para casa, que estvamos descansando na ocasio?
Em vez de responder, Hervey olhou por cima do ombro de Fitz. Este se virou e viu uma silhueta pesada, vagarosa, usando o uniforme francs: um dlm preto desabotoado na cintura grossa, uma cala vermelha mal ajustada na altura dos joelhos e um quepe vermelho e dourado de general bem enterrado na cabea. Olhos sem cor encimados por sobrancelhas grisalhas se voltaram por um instante para os dois. Fitz reconheceu o general Joffre.
Depois que o general passou com lentido por eles, acompanhado por seu squito, Hervey perguntou:
-		O senhor  responsvel por isso?
Fitz sentia-se orgulhoso demais para mentir.
-		Provavelmente - falou.
-		Isto no vai ficar assim - disse Hervey, dando meia-volta e saindo apressado atrs de Joffre.
Sir John recebeu Joffre em uma pequena sala na presena de apenas alguns oficiais, sendo que Fitz no estava entre eles. Ele ficou esperando no refeitrio dos oficiais, perguntando-se o que o general francs estaria dizendo e se ele conseguiria convencer Sir John a pr fim  vergonhosa debandada britnica e participar do ataque.
Foi informado do resultado duas horas depois pelo tenente Murray.
-		Parece que Joffre tentou de tudo - relatou Murray. - Ele implorou, chorou e at insinuou que a honra britnica corria o risco de ser maculada para sempre. E conseguiu o que queria. Amanh nos deslocaremos para o norte.
Fitz sorriu de orelha a orelha.
-		Aleluia! - bradou.
No minuto seguinte, o coronel Hervey se aproximou deles. Fitz se levantou em cortesia.
-		O senhor foi longe demais - falou Hervey. - O general Lourceau me contou tudo. Ele achou que estava lhe fazendo um elogio.
-		E eu o aceito de bom grado - disse Fitz. - O desfecho da situao indica que foi a coisa certa a fazer.
-		Escute aqui, Fitzherbert - retrucou Hervey, baixando a voz. - Seus dias

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esto contados, seu merda. Voc foi desleal para com um oficial superior. Seu nome agora carrega uma mancha negra que nunca ser apagada. Jamais ser promovido, nem que esta guerra dure um ano.  major hoje e o ser para o resto da vida.
   - Obrigado por sua franqueza, coronel - disse Fitz. - Mas eu entrei para o Exrcito para ganhar batalhas, no promoes.
IV
Aos olhos de Fitz, a mobilizao organizada por Sir John no domingo foi constrangedora de to cautelosa, mas, para seu alvio, bastou para forar Von Kluck a reagir enviando tropas das quais no poderia abrir mo com facilidade. Os alemes agora estavam lutando em duas frentes, oeste e sul: o pesadelo de qualquer comandante.
   Fitz acordou otimista na segunda-feira, aps uma noite dormida sobre um cobertor no cho do castelo. Tomou o caf da manh no refeitrio dos oficiais e ficou esperando ansiosamente os avies de reconhecimento voltarem de sua incurso matinal. A guerra alternava momentos de correria enlouquecida com outros de um marasmo intil. No terreno do castelo havia uma igreja supostamente construda no ano 1000, de modo que ele foi at l dar uma olhada, embora nunca houvesse entendido direito que graa as pessoas viam em igrejas antigas.
   O relatrio do reconhecimento foi apresentado no magnfico salo com vista para o parque e para o rio. Sentados em cadeiras dobrveis diante de uma mesa de tbua improvisada, os oficiais estavam cercados por decoraes luxuosas do sculo XVIII. Sir John tinha um queixo proeminente e uma boca que, por baixo do bigode branco e cheio, parecia estar o tempo todo contorcida em uma expresso de orgulho ferido.
   Os aviadores relataram haver um vazio diante da fora britnica, pois as colunas alems estavam se afastando em direo ao norte.
   Fitz ficou exultante. O contra-ataque aliado fora inesperado e, ao que tudo indicava, os alemes tinham sido pegos desprevenidos.  claro que logo estariam reorganizados, mas por ora pareciam estar em apuros.
   Ele esperava que Sir John fosse ordenar um avano rpido, mas, para sua decepo, o comandante se limitou a reiterar os objetivos modestos estabelecidos anteriormente.
   Fitz escreveu seu relatrio em francs e depois pegou o carro. Percorreu os 40 quilmetros at Paris o mais rpido que pde, no contrafluxo dos caminhes,
   
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carros e veculos puxados a cavalo que saam da cidade, todos abarrotados de gente e transportando pilhas de bagagens, fugindo rumo ao sul para escapar dos alemes.
Em Paris, foi atrasado por uma tropa de soldados argelinos de pele escura que atravessava a cidade, marchando de uma estao de trem para outra. Seus oficiais seguiam montados em mulas e usavam capas vermelhas vistosas.  medida que os soldados passavam, mulheres entregavam-lhes flores e frutas e donos de cafs traziam-lhes bebidas geladas.
Quando a tropa acabou de passar, Fitz foi at Les Invalides e entrou na escola carregando seu relatrio.
Mais uma vez, a equipe de reconhecimento britnica confirmou os relatrios franceses. Algumas foras alems estavam recuando.
-		Precisamos intensificar o ataque! - disse o velho general. - Onde esto os britnicos?
Fitz se encaminhou para o mapa, indicando a posio britnica e aonde a marcha deveria chegar ao fim do dia, segundo as ordens de Sir John.
-		No  suficiente! - disse Gallini, possesso. - Vocs tm que ser mais agressivos! Precisamos que ataquem para que Von Kluck fique ocupado demais e no consiga reforar o flanco. Quando vocs vo atravessar o rio Marne?
Fitz no sabia dizer. Sentiu vergonha. Concordava com cada uma das palavras mordazes que Gallini dizia, mas, como no podia admitir isso, falou apenas:
-		Vou enfatizar isso com toda a firmeza para Sir John, meu general.
Gallini, no entanto, j estava pensando em como compensar a inoperncia
britnica.
-		Ns enviaremos a Diviso 7 da Unidade 4 para reforar o exrcito de Manoury no rio Ourcq hoje  tarde - falou com determinao.
Na mesma hora, seus ajudantes comearam a redigir ordens.
Ento o coronel Dupuys falou:
-		Meu general, ns no temos trens suficientes para levar todos para l at o final do dia.
-		Ento usem carros - disse Gallini.
-		Carros? - Dupuys parecia perplexo. - Onde vamos arranjar tantos carros assim?
-		Aluguem txis!
Todos na sala o encararam. Ser que o general tinha enlouquecido?
-		Telefonem para o chefe de polcia - disse Gallini. - Peam para ele mandar seus homens pararem todos os txis da cidade, expulsarem os passageiros de

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dentro deles e instrurem os motoristas a virem para c. Ns vamos encher os txis de soldados e mand-los para o campo de batalha.
Ao ver que Gallini estava falando srio, Fitz sorriu. Era desse tipo de atitude que ele gostava. Vamos fazer o que for preciso, contanto que obtenhamos a vitria.
Dupuys encolheu os ombros e pegou um telefone.
-		Por favor, ligue para o chefe de polcia imediatamente - disse ele.
Preciso ver isso, pensou Fitz.
Ele saiu da escola e acendeu um charuto. No precisou esperar muito. Em questo de minutos, um txi Renault vermelho atravessou a ponte Alexandre III, contornou o amplo gramado ornamental e parou em frente ao prdio principal. Ele foi seguido por mais dois outros, depois por mais uma dzia, e ento por mais cem.
Em duas horas, vrias centenas de txis vermelhos idnticos estavam parados em frente aos Invalides. Fitz nunca tinha visto coisa parecida.
Recostados em seus carros, os taxistas fumavam cachimbo e conversavam animadamente, aguardando instrues. Cada motorista tinha uma teoria diferente sobre o motivo que os trouxera at ali.
Algum tempo depois, Dupuys saiu da escola e atravessou a rua com um megafone em uma das mos e um mao de formulrios de requisio do Exrcito na outra. Ele subiu em cima do cap de um txi e todos os motoristas se calaram.
-		O comandante militar de Paris precisa de 500 txis para irem daqui at Blagny - gritou ele pelo megafone.
Os motoristas o encararam em meio a um silncio incrdulo.
-		L cada carro dever apanhar cinco soldados e transport-los at Nanteuil.
A comuna de Nanteuil ficava cerca de 50 quilmetros a leste de Paris, colada
 frente de combate. Os taxistas comearam a entender. Entreolharam-se, meneando as cabeas e sorrindo. Fitz sentiu que eles estavam contentes por participar do esforo de guerra, sobretudo de forma to incomum.
-		Por favor, antes de partirem, peguem um destes formulrios aqui e preencham para solicitar seu pagamento na volta.
Aquilo causou um burburinho entre os motoristas. Eles ainda seriam pagos! Era o que faltava para garantir a colaborao de todos.
-		Quando 500 carros tiverem partido, darei as instrues para os prximos 500. Vive Paris! Vive la France!
Os taxistas comearam a vibrar com animao e cercaram Dupuys para apanhar seus formulrios. Encantado, Fitz ajudou a distribuir os documentos.
Logo os pequenos carros comearam a partir, manobrando em frente ao 

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grande prdio e tomando a direo da ponte sob a luz do sol, buzinando entusiasmados, como uma longa e reluzente corda salva-vidas vermelha para as foras na frente de batalha.
Os britnicos levaram trs dias para marchar 40 quilmetros. Fitz ficou envergonhado. As tropas avanavam praticamente sem resistncia: se tivessem andado mais depressa, poderiam ter desferido um golpe decisivo.
   Na manh da quarta-feira, dia 9, porm, ele encontrou os homens de Gallini em clima de otimismo. Von Kluck estava recuando.
  -		Os alemes esto com medo! - disse o coronel Dupuys.
   Fitz no acreditava que os alemes estivessem com medo, e o mapa proporcionava uma explicao mais plausvel. Os britnicos, por mais lentos e tmidos que fossem, haviam marchado at uma brecha que se abrira entre o Primeiro e o Segundo Exrcito alemes, quando Von Kluck havia deslocado suas tropas para oeste para resistir ao ataque vindo de Paris.
  -		Ns encontramos um ponto fraco e estamos tentando expandi-lo - disse Fitz com um frmito de esperana na voz.
   Ele disse a si mesmo para se acalmar. Os alemes tinham vencido todas as batalhas at ali. Por outro lado, suas linhas de abastecimento estavam distantes, seus homens, exaustos e seu contingente havia sido reduzido pela necessidade de enviar reforos  Prssia Oriental. Em contraste, os franceses daquela zona haviam recebido pesados reforos e praticamente no precisavam se preocupar com linhas de abastecimento, uma vez que estavam em seu prprio territrio.
   As esperanas de Fitz andaram para trs quando os britnicos pararam a 8 quilmetros do rio Marne. Por que Sir John estava parando? Mal havia encontrado resistncia!
   Os alemes, no entanto, pareceram no notar a timidez dos britnicos, pois continuavam a recuar, de modo que as esperanas se renovaram no Lyce.
   Conforme as sombras das rvores se alongavam do lado de fora das janelas da escola e os ltimos relatrios do dia chegavam, uma sensao de jbilo contido comeou a tomar conta dos ajudantes de Gallini. Ao fim do dia, os alemes estavam em franca retirada.
   Fitz mal conseguia acreditar. O desespero da semana anterior havia se transformado em esperana. Ele se sentou em uma cadeira pequena demais para o seu
   
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corpo e ficou encarando o mapa pregado na parede. Sete dias antes, a linha alem parecia um trampolim para o ataque que decidiria o conflito; agora, parecia uma parede diante da qual eles haviam sido obrigados a recuar.
   Quando o sol se ps por trs da Torre Eiffel, os Aliados no haviam obtido exatamente uma vitria, mas pela primeira vez em semanas o avano alemo havia cessado.
   Dupuys abraou Fitz, beijando-o em seguida nas duas faces, e pela primeira vez Fitz no se importou nem um pouco com isso.
   - Ns conseguimos det-los - disse Gallini, e, para surpresa de Fitz, lgrimas reluziram por trs do pincen do general. - Conseguimos det-los.
Logo aps a batalha do Marne, ambos os lados comearam a cavar trincheiras.
   O calor de setembro deu lugar  chuva fria e deprimente de outubro. O impasse na extremidade oriental da linha de batalha se alastrou irremediavelmente para oeste, como uma paralisia que toma conta do corpo de um moribundo.
   A batalha decisiva do outono foi travada pelo domnio da cidade belga de Ypres, no extremo oeste da linha, a pouco mais de 30 quilmetros do mar. O ataque alemo foi feroz, uma tentativa radical de obrigar o flanco das foras britnicas a desviar sua rota. O combate durou quatro semanas. Ao contrrio de todas as batalhas anteriores, esta foi esttica, com os oponentes entrincheirados contra a artilharia inimiga e saindo apenas para incurses suicidas contra as metralhadoras do adversrio. No fim das contas, os britnicos foram salvos por reforos, incluindo uma unidade de indianos que tremiam de frio em seus uniformes tropicais. Quando a batalha terminou, 75 mil soldados britnicos haviam morrido e a Fora Expedicionria estava arrasada; mas os Aliados haviam conseguido fechar uma barricada defensiva que ia da fronteira sua ao canal da Mancha e os invasores alemes haviam sido detidos.
   No dia 24 de dezembro, um Fitz sorumbtico se encontrava no quartel-general britnico na cidade de Saint-Omer, no muito longe de Calais. Lembrou-se da loquacidade com que ele e outros haviam garantido a seus homens que todos estariam em casa para o Natal. Agora, parecia que a guerra poderia durar um ano, ou at mais. Ambos os exrcitos passavam dia aps dia enfurnados em suas trincheiras, comendo comida ruim, acometidos por disenteria, gangrena nos ps e piolhos, e matando inutilmente os ratos que engordavam  custa dos cadveres espalhados pelo territrio que separava as frentes inimigas, chamado de terra de
   
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ningum. Fitz j no conseguia se lembrar dos motivos, antes to claros para ele, que haviam levado a Gr-Bretanha a entrar em guerra.
   Naquele dia, a chuva deu trgua e o tempo esfriou. Sir John mandou um alerta para todas as unidades de que o inimigo estava cogitando um ataque natalino. Fitz sabia que o alerta era totalmente inventado: no havia qualquer informao de inteligncia para sustent-lo. A verdade era que Sir John no queria que os homens relaxassem a vigilncia no dia de Natal.
   Cada soldado iria receber um presente da princesa Maria, filha de 17 anos do rei e da rainha britnicos. Ele consistia em uma caixa de lato gravada contendo fumo e cigarros, um retrato da princesa e um carto de Natal do rei. Os no fumantes, sikhs e enfermeiras, por sua vez, receberiam como presente chocolate ou balas em vez de tabaco. Fitz ajudou a distribuir as caixas para os Fuzileiros Galeses. No final do dia, como j era tarde demais para retornar ao relativo conforto de Saint-Omer, ele teve de passar a noite no quartel-general do Quarto Batalho, um abrigo subterrneo mido cerca de meio quilmetro atrs da frente de combate, lendo uma histria de Sherlock Holmes e fumando os charutos pequenos e finos que preferia atualmente. No eram to bons quanto seus Panatelas, mas ele quase no tinha mais tempo de fumar os charutos maiores inteiros. Estava acompanhado de Murray, que fora promovido a capito depois da batalha de Ypres. Fitz continuava com a mesma patente: Hervey vinha mantendo sua promessa.
   Assim que a noite caiu, ele ficou surpreso ao escutar tiros esparsos de fuzil. Mais tarde, constatou-se que os homens tinham visto luzes e pensado que o inimigo estivesse tentando realizar um ataque surpresa. Na verdade, as luzes eram lanternas coloridas que os alemes estavam usando para decorar o parapeito de suas trincheiras.
   Murray, que passara algum tempo na frente de combate, estava falando sobre os soldados indianos que defendiam o setor mais prximo.
   - Coitados, eles chegaram aqui com seus uniformes de vero, porque algum lhes disse que a guerra terminaria antes de o tempo esfriar - disse ele. - Mas vou lhe contar uma coisa, Fitz: esses soldados crioulinhos so danados de engenhosos. Voc sabe que temos pedido ao Departamento de Guerra para nos dar morteiros como os que os alemes tm, daqueles que lanam granadas por cima do parapeito da trincheira? Pois bem, os indianos fabricaram seus prprios morteiros com sobras de canos de ferro fundido. Parecem aqueles pedaos de encanamento remendado que voc v nos banheiros dos pubs, mas funciona!
   Pela manh, a nvoa estava gelada e o cho duro feito pedra. Fitz e Murray distribuiram
   
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os presentes da princesa ao raiar do dia. Alguns homens estavam reunidos em volta do fogo para se aquecer, mas disseram estar gratos pelo gelo, que era melhor do que a lama, sobretudo para os que tinham os ps gangrenados. Fitz percebeu que alguns conversavam em gals entre si, embora sempre se dirigissem aos oficiais em ingls.
   A linha alem, a uns 400 metros de distncia, estava escondida por uma bruma matinal da mesma cor que os uniformes germnicos: um azul desbotado puxado para o prateado, conhecido como "cinza de campanha". Fitz ouviu msica ao longe: os alemes estavam cantando hinos natalinos. Fitz no tinha muito ouvido para msica, mas pensou reconhecer "Noite feliz".
   Ele voltou ao abrigo subterrneo para tomar um caf da manh horroroso, composto de po dormido e presunto enlatado, na companhia dos outros oficiais. Depois de comer, saiu para fumar do lado de fora. Nunca havia se sentido to deprimido na vida. Pensou no desjejum que estaria sendo servido em Ty Gwyn naquele momento: linguias quentes, ovos frescos, rins de porco ao molho picante, peixe defumado, torradas amanteigadas e um caf bem cheiroso com creme. Ele ansiava por roupas de baixo limpas, por uma camisa bem passada e por um terno de l macia. Queria se sentar ao lado da lareira acesa da sala de estar matinal sem nada melhor para fazer que ler as piadas idiotas da revista Punch.
   Murray veio se juntar a ele do lado de fora do abrigo e disse:
  -		Telefone, major.  do quartel-general.
   Fitz ficou surpreso. Algum havia se esforado bastante para localiz-lo. Esperava que no fosse por causa de alguma briga surgida entre os franceses e os britnicos enquanto ele estava distribuindo presentes de Natal. Com o rosto fechado de preocupao, abaixou a cabea para entrar no abrigo e empunhou o telefone de campanha.
  -		Fitzherbert falando.
  -		Bom dia, major - disse uma voz que ele no reconheceu. - Aqui  o capito Davies. O senhor no me conhece, mas me pediram para lhe transmitir um recado de casa.
   De casa? Fitz torceu para no serem ms notcias.
  -		 muita gentileza sua, capito - disse ele. - Qual o recado?
  -		Sua mulher deu  luz um menino muito saudvel, senhor. Me e filho passam bem.
  -		Oh! - Fitz sentou-se de pronto em uma caixa. Ainda era cedo para o beb nascer; estava uma ou duas semanas adiantado. Bebs prematuros eram vulnerveis. Mas o recado dizia que o menino estava bem de sade. E Bea tambm.
   
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Fitz tivera um filho homem, e o condado havia ganhado um herdeiro.
-		Major, o senhor est na linha? - perguntou o capito Davies.
-		Estou, estou - respondeu Fitz. - S estou um pouco chocado. Ainda era cedo.
-		Como hoje  Natal, senhor, achamos que a notcia poderia alegr-lo.
-		E me alegra mesmo, pode ter certeza!
-		Permita-me ser o primeiro a lhe dar os parabns.
-		Muito gentil da sua parte - disse Fitz. - Obrigado. - Mas o capito Davies j
havia desligado.
Depois de alguns instantes, Fitz percebeu que os outros oficiais presentes o
encaravam sem dizer nada. Por fim, um deles perguntou:
-		Notcia boa ou ruim?
-		Boa! - respondeu Fitz. - Maravilhosa, para falar a verdade. Eu sou pai.
Todos apertaram sua mo e lhe deram tapinhas nas costas. Embora ainda fosse
cedo, Murray apanhou a garrafa de usque e todos beberam  sade do beb.
-		Como vai se chamar o menino? - perguntou Murray.
-		Visconde de Aberowen, enquanto eu estiver vivo - respondeu Fitz, e ento
se deu conta de que Murray no estava perguntando sobre o ttulo de nobreza do
beb, mas sim sobre seu nome de batismo. - George, em homenagem ao meu
pai, e William em homenagem ao meu av. O pai de Bea se chamava Petr
Nikolaevich, ento talvez ponhamos esses nomes tambm.
Murray pareceu achar graa.
-		George William Peter Nicholas Fitzherbert, visconde de Aberowen - disse
ele. -  nome para dar e vender!
Fitz aquiesceu, bem-humorado.
-		Mais ainda se voc pensar que ele deve ter s uns trs quilos e meio.
Ele estava explodindo de orgulho e felicidade, e sentiu o impulso de compartilhar a notcia.
-		Acho que vou at a frente de batalha - falou, quando finalmente terminaram
o usque. - Distribuir uns charutos para os soldados.
Ele saiu do abrigo e percorreu a trincheira de comunicao. Sentia-se eufrico. No havia tiroteio e o ar estava gelado e limpo, exceto quando ele passou pela
latrina. Foi ento que se viu pensando no em Bea, mas em Ethel. Ser que ela j
havia tido o beb? Estaria feliz na casa que comprara depois de extorquir o
dinheiro de Fitz? Embora continuasse abismado com a forma dura como Ethel
havia negociado com ele, no conseguia se esquecer de que era o seu filho que
ela carregava no ventre. Torceu para que tivesse um parto seguro, como Bea.
Todos esses pensamentos desapareceram de sua mente quando ele chegou ao

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front. Ao fazer a curva para entrar na trincheira da linha de frente, teve um choque.
No havia ningum ali.
Ele percorreu a trincheira, contornando um dos recessos, depois o prximo, e no encontrou vivalma. Parecia uma histria de fantasmas, ou um daqueles navios encontrados  deriva, intactos, porm sem nenhum tripulante.
Tinha de haver alguma explicao. Ser que ocorrera algum ataque sobre o qual Fitz de alguma forma no tinha sido informado?
Ocorreu-lhe ento olhar por sobre o parapeito.
Isso no era algo a se fazer de forma impensada. Muitos homens eram mortos em seu primeiro dia na linha de frente porque resolviam dar uma olhadinha por sobre o parapeito.
Fitz apanhou uma das ps de cabo curto usadas para cavar as trincheiras. Foi empurrando a p para cima aos poucos, at ela passar pela borda. Ento subiu no degrau de tiro e ergueu a cabea devagar, at conseguir olhar pela brecha estreita entre o parapeito e a p.
Ficou pasmo com o que viu.
Os homens estavam todos no deserto esburacado que compreendia a terra de ningum. Mas no estavam lutando. Estavam reunidos em grupos, conversando.
Fitz achou que havia algo de estranho neles e, depois de alguns instantes, percebeu que alguns dos uniformes eram cqui, enquanto os outros eram cinza de campanha.
Os homens estavam conversando com o inimigo.
Fitz largou a p, ergueu a cabea totalmente por sobre o parapeito e ficou olhando a cena. A terra de ningum estava ocupada por centenas de soldados, britnicos e alemes, todos misturados, espalhando-se at onde sua vista alcanava, tanto para a esquerda quanto para a direita.
Aquilo no fazia o menor sentido.
Ele encontrou uma escada e atravessou o parapeito. Saiu marchando pela terra revirada. Os homens estavam mostrando fotografias de seus parentes e namoradas, oferecendo cigarros e tentando se comunicar uns com os outros com frases do tipo: "Eu, Robert, e voc?"
Ele reconheceu dois sargentos, um britnico e outro alemo, muito entretidos em uma conversa. Cutucou o ombro do britnico.
-		Ei, voc! - falou. - O que acha que est fazendo?
O homem lhe respondeu com o sotaque monocrdio e gutural da regio do cais do porto de Cardiff.
-		No sei como aconteceu exatamente, senhor. Alguns dos chucrutes subiram

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at o parapeito deles, desarmados, e gritaram "Feliz Natal", e ento um dos nossos
rapazes fez a mesma coisa, da eles foram andando uns na direo dos outros e,
quando a gente se deu conta, todos estavam fazendo a mesma coisa.
-		Mas no tem ningum nas trincheiras! - disse Fitz, irado. - No est vendo
que isso pode ser um truque?
O sargento olhou para um lado da frente de batalha e depois para o outro.
-		No, senhor, para ser sincero, no vejo esse perigo - respondeu ele, despreocupado.
Fitz percebeu que ele tampouco. Como o inimigo poderia tirar vantagem do
fato de as duas linhas de frente adversrias terem ficado amigas?
O sargento apontou para o alemo.
-		Este  Hans Braun, senhor - disse ele. - Ele era garom no Hotel Savoy de
Londres. E fala ingls!
O sargento alemo bateu continncia para Fitz.
-		 um prazer conhec-lo, major - disse ele. - Feliz Natal. - O homem tinha
menos sotaque do que o sargento de Cardiff. Ele estendeu um cantil.
-		Aceita um gole de schnapps?
-		Meu Deus do cu - disse Fitz, afastando-se dali.
No havia nada que ele pudesse fazer. Mesmo com a ajuda dos suboficiais,
como aquele sargento gals, seria difcil dar fim quilo. Sem ela, era impossvel.
Ele decidiu que era melhor relatar a situao a um superior e transferir o problema para outra pessoa.
No entanto, antes de conseguir ir embora, ouviu algum chamar seu nome.
-		Fitz! Fitz!  voc mesmo?
A voz era conhecida. Ele se virou e viu um alemo se aproximando. Quando
ele chegou perto, Fitz o reconheceu.
-		Von Ulrich? - falou, assombrado.
-		Em carne e osso! - Walter abriu um grande sorriso e estendeu a mo. Fitz a
	segurou sem pensar. Walter o cumprimentou vigorosamente. Ele estava mais
magro, pensou Fitz, e sua pele clara estava castigada pelas intempries. Imagino
que eu tambm tenha mudado, pensou Fitz.
-		Mas isso  incrvel... - disse Walter. - Que coincidncia!
-		Fico feliz em ver voc bem, com sade - disse Fitz. - Embora imagine que
no devesse ficar.
-		Eu digo o mesmo!
-		O que ns vamos fazer em relao a isso? - Fitz gesticulou na direo dos
	soldados que confraternizavam. - Acho preocupante.

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-		Eu concordo. Quando chegar amanh, talvez no queiram atirar nos novos amigos.
-		E o que faramos se isso acontecesse?
-		Precisamos urgentemente de uma batalha para que eles voltem ao normal. Se ambos os lados comearem a atacar pela manh, logo os homens vo comear a se detestar de novo.
-		Espero que tenha razo.
-		E voc, como est, velho amigo?
Fitz se lembrou da boa notcia que havia recebido e seu rosto se iluminou.
-		Acabo de ser pai - disse. - Bea deu  luz um menino. Tome aqui um charuto.
Ambos acenderam seus charutos. Walter contou que estivera na frente oriental.
-		Os russos so uns corruptos - disse ele com repulsa. - Os oficiais vendem suprimentos no mercado negro e deixam a infantaria passar fome e frio. Metade da populao da Prssia Oriental est calando botas do exrcito russo compradas a preo de banana, enquanto os prprios soldados andam descalos.
Fitz falou de sua estadia em Paris.
-		Seu restaurante preferido continua aberto, o Voisin - disse.
Os soldados deram incio a uma partida de futebol, Gr-Bretanha contra Alemanha, empilhando as boinas de seus uniformes para marcar as traves dos gois.
-		Preciso ir relatar o que est acontecendo - disse Fitz.
-		Eu tambm - falou Walter. - Mas antes me diga uma coisa: como vai lady Maud?
-		Bem, imagino.
-		Ficaria muito feliz se voc pudesse lhe transmitir as minhas lembranas.
Fitz ficou intrigado com a nfase que Walter deu quele comentrio que, caso
contrrio, soaria to banal.
-		Naturalmente - respondeu. - Algum motivo especial?
Walter desviou o olhar.
-		Logo antes de sair de Londres... eu dancei com ela no baile de lady Westhampton. Foi a ltima coisa civilizada que fiz antes desta verdammten guerra.
Walter parecia muito emocionado. Sua voz tremia, e era rarssimo ele resvalar para o alemo ao falar em outra lngua. Talvez tambm houvesse sido contagiado pelo esprito natalino.
-		Gostaria muito que ela soubesse que eu estava pensando nela no dia de Natal - prosseguiu Walter. Ele encarou Fitz com os olhos marejados. - Posso contar com voc para dizer isso a ela, meu velho amigo?
-		Pode, sim - respondeu Fitz. - Tenho certeza de que ela ficar muito contente.

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CAPTULO CATORZE
Fevereiro de 1915

Eu fui ao mdico - falou a mulher ao lado de Ethel. - E disse a ele: "Minha
xereca est coando."
   Uma onda de risadas varreu o aposento. Ele ficava no andar de cima de uma
pequena casa na regio leste de Londres, perto de Aldgate. Vinte mulheres estavam sentadas diante de mquinas de costura em fileiras compactas, que se estendiam pelos dois lados de uma mesa de trabalho comprida. No havia lareira e a
nica janela estava bem fechada para no deixar entrar o frio de fevereiro. As
tbuas do piso estavam nuas. O reboco caiado das paredes se esfarelava de to
antigo e dava para ver as ripas atrs dele em alguns pontos. Com vinte mulheres
respirando o mesmo ar, o cmodo ficava abafado, mas nunca parecia se aquecer,
de modo que todas usavam chapus e sobretudos.
   Haviam acabado de fazer um intervalo, e os pedais sob seus ps estavam
momentaneamente em silncio. A mulher ao lado de Ethel era Mildred Perkins,
uma londrina do East End que tinha a mesma idade que ela. Mildred era tambm a inquilina de Ethel. Teria sido uma moa bonita, no fossem os dentes da
frente proeminentes. As piadas sujas eram sua especialidade. Ela prosseguiu:
   -		O mdico ento me disse: "Voc no deveria dizer isso,  uma palavra feia."
   Ethel sorriu. Mildred sempre conseguia criar momentos de alegria na rdua
jornada de trabalho de 12 horas. Ethel nunca tinha escutado esse tipo de conversa antes. Em Ty Gwyn, todos os empregados eram bem-educados. Aquelas londrinas eram capazes de dizer qualquer coisa. Ali havia mulheres de todas as
idades e nacionalidades, sendo que algumas mal falavam ingls - incluindo duas
refugiadas da Blgica ocupada pelos alemes. A nica coisa que todas tinham em
comum era o fato de estarem desesperadas o suficiente para aceitar aquele tipo
de emprego.
   -		Eu falei para ele: "O que eu deveria dizer ento, doutor?" E ele me respondeu: "Diga que o seu dedo est coando."
   Elas estavam costurando uniformes do Exrcito britnico, milhares de uniformes, tnicas e calas. Dia aps dia, as peas de tecido cqui grosso chegavam de
uma fbrica na rua ao lado, grandes caixas de papelo cheias de mangas, costas
e pernas, e as mulheres ali as costuravam antes de mand-las para outra
   
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pequena fbrica, onde as roupas recebiam botes e casas. O pagamento era de acordo com o nmero de peas que terminavam.
  -		Ento ele me perguntou: "O seu dedo coa o tempo todo, Sra. Perkins, ou s de vez em quando?"
   Mildred fez uma pausa e as mulheres ficaram caladas, esperando o fim da piada.
  -		E eu falei: "No, doutor, s quando eu mijo com ele."
   Todas explodiram em risos e exclamaes.
   Uma menina magra de 12 anos entrou pela porta com uma vara de madeira em cima do ombro. Nela, havia 20 canecas de diferentes tamanhos penduradas. A menina, que se chamava Allie, pousou a vara com cuidado sobre a mesa de trabalho. As canecas continham ch, chocolate quente, caldos ou caf aguado. Cada mulher tinha a sua. Duas vezes por dia, no meio da manh e no meio da tarde, entregavam seus trocados a Allie, e ela ia ench-las no caf ao lado da fbrica.
   As mulheres tomaram pequenos goles de suas bebidas, esticaram os braos e pernas e esfregaram os olhos. O trabalho no era to rduo quanto a minerao de carvo, pensou Ethel, mas era cansativo: ficar horas e horas curvada sobre a mquina, vigiando a costura com ateno. E tudo precisava ficar perfeito. O patro, Mannie Litov, verificava cada pea e, se a costura estivesse errada, voc no recebia - embora Ethel desconfiasse que ele despachava os uniformes defeituosos de qualquer maneira.
   Dali a cinco minutos, Mannie entrou na oficina, batendo palmas e dizendo:
  -		Vamos, de volta ao trabalho. - As mulheres terminaram suas bebidas e tornaram a se virar para a mesa de trabalho.
   Mannie era um verdadeiro feitor de escravos, mas, segundo as mulheres, no era dos piores. Pelo menos no apalpava as garotas ou exigia favores sexuais. Tinha cerca de 30 anos, olhos escuros e uma barba preta. Seu pai era um alfaiate que viera da Rssia para abrir uma fbrica na Mile End Road, onde fazia ternos baratos para funcionrios de banco e mensageiros da Bolsa de Valores. Mannie havia aprendido o ofcio com o pai e depois iniciara um empreendimento mais ambicioso.
   A guerra era boa para os negcios. Um milho de homens haviam se alistado voluntariamente no Exrcito entre agosto e o Natal, e todos precisavam de uniformes. Mannie estava contratando todas as costureiras que conseguisse encontrar. Felizmente, Ethel havia aprendido a manejar a mquina de costura em Ty Gwyn.
   Ela precisava de um emprego. Embora sua casa estivesse paga e ela cobrasse
   
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aluguel de Mildred, tinha de economizar dinheiro para quando o beb chegasse.
Contudo, a experincia de procurar trabalho havia lhe causado frustrao e
aborrecimento.
   Estavam surgindo muitos empregos novos para mulheres, mas Ethel no tardou a descobrir que homens e mulheres ainda eram desiguais. Trabalhos que
pagavam trs ou quatro libras por semana aos homens estavam sendo oferecidos
a mulheres por uma libra. E, alm disso, as mulheres tinham que aturar hostilidade e perseguio. Passageiros de nibus homens se recusavam a mostrar as
passagens a uma condutora mulher; mecnicos derramavam leo dentro da
caixa de ferramentas de suas colegas do sexo feminino; e as operrias eram proibidas de entrar no pub junto ao porto da fbrica. O que deixava Ethel ainda
mais furiosa era que esses mesmos homens eram capazes de chamar uma mulher
de preguiosa e incompetente caso seus filhos andassem maltrapilhos.
   No fim das contas, com relutncia e raiva, ela havia escolhido um ramo de trabalho no qual as mulheres eram empregadas tradicionalmente, jurando que iria
mudar esse sistema injusto antes de morrer.
   Ela esfregou as costas. O beb iria nascer dali a uma ou duas semanas e Ethel
teria que parar de trabalhar a qualquer momento. Costurar era complicado com
aquela barriga imensa, mas o que ela achava pior era o cansao que ameaava
tomar todo o seu corpo.
   Duas outras mulheres entraram pela porta, uma delas com a mo coberta por
uma atadura. As costureiras muitas vezes se espetavam com as agulhas ou se cortavam com as tesouras afiadas que usavam para acertar as roupas.
  -		Est vendo, Mannie, voc deveria ter um kit de primeiros socorros aqui,
uma lata com ataduras, um frasco de iodo e mais uma coisa ou outra - disse
Ethel.
  -		Voc acha que sou feito de dinheiro? - devolveu ele. Era sua resposta-padro
para qualquer exigncia de suas funcionrias.
  -		Mas voc perde dinheiro toda vez que uma de ns se machuca - falou Ethel
com um tom de sensatez ponderada. - Como tiveram que ir  farmcia cuidar
de um corte, essas duas mulheres passaram quase uma hora fora da mquina.
   A mulher da atadura sorriu.
  -		Alm disso, tive que passar no Dog and Duck para acalmar os nervos - disse
ela, referindo-se a um pub das redondezas.
   Falando com sarcasmo, Mannie disse a Ethel:
  -		Imagino que voc v querer que eu tambm ponha uma garrafa de gim no
kit de primeiros socorros.
   
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   Ethel ignorou o comentrio.
  -		Vou fazer uma lista para descobrir quanto vai custar tudo e ento voc decide. Que tal?
  -		No prometo nada - disse Mannie, e isso era o mais prximo que ele jamais chegava de se comprometer com qualquer coisa.
  -		Ento est certo. - Ethel tornou a se virar para a mquina.
   Era sempre ela quem solicitava a Mannie pequenas melhorias no local de trabalho, ou que protestava quando ele fazia mudanas desfavorveis, como estabelecer que elas deveriam pagar para afiar as prprias tesouras. Sem querer, parecia ter cado no mesmo tipo de papel que o pai desempenhava.
   Do lado de fora da janela encardida, a tarde curta j estava escurecendo. Ethel considerava as ltimas trs horas de trabalho as mais difceis. Suas costas doam e o brilho das lmpadas no teto lhe dava dor de cabea.
   Quando chegava o fim do turno, s sete horas, no entanto, ela no queria voltar para casa. A ideia de passar a noite sozinha era deprimente demais.
   Assim que Ethel chegou a Londres, vrios rapazes haviam prestado ateno nela. No tinha sentido atrao de verdade por nenhum deles, mas aceitara convites para cinemas, cabars, recitais e noitadas em pubs. Chegara at a beijar um dos rapazes, mas sem muita paixo. Porm, logo que sua gravidez comeou a ficar clara, todos haviam perdido o interesse. Uma garota bonita era uma coisa, mas uma mulher com um beb era outra muito diferente.
   Felizmente, naquela noite haveria uma assembleia do Partido Trabalhista. Ethel havia se inscrito no ncleo de Aldgate do Partido Trabalhista Independente logo depois de comprar a casa. Muitas vezes se perguntava o que seu pai pensaria disso caso soubesse. Ser que iria querer expuls-la do partido dele assim como a expulsara de casa? Ou ficaria feliz em segredo? Ela provavelmente jamais saberia.
   A palestrante daquela noite seria Sylvia Pankhurst, uma das lderes das sufragistas, que militavam pelo voto feminino. A guerra havia provocado uma ciso na famosa famlia Pankhurst. Emmeline, a me, renunciara  campanha enquanto durasse o conflito. Uma das filhas, Christabel, apoiava a me, mas a outra, Sylvia, havia rompido com as duas e dado continuidade  luta. Ethel estava do lado de Sylvia: as mulheres eram oprimidas tanto em tempos de guerra quanto de paz - e nunca conseguiriam justia enquanto no tivessem o direito de votar.
   Quando chegou  calada, ela deu boa-noite s colegas. A rua iluminada por lampies a gs estava cheia de operrios voltando para casa, pessoas fazendo compras para o jantar e farristas a caminho de uma noite de diverso. Uma lufada de ar morno e inebriante emanava da porta aberta do Dog and Duck. Ethel
   
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entendia as mulheres que passavam a noite inteira em lugares como aquele. Os pubs eram mais aconchegantes do que a casa da maioria das pessoas, e neles havia sempre companhia agradvel e a anestesia barata oferecida pelo gim.
Ao lado do pub, ficava uma mercearia chamada Lippmanns, mas ela estava fechada: havia sido vandalizada por um bando de patriotas por causa do nome alemo e sua fachada estava coberta por tbuas. Por ironia, o dono do estabelecimento era um judeu de Glasgow, cujo filho combatia na Infantaria Leve das Terras Altas escocesas.
Ethel pegou um nibus. Eram s duas paradas, mas ela estava cansada demais para andar.
A reunio era no Salo do Evangelho do Calvrio, o mesmo lugar onde funcionava a clnica de lady Maud. Ethel fora morar em Aldgate porque era o nico bairro de Londres de que tinha ouvido falar, pois Maud costumava mencion-lo com frequncia.
O salo estava claro por conta das belas luminrias a gs espalhadas pelas paredes e um braseiro de carvo no meio do aposento deixava o ar menos frio. Cadeiras dobrveis baratas haviam sido dispostas em fileiras diante de uma mesa e de um plpito. Ethel foi recebida pelo secretrio do ncleo, Bernie Leckwith, homem estudioso e pedante, mas de bom corao. Ele estava com um ar preocupado.
-		Nossa palestrante no vem mais - disse.
Ethel ficou decepcionada.
-		O que ns vamos fazer? - perguntou ela, correndo os olhos pelo salo. - J tem mais de 50 pessoas aqui.
-		Eles vo mandar uma substituta, mas ela ainda no chegou e no sei se vai ser boa. Ela nem  do partido.
-		Quem ?
-		O nome dela  lady Maud Fitzherbert. - disse Bernie. - Pelo que entendi, a famlia  dona de minas de carvo - acrescentou em tom de reprovao.
Ethel riu.
-		Quem diria! - exclamou. - Eu j trabalhei para ela.
-		Ela fala bem?
-		No fao a menor ideia.
Ethel estava intrigada. No via Maud desde aquela fatdica tera-feira em que a ex-patroa se casara com Walter von Ulrich e a Gr-Bretanha declarara guerra  Alemanha. Ethel ainda guardava o vestido que Walter tinha comprado para ela, cuidadosamente envolto em papel de seda e pendurado em seu guarda-roupa. Era feito de seda cor-de-rosa, com uma segunda camada de tecido difano por

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cima - a coisa mais linda que ela j tivera na vida.  claro que no cabia mais naquele vestido. Alm do mais, ele era bonito demais para ser usado em uma assembleia do Partido Trabalhista. Ethel conservara o chapu tambm, na mesma caixa em que tinha sido embalado na loja da Bond Street.
   Ela se sentou, grata pela chance de dar um descanso aos ps, e se acomodou para aguardar o incio da assembleia. Jamais se esqueceria de quando fora ao Ritz depois do casamento com o primo bonito de Walter, Robert von Ulrich. Ao entrar no restaurante, uma ou outra das mulheres presentes a encarou feio, fazendo-a imaginar que, embora estivesse usando um vestido caro, algo em sua aparncia entregava o fato de que pertencia  classe operria. Mas Ethel estava pouco se lixando para isso. Robert a fizera rir com comentrios venenosos sobre as roupas e jias das outras mulheres, ao passo que ela lhe contara um pouco sobre a vida em uma cidade mineradora do Pas de Gales - coisa que lhe pareceu mais estranha do que a existncia dos esquims.
   Onde estariam eles agora? Tanto Robert quanto Walter tinham ido  guerra,  claro - Walter pelo Exrcito alemo e Robert pelo austraco -, e Ethel no tinha como saber se estavam mortos ou vivos. Nunca mais tivera notcias de Fitz. Imaginava que ele houvesse ido para a Frana com os Fuzileiros Galeses, mas nem disso tinha certeza. Mesmo assim, sempre passava os olhos pela lista de mortos que saa nos jornais, com medo de ler o nome Fitzherbert. Detestava-o pela forma como a havia tratado, mas, de qualquer forma, ficava profundamente aliviada quando no encontrava seu nome.
   Ela poderia ter mantido contato com Maud simplesmente indo  clnica em alguma quarta-feira, mas como teria explicado a visita? Com exceo de um pequeno susto em julho - um leve sangramento em sua roupa de baixo que o Dr. Greenward lhe garantiu no ser nada preocupante -, no havia nada de errado com ela.
   No entanto, Maud no havia mudado naqueles seis meses. Entrou no salo vestida de forma mais espetacular do que nunca, usando um chapu de aba larga com uma pena comprida que despontava da fita como o mastro de um iate. De repente, Ethel se sentiu molambenta com seu velho sobretudo marrom.
   Maud cruzou olhares com ela e se aproximou.
  -		Ol, Williams! Quer dizer, Ethel... me perdoe. Que surpresa agradvel!
   Ethel apertou-lhe a mo.
  -		Peo desculpas por no me levantar - falou ela, alisando a barriga inchada. - Acho que neste momento eu no conseguiria ficar de p nem para o rei.
  -		Imagine! Ser que podemos conversar por alguns minutos depois da assembleia?
   
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-		Seria timo.
Maud foi at a mesa e Bernie deu incio  assembleia. Como muitos outros habitantes do East End londrino, Bernie era um judeu russo. Na verdade, poucas pessoas daquela regio eram inglesas de fato. Havia muitos galeses, escoceses e irlandeses. Antes da guerra, costumava ser grande o nmero de alemes; agora, havia milhares de refugiados belgas. Era no East End que eles desembarcavam do navio, ento acabavam naturalmente se instalando ali.
Embora estivessem recebendo uma convidada especial, Bernie fez questo de primeiro ler as justificativas dos que no puderam vir, seguidas pela ata da reunio anterior e por outros procedimentos de rotina tediosos. Ele trabalhava como bibliotecrio para o conselho do bairro e era obcecado por detalhes.
Por fim, Bernie apresentou Maud. Ela falou com segurana e conhecimento de causa sobre a opresso das mulheres.
-		Uma mulher que faa o mesmo trabalho de um homem deveria receber o mesmo salrio - falou. - S que o homem tem que sustentar uma famlia,  o que muitas vezes ouvimos.
Vrios dos homens na plateia menearam a cabea enfaticamente, concordando: era isso que sempre diziam.
-		Mas e quanto  mulher que precisa sustentar uma famlia?
Isso gerou um burburinho de aprovao entre as mulheres.
-		Na semana passada, em Acton, eu conheci uma garota que est tentando alimentar e vestir os cinco filhos com duas libras por semana, enquanto o marido, que a abandonou, ganha quatro libras e dez xelins fabricando hlices de navio em Tottenham e gasta o dinheiro todo em um pub!
-		 isso a! - exclamou uma mulher atrs de Ethel.
-		Acabei de conversar com uma mulher em Bermondsey cujo marido foi morto na batalha de Ypres... ela precisa sustentar os quatro filhos dele, mas recebe um salrio de mulher.
-		Que vergonha! - comentaram vrias das ouvintes.
-		Se um patro acha justo pagar a um homem um xelim por pea para fabricar bielas, deveria achar justo pagar o mesmo salrio a uma mulher.
Os homens se remexeram nas cadeiras, pouco  vontade.
Maud correu um olhar duro como ao pela plateia.
-		Quando ouo homens socialistas defenderem salrios iguais para todos, eu lhes pergunto: "Mas vocs permitem que patres gananciosos tratem as mulheres como mo de obra barata?"
Ethel achava que era preciso muita coragem e independncia para uma

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mulher com as origens de Maud pensar dessa forma. Tambm sentia inveja dela. De suas lindas roupas e de seu estilo fluente ao falar. E, para completar, Maud ainda era casada com o homem que amava.
   Depois da palestra, Maud foi interrogada de forma agressiva pelos homens do Partido Trabalhista. O tesoureiro do ncleo, um escocs de rosto vermelho chamado Jock Reid, perguntou:
  -		Como vocs podem continuar choramingando pelo voto feminino quando nossos rapazes esto morrendo na Frana? - Um alarido de aprovao ecoou pelo recinto.
  -		Que bom que o senhor me perguntou isso, porque  uma questo que incomoda muitos homens e muitas mulheres tambm - disse Maud. Ethel admirou o tom conciliatrio da resposta, que contrastava muito bem com a hostilidade da pergunta. - Seria melhor que as atividades polticas no prosseguissem normalmente durante a guerra? Seria melhor que vocs no estivessem participando de uma reunio do Partido Trabalhista? Seria melhor que os sindicatos parassem de lutar contra a explorao dos trabalhadores? O Partido Conservador por acaso est em recesso durante a guerra? A injustia e a opresso foram temporariamente suspensas? Minha resposta  no, camarada. No podemos deixar os inimigos do progresso tirarem vantagem da guerra. Ela no deve servir de desculpa para os tradicionalistas nos impedirem de avanar. Como diz o senhor Lloyd George, temos que continuar tocando o barco.
   Aps a reunio, um ch foi preparado - pelas mulheres, naturalmente e Maud veio se sentar ao lado de Ethel, retirando as luvas para segurar nas mos macias uma xcara e um pires feitos de uma cermica azul grossa. Ethel achou que seria indelicado de sua parte dizer a Maud a verdade sobre o irmo dela, de modo que lhe contou a ltima verso de sua saga fictcia, falando que "Teddy Williams" tinha sido morto em combate na Frana.
  -		Eu digo s pessoas que ns ramos casados - falou ela, tocando o anel barato que usava no dedo. - No que algum se importe com isso agora. Antes de os rapazes irem para a guerra, as garotas querem lhes dar prazer, casadas ou no. - Ela baixou a voz. - Imagino que a senhora no tenha notcias de Walter, ou tem?
   Maud sorriu.
  -		Aconteceu uma coisa extraordinria. Voc leu nos jornais sobre a trgua de Natal?
  -		Li, claro... britnicos e alemes trocando presentes e jogando futebol na terra de ningum. Uma pena eles no terem continuado a trgua e se recusado a lutar.
  -		Sem dvida. Mas Fitz encontrou Walter!
   
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-		Ora, mas que maravilha!
-		Fitz no sabe que estamos casados,  claro, ento Walter teve que tomar cuidado com o que disse. Mas mandou um recado dizendo que estava pensando em mim no dia de Natal.
Ethel apertou a mo de Maud.
-		Ento ele est bem!
-		Ele lutou na Prssia Oriental, e agora est na frente de combate na Frana, mas no foi ferido.
-		Graas aos cus. Mas no imagino que a senhora v ter mais notcias dele. Esse tipo de sorte nunca se repete.
-		No. Minha nica esperana  que, por algum motivo, ele seja enviado para um pas neutro, como a Sucia ou os Estados Unidos, de onde possa escrever para mim. Caso contrrio, terei que esperar o fim da guerra.
-		E o conde?
-		Fitz est bem. Passou as primeiras semanas da guerra fazendo farra em Paris.
Enquanto eu procurava um emprego em uma oficina exploradora, pensou
Ethel com rancor.
-		A princesa Bea teve um menino - continuou Maud.
-		Fitz deve ter ficado feliz em ganhar um herdeiro.
-		Estamos todos muito contentes - disse Maud, o que fez Ethel se lembrar de que, alm de rebelde, ela era tambm uma aristocrata.
A assembleia chegou ao fim. Um txi aguardava Maud e as duas se despediram. Bernie Leckwith pegou o nibus com Ethel.
-		Ela se saiu melhor do que eu esperava - comentou. - Uma mulher da classe alta, sem dvida, mas com a cabea no lugar. E simptica, sobretudo com voc. Imagino que uma criada acabe conhecendo muito bem a famlia para quem trabalha.
Voc no sabe da missa a metade, pensou Ethel.
Ela morava em uma rua tranquila de pequenas casas geminadas, antigas mas bem construdas, a maioria ocupada por trabalhadores com melhor condio financeira, artesos e supervisores, e por suas famlias. Bernie a acompanhou at a porta da frente. Ethel percebeu que ele provavelmente queria lhe dar um beijo de boa-noite. Considerou a possibilidade de permitir que fizesse isso, pelo simples fato de estar grata por ele ser o nico homem do mundo que ainda a considerava atraente. Mas o bom senso falou mais alto: no queria lhe dar falsas esperanas.
-		Boa noite, camarada! - disse ela alegremente, entrando em casa.
No havia nenhum barulho ou luz no andar de cima: Mildred e os filhos j estavam dormindo. Ethel tirou a roupa e entrou na cama. Apesar do cansao, sua
 
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mente estava agitada e ela no conseguiu dormir. Depois de algum tempo, levantou-se e foi preparar um ch.
Por fim, decidiu escrever para o irmo. Abriu seu bloco e comeou:
Minha irmzinha Lihhy, meu amor querido,
Na escrita em cdigo que os dois usavam quando crianas, apenas uma em cada trs palavras contava, e os nomes prprios eram embaralhados, de modo que a frase significava simplesmente Billy querido.
Ela se lembrou de que seu mtodo era escrever a mensagem que desejava enviar, para depois preencher os espaos. Ento escreveu:
Estou aqui sentada, sozinha e triste.
Em seguida, transformou a frase em cdigo:
H dias estou neste lugar aqui,  mesa sentada, nem sempre sozinha, ora alegre e s vezes triste.
Quando era pequena, ela adorava essa brincadeira de inventar uma mensagem imaginria para ocultar a verdadeira. Ela e Billy haviam bolado truques para facilitar: as palavras riscadas contavam, enquanto as sublinhadas, no.
Decidiu escrever a carta inteira, para s depois transform-la em cdigo.
As ruas de Londres no so caladas de ouro, pelo menos no em Aldgate.
Cogitou escrever uma carta alegre, fazendo seus problemas no parecerem to graves. Ento pensou: Ah, que se dane, posso dizer a verdade ao meu irmo.
Eu costumava achar que fosse especial, no me pergunte por qu. "Ela se acha boa demais para Aberowen", as pessoas diziam, e tinham razo.
Ela teve de piscar para conter as lgrimas ao pensar naquela poca: no seu uniforme bem passado, nas refeies fartas na impecvel ala dos criados e, sobretudo, no corpo lindo e esbelto que no tinha mais.
Agora, olhe s para mim. Sou explorada 12 horas por dia na fbrica de Mannie Litov. Tenho enxaquecas todas as noites e sinto uma dor constante nas costas. Vou ter um filho que ningum quer. E ningum me quer tampouco, exceto um bibliotecrio chato e quatro-olhos.
Ela mordiscou a ponta do lpis por alguns instantes, pensativa, e por fim escreveu:
Daria no mesmo se eu estivesse morta.

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No segundo domingo de cada ms, um padre ortodoxo pegava o trem de Cardiff
e subia o vale at Aberowen, trazendo uma mala cheia de cones e castiais embalados com esmero para celebrar a Divina Liturgia para os russos.
   Lev Peshkov detestava padres, mas sempre comparecia  missa - era preciso,
se voc quisesse ter direito ao jantar gratuito oferecido em seguida. O culto acontecia na sala de leitura da biblioteca pblica. Segundo uma placa no saguo,
aquela era uma das bibliotecas Carnegie, construda com dinheiro doado pelo
filantropo de mesmo nome. Lev sabia ler, mas no entendia direito as pessoas
que consideravam a leitura um prazer. Os jornais ali eram afixados a suportes de
madeira pesados, para que ningum os roubasse, e por todo lado havia placas
que diziam: SILNCIO. Como algum poderia se divertir em um lugar daqueles?
   Quase tudo em Aberowen desagradava Lev.
   Os cavalos eram iguais em qualquer parte, mas ele odiava trabalhar debaixo
da terra: o ambiente estava sempre mal iluminado e o p de carvo o fazia tossir.
Na superfcie, chovia o tempo inteiro. Ele nunca tinha visto tanta chuva. No
eram tempestades nem pancadas repentinas seguidas pelo alvio de um cu claro
e de um tempo seco. Pelo contrrio, era uma garoa que caa o dia todo, s vezes
a semana toda, subindo pelas pernas de sua cala e descendo pelas costas de sua
camisa.
   A greve havia comeado a perder fora em agosto, depois de a guerra estourar,
e os mineradores aos poucos tinham voltado ao trabalho. A maioria tornara a ser
contratada e recebera de volta suas antigas casas. As excees eram os homens considerados agitadores pela administrao da mina, sendo que a maior parte destes
tinha ido se juntar aos Fuzileiros Galeses na frente de batalha. As vivas despejadas tinham encontrado lugares para morar. Os fura-greves j no eram mais marginalizados: com o tempo, os moradores da cidade haviam passado a entender que
os estrangeiros tambm tinham sido manipulados pelo sistema capitalista.
   Mas no era para isso que Lev havia fugido de So Petersburgo. A Gr-Bretanha,
 claro, era melhor do que a Rssia: os trabalhadores podiam se organizar em
sindicatos, a polcia no estava totalmente fora de controle e at mesmo os judeus
eram livres. Mesmo assim, ele no iria se contentar com uma vida de trabalho
extenuante em uma cidade mineradora no fim do mundo. No era com isso que
ele e Grigori haviam sonhado. Aquilo ali no era a Amrica.
   Mesmo que porventura estivesse tentado a continuar ali, teria que seguir em
frente: devia isso a Grigori. Sabia ter agido mal com o irmo, mas havia jurado
   
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mandar-lhe o dinheiro da passagem. Lev tinha quebrado vrias promessas durante sua curta vida, mas aquela ele pretendia cumprir.
   J havia juntado quase o valor inteiro para uma passagem de Cardiff at Nova York. O dinheiro estava escondido sob uma lajota do piso da cozinha de sua casa em Wellington Row, junto com sua arma e o passaporte do irmo. Obviamente, essas economias no vinham de seu salrio semanal - que mal bastava para custear sua cerveja e seu tabaco -, mas sim das suas partidas de cartas semanais.
   Spirya no era mais seu colaborador. O rapaz tinha ido embora de Aberowen em poucos dias e voltara a Cardiff para procurar um trabalho mais fcil. Contudo, homens gananciosos nunca eram raros de se encontrar, e Lev ficara amigo de um subgerente da mina chamado Rhys Price. Lev garantia as vitrias constantes de Rhys no carteado e, em seguida, os dois dividiam os lucros. Era importante no exagerar na dose: vez por outra, outras pessoas tinham de ganhar. Se os mineradores descobrissem o que estava acontecendo, eles no s dariam um basta no grupo de carteado, mas provavelmente tambm matariam Lev. Assim, suas economias cresciam devagar, de modo que ele no podia se dar ao luxo de recusar uma boca-livre.
   O padre era sempre recebido na estao pelo carro do conde. Em seguida, era conduzido at Ty Gwyn, onde lhe ofereciam xerez e bolo. Caso a princesa Bea estivesse em casa, ela o acompanhava at a biblioteca e entrava na sala de leitura alguns segundos antes dele - o que a livrava de ter que esperar na companhia de pessoas comuns.
   Naquele dia, o relgio de parede da sala de leitura marcava pouco mais de 11 horas quando ela entrou, usando um casaco de pele branco e um chapu para se proteger do frio de fevereiro. Lev se esforou para conter um arrepio: no conseguia olhar para ela sem reviver o terror absoluto de um menino de 6 anos diante do enforcamento do pai.
   O padre entrou em seguida, trajando vestes de cor creme com um cinturo dourado. Pela primeira vez, vinha acompanhado de outro homem vestido como um novio - e Lev ficou chocado e horrorizado ao reconhecer seu antigo comparsa, Spirya.
   A mente de Lev rodopiava enquanto os dois clrigos preparavam os cinco pes e punham gua no vinho tinto em preparao para a missa. Teria Spirya encontrado Deus e mudado de vida? Ou seria aquela roupa sacerdotal apenas mais um disfarce para roubar e enganar os outros?
   O padre mais velho entoou a bno. Alguns dos homens mais religiosos tinham formado um coral - iniciativa aprovada com entusiasmo por seus vizinhos
   
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galeses - e ento cantaram o primeiro Amm. Lev imitou os demais quando eles fizeram o sinal da cruz, mas o tempo todo pensava com nervosismo em Spirya. Seria tpico de um padre contar a verdade e botar tudo a perder: os jogos de cartas, a passagem para os Estados Unidos, o dinheiro para Grigori.
   Lev recordou o ltimo dia a bordo do Anjo Gabriel, quando havia ameaado jogar Spirya da borda do navio apenas por ele ter aventado a possibilidade de tra-lo. Spirya poderia muito bem se lembrar disso naquele instante. Lev desejou no ter humilhado o outro homem.
   Ficou observando Spirya durante a missa, buscando interpretar seu rosto. Quando foi at a frente do grupo para receber a comunho, tentou cruzar olhares com o antigo amigo, mas ele no parecia sequer reconhec-lo: Spirya estava, ou fingia estar, totalmente concentrado no culto.
   Depois da missa, os dois clrigos foram embora no mesmo carro que a princesa, seguidos a p pelos cerca de 30 cristos russos. Lev se perguntou se Spirya iria falar com ele em Ty Gwyn, e ficou preocupado com o que o outro poderia dizer. Ser que fingiria que o golpe armado pelos dois nunca tinha acontecido? Ou ser que daria com a lngua nos dentes, fazendo a ira dos mineradores se abater sobre Lev? Ou, em vez disso, cobraria ele um preo pelo seu silncio?
   Lev sentiu-se tentado a deixar a cidade no mesmo instante. Havia trens para Cardiff a cada hora, ou de duas em duas horas. Se ele tivesse mais dinheiro, poderia ter ido embora. Mas, como no tinha o suficiente para comprar a passagem, continuou a subir a colina, afastando-se da cidade em direo ao palcio do conde para a refeio do meio-dia.
   Eles foram servidos na ala dos criados, no subsolo da casa. A comida foi farta: carneiro ensopado com po  vontade e cerveja para acompanhar. Nina, a criada russa da princesa, se juntou a eles para servir de intrprete. Ela tinha uma queda por Lev, ento garantiu que ele recebesse mais cerveja que os outros.
   O padre almoou com a princesa, mas Spirya desceu at a ala dos criados e sentou-se ao lado de Lev. Este abriu seu sorriso mais acolhedor.
   -		Ora, meu velho amigo, mas que surpresa! - falou em russo. - Meus parabns!
   Spirya no se deixou seduzir.
   -		Voc continua jogando cartas, meu filho? - foi sua resposta.
   Lev manteve o sorriso, mas abaixou a voz:
   -		Eu fico de bico calado em relao a isso, se voc tambm ficar. Acha justo?
   -		Conversamos depois do almoo.
   Lev ficou frustrado. Que caminho escolheria Spirya: o da virtude ou o da chantagem?
   
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Quando a refeio terminou, Spirya saiu pela porta dos fundos e Lev foi atrs dele. Sem dizer nada, Spirya o conduziu at uma rotunda branca que parecia um templo grego em miniatura. Como esta ficava um pouco elevada, eles podiam ver qualquer um que se aproximasse. Estava chovendo e a gua escorria pelas colunas de mrmore. Lev sacudiu a boina para sec-la e depois a ps de volta.
-		Voc se lembra de quando lhe perguntei, no navio, o que voc faria se eu me recusasse a lhe dar metade do dinheiro? - perguntou Spirya.
Lev havia empurrado metade do corpo dele por cima da balaustrada, ameaando quebrar seu pescoo e atir-lo no mar.
-		No, no me lembro - mentiu.
-		Pouco importa - disse Spirya. - Eu queria apenas perdoar voc.
A virtude, ento, pensou Lev com alvio.
-		O que ns fizemos foi pecaminoso - disse Spirya. - Eu me confessei e fui absolvido.
-		Ento no vou chamar seu padre para jogar cartas comigo.
-		Pare de brincadeira.
Lev sentiu vontade de agarrar Spirya pelo pescoo, como havia feito no navio, mas o outro homem no parecia mais disposto a se deixar intimidar. Por ironia, o hbito tinha lhe dado colhes.
-		Eu deveria revelar seu crime para aqueles que voc roubou - prosseguiu Spirya.
-		Eles no vo ficar agradecidos. Podem se vingar no s de mim, mas de voc tambm.
-		Minhas vestes sacerdotais vo me proteger.
Lev fez que no com a cabea.
-		Quase todas as pessoas que voc e eu roubamos eram judeus pobres. Provavelmente tm lembranas de padres assistindo sorridentes enquanto eles levavam surras dos cossacos. Talvez, ao verem seu hbito, eles se mostrem ainda mais dispostos a chutar voc at a morte.
Uma sombra de raiva atravessou o rosto jovem de Spirya, mas ele se forou a dar um sorriso bondoso.
-		Estou mais preocupado com voc, meu filho. No gostaria de provocar nenhuma violncia contra voc.
Lev sabia quando estava sendo ameaado.
-		A questo : o que voc vai fazer?
-		Se eu parar, voc fica de bico calado?

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  -		Se voc se confessar, se demonstrar arrependimento genuno e parar de pecar, Deus o perdoar... e, nesse caso, no caber a mim puni-lo.
   E voc tambm se safa, pensou Lev.
  -		Est bem, eu aceito - disse. Assim que acabou de falar, percebeu que havia cedido depressa demais.
   As palavras seguintes de Spirya confirmaram que ele no se deixaria enganar com tanta facilidade.
  -		Eu vou ficar de olho - falou ele. - E, se descobrir que voc descumpriu a promessa feita para mim e para Deus, revelarei seu crime para suas vtimas.
  -		E elas me mataro. Bom trabalho, padre.
  -		Ao que me parece, essa  a melhor sada para um dilema moral. E meu superior concorda. Ento,  pegar ou largar.
  -		Eu no tenho escolha.
  -		Deus o abenoe, meu filho - disse Spirya.
   Lev se afastou.
   Deixou o terreno de Ty Gwyn e caminhou debaixo da chuva at Aberowen, bufando de raiva. Era tpico de um padre - pensou com rancor - tirar de um homem a oportunidade de se tornar uma pessoa melhor. Spirya agora estava confortvel, tinha comida, roupas e uma casa para morar, tudo fornecido, para sempre, pela Igreja e pelos fiis miserveis que doavam um dinheiro que no tinham. Pelo resto da vida, tudo o que Spirya precisaria fazer era entoar os cnticos da missa e dar golpes nos coroinhas.
   O que seria de Lev? Se parasse de jogar cartas, levaria uma eternidade para juntar o dinheiro da sua passagem. Estaria fadado a passar anos cuidando dos pneis da mina, quase um quilmetro debaixo da terra. E nunca iria se redimir, pois no poderia mandar para Grigori o dinheiro da passagem dele para os Estados Unidos.
   Ele nunca havia escolhido o caminho mais fcil.
   Tomou a direo do pub Two Crowns. No religioso Pas de Gales, os pubs no eram autorizados a abrir aos domingos, mas em Aberowen as regras no eram levadas muito a srio. Havia apenas um policial na cidade e, como a maioria das pessoas, ele tirava folga aos domingos. Para manter as aparncias, o Two Crowns fechava a porta da frente, mas os clientes assduos entravam pela cozinha e os negcios prosseguiam normalmente.
   Os irmos Ponti, Joey e Johnny, estavam no balco. Ambos bebiam usque, o que no era comum. Mineradores em geral bebiam cerveja. Usque era para os ricos - e no Two Crowns uma garrafa provavelmente durava o ano inteiro.
   
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Lev pediu uma jarra de cerveja e se dirigiu ao irmo mais velho.
-		Ol, Joey.
-		Ol, Grigori. - Lev continuava usando o nome do irmo, que constava do passaporte.
-		Est a fim de esbanjar hoje, Joey?
-		Isso mesmo. Eu e o moleque fomos a Cardiff ontem assistir a uma luta de boxe.
Os prprios irmos pareciam lutadores de boxe, pensou Lev: ombros largos,
pescoos grossos, mos imensas.
-		E se deram bem? - perguntou Lev.
-		Darkie Jenkins contra Roman Tony. Apostamos em Tony, porque ele  italiano como a gente. A aposta pagava 13 para um e ele derrubou Jenkins no terceiro assalto.
Lev s vezes tinha dificuldades com a lngua recm-aprendida, mas conhecia o significado de " 13 para um".
-		Vocs deveriam vir jogar cartas - falou. - Esto... - Depois de hesitar um pouco, lembrou-se da expresso. - Esto numa mar de sorte.
-		Ah, eu no quero perder o dinheiro to rpido quanto ganhei - disse Joey.
No entanto, quando o grupo de carteado se reuniu no galpo meia hora mais
tarde, Joey e Johnny apareceram. Os demais jogadores eram uma mistura de russos e galeses.
Eles jogavam uma verso local do pquer chamada pquer de trs. Depois das trs primeiras cartas, nenhuma outra era dada ou trocada, de modo que o jogo andava rpido. Se um dos jogadores aumentasse a aposta, o prximo tinha que cobri-la imediatamente - no poderia permanecer no jogo apostando o mesmo que antes. Assim, o pote aumentava depressa. As apostas continuavam at restarem apenas dois jogadores e, quando isso acontecia, qualquer um deles poderia encerrar a rodada dobrando a aposta anterior, o que forava o oponente a mostrar suas cartas. A melhor mo era a que tivesse trs cartas iguais, chamada de prial, ou trinca, sendo que a mais alta de todas era a trinca de trs.
Lev tinha um instinto natural para probabilidades e, na maioria das vezes, acabaria ganhado mesmo sem trapacear - mas isso era lento demais.
A cada mo, quem dava as cartas era o jogador  esquerda do que as havia distribudo na anterior - assim, no era sempre que Lev podia manipular o jogo. Mas havia mil maneiras de trapacear, e ele inventara um cdigo simples que permitia a Rhys avisar quando tirava uma boa mo. Lev ento continuava na mesa, fossem quais fossem as cartas que tivesse, para forar a aposta a subir e aumentar o pote. Quase sempre, todos os demais abandonavam a partida, ao que Lev perdia para Rhys.

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    medida que a primeira mo de cartas era distribuda, Lev decidiu que aquela seria sua ltima partida. Se limpasse os irmos Ponti, provavelmente conseguiria comprar sua passagem. No domingo seguinte, Spirya procuraria saber se Lev ainda organizava um grupo de carteado. A essa altura, Lev j queria estar no mar.
   Ao longo das duas horas seguintes, Lev viu os ganhos de Rhys aumentarem e disse a si mesmo que cada centavo o deixava mais perto dos Estados Unidos. Em geral, no gostava de limpar ningum, pois os queria de volta na semana seguinte. Mas aquele era o dia de tentar a sorte grande.
   Quando a tarde comeava a escurecer l fora, chegou a sua vez de dar as cartas. Ele distribuiu trs ases para Joey Ponti e uma trinca de trs para Rhys. Naquele jogo, os trs valiam mais do que os ases. Ficou com um par de reis, para justificar suas apostas altas. Continuou apostando at quase limpar Joey - no queria ter que aceitar nenhuma promessa de dvida. Joey usou o ltimo dinheiro que tinha para ver a mo de Rhys. A expresso em seu rosto quando este lhe mostrou um trinca de trs foi ao mesmo tempo cmica e deplorvel.
   Rhys recolheu o dinheiro. Lev se levantou e disse:
  -		Estou liso. - O jogo acabou, e todos voltaram para o balco, onde Rhys pagou uma rodada de bebidas para consolar os perdedores. Os irmos Ponti retornaram para a cerveja, ao que Joey disse:
  -		Bem,  aquela histria: o que vem fcil vai fcil, no  mesmo?
   Alguns minutos depois, Lev tornou a sair do pub e Rhys fez o mesmo. No havia banheiro no Two Crowns, ento os homens usavam o beco atrs do galpo. A nica luz vinha de um poste de rua distante. Rhys entregou rapidamente a Lev a sua metade dos lucros, parte em moedas e parte nas notas coloridas recm-lanadas: a verde, de uma libra, e a marrom, de dez xelins.
   Lev sabia exatamente quanto deveria receber. A aritmtica era algo to natural para ele quanto calcular as probabilidades no carteado. Contaria o dinheiro depois, mas tinha certeza de que Rhys no iria engan-lo. Ele j havia tentado uma vez. Lev percebera que faltavam cinco xelins na sua parte do dinheiro - quantia que um homem descuidado talvez nem tivesse notado. Tinha ido at a casa de Rhys, enfiado o cano do revlver dentro de sua boca e armado o co. Rhys borrara as calas de tanto medo. Depois disso, o dinheiro sempre vinha exato, at o ltimo centavo.
   Lev guardou o dinheiro no bolso do casaco e os dois voltaram para o bar.
   Quando entraram, Lev viu Spirya.
   Seu antigo comparsa havia tirado o hbito e vestido o mesmo sobretudo que usara no navio. Estava em p diante do balco, mas no bebia - em vez disso,
   
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conversava animadamente com um pequeno grupo de russos, incluindo alguns do grupo de carteado.
Seu olhar encontrou o de Lev por um instante.
Lev deu meia-volta e saiu do pub, mas sabia que era tarde demais.
Afastou-se depressa, subindo a colina em direo a Wellington Row. No tinha dvidas de que Spirya iria tra-lo. Talvez estivesse explicando naquele exato momento como Lev fazia para trapacear nas cartas e, mesmo assim, dar a impresso de estar perdendo. Os homens ficariam furiosos - e os irmos Ponti exigiriam seu dinheiro de volta.
Quando ele estava chegando perto de casa, notou um homem vindo na direo oposta, carregando uma mala, e  luz do poste reconheceu um jovem vizinho cujo apelido era Billy com Jesus.
-		Ol, Billy - cumprimentou.
-		Ol, Grigori.
O rapaz parecia estar saindo da cidade, o que despertou a curiosidade de Lev.
-		Vai viajar?
-		Estou indo para Londres.
Lev ficou ainda mais interessado.
-		Em que trem?
-		No das seis horas para Cardiff. - Os passageiros com destino a Londres precisavam trocar de trem em Cardiff.
-		Que horas so agora?
-		Vinte para as seis.
-		At logo, ento. - Lev entrou em casa. Decidiu pegar o mesmo trem que Billy.
Lev acendeu a luz eltrica da cozinha e ergueu a lajota do piso. Recolheu suas
economias, o passaporte com o nome e a fotografia do irmo, uma caixa de balas e sua arma, um revlver Nagant Ml895 que ganhara nas cartas de um capito do Exrcito. Verificou o tambor para se certificar de que havia uma bala nova em cada cmara: as usadas no eram ejetadas automaticamente, precisando ser retiradas manualmente a cada recarga. Enfiou o dinheiro, o passaporte e a arma nos bolsos do sobretudo.
No andar de cima, apanhou a mala de papelo de Grigori furada a bala. Dentro dela, guardou a munio, sua outra camisa, sua roupa de baixo sobressalente e dois baralhos.
No tinha relgio, mas calculou terem se passado cinco minutos desde o encontro com Billy. Isso lhe dava 15 minutos para andar at a estao - tempo suficiente.

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   Foi ento que ouviu as vozes de vrios homens vindas da rua.
   Ele no queria confronto. Era duro, mas os mineradores tambm. Mesmo que ganhasse a briga, perderia o trem. Poderia usar a arma,  claro, mas, naquele pas, a polcia se empenhava em capturar assassinos, mesmo quando as vtimas eram zs-ningum. No mnimo, iriam verificar os passageiros no cais do porto, o que tornaria difcil para ele comprar uma passagem. Sob todos os aspectos, seria melhor se conseguisse deixar a cidade sem violncia.
   Saiu de casa pela porta dos fundos e atravessou a rua de trs s pressas, fazendo o mnimo de barulho possvel com suas botas pesadas. O cho sob seus ps estava enlameado, como de hbito no Pas de Gales, ento felizmente seus passos no fizeram muito barulho.
   No final da rua, dobrou em um beco e, descendo-o, emergiu sob as luzes da via principal. Os toaletes localizados no meio da rua o protegiam dos olhares de qualquer um que estivesse em frente  sua casa. Ele se afastou depressa.
   Duas ruas mais adiante, percebeu que aquele caminho o faria passar pelo Two Crowns. Parou para pensar por alguns instantes. Conhecia a planta da cidade: sua nica alternativa o obrigaria a dar meia-volta. Mas talvez os homens cujas vozes ele havia escutado ainda estivessem perto da sua casa.
   Ele tinha que arriscar o Two Crowns. Virou em outro beco e pegou a ruela que passava atrs do pub.
   Ao se aproximar do galpo em que havia jogado cartas, ouviu vozes e viu dois homens, talvez mais, delineados pela luz fraca do poste no fim da rua. Seu tempo estava se esgotando, mas mesmo assim ele parou e os esperou tornarem a entrar. Ficou em p junto a uma cerca de madeira alta, para se tornar menos visvel.
   Os homens pareceram demorar uma eternidade.
  -		Vamos logo - sussurrou ele. - Vocs no querem voltar para o quentinho? - A chuva pingava de sua boina e escorria por sua nuca.
   Finalmente eles entraram, e Lev emergiu das sombras, seguindo em frente s pressas. Passou pelo galpo sem incidentes, mas, quando estava se afastando, ouviu outras vozes. Soltou um palavro. Os clientes estavam tomando cerveja desde o meio-dia, de modo que, quela hora da tarde, precisavam visitar com frequncia a rua de trs. Ele ouviu algum cham-lo.
  -		Ei, amigo. -O fato de o estarem chamando assim significava que ele no fora reconhecido.
   Ele fingiu no escutar e continuou andando.
   Pde ouvir uma conversa sussurrada. A maioria das palavras era ininteligvel, mas ele pensou ter escutado um dos homens dizer: "Parece um russo." As roupas
   
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russas eram diferentes das britnicas, e Lev imaginou que eles talvez conseguissem distinguir o corte do seu sobretudo ou o formato de sua boina  luz do poste de rua, do qual ele se aproximava depressa. Mas, quando um homem saa de um pub para fazer suas necessidades, geralmente no podia esperar, ento Lev achou que eles no iriam segui-lo antes de terem aliviado a bexiga.
Dobrou no beco seguinte e sumiu de vista. Infelizmente, duvidava que aqueles homens o tivessem esquecido. quela altura, Spirya provavelmente j havia contado sua histria - e algum logo entenderia o significado de um sujeito com roupas russas andando em direo ao centro da cidade, de mala na mo.
Ele precisava embarcar naquele trem.
Comeou a correr.
A estrada de ferro passava bem no fundo do vale, e, para chegar  estao, era preciso descer toda a encosta. Lev corria com facilidade, dando passos largos. Por cima dos telhados, conseguia ver as luzes da estao e, quando chegou mais perto, a fumaa de um trem parado na plataforma.
Atravessou correndo a praa e entrou no saguo da bilheteria. Os ponteiros do grande relgio marcavam um minuto para as seis. Ele foi depressa at o guich e fisgou o dinheiro do bolso.
-		Uma passagem, por favor - pediu.
-		Para onde o senhor gostaria de ir esta noite? - indagou o bilheteiro, simptico.
Lev apontou para a plataforma com afobao.
-		Aquele trem ali!
-		Esse trem para em Aberdare, Pontypridd...
-		Cardiff! - Lev ergueu os olhos e viu o ponteiro dos minutos se mover com um clique pelo ltimo intervalo e parar, tremendo de leve, na hora redonda.
-		S ida, ou ida e volta? - perguntou o bilheteiro sem pressa.
-		S ida, rpido!
Lev escutou o apito. Desesperado, examinou as moedas que tinha na mo. Sabia o preo da passagem - j havia ido a Cardiff duas vezes nos ltimos seis meses -, ento depositou o dinheiro sobre o balco.
O trem comeou a andar.
O bilheteiro lhe entregou sua passagem.
Lev a apanhou e virou as costas.
-		No esquea o seu troco! - disse o bilheteiro.
Lev deu os poucos passos que o separavam da barreira.
-		Passagem, por favor - pediu o cobrador, embora tivesse acabado de ver Lev comprar o bilhete.

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Ao olhar para alm da barreira, Lev viu o trem ganhando velocidade.
O cobrador furou sua passagem e perguntou:
-		No vai querer o troco?
A porta do saguo da bilheteria foi escancarada com violncia e os irmos Ponti entraram correndo.
-		A est voc! - gritou Joey, correndo para cima de Lev.
Para surpresa de Joey, Lev deu um passo na sua direo e lhe acertou um soco na cara. Joey parou onde estava. Johnny trombou contra as costas do irmo mais velho e ambos caram de joelhos no cho.
Lev arrancou sua passagem da mo do cobrador e correu para a plataforma. O trem j estava andando bem depressa. Por alguns instantes, ele correu ao seu lado. De repente, uma porta se abriu e Lev viu o rosto amigo de Billy com Jesus.
-		Pule! - gritou o rapaz.
Lev arriscou um salto e conseguiu pr um dos ps no degrau do trem. Billy agarrou seu brao. Os dois oscilaram por alguns instantes, enquanto Lev tentava desesperadamente jogar seu peso para dentro do vago. Por fim, Billy deu um puxo, trazendo Lev a bordo.
Agradecido, o russo se deixou cair em um dos assentos.
Billy fechou a porta e se sentou na sua frente.
-		Obrigado - falou Lev.
-		Foi por pouco - disse Billy.
-		Mas consegui - respondeu Lev com um sorriso. - Isso  tudo o que importa.
Na manh seguinte, na estao de Paddington, Billy pediu informaes sobre como chegar a Aldgate. Um londrino simptico lhe deu uma enxurrada de instrues detalhadas, das quais ele no entendeu patavina. De qualquer forma, agradeceu ao homem e saiu da estao.
   Era sua primeira vez em Londres, mas Billy sabia que Paddington ficava a oeste e que os pobres moravam a leste, ento seguiu em direo ao sol do meio da manh. A cidade era ainda maior do que ele imaginara - muito mais movimentada e confusa do que Cardiff -, mas ele adorou o que viu: o barulho, o trfego veloz, as multides e, sobretudo, as lojas. No sabia que era possvel haver tantas lojas no mundo. Ficou imaginando quanto dinheiro se gastava por dia nas lojas de Londres. Provavelmente milhares de libras... ou talvez milhes.
   
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   Teve uma sensao de liberdade um tanto vertiginosa. Ningum ali o conhecia. Em Aberowen, ou mesmo quando ia a Cardiff de vez em quando, sempre corria o risco de ser visto por amigos ou parentes. Em Londres, poderia passear pelas ruas de mos dadas com uma garota bonita e seus pais jamais ficariam sabendo. No que tivesse a inteno de fazer isso, mas a ideia de que poderia, se quisesse - aliada ao fato de haver tantas garotas bonitas e bem-vestidas por ali -, era inebriante.
   Dali a algum tempo, viu um nibus com "Aldgate" escrito na frente e pulou a bordo. A carta de Ethel havia mencionado Aldgate.
   Ao decodificar a carta da irm, ele ficara muito preocupado. Obviamente, no podia conversar a respeito dela com os pais. Tinha esperado os dois sarem para a missa da noite na Capela de Bethesda - que ele prprio j no frequentava - para ento escrever um recado:
   Querida Mam,
   Estou preocupado com a nossa Eth e fui atrs dela. Desculpe sair assim de fininho, mas no quero briga.
   Seu filho que a ama,
   Billy.
   Como era domingo, ele j estava de banho tomado, barbeado e vestido com as melhores roupas que tinha. Seu terno, que havia herdado do pai, estava surrado, mas ele usava uma camisa branca limpa e uma gravata preta de tric. Em Cardiff, tinha cochilado na sala de espera da estao e pegara o trem leiteiro na madrugada de segunda-feira.
   O condutor do nibus o avisou quando chegaram a Aldgate e ele saltou. O bairro era pobre, com casebres decadentes, barracas vendendo roupas de segunda mo na rua e crianas descalas brincando em escadarias imundas. Ele no sabia onde Ethel morava - sua carta no tinha endereo de remetente. Sua nica dica era: "Sou explorada 12 horas por dia na fbrica de Mannie Litov."
   Ele estava louco para dar notcias de Aberowen a Eth. A irm j deveria ter ficado sabendo pelos jornais do fracasso da greve das vivas. Billy fervia de raiva ao pensar nisso. Os patres podiam agir da forma mais imoral porque tinham tudo em suas mos. Eram donos da mina, das casas e se comportavam como se fossem donos das pessoas tambm. Por conta de uma srie de regras eleitorais complexas, a maioria dos mineradores no tinha direito de voto; assim, o membro do Parlamento que representava Aberowen era um conservador que invariavelmente tomava o partido da empresa. Segundo o pai de Tommy Griffiths, nade
   
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jamais mudaria sem uma revoluo como a que ocorrera na Frana. J o pai de
Billy dizia que eles precisavam de um governo trabalhista. Billy no sabia qual
dos dois tinha razo.
Abordou um rapaz de aspecto solcito e perguntou:
-		O senhor sabe como se chega  fbrica de Mannie Litov?
O homem respondeu em uma lngua que parecia russo.
Billy tentou novamente e, desta vez, conseguiu algum que falava ingls, mas
que no conhecia nenhum Mannie Litov. Aldgate no era como Aberowen, onde
qualquer pessoa na rua sabia o caminho de todos os estabelecimentos comerciais
da cidade. Teria ele vindo de to longe - e gastado todo aquele dinheiro com a
passagem - em vo?
Mas ainda no estava disposto a entregar os pontos. Examinou a rua movimentada em busca de pessoas com aparncia britnica e que parecessem estar
trabalhando de alguma forma - carregando ferramentas ou empurrando carrinhos de mo. Abordou outras cinco sem sucesso, at topar com um limpador de
janelas que carregava uma escada.
-		Mannie Litov? - repetiu o homem. Ele fez a proeza de dizer "Litov" sem pronunciar o "t", emitindo em vez disso um som gutural que mais parecia um pequeno tossido. - Fbic di rupas? - Seu sotaque era fortssimo.
-		Desculpe - disse Billy com educao. - Pode repetir?
-		Fbic di rupas... Lugar qui se faz rupas... casacu, cala, coisas - falou o
homem, ainda com aquele sotaque incompreensvel.
-		Hum... , deve ser - disse Billy, j perdendo as esperanas.
O limpador de janelas aquiesceu.
-		Reto, 400 metros, direita, Ark Rav Rahd.
-		Seguir reto? - repetiu Billy. - Uns 400 metros?
-		Esso, dipois direita.
-		 direita?
-		Ark Rav Rahd.
-		Ark Rav Road?
-		No erro.
O nome da rua acabou se revelando Oak Grove Road. Embora Oak Grove significasse bosque dos carvalhos, no havia bosque nenhum ali - e muito menos
carvalhos. Era uma rua estreita, sinuosa, cheia de prdios de tijolo em mau estado e de pessoas, cavalos e carrinhos de mo. Depois de pedir informao mais
duas vezes, Billy chegou at uma casa espremida entre o pub Dog and Duck e
uma loja interditada chamada Lippmanns. A porta da frente estava aberta. Billy

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subiu a escada at o ltimo andar e se viu em uma sala onde cerca de 20 mulheres costuravam uniformes do Exrcito britnico.
As mulheres continuaram a trabalhar, operando seus pedais, parecendo no reparar nele, at que por fim uma delas falou:
-		Entre, querido, ns no vamos comer voc... se bem que, pensando bem, talvez eu queira uma provinha. - Todas caram na gargalhada.
-		Estou procurando por Ethel Williams - disse ele.
-		Ela no veio - falou a mulher.
-		Por que no? - perguntou ele, aflito. - Ela est doente?
-		O que voc tem com isso? - A mulher se levantou de sua mquina. - Eu sou Mildred... e voc, quem ?
Billy a encarou. Ela era bonita, embora dentua. Usava um batom vermelho vivo e cachos louros despontavam de sua touca. Vestia um sobretudo cinza, grosso e disforme, mas, apesar disso, ele pde notar o gingado de seus quadris quando ela veio em sua direo. Estava impressionado demais com aquela mulher para responder.
-		Voc no  o patife que embuchou Ethel e depois picou a mula, ?
Ele encontrou a prpria voz:
-		Sou o irmo dela.
-		Ah! - exclamou a mulher. - Puta merda, voc  o Billy?
Billy ficou de queixo cado. Nunca tinha escutado uma mulher falar daquele jeito.
Ela o examinou com olhar destemido.
-		Est na cara que voc  irmo dela, s que parece ter mais de 16 anos. - Ela abrandou o tom de voz de um jeito que o fez sentir um forte calor por dentro. - Voc tem os mesmos olhos escuros e os mesmos cabelos encaracolados que sua irm.
-		Onde posso encontr-la? - perguntou ele.
Ela o fitou com um olhar desafiador.
-		Eu sei que ela no quer que a famlia descubra onde est morando.
-		 por medo do meu pai - disse Billy. - Mas ela me escreveu uma carta. Fiquei preocupado, ento vim at aqui de trem.
-		Desde aquele buraco l em Gales onde ela nasceu?
-		L no  um buraco - retrucou Billy, indignado. Ento deu de ombros e concordou: - Bom, na verdade, acho que , sim.
-		Adorei seu sotaque - disse Mildred. - Para mim,  como se voc estivesse cantando.

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-		Voc sabe onde ela mora?
-		Como foi que voc chegou at aqui?
-		Ela disse que trabalhava na fbrica de Mannie Litov, em Aldgate.
-		Ora, mas voc  um belo de um Sherlock Holmes, hein? - comentou ela, no sem um qu de admirao relutante.
-		Se voc no me disser onde ela est, alguma outra pessoa vai dizer - falou ele, com mais segurana do que de fato sentia. - Eu no volto para casa sem v-la.
-		Ela vai me matar, mas tudo bem - respondeu Mildred. - Nutley Street, 23.
Billy perguntou como chegar l, pedindo que ela falasse devagar.
-		No precisa me agradecer - disse Mildred quando ele se despediu. - S me proteja se Ethel tentar me matar.
-		Combinado - respondeu Billy, pensando em como seria emocionante proteg-la de alguma coisa.
As outras mulheres gritaram despedidas e jogaram beijos quando ele saiu, deixando-o encabulado.
A Nutley Street era um osis de calmaria. As casas geminadas haviam sido construdas em um arranjo que, depois de apenas um dia em Londres, Billy j considerava familiar. Eram bem maiores do que as casas dos mineradores, com pequenos quintais na frente em vez de uma porta que se abria para a rua. O efeito de ordem e simetria era criado por janelas de guilhotina idnticas, cada qual com 12 vidraas, dispostas em fila por toda a fachada.
Ele bateu  porta do nmero 23, mas ningum atendeu.
Estava preocupado. Por que ela no fora trabalhar? Ser que estava doente? Se no fosse o caso, por que no estava em casa?
Billy espiou pela fresta da caixa de correio e viu um hall com piso de tbuas enceradas e uma chapeleira da qual pendia um velho sobretudo marrom que ele reconheceu. O dia estava frio. Ethel no teria sado sem o agasalho.
Ele chegou mais perto da janela e tentou olhar l para dentro, mas no conseguiu ver atravs da cortina rendada.
Voltou  porta e tornou a olhar pela fresta. A cena l dentro continuava a mesma, mas, desta vez, ele ouviu um barulho. Foi um gemido longo e angustiado. Ele aproximou a boca da fresta e gritou:
-		Eth!  voc? Sou eu aqui fora, Billy.
Houve um longo silncio, e ento o gemido se repetiu.
-		Ai, cacete - praguejou ele.
A porta tinha uma fechadura de tambor. Isso significava que o trinco estava provavelmente preso ao batente por dois parafusos. Bateu na porta com a base da

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mo. No lhe pareceu especialmente slida - e ele imaginou que a madeira fosse um pinho vagabundo, j bem antigo. Ento, inclinou-se para trs, levantou a perna direita e deu um chute na porta com o calcanhar da pesada bota de minerador. Pelo barulho, a madeira pareceu estar se despedaando. Ele deu vrios outros chutes, mas a porta no abriu.
Quem dera tivesse um martelo.
Olhou para ambos os lados da rua, torcendo para ver algum operrio com ferramentas, mas no havia ningum ali, exceto dois meninos de rosto encardido que o observavam com interesse.
Ele percorreu o curto caminho do jardim at o porto, deu meia-volta e correu em direo  porta, atingindo-a com o ombro direito. Ela se escancarou e ele caiu dentro da casa.
Billy se levantou, esfregando o ombro dolorido, e tirou a porta arrombada do caminho. A casa parecia silenciosa.
-		Eth? - chamou ele. - Cad voc?
Ento ouviu outro gemido e seguiu o barulho at o quarto da frente, no trreo. Era um quarto de mulher, com bibels de porcelana sobre o consolo da lareira e cortinas floridas na janela. Ethel estava na cama, usando um vestido cinzento que a cobria feito uma barraca. No estava deitada, mas sim apoiada sobre os joelhos e as mos, gemendo.
-		O que h com voc, Eth? - perguntou Billy, sua voz um ganido aterrorizado.
Ela recuperou o flego.
-		O beb vai nascer.
-		Ah, droga!  melhor eu chamar um mdico.
-		No d mais tempo, Billy. Meu Deus, como di.
-		Parece que voc est morrendo!
-		No, Billy, parir uma criana  assim mesmo. Venha aqui e me d a mo.
Billy se ajoelhou ao lado da cama e Ethel segurou sua mo. Ela apertou com
mais fora e grunhiu. O som foi mais longo e angustiado do que antes, e ela apertou a mo de Billy com tanta fora que ele pensou que fosse quebrar algum osso. O gemido terminou com um grito agudo, e ela ento comeou a ofegar como se tivesse corrido uns dois quilmetros.
Dali a um minuto, falou:
-		Sinto muito, Billy, mas voc vai ter que olhar por baixo da minha saia.
-		Ah! - disse ele. - Est bem. - No entendeu muito bem, mas achou melhor obedecer assim mesmo. Ergueu a barra do vestido de Ethel. - Oh, meu Deus! - exclamou. O lenol debaixo dela estava ensopado de sangue. E ali, bem no meio,

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havia uma coisinha cor-de-rosa coberta de muco. Ele distinguiu uma cabeorra
redonda com olhos fechados, dois braos minsculos e duas pernas. -  um
beb! - falou.
-		Pegue-o, Billy - disse Ethel.
-		Eu? - falou ele. - Ah, claro, est bem. - Ele se inclinou sobre a cama. Ps
uma das mos debaixo da cabea do beb e a outra debaixo do seu bumbum. Viu
que era um menino. O beb estava escorregadio e pegajoso, mas Billy conseguiu
apanh-lo. Um cordo ainda o prendia a Ethel.
-		Pegou? - perguntou ela.
		- Peguei, sim. respondeu ele. -  um menino.
-		Ele est respirando?
-		No sei. Como  que se v isso? - Billy tentou conter o pnico. - No, ele no
est respirando. Acho que no.
-		D um tapa no bumbum dele, sem muita fora.
Billy virou o beb, segurando-o facilmente com uma s mo, e deu-lhe um
belo tapa no traseiro. A criana abriu a boca na mesma hora, sorveu o ar e deu
um grito de protesto. Billy ficou encantado.
-		Oua s isso! - disse ele.
-		Segure-o um instantinho enquanto eu me viro. - Ethel se sentou na cama e
ajeitou o vestido. - Me d ele aqui.
Billy entregou-lhe o beb com cuidado. Ethel segurou-o na dobra do brao e
limpou seu rostinho com a manga do vestido.
-		Ele  lindo - disse ela.
Billy tinha l suas dvidas.
O cordo preso ao umbigo do beb, antes azul e retesado, agora estava esbranquiado e murcho. Ethel falou:
-		Abra aquela gaveta ali e me d a tesoura e um rolo de barbante de algodo.
Ethel amarrou dois ns no cordo, cortando-o em seguida entre eles.
-		Pronto - falou. Ento desabotoou a frente do vestido. - No acho que voc
v ficar encabulado, depois do que j viu - disse ela, puxando um dos seios para
fora e levando o mamilo  boca do beb, que comeou a mamar.
Ethel tinha razo: Billy no ficou encabulado. Uma hora antes, teria morrido
de vergonha se visse o peito nu da irm, mas, quela altura, seria tolice. Tudo o
que sentia era um enorme alvio pelo fato de o beb estar bem. Ficou encarando
a cena, vendo-o mamar, maravilhado com seus dedos minsculos. Tinha a sensao de ter testemunhado um milagre. Seu rosto estava molhado de lgrimas e
ele se perguntou quando havia chorado antes: no conseguia se lembrar.

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O beb logo adormeceu. Ethel abotoou o vestido.
-		Daqui a pouco ns damos banho nele - disse ela. Ento fechou os olhos. -
Meu Deus - falou. - No imaginei que fosse doer tanto.
-		Quem  o pai, Eth? - perguntou Billy.
-		O conde Fitzherbert - respondeu ela, abrindo os olhos logo em seguida. -
Ah, droga, no era para eu ter contado isso a voc.
-		Mas que desgraado! - disse Billy. - Vou matar aquele sujeito!
 
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CAPTULO QUINZE
De junho a setembro de 1915

A  medida que o navio adentrava o porto de Nova York, ocorreu a Lev
Peshkov que os Estados Unidos talvez no fossem to maravilhosos quanto seu irmo Grigori tinha dito. Ele se preparou para uma terrvel decepo. Mas
no havia necessidade disso. Os Estados Unidos eram tudo o que ele imaginava:
um pas rico, agitado, empolgante e livre.
   Trs meses depois, em uma tarde quente de junho, ele estava trabalhando em
um hotel de Buffalo, nas estrebarias, escovando o cavalo de um dos hspedes. O
dono do hotel era Josef Vyalov, que pusera uma cpula em forma de cebola no
alto da antiga Taberna Central e a rebatizara de Hotel So Petersburgo, talvez por
nostalgia da cidade que havia deixado para trs ainda criana.
   Lev trabalhava para Vyalov, assim como a maioria dos imigrantes russos de
Buffalo, mas nunca o havia encontrado. Caso um dia viesse a faz-lo, no sabia
muito bem o que diria. Na Rssia, a famlia Vyalov havia enganado Lev, abandonando-o em Cardiff, e ele se ressentia disso. Por outro lado, os documentos fornecidos
pelos Vyalov de So Petersburgo tinham permitido que Lev passasse pelo servio de
imigrao dos Estados Unidos sem o menor problema. E bastara mencionar o nome
Vyalov em um bar da Canal Street para conseguir um emprego na mesma hora.
   J fazia um ano que ele falava ingls todos os dias, desde que desembarcara em
Cardiff, e estava ficando fluente. Os americanos diziam que ele tinha sotaque britnico e no conheciam algumas das expresses tpicas do Reino Unido que ele
havia aprendido em Aberowen. Mas Lev era capaz de dizer praticamente tudo o
que precisava - e as garotas ficavam caidinhas quando ele usava my lovely para
dizer que eram lindas.
   Faltando alguns minutos para as seis, pouco antes de terminar o expediente,
seu amigo Nick entrou na estrebaria com um cigarro na boca.
   -  da marca Fatima - informou ele. Tragou a fumaa com uma satisfao exagerada. - Tabaco turco. Excelente.
   O nome completo de Nick era Nicolai Davidovich Fomek, mas ali ele se chamava Nick Forman. De vez em quando, desempenhava o papel que j havia
pertencido a Spirya e a Rhys Price nas partidas de cartas de Lev, embora fosse,
sobretudo, um ladro.
   
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-		Quanto custam? - quis saber Lev.
-		Nas lojas, uma latinha de 100 cigarros sai por 50 centavos. Para voc, fao por 10 centavos. Voc pode vender por 25.
Lev sabia que os cigarros Fatima eram populares. Seria fcil vend-los pela metade do preo. Correu os olhos pelo ptio. O patro no estava por ali.
-		Est bem.
-		Quantos voc vai querer? Tenho um porta-malas cheio.
Lev tinha um dlar no bolso.
-		Vinte latas - respondeu. - Posso pagar um dlar agora e um dlar depois.
-		No vendo fiado.
Lev sorriu e levou a mo ao ombro de Nick.
-		Ora, meu caro, voc pode confiar em mim. Ns somos camaradas ou no somos?
-		Vinte, ento. J volto.
Lev encontrou um saco de rao velho em um canto. Nick voltou com 20 latas verdes compridas, todas com o desenho de uma mulher de vu na tampa. Lev ps as latas no saco e entregou um dlar a Nick.
-		 sempre bom poder ajudar um compatriota - disse Nick antes de ir embora caminhando alegremente.
Lev limpou a rascadeira e o renete que usava para fazer a higiene dos cavalos. s seis e cinco, despediu-se do chefe dos cavalarios e tomou a direo do First Ward, um dos distritos de Buffalo. Sentiu que estava chamando um pouco de ateno, carregando um saco de rao pelas ruas, e perguntou-se o que iria dizer caso algum policial o parasse e pedisse para ver o que havia dentro dele. Mas no estava muito preocupado: era capaz de se safar de praticamente qualquer situao usando a lbia.
Foi at um bar grande e concorrido chamado Irish Rover. Sedento, abriu caminho por entre a multido, pediu um caneco de cerveja e tomou metade de uma golada s. Ento foi se sentar prximo a um grupo de trabalhadores que falavam uma mistura de polons e ingls. Depois de alguns instantes, perguntou:
-		Algum aqui fuma cigarros Fatima?
Um careca de avental de couro respondeu:
-		Sim, eu fumo um Fatima de vez em quando.
-		Quer comprar uma lata por metade do preo? Cem cigarros por 25 centavos.
-		Qual  o problema com os cigarros?
-		Eles se perderam. Algum encontrou.
-		Parece meio arriscado.

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  -		Por que no fazemos assim? Ponha o dinheiro na mesa. Eu s pego quando
voc me autorizar.
  Isso fez os homens se interessarem. O careca levou a mo ao bolso e sacou
uma moeda de 25 centavos. Lev pegou uma lata no saco e a entregou ao homem,
que a abriu. Ele retirou um pequeno retngulo de papel l de dentro e o desdobrou, revelando uma fotografia.
  -		Olhem, tem at uma figurinha de beisebol! - falou. Levou um dos cigarros
 boca e o acendeu. - Est certo - disse a Lev. - Pode pegar os seus 25 centavos.
  Outro homem espiava por cima do ombro de Lev.
  -		Quanto ? - quis saber. Lev respondeu e ele comprou duas latas.
  Dali a meia-hora, Lev tinha vendido todos os cigarros. Ficou satisfeito: havia
transformado dois dlares em cinco em menos de uma hora. No trabalho, precisava de um dia e meio para ganhar trs dlares. Talvez comprasse mais latas roubadas de Nick no dia seguinte.
  Ele pediu outra cerveja, bebeu e saiu do bar, deixando o saco vazio no cho.
Uma vez l fora, tomou o rumo do distrito de Lovejoy, uma regio pobre de
Buffalo onde morava a maioria dos russos, alm de muitos italianos e poloneses.
Poderia comprar um bife no caminho de casa e frit-lo com batatas. Ou poderia
apanhar Marga e lev-la para danar. Ou quem sabe comprar um terno novo.
  Deveria guardar o dinheiro para a passagem de Grigori at os Estados Unidos,
pensou, sabendo, com uma pontada de culpa, que jamais faria isso. Trs dlares
eram uma gota no oceano. Ele precisava mesmo era ganhar uma bolada. Ento
poderia mandar a grana para o irmo de uma s vez, antes de ficar tentado a
gast-la.
  Ele foi despertado de seus devaneios por um tapinha no ombro.
  Seu corao saltou, culpado, dentro do peito. Ele se virou, quase esperando ver
um uniforme da polcia. Mas a pessoa que o havia abordado no era um policial.
Era um sujeito corpulento de macaco, com um nariz quebrado e uma carranca
agressiva. Lev ficou tenso: um homem daqueles s podia ter uma funo.
  -		Quem mandou voc vender cigarros no Irish Rover?
  -		S estou tentando ganhar uns trocados - respondeu Lev com um sorriso. -
Espero no ter ofendido ningum.
  -		Foi Nick Forman? Ouvi dizer que ele roubou um carregamento de cigarros.
  Lev no iria dar essa informao a um desconhecido.
  -		No conheo ningum com esse nome - disse, mantendo um tom de voz
	agradvel.
  -		Voc no sabe que o Irish Rover pertence ao Sr. V?
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Lev sentiu uma onda de raiva. O Sr. V no podia ser outro seno Josef Vyalov. Deixou de lado o tom conciliatrio.
-		Nesse caso, ponham uma placa.
-		Ningum vende nada nos bares do Sr. V a no ser que ele mande.
Lev deu de ombros.
-		No sabia.
-		Ento tome aqui uma coisa para ajudar voc a se lembrar - disse o homem, girando o punho no ar.
Lev estava esperando o golpe e recuou com rapidez. O brao do capanga descreveu um arco no vazio e ele cambaleou, perdendo o equilbrio. Lev deu um passo  frente e chutou-lhe a canela. O punho em geral era uma arma ruim, nem de perto to dura quanto um p calado com bota. Lev desferiu o chute com toda a fora, mas no foi o suficiente para quebrar um osso. O homem soltou um rugido irado e desferiu outro soco, mas tornou a errar.
De nada adiantava bater no rosto de um homem daqueles - ele provavelmente havia perdido toda a sensibilidade ali. Lev deu um bico na sua virilha. O homem levou as duas mos ao sexo e arquejou, sem flego, enquanto dobrava o corpo para a frente. Lev chutou-lhe a barriga. O homem abria e fechava a boca como um peixe dourado, incapaz de respirar. Dando um passo de lado, Lev chutou as pernas do homem para derrub-lo. O capanga caiu de costas no cho. Lev mirou com cuidado e deu-lhe um pontap no joelho, para que no conseguisse andar depressa quando levantasse.
Ento, ofegando de cansao, falou:
-		Diga ao Sr. V que ele deveria ser mais educado.
Ele se afastou, respirando com dificuldade. s suas costas, ouviu algum perguntar:
-		Ei, Ilya, que porra  essa? O que aconteceu?
Duas ruas mais adiante, sua respirao se acalmou e as batidas de seu corao desaceleraram. Josef Vyalov que fosse para o inferno, pensou. O desgraado me enganou e no vou me deixar intimidar.
Vyalov no ficaria sabendo quem dera a surra em Ilya. Ningum no Irish Rover conhecia Lev. Poderia at ficar puto da vida, mas no teria como fazer nada a respeito.
Lev comeou a se sentir eufrico. Levei Ilya  lona, pensou, e sa sem um arranho!
Ainda estava cheio de dinheiro no bolso. Parou para comprar dois bifes e uma garrafa de gim.

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Lev morava em uma rua de casas de tijolo decadentes, subdivididas em pequenos apartamentos. Em frente  casa que ficava ao lado da sua, Marga estava sentada na soleira, lixando as unhas. Era uma russa bonita de uns 19 anos, morena e com um sorriso sensual. Trabalhava como garonete, mas queria fazer carreira como cantora. Lev j havia lhe pagado um ou outro drinque e chegara a beij-la uma vez. Ela retribura o beijo ardorosamente.
-		Oi, garota! - gritou ele.
-		Quem voc est chamando de garota?
-		O que vai fazer hoje  noite?
-		Eu tenho um encontro - respondeu ela.
Lev no necessariamente acreditou nela. Marga jamais admitiria no ter nada para fazer.
-		Dispense o sujeito - falou. - Ele tem mau hlito.
Ela sorriu.
-		Voc nem sabe quem !
-		Venha me visitar. - Ele ergueu o saco de papel. - Vou fazer bifes.
-		Vou pensar no seu caso.
-		Traga gelo. - Ele entrou na casa onde morava.
Seu apartamento era barato pelos padres americanos, mas aos olhos de Lev parecia espaoso e luxuoso. Havia um cmodo que servia de quarto e sala ao mesmo tempo e uma cozinha com gua corrente e luz eltrica - e tudo s para ele! Em So Petersburgo, um apartamento como aquele abrigaria dez pessoas ou mais.
Ele tirou o palet, arregaou as mangas e lavou as mos e o rosto na pia da cozinha. Esperava que Marga aparecesse. Ela era bem o seu tipo de garota, sempre disposta a rir, danar ou cair na farra, sem nunca se preocupar muito com o futuro. Ele descascou e fatiou algumas batatas, ps uma frigideira sobre o fogo eltrico e derreteu nela um pedao de banha. Enquanto as batatas fritavam, Marga chegou trazendo uma jarra de gelo picado. Ela preparou bebidas com gim e acar.
Lev bebericou seu drinque, beijando-a de leve na boca em seguida.
-		Est gostoso! - falou.
-		Seu atrevido - disse ela, mas no foi um protesto srio. Ele comeou a imaginar se conseguiria lev-la para a cama mais tarde.
Ento, ps-se a fritar os bifes.
-		Estou impressionada - disse ela. -  raro um homem saber cozinhar.
-		Meu pai morreu quando eu tinha 6 anos, e minha me quando eu tinha 11 - explicou Lev. - Fui criado pelo meu irmo. Ns aprendemos a fazer tudo sozinhos. Mas  claro que nunca tivemos bife para comer na Rssia.

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   Ela lhe perguntou sobre o irmo e, durante o jantar, ele lhe contou a histria de sua vida. A maioria das moas ficava comovida com a saga de dois meninos sem me lutando para sobreviver, trabalhando em uma imensa fbrica de locomotivas e alugando um pedao de cama para dormir. Sentindo uma pontada de culpa, ele omitiu o fato de ter abandonado a namorada grvida.
   Eles tomaram o segundo drinque no cmodo que servia de quarto e sala. Quando comearam o terceiro, j escurecia do lado de fora e ela estava sentada em seu colo. Entre um gole e outro, Lev a beijava. Quando Marga abriu a boca para que sua lngua entrasse, ele levou a mo ao seu seio.
   Nessa hora, a porta foi escancarada com violncia.
   A moa soltou um grito.
   Trs homens entraram na casa. Marga, ainda aos berros, pulou do colo de Lev. Um dos homens lhe deu um tapa na boca com as costas da mo e disse:
   - Cale a boca, piranha. - Ela correu em direo  porta, segurando os lbios ensanguentados com as duas mos. Os homens a deixaram ir.
   Lev se levantou com um salto e partiu para cima do homem que havia batido em Marga. Conseguiu encaixar um bom soco, acertando-o logo acima do olho. Ento os outros dois agarraram seus braos. Eles eram fortes, de modo que ele no conseguiu se soltar. Enquanto o seguravam, o primeiro homem, que parecia ser o lder, deu-lhe um soco na boca e depois vrios na barriga. Lev cuspiu sangue e vomitou o bife que tinha comido.
   Quando j estava sem foras e sofrendo de dor, eles o carregaram escada abaixo, para fora da casa. Um Hudson azul estava parado no acostamento com o motor ligado. Eles o jogaram no cho diante do banco de trs. Dois dos homens se sentaram com os ps em cima dele, enquanto o outro entrou na frente e saiu dirigindo.
   A dor era tanta que Lev nem sequer conseguia pensar em para onde estavam indo. Imaginou que aqueles homens trabalhassem para Vyalov, mas como foi que o haviam encontrado? E o que iriam fazer com ele? Tentou no se deixar dominar pelo medo.
   Depois de alguns minutos, o carro parou e ele foi arrastado para fora. Estavam em frente a um depsito. A rua estava deserta e s escuras. Ao sentir o cheiro do lago, ele se deu conta de que estavam perto da gua. Pensou com um fatalismo sinistro que aquele era um bom lugar para matar algum. No haveria testemunhas e o corpo poderia ser jogado no lago Erie, amarrado dentro de um saco, com alguns tijolos para garantir que afundasse.
   Eles o arrastaram para dentro do depsito. Ele tentou se recompor. Aquela era
   
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a pior enrascada em que havia se metido na vida. No sabia bem se conseguiria se safar dela na base da conversa. "Por que eu tenho que fazer essas coisas?" perguntou a si mesmo.
O depsito estava cheio de pneus novos, dispostos em pilhas de 15 ou 20. Eles o carregaram pelo meio das pilhas at os fundos e pararam em frente a uma porta vigiada por outro homem corpulento, que ergueu um brao para det-los.
Ningum falou palavra.
Passado um minuto, Lev disse:
-		Parece que vamos ter que esperar um tempinho. Algum tem um baralho?
Ningum ao menos sorriu.
Por fim, a porta se abriu e Nick Forman saiu por ela. Seu lbio superior estava inchado e ele no conseguia abrir um dos olhos. Assim que viu Lev, disse:
-		Eu tive que contar. Seno eles teriam me matado.
Ento foi por intermdio de Nick que eles me encontraram, pensou Lev.
Um homem magro de culos apareceu na porta do escritrio. No  possvel que este seja Vyalov, pensou Lev - era franzino demais.
-		Traga-o para dentro, Theo - disse ele.
-		Certo, Sr. Niall - falou o lder dos capangas.
O escritrio fez Lev pensar no casebre de camponeses em que havia nascido. Fazia calor demais l dentro e o ar estava cheio de fumaa. Em um dos cantos, havia uma mesinha com cones de santos.
Sentado atrs de uma mesa de ao, via-se um homem de meia-idade com os ombros mais largos do que o comum. Ele vestia um terno de passeio que parecia caro, com colarinho e gravata, e a mo que segurava o cigarro exibia dois anis.
-		Que porra de cheiro  esse? - perguntou o homem.
-		Desculpe, Sr. V,  vmito - respondeu Theo. - Ele reagiu e ns tivemos que acalm-lo um pouco, ento ele devolveu a janta.
-		Soltem-no.
Os homens soltaram os braos de Lev, mas continuaram por perto.
O Sr. V o encarou.
-		Eu recebi seu recado - disse ele. - Dizendo que eu deveria ser mais educado.
Lev tomou coragem. No iria morrer choramingando.
-		O senhor  Josef Vyalov? - perguntou.
-		Meu Deus, voc  mesmo atrevido - disse o homem. - Perguntar quem eu sou...
-		Eu estava procurando pelo senhor.
-		Voc estava procurando por mim?

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-		A famlia Vyalov me vendeu uma passagem de So Petersburgo para Nova York e me largou em Cardiff - falou Lev.
-		E da?
-		Quero meu dinheiro de volta.
Vyalov o encarou por um bom tempo e ento riu.
-		 mais forte do que eu - falou. - Gostei de voc.
Lev prendeu a respirao. Isso por acaso significava que Vyalov no iria mat-lo?
-		Voc tem emprego? - perguntou Vyalov.
-		Eu trabalho para o senhor.
-		Onde?
-		No Hotel So Petersburgo, nas estrebarias.
Vyalov aquiesceu.
-		Acho que podemos lhe oferecer algo melhor do que isso - disse ele.
Em junho de 1915, os Estados Unidos deram um passo em direo  guerra.
Gus Dewar ficou chocado. No achava que seu pas devesse entrar naquele conflito europeu. O povo americano concordava com ele, bem como o presidente Woodrow Wilson. No entanto, de alguma forma, o perigo se aproximava.
A crise ocorrera em maio, quando um submarino alemo torpedeou o Lusitania, navio britnico que transportava 173 toneladas de fuzis, munio e explosivos. O transatlntico tambm transportava dois mil passageiros, incluindo 128 cidados norte-americanos.
Os americanos ficaram to chocados quanto se houvesse ocorrido um assassinato. Os jornais entraram em um frenesi de indignao.
-		As pessoas esto pedindo que o senhor faa o impossvel! - disse Gus ao presidente no Salo Oval, ultrajado. - Querem que seja duro com os alemes, mas sem que haja risco de entrar na guerra.
Wilson fez que sim com a cabea. Ergueu os olhos da mquina de escrever e falou:
-		No existe nenhuma regra dizendo que a opinio pblica deve ser coerente.
Gus achava a calma de seu chefe admirvel, mas um pouco frustrante.
-		E como se lida com um absurdo desses?
Wilson sorriu, mostrando os dentes ruins.
-		Gus, quem disse que poltica  uma coisa fcil?
No fim das contas, Wilson mandou um recado duro para o governo alemo,

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exigindo o fim dos ataques s embarcaes. Ele e seus conselheiros, incluindo Gus, estavam torcendo para que os alemes aceitassem algum tipo de acordo. Contudo, caso resolvessem desafiar os Estados Unidos, Gus no via como Wilson poderia impedir que a situao degringolasse. Aquele era um jogo perigoso, e Gus constatou ser incapaz de manter a calma e a tranquilidade que Wilson parecia demonstrar diante de tamanho risco.
   Enquanto os telegramas diplomticos atravessavam o Atlntico, Wilson foi para sua casa de vero em New Hampshire e Gus para Buffalo, onde ficou hospedado na manso dos pais na Avenida Delaware. Seu pai tinha uma casa em Washington, mas Gus morava em seu prprio apartamento na capital, de modo que, quando voltava para Buffalo, sua cidade natal, aproveitava o conforto de uma casa administrada pela me: a tigela de prata com ptalas de rosas sobre a mesa de cabeceira; os brioches quentes no caf da manh; a toalha de mesa de linho branco engomada, trocada a cada refeio; e a forma como um terno sempre aparecia em seu armrio, limpo e passado a ferro, sem que ele sequer tivesse notado sua ausncia.
   A casa era mobiliada com uma simplicidade proposital, uma reao de sua me  ornamentao excessiva tpica da gerao de seus pais. A maior parte dos mveis era Biedermeier, estilo alemo utilitrio que estava voltando  moda. A sala de jantar tinha um quadro de boa qualidade em cada uma das quatro paredes e um nico castial de trs braos sobre a mesa. No primeiro dia, durante o almoo, sua me disse:
  -		Imagino que voc pretenda ir ao bairro pobre assistir a alguma luta de boxe, no?
  -		No h nada de errado com o boxe - respondeu Gus. O esporte era sua grande paixo. Chegara a tentar lutar quando era um rapaz destemido de 18 anos: seus braos compridos tinham lhe rendido algumas vitrias, mas faltava-lhe o instinto assassino.
  -		Boxe  to canaille. - falou sua me com desdm. Era uma expresso esnobe que ela havia aprendido na Europa e que significava algo como "vulgar".
  -		Eu gostaria da oportunidade de me distrair da poltica internacional.
  -		Hoje  tarde vai haver uma palestra sobre Ticiano na Albright, com projees de lanterna mgica - disse ela.
   A Galeria de Arte Albright, prdio branco neoclssico que ficava no Delaware Park, era uma das instituies culturais mais importantes de Buffalo.
   Gus crescera rodeado por quadros renascentistas e tinha um carinho especial pelos retratos de Ticiano, mas no estava muito interessado em assistir a uma
   
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palestra. No entanto, aquele era justamente o tipo de evento ao qual compareceriam os rapazes e moas ricos da cidade, ento seria uma boa chance de retomar antigas amizades.
A Albright ficava a poucos minutos de carro, subindo a Avenida Delaware. L chegando, ele atravessou o trio cercado por colunas, escolheu um lugar e sentou-se. Conforme havia imaginado, conhecia vrios dos presentes. Viu que estava sentado ao lado de uma moa incrivelmente bonita que no lhe era estranha.
Abriu um sorriso indeciso para ela, que falou com animao:
-		No est lembrado de mim, no , Sr. Dewar?
Ele se sentiu bobo.
-		... eu passei algum tempo fora da cidade.
-		Olga Vyalov. - Ela estendeu uma das mos. Usava luvas brancas.
-		Claro - respondeu Gus. Ela era filha de um imigrante russo cujo primeiro emprego fora expulsar bbados de um bar na Canal Street. Agora, era o dono da rua. Era tambm membro da Cmara Municipal e um dos sustentculos da Igreja Ortodoxa Russa. Gus havia encontrado Olga vrias vezes, embora no se lembrasse que ela fosse to encantadora; talvez houvesse crescido de repente, ou algo desse tipo. Avaliou que tivesse uns 20 anos. Sua pele era clara e seus olhos eram azuis. Ela vestia um casaco cor-de-rosa de gola alta e um chapu tipo cloche, enfeitado com flores de seda tambm cor-de-rosa.
-		Ouvi dizer que o senhor est trabalhando com o presidente - disse ela. - O que acha do Sr. Wilson?
-		Eu o admiro muito - respondeu Gus. - Ele  um poltico pragmtico, mas que no abandonou seus ideais.
-		Que empolgante estar no centro do poder!
-		, sim, mas, por estranho que parea, tenho a sensao de que no  o centro do poder. Em uma democracia, o presidente est subordinado aos eleitores.
-		Mas ele com certeza no faz apenas o que o povo quer.
-		No, no exatamente. Segundo o presidente Wilson, um lder deve lidar com a opinio pblica da mesma forma que um marinheiro lida com o vento, usando-a para conduzir o navio em uma determinada direo, mas nunca tentando ir contra ela por completo.
Ela deu um suspiro.
-		Eu adoraria estudar essas coisas, mas meu pai no me deixa entrar para a universidade.
Gus sorriu.
-		Ele deve achar que a senhorita iria aprender a fumar cigarros e beber gim.

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   -		E coisa pior, sem dvida - respondeu ela. Era um comentrio ousado para uma mulher solteira, e a surpresa deve ter transparecido no rosto de Gus, pois ela emendou: - Desculpe se choquei o senhor.
   -		De forma alguma. - Na verdade, ele estava encantado. Para faz-la continuar falando, perguntou: - O que a senhorita estudaria se pudesse entrar para a universidade?
   -		Histria, acho.
   -		Eu adoro histria. Algum perodo especfico?
   -		Eu gostaria de entender meu prprio passado. Por que meu pai teve que sair da Rssia? Por que  to melhor aqui nos Estados Unidos? Deve haver motivos para essas coisas.
   -		Exatamente!
    Gus estava fascinado que uma moa to bonita tambm compartilhasse de sua curiosidade intelectual. Vislumbrou de repente os dois casados, conversando sobre os acontecimentos do mundo no toucador dela, depois de alguma festa, enquanto se preparavam para dormir: ele sentado, de pijama, observando-a tirar sem pressa as jias e as roupas... Ento, ao cruzar olhares com ela, teve a sensao de que Olga havia adivinhado seus pensamentos e ficou constrangido. Tentou encontrar alguma coisa para dizer, mas descobriu que sua lngua estava presa.
    Foi ento que o palestrante chegou e a plateia parou de falar.
    Ele gostou mais da palestra do que esperava. O palestrante havia preparado slides de algumas das telas de Ticiano, projetando-os em uma grande tela branca com sua lanterna mgica.
    Quando a palestra terminou, ele quis conversar um pouco mais com Olga, mas foi impedido. Chuck Dixon, um conhecido dos tempos da escola, aproximou-se deles. Chuck possua um charme natural que Gus invejava. Os dois tinham a mesma idade, 25 anos, mas Chuck fazia Gus se sentir um colegial desengonado.
   -		Olga, voc precisa conhecer meu primo - disse o rapaz alegremente. - Ele ficou olhando o tempo todo para voc do outro lado do salo. - Chuck sorriu com simpatia para Gus. - Desculpe-me por priv-lo desta companhia to fascinante, Dewar, mas voc tambm no pode ficar com ela a tarde inteira, no ? - Ele passou um brao possessivo pela cintura de Olga e a levou embora.
    Gus ficou desolado. Tinha a sensao de estar se dando to bem com ela... Para ele, aquelas primeiras interaes com uma garota eram sempre as mais difceis, mas com Olga no sentira a menor dificuldade. E agora Chuck Dixon, que sempre fora o pior aluno da turma, acabara de lev-la embora com toda a facilidade, como se tivesse apanhado uma bebida na bandeja de um garom.
    
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Enquanto Gus olhava em volta  procura de algum outro conhecido, foi abordado por uma moa caolha.
Na primeira vez em que havia encontrado Rosa Hellman - em um jantar beneficente em prol da Orquestra Sinfnica de Buffalo, na qual o irmo dela tocava -, pensou que a moa estivesse lhe dando uma piscadela. Na verdade, um de seus olhos vivia permanentemente fechado. Tirando isso, seu rosto era bonito, o que tornava aquela deformidade ainda mais evidente. Alm disso, ela sempre se vestia com elegncia, numa atitude desafiadora. Desta vez, com um chapu de palha enviesado sobre a cabea, havia conseguido ficar interessante.
Da ltima vez em que a vira, ela era editora de um jornal radical de pequena circulao chamado Buffalo Anarchist, de modo que Gus perguntou:
-		Os anarquistas se interessam por arte?
-		Eu agora trabalho para o Evening Advertiser - respondeu ela.
Gus ficou surpreso.
-		O editor sabe das suas opinies polticas?
-		J no tenho opinies to extremadas quanto antes, mas ele conhece a minha histria.
-		Ele deve ter pensado que, se voc consegue transformar um jornal anarquista em um sucesso, s pode ser boa.
-		Ele diz que me deu o emprego porque tenho mais colhes do que dois de seus reprteres homens juntos.
Gus sabia que ela gostava de chocar, mas, mesmo assim, ficou boquiaberto.
Rosa soltou uma risada.
-		Mas ele continua me mandando cobrir exposies de arte e desfiles de moda. - Ela mudou de assunto. - E voc, como  trabalhar na Casa Branca?
Gus tinha conscincia de que qualquer coisa que dissesse poderia sair no jornal.
-		Muito emocionante - respondeu. - Eu acho Wilson um grande presidente, talvez o melhor de todos os tempos.
-		Como voc pode dizer uma coisa dessas? Ele est a um passo de nos fazer entrar em uma guerra na Europa.
A atitude de Rosa era comum entre as pessoas de origem germnica, que naturalmente viam o lado alemo da histria, e entre os esquerdistas, que desejavam a derrota do czar. No entanto, muitos que no eram nem alemes nem de esquerda pensavam a mesma coisa. Gus respondeu com cautela:
-		Quando submarinos alemes matam cidados americanos, o presidente no pode... - Ele estava prestes a dizer se fingir de cego. Hesitou, enrubesceu e acabou dizendo: ...no pode ignorar o fato.

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    Ela no pareceu notar seu constrangimento.
   -		Mas os britnicos esto bloqueando portos alemes, o que  uma violao do direito internacional, e, consequentemente, mulheres e crianas esto morrendo de fome na Alemanha. Enquanto isso, a guerra na Frana est em um impasse: h seis meses que nenhum dos dois lados modifica sua posio em mais de alguns metros. Os alemes precisam afundar navios britnicos, de outra forma vo perder a guerra.
    A clareza com que Rosa entendia a complexidade das coisas era impressionante: era por isso que Gus sempre gostava de conversar com ela.
   -		Eu estudei direito internacional - disse ele. - Estritamente falando, os britnicos no esto agindo de forma ilegal. Os bloqueios navais foram proibidos pela Declarao de Londres de 1909, mas ela nunca chegou a ser ratificada.
    Rosa no se deixaria ludibriar com tanta facilidade.
   -		Esqueamos os aspectos legais. Os alemes avisaram os americanos para no viajarem em navios britnicos. Pelo amor de Deus, eles chegaram a pr um anncio no jornal! O que mais podem fazer? Imagine que estivssemos em guerra contra o Mxico e que o Lusitania fosse um navio mexicano cheio de armamentos destinados a matar soldados americanos. Ns o deixaramos passar?
    Era uma boa pergunta, para a qual Gus no tinha nenhuma resposta aceitvel.
   -		Bem, o secretrio de Estado Bryan concorda com voc - disse ele. William Jennings Bryan havia renunciado aps o comunicado emitido por Wilson aos alemes. - Segundo ele, bastaria avisarmos os americanos para no viajarem em navios das naes em conflito.
    Ela, no entanto, no estava interessada em deix-lo escapar.
   -		Bryan entende que Wilson assumiu um grande risco - disse ela. - Se os alemes no recuarem agora, dificilmente conseguiremos evitar entrar em guerra contra eles.
    Gus no iria admitir a uma jornalista que temia o mesmo. Wilson havia exigido que o governo alemo repudiasse os ataques a navios mercantes, pagasse uma indenizao e tomasse medidas para evitar que eles se repetissem - em outras palavras, que desse aos britnicos liberdade para navegar os mares ao mesmo tempo que aceitava que seus prprios navios ficassem presos nos portos por causa do bloqueio. Era difcil pensar que algum governo fosse concordar com tais exigncias.
   -		Porm a opinio pblica aprova o que o presidente fez.
   -		A opinio pblica pode estar errada.
   -		Mas o presidente no pode ignor-la. Wilson est numa corda bamba, entende? Ele quer nos manter fora da guerra, mas no quer que os Estados Unidos
    
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demonstrem fraqueza no mbito da diplomacia internacional. Por enquanto, me parece que ele encontrou um bom equilbrio.
-		Mas e no futuro?
Era essa a pergunta preocupante.
-		Ningum pode prever o futuro - respondeu Gus. - Nem mesmo Woodrow Wilson.
Ela riu.
-		Uma resposta digna de um poltico. Voc ainda vai longe em Washington. - Algum a abordou e ela se virou para o outro lado.
Gus se afastou, com a leve impresso de ter participado de uma luta de boxe que houvesse terminado empatada.
Alguns membros da plateia foram convidados a tomar ch com o palestrante. Gus foi um dos privilegiados, porque sua me contribua financeiramente para o museu. Ele se despediu de Rosa e foi at uma sala privativa. Ao entrar, ficou encantado em ver Olga ali. Sem dvida o pai dela tambm estava entre os doadores.
Ele pegou uma xcara de ch e se aproximou dela.
-		Se algum dia a senhorita for a Washington, eu adoraria lhe mostrar a Casa Branca - disse.
-		Ah! Ser que o senhor poderia me apresentar ao presidente?
Ele queria responder: Sim, o que voc quiser! Mas hesitava em fazer promessas que talvez no conseguisse cumprir.
-		Pode ser que sim - respondeu. - Desde que o presidente no esteja muito ocupado. Quando ele se senta atrs daquela mquina e comea a escrever discursos ou comunicados  imprensa, ningum pode incomod-lo.
-		Fiquei muito triste quando a esposa dele faleceu - disse Olga. Eilen Wilson havia morrido quase um ano antes, pouco depois de a guerra na Europa estourar.
Gus aquiesceu.
-		Ele ficou arrasado.
-		Mas ouvi dizer que ele j est envolvido com uma viva rica.
Gus ficou perplexo. Em Washington, o fato de Wilson ter se apaixonado perdidamente, feito um colegial, pela voluptuosa Sra. Edith Galt apenas oito meses aps a morte da mulher no era segredo para ningum. O presidente tinha 58 anos e sua escolhida, 41. Naquele exato momento, os dois estavam juntos em New Hampshire. Gus fazia parte de um grupo muito seleto que sabia tambm que Wilson a havia pedido em casamento um ms antes, mas a Sra. Galt ainda no lhe dera uma resposta.
-		Quem lhe contou isso? - perguntou ele a Olga.

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-		 verdade?
Ele estava louco para impression-la com suas informaes privilegiadas, mas conseguiu resistir  tentao.
-		No posso conversar sobre esse tipo de coisa - respondeu com relutncia.
-		Ah, que decepo. Estava torcendo para que o senhor pudesse me contar alguma fofoca secreta.
-		Sinto muito por desapont-la.
-		No seja bobo. - Olga tocou o brao dele, causando-lhe um arrepio que mais pareceu um choque eltrico. - Convidei algumas pessoas para jogar tnis amanh  tarde - disse ela. - O senhor joga?
Gus, com seus braos e pernas compridos, era um timo tenista.
-		Jogo, sim - respondeu ele. - Adoro tnis.
-		Ento o senhor aceita o convite?
-		Com muito prazer.
Lev aprendeu a dirigir em um dia. Bastaram algumas horas para ele dominar a segunda funo mais importante de um chofer: trocar pneus furados. Ao final de uma semana, j sabia tambm encher o tanque, trocar o leo e ajustar os freios. Se o carro no andasse, aprendeu a verificar se a bateria estava arriada ou se algum duto de combustvel estava entupido.
Cavalos eram o transporte do passado, dissera-lhe Josef Vyalov. Cavalarios ganhavam mal: eram numerosos demais. J os motoristas eram poucos, por isso recebiam salrios altos.
Alm disso, Vyalov gostava de ter um chofer duro o suficiente para servir tambm de guarda-costas.
O carro de Vyalov era um Packard Twin Six novinho em folha, uma limusine para sete passageiros. Os outros motoristas ficaram impressionados. O modelo fora lanado poucas semanas antes, e seu motor de 12 cilindros causava inveja at aos que dirigiam um Cadillac V8.
Lev no ficou to admirado assim com a manso ultramoderna de Vyalov. Para ele, parecia o maior curral de vacas do mundo. Era comprida e baixa, com as abas do telhado largas e salientes. O jardineiro-chefe lhe disse que aquele estilo era chamado de "Prairie House", a ltima moda em construo.
-		Se eu tivesse uma casa grande assim, iria querer que ela parecesse um palcio - disse Lev.

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   Ele pensou em escrever para Grigori e lhe contar sobre Buffalo, o emprego e o carro, mas hesitou. Sentiria vontade de dizer que havia guardado algum dinheiro para a passagem do irmo, quando, na verdade, no economizara nada. Prometeu a si mesmo que, assim que tivesse uma pequena quantia guardada, iria escrever. Enquanto isso, Grigori no podia escrever, pois no tinha o endereo de Lev.
   A famlia Vyalov era composta por trs pessoas: o prprio Josef, sua mulher, Lena, que raramente abria a boca, e Olga, a filha bonita e de olhar atrevido, mais ou menos da idade de Lev. Josef era atencioso e gentil com a mulher, embora passasse a maioria das noites fora com os amigos. J com a filha, era afetuoso, porm rgido. Muitas vezes voltava para casa de carro no meio do dia para almoar com Lena e Olga. Depois do almoo, ele e Lena tiravam um cochilo.
   Enquanto Lev esperava para levar Josef de volta ao centro da cidade, s vezes conversava com Olga.
   Ela gostava de fumar cigarros - coisa que seu pai proibia, pois estava determinado a torn-la uma moa respeitvel e faz-la entrar para a elite de Buffalo por meio de um bom casamento. Havia alguns lugares na propriedade aos quais Josef nunca ia, e a garagem era um deles, ento Olga se refugiava l para fumar. Sentava-se no banco de trs do Packard - seu vestido de seda sobre o couro novo -, enquanto Lev ficava recostado na porta, com o p apoiado no estribo, conversando com ela.
   Ele sabia que ficava bonito com o uniforme de chofer e usava o quepe inclinado para trs de um jeito charmoso. Logo descobriu que a forma de agradar Olga era elogi-la por pertencer  classe alta. Ela adorava ouvir que caminhava como uma princesa, conversava como uma primeira-dama e se vestia como uma socialite de Paris. Era uma esnobe - e seu pai tambm. Durante a maior parte do tempo, Josef era agressivo e violento, mas Lev j havia reparado que ele se tornava educado, quase deferente, ao conversar com homens importantes, como presidentes de banco e congressistas.
   Lev tinha uma intuio rpida, de modo que no tardou a entender como Olga funcionava. Ela era uma menina rica e superprotegida que no tinha como dar vazo a seus impulsos romnticos e sexuais. Ao contrrio das garotas que Lev conhecera nos bairros pobres de So Petersburgo, Olga no podia escapulir para encontrar um rapaz ao anoitecer e deixar que ele a apalpasse na escurido da soleira de alguma loja. Aos 20 anos, ainda era virgem. Talvez at nunca tivesse sido beijada.
   De longe, Lev ficou observando a partida de tnis, embriagando-se com a viso do corpo forte e esbelto de Olga e com a forma como seus seios se moviam sob o algodo leve do vestido quando corria pela quadra. Ela estava jogando contra
   
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um homem muito alto, que usava uma cala de flanela branca. Lev tomou um susto ao reconhec-lo. Depois de observ-lo por um tempo, recordou onde o vira antes. Tinha sido na Metalrgica Putilov. Lev havia arrancado um dlar dele com um truque e Grigori lhe perguntara se Josef Vyalov era mesmo um figuro em Buffalo. Qual era mesmo o nome daquele sujeito? Era igual ao de uma marca de usque. Dewar, era isso. Gus Dewar.
   Um grupo de meia dzia de jovens assistia  partida, as moas trajando vestidos de vero de cores alegres e os rapazes de chapu de palha. A Sra. Vyalov assistia a tudo com um sorriso contente debaixo de sua sombrinha. Uma criada de uniforme servia limonada.
   Gus Dewar ganhou de Olga e os dois deixaram a quadra. Foram imediatamente substitudos por outro casal. Ousada, Olga aceitou um cigarro de seu adversrio. Lev o viu acend-lo para ela. Ansiava por ser um daqueles jovens que jogavam tnis com roupas bonitas e tomavam limonada.
   Uma raquetada mal dada lanou a bola em sua direo. Ele a pegou e, em vez de jog-la de volta, decidiu lev-la at a quadra, entregando-a a um dos jogadores. Olhou para Olga. Ela estava entretida em uma conversa com Dewar, flertando com ele sedutoramente, assim como fazia com Lev na garagem. Sentindo uma pontada de cime, teve vontade de dar um soco na boca daquele varapau. Cruzou olhares com Olga e lanou-lhe seu sorriso mais charmoso, mas ela desviou os olhos sem cumpriment-lo. Os outros jovens o ignoraram totalmente.
   Aquilo era mais que natural, pensou com seus botes: uma garota podia ser simptica com o chofer enquanto estivesse fumando na garagem e depois trat-lo como se no existisse quando estava acompanhada pelos amigos. Ainda assim, seu orgulho ficou ferido.
   Ele deu as costas para o grupo - e viu o pai de Olga descendo o caminho de cascalho em direo  quadra de tnis. Vyalov usava roupas de trabalho, um terno informal com colete. Vinha cumprimentar os convidados da filha antes de voltar para o centro, imaginou Lev.
   A qualquer instante, veria a filha fumando - e ela estaria em apuros.
   Inspirado, Lev deu dois passos e chegou at onde Olga estava sentada. Com um movimento rpido, arrancou o cigarro aceso de seus dedos.
  -		Ei! - protestou ela.
   Gus Dewar fechou o rosto e perguntou:
  -		O que voc acha que est fazendo?
   Lev virou-lhes as costas, levando o cigarro  boca. Logo em seguida, foi visto por Vyalov.
   
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-		O que voc est fazendo aqui? - perguntou, contrariado. - V pegar o carro.
-		Sim, senhor - respondeu Lev.
-		E apague esse raio de cigarro quando estiver falando comigo.
Lev apagou a brasa e guardou a guimba no bolso.
-		Desculpe, Sr. Vyalov, eu me distra.
-		Que isso no se repita.
-		Sim, senhor.
-		Agora saia daqui.
Lev se afastou a passos largos, ento olhou por cima do ombro. Os rapazes haviam se levantado com um pulo e Vyalov apertava alegremente a mo de todos. Olga, com ar culpado, apresentava os amigos ao pai. Quase havia sido apanhada. Cruzou olhares com Lev, fitando-o com uma expresso agradecida.
Lev retribuiu com uma piscadela e continuou andando.
A sala de estar de rsula Dewar tinha alguns enfeites, cada qual precioso  sua maneira: um busto de mrmore de Elie Nadelman, uma primeira edio da Bblia de Genebra, uma rosa solitria em um vaso de vidro lapidado e um retrato emoldurado de seu av, que abrira uma das primeiras lojas de departamentos dos Estados Unidos. Quando Gus entrou na sala, s seis da tarde, ela estava sentada ali, com um vestido de noite de seda, lendo um romance chamado O bom soldado.
-		Que tal o livro? - perguntou ele.
-		Extraordinrio, mas, paradoxalmente, ouvi dizer que o autor  um canalha da pior espcie.
Ele preparou-lhe um coquetel de usque com angustura, bem do jeito que ela gostava, sem acar. Estava nervoso. Na minha idade, j no deveria ter medo da minha me, pensou. Mas ela podia ser extremamente mordaz. Entregou-lhe o drinque.
-		Obrigada - agradeceu ela. - Est gostando das suas frias de vero?
-		Muito.
-		Achei que a esta altura voc j fosse estar ansioso para retornar ao burburinho de Washington e da Casa Branca.
Gus tinha imaginado o mesmo, mas as frias haviam trazido prazeres inesperados.
-		Eu voltarei assim que o presidente voltar, mas, por enquanto, estou me divertindo bastante.


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-		Voc acha que Woodrow vai declarar guerra  Alemanha?
-		Espero que no. Os alemes esto dispostos a recuar, mas querem que os americanos parem de vender armas aos Aliados.
-		E ns vamos parar? - rsula era descendente de alemes, assim como cerca de metade da populao de Buffalo, mas, quando dizia "ns", referia-se aos Estados Unidos.
-		De jeito nenhum. Nossas fbricas esto ganhando dinheiro demais com as encomendas britnicas.
-		Ento  um impasse?
-		Ainda no. Por ora, estamos pisando em ovos. Enquanto isso, como se quisesse nos lembrar de que os pases neutros esto sob presso, a Itlia se uniu aos Aliados.
-		Isso vai fazer alguma diferena?
-		No o suficiente. - Gus respirou fundo. - Eu fui jogar tnis na casa dos Vyalov hoje  tarde - disse. Sua voz no soou to despreocupada quanto ele esperava.
-		Voc ganhou, querido?
-		Ganhei. Eles tm uma Prairie House.  impressionante..
-		Que coisa mais nouveau riche.
-		Se no me engano, ns tambm j fomos nouveaux riches um dia, no? Quando seu av abriu a loja, talvez?
-		Acho uma chatice quando voc comea a falar como um socialista, Angus, mesmo sabendo que no  a srio. - Ela tomou um gole da bebida. - Hum, est perfeito!
Ele tornou a respirar fundo.
-		Me, voc faria uma coisa para mim?
-		 claro, querido, se eu puder.
-		Voc no vai gostar.
-		O que ?
-		Quero que convide a Sra. Vyalov para um ch.
Sua me pousou a bebida com um gesto lento e deliberado.
-		Entendo - disse ela.
-		No vai me perguntar por qu?
-		Eu sei por qu - respondeu ela. - S existe um motivo possvel. Eu conheci a filha deslumbrante deles.
-		A senhora no deveria ficar zangada. Vyalov  um homem importante nesta cidade, alm de muito rico. E Olga  um anjo.
-		Ou, se no for um anjo, pelo menos que seja crist.

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-		Os Vyalov so da Igreja Ortodoxa Russa - disse Gus. Era melhor dar logo todas as notcias ruins, pensou. - Frequentam a Igreja de So Pedro e So Paulo na Ideal Street. - Os Dewar pertenciam  Igreja Episcopal.
-		Mas no so judeus, graas a Deus. - Sua me j tivera medo de que Gus se casasse com Rachel Abramov, de quem ele gostara muito, mas que nunca chegara a amar. - E imagino que podemos ficar gratos pelo fato de Olga no ser uma caadora de fortunas.
-		Podemos mesmo. Tenho a impresso de que Vyalov  mais rico do que papai.
-		No fao a menor ideia. - No ficava bem que mulheres como rsula entendessem de dinheiro. Gus desconfiava que elas soubessem o valor da fortuna dos seus maridos e dos maridos das amigas at o ltimo centavo, mas tinham que fingir ignorncia.
Ela no ficou to zangada quanto ele temera.
-		Ento a senhora faria isso? - perguntou, ansioso.
-		 claro. Vou mandar um convite para a Sra. Vyalov.
Apesar de eufrico, Gus foi invadido por um novo temor.
-		Veja bem, no v convidar suas amigas esnobes para fazer a Sra. Vyalov se sentir inferior.
-		Eu no tenho nenhuma amiga esnobe.
O comentrio foi to absurdo que ele nem o levou em considerao.
-		Convide a Sra. Fischer, ela  simptica. E tia Gertrude.
-		Est certo.
-		Obrigado, me. - Gus sentiu um grande alvio, como se tivesse sobrevivido a um calvrio. - Eu sei que Olga no  a noiva que voc teria sonhado para mim, mas estou certo de que em pouqussimo tempo ir gostar muito dela.
-		Meu filho querido, voc j est com quase 26 anos. Cinco anos atrs, eu poderia ter tentado convenc-lo a no se casar com a filha de um empresrio de reputao duvidosa. Mas, ultimamente, o que tenho pensado  se algum dia terei netos. A esta altura, se voc me dissesse que quer se casar com uma garonete polonesa divorciada, minha primeira preocupao seria se ela  jovem o suficiente para ter filhos.
-		No apresse as coisas... Olga no aceitou se casar comigo. Eu nem mesmo pedi a mo dela.
-		Mas como ela poderia resistir a voc? - Ela se levantou e o beijou. - Agora, prepare outro drinque para mim.

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IV
- Voc salvou a minha vida! - disse Olga a Lev. - Papai teria me matado.
Lev sorriu.
-		Eu o vi chegando. Tive que agir depressa.
-		Estou to agradecida! - disse Olga, dando-lhe um beijo na boca.
Lev ficou espantado. Ela se afastou antes que ele pudesse se aproveitar do momento, mas ele sentiu de imediato que havia chegado a um nvel totalmente diferente em sua relao com Olga. Nervoso, correu os olhos pela garagem, mas os dois estavam sozinhos.
A jovem sacou um mao e levou um cigarro  boca. Ele o acendeu, imitando Gus Dewar na vspera. Era um gesto ntimo, que obrigava a mulher a inclinar a cabea e permitia que o homem observasse seus lbios. Era um tanto romntico.
Olga se reclinou no banco traseiro do Packard e soprou a fumaa. Lev entrou no carro e sentou-se ao seu lado. Ela no reclamou. Ele tambm acendeu um cigarro. Os dois passaram algum tempo sentados na penumbra, a fumaa de seus cigarros se misturando ao cheiro de leo, de couro e do perfume floral que Olga usava.
Para quebrar o silncio, Lev disse:
-		Espero que tenha gostado da sua festa na quadra de tnis.
Ela deu um suspiro.
-		Todos os rapazes da cidade tm medo do meu pai - disse ela. - Acham que ele vai lhes dar um tiro se me beijarem.
-		E ele vai mesmo?
Ela riu.
-		 provvel.
-		Eu no tenho medo dele. - Isso era quase verdade. A questo no era que Lev no sentisse medo, mas sim que o ignorava, sempre contando com sua lbia para escapar de qualquer problema.
Mas ela no pareceu acreditar.
-		Tem certeza?
-		Foi por isso que ele me contratou. - Isso tambm estava algo distante da realidade, mas no muito. - Pergunte a ele.
-		Talvez eu pergunte mesmo.
-		Gus Dewar gosta bastante da senhorita.
-		Meu pai adoraria que eu me casasse com ele.
-		Por qu?

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  -		Ele  rico, sua famlia pertence  velha aristocracia de Buffalo e o pai dele  senador.
  -		Voc sempre faz o que o seu pai quer?
   Ela tragou o cigarro, pensativa.
  -		Sempre - respondeu, soprando a fumaa.
  -		Adoro olhar para a sua boca quando voc fuma - disse Lev.
   Ela ficou calada, mas lanou-lhe um olhar curioso.
   Isso foi um convite suficiente para Lev, e ele a beijou.
   Ela soltou um pequeno gemido no fundo da garganta e empurrou seu peito de leve com a mo, mas nenhum dos dois protestos foi muito srio. Ele jogou o cigarro para fora do carro e ps a mo em seu seio. Ela agarrou-lhe o pulso como se fosse empurrar sua mo para longe, mas, em vez disso, apertou-a com mais fora contra a carne macia.
   Lev tocou seus lbios fechados com a lngua. Ela se afastou para encar-lo, assustada. Ele percebeu que Olga no sabia que as pessoas se beijavam daquele jeito. Era mesmo inexperiente.
  -		Est tudo bem - disse ele. - Confie em mim.
   Ela atirou o cigarro longe, puxou-o para mais perto, fechou os olhos e o beijou com a boca aberta.
   Depois disso, tudo aconteceu muito depressa. O desejo de Olga tinha uma urgncia desesperada. Lev, que j estivera com vrias mulheres, achava mais sensato deixar que elas determinassem o ritmo. No se podia apressar uma mulher titubeante, enquanto uma mulher impaciente no devia ser contida. Quando conseguiu pr a mo sob a roupa de baixo de Olga e acariciou o relevo macio de seu sexo, ela ficou to excitada que soluou de paixo. Se ela havia de fato chegado aos 20 anos sem ser beijada por nenhum dos rapazes tmidos de Buffalo, provavelmente estava cheia de frustrao contida, imaginou. Ela ergueu os quadris com sofreguido para que Lev tirasse sua calcinha. Quando ele a beijou entre as pernas, ela soltou um grito de espanto e prazer. Com certeza era virgem, mas ele estava excitado demais para que essa constatao o fizesse parar.
   Ela se deitou com um dos ps em cima do banco e o outro no cho, com a saia embolada em volta da cintura e as coxas separadas, pronta para receb-lo. Tinha a boca aberta e a respirao ofegante. Ficou observando com os olhos arregalados enquanto ele desabotoava a cala. Ele a penetrou com cautela, sabendo como era fcil machucar uma garota ali, mas Olga agarrou-lhe os quadris e o puxou para dentro de si com impacincia, como se temesse que, no ltimo instante, fossem lhe tirar o que queria. Ele sentiu a membrana de sua virgindade resistir por
   
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um instante, rompendo-se com facilidade em seguida - o que provocou nela apenas um leve arquejo, como numa pontada de dor que tivesse desaparecido to rpido quanto surgira. Ela se moveu contra o corpo de Lev, estabelecendo seu prprio ritmo, e novamente ele a deixou conduzir a situao, sentindo que ela estava cedendo a um impulso irresistvel.
Para ele, fazer amor nunca tinha sido to excitante. Algumas garotas eram experientes; outras, inocentes mas dispostas a agradar o parceiro; outras ainda faziam questo de satisfazer o homem antes de buscar o prprio prazer. Mas Lev nunca havia encontrado um desejo em estado to bruto quanto o de Olga, o que, por sua vez, o deixou mais excitado do que nunca.
Ele se conteve. Olga deu um grito e ele tapou-lhe a boca com a mo para abafar o som. Empinando feito um pnei, ela enterrou o rosto em seu ombro. Com uma exclamao contida, chegou ao orgasmo e, logo em seguida, ele tambm.
Lev saiu de cima dela e sentou-se no cho. Ela continuou deitada, ofegante. Durante um minuto inteiro, ficaram os dois calados. Depois de algum tempo, ela se sentou.
-		Meu Deus! - falou. - Eu no sabia que seria assim.
-		Geralmente no  - respondeu ele.
Houve uma pausa longa, introspectiva, e ento ela perguntou em voz baixa:
-		O que foi que eu fiz?
Ele no respondeu.
Olga pegou a calcinha no cho do carro e a vestiu. Ainda ficou mais alguns instantes sentada, recuperando o flego, ento saiu do carro.
Lev ficou olhando para ela, esperando que dissesse alguma coisa, mas ela no falou nada. Caminhou at a porta dos fundos da garagem, abriu-a e foi embora.
Mas voltou no dia seguinte.
VI
Edith Galt aceitou o pedido de casamento do presidente Wilson no dia 29 de junho. Em julho, o presidente voltou temporariamente  Casa Branca.
-		Preciso voltar para Washington por alguns dias - disse Gus a Olga, enquanto os dois passeavam pelo Jardim Zoolgico de Buffalo.
-		Quantos?
-		Enquanto o presidente precisar de mim.
-		Que emocionante!

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   Gus aquiesceu.
  -		 o melhor emprego do mundo. Mas tambm significa que no tenho controle sobre a minha vida. Se a crise com a Alemanha piorar, posso demorar bastante para voltar a Buffalo.
  -		Vamos sentir sua falta.
  -		E eu vou sentir a sua. Ficamos to amigos desde que voltei para c. - Os dois tinham ido passear de barco no lago do Delaware Park e tomar banho em Crystal Beach; tinham subido o rio num vapor at Niagara Falis e atravessado o lago at o Canad; e tambm jogado tnis dia sim, dia no, sempre com um grupo de jovens amigos e observados no mnimo por uma me atenta. Naquele dia, a Sra. Vyalov os acompanhava, andando alguns passos mais atrs e conversando com Chuck Dixon. - Voc nem faz ideia de quanto vou sentir saudades suas.
   Olga sorriu, mas no respondeu nada.
  -		Este foi o vero mais feliz da minha vida - disse Gus.
  -		Da minha tambm! - falou ela, girando a sombrinha vermelha e branca de bolinhas.
   Gus ficou encantado ao ouvir aquilo, embora no tivesse certeza de que era a sua companhia a causa da felicidade dela. Ainda no conseguia entend-la por completo. Olga sempre parecia gostar de encontr-lo e conversava de bom grado com ele por horas a fio. Mas Gus no conseguia ver nenhuma emoo, nenhum sinal de que seus sentimentos por ele pudessem ser de paixo, e no s de amizade.  claro que uma moa respeitvel jamais deveria deixar transparecer esse tipo de coisa, pelo menos no at ficar noiva - mas, mesmo assim, Gus estava confuso. Talvez esse fosse um dos seus atrativos.
   Ele no se esquecia de como Caroline Wigmore costumava lhe dizer o que queria com uma clareza inconfundvel. Pegava-se pensando muito nela, a nica mulher, alm de Olga, que j havia amado. Se ela era capaz de deixar claros os seus desejos, por que Olga no conseguia? Caroline, no entanto, era uma mulher casada, enquanto Olga era uma moa virgem criada em um ambiente protegido.
   Gus parou em frente  jaula do urso-pardo e eles ficaram olhando por entre as barras de ao para o pequeno urso que os encarava de volta. - Fico pensando se todos os nossos dias poderiam ser felizes assim - disse Gus.
  -		Por que no? - indagou ela.
   Seria essa resposta um incentivo? Gus lanou-lhe um olhar. Ela no o retribuiu, continuando a fitar o urso. Ele examinou seus olhos azuis, a curva suave de sua bochecha rosada, a pele delicada de seu pescoo.
  -		Quem me dera ser Ticiano - falou. - Eu pintaria voc.
   
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A me dela e Chuck passaram pelos dois e continuaram andando, deixando Gus e Olga para trs. Os dois estavam mais a ss do que jamais ficariam.
Ela finalmente o encarou e Gus pensou ver em seu olhar algo semelhante a ternura. Isso lhe deu coragem. Ele pensou: se um presidente que ficou vivo h menos de um ano consegue fazer isso, por que eu no conseguiria?
-		Eu amo voc, Olga - disse ele.
Ela ficou calada, mas continuou a encar-lo.
Ele engoliu em seco. Mais uma vez, no conseguia desvend-la.
-		Ser que existe alguma chance... - comeou. - Ser que eu posso ter esperanas de que um dia voc me ame tambm? - Ele a fitou nos olhos, com a respirao presa. Ali, naquele instante, sua vida estava nas mos dela.
Houve uma pausa demorada. Ser que ela estava pensando? Pesando os prs e os contras? Ou apenas hesitando antes de uma deciso que mudaria sua vida? Por fim, Olga sorriu e disse:
-		Ah, sim.
Ele mal conseguiu acreditar.
-		Srio?
Ela riu com alegria.
-		Srio.
Ele apanhou sua mo.
-		Voc me ama? Ela aquiesceu.
-		Voc tem que falar.
-		Sim, Gus, eu amo voc. Ele beijou-lhe a mo.
-		Vou falar com seu pai antes de voltar para Washington. Ela sorriu.
-		Acho que eu sei o que ele vai dizer.
-		Depois disso, podemos contar para todo mundo.
-		Sim.
-		Obrigado - disse ele com fervor. - Voc me fez muito feliz.
Gus foi at o escritrio de Josef Vyalov pela manh para lhe pedir formalmente a mo de sua filha em casamento. Vyalov se disse encantado. Por mais que j esperasse essa resposta, o rapaz ficou com as pernas bambas de tanto alvio.
 
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Como Gus estava a caminho da estao para pegar um trem rumo a Washington, concordaram em adiar a comemorao para quando ele conseguisse voltar, deixando os preparativos a cargo da me de Olga e da sua.
Ao entrar saltitante na Central Station, na Exchange Street, ele topou com Rosa Hellman, que vinha saindo com um chapu vermelho, carregando uma pequena valise.
-		Ol - cumprimentou ele. - Posso ajud-la com a sua bagagem?
-		No, obrigada, est leve - respondeu ela. - Passei s uma noite fora. Fui fazer uma entrevista numa agncia de notcias.
Ele arqueou as sobrancelhas.
-		Para uma vaga de reprter?
-		Sim. E consegui.
-		Meus parabns! Perdoe-me se pareci surpreso... Achava que as agncias no contratassem reprteres do sexo feminino.
-		 raro, mas j aconteceu. O New York Times contratou sua primeira reprter mulher em 1869. O nome dela era Maria Morgan.
-		E o que voc vai fazer?
-		Vou ser assistente do correspondente em Washington. A verdade  que a vida amorosa do presidente os fez pensar que eles precisam de uma mulher l. Os homens costumam deixar passar as matrias romnticas.
Gus ficou imaginando se ela teria mencionado ser amiga de um dos assessores mais prximos de Wilson. Achou que sim: reprteres nunca tinham esse tipo de prurido. Sem dvida a havia ajudado a conseguir o emprego.
-		Eu estou voltando - disse ele. - Pelo jeito, nos vemos l.
-		Espero que sim.
-		Tambm tenho boas notcias - disse ele, cheio de alegria. - Pedi Olga Vyalov em casamento e ela disse sim. Ns vamos nos casar.
Ela o olhou demoradamente, ento disse:
-		Seu idiota.
Gus teria ficado menos chocado se ela houvesse lhe dado um tapa. Ficou olhando para ela, boquiaberto.
-		Seu grandessssimo idiota! - repetiu ela e saiu andando.
Dois outros americanos morreram no dia 19 de agosto, quando os alemes torpedearam outro grande navio britnico, o Arabic.

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   Gus sentiu pena das vtimas, mas ficou ainda mais consternado com o fato de os Estados Unidos estarem sendo arrastados, de forma inexorvel, em direo ao conflito europeu. Sentia que o presidente estava a um passo de dar incio s hostilidades. Gus queria se casar em um mundo de paz e felicidade; causava-lhe horror pensar em um futuro conspurcado pelo caos, pela crueldade e pela destruio da guerra.
   Conforme as instrues de Wilson, Gus disse a alguns reprteres, em off, que o presidente estava prestes a romper relaes diplomticas com a Alemanha. Enquanto isso, o novo secretrio de Estado, Robert Lansing, tentava fazer algum tipo de acordo com o embaixador alemo, conde Johann von Bernstorff.
   Aquilo poderia sair terrivelmente errado, pensou Gus. Os alemes poderiam denunciar o blefe de Wilson e confront-lo. O que ele faria ento? Se ficasse de braos cruzados, passaria por idiota. O presidente disse a Gus que o rompimento das relaes diplomticas no necessariamente levaria  guerra. Gus ficou com a sensao apavorante de que a crise estava fora de controle.
   O Kaiser, no entanto, no queria uma guerra contra os Estados Unidos, e, para imenso alvio de Gus, a aposta de Wilson deu certo. No final de agosto, os alemes prometeram no atacar navios de passageiros sem aviso prvio. No era uma garantia totalmente satisfatria, mas pelo menos ps fim ao impasse.
   Os jornais norte-americanos, que no pescaram nenhuma das sutilezas envolvidas, mostraram-se exultantes. No dia 2 de setembro, Gus leu em voz alta para Wilson, em tom triunfal, um pargrafo de um artigo elogioso publicado no New York Evening Post daquele dia:
  -		"Sem mobilizar regimento algum nem reunir uma frota sequer, graas  simples, tenaz e incansvel persistncia na defesa do que  certo, ele forou  rendio a mais orgulhosa, arrogante e bem armada de todas as naes."
  -		Eles ainda no se renderam - comentou o presidente.
Em uma noite no final de setembro, Lev foi levado at o depsito, despido de todas as roupas e teve as mos amarradas nas costas. Ento Vyalov saiu de seu escritrio.
  -		Seu cachorro! - disse ele. - Seu cachorro louco!
  -		O que eu fiz? - implorou Lev.
  -		Voc sabe muito bem, seu vira-lata imundo - respondeu Vyalov.
   Lev estava aterrorizado. No conseguiria se safar na base da lbia caso Vyalov se recusasse a escut-lo.
   
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   Vyalov tirou o palet e arregaou as mangas da camisa.
   - V buscar - ordenou.
   Norman Niall, seu contador franzino, entrou no escritrio e voltou trazendo um cnute.
   Lev olhou para o instrumento. Era um aoite do tipo russo, usado tradicionalmente para punir criminosos. Tinha um cabo de madeira comprido e trs correias de couro reforado, cada qual com uma bola de chumbo na ponta. Lev nunca havia sido aoitado na vida, mas j vira o castigo ser aplicado. Na zona rural, era uma punio corriqueira para pequenos roubos ou adultrio. Em So Petersburgo, o cnute era reservado, em geral, para criminosos polticos. Vinte chibatadas poderiam deixar um homem aleijado; cem o mandavam para a cova.
   Ainda usando o colete transpassado pela corrente de seu relgio de ouro, Vyalov ergueu o cnute. Niall deu uma risadinha. Ilya e Theo observavam com interesse.
   Amedrontado, Lev tentou fugir, virando-se de costas e indo se encolher junto a uma pilha de pneus. O aoite varou o ar com um sibilo cruel, acertando-lhe o pescoo e os ombros, e ele soltou um grito de dor.
   Vyalov o golpeou novamente com o cnute. Desta vez, a dor foi maior.
   Lev no conseguia acreditar no tamanho de sua idiotice. Havia trepado com a filha virgem de um homem poderoso e violento. Onde  que estava com a cabea? Por que nunca conseguia resistir  tentao?
   Vyalov tornou a bater. Desta vez, Lev se esquivou do cnute, tentando evitar o golpe. Apenas as pontas das correias o atingiram, mas, ainda assim, cravaram-se em sua carne, causando uma dor excruciante e fazendo-o gritar novamente. Tentou se afastar, mas os homens de Vyalov o empurraram de volta, rindo.
   Vyalov voltou a erguer o aoite, comeou a desc-lo, interrompeu o movimento enquanto Lev se esquivava e por fim desferiu o golpe. As pernas de Lev foram cortadas e ele viu sangue escorrendo das feridas. Quando Vyalov golpeou mais uma vez, ele comeou a correr para longe, desesperado, ento tropeou e caiu no cho de concreto. Enquanto ficava deitado de costas, perdendo as foras com rapidez, Vyalov o aoitou na parte da frente, atingindo sua barriga e suas coxas. Lev se virou de bruos, ferido e amedrontado demais para se levantar, mas o cnute no dava trgua. Ele reuniu energia suficiente para engatinhar um pouco, feito um beb, mas escorregou no prprio sangue e o aoite tornou a castig-lo. Ele parou de gritar: no tinha mais flego. Concluiu que Vyalov iria aoit-lo at a morte. Tudo o que queria era perder os sentidos.
   Vyalov, contudo, negou-lhe esse alvio. Ofegante por conta do esforo, ele deixou cair o cnute.
   
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-		Eu deveria matar voc - disse ele, aps recuperar o flego. - Mas no posso.
Lev ficou perplexo. Deitado em uma poa de sangue, voltou-se e encarou seu
torturador.
-		Ela est grvida - falou Vyalov.
Em meio a uma nvoa de medo e dor, Lev tentou raciocinar. Eles haviam usado preservativos. Era possvel compr-los em qualquer grande cidade americana. Ele nunca tinha deixado de coloc-los... exceto naquela primeira vez,  claro, quando imaginava que nada fosse acontecer... e naquela outra em que ela decidira lhe mostrar a casa vazia e os dois haviam transado na cama grande do quarto de hspedes... alm daquela ocasio no jardim, depois do escurecer...
Percebeu que tinham sido vrias vezes.
-		Ela ia se casar com o filho do senador Dewar - disse Vyalov, e Lev pde detectar tanto amargura quanto raiva na voz spera. - O meu neto poderia ter sido presidente.
Lev estava com dificuldade para pensar direito, mas entendeu que o casamento teria de ser cancelado. Gus Dewar jamais se casaria com uma garota grvida de outro homem, por mais que a amasse. A menos que...
Lev conseguiu articular algumas palavras roucas:
-		Ela no precisa ter o beb... existem mdicos aqui mesmo na cidade...
Vyalov apanhou de volta o cnute e Lev se encolheu.
-		Nem pense numa coisa dessas! - gritou Vyalov. -  contra a vontade de Deus!
Lev ficou pasmo. Conduzia a famlia Vyalov  igreja todos os domingos, mas sempre havia pensado que, para Josef, a religio fosse uma farsa. O homem levava uma vida de desonestidade e violncia. E, mesmo assim, no podia ouvir falar em aborto! Lev teve vontade de perguntar se a Igreja dele no proibia subornos e espancamentos.
-		Voc tem ideia da humilhao que est me causando? - perguntou Vyalov. - Todos os jornais da cidade anunciaram o noivado. - O rosto dele ficou vermelho e sua voz se transformou em um rugido. - O que vou dizer ao senador Dewar? Eu j reservei a igreja! J contratei o buf! Os convites esto na grfica! Posso at ver a Sra. Dewar, aquela vaca velha e arrogante, rindo de mim por trs daquela mo enrugada. E tudo por causa de uma porra de um chofer!
Ele tornou a erguer o cnute, mas ento o atirou longe com um gesto brusco.
-		No posso matar voc. - Ele se virou para Theo. - Leve este merda ao mdico - ordenou. - Pea para darem um jeito nele. Ele vai se casar com a minha filha.

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CAPTULO DEZESSEIS
Junho de 1916

Podemos ter uma conversinha, rapaz? - perguntou o pai de Billy.
           Billy ficou espantado. H quase dois anos, desde que ele tinha parado de
frequentar a Capela de Bethesda, os dois mal se falavam. Havia sempre uma tenso no ar na pequena casa de Wellington Row. Billy quase no se lembrava mais
de como era ouvir vozes conversando em tom tranquilo e amigvel na cozinha -
ou mesmo em tom exaltado, como durante as discusses acaloradas que eles
costumavam ter. O clima ruim em casa era metade da razo que levara Billy a
se alistar no Exrcito.
   O tom de Da, no entanto, era quase humilde. Billy examinou a expresso do
pai com cuidado. Seu rosto estava em sintonia com a voz: nenhuma hostilidade,
nenhuma provocao, apenas um pedido.
   Mesmo assim, Billy no estava preparado para danar conforme a msica dele.
   -		Para qu? - perguntou.
   Da abriu a boca para retrucar com rispidez, mas se conteve.
   -		Eu agi com orgulho - disse ele. - Isso  um pecado. Talvez voc tambm
tenha sido orgulhoso, mas essa questo  entre voc e o Senhor, no serve de desculpa para mim.
   -		Levou dois anos para o senhor perceber isso?
   -		Teria levado mais ainda se voc no tivesse entrado para o Exrcito.
   Billy e Tommy haviam se alistado voluntariamente no ano anterior, aps mentirem a respeito da idade. Entraram para o 89batalho dos Fuzileiros Galeses,
conhecido como Aberowen Pais, ou "amigos de Aberowen". Os batalhes daquele
tipo eram uma ideia recente. Homens da mesma cidade eram mantidos juntos
para treinar e combater ao lado de pessoas que conheciam desde crianas. Isso
era considerado bom para o moral das tropas.
   O grupo de Billy havia treinado durante um ano, na maior parte do tempo em
um quartel novo perto de Cardiff. Ele havia gostado da experincia. Era mais
fcil do que extrair carvo e bem menos perigoso. Alm de uma boa quantidade
de puro tdio - "treinamento" muitas vezes significava o mesmo que "espera" -,
havia esportes, jogos e a camaradagem de um grupo de rapazes aprendendo coisas
novas. Durante um longo perodo sem nada para fazer, ele havia apanhado um
   
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livro a esmo e, quando se deu conta, estava lendo a pea Macbeth. Para sua surpresa, ficara empolgado com a histria e achara a poesia do texto estranhamente fascinante. A lngua de Shakespeare no era difcil para quem tinha passado tantas horas estudando o ingls seiscentista da Bblia protestante. Desde ento, ele tinha lido a obra completa do autor, relendo vrias vezes as melhores peas.
   Agora o treinamento havia terminado e o batalho tinha dois dias de folga antes de ir para a Frana. Da achava que talvez aquela seria a ltima vez que veria Billy com vida. Devia ser por isso que estava descendo do seu pedestal para conversar.
   Billy olhou para o relgio. Fora at l apenas para se despedir da me. Estava planejando passar a folga em Londres, com a irm Ethel e sua inquilina sensual. O rosto bonito de Mildred, com seus lbios vermelhos e seus dentes de coelho, no lhe havia sado da cabea desde que ela o chocara ao dizer: Puta merda, voc  o Billy? Sua bolsa de soldado estava no cho ao lado da porta, carregada e pronta. As obras completas de Shakespeare faziam parte da bagagem. Tommy o aguardava na estao.
   -		Tenho um trem para pegar - disse ele.
   -		H trens de sobra - falou Da. - Sente-se, Billy... por favor.
   O rapaz no se sentia  vontade com o pai daquele jeito. Da podia ser moralista, arrogante e duro, mas pelo menos era forte. Billy no queria v-lo fraquejar.
   Gramper estava sentado em sua cadeira de sempre, escutando a conversa.
   -		Vamos, Billy, seja um bom garoto - disse, tentando convencer o neto. - D uma chance ao seu pai, sim?
   -		Ento est bem. - Billy sentou-se  mesa da cozinha.
   Sua me entrou vinda da rea de servio.
   Houve um instante de silncio. Billy se deu conta de que poderia nunca mais entrar naquela casa. Ao voltar de um quartel do Exrcito, percebera pela primeira vez como ela era pequena, os cmodos escuros, o ar carregado de poeira de carvo e cheiro de comida. Acima de tudo, depois de viver no clima descontrado do alojamento militar, entendera que havia sido criado dentro de uma moral religiosa inflexvel, em que muito daquilo que era humano e natural fora reprimido. Ainda assim, a ideia de ir embora dali o deixava triste. No estava deixando para trs apenas aquele lugar, mas aquela vida tambm. Tudo ali tinha sido simples. Ele havia acreditado em Deus, obedecido ao pai e confiado em seus colegas na mina. Os donos da mineradora eram maus, o sindicato protegia os trabalhadores e o socialismo oferecia um futuro melhor. Mas a vida no era to simples assim. Ele poderia at voltar a Wellington Row, mas jamais voltaria a ser o menino que havia morado ali.
   
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Da entrelaou os dedos das mos, fechou os olhos e disse:
-		, Deus, ajude Seu servo a ser humilde e dcil como Jesus. - Ento abriu os olhos e perguntou: - Por que voc fez isso, Billy? Por que se alistou?
-		Porque ns estamos em guerra - respondeu o rapaz. - Quer o senhor goste ou no, temos que lutar.
-		Mas voc no percebe... - Da se interrompeu e ergueu a mo em um gesto de paz. - Deixe-me comear de novo. Voc no acredita no que leu nos jornais sobre os alemes serem homens maus que estupram freiras, acredita?
-		No - respondeu Billy. - Os jornais nunca disseram nada alm de mentiras sobre os mineradores, ento duvido que estejam falando a verdade em relao aos alemes.
-		Para mim, esta  uma guerra capitalista que no tem nada a ver com a classe trabalhadora - falou Da. - Mas talvez voc no concorde.
Billy estava impressionado com o esforo do pai para se mostrar diplomtico. Era a primeira vez na vida que o ouvia dizer talvez voc no concorde.
-		Eu no sei grande coisa sobre capitalismo - retrucou -, mas imagino que o senhor tenha razo. Mesmo assim, algum precisa deter os alemes. Eles se acham no direito de governar o mundo!
-		Ns somos britnicos - falou Da. - Nosso imprio tem sob seu domnio mais de 400 milhes de pessoas. Quase nenhuma delas possui direito de voto. Elas no tm controle sobre seus prprios pases. Pergunte ao britnico mdio qual  a razo disso e ele responder que governar povos inferiores  o nosso destino. - Da estendeu as mos uma para cada lado em um gesto que significava No  bvio? - Billy, meu filho, no so os alemes que se acham no direito de governar o mundo... somos ns!
Billy suspirou. Concordava com tudo aquilo.
-		Mas ns estamos sendo atacados. Os motivos da guerra podem estar errados, mas precisamos lutar assim mesmo.
-		Quantos homens morreram nos ltimos dois anos? - perguntou Da. - Milhes! - Sua voz saiu um pouco mais alta, porm ele estava mais triste do que irritado. - Isso vai continuar enquanto houver rapazes dispostos a matar uns aos outros assim mesmo, como voc diz.
-		Vai continuar at algum vencer, me parece.
-		Imagino que voc esteja com medo de ser visto como covarde - disse sua me.
-		No  isso - respondeu ele, mas sua me tinha razo.
Suas justificativas racionais para o fato de ter se alistado eram s parte da verdade. Como sempre, Mam enxergou dentro do seu corao. H quase dois anos

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Billy vinha lendo e ouvindo falar que rapazes saudveis como ele eram covardes
se no lutassem. Era o que saa nos jornais e o que as pessoas diziam nas lojas e
nos pubs. No centro de Cardiff, garotas bonitas entregavam penas brancas a
qualquer rapaz sem farda, enquanto os sargentos encarregados do recrutamento
zombavam dos jovens civis pelas ruas. Billy sabia que no passava de propaganda, mas nem por isso deixava de se abalar. Mal conseguia suportar a ideia de que
as pessoas o considerassem um medroso.
   Imaginava-se explicando quelas garotas que distribuam penas brancas que
extrair carvo era mais perigoso do que estar no Exrcito. Com exceo dos soldados do front, a maioria tinha menos chances de morrer ou se ferir do que os
mineradores. E a Gr-Bretanha precisava do carvo. Era ele que abastecia metade
da Marinha. Na verdade, o governo havia pedido aos mineradores que no se
alistassem. Mas nada disso fazia qualquer diferena. Desde que vestira a tnica e
a cala do spero uniforme cqui e que calara as botas novas e pusera o quepe
sobre a cabea, Billy se sentia melhor.
  -		As pessoas acham que vai haver uma grande ofensiva no final do ms - disse Da.
   Billy aquiesceu.
  -		Os oficiais no dizem nada, mas  o que todos os outros esto falando. Por
isso, essa pressa toda em mandar mais homens para o front, imagino.
  -		Os jornais dizem que essa talvez seja a batalha que vai fazer a mar virar... o
incio do fim.
  -		Bem, tomara.
  -		Graas a Lloyd George, agora no deve mais faltar munio para vocs.
  -		 verdade. - No ano anterior, houvera uma escassez de projteis. Os protestos da imprensa sobre o que ficou conhecido como o Escndalo dos Projteis
tinham quase derrubado o primeiro-ministro Asquith. Este havia formado um
governo de coalizo, criado o novo cargo de ministro das Munies e confiado o
posto ao membro mais popular do gabinete, David Lloyd George. Desde ento,
a produo havia aumentado vertiginosamente.
  -		Tente se cuidar - falou Da.
  -		No banque o heri - disse Mam. - Deixe isso para quem comeou a guerra... os aristocratas, os conservadores, os oficiais. Cumpra suas ordens e pronto.
  -		Guerra  guerra - disse Gramper. - No tem como ser segura.
   Eles estavam se despedindo. Billy sentiu uma vontade de chorar que reprimiu
com dureza.
  -		Ento  isso - falou, levantando-se.
   Gramper apertou sua mo. Mam lhe deu um beijo. Da tambm apertou a mo
   
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dele, e ento, cedendo a um impulso, o abraou. Billy no conseguia se lembrar da ltima vez em que o pai fizera isso.
  -		Que Deus o abenoe e o proteja, Billy - falou Da. Seus olhos estavam marejados de lgrimas.
   Billy quase perdeu o autocontrole.
  -		At a volta, ento - disse.
   Pegou sua sacola. Ouviu a me soluar. Sem olhar para trs, saiu de casa e fechou a porta s suas costas.
   Respirou fundo e se recomps. Em seguida, comeou a descer a rua ngreme em direo  estao.
II
O rio Somme serpenteava pela Frana de leste a oeste a caminho do mar. A frente de batalha, que corria de norte a sul, cruzava o rio no muito longe de Amiens. Mais ao sul, a linha de frente dos Aliados era defendida pelas tropas francesas at a Sua. Ao norte, a maioria dos soldados vinha da Gr-Bretanha e da Commonwealth.
   A partir dali, uma srie de colinas se estendia a noroeste por cerca de 30 quilmetros. As trincheiras alems nessa regio haviam sido escavadas na encosta das colinas. De dentro de uma delas, Walter von Ulrich espiava as posies britnicas atravs de um poderoso binculo Zeiss Doppelfernrohr.
   Era um dia de sol no comeo do vero, e ele podia ouvir o canto dos pssaros. Em um pomar prximo que at ento conseguira escapar da artilharia, corajosas macieiras floresciam. O homem era o nico animal que matava seus semelhantes aos milhes e que transformava a natureza em um deserto de crateras de arame farpado. Talvez a raa humana acabasse se extinguindo por completo, deixando o mundo para os pssaros e rvores, pensou Walter, apocalptico. Talvez fosse melhor assim.
   A localizao elevada tinha muitas vantagens, refletiu ele, voltando a pensar em questes prticas. Os britnicos teriam que atacar encosta acima. Ainda mais til era a capacidade dos alemes de verem tudo o que os inimigos estavam fazendo. E Walter teve certeza de que, naquele exato momento, eles estavam preparando um ataque macio.
   Era praticamente impossvel ocultar uma atividade desse tipo. H meses que os britnicos vinham, de forma preocupante, aprimorando as estradas e ferrovias daquela regio antes sossegada do interior da Frana. Agora, usavam essas linhas de abastecimento para trazer centenas de armas pesadas, milhares de cavalos e
   
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dezenas de milhares de homens. Atrs da frente de batalha, fluxos constantes de caminhes e trens descarregavam caixotes de munio, barris de gua potvel e fardos de feno. Walter focalizou as lentes do binculo em uma unidade de comunicaes, que escavava uma trincheira estreita e desenrolava um rolo imenso, sem dvida de cabo telefnico.
   Eles devem estar sonhando alto, pensou, apreensivo. A mobilizao de pessoal, dinheiro e esforos era colossal. A nica justificativa para tanto seria os britnicos acharem que aquele ataque decidiria a guerra. Walter torcia para que fosse o caso - independentemente do resultado.
   Sempre que olhava para o territrio inimigo, pensava em Maud. A fotografia que levava na carteira, um recorte da revista Tatler, mostrava-a usando um vestido de baile muito simples no Hotel Savoy, com a legenda Lady Maud Fitzherbert sempre vestida na ltima moda. Walter imaginou que ela no andasse danando muito ultimamente. Ser que havia encontrado uma maneira de participar do esforo de guerra, a exemplo da irm de Walter, Greta, que levava pequenos agrados para os feridos nos hospitais de campanha de Berlim? Ou teria se refugiado no campo, como a me de Walter, que passara a plantar batatas nos canteiros de flores por causa da escassez de comida?
   Ele no sabia se havia falta de alimentos na Gr-Bretanha. A Marinha alem estava presa nos portos por conta do bloqueio britnico, de modo que as importaes martimas continuavam paralisadas h quase dois anos. Mas os ingleses recebiam mantimentos dos Estados Unidos. Submarinos alemes atacavam transatlnticos de forma intermitente, mas o alto-comando ainda no deslanchara um ataque total - conhecido como guerra submarina irrestrita - por medo de que isso fizesse os Estados Unidos entrarem na guerra. Portanto, Walter imaginava que Maud no deveria estar passando tanta fome quanto ele. Ainda assim, ele estava em melhor situao do que os civis alemes. Em algumas cidades, eclodiram greves e protestos contra a escassez de comida.
   Ele no lhe escrevera, e ela tampouco. No havia servio postal entre a Alemanha e a Gr-Bretanha. A nica chance seria se um deles viajasse at um pas neutro - para os Estados Unidos ou a Sucia, talvez - e enviasse a carta de l. Porm, ele ainda no tivera essa oportunidade - e, ao que tudo indicava, ela tambm no.
   Era um suplcio no saber nada a seu respeito. Walter vivia atormentado pelo temor de que ela pudesse estar no hospital, doente, sem ele saber. Ansiava pelo fim da guerra para poder ficar ao seu lado. Queria desesperadamente que a Alemanha vencesse,  claro, mas s vezes tinha a sensao de que no se importaria em perder,
   
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contanto que Maud ficasse bem. Seu maior pesadelo era, quando terminasse a guerra, voltar a Londres para encontr-la e descobrir que estava morta.
   Empurrou esse pensamento assustador para os confins de sua mente. Abaixou o binculo, focalizou as lentes em um ponto mais prximo e examinou as defesas de arame farpado, do lado alemo da terra de ningum. Eram dois cintures, cada qual com uns cinco metros de largura. O arame farpado era preso ao cho com firmeza por estacas de ferro, o que tornava difcil mov-lo. Isso criava uma barreira formidvel, tranquilizadora.
   Ele saiu do parapeito da trincheira e depois desceu um longo lance de degraus de madeira, at um abrigo profundo. A desvantagem da posio na colina era que as trincheiras ficavam mais visveis para a artilharia inimiga, ento, para compensar, os abrigos naquele setor haviam sido escavados bem fundo no terreno, de modo a garantir proteo contra qualquer ataque - com a exceo de um disparo certeiro do maior tipo de projtil. Havia espao para abrigar todos os homens da guarnio da trincheira durante um bombardeio. Alguns abrigos eram interligados, proporcionando uma sada alternativa caso o ataque bloqueasse a entrada.
   Walter sentou-se em um banco de madeira e sacou seu bloco de anotaes. Passou alguns minutos escrevendo lembretes resumidos sobre tudo o que tinha visto. Seu relatrio confirmaria as informaes de outras fontes da inteligncia. Os agentes secretos j vinham alertando o alto-comando sobre o que os britnicos chamavam de "grande ofensiva".
   Ele percorreu o labirinto de trincheiras at a retaguarda. Os alemes haviam construdo trs linhas de trincheiras a dois ou trs quilmetros de distncia uma da outra, de modo que, se fossem rechaados da linha de frente, poderiam se refugiar em uma segunda linha, e, caso isso tambm fracassasse, em uma terceira. Fosse qual fosse o resultado, pensou com uma satisfao considervel, os britnicos no teriam uma vitria fcil.
   Walter pegou seu cavalo e foi at o quartel-general do Segundo Exrcito, chegando na hora do almoo. No refeitrio dos oficiais, ficou surpreso ao encontrar o pai. Como oficial superior do Estado-Maior, Otto passara a ir de um campo de batalha a outro da mesma forma que, em tempos de paz, viajava entre as vrias capitais europeias.
   Otto estava com uma aparncia envelhecida. Havia emagrecido - assim como todos os alemes. Sua franja de monge estava cortada to curta que ele parecia careca. Mas tambm parecia lpido e alegre. A guerra lhe fazia bem. Ele gostava da agitao, da correria, das decises rpidas e da sensao de emergncia constante.
   Seu pai nunca falava de Maud.
   
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-		O que voc viu? - perguntou ele a Walter.
-		Vai haver um ataque macio aqui nesta regio nas prximas semanas.
Otto sacudiu a cabea com ceticismo.
-		O setor do rio Somme  a parte mais bem defendida do nosso front. Ns temos a vantagem de uma posio elevada e trs linhas de trincheiras. Em uma guerra, deve-se atacar o inimigo no ponto mais fraco, no no mais forte... at os britnicos sabem disso.
Walter relatou o que acabara de ver: os caminhes, os trens e a unidade de comunicaes instalando linhas telefnicas.
-		Acho que  um blefe - disse Otto. - Se este fosse o verdadeiro local do ataque, eles estariam mais preocupados em ocultar suas atividades. Haver um ataque simulado aqui, seguido pela ofensiva de verdade mais ao norte, em Flandres.
-		O que Von Falkenhayn pensa a respeito? - indagou Walter. Fazia quase dois anos que Erich von Falkenhayn era chefe do Estado-Maior.
Seu pai sorriu.
-		Ele pensa o que eu digo para ele pensar.
Depois do almoo, enquanto o caf era servido, lady Maud perguntou a lady Hermia:
-		Tia, em caso de emergncia, voc saberia como entrar em contato com o advogado de Fitz?
Tia Herm pareceu ligeiramente chocada.
-		Querida, por que eu iria me meter com advogados?
-		Nunca se sabe. - Maud se virou para o mordomo, que pousava o bule de caf sobre uma trempe de prata. - Grout, voc me traria, por gentileza, uma folha de papel e um lpis? - Grout se retirou, voltando em seguida com o pedido. Maud escreveu o nome e o endereo do advogado da famlia.
-		Por que eu precisaria disso? - perguntou tia Herm.
-		Talvez eu seja presa hoje  tarde - disse Maud com animao. - Se for o caso, por favor, pea a ele para me tirar da cadeia.
-		Ah! - exclamou tia Herm. - Voc no pode estar falando srio!
-		No se preocupe, tenho certeza de que no vai chegar a tanto - falou Maud. - Mas  sempre bom se precaver, no ? - Ela deu um beijo na tia e saiu.
A atitude de tia Herm enfurecia Maud, mas era assim que a maioria das mulheres se comportava. Era imprprio para uma dama sequer saber o nome do

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seu prprio advogado, quanto mais compreender seus direitos legais. No era de espantar que elas fossem exploradas sem d.
   Maud vestiu o chapu, as luvas e um casaco leve de vero. Em seguida, saiu de casa e pegou um nibus para Aldgate.
   Estava sozinha. As regras quanto a acompanhantes haviam ficado menos rgidas desde o incio da guerra. J no era um escndalo uma mulher solteira sair desacompanhada durante o dia. Tia Herm reprovava essa mudana, mas no podia trancar Maud em casa - tampouco podia recorrer a Fitz, que estava na Frana, de modo que era obrigada a aceitar a situao, por mais emburrada que ficasse.
   Maud era editora do jornal The Soldiers Wife, "a esposa do soldado", um peridico de baixa circulao que militava em prol de um tratamento mais justo aos dependentes dos militares. Um membro conservador do Parlamento havia descrito o jornal como "um estorvo pernicioso para o governo" - frase que desde ento enfeitava o cabealho da primeira pgina de cada edio. A militncia obstinada de Maud era movida por sua indignao perante a represso contra as mulheres, bem como pelo horror que o massacre despropositado da guerra lhe causava. Usando sua pequena herana, ela subsidiava o jornal. Afinal, nem precisava daquele dinheiro: Fitz sempre arcava com todas as suas despesas.
   Ethel Williams era gerente do jornal. Ficara feliz em trocar a fbrica de roupas por um salrio melhor e por um papel na militncia. Ethel compartilhava da indignao de Maud, mas suas habilidades eram outras. Maud entendia a poltica em seus nveis mais elevados - encontrava-se socialmente com ministros e conversava com eles sobre as questes da atualidade. Ethel conhecia um mundo poltico diferente: o Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Indstria Txtil, o Partido Trabalhista Independente, as greves, lockouts e passeatas.
   Conforme o combinado, Maud encontrou Ethel em frente ao escritrio de Aldgate da Associao das Famlias de Soldados e Marinheiros, s que do outro lado da rua.
   Antes da guerra, essa bem-intencionada instituio de caridade permitia que senhoras ricas proporcionassem, generosamente, auxlio e conselhos s necessitadas mulheres dos militares. Agora seu papel era outro. O governo pagava uma libra e um xelim para cada mulher de soldado com dois filhos que estivesse separada do marido por causa da guerra. O benefcio era conhecido como auxlio-separao. No era grande coisa - cerca de metade do salrio de um minerador -, mas bastava para tirar da misria milhes de mulheres e crianas. A Associao das Famlias de Soldados e Marinheiros administrava essa penso.
   O dinheiro, no entanto, s era pago s mulheres que apresentassem "bom
   
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comportamento", de modo que as administradoras da instituio s vezes no repassavam o benefcio do governo quelas que recusassem seus conselhos sobre criao dos filhos, administrao da casa e os perigos de se frequentar cabars e beber gim.
   Maud tambm achava que seria melhor para aquelas mulheres ficarem longe do gim, mas isso no dava a ningum o direito de jog-las na misria. Ficava possessa de indignao quando via gente de classe mdia e vida confortvel dando lies de moral s esposas dos soldados e privando-as da oportunidade de alimentar os filhos. O Parlamento no permitiria um abuso desses, pensou, se as mulheres pudessem votar.
   Junto com Ethel, havia uma dzia de mulheres de classe operria e um homem, Bernie Leckwith, secretrio do ncleo de Aldgate do Partido Trabalhista Independente. O partido aprovava o jornal de Maud e apoiava suas campanhas.
   Quando Maud se juntou ao grupo reunido na calada, Ethel estava conversando com um rapaz que segurava um bloco de anotaes.
   -		O auxlio-separao no  uma esmola - dizia ela. - As mulheres dos soldados tm direito a esse dinheiro. O senhor por acaso precisa passar por um teste de boa conduta para receber seu salrio de reprter? Algum pergunta ao Sr. Asquith quanto vinho Madeira ele bebe antes de poder receber seus honorrios de membro do Parlamento? Essas mulheres tm direito ao benefcio exatamente como se ele fosse um salrio.
   Ethel havia desenvolvido um estilo prprio, pensou Maud. Expressava-se de forma simples e incisiva. Talvez tivesse herdado o talento do pai pregador.
   O reprter olhava para Ethel com admirao. Parecia a meio caminho de se apaixonar por ela. Quase como se pedisse desculpas, falou:
   -		Seus opositores dizem que uma mulher no deveria receber o auxlio caso estivesse sendo infiel ao marido soldado.
   -		E quem est de olho nos maridos? - perguntou Ethel, indignada. - Imagino que existam casas de tolerncia na Frana e onde quer que nossos homens estejam servindo. Por acaso o Exrcito anota os nomes dos homens casados que frequentam essas casas e corta seus salrios? Adultrio  pecado, mas no serve de motivo para empobrecer a pecadora e fazer seus filhos morrerem de fome.
   Ethel carregava o filho Lloyd no colo. O menino estava com um ano e quatro meses e j sabia andar, ou melhor, cambalear. Tinha cabelos escuros finos e olhos verdes e era bonito como a me. Maud estendeu as mos para peg-lo e o beb foi todo feliz para o seu colo. Ela sentiu uma pontada de tristeza: quase desejava ter engravidado na nica noite que passara com Walter, apesar de todos os problemas que isso teria acarretado.
   
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No tinha notcia nenhuma dele desde o Natal retrasado. Nem mesmo sabia
se ele estava vivo ou morto. Talvez j fosse viva. Tentava no ficar remoendo
aquilo, mas s vezes era assolada por pensamentos terrveis e tinha de segurar
o choro.
Depois de falar com o reprter, Ethel apresentou Maud a uma mulher com
duas crianas agarradas  barra da saia.
-		Esta  Jayne McCulley, de quem lhe falei. - Jayne tinha um rosto bonito e
uma expresso determinada.
Maud a cumprimentou com um aperto de mo e disse:
-		Espero que consigamos justia para a senhora hoje.
-		 muita bondade sua, senhora, de verdade. - A deferncia era um hbito
difcil de perder, mesmo nos movimentos polticos igualitrios.
-		Estamos todos prontos? - perguntou Ethel.
Maud devolveu Lloyd  me e o grupo atravessou junto a rua, entrando pela
porta da frente do escritrio da instituio. Havia uma rea de recepo, com
uma mulher de meia-idade sentada atrs de uma escrivaninha. Ela pareceu
assustada ao ver tanta gente.
-		No h motivo para preocupao - disse-lhe Maud. - A Sra. Williams e eu
viemos falar com sua gerente, a Sra. Hargreaves.
A recepcionista se levantou.
-		Vou ver se ela est - respondeu com nervosismo.
-		Eu sei que ela est - disse Ethel. - Acabei de v-la entrar pela porta meia
hora atrs.
A recepcionista se retirou s pressas.
A mulher que voltou em sua companhia no se deixava intimidar com tanta
facilidade. A Sra. Hargreaves era uma quarentona rolia, que usava saia e casaco
franceses e um chapu da moda, enfeitado por um grande lao plissado. Em seu
corpo atarracado, o traje perdia toda a elegncia, pensou Maud venenosamente,
mas a mulher tinha a confiana que costuma andar de braos dados com a riqueza. Alm de um nariz enorme.
-		Pois no? - perguntou ela com rispidez.
Na luta pela igualdade feminina, pensou Maud, s vezes era preciso combater
no apenas homens, mas mulheres tambm.
-		Vim at aqui porque estou preocupada com a forma como a senhora vem
tratando a Sra. McCulley.
A Sra. Hargreaves fez cara de surpresa, sem dvida por causa do sotaque aristocrtico de Maud. Analisou-a de cima a baixo. Provavelmente tinha percebido

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que as roupas de Maud eram to caras quanto as suas. Quando tornou a falar, seu tom foi menos arrogante:
-		Infelizmente no posso discutir casos individuais.
-		Mas a Sra. McCulley me pediu para falar com a senhora. E est aqui para provar isso.
-		No se lembra de mim, Sra. Hargreaves? - perguntou Jayne McCulley.
-		Para dizer a verdade, lembro sim. A senhora foi muito descorts comigo.
Jayne se virou para Maud:
-		Eu disse para ela meter o nariz na vida de outra pessoa.
A referncia ao nariz causou risadinhas entre as mulheres, o que fez a Sra. Hargreaves enrubescer.
-		Mas a senhora no pode recusar um pedido de penso sob o pretexto de que foi destratada pela solicitante - disse Maud. Controlando a prpria raiva, ela tentou falar em um tom de fria reprovao. - Com certeza sabe disso, no?
Na defensiva, a Sra. Hargreaves empinou o queixo.
-		A Sra. McCulley foi vista no pub Dog and Duck e no cabar de Stepney, em ambas as ocasies acompanhada de um rapaz. A penso  para esposas de boa conduta. O governo no est interessado em financiar libertinagens.
Maud sentiu vontade de estrangular a mulher.
-		A senhora no me parece estar entendendo muito bem a sua funo - falou. - No  de sua alada recusar pagamentos com base em suspeitas.
A Sra. Hargreaves pareceu um pouco menos segura de si.
-		Imagino que o Sr. Hargreaves esteja bem seguro em casa, no est? - atalhou Ethel.
-		No, no est - apressou-se a responder a mulher. - Ele est com o exrcito no Egito.
-		Ah! - disse Ethel. - Nesse caso, a senhora tambm est recebendo o auxlio-separao.
-		Isso no vem ao caso.
-		Por acaso algum vai  sua casa verificar a sua conduta, Sra. Hargreaves? Eles medem o nvel do xerez no decantador em cima do seu aparador? Fazem perguntas sobre a sua amizade com o entregador da mercearia?
-		Como a senhora se atreve!?
-		A sua indignao  compreensvel. - disse Maud. - Mas talvez agora entenda melhor por que a Sra. McCulley reagiu daquela forma ao seu questionamento.
A Sra. Hargreaves ergueu a voz:
-		Isso  ridculo! No h a menor comparao!

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- Voc no est com medo? - perguntou Mildred.
  -		Estou - reconheceu Billy. - Um pouco.
   Ele conseguia se abrir com Mildred. De toda forma, ela parecia saber tudo a seu respeito. H dois anos que vivia com sua irm, e as mulheres sempre contavam tudo umas s outras. No entanto, havia outra coisa em Mildred que o deixava  vontade. As garotas de Aberowen viviam tentando impressionar os rapazes, dizendo frases de efeito e se olhando no espelho, mas Mildred era simplesmente ela mesma. s vezes dizia coisas chocantes e fazia Billy rir. Ele tinha a sensao de que podia lhe contar tudo.
   Quase no conseguia acreditar em quanto ela era atraente. O que o fascinava no eram seus cabelos claros encaracolados ou seus olhos azuis, mas sim sua atitude de quem no ligava para o que os outros estavam pensando. Havia tambm a diferena de idade. Mildred tinha 23 anos, enquanto ele ainda no completara 18. Ela parecia muito experiente, mas apesar disso estava claramente interessada nele, o que era muito lisonjeiro. Do outro lado do aposento, ele a encarava com desejo no olhar, torcendo por uma chance de conversar com ela a ss, imaginando se teria coragem de tocar sua mo, passar o brao ao seu redor e beij-la.
   Estavam todos sentados na cozinha de Ethel em volta da mesa quadrada: Billy, Tommy, Ethel e Mildred. Era uma noite quente e a porta do quintal dos fundos estava aberta. No cho de pedra, as duas filhas pequenas de Mildred brincavam com Lloyd. Enid e Lillian tinham trs e quatro anos respectivamente, porm Billy ainda no sabia dizer qual era qual. Por causa das crianas, as mulheres tinham preferido no sair, ento Billy e Tommy trouxeram algumas garrafas de cerveja do pub.
  -		Voc vai ficar bem - disse Mildred a Billy. - Foi treinado para isso.
  -		Sim, fui. - No que o treinamento tivesse aumentado grande coisa a confiana de Billy. Eles passaram um bom tempo marchando de um lado para outro, batendo continncia e praticando golpes de baioneta. Mas ele no tinha a sensao de ter aprendido a sobreviver.
  -		Se, chegando l, todos os alemes forem bonecos recheados de estopa amarrados em postes, ns vamos saber enfiar as baionetas neles - disse Tommy.
  -		Mas vocs sabem disparar as armas, no sabem? - perguntou Mildred.
   Durante algum tempo, eles haviam treinado com fuzis enferrujados e defeituosos marcados com as iniciais "F.T.", ou seja, para "Fins de Treinamento", o que significava que no podiam ser disparados sob hiptese alguma. Mas depois cada um deles havia recebido um fuzil de ferrolho manual Lee Enfield, com um
   
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cartucho removvel contendo dez balas calibre 303. Billy acabou descobrindo que atirava bem, conseguindo esvaziar o cartucho em menos de um minuto e mesmo assim acertar um alvo do tamanho de um homem a 300 metros de distncia. Os recrutas haviam sido informados que o Lee Enfield era famoso pela sua cadncia de tiro rpida: o recorde mundial era de 38 disparos por minuto.
-		O problema no  o armamento - respondeu Billy a Mildred. - O que me preocupa so os oficiais. At hoje, no conheci nenhum em quem pudesse confiar se estivssemos em uma emergncia na mina.
-		Os bons oficiais esto todos na Frana, imagino - disse Mildred, otimista. - Eles deixam os babacas aqui para conduzir os treinamentos.
Billy riu de sua escolha de palavras. Mildred no tinha o menor pudor.
-		Espero que voc esteja certa.
Na verdade, ele tinha medo mesmo era de sair correndo quando os alemes comeassem a atirar nele. Esse era o seu maior temor. Para ele, a humilhao seria pior do que um ferimento. s vezes ficava to atormentado com isso que ansiava pela chegada daquele momento terrvel, s para saber de uma vez como iria reagir.
-		Seja como for, estou contente por voc estar indo meter bala naqueles alemes malvados - disse Mildred. - So todos uns estupradores.
-		Se eu fosse voc, no acreditaria em tudo o que sai no Daily Mail - falou Tommy. - Eles quererem colocar na sua cabea que todos os sindicalistas so traidores. Eu sei que isso no  verdade. Quase todos os membros da minha seo do sindicato se alistaram voluntariamente. Ento talvez os alemes no sejam to maus quanto o Mail anda pintando.
-		, voc deve ter razo. - Mildred tornou a se virar para Billy. - Voc j viu O vagabundo?
-		Vi, adoro Charlie Chaplin.
Ethel pegou o filho no colo.
-		D boa-noite ao tio Billy. - O menino se contorceu no seu colo, sem querer ir para a cama.
Billy se lembrou de quando o sobrinho era recm-nascido e de como havia aberto a boca para chorar ento. Parecia to grande e forte agora.
-		Boa noite, Lloyd - disse ele.
Ethel batizara o filho em homenagem a Lloyd George. Billy era o nico a saber que ele tambm tinha um nome do meio: Fitzherbert. Estava registrado em sua certido de nascimento, mas Ethel no tinha contado a mais ningum.
Billy bem que gostaria de ter o conde Fitzherbert na mira de seu Lee Enfield.

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-		Ele se parece com Gramper, voc no acha? - perguntou Ethel.
Billy no conseguia ver a semelhana.
-		Quando ele tiver bigode eu respondo.
Mildred ps as duas filhas na cama ao mesmo tempo. As mulheres ento anunciaram que queriam jantar. Ethel e Tommy saram para comprar ostras, deixando Billy e Mildred sozinhos.
Assim que eles se foram, Billy falou:
-		Eu gosto muito de voc, Mildred.
-		Tambm gosto de voc - respondeu ela. Billy ento puxou sua cadeira para perto dela e a beijou.
Ela retribuiu o beijo com entusiasmo.
Ele j havia feito isso antes. Beijara vrias garotas na fila de trs do cinema Majestic, na Cwm Street. Elas sempre abriam a boca sem demora, de modo que ele fez o mesmo.
Mildred o afastou com delicadeza.
-		No to depressa - falou. - Faa assim. - Ento ela o beijou com a boca fechada, roando os lbios em suas bochechas, plpebras e pescoo, e, por fim, em sua boca. Foi estranho, mas ele gostou.
-		Faa a mesma coisa comigo - disse ela. Billy seguiu suas instrues. - Agora assim - falou ela, e ele sentiu a ponta de sua lngua nos lbios, tocando-os com a maior delicadeza possvel. Novamente a imitou. Ela ento lhe mostrou ainda mais uma forma de beijar, mordiscando-lhe o pescoo e o lbulo das orelhas. Ele teve a sensao de que poderia ficar fazendo aquilo para sempre.
Quando os dois pararam para respirar, ela acariciou sua bochecha e disse:
-		Voc aprende depressa.
-		Voc  linda - disse ele.
Tornou a beij-la e apertou seu seio. Ela o deixou fazer isso por algum tempo, mas, quando Billy comeou a ficar ofegante, afastou-lhe a mo.
-		No se empolgue demais - falou. - Eles vo voltar a qualquer momento.
Logo em seguida, ele ouviu o barulho da porta da frente.
-		Ah, droga! - disse.
-		Tenha pacincia - sussurrou ela.
-		Pacincia? - respondeu ele. - Eu vou para a Frana amanh.
-		Bom, amanh ainda no chegou, certo?
Billy ainda estava se perguntando o que ela queria dizer quando Ethel e Tommy entraram na sala.
Os quatro jantaram e terminaram a cerveja. Ethel lhes contou a histria de

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Janey McCulley e de como lady Maud havia sido carregada para fora da instituio de caridade por um policial. Fez a histria parecer cmica, porm Billy mal se continha de orgulho da irm e da forma como ela lutava pelos direitos das mulheres pobres. E ela era a gerente de um jornal e amiga de lady Maud! Ele estava decidido a um dia tambm ser um defensor das pessoas comuns. Era isso que admirava no pai. Da podia ser tacanho e cabea-dura, mas havia passado a vida inteira lutando pelos trabalhadores.
   A noite caiu e Ethel anunciou que era hora de dormir. Usou almofadas para improvisar camas no cho da cozinha para Billy e Tommy. Todos se recolheram.
   Billy ficou deitado ali, acordado, perguntando-se o que Mildred quisera dizer com Amanh ainda no chegou. Talvez estivesse apenas prometendo beij-lo de novo pela manh, quando ele estivesse saindo para pegar o trem rumo a Southampton. Mas parecia ter sugerido mais do que isso. Seria mesmo possvel que quisesse rev-lo ainda naquela noite?
   A ideia de ir ao quarto dela o deixou to agitado que ele no conseguiu dormir. Ela estaria de camisola e, sob os lenis, seu corpo estaria quente, pensou ele. Imaginou seu rosto sobre o travesseiro, sentindo cime da fronha por ela estar tocando sua face.
   Quando a respirao de Tommy lhe pareceu regular, Billy escapuliu dos lenis.
  -		Aonde voc vai? - perguntou Tommy, que no estava to ferrado no sono quanto Billy pensara.
  -		Ao banheiro - sussurrou Billy. - Cerveja demais.
   Tommy deu um grunhido e se virou para o outro lado.
   S de cueca, Billy subiu a escada. Trs portas davam para o patamar. Ele hesitou. E se tivesse entendido Mildred errado? Ela poderia soltar um grito ao v-lo. Seria um constrangimento s.
   No, ela no  do tipo que grita, pensou.
   Ele abriu a primeira das portas. Uma luz fraca vinha da rua e ele pde ver uma cama estreita com as cabeas louras das duas meninas sobre o travesseiro. Fechou a porta sem fazer barulho. Sentia-se um ladro.
   Tentou a porta seguinte. Nesse quarto, havia uma vela acesa, e seus olhos levaram alguns instantes para se adaptarem  sua luz trmula. Viu uma cama maior, com apenas uma cabea sobre o travesseiro. O rosto de Mildred estava virado na sua direo, mas ele no conseguia ver se seus olhos estavam abertos. Esperou um protesto, mas ela continuou calada.
   Ento entrou no quarto e fechou a porta s suas costas.
  -		Mildred? - sussurrou, hesitante.
   
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   Com uma voz muito clara, ela disse:
   -		J no era sem tempo, Billy. Deite na cama, rpido.
   Ele se enfiou entre os lenis e a abraou. Ao contrrio do que havia esperado, Mildred no estava usando camisola. Na verdade, percebeu, chocado, ela estava nua.
   De repente, ficou nervoso.
   -		Eu nunca... - comeou a falar.
   -		Eu sei - disse ela. - Voc vai ser o meu primeiro virgem.
Em junho de 1916, o major conde Fitzherbert foi lotado no 89batalho dos Fuzileiros Galeses, ficando responsvel pela Companhia B, composta por 128 soldados e quatro tenentes. Nunca havia comandado homens durante uma batalha e, no seu ntimo, estava dominado pela ansiedade.
   Ele estava na Frana, mas o batalho continuava na Inglaterra. Eram recrutas que haviam acabado de concluir seu treinamento. Conforme o brigadeiro explicou para Fitz, aqueles novatos seriam endurecidos por um punhado de veteranos. O exrcito profissional que fora mandado para a Frana em 1914 j no existia - mais da metade dos homens morrera -, e aquele era o Novo Exrcito de Kitchener. O batalho de Fitz chamava-se Aberowen Pais.
   -		O senhor deve conhecer a maioria deles - falou o brigadeiro, que no parecia ter noo da largura do abismo que separava condes e mineradores de carvo.
   Fitz recebeu suas ordens junto com meia dzia de outros oficiais, ento pagou uma rodada de bebidas no refeitrio para comemorar. O capito que ficara responsvel pela Companhia A ergueu o copo de usque e disse:
   -		Fitzherbert? O senhor deve ser o dono da mina de carvo. Meu nome  Gwyn Evans, eu sou lojista. O senhor provavelmente compra todos os seus lenis e toalhas comigo.
   Agora havia um monte de comerciantes metidos a besta como aquele no Exrcito. Era tpico de um homem dessa laia falar como se ele e Fitz fossem iguais e apenas se dedicassem a ramos profissionais diferentes. Fitz, no entanto, tambm sabia que as habilidades de organizao dos comerciantes eram valorizadas pelas Foras Armadas. Ao se apresentar como lojista, o capito estava demonstrando uma certa falsa modstia. O nome Gwyn Evans cobria as fachadas de lojas de departamentos em todas as maiores cidades de Gales do Sul. Havia muito mais pessoas em sua folha de pagamento do que na Companhia A. Quanto a Fitz, ele
   
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jamais havia organizado nada mais complexo do que um time de crquete e, alm disso, a complexidade assustadora da mquina de guerra o tornava mais do que ciente da prpria inexperincia.
-		Imagino que este seja o ataque combinado em Chantilly - disse Evans.
Fitz sabia do que ele estava falando. Em dezembro do ano anterior, Sir John
French finalmente havia sido demitido e Sir Douglas Haig assumira o posto de chefe do Estado-Maior do Exrcito britnico na Frana. Poucos dias depois, Fitz - que ainda trabalhava como agente de comunicao - havia assistido a uma conferncia dos Aliados em Chantilly. Nela, os franceses propuseram uma ofensiva macia na frente ocidental durante o ano de 1916, enquanto os russos concordaram em realizar uma operao semelhante na frente oriental.
		O que eu ouvi dizer na poca - prosseguiu Evans - foi que os franceses iriam atacar com 40 divises, e ns com 25. Agora, isso  impossvel.
Fitz no gostava daquele tipo de conversa pessimista - j estava apreensivo o suficiente -, mas infelizmente Evans tinha razo.
-		Tudo por causa de Verdun - falou. Desde o acordo em dezembro, os franceses haviam perdido 250 mil homens defendendo a cidade fortificada de Verdun, o que os deixava com poucos soldados disponveis para enviar ao Somme.
-		Seja qual for o motivo, estamos praticamente sozinhos - disse Evans.
-		No me parece que v fazer diferena - disse Fitz com uma despreocupao que no sentia de forma alguma. - Ns vamos atacar no nosso trecho do front, independentemente do que eles faam.
-		Discordo - disse Evans, com uma confiana que por pouco no era insolente. - O recuo dos franceses libera muitos soldados da reserva alem. Eles podem ser enviados em massa para o nosso setor como reforos.
-		Creio que iremos avanar rpido demais para isso.
-		Tem certeza, senhor? - indagou Evans com a voz tranquila, outra vez beirando o desrespeito. - Se passarmos pela primeira linha de arame farpado alem, ainda teremos que passar pela segunda e pela terceira.
Evans estava comeando a dar nos nervos de Fitz. Aquele tipo de conversa era ruim para o moral.
-		O arame farpado vai ser destrudo pela nossa artilharia - disse ele.
-		At onde sei, a artilharia no  muito eficiente contra arame farpado. Uma bomba de metralha dispara bolas de ao para baixo e para a frente...
-		Eu sei como funciona esse tipo de bomba, obrigado.
Evans ignorou o comentrio.
-		... de modo que precisa estourar poucos metros acima e diante do alvo,

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seno  intil. A questo  que nossas armas no tm essa preciso toda. E uma bomba de alta potncia detona ao atingir o solo, ento mesmo um tiro certeiro s vezes apenas joga para cima o arame, que cai de volta sem ser danificado de verdade.
   -		O senhor est subestimando a magnitude da nossa barragem de artilharia. - A irritao de Fitz com Evans era intensificada pela incmoda desconfiana de que o outro talvez tivesse razo. E, para piorar, essa mesma desconfiana aumentava o nervosismo de Fitz. - No vai sobrar nada depois do ataque. As trincheiras alems ficaro arrasadas.
   -		Espero que o senhor esteja certo. Se eles se esconderem nos abrigos durante o bombardeio e depois sarem com suas metralhadoras, nossos homens sero massacrados.
   -		Acho que o senhor no est entendendo - disse Fitz, zangado. - Nunca houve um bombardeio to intenso quanto este em toda a histria da guerra. Ns temos uma arma de artilharia para cada 18 metros de front. Nosso plano  disparar mais de um milho de projteis! No vai sobrar nada vivo do outro lado.
   -		Bom, pelo menos em um ponto ns concordamos - disse o capito Evans. - Como o senhor diz, isso nunca foi feito antes, ento nenhum de ns pode ter certeza de qual ser o desfecho.
VI
Lady Maud compareceu diante do Tribunal de Primeira Instncia de Aldgate
usando um grande chapu vermelho com fitas e penas de avestruz e levou uma
multa de um guinu por perturbao da paz.
   -		Espero que o primeiro-ministro Asquith fique sabendo disso - disse ela a
Ethel enquanto as duas deixavam o tribunal.
   Ethel no estava otimista.
   -		Ns no temos como for-lo a agir - falou, irritada. - Esse tipo de coisa s
vai parar quando as mulheres tiverem o poder de derrubar um governo pelo voto.
-		O movimento das sufragistas havia planejado transformar o voto feminino na
grande questo das eleies gerais de 1915, mas, por conta da guerra, o Parlamento
havia adiado o pleito. - Talvez tenhamos que esperar o fim do conflito.
   -		No necessariamente - disse Maud. Depois de posarem para uma fotografia
nos degraus do tribunal, as duas seguiram rumo  redao do The Soldiers Wife.
-		Asquith est lutando para manter a coalizo entre liberais e conservadores. Se
ela cair por terra, ter de haver uma eleio. E essa  a nossa chance.

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Ethel ficou surpresa. Achava que a questo do voto feminino estivesse com os dias contados.
-		Por qu? - quis saber ela.
-		O governo tem um problema. No atual sistema, os soldados que esto em servio no podem votar porque no tm domiclio fixo. Isso no tinha muita importncia antes da guerra, quando havia apenas 100 mil homens no Exrcito. Mas agora eles so mais de um milho. O governo no se atreveria a realizar uma eleio e deix-los de fora. Estamos falando de homens que esto morrendo pelo pas. Haveria um motim - explicou Maud.
-		E, se eles reformarem o sistema, como podero deixar as mulheres de fora?
-		Asquith, aquele covarde, est buscando uma forma de fazer isso neste exato momento.
-		Mas ele no pode! As mulheres so to importantes para o esforo de guerra quanto os homens: fabricam munio, cuidam dos soldados feridos na Frana e realizam inmeros trabalhos que antigamente s os homens faziam.
-		Asquith espera conseguir se esquivar desse debate.
-		Ento precisamos garantir que ele no consiga - disse Ethel.
Maud sorriu.
-		Exato - disse ela. - Acho que essa ser a nossa prxima campanha.
- Eu me alistei para escapar do reformatrio - disse George Barrow, recostado na amurada do navio a vapor que zarpava de Southampton transportando os soldados. - Fui condenado por invaso de propriedade quando tinha 16 anos e peguei trs anos de cadeia. Depois de um ano l dentro, cansei de chupar o pau do carcereiro e falei que queria me alistar. Ele me levou at o posto de recrutamento, e aqui estou eu.
Billy olhou para ele. Barrow tinha um nariz torto, uma orelha deformada e uma cicatriz na testa. Parecia um lutador de boxe aposentado.
-		E quantos anos voc tem agora? - perguntou.
-		Dezessete.
Os rapazes com menos de 18 anos no podiam entrar para o Exrcito e, oficialmente, precisavam completar 19 antes de serem mandados para o estrangeiro. As Foras Armadas, no entanto, violavam ambas as leis a todo momento. Os sargentos e os oficiais mdicos responsveis pelo recrutamento recebiam meia coroa cada por recruta aprovado, de modo que quase nunca questionavam aqueles

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 que se diziam mais velhos do que aparentavam. Havia um rapaz no batalho chamado Owen Bevin que parecia ter uns 15 anos.
   -		Foi por uma ilha que ns acabamos de passar? - perguntou George.
   -		Foi - respondeu Billy. - A ilha de Wight.
   -		Ah - disse George. - Pensei que fosse a Frana.
   -		No, a Frana fica bem mais longe.
   A viagem durou at a manhzinha do dia seguinte, quando todos desembarcaram em Le Havre. Billy desceu da prancha e pisou em solo estrangeiro pela primeira vez na vida. Na verdade, no era solo de fato, e sim paraleleppedos, sobre os quais era difcil marchar calando botas com travas nas solas. Eles atravessaram a cidade, observados com indiferena pela populao francesa. Billy tinha ouvido falar sobre garotas francesas bonitas que abraavam agradecidas os soldados britnicos recm-chegados, mas tudo o que viu foi um monte de mulheres de meia-idade apticas com lenos na cabea.
   Eles marcharam at um quartel onde passaram a noite. Na manh seguinte, embarcaram em um trem. Estar no estrangeiro era menos empolgante do que Billy havia imaginado. Tudo era diferente, mas s um pouco. Assim como a Gr-Bretanha, a Frana era composta, sobretudo, por campos e vilarejos, estradas e ferrovias. Os campos eram delimitados por cercas no lugar de sebes e os chals pareciam maiores e mais bem construdos, mas essas eram as nicas diferenas. Era frustrante. No final do dia, eles chegaram ao seu destino - um imenso quartel novo, formado por alojamentos erguidos s pressas.
   Billy tinha sido promovido a cabo, de modo que era responsvel pela sua seo: oito homens, incluindo Tommy, o jovem Owen Bevin e George Barrow, o rapaz do reformatrio. Havia ainda o misterioso Robin Mortimer, que era soldado raso embora aparentasse 30 anos. Quando eles se sentaram para tomar ch com po e geleia em um refeitrio comprido que comportava cerca de mil homens, Billy falou:
   -		Ento, Robin, ns aqui somos todos novatos, mas voc parece mais experiente. Qual  a sua histria?
   Mortimer respondeu com o leve sotaque de um gals instrudo, mas a linguagem que usou foi a da mina.
   -		No  da sua conta, seu galesinho de merda - respondeu ele, indo se sentar em outro lugar.
   Billy deu de ombros. "Galesinho" no era um xingamento to ofensivo assim, sobretudo vindo de outro gals.
   Quatro sees formavam um peloto, e o sargento do peloto deles era Elijah
   
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Jones, de 20 anos, filho de John Jones da Loja. Como j fazia um ano que estava no front, ele era considerado um veterano empedernido. Jones frequentava a Capela de Bethesda e Billy o conhecia desde os tempos de escola, onde ele recebera o apelido de Profeta Jones por conta do nome de batismo tirado do Antigo Testamento.
   Profeta tinha escutado a conversa com Mortimer.
  -		Vou dar uma palavrinha com ele, Billy - falou. - Ele  um baita de um convencido, mas no pode falar desse jeito com um cabo.
  -		E por que est to mal-humorado?
  -		Ele era major. No sei o que fez, mas foi levado  corte marcial e destitudo, ou seja, perdeu a patente de oficial. Ento, como ainda estava apto a servir, foi imediatamente recrutado como soldado raso.  isso que eles fazem com os oficiais insubordinados.
   Depois do ch, eles conheceram o lder de seu peloto, o segundo-tenente James Carlton-Smith, um rapaz da mesma idade de Billy. Tenso e encabulado, parecia jovem demais para comandar quem quer que fosse.
  -		Homens - disse ele, com um sotaque aristocrtico contido -,  uma honra para mim liderar vocs. Tenho certeza de que sero verdadeiros lees na batalha que est por vir.
  -		Verme desgraado - murmurou Mortimer.
   Billy sabia que os segundos-tenentes eram chamados de "vermes", mas s pelos outros oficiais.
   Carlton-Smith ento apresentou o comandante da Companhia B, major conde Fitzherbert.
  -		Maldio! - exclamou Billy.
   Ficou olhando, boquiaberto, enquanto o homem que mais odiava no mundo subia em cima de uma cadeira para se dirigir  companhia. Fitz usava um uniforme cqui bem cortado e carregava a bengala de madeira de freixo ostentada por alguns dos oficiais. Falava com o mesmo sotaque de Carlton-Smith e disse os mesmos lugares-comuns. Billy mal conseguia acreditar na prpria falta de sorte. O que Fitz estava fazendo ali? Engravidando criadas francesas? Era difcil de engolir que aquele cretino fosse seu comandante.
   Assim que os oficiais saram, Profeta se dirigiu em voz baixa a Billy e Mortimer.
  -		Ano passado mesmo, o tenente Carlton-Smith ainda estava em Eton - falou. Eton era uma escola esnobe da classe alta. Fitz tambm tinha estudado l.
  -		Mas ento por que ele  oficial? - perguntou Billy.
   
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-		Ele era monitor l em Eton.
-		Ah, maravilha! - disse Billy com sarcasmo. - Agora eu fiquei tranquilo.
-		Ele pode no saber muita coisa sobre guerra, mas tem o bom senso de no
abusar da autoridade, ento, contanto que fiquemos de olho nele, no acho que
v criar problemas. Se voc notar que ele est prestes a fazer alguma idiotice
muito grande, fale comigo. - Encarando Mortimer, Profeta acrescentou: - Voc
sabe como , no sabe?
Mortimer concordou com a cabea, emburrado.
-		Veja bem, estou contando com voc.
Alguns minutos depois, as luzes foram apagadas. No havia camas de campanha, apenas esteiras de palha enfileiradas no cho. Deitado sem conseguir dormir, Billy pensou com admirao no que Profeta tinha feito com Mortimer. Ao
se deparar com um subordinado difcil, ele o transformara em um aliado. Era
como Da teria lidado com um encrenqueiro.
O recado que o sargento havia transmitido a Mortimer tambm valia para
Billy. Ser que identificara Billy como um rebelde? Ele se lembrou de que Profeta
estava presente na capela no dia em que Billy lera a histria da mulher adltera.
Faz sentido, pensou. Eu sou mesmo um encrenqueiro.
Ainda havia luz l fora e Billy no estava com sono, mas adormeceu imediatamente. Foi acordado por um barulho terrvel, como se estivesse caindo um temporal com trovoada. Sentou-se na esteira. A luz baa da aurora entrava pelas
janelas riscadas de chuva, mas no estava chovendo.
Os outros homens tambm ficaram espantados.
-		Meu Jesus do cu, o que foi isso? - perguntou Tommy.
Mortimer estava acendendo um cigarro.
-		Fogo de artilharia - disse ele. - Somos ns que estamos atirando. Bem-vindo
 Frana, galesinho.
Billy no estava escutando. Tinha os olhos fixos em Owen Bevin, na esteira em
frente  sua. O rapaz estava sentado, mordendo, aos prantos, uma das beiradas
do lenol.
VIU
Maud sonhou que Lloyd George punha a mo por baixo de sua saia e ela lhe dizia
que era casada com um alemo. Ento ele a delatava para a polcia, que vinha
prend-la, batendo na janela de seu quarto.
Sentou-se na cama, confusa. Em um instante, percebeu como era improvvel a

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de fato lev-la para a priso. O sonho se dissipou, mas o barulho prosseguiu. Havia
tambm um ronco grave, como o de um trem distante.
   Ela acendeu a luz da cabeceira. O relgio de prata art nouveau no console da
lareira lhe informou que eram quatro da manh. Teria sido um terremoto? Uma
exploso em uma fbrica de munies? Um acidente ferrovirio? Ela afastou
para o lado a colcha bordada e se levantou.
   Abriu a cortina pesada de listras verdes e azuis e olhou pela janela para a rua
tranquila de Mayfair.  luz da aurora, viu uma jovem de vestido vermelho, de certo uma prostituta a caminho de casa, conversando agitada com o condutor de
uma carroa de leite. No havia mais ningum  vista. A janela de Maud continuava a tremer sem motivo aparente. No estava sequer ventando.
   Ela vestiu um roupo de seda moir por cima da camisola e olhou-se de relance no espelho de p. Seus cabelos estavam desgrenhados, mas, tirando isso, parecia respeitvel o suficiente. Saiu para o corredor.
   Tia Herm estava parada ali, usando uma touca de dormir e ladeada por
Sanderson, a criada de Maud, cujo rosto redondo estava plido de medo. Ento,
Grout apareceu na escada.
  -		Bom dia, lady Maud. Bom dia, lady Hermia - disse ele com uma formalidade imperturbvel. - No h com o que se preocupar.  a artilharia.
  -		Que artilharia? - perguntou Maud.
  -		Na Frana, minha senhora - respondeu o mordomo.
A barragem de artilharia britnica durou uma semana.
   A princpio, duraria apenas cinco dias, mas, para consternao de Fitz, apenas
um deles foi de tempo bom. Embora estivessem no vero, todos os outros dias
foram de nuvens baixas e chuva. Isso tornava difcil para os artilheiros fazerem
disparos precisos. Significava tambm que os avies de reconhecimento no conseguiam avaliar os resultados e ajud-los a ajustar a mira. A situao era mais
difcil ainda para os encarregados da contrabateria - ou seja, de destruir a artilharia alem -, pois o adversrio, espertamente, no parava de mudar as armas
de lugar, fazendo os projteis britnicos carem em posies vazias, sem causar
nenhum dano.
Fitz estava sentado no abrigo mido que servia de quartel-general ao batalho,
fumando charutos com desnimo e tentando ignorar o estrondo incessante. Na

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falta de fotografias areas, ele e os outros comandantes de companhia organizaram ataques-surpresa contra as trincheiras. Assim; pelo menos conseguiam observar diretamente o inimigo. Essa, no entanto, era uma ttica arriscada - e as equipes de ataque que passavam muito tempo fora nunca retornavam. Dessa forma, os homens precisavam observar s pressas um pequeno trecho da linha inimiga e voltar correndo em seguida.
   Para grande irritao de Fitz, os relatrios trazidos pelas equipes de observao eram contraditrios. Algumas trincheiras alems haviam sido destrudas, enquanto outras continuavam intactas. Parte do arame farpado havia sido cortada, mas nem de longe todo ele. O mais preocupante era que algumas patrulhas eram empurradas de volta pelo fogo inimigo. Se os alemes ainda eram capazes de atirar, era bvio que a artilharia britnica no tinha conseguido destruir suas posies.
   Fitz sabia que exatos 12 prisioneiros alemes haviam sido capturados pelo quarto Exrcito durante a barragem. Todos tinham sido interrogados, mas fornecido informaes discrepantes, o que era enfurecedor. Alguns diziam que seus abrigos tinham sido destrudos, outros que os alemes estavam sos e salvos debaixo da terra, enquanto os britnicos desperdiavam sua munio na superfcie.
   Os britnicos tinham tantas dvidas quanto aos resultados de seu bombardeio que Haig adiou o ataque, programado para 29 de junho. O tempo, no entanto, continuou ruim.
  -		Teremos que cancelar o ataque - disse o capito Evans durante o caf da manh do dia 30 de junho.
  -		Acho difcil - comentou Fitz.
  -		Ns s vamos atacar aps a confirmao de que as defesas inimigas foram destrudas - disse Evans. -  uma regra bsica da guerra de stio.
   Fitz sabia que esse princpio havia sido acordado no incio do planejamento, mas depois descartado.
  -		Seja realista - disse ele a Evans. - H seis meses que estamos preparando essa ofensiva.  nossa principal ao no ano de 1916. Concentramos todos os nossos esforos nela. Como poderia ser cancelada? Haig teria de renunciar. Uma coisa dessas poderia at derrubar o governo de Asquith.
   Evans pareceu se irritar com o comentrio. Ficou com o rosto vermelho e levantou um pouco a voz:
  -		Seria melhor o governo cair do que ns mandarmos nossos homens para cima de trincheiras cheias de metralhadoras.
   Fitz balanou a cabea.
   
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-		Veja os milhes de toneladas de suprimentos trazidos para c de navio, as estradas e ferrovias que construmos para transport-los, as centenas de milhares de homens treinados, armados e deslocados para c de toda a Gr-Bretanha. O que faramos com eles? Mandaramos todos para casa?
Aps um longo silncio, Evans falou:
-		O senhor tem razo, major,  claro. - Suas palavras eram conciliatrias, mas seu tom era de raiva mal contida. - Ns no vamos mand-los para casa - disse ele entredentes. - Vamos enterr-los aqui mesmo.
Ao meio-dia parou de chover e o sol saiu. Pouco depois, veio a confirmao: "Atacamos amanh."

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CAPTULO DEZESSETE
1- de julho de 1916

Walter von Ulrich estava no inferno.
         O bombardeio britnico j durava sete dias e sete noites. Cada homem
dentro das trincheiras alems parecia dez anos mais velho do que na semana
anterior. Eles se amontoavam em seus abrigos - cavernas que haviam escavado
nas profundezas do terreno atrs das trincheiras -, mesmo assim o barulho era
ensurdecedor e a terra sob seus ps tremia o tempo todo. O pior de tudo era saber
que um disparo certeiro do projtil de maior calibre era capaz de aniquilar at
mesmo o mais slido dos abrigos.
   Sempre que o bombardeio cessava, eles saam do abrigo para as trincheiras,
prontos para repelir o grande ataque aguardado por todos. Uma vez convencidos
de que os britnicos ainda no estavam avanando, punham-se a avaliar os estragos. Encontravam uma trincheira desmoronada, a entrada de um abrigo sepultada sob uma pilha de terra e - em uma tarde triste - uma cantina devastada,
cheia de loua quebrada, vidros de geleia espatifados e sabo lquido derramado.
Exaustos, retiravam a terra cada com ps, remendavam o revestimento das trincheiras com novas tbuas de madeira e solicitavam mais provises.
   As encomendas no chegavam. Pouqussima coisa alcanava o front. O bombardeio tornava perigosa qualquer aproximao. Os homens estavam famintos e
sedentos. Mais de uma vez, Walter ficara grato por poder beber a gua da chuva
acumulada na cratera feita por uma bomba.
   No intervalo entre os bombardeios, os homens no podiam permanecer nos
abrigos. Tinham que ficar nas trincheiras, preparados para os britnicos. Sentinelas
mantinham uma vigilncia constante. Os demais soldados ficavam sentados nas
entradas dos abrigos, ou perto delas, prontos para descer correndo os degraus e
se refugiar debaixo da terra quando as grandes peas de artilharia abrissem fogo,
ou ento subir correndo at o parapeito e defender sua posio caso o ataque
comeasse. A cada vez, as metralhadoras tinham que ser levadas para os abrigos,
para depois serem trazidas de volta e recolocadas em seus lugares.
   Entre uma barragem de artilharia e outra, os britnicos atacavam com morteiros de trincheira. Embora essas bombas pequenas fizessem pouco barulho ao
serem disparadas, tinham potncia suficiente para estilhaar a madeira do 
   
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revestimento das trincheiras. No entanto, elas atravessavam a terra de ningum em um arco lento, de modo que era possvel v-las chegando e se proteger. Walter j havia se esquivado de uma dessas bombas, afastando-se o suficiente para no ser ferido, embora o disparo houvesse espirrado terra em cima de todo o seu jantar, obrigando-o a jogar fora uma boa tigela de um encorpado guisado de porco. Essa havia sido sua ltima refeio quente e, se a tivesse em mos agora, iria com-la, pensou - com ou sem terra.
   Mas os projteis no eram tudo. Aquele setor havia sido alvo de um ataque com gs. Os homens tinham mscaras, porm o fundo da trincheira estava coalhado de cadveres de ratos, camundongos e outros pequenos animais mortos pelo gs de cloro. Os canos dos fuzis tinham adquirido um tom preto esverdeado.
   Logo depois da meia-noite na stima noite de bombardeio, a chuva de projteis arrefeceu, e Walter decidiu sair em patrulha.
   Vestiu um gorro de l e esfregou terra no rosto para escurec-lo. Sacou sua pistola, a Luger 9mm padro dos oficiais alemes. Ejetou o cartucho da cmara e verificou o carregador. A arma estava totalmente carregada.
   Ele subiu uma escada de mo e passou por cima do parapeito, um ato que  luz do dia seria um desafio  morte, mas que no escuro era relativamente seguro. Abaixado, desceu correndo a encosta pouco ngreme at a barreira de arame farpado alem. Havia uma brecha no arame, posicionada de forma intencional, bem em frente a um ninho de metralhadora alemo. Ele passou engatinhando por ela.
   Aquilo lhe trouxe  memria as histrias de aventura que costumava ler nos tempos de escola. Geralmente eram protagonizadas por jovens alemes de queixo quadrado, ameaados por peles-vermelhas, pigmeus com zarabatanas ou espies ingleses ardilosos. Ele se lembrava de muitas cenas em que os personagens engatinhavam pela vegetao rasteira, pela selva ou pela grama alta das pradarias.
   Ali no havia muita vegetao. Dezoito meses de guerra tinham deixado apenas uns poucos tufos de grama e arbustos, alm de uma ou outra rvore pequena perdida no meio de um deserto de lama e crateras de bombas.
   Isso piorava ainda mais as coisas, pois no havia como se proteger. A noite estava sem lua, mas a paisagem era iluminada de quando em quando pelo claro de uma exploso, ou pela luz intensa de um sinalizador. Quando era assim, tudo o que Walter podia fazer era se jogar rente ao cho e ficar imvel. Se estivesse dentro de uma cratera, seria mais difcil v-lo. Caso contrrio, restava-lhe apenas torcer para que ningum estivesse olhando na sua direo.
   Havia muitos projteis britnicos no detonados espalhados pelo terreno.
   
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Walter calculava que cerca de um tero da munio do inimigo estivesse com defeito. Sabia que Lloyd George fora encarregado da munio - e imaginava que o demagogo sedutor de multides houvesse privilegiado a quantidade em detrimento da qualidade. Os alemes jamais cometeriam um erro desses, pensou.
   Ele chegou ao arame farpado britnico, engatinhou ao longo dele at achar uma brecha e passou para o outro lado.
   Quando a linha de frente britnica comeou a ficar visvel, como uma pincelada de tinta preta contra o cinza-chumbo que cobria o cu, ele se jogou de bruos no cho e tentou avanar sem fazer barulho. Precisava chegar mais perto: era esse o objetivo. Queria ouvir o que os homens estavam dizendo nas trincheiras.
   Ambos os lados despachavam patrulhas todas as noites. Walter em geral enviava um ou dois soldados que parecessem espertos e estivessem entediados o suficiente para topar uma aventura, por mais perigosa que fosse. s vezes, no entanto, ele prprio ia - em parte para mostrar que estava disposto a arriscar a prpria vida e tambm porque suas observaes em geral eram mais detalhadas.
   Apurou os ouvidos, esforando-se para escutar um tossido, algumas palavras murmuradas, ou quem sabe um peido seguido por um suspiro de alvio. Parecia estar diante de um setor tranquilo. Virou  esquerda, rastejou por cerca de 50 metros e parou. Ento ouviu um som desconhecido, semelhante ao ronco distante de uma mquina.
   Seguiu rastejando, esforando-se para manter o senso de direo. Era fcil se perder totalmente no escuro. Certa noite, depois de rastejar por um bom tempo, havia se deparado com o mesmo arame farpado pelo qual passara meia hora antes, percebendo que estava se movendo em crculos.
   Walter ouviu uma voz dizer bem baixinho:
   - Por aqui.
   Ele se deteve. Uma lanterna camuflada entrou em seu campo de viso, como um vaga-lume. Sob a luz fraca que ela emitia, Walter distinguiu trs soldados a uns 30 metros de distncia, usando capacetes de ao ao estilo britnico. Ficou tentado a rolar para longe deles, mas decidiu que o movimento provavelmente acabaria por delat-lo. Sacou a pistola: se fosse morrer, levaria junto alguns dos inimigos. A trava de segurana ficava do lado esquerdo da arma, logo acima da empunhadura. Usando o polegar, ele a empurrou para cima e para a frente. A trava emitiu um clique que lhe pareceu uma trovoada, mas os soldados britnicos no pareceram escut-lo.
   Dois deles carregavam um rolo de arame farpado. Walter imaginou que estivessem ali para consertar um trecho danificado pela artilharia alem durante o
   
450
 

dia. Talvez eu devesse abat-los rapidamente, pensou, um-dois-trs. Amanh ele tentaro me matar. Porm tinha um trabalho mais importante a fazer, por isso se conteve e no puxou o gatilho ao v-los passar afastando-se na escurido.
   Tornou a armar a trava de segurana, guardou a pistola no coldre e rastejou mais para perto da trincheira britnica.
   O barulho ali estava mais alto. Passou alguns segundos deitado, concentrando-se. Era o rudo de uma multido. Eles estavam tentando fazer silncio, mas era impossvel deixar de ouvir um aglomerado de homens. O som era constitudo pelo arrastar de ps, pelo farfalhar de roupas, por fungadas, bocejos e arrotos. Acima disso, erguia-se de vez em quando uma palavra em voz baixa, pronunciada em tom de autoridade.
   Mas o que deixou Walter intrigado e surpreso foi que parecia haverem muitos soldados ali. No conseguia estimar quantos. Ultimamente, os britnicos vinham escavando trincheiras novas, mais largas, como se almejassem compactar grandes quantidades de provises ou peas de artilharia muito grandes.  talvez essas trincheiras fossem para uma quantidade macia de homens.
   Walter precisava olhar.
   Rastejou mais para a frente. O barulho ficou mais alto. Tinha que olhar dentro da trincheira, mas como poderia fazer isso sem ser visto tambm?
   Ouviu uma voz atrs de si, e seu corao parou.
   Ele se virou e viu a lanterna parecida com um vaga-lume. O destacamento do arame farpado estava voltando. Jogou-se em direo  lama e ento sacou a pistola devagar.
   Os homens andavam depressa, sem se importarem com o barulho que estavam fazendo - apenas satisfeitos por terem cumprido sua tarefa e ansiosos por retornarem a segurana da trincheira. Chegaram perto de Walter, mas no olharam para onde ele estava.
   Quando passaram, ele teve uma ideia e levantou-se com um pulo.
   Agora, se algum apontasse uma lanterna em sua direo e o visse, ele  iria fazer parte do grupo.
   Seguiu os soldados. No achava que fossem ouvir seus passos com clareza e ficarem  cientes para distinguilos dos seus prprios. Nenhum dos homens olhou para trs.
   Ele lanou um olhar para o lugar de onde vinha o barulho. Agora conseguia  ver dentro da trincheira, mas, a princpio, divisou apenas alguns pontinhos provavelmente lanternas. Aos poucos, porm, seus olhos se ajustaram e, quando por fim entendeu o que estava vendo, ficou perplexo.
   Estava olhando para milhares de homens.
 
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   Parou de avanar. A trincheira larga, cujo objetivo antes no ficara claro, agora
havia se revelado uma trincheira de agrupamento. Os britnicos estavam reunindo suas tropas para a grande ofensiva. Todos os homens aguardavam, indceis,
enquanto a luz das lanternas dos oficiais refletia nas baionetas e capacetes de ao -
eram fileiras e mais fileiras deles. Walter tentou contar: 10 fileiras de 10 davam
100 homens, vezes dois eram 200, ento 400, 800... Havia 1.600 homens em seu
campo de viso, depois a escurido ocultava os outros.
   A ofensiva dos britnicos era iminente.
   Ele precisava voltar o mais rpido possvel com essa notcia. Se a artilharia alem
abrisse fogo naquele momento, eles poderiam matar milhares de inimigos ali
mesmo, atrs das linhas britnicas, antes de o ataque comear. Era uma oportunidade enviada pelos cus, ou talvez pelos demnios que lanavam os dados
cruis da guerra. Assim que chegasse ao front, ligaria para o quartel-general.
   Um sinalizador foi disparado para cima. O claro lhe possibilitou ver um vigia
britnico, que espiava por cima do parapeito com o fuzil apontado, olhando direto para ele.
   Walter se jogou no cho e enterrou o rosto na lama.
   Um tiro ecoou. Ento um dos homens do destacamento do arame farpado gritou:
   - No atire, seu maluco, somos ns! - O sotaque trouxe  mente de Walter os
empregados da casa de Fitz no Pas de Gales, e ele imaginou que aquele deveria
ser um regimento gals.
   O sinalizador morreu. Walter se levantou e saiu correndo em direo ao lado alemo. O vigia passaria alguns segundos sem conseguir enxergar nada, com os olhos
ofuscados pelo claro. Walter nunca havia corrido to depressa na vida, esperando
ouvir o disparo do fuzil a qualquer momento. Em meio minuto, chegou ao arame
farpado britnico e caiu de joelhos, cheio de gratido. Engatinhou depressa para o
outro lado por uma brecha. Mais um sinalizador foi lanado. Ele ainda estava ao
alcance de um tiro de fuzil, mas j no era to fcil v-lo. Jogou-se no cho. O sinalizador estava logo acima dele, e um bolo perigoso de magnsio incandescente
caiu a um metro da sua mo, mas no houve mais tiros.
   Quando o sinalizador se apagou, ele se levantou e saiu correndo at a linha de
frente alem.
Cerca de trs quilmetros atrs da linha de frente britnica, Fitz observava,
ansioso, o 89batalho se formar pouco depois das duas da manh. Temia que

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aqueles homens recm-treinados fossem lhe causar vergonha, mas no foi o caso. Os soldados estavam dceis e obedeceram s ordens prontamente.
   O brigadeiro, montado em seu cavalo, dirigiu-se rapidamente  tropa. Um sargento o iluminava de baixo com sua lanterna, fazendo-o parecer o vilo de um filme americano.
  -		A nossa artilharia dizimou as defesas inimigas - falou ele. - Quando vocs chegarem ao outro lado, encontraro apenas alemes mortos.
   Prximo dali, uma voz galesa murmurou:
  -		No  espantoso como esses putos desses alemes conseguem atirar em ns mesmo depois de mortos?
   Fitz correu os olhos pela fileira para identificar quem havia falado, mas foi impossvel naquela escurido.
   O brigadeiro prosseguiu:
  -		Invadam e ocupem suas trincheiras, que logo em seguida as cozinhas de campanha viro lhes dar um jantar quente.
   A Companhia B marchou rumo ao front, conduzida pelos sargentos de peloto. Atravessaram os campos, deixando as estradas desimpedidas para os veculos. Enquanto partiam, comearam a cantar "Guiai meus passos,  Grande Jeov". Suas vozes pairaram no ar noturno por alguns minutos antes de eles sumirem no escuro.
   Fitz voltou para o quartel-general do batalho. Um caminho aberto aguardava para levar os oficiais at a frente de batalha. Fitz sentou-se ao lado do tenente Roland Morgan, filho do gerente da mina de carvo de Aberowen.
   Estava fazendo todo o possvel para desencorajar as conversas derrotistas, mas no conseguia deixar de imaginar se o brigadeiro no teria exagerado demais no otimismo. Nenhum exrcito jamais havia montado uma ofensiva daquele porte - e ningum poderia prever o seu desfecho. Sete dias de bombardeio no haviam dizimado as defesas inimigas: os alemes continuavam atirando de volta, como aquele soldado annimo havia observado com sarcasmo. Na verdade, Fitz tinha dito a mesma coisa em um relatrio, levando o coronel Hervey a perguntar se ele estava com medo.
   Fitz estava preocupado. Quando o Estado-Maior fazia vista grossa s ms notcias, homens morriam.
   Como para provar que ele tinha razo, uma bomba explodiu na estrada atrs deles. Fitz olhou para trs e viu partes de um caminho igual quele que o transportava voando pelos ares. Um carro que vinha logo depois desviou para dentro de uma vala e, por sua vez, foi atingido por outro caminho. Foi uma cena de
   
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massacre, porm o motorista do caminho de Fitz agiu corretamente e no parou para ajudar. Os feridos eram de responsabilidade das equipes mdicas.
   Outras bombas atingiam os campos  esquerda e  direita da estrada. Os alemes estavam mirando nos soldados que se encaminhavam para o front, no no front em si. Eles provavelmente haviam entendido que a grande ofensiva estava prestes a comear - era quase impossvel ocultar um movimento de tropas daquela magnitude do seu setor de inteligncia - e, com uma eficincia mortfera, estavam matando homens que nem sequer tinham chegado s trincheiras. Fitz reprimiu um sentimento de pnico, mas seu medo perdurou. A Companhia B talvez nem chegasse  frente de batalha.
   Ele chegou  rea de formao das tropas sem novos incidentes. J havia vrios milhares de homens ali, apoiados nos fuzis e conversando em voz baixa. Fitz ouviu dizer que alguns grupos j haviam sido dizimados pelo bombardeio. Aguardou, perguntando-se com pessimismo se a sua companhia ainda existia. Dali a algum tempo, contudo, os Aberowen Pais chegaram intactos, para seu alvio, e entraram em formao. Fitz os conduziu pelas ltimas centenas de metros at a trincheira de agrupamento do front.
   A partir da, restava-lhes apenas aguardar o momento do ataque. A trincheira estava cheia de gua, e as perneiras de Fitz logo ficaram encharcadas. J no era mais permitido cantar: os inimigos poderiam ouvi-los de suas trincheiras. Tambm era proibido fumar. Alguns dos homens rezavam. Um soldado alto sacou seu livro de soldo e comeou a preencher a pgina reservada ao "Testamento" sob o estreito facho da lanterna do sargento Elijah Jones. Quando Fitz viu que o soldado escrevia com a mo esquerda, percebeu que se tratava de Morrison, ex-lacaio de Ty Gwyn e lanador canhoto do time de crquete.
   O dia raiou cedo - o auge do vero acabara de passar. Com a luz, alguns dos homens apanharam as fotos que traziam consigo, pondo-se a olh-las ou cobri-las de beijos. Aquilo pareceu piegas, de modo que Fitz hesitou em imit-los, mas, depois de algum tempo, foi o que acabou fazendo. Era uma foto de seu filho, George, que todos chamavam de Boy. quela altura, ele j estava com um ano e meio, mas a foto fora tirada em seu primeiro aniversrio. Parecia que Bea o levara ao estdio de um fotgrafo, pois atrs dele havia um fundo de mau gosto, mostrando uma clareira florida. Ele no se parecia muito com um menino, pois usava uma espcie de camisola branca e uma touca, mas era perfeito e saudvel - e herdaria o condado caso Fitz morresse ali.
Bea e Boy deviam estar em Londres naquele instante, imaginou Fitz. Era julho, e a temporada de eventos sociais prosseguia, embora de forma discreta:

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as moas precisavam debutar, caso contrrio, como poderiam conhecer maridos adequados?
   A luz ficou mais forte e, logo em seguida, o sol apareceu. Os capacetes de ao dos Aberowen Pais brilharam e suas baionetas lanaram reflexos do dia recm-nascido. Para a maioria dos homens, aquela era a primeira batalha. Que batismo de fogo os aguardava - a vitria ou a derrota total.
   Com o raiar do dia, os britnicos lanaram uma barragem de artilharia colossal. Os artilheiros estavam dando o melhor de si. Talvez esse ltimo esforo finalmente destrusse as posies alems. Devia ser isso que o general Haig estava pedindo a Deus.
   Os Aberowen Pais no participaram da primeira leva do ataque, mas Fitz se adiantou para olhar para o campo de batalha, deixando os tenentes no comando da Companhia B. Atravessou aos empurres a multido de homens que aguardavam e foi at a trincheira da linha de frente, onde subiu no degrau de tiro e espiou por um buraco aberto no parapeito feito de sacos de areia.
   A nvoa matinal se dispersava, afugentada pelos raios do sol nascente. O cu azul estava manchado pela fumaa escura das bombas. O clima ficaria agradvel, pensou Fitz, um lindo dia de vero francs.
  -		Que tempo bom para matar alemes - falou, para ningum em especial.
   A hora do ataque se aproximava, e ele continuou no front. Queria ver o qu acontecia com a primeira leva. Talvez houvesse alguma lio a aprender. Embora j fizesse quase dois anos que era oficial na Frana, aquela seria a primeira vez que comandaria homens em uma batalha - e estava mais preocupado com isso do que com a prpria morte.
   Cada um dos homens recebeu uma dose de rum. Fitz bebeu um pouco. Apesar da quentura da bebida em seu estmago, sentiu sua tenso aumentar. O ataque estava marcado para as sete e meia. Quando deu sete horas, os homens ficaram imveis.
   s sete e vinte, a artilharia britnica se calou.
  -		No! - disse Fitz em voz alta. - Ainda no...  cedo demais! -  claro que ningum estava escutando. Mas ele ficou horrorizado. Aquilo avisaria aos alemes que um ataque estava por vir. Agora, seus soldados deviam estar saindo dos abrigos, trazendo as metralhadoras para a superfcie e assumindo suas posies. Nossos artilheiros tinham dado ao inimigo 10 minutos inteiros para se preparar. Eles deveriam ter continuado a atirar at o ltimo instante possvel, at as sete  horas, 29 minutos e 59 segundos.
   Mas j no havia mais nada a fazer.
 
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   Fitz se perguntou com pesar quantos homens morreriam s por causa daquele erro estpido.
   Sargentos gritaram ordens e os homens em volta de Fitz subiram pelas escadas, passando por cima do parapeito. Entraram em formao junto ao arame farpado britnico, sem atravess-lo. Estavam a cerca de 400 metros da linha, porm nenhum inimigo havia disparado contra eles. Para surpresa de Fitz, os sargentos bradaram:
   -		Direita, coluna por um... cobrir! - Os homens comearam a se enfileirar como se estivessem em um campo de treinamento, ajustando cuidadosamente a distncia que os separava at ficarem alinhados  perfeio, como pinos em um jogo de boliche. Fitz achou aquilo uma loucura: apenas dava mais tempo para os alemes se prepararem.
   s sete e meia, um apito soou, todos os sinaleiros abaixaram suas bandeiras e a primeira linha avanou.
   Os soldados no saram correndo, por conta do peso do equipamento que carregavam: munio extra, uma lona impermevel, comida e gua e duas granadas de mo de quase um quilo cada uma. Avanaram em ritmo de trote, chapinhando nas crateras das bombas, e passaram pelas brechas do arame farpado britnico. Conforme as instrues, tornaram a formar fileiras e seguiram em frente, ombro a ombro, pela terra de ningum.
   Quando estavam na metade do caminho, as metralhadoras alems abriram fogo.
   Fitz viu os homens comearem a cair um segundo antes de seus ouvidos escutarem o conhecido matraquear. Um deles caiu, depois uma dzia, depois 20, depois mais.
   -		Meu Deus - disse Fitz enquanto eles tombavam: 50, 100 homens. Consternado, ficou assistindo ao massacre. Alguns jogavam as mos para cima ao serem atingidos; outros gritavam ou se debatiam; outros apenas se desmilinguiam, caindo no cho feito uma bolsa largada.
   Aquilo era pior do que as previses pessimistas de Gwyn Evans - pior do que os temores mais terrveis de Fitz.
   Antes de chegarem ao arame farpado alemo, a maioria dos homens j havia sido abatida.
   Outro apito soou, e a segunda linha comeou a avanar.
111
O soldado raso Robin Mortimer estava furioso.
   -		Mas que estupidez do caralho - disse ele quando o matraquear das 
   
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metralhadoras se fez ouvir. - Ns deveramos ter atacado no escuro. No d para atravessar a terra de ningum em plena luz do dia. Eles no esto nem produzindo uma cortina de fumaa. Isso  suicdio, cacete.
   Os homens reunidos na trincheira de agrupamento estavam aflitos. O moral baixo dos Aberowen Pais deixava Billy preocupado. Durante a marcha do quartel at o front, eles haviam sido submetidos ao seu primeiro ataque de artilharia. Embora no tivessem sofrido um impacto direto, grupos que estavam mais  frente e atrs deles haviam sido massacrados. Quase to ruim quanto isso era o fato de terem marchado por uma srie de fossas recm-escavadas, todas com exatos 80m de profundidade, e concludo que eram valas comuns, prontas para receber os mortos do dia.
  -		A direo do vento no est boa para uma cortina de fumaa - disse Profeta Jones com brandura. -  por isso que eles tambm no esto usando gs.
  -		Porra, que loucura - murmurou Mortimer.
   Animado, George Barrow falou:
  -		Os mandachuvas sabem o que  melhor. Foram criados para governar. Acho que devemos confiar neles.
   Tommy Griffiths no podia deixar aquilo passar.
  -		Como voc pode achar uma coisa dessas quando eles o mandaram para o reformatrio?
  -		Eles precisam colocar gente como eu na cadeia - falou George com determinao. - Seno todo mundo seria bandido. Eu mesmo poderia ser roubado!
   Todos riram, exceto o carrancudo Mortimer.
   O major Fitzherbert reapareceu, com uma expresso carregada, trazendo uma jarra de rum. O tenente distribuiu a bebida, servindo-a nas latas que os soldados estendiam. Billy tomou a sua sem prazer algum. O lcool alegrou os homens, mas no por muito tempo.
   A nica vez em que Billy se sentira daquela maneira fora em seu primeiro dia na mina, quando Rhys Price o deixara sozinho e sua lamparina se apagara. Naquela ocasio, uma viso viera em seu auxlio. Infelizmente, Jesus s aparecia para meninos de imaginao frtil, no para homens sensatos e racionais. Desta vez, Billy estava sozinho.
   Faltava pouco para o teste supremo, talvez apenas alguns minutos. Ser que ele conseguiria manter sua coragem? Caso fracassasse - encolhendo-se no cho em posio fetal e fechando os olhos, desatando a chorar, ou ento saindo correndo -, sentiria vergonha pelo resto da vida. Prefiro morrer, pensou, mas ser que ainda vou me sentir assim quando a fuzilaria comear?
   
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   Todos avanaram alguns passos.
   Ele sacou a carteira. Mildred lhe dera uma foto sua. Nela, estava de sobretudo
e chapu. Billy, no entanto, teria preferido se lembrar dela da maneira que a havia
encontrado na noite em que fora ao seu quarto.
   Perguntou-se o que ela estaria fazendo naquele momento. Era sbado, ento
provavelmente estava na fbrica de Mannie Litov, costurando uniformes. Como
a manh estava no meio, as mulheres deveriam estar parando para um intervalo. Talvez Mildred lhes contasse uma histria engraada.
   Billy pensava nela o tempo todo. A noite que passaram juntos havia sido
uma extenso da aula de beijo. Ela o impedira de agir como um touro tentando derrubar uma porteira e ensinara-lhe formas mais lentas, mais ldicas, carcias que haviam lhe provocado um prazer intenso, maior do que ele poderia ter
imaginado. Ela havia beijado seu pnis e depois lhe pedido que fizesse o equivalente com ela. Melhor ainda, mostrara-lhe como fazer, o que a levara a gritar
de prazer. No final, havia retirado um preservativo da gaveta do criado-mudo.
Era a primeira vez que Billy via um, embora os rapazes falassem a respeito, chamando-os de camisinhas. Ela havia colocado o preservativo nele - e at isso
tinha sido incrvel.
   Mais parecera um sonho, e ele precisava ficar lembrando a si mesmo de que
havia realmente acontecido. Nada em sua criao o havia preparado para a atitude
despreocupada e vida de Mildred em relao ao sexo - e fora uma revelao
para ele. Seus pais, assim como a maioria das pessoas de Aberowen, a tachariam
de "inadequada", por ter dois filhos e nem sinal de marido. Billy, no entanto, pouco
teria ligado se ela tivesse seis filhos. Ela lhe abrira as portas do paraso, e tudo o
que ele queria era voltar para l. Mais do que qualquer outra coisa, queria sobreviver quele dia para poder tornar a ver Mildred e passar outra noite com ela.
   Enquanto os Pais avanavam, aproximando-se devagar da trincheira da linha
de frente, Billy percebeu que estava suando.
   Owen Bevin comeou a chorar. Billy, ento, falou com rispidez:
  -		Controle-se, soldado Bevin. Chorar no adianta nada, adianta?
  -		Eu quero ir para casa - disse o menino.
  -		Eu tambm, garoto, eu tambm.
  -		Por favor, cabo, eu no imaginava que fosse ser assim.
  -		Quantos anos voc tem, afinal?
  -		Dezesseis.
  -		Maldio! - exclamou Billy. - Como voc foi recrutado?
  -		Eu disse ao mdico quantos anos tinha e ele falou: "V embora e volte 
   
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amanh de manh. Voc  alto para a sua idade, pode ser que amanh j tenha 18 anos." Da ele piscou para mim, entende, e eu soube que precisava mentir.
-		Filho da me - disse Billy. Ele olhou para Owen. O menino seria intil no campo de batalha. Estava tremendo e soluando.
Billy foi falar com o tenente Carlton-Smith.
-		Bevin tem s 16 anos, senhor.
-		Meu Deus! - reagiu o tenente.
-		Ele deveria ser mandado de volta. Vai nos atrapalhar.
-		Isso eu j no sei. - Carlton-Smith parecia atnito e impotente.
Billy recordou como Profeta Jones havia tentado transformar Mortimer em aliado. Profeta era um bom lder, que planejava o futuro e agia para evitar problemas. Carlton-Smith, por sua vez, parecia no ter serventia nenhuma, mas mesmo assim era o oficial superior. No   toa que se fala em sistema de classes, teria dito Da.
Dali a um minuto, Carlton-Smith se aproximou de Fitzherbert e disse algo em voz baixa. O major fez que no com a cabea, ao que Carlton-Smith deu de ombros como quem no pode fazer nada.
Billy no havia sido criado para ficar calado diante de uma crueldade.
-		O menino tem s 16 anos, senhor!
-		Agora  tarde para dizer isso - respondeu Fitzherbert. - E no fale a menos que algum lhe dirija a palavra, cabo.
Billy sabia que Fitzherbert no o havia reconhecido. Ele era apenas um das centenas de homens que trabalhavam nas minas do conde. Fitzherbert no sabia que ele era irmo de Ethel. De qualquer forma, todo aquele desdm deixou Billy com raiva.
-		 contra a lei - disse ele com teimosia. Em outras circunstncias, Fitzherbert teria sido o primeiro a dar sermo quanto  necessidade de se respeitar as leis.
-		Isso quem decide sou eu - respondeu Fitz, irritado. -  por isso que sou oficial.
O sangue de Billy comeou a ferver. Ali estavam Fitzherbert e Carlton-Smith, com seus uniformes de alfaiataria, olhando com hostilidade para Billy - que se coava inteiro em seu uniforme cqui - e pensando que podiam fazer o que quisessem.
-		A lei  uma s - disse Billy.
Profeta falou em voz baixa:
-		Estou vendo que o senhor esqueceu sua bengala hoje, major Fitzherbert. Quer que eu mande Bevin busc-la para o senhor no quartel-general?
Era um meio-termo que permitia a Fitz no perder a autoridade, pensou Billy. Muito bem, Profeta.

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Fitzherbert, no entanto, no deu o brao a torcer.
-		Deixe de ser ridculo - falou ele.
De repente, Bevin saiu correndo. Embrenhou-se na multido de homens s suas costas e sumiu de vista num piscar de olhos. Aquilo foi to surpreendente que alguns dos homens riram.
-		Ele no vai muito longe - disse Fitzherbert. - E, quando o apanharem, no vai ter graa nenhuma.
-		Ele  uma criana!
Fitzherbet o encarou.
-		Qual  o seu nome? - quis saber.
-		Williams, senhor.
Fitzherbert pareceu surpreso, mas se recomps depressa.
-		Temos centenas de Williams - disse. - Qual  o seu nome de batismo?
-		William, senhor. Meu apelido  Billy Duplo.
Fitzherbert olhou firme para ele.
Ele sabe, pensou Billy. Sabe que Ethel tem um irmo chamado Billy Williams. Devolveu o olhar de Fitz sem hesitar.
-		Mais uma palavra da sua boca, cabo William Williams, e ser punido - disse Fitzherbert.
Ouviu-se um assobio mais acima. Billy se abaixou. De trs dele, veio um estrondo ensurdecedor. Um furaco soprou  sua volta: torres de terra e fragmentos de tbuas passaram voando. Ele ouviu gritos. De sbito, viu-se deitado rente ao cho, sem saber ao certo se havia sido derrubado ou se tinha se jogado por conta prpria. Algo pesado atingiu sua cabea e ele soltou um palavro. Ento uma bota pisou o cho ao lado de seu rosto. Presa a ela havia uma perna e nada mais.
-		Deus do cu! - exclamou ele.
Levantou-se. No estava ferido. Olhou ao redor para os homens da sua seo: Tommy, George Barrow, Mortimer... estavam todos de p. Ento comearam a avanar, pois de repente o front lhes parecia uma rota de fuga.
-		Homens, mantenham a posio! - gritou o major Fitzherbert.
-		ltima forma, ltima forma - ordenou Profeta Jones.
O impulso para a frente foi interrompido. Billy tentou limpar a lama do uniforme. Ento outro projtil aterrissou atrs deles. Desta vez, na verdade, o impacto foi mais atrs, mas isso fez pouca diferena. Houve um estrondo, um furaco e uma chuva de detritos e partes de corpos. Os homens comearam a escalar aos trancos a trincheira de agrupamento pela frente e pelos dois lados. Billy e sua

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seo fizeram o mesmo. Fitzherbert, Carlton-Smith e Roland Morgan gritavam
para os homens ficarem onde estavam, mas ningum os ouvia.
Todos correram para a frente, tentando chegar a uma distncia segura do
bombardeio. Ao se aproximarem do arame farpado britnico, diminuram o
passo e pararam  beira da terra de ningum, percebendo que mais adiante havia
um perigo to grande quanto aquele de que estavam fugindo.
Os oficiais, tentando aproveitar aquela situao, juntaram-se aos soldados.
-		Formem uma linha! - gritou Fitzherbert.
Billy olhou para Profeta. Depois de hesitar, o sargento acatou a ordem.
-		Em linha, em linha! - ordenou.
-		Olhe s aquilo - falou Tommy para Billy.
-		O qu?
-		Depois do arame.
Billy olhou.
-		Os corpos - disse Tommy.
Billy viu do que ele estava falando. O solo estava abarrotado de corpos vestidos
de cqui, alguns terrivelmente mutilados, outros deitados com um ar tranquilo,
como se estivessem dormindo, e outros ainda enlaados como dois amantes.
Havia milhares deles.
-		Jesus nos ajude - sussurrou Billy.
Ele ficou enojado. Que tipo de mundo era aquele? Por que motivo Deus deixaria uma coisa como aquela acontecer?
A Companhia A se alinhou e Billy e o restante da Companhia B assumiram
suas posies atrs deles.
O horror de Billy se transformou em raiva. O conde Fitzherbert e outros de
sua laia haviam planejado aquilo. Estavam no comando, de modo que a culpa
por aquele massacre era deles. Deveriam ser fuzilados, pensou, enfurecido - toda
aquela corja desgraada.
O tenente Morgan soprou um apito e a Companhia A saiu correndo para a
frente como atacantes de rgbi. Carlton-Smith imitou Morgan, e Billy tambm
comeou a correr em um ritmo mais lento.
Ento as metralhadoras alems abriram fogo.
Os homens da Companhia A comearam a cair - e Morgan foi o primeiro.
Nem sequer haviam disparado suas armas. Aquilo no era uma batalha, era um
massacre. Billy olhou para os homens  sua volta. Sentiu vontade de se rebelar.
Os oficiais haviam fracassado. Os homens tinham que tomar suas prprias decises. As ordens que fossem para o inferno.

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-		Que se dane! - gritou ele. - Protejam-se! - Dito isso, jogou-se para dentro de uma cratera de bomba.
As laterais do buraco estavam enlameadas, e o fundo, coberto por uma gua ftida, mas ele se sentiu grato ao pressionar o corpo contra a terra fria e mida enquanto as balas zuniam por cima de sua cabea. Logo em seguida, Tommy aterrissou ao seu lado, seguido pelo resto da seo. Homens de outras sees comearam a imitar a de Billy.
Fitzherbert passou correndo pela cratera onde estavam.
-		Homens, continuem avanando! - gritou ele.
-		Se ele continuar insistindo, vou dar um tiro nesse filho da me - disse Billy.
Ento Fitzherbert foi atingido por tiros de metralhadora. O sangue jorrou de
sua bochecha e uma de suas pernas cedeu sob o peso do corpo. Ele foi ao cho.
Oficiais corriam tanto perigo quanto seus homens. Billy deixou de sentir raiva. Sentia, isso sim, vergonha do Exrcito britnico. Como ele poderia ser to incompetente assim? Depois de todo o esforo despendido, de todo o dinheiro gasto, dos meses de planejamento... a grande investida terminara em fiasco. Era humilhante.
Billy olhou em volta. Fitz estava no cho, inconsciente. Nem o tenente Carlton-Smith, nem o sargento Jones estavam  vista. Os outros homens da seo olhavam para Billy. Ele no passava de um cabo, mas todos esperavam que lhes dissesse o que fazer.
Ele se virou para Mortimer, que j fora oficial:
-		O que voc acha...
-		No olhe para mim, galesinho - disse Mortimer em tom azedo. - A porra do cabo  voc.
Billy precisava bolar um plano.
No iria conduzi-los de volta. Mal cogitou essa possibilidade. Isso seria desperdiar a vida dos homens que j haviam morrido. Precisamos tirar algum proveito disso tudo, pensou; precisamos dar um jeito de mostrar a que viemos.
Por outro lado, ele no iria correr em direo ao fogo das metralhadoras.
A primeira coisa que precisava fazer era avaliar a situao.
Tirou o capacete de ao e o segurou com o brao esticado, erguendo-o acima da borda da cratera para servir de isca - caso algum alemo estivesse mirando ali. Mas nada aconteceu.
Ento ergueu a cabea por cima da borda, esperando ter o crnio varado por um tiro a qualquer momento. Mas tambm no foi o caso.
Ele olhou para o espao que separava as duas frentes e, ento, colina acima,

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para alm do arame farpado alemo, at a linha inimiga escavada na encosta. Pde ver canos de fuzis despontando de brechas no parapeito da trincheira.
-		Onde est a porra da metralhadora? - perguntou a Tommy.
-		No sei bem.
A Companhia C passou correndo. Alguns homens se abrigaram, enquanto outros mantiveram a formao. A metralhadora tornou a abrir fogo, varrendo  bala a linha de homens, que caram como pinos de boliche. Desta vez, Billy no ficou chocado. Estava procurando a origem dos tiros.
-		Descobri - disse Tommy.
-		Onde?
-		Trace uma linha reta daqui at aquele monte de arbustos no alto da colina.
-		Certo.
-		Veja onde essa reta cruza a trincheira alem.
-		Pronto.
-		Agora v um pouco para a direita.
-		At onde... esquea, estou vendo os desgraados. - Logo  frente e um pouco  direita de onde Billy estava, algo que poderia ser um escudo protetor de ferro se erguia sobre o parapeito da trincheira - e o cano inconfundvel de uma metralhadora se projetava acima dele. Billy pensou distinguir trs capacetes alemes em volta do escudo, mas era difcil ter certeza.
Eles deviam estar concentrando os tiros na brecha do arame britnico, pensou Billy. Estavam atirando repetidamente nos homens que corriam para a frente a partir dali. Talvez a sada fosse atac-los de outro ngulo. Se a sua seo conseguisse atravessar a terra de ningum na diagonal, talvez pudesse alcanar a metralhadora pela esquerda dos alemes, que estariam olhando para a direita.
Ele planejou uma rota usando trs crateras grandes, a terceira logo aps um trecho derrubado de arame farpado alemo.
No fazia a menor ideia se essa era uma ttica militar correta. Mas a ttica correta havia custado a vida de milhares de homens naquela manh, ento ela que fosse para o inferno.
Ele tornou a se abaixar e olhou para os homens  sua volta. Apesar da pouca idade, George Barrow tinha uma boa pontaria com o fuzil.
-		Da prxima vez que aquela metralhadora abrir fogo, prepare-se para atirar. Assim que ela parar, voc comea. Com um pouco de sorte, eles vo se proteger. Eu vou correr at aquela cratera ali. Continue atirando at esvaziar o cartucho. Voc tem dez tiros... faa com que eles durem meio minuto. Quando os alemes levantarem a cabea, eu j estarei na outra cratera. - Ele olhou para os outros. - Aguardem

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outro intervalo e ento corram todos ao mesmo tempo, enquanto Tommy lhes d cobertura. Na terceira vez, eu dou cobertura enquanto Tommy corre.
   A Companhia D correu em direo  terra de ningum. A metralhadora abriu fogo. Fuzis e morteiros de trincheira foram disparados ao mesmo tempo. Mas a carnificina foi menor, porque mais homens se abrigavam nas crateras em vez de correr para o meio da chuva de tiros.
   Falta pouco, pensou Billy. Ele tinha dito aos homens o que iria fazer, de modo que seria vergonhoso demais voltar atrs. Cerrou os dentes. Melhor morrer do que ser um covarde, tornou a dizer a si mesmo.
   Os tiros de metralhadora cessaram.
   No mesmo instante, Billy se levantou com um pulo. Agora era um alvo fcil. Abaixou-se e saiu correndo.
   s suas costas, ouviu Barrow atirar. Sua vida estava nas mos de um delinquente juvenil de 17 anos. George atirava em ritmo constante: bangue, dois, trs, bangue, dois, trs, exatamente como ele havia mandado.
   Billy disparou pela terra de ningum o mais rpido que pde, apesar de todo o peso do seu equipamento. Suas botas grudavam na lama, sua respirao era uma srie de arquejos irregulares, seu peito doa, mas no havia nada em sua mente a no ser o desejo de correr mais depressa. Nunca havia chegado to perto da morte quanto naquele instante.
   Quando estava a alguns metros da cratera, arremessou o fuzil l dentro e mergulhou como se estivesse tentando deter um adversrio no rgbi. Aterrissou na borda da cratera e, rolando para a frente, foi parar dentro da lama. Mal conseguiu acreditar que ainda estava vivo.
   Ouviu uma vibrao entrecortada. A seo de Billy estava aplaudindo sua corrida. Achou incrvel que eles conseguissem ficar to alegres em meio a uma carnificina daquelas. Que criaturas estranhas eram os homens.
   Depois de recuperar o flego, olhou com cautela por cima da borda. Havia corrido uns 100 metros. Nesse ritmo, demoraria algum tempo para atravessar a terra de ningum. Mas a alternativa era suicdio.
   A metralhadora tornou a abrir fogo. Quando os tiros cessaram, Tommy comeou a atirar. Seguindo o exemplo de George, fez uma pausa entre cada tiro. Como aprendemos depressa quando nossa vida est em perigo, pensou Billy. Quando Tommy disparou a dcima e ltima bala de seu cartucho, o resto da seo mergulhou dentro da cratera ao lado de Billy.
   - Venham para a frente - gritou ele. A posio alem ficava colina acima, e Billy temia que o inimigo pudesse ver a metade de trs da cratera.
   
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   Ele descansou o fuzil na borda e mirou na metralhadora. Depois de algum tempo, os alemes abriram fogo outra vez. Quando pararam, Billy comeou a atirar. Torceu para que Tommy corresse depressa. Preocupava-se mais com ele do que com todos os outros homens da seo somados. Segurou o fuzil com a mo firme e disparou a intervalos de aproximadamente cinco segundos. Pouco importava que acertasse algum ou no, contanto que obrigasse os alemes a ficarem abaixados enquanto Tommy corria.
   Sua munio acabou e Tommy aterrissou ao seu lado.
  -		Cacete - disse Tommy. - Ns temos que fazer isso mais quantas vezes?
  -		Mais duas, eu acho - respondeu Billy enquanto recarregava. - Ento vamos estar ou perto o suficiente para lanar uma granada de mo, ou todos mortos nesta porra de lugar.
  -		Sem palavres, Billy, por favor - disse Tommy com uma expresso muito sria. - Voc sabe que eu acho desagradvel.
   Billy deu uma risadinha. Ento se perguntou como podia rir. Estou dentro de uma cratera de bomba, com o exrcito alemo atirando em mim, e estou rindo, pensou. Que Deus me ajude.
   Eles passaram para a cratera seguinte da mesma forma, porm, como ela ficava a uma distncia maior, desta vez eles perderam um homem. Joey Ponti foi atingido na cabea enquanto corria. George Barrow o levantou do cho, carregando-o pelo caminho, mas ele estava morto, com um buraco sangrento aberto no crnio. Billy tentou imaginar onde estaria seu irmo caula, Johnny: no o via desde que deixara a trincheira de agrupamento. Vou ter que ser eu a lhe dar a notcia, pensou Billy. Johnny idolatrava o irmo mais velho.
   Havia outros homens mortos naquela cratera. Trs corpos vestidos de cqui flutuavam na gua suja. Deviam ter estado entre os primeiros a avanar. Billy se perguntou como tinham chegado to longe. Talvez fosse apenas sorte. As metralhadoras estavam fadadas a errar alguns alvos na primeira rajada, para ento dizim-los na segunda.
   quela altura, outros grupos estavam se aproximando da linha alem, seguindo uma ttica parecida. Ou estavam imitando o grupo de Billy ou - o que era mais provvel - haviam tido o mesmo raciocnio, abandonando o ridculo ataque em formao ordenado pelos oficiais e bolando sua prpria ttica, mais sensata. O resultado era que os alemes no tinham mais tudo a seu favor. Como eles prprios estavam sob fogo, no podiam manter o mesmo ritmo incessante de tiros. Talvez, por esse motivo, o grupo de Billy tivesse conseguido chegar  ltima cratera sem nenhuma outra baixa.
   
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   Na verdade, eles ganharam um companheiro. Ao lado de Billy, estava deitado um desconhecido.
  -		De onde voc surgiu? - perguntou Billy.
  -		Perdi meu grupo - respondeu o homem. - Vocs pareciam saber o que estavam fazendo, ento eu os segui. Espero que no se importem.
   Ele falava com um sotaque que Billy imaginou ser do Canad.
  -		Voc  bom lanador? - perguntou Billy.
  -		Eu jogava no time de beisebol da minha escola.
  -		Certo. Quando eu der a ordem, veja se consegue atingir aquele ninho de metralhadora com uma granada de mo.
   Billy mandou Llewellyn Espinhento e Alun Pritchard lanarem suas granadas enquanto o resto da seo lhes dava cobertura com tiros de fuzil. Mais uma vez, eles aguardaram at a metralhadora cessar fogo.
  -		Agora! - gritou Billy, levantando-se.
   Uma rajada esparsa de tiros de fuzil veio da trincheira alem. Espinhento e Alun, assustados pelos disparos, lanaram as granadas de qualquer jeito. Nenhuma delas atingiu a trincheira, a pouco menos de 50 metros de distncia; caram perto demais e explodiram sem causar nenhum dano. Billy praguejou: eles haviam simplesmente deixado a metralhadora intacta. Como era de se esperar, ela tornou a abrir fogo e, logo em seguida, Espinhento se debateu terrivelmente enquanto uma saraivada de balas rasgava seu corpo.
   Billy sentia uma calma estranha. Dedicou alguns segundos a se concentrar no alvo e recuou o brao o mximo que conseguiu. Calculou a distncia como se estivesse arremessando uma bola de rgbi. Tinha a leve impresso de que o canadense, bem ao seu lado, estava to calmo quanto ele. A metralhadora rugiu, cuspindo suas balas, e virou-se na sua direo.
   Os dois lanaram ao mesmo tempo.
   Ambas as granadas foram parar dentro da trincheira prxima ao ninho da metralhadora. Houve uma dupla exploso. Billy viu o cano da metralhadora sair voando pelos ares e soltou um grito triunfante. Tirou o pino de sua segunda granada e disparou colina acima aos gritos de "Atacar!"
   O entusiasmo corria por suas veias como uma droga. Ele mal percebia estar correndo perigo. No fazia ideia de quantos alemes poderia haver dentro daquela trincheira, apontando para ele os seus fuzis. Os outros o seguiram. Ele lanou a segunda granada e os homens o imitaram. Algumas erraram o alvo, enquanto outras caram na trincheira e explodiram.
   Billy chegou  trincheira. Foi ento que notou ainda estar carregando o fuzil
   
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no ombro. No tempo que levaria para colocar a arma em posio de tiro, um alemo poderia abat-lo.
   Porm no havia mais nenhum alemo vivo.
   As granadas haviam feito um estrago terrvel. O cho da trincheira estava entulhado de cadveres e - o que era ainda pior de se ver - partes de corpos. Mesmo que algum alemo houvesse sobrevivido ao ataque, tinha batido em retirada. Billy pulou para dentro da trincheira, finalmente empunhando o fuzil com as duas mos, em posio de tiro. Mas no precisava da arma. No havia mais em quem atirar.
   Tommy pulou, aterrissando ao seu lado.
  -		Conseguimos! - gritou, esfuziante. - Tomamos uma trincheira alem!
   Billy sentia uma alegria cruel. Eles haviam tentado mat-lo, mas em vez disso
quem os havia matado era ele. Era um sentimento de profunda satisfao, diferente de tudo o que j experimentara.
  -		Tem razo - disse ele a Tommy. - Conseguimos.
   Billy ficou surpreso com a qualidade das fortificaes alems. Tinha olhos de minerador para avaliar a segurana de uma estrutura. As paredes eram sustentadas por tbuas de madeira, os recessos eram quadrados e os abrigos, espantosamente profundos, descendo seis, s vezes nove metros terra adentro, com portais bem construdos e degraus de madeira. Isso explicava como tantos alemes haviam sobrevivido a sete dias de bombardeio contnuo.
   As trincheiras alems provavelmente haviam sido escavadas em rede, com trincheiras de comunicao conectando o front a reas de armazenagem e manuteno na retaguarda. Billy precisava ter certeza de que no havia nenhum grupo de soldados de tocaia. Ele conduziu os demais em uma patrulha, com os fuzis em ponto de bala, mas no encontraram ningum.
   A rede de trincheiras terminava no alto da colina. L de cima, Billy olhou em volta.  esquerda de onde estavam, depois de uma rea castigada pelas bombas, outros soldados britnicos haviam conquistado o setor seguinte;  sua direita, a trincheira acabava e o solo descia rumo a um pequeno vale, no qual corria um riacho.
   Ele olhou para o leste, em direo ao territrio inimigo. Sabia que, a uns dois ou trs quilmetros de distncia, havia outro sistema de trincheiras, a segunda linha defensiva alem. Estava pronto para conduzir seu pequeno grupo adiante, mas ento hesitou. No via nenhum outro destacamento britnico avanando e imaginava que seus homens j estivessem quase sem munio. Supunha que, a qualquer momento, caminhes de abastecimento viessem chacoalhando pelas crateras abertas trazendo mais munio e ordens para a fase seguinte.
   
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   Ergueu os olhos para o cu. Era meio-dia. Os homens no comiam desde a noite anterior.
   - Vamos ver se os alemes deixaram alguma comida para trs - falou. Mandou Seboso Hewitt ficar de sentinela no alto da colina, para o caso de os alemes contra-atacarem.
   Quase no havia provises ali. Parecia que os alemes no estavam se alimentando muito bem. Eles encontraram um po preto bolorento e um salame j duro. No havia sequer cerveja. Os alemes no eram famosos pela sua cerveja?
   O brigadeiro havia prometido que cozinhas de campanha seguiriam o avano das tropas, mas, sempre que Billy olhava com impacincia para a terra de ningum, no via nem sinal de mantimentos.
   Eles se acomodaram para comer suas raes de biscoitos duros e carne enlatada.
   Billy deveria mandar algum de volta para relatar o ocorrido. Antes que pudesse fazer isso, no entanto, a artilharia alem mudou de alvo. No comeo, haviam bombardeado a retaguarda britnica, mas agora estavam se concentrando na terra de ningum. Vulces de terra explodiam entre as linhas inimigas. O bombardeio era to intenso que ningum teria conseguido retornar com vida.
   Por sorte, os artilheiros estavam evitando a prpria linha de frente. Provavelmente no sabiam quais setores haviam sido tomados pelos britnicos e quais continuavam em mos alems.
   O grupo de Billy estava preso. No podiam nem avanar sem munio, nem recuar por causa do bombardeio. Mas Billy parecia ser o nico preocupado com aquilo. Os outros comearam a procurar suvenires. Recolheram capacetes pontudos, insgnias de quepes e canivetes. George Barrow examinou todos os alemes mortos, tomando seus relgios e anis. Tommy pegou a Luger 9mm de um oficial e uma caixa de munio.
   Eles comearam a ficar letrgicos. No era de espantar: haviam passado a noite em claro. Billy postou duas sentinelas e deixou o restante tirar um cochilo. Estava decepcionado. Havia conquistado uma pequena vitria em seu primeiro dia de batalha - e queria contar isso a algum.
   No fim da tarde, a barragem de artilharia arrefeceu. Billy ponderou se deveria recuar. Era a nica coisa que parecia fazer sentido, mas ele tinha medo de ser acusado de desero frente ao inimigo. No havia como saber do que os oficiais seriam capazes.
   Contudo, os alemes tomaram a deciso por ele. Seboso Hewitt, que estava de sentinela no topo da colina, viu que o inimigo avanava pelo leste. Billy divisou uma tropa numerosa - 50 a 100 homens - atravessar o vale correndo em sua
   
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direo. Seus homens no tinham como defender a posio conquistada sem munio nova.
   Por outro lado, se recuassem poderiam ser repreendidos.
   Ele reuniu seu punhado de homens.
  -		Certo, rapazes - falou. - Atirem  vontade e, quando a munio de vocs acabar, recuem. - Ele esvaziou o fuzil contra os soldados que avanavam, ainda a quase um quilmetro de distncia, ento deu meia-volta e saiu correndo. Os outros fizeram o mesmo.
   O grupo atravessou aos trancos e barrancos as trincheiras alems e a terra de ningum rumo ao sol poente, pulando por cima dos mortos e esquivando-se das equipes com padiolas que recolhiam os feridos. Mas ningum atirou neles.
   Quando chegou ao lado britnico, Billy saltou para dentro de uma trincheira cheia de cadveres, feridos e sobreviventes exaustos como ele. Viu o major Fitzherbert deitado em uma maca, com o rosto ensanguentado, mas com os olhos abertos, vivo e respirando. Esse a eu no teria me importado em perder, pensou. Muitos homens estavam apenas sentados ou deitados na lama, com o olhar perdido, em estado de choque e paralisados pelo cansao. Os oficiais tentavam organizar a volta dos homens e dos cadveres para as sees da retaguarda. O clima no era de triunfo, ningum avanava e os oficiais nem sequer olhavam para o campo de batalha. A grande ofensiva havia sido um fracasso.
   Os homens da seo de Billy que restavam seguiram-no para dentro da trincheira.
  -		Que cagada - disse ele. - Que baita cagada!
Uma semana depois, Owen Bevin foi submetido  corte marcial, acusado de covardia e desero.
   No julgamento, teve a opo de ser defendido por um oficial nomeado para agir como "amigo do prisioneiro", mas recusou. Como seu crime era passvel de pena de morte, a defesa entrou automaticamente com um pedido de inocncia. Bevin, no entanto, no disse nada em defesa prpria. O julgamento levou menos de uma hora. Bevin foi condenado.
   Recebeu a pena capital.
   Os documentos foram enviados para a sede do Estado-Maior para serem sancionados. O comandante em chefe aprovou a pena de morte. Duas semanas mais tarde, em um pasto francs enlameado, Bevin estava diante de um peloto de fuzilamento, com os olhos vendados.
   
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   Alguns dos homens devem ter errado de propsito, pois, depois de atirarem,
Bevin, embora sangrasse, continuava vivo. O oficial que liderava o peloto de
fuzilamento ento se aproximou dele, sacou a pistola e disparou dois tiros  queima-roupa na testa do menino.
   S ento, finalmente, Owen Bevin morreu.
   
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CAPTULO DEZOITO
Final de julho de 1916
       epois de Billy partir para a Frana, Ethel comeou a pensar muito na vida
       e na morte. Sabia que talvez nunca mais o visse. Estava contente por ele ter perdido a virgindade com Mildred.
   - Eu deixei seu irmozinho se aproveitar de mim - disse Mildred em tom descontrado assim que Billy foi embora. - Ele  um doce. Tem mais desse tipo l no Pas de Gales? - Ethel, no entanto, desconfiava que os sentimentos de Mildred no fossem to superficiais quanto ela queria demonstrar, pois, em suas oraes antes de dormir, Enid e Lillian agora pediam a Deus para cuidar do tio Billy na Frana e traz-lo so e salvo para casa.
   Alguns dias depois, Lloyd teve uma infeco pulmonar feia e, desesperada de angstia, Ethel o ninou nos braos enquanto ele lutava para respirar. Com medo de que o filho morresse, arrependeu-se amargamente de que seus pais nunca tivessem visto o neto. Quando o menino melhorasse, decidiu, ela o levaria at Aberowen.
   Voltou  cidade exatamente dois anos depois de ter ido embora. Estava chovendo.
   Aberowen no havia mudado muito, mas lhe pareceu deprimente. Durante os primeiros 21 anos de sua vida, ela no a vira dessa forma, mas agora, depois de morar em Londres, reparou que a cidade tinha apenas uma cor. Tudo era cinza: as casas, as ruas, as pilhas de refugo da mina e as nuvens baixas de chuva que flutuavam desconsoladas pelo cume da montanha.
   Ao sair da estao, no meio da tarde, estava cansada. No era nada fcil fazer uma viagem de um dia inteiro com uma criana de um ano e meio. Lloyd havia se comportado bem, encantando os outros passageiros com seu sorriso cheio de dentes. Mesmo assim, Ethel tivera de lhe dar de comer em um vago chacoalhante, troc-lo em um banheiro ftido e nin-lo quando ele comeou a ficar irrequieto - o que era uma tenso, com tantos desconhecidos olhando.
   Com Lloyd apoiado em um dos quadris e uma pequena mala na mo, ela atravessou a praa da estao e comeou a subir a ladeira da Clive Street. No demorou a ficar ofegante. Aquela era outra coisa de que havia se esquecido. Londres era quase toda plana, enquanto em Aberowen no se ia a lugar nenhum sem subir ou descer uma encosta ngreme.
   
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   Ela no sabia o que havia acontecido ali desde que fora embora. Sua nica fonte de informaes era Billy e os homens no sabiam fofocar. Sem dvida, ela prpria havia sido o assunto preferido de todos durante algum tempo. No entanto, novos escndalos deveriam ter surgido desde ento.
   Sua volta seria uma novidade e tanto. Vrias mulheres a olharam descaradamente enquanto ela subia a rua com o filho. Ela sabia o que estavam pensando. Se no  Ethel Williams, que se achava melhor do que ns, voltando com um vestido marrom velho, um beb no colo e sem marido. O orgulho precede a queda, diriam elas, com uma malcia mal disfarada de compaixo.
   Ela chegou  Wellington Row, mas no foi  casa dos pais. Da tinha lhe dito para nunca mais voltar. Havia escrito para a me de Tommy Griffiths, conhecida como Sra. Griffiths Socialista por conta das crenas polticas fervorosas de seu marido. Na mesma rua, morava uma Sra. Griffiths da Igreja. Os Griffiths no iam  missa e discordavam do estilo linha-dura do pai de Ethel. Como ela havia deixado Tommy pernoitar em sua casa em Londres, a Sra. Griffiths teve prazer em retribuir o favor. Tommy era filho nico, assim, enquanto ele estivesse no Exrcito, sobrava uma cama na casa.
   Da e Mam no sabiam da vinda de Ethel.
   A Sra. Griffiths a recebeu calorosamente e mostrou-se encantada com Lloyd. Ela tivera uma filha que hoje estaria com a mesma idade de Ethel, mas que morrera de coqueluche. Ethel tinha uma vaga lembrana da menina, uma lourinha chamada Gwenny.
   Depois de amamentar e trocar Lloyd, Ethel foi se sentar na cozinha para uma xcara de ch. A Sra. Griffiths reparou em sua aliana.
   -		Voc est casada? - perguntou.
   -		Sou viva - respondeu Ethel. - Ele morreu em Ypres.
   -		Ah, meus psames.
   -		O nome dele era Williams tambm, ento no precisei mudar o meu.
   Essa histria iria se espalhar pela cidade. Alguns questionariam se teria realmente havido um Sr. Williams - e, mesmo que sim, se ele de fato desposara Ethel. Pouco lhe importava que acreditassem nela ou no. Uma mulher que fingisse ser casada era aceitvel; j uma me que se admitisse solteira era uma sem-vergonha. O povo de Aberowen tinha seus princpios.
   -		Quando voc vai ver sua Mam? - quis saber a Sra. Griffiths.
   Ethel no sabia como os pais reagiriam  sua visita. Talvez tornassem a expuls-la de casa, ou ento perdoassem tudo, ou quem sabe at encontrassem alguma forma de condenar seu pecado sem obrig-la a sumir de vista.
   
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A casa dos Williams ficava a poucas portas de distncia. Ethel torceu para que o pai no estivesse. Assim, pelo menos poderia passar algum tempo com a me, que no era to severa.
Pensou em bater na porta, mas achou que seria ridculo, de modo que entrou sem se anunciar.
Deparou-se com a cozinha na qual tinha passado tantos dias da sua vida. Nem seu pai nem sua me estavam, mas Gramper cochilava em sua cadeira. O velho abriu os olhos, fez uma cara de espanto e ento falou, caloroso:
-		Mas se no  a nossa Eth!
-		Oi, Gramper.
Ele se levantou e aproximou-se da neta. Havia se tornado mais frgil: apoiou-se na mesa para atravessar o pequeno aposento. Beijou-a na bochecha e voltou sua ateno para o beb.
-		Ora, ora, quem  este aqui? - perguntou, encantado. - Seria por acaso o meu primeiro bisneto?
-		Este  Lloyd - disse Ethel.
-		Que nome mais bonito!
Lloyd escondeu o rosto no ombro de Ethel.
-		Ele  tmido - explicou ela.
-		Ah, ele est  com medo deste velho de bigode branco. Mas vai se acostumar comigo. Sente-se, minha linda, e conte-me tudo.
-		Onde est nossa Mam?
-		Foi  colperativa comprar um vidro de geleia. - A mercearia da regio era uma cooperativa que dividia o lucro entre os clientes. Esse tipo de loja era popular em Gales do Sul, embora ningum soubesse pronunciar o termo direito. - J deve estar voltando.

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  Ethel ps Lloyd no cho. O menino comeou a explorar a cozinha com passos hesitantes, passando de um apoio a outro, um pouco como Gramper. Ethel falou do emprego de gerente no The Soldiers Wife: sobre como trabalhava com o tipgrafo, distribua as pilhas de jornal, recolhia os exemplares no vendidos e conseguia anunciantes. Gramper se perguntou como a neta sabia o que fazer, e Ethel admitiu que tanto ela quanto Maud foram descobrindo na prtica. Achava difcil trabalhar com o tipgrafo, que no gostava de receber ordens de mulheres, mas era boa em vender espaos publicitrios. Enquanto os dois conversavam, Gramper sacou seu relgio de bolso e o suspendeu pela corrente com a mo, sem olhar para Lloyd. O menino pregou os olhos na corrente brilhante e ento tentou agarr-la. Gramper deixou. Em pouco tempo, Lloyd estava se apoiando nos joelhos do bisav enquanto examinava o relgio.
  Ethel sentiu-se estranha na velha casa. Havia pensado que ela lhe pareceria confortvel, conhecida, como um par de botas que, com o passar dos anos, adquire a forma dos ps de quem as cala. Mas, na verdade, estava um pouco constrangida. Parecia que estava na casa de algum antigo vizinho. Ela no parava de olhar para os bordados gastos, com aqueles mesmos versculos da Bblia, perguntando-se por que a me no os trocava h dcadas. No sentia que ali fosse o seu lugar.
  -		Vocs tiveram alguma notcia do nosso Billy? - perguntou a Gramper.
  -		No, e voc?
  -		No desde que ele foi para a Frana.
  -		Imagino que esteja nessa grande batalha do rio Somme.
  -		Espero que no. Dizem que a situao est ruim.
  -		Sim, pssima, a tirar pelos boatos.
  As pessoas s podiam se fiar em boatos, pois os jornais eram festivamente vagos em suas notcias. No entanto, muitos dos feridos j estavam de volta, internados nos hospitais britnicos, e seus relatos sinistros de incompetncia e massacre eram espalhados no boca a boca.
  Mam entrou em casa.
  -		Eles ficam batendo papo l naquela loja como se no tivessem mais nada para fazer... Ah! - Ela estacou. - Meu Deus do cu,  voc, Eth? - Ento, comeou a chorar.
  Ethel abraou a me.
  -		Olhe s, Cara, este aqui  seu neto, Lloyd - disse Gramper.
  Mam enxugou os olhos e apanhou o beb do cho.
  -		Mas que lindo! - exclamou. - Que cabelos mais encaracolados! Igualzinho
  
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ao Billy quando tinha essa idade. - Lloyd ficou um bom tempo encarando Mam com um olhar amedrontado, para depois abrir o berreiro.
Ethel o pegou no colo.
-		Ele est um grude comigo ultimamente - disse, em tom de desculpas.
-		Eles ficam todos assim nessa idade - falou Mam. - Aproveite bastante, daqui a pouco ele vai mudar.
-		Onde est Da? - perguntou Ethel, tentando no parecer ansiosa demais.
Mam fechou o rosto, tensa.
-		Foi a uma reunio do sindicato em Caerphilly. - Ela olhou para o relgio. - Deve chegar para o ch a qualquer momento, a menos que tenha perdido o trem.
Ethel sentiu que Mam estava torcendo para ele se atrasar. Ela tambm. Queria passar mais tempo com a me antes de a crise estourar.
Mam preparou o ch e ps na mesa um prato de bolinhos galeses polvilhados de acar. Ethel pegou um.
-		H dois anos no como um destes - falou. - So uma delcia.
-		Que coisa boa - disse Gramper, feliz. - Eu, minha filha, minha neta e meu bisneto, todos debaixo do mesmo teto. O que mais um homem poderia pedir da vida? - Ele pegou um bolinho.
Ethel refletiu que alguns poderiam achar a vida de Gramper lamentvel: passar o dia inteiro sentado em uma cozinha enfumaada, vestindo seu nico terno. Mas ele era grato pelo que tinha - e ela o deixara feliz, nem que fosse s por aquele dia.
Ento seu pai entrou em casa.
Mam estava no meio de uma frase:
-		Eu tive a oportunidade de ir a Londres uma vez, quando tinha a sua idade, mas o seu Gramper falou... - A porta se abriu e ela se interrompeu no ato. Todos olharam para Da enquanto ele chegava da rua, vestindo o terno que usava nas assembleias e uma boina achatada de mineiro, suando por causa da subida. Ele deu um passo para dentro da cozinha e parou, encarando a cena.
-		Olhe s quem est aqui - disse Mam com uma alegria forada. - Ethel e o seu neto. - Seu rosto estava plido de tenso.
Da no falou nada. Nem tirou a boina.
-		Oi, Da - disse Ethel. - Este aqui  Lloyd.
Ele no olhou para a filha.
-		O pequeno se parece com voc, Dai... ao redor da boca, est vendo? - disse Gramper.
Lloyd sentiu o clima de hostilidade e comeou a chorar.
Da permaneceu calado. Foi ento que Ethel soube ter cometido um erro ao

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aparecer na casa do pai sem avisar. No queria lhe dar a chance de proibir sua vinda. Mas agora via que a surpresa o colocara na defensiva. Ele parecia acuado. E ela se lembrou de que colocar Da contra a parede era sempre um erro.
   O semblante dele se fechou, inflexvel. Olhou para a mulher e disse:
   -		Eu no tenho neto.
   -		Ora, no fale assim... - disse Mam, em tom de splica.
   A expresso dele continuou rgida. Da ficou imvel, olhando para Mam, sem dizer nada. Estava esperando alguma coisa, e Ethel percebeu que seu pai no iria se mover antes de ela sair da casa. Comeou a chorar.
   -		Ah, droga! - disse Gramper.
   Ethel pegou Lloyd.
   -		Desculpe, Mam - falou, soluando. - Eu pensei que talvez... - Ela engasgou e no conseguiu terminar a frase. Com Lloyd no colo, passou pelo pai, esbarrando em seu corpo. Ele no a encarou nos olhos.
   Ethel saiu e bateu a porta.
Pela manh, depois de os homens terem descido para trabalhar na mina e de as crianas terem ido para a escola, as mulheres geralmente saam para cuidar de seus afazeres ao ar livre. Lavavam a calada, enceravam a soleira de casa ou ento limpavam as janelas. Algumas iam fazer compras ou resolver outros assuntos na rua. Precisavam ver o mundo que havia alm de suas casinhas, pensou Ethel, algo que lembrasse a elas que a vida no se limitava a quatro paredes mambembes.
   Ela estava recostada no muro da casa da Sra. Griffiths Socialista, ao lado da porta de entrada, aproveitando o sol. De ambos os lados da rua, as mulheres haviam encontrado motivos para fazer o mesmo. Lloyd brincava com uma bola. Tinha visto outras crianas atirando bolas e tentava imit-las, mas sem conseguir. Como lanar qualquer coisa era complicado, refletiu Ethel - um ato que usava o ombro e o brao, o pulso e a mo ao mesmo tempo. Os dedos tinham que soltar o objeto logo antes de o brao atingir sua extenso mxima. Como Lloyd ainda no havia dominado a tcnica, soltava a bola cedo demais, deixando-a cair atrs do ombro, ou tarde demais, perdendo o impulso. Mas ele continuava tentando. Com o tempo, acabaria conseguindo, pensou Ethel, e depois nunca mais esqueceria. S depois de ter um filho  que voc entendia quanto uma criana precisava aprender.
   Ela no conseguia compreender como seu pai era capaz de rejeitar aquele 
   
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menininho. Lloyd no tinha feito nada de errado. Ethel havia pecado, mas o mesmo valia para a maioria das pessoas. Deus perdoava seus pecados, ento quem era Da para julgar os outros? Aquilo a deixava ao mesmo tempo zangada e triste.
   O rapaz do correio veio subindo a rua montado em seu pnei, amarrando-o em seguida junto ao banheiro pblico. Ele se chamava Geraint Jones. Seu trabalho era entregar encomendas e telegramas, mas desta vez no parecia estar carregando pacote nenhum. De repente, Ethel sentiu um calafrio, como se uma nuvem tivesse escondido o sol. Quase ningum recebia telegramas na Wellington Row e, quando chegava algum, geralmente trazia ms notcias.
   Geraint desceu a ladeira, afastando-se de Ethel. Ela ficou aliviada: a notcia no era para a sua famlia.
   Lembrou-se ento de uma carta que havia recebido de lady Maud. Ethel, Maud e outras mulheres haviam organizado uma campanha para garantir que o voto feminino fizesse parte de qualquer debate sobre uma reforma eleitoral referente aos soldados. Haviam conseguido publicidade suficiente para impedir que o primeiro-ministro Asquith pudesse se esquivar do problema.
   Maud contava na carta que ainda assim ele havia tirado o corpo fora, deixando o problema nas mos de uma comisso liderada pelo presidente da Cmara dos Comuns, batizada de Speaker s Conference. Mas isso era bom, segundo Maud. Em vez de discursos histrinicos na prpria cmara baixa do Parlamento, haveria um debate tranquilo e reservado. Talvez o bom senso prevalecesse. De qualquer forma, ela estava tentando descobrir quem Asquith iria pr na comisso.
   Algumas portas mais adiante na rua, Gramper saiu de dentro de casa, sentou-se no peitoril baixo da janela e acendeu seu primeiro cachimbo do dia. Ao ver Ethel, sorriu e acenou.
   Do outro lado, Minnie Ponti, me de Joey e Johnny, comeou a bater em um tapete com uma vara, soltando a poeira presa nele e tossindo durante o processo.
   A Sra. Griffiths saiu de casa com uma p cheia de cinzas do fogo da cozinha, despejando-a em um buraco na rua de terra batida.
  -		Posso ajudar em alguma coisa? - perguntou-lhe Ethel. - Eu poderia ir  colperativa para a senhora, se quiser. - Ela j havia feito as camas e lavado a loua do caf da manh.
  -		Est bem - respondeu a Sra. Griffiths. - Vou fazer a lista para voc j, j. - Ela se apoiou na parede, ofegante. Era uma mulher pesada, e qualquer atividade a deixava sem ar.
   Ethel se deu conta de que havia uma comoo na extremidade mais baixa da rua. Vrias vozes se ergueram. Em seguida, ela escutou um grito.
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Ela e a Sra. Griffiths se entreolharam, ento Ethel apanhou Lloyd e as duas
correram para descobrir o que estava acontecendo do outro lado dos banheiros.
A primeira coisa que Ethel viu foi um grupo de mulheres amontoadas em volta
da Sra. Pritchard, que berrava a plenos pulmes. As outras mulheres tentavam
acalm-la. Mas ela no era a nica. Cotoco Pugh, ex-minerador que havia perdido uma perna em um desabamento, estava sentado no meio da rua como se houvesse sido nocauteado, ladeado por dois vizinhos. Na outra calada, a Sra. John
Jones da Loja estava em p na soleira de sua porta, aos soluos, segurando uma
folha de papel.
Ethel viu Geraint, o rapaz do correio, muito plido e  beira das lgrimas, atravessar a rua para bater  porta de outra casa.
-		So os telegramas do Departamento de Guerra... - disse a Sra. Griffiths. -
Ai, que Deus nos ajude.
-		A batalha do Somme - disse Ethel. - Os Aberowen Pais devem ter participado dela.
-		Alun Pritchard deve ter morrido, e Clive Pugh, e Profeta Jones... ele era sargento, seus pais estavam to orgulhosos...
-		Coitada da Sra. Jones da Loja, o outro filho dela morreu na exploso da mina.
-		Por favor, Deus, permita que meu Tommy esteja bem - rezou a Sra. Griffiths,
embora seu marido fosse um ateu notrio. - Ai, poupe Tommy.
-		E Billy - disse Ethel. Depois, sussurrando no ouvido pequenino de Lloyd,
acrescentou: - E o seu pai.
Geraint carregava uma bolsa de lona a tiracolo. Assustada, Ethel se perguntou
quantos outros telegramas haveria l dentro. O menino percorria a rua em zigue-
zague, um anjo da morte usando uma boina do correio.
Quando ele passou pelos banheiros e chegou  metade superior da rua, todos j
estavam na calada. As mulheres haviam interrompido qualquer trabalho que estivessem fazendo e aguardavam. Os pais de Ethel tinham sado tambm - Da ainda
no fora para o trabalho. Estavam em p junto a Gramper, calados e temerosos.
Geraint se aproximou da Sra. Llewellyn. Seu filho Arthur deveria ter morrido.
O apelido dele era Espinhento, recordou Ethel. O pobre rapaz j no precisaria
mais se preocupar com a pele.
A Sra. Llewellyn ergueu as mos como se quisesse manter Geraint afastado.
-		No! - gritou ela. - No, por favor!
Ele estendeu o telegrama.
-		No posso fazer nada, Sra. Llewellyn - disse ele. Tinha apenas 17 anos. - Seu
endereo est escrito na frente, est vendo?

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Ainda assim, ela no quis pegar o envelope.
-		No! - repetiu, virando as costas e enterrando o rosto nas mos.
Os lbios do rapaz tremiam.
-		Por favor, pegue - falou ele. - Ainda tenho este monto aqui para entregar. E tem mais l na agncia, centenas deles! So dez da manh e eu no sei como vou fazer para entregar tudo at a noite. Por favor.
A Sra. Parry Price, sua vizinha de porta, disse:
-		Eu pego para ela. No tenho filhos.
-		Muito obrigado, Sra. Price - disse Geraint antes de continuar seu caminho.
Tirou mais um telegrama da sacola, conferiu o endereo e passou direto pela
casa dos Griffiths.
-		Ai, graas a Deus - falou a Sra. Griffiths. - Meu Tommy est bem, graas a Deus. - Ela comeou a chorar de alvio. Ethel trocou Lloyd de quadril e passou um brao  sua volta.
O menino se aproximou de Minnie Ponti. Ela no gritou, mas lgrimas escorriam de seu rosto.
-		Qual dos dois? - perguntou com a voz embargada. - Joey ou Johnny?
-		No sei, Sra. Ponti - respondeu Geraint. - A senhora tem que ler o que est escrito.
Ela rasgou o envelope para abri-lo.
-		No estou vendo nada! - gritou. Ento esfregou os olhos, tentando se livrar das lgrimas, e tornou a olhar. - Giuseppe! - falou. - Meu Joey morreu. Ah, coitadinho do meu menino!
A Sra. Ponti morava quase no final da rua. Ethel aguardou, com o corao aos pulos, para ver se Geraint iria  casa dos Williams. Estaria Billy vivo ou morto?
O rapaz deu as costas  chorosa Sra. Ponti. Olhou para o outro lado da rua e viu Da, Mam e Gramper a encar-lo com uma expectativa pavorosa. Verificou a bolsa, erguendo os olhos em seguida.
-		No tem mais nenhum para Wellington Row - disse ele.
Ethel quase desabou. Billy estava vivo.
Olhou para os pais. Mam chorava. Gramper tentava acender seu cachimbo, mas suas mos tremiam.
Da a encarava. Ela no conseguia interpretar a expresso em seu rosto. Seu pai estava tomado por alguma emoo, mas ela no sabia dizer qual.
Ele deu um passo em sua direo.
No foi grande coisa, mas foi o suficiente. Com Lloyd no colo, ela correu at Da.
Seu pai abraou os dois.

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   -		Billy est vivo - disse ele. - E voc tambm.
   -		Ai, Da - disse ela. - Eu sinto tanto por ter decepcionado o senhor.
   -		Esquea isso agora. - falou ele. - Ento afagou suas costas como quando ela era pequena e caa e ralava os joelhos. - No foi nada, no foi nada - disse ele. - J passou.
Ethel sabia que um culto ecumnico era um acontecimento raro entre os cristos de Aberowen. Para os galeses, as diferenas doutrinrias nunca eram pequenas. Um grupo se recusava a celebrar o Natal, alegando no haver nada na Bblia que provasse a data do nascimento de Cristo. Outro era contra votar nas eleies, pois o apstolo Paulo havia escrito: "Nossa cidadania est nos cus." Nenhum dos grupos gostava de celebrar seu culto ao lado de pessoas que discordassem dele.
   Depois da Quarta-feira dos Telegramas, porm, essas diferenas se tornaram, durante um curto intervalo, insignificantes.
   O proco de Aberowen, reverendo Thomas Ellis-Thomas, props um culto coletivo em homenagem aos mortos. Os telegramas entregues totalizavam 211 - e, como a batalha ainda no havia terminado, a cada dia chegava mais uma ou outra triste notificao. Todas as ruas da cidade haviam perdido algum e, nas fileiras cerradas dos casebres dos mineradores, a cada poucos metros havia uma famlia de luto.
   Metodistas, batistas e catlicos aceitaram a sugesto do proco anglicano. Os grupos menores talvez tivessem preferido no participar: batistas do Evangelho Pleno, testemunhas de Jeov, adventistas e a Capela de Bethesda. Ethel viu o pai travar uma luta com a prpria conscincia. Contudo, ningum queria ficar de fora daquele que prometia ser o maior culto religioso da histria da cidade, de modo que, no fim das contas, todos acabaram aderindo. Aberowen no tinha sinagoga, mas, como o jovem Jonathan Goldman era um dos mortos, os poucos judeus praticantes da cidade resolveram participar da cerimnia, embora nenhuma concesso fosse ser feita  sua religio.
   O servio religioso ocorreu no domingo  tarde, s duas e meia, em um parque municipal conhecido como Reck, contrao de "Recreation Ground", ou espao recreativo. A prefeitura ergueu um tablado temporrio para os sacerdotes no local. O dia estava bonito e ensolarado e trs mil pessoas compareceram.
   Ethel correu os olhos pela multido. Perceval Jones estava presente, de cartola.
   
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Alm de prefeito de Aberowen, ele passara a ser o representante da cidade na
Cmara dos Comuns do Parlamento. Era tambm o comandante militar honorrio dos Aberowen Pais e havia liderado o recrutamento. Estava acompanhado
de vrios diretores da Celtic Minerais - como se eles tivessem alguma coisa a ver
com o herosmo dos mortos, pensou Ethel com amargura. Maldwyn Morgan foi a Merthyr tambm; apareceu com a mulher, mas eles tinham o direito de estar ali,
pois haviam perdido o filho Roland.
Foi ento que ela viu Fitz.
A princpio, no o reconheceu. Divisou tambm a princesa Bea, de vestido e
chapu pretos, seguida por uma ama-seca que carregava o pequeno visconde de
Aberowen, um menino da mesma idade de Lloyd. Ao lado de Bea havia um homem
de muletas, com a perna esquerda engessada e uma atadura sobre um dos lados
do rosto, tapando-lhe o olho esquerdo. Ethel precisou de um bom tempo para
entender que aquele era Fitz, e o choque a fez soltar um grito.
-		O que foi? - perguntou-lhe Mam.
-		Olhe s para o conde!
-		Aquele  o conde? Nossa me, coitado!
Ethel no desgrudava os olhos de Fitz. No estava mais apaixonada - ele tinha
sido cruel demais. Ainda assim, no conseguia ficar indiferente. Havia beijado o
rosto sob aquela atadura um dia e acariciara o corpo esguio e forte agora to terrivelmente mutilado. Ele era um homem vaidoso - esse era o mais perdovel de
seus defeitos -, e Ethel sabia que a sua humilhao ao se olhar no espelho devia
lhe causar mais dor do que os prprios ferimentos.
-		Por que ser que ele no ficou em casa? - perguntou Mam. - Todos teriam
entendido.
Ethel sacudiu a cabea.
-		Ele  orgulhoso demais - falou. - Foi ele quem conduziu os homens  morte.
Tinha que vir.
-		Voc o conhece bem - comentou Mam, com um olhar que fez Ethel se perguntar se ela desconfiava da verdade. - Mas imagino que, alm disso, ele queira
que as pessoas vejam que a classe dominante tambm sofreu.
Ethel assentiu. Mam tinha razo. Fitz era arrogante e dominador, mas, paradoxalmente, tambm ansiava pelo respeito das pessoas comuns.
Dai Costeletas, filho do aougueiro, aproximou-se das duas.
-		Fico feliz em v-la de volta a Aberowen - disse ele.
Ele era baixinho e vestia um terno elegante.
-		Como vai, Dai? - cumprimentou-o Ethel.

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-		Muito bem, obrigado. Amanh vai estrear um filme novo de Charlie
Chaplin. Voc gosta dele?
-		No tenho tempo para ir ao cinema.
-		Por que no deixa o menino com sua me amanh  noite e vem comigo?
Dai havia enfiado a mo debaixo da saia dela no cinema Palace de Cardiff.
Fazia cinco anos, mas, pela expresso nos olhos dele, Ethel percebia que Dai no
se esquecera.
-		No, obrigada - respondeu com firmeza.
Ele ainda no estava disposto a desistir:
-		Agora estou trabalhando na mina, mas vou assumir a loja quando meu pai
se aposentar.
-		Tenho certeza de que vai fazer um timo trabalho.
-	Alguns homens nem sequer olhariam para uma garota com um filho - disse
	ele. - Mas no eu.
Havia um qu de arrogncia naquele comentrio, mas Ethel decidiu no se
ofender.
-		At logo, Dai. Foi muita gentileza sua me convidar.
Ele abriu um sorriso desapontado.
-		Voc continua sendo a garota mais bonita que eu j conheci. - Tocou a boina
e se afastou.
-		Qual  o problema com ele? - quis saber Mam, indignada. - Voc precisa de
um marido e ele  um partido e tanto!
De fato, qual era o problema com ele? Era meio baixinho, mas seu charme
compensava isso. Tinha um bom futuro pela frente e estava disposto a aceitar o
filho de outro homem. Ethel se perguntou por que estava to segura de que no
queria ir ao cinema com ele. Ser que, bem l no fundo, ainda se achava boa
demais para Aberowen?
Bem em frente ao tablado, havia uma fila de cadeiras reservadas  elite. Fitz e Bea
se acomodaram ao lado de Perceval Jones e Maldwyn Morgan e o culto comeou.
Ethel era uma crist no muito convicta. Imaginava que devesse existir um
Deus, mas desconfiava que Ele fosse mais razovel do que seu pai pensava. As
desavenas fervorosas de Da com as igrejas oficiais no passavam, para Ethel, de
uma leve antipatia pelos dolos, pelo incenso e pela lngua latina. Em Londres, s
vezes ia ao Salo do Evangelho do Calvrio aos domingos de manh, sobretudo
porque o pastor de l era um socialista ferrenho e permitia que sua igreja fosse
usada para a clnica de Maud e para reunies do Partido Trabalhista.
Obviamente, no havia rgo no Reck, de modo que os puritanos no tiveram

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que engolir sua objeo aos instrumentos musicais. Da contara a Ethel que houvera discrdia em relao a quem conduziria os hinos - papel que, em Aberowen, era mais importante do que o de pregador. Por fim, o Coral Masculino de Aberowen foi posicionado na frente e seu regente, que no pertencia a nenhuma igreja em especial, ficou encarregado da msica.
   Eles comearam com um hino muito popular de Hndel, "Como pastor Ele cuida de Seu rebanho", uma harmonia vocal complexa que a congregao executou  perfeio. Enquanto centenas de tenores se erguiam pelo parque entoando a estrofe "Com o brao ajunta os cordeiros", Ethel percebeu que sentira falta dessa msica emocionante quando estava em Londres.
   O padre catlico recitou o Salmo 129, De Profundis, em latim. Ele gritou o mais alto que pde, porm os que estavam mais afastados do tablado mal conseguiram escutar. O proco anglicano leu a Orao do Dia para o Sepultamento dos Mortos do Livro de Oraes. Dilys Jones, um jovem metodista, cantou o hino "Amor divino que a todos excede", de autoria de Charles Wesley. O pastor batista leu o captulo 15 de I Corntios do versculo 20 at o final.
   Era preciso um pregador para representar os grupos independentes, e Da fora o escolhido.
   Ele comeou lendo um versculo do captulo 8 da Epstola aos Romanos: "E, se o Esprito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vocs, aquele que ressuscitou a Cristo dentre os mortos tambm dar vida a seus corpos mortais, por meio do seu Esprito, que habita em vocs." Da tinha uma voz potente, que ecoou vigorosa por todo o parque.
   Ethel sentiu orgulho do pai. Aquela honra confirmava seu status de um dos homens mais importantes da cidade, um lder espiritual e poltico. E ele tambm estava muito elegante: Mam havia lhe comprado uma gravata preta nova, de seda, na loja de departamentos Gwyn Evans, em Merthyr.
   Quando Da comeou a falar sobre ressurreio e vida aps a morte a ateno de Ethel se dispersou: ela j ouvira tudo aquilo antes. Imaginava que de fato houvesse vida aps a morte, mas no tinha certeza, e, de toda forma, no tardaria a descobrir.
   Uma agitao na plateia a alertou de que Da talvez houvesse se afastado dos temas habituais. Ela o ouviu dizer:
   - Quando este pas decidiu ir  guerra, espero que cada membro do Parlamento tenha posto a mo na conscincia, com sinceridade e f, e buscado os conselhos de Deus. Mas quem colocou esses homens no Parlamento?
   Ele vai partir para a poltica, pensou Ethel. Muito bem, Da. Isso vai tirar a expresso de superioridade do rosto do proco.
   
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-		Em princpio, todos os homens deste pas esto aptos ao servio militar. Mas nem todos os homens podem participar da deciso de ir  guerra.
A multido soltou gritos de aprovao.
-		As regras eleitorais excluem mais da metade dos homens deste pas!
-		E todas as mulheres! - gritou Ethel.
-		Shh! - disse Mam. - Quem est fazendo o sermo  o seu pai, no voc.
-		Mais de 200 homens de Aberowen perderam a vida no primeiro dia de julho, l nas margens do rio Somme. Fui informado de que as baixas britnicas ultrapassam 50 mil!
A multido arfou, horrorizada. Poucos tinham noo desse nmero. Da ficara sabendo por Ethel. Maud conseguira a informao de seus amigos no Departamento de Guerra.
-		Cinquenta mil baixas, que incluem 20 mil mortos - prosseguiu Da. - E a batalha continua. Dia aps dia, mais rapazes esto sendo massacrados. - Alguns murmrios de discrdia se ergueram na multido, mas foram em grande parte abafados pelos gritos de aprovao. Da ergueu a mo, pedindo silncio. - No estou pondo a culpa em ningum. Mas digo apenas o seguinte: um massacre dessas propoes no pode estar certo quando tantos homens foram impedidos de opinar na deciso de ir  guerra.
O proco de Aberowen deu um passo  frente para tentar interromper Da, enquanto Perceval Jones tentava subir no palanque sem sucesso.
Da, no entanto, estava quase terminando:
-		Se algum dia nos pedirem para ir  guerra novamente, no devemos permitir que isso acontea sem a aprovao de todo o povo.
-		E no s dos homens, das mulheres tambm! - gritou Ethel, mas sua voz se perdeu em meio s exclamaes de apoio dos mineradores.
quela altura, vrios homens estavam em p na frente de Da, protestando com ele, mas sua voz se ergueu acima da algazarra.
-		Nunca mais iremos  guerra por deciso de uma minoria! - rugiu ele. - Nunca mais! Nunca mais! Nunca mais!
Ele se sentou e os vivas ecoaram como um trovo.

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CAPTULO DEZENOVE
De julho a outubro de 1916

      ovei era um entroncamento ferrovirio na regio da Rssia que j havia pertencido  Polnia, perto da antiga fronteira com a ustria-Hungria. O exrcito russo se reuniu pouco mais de 30 quilmetros a leste da cidade, s margens do rio Stokhod. A regio toda era pantanosa, centenas de quilmetros quadrados de brejos entrecortados por caminhos de terra. Grigori encontrou um trecho de solo mais seco e ordenou a seu peloto que montasse acampamento. Eles no tinham barracas: o major Azov vendera todas fazia trs meses para uma fbrica de roupas em Pinsk. Segundo ele, os homens no precisavam de barracas no vero e, quando chegasse o inverno, j estariam todos mortos.
   Por algum milagre, Grigori continuava vivo. Era agora sargento, enquanto seu amigo Isaak era cabo. Os poucos sobreviventes dentre os homens recrutados em 1914 haviam quase todos se tornado suboficiais. O batalho de Grigori tinha sido dizimado, transferido, recebido reforos e sido dizimado outra vez. Foram mandados para toda parte, menos de volta para casa.
   Grigori matara muitos homens nos ltimos dois anos, usando o fuzil, a baioneta ou uma granada de mo, na maior parte das vezes de perto o suficiente para v-los morrer. Isso fazia alguns de seus companheiros terem pesadelos, sobretudo os mais instrudos, mas no Grigori. Ele havia nascido no ambiente brutal de uma aldeia de camponeses e sobrevivera como rfo nas ruas de So Petersburgo: a violncia no perturbava seu sono.
   O que o deixava chocado era a estupidez, a insensibilidade e a corrupo dos oficiais. Viver e combater lado a lado com a classe dominante o tornara um revolucionrio.
   Precisava continuar vivo. No havia mais ningum para cuidar de Katerina.
   Escrevia regularmente para ela e, de vez em quando, recebia uma carta com uma caligrafia caprichada de colegial e cheia de erros e palavras riscadas. Havia guardado todas elas em um mao bem amarrado dentro de sua bolsa de soldado - e, quando ficava um bom tempo sem receber nada, lia as correspondncias antigas.
   Na primeira, ela lhe contara ter dado  luz um menino, Vladimir, que j estava com um ano e meio - o filho de Lev. Grigori ansiava por conhec-lo. Lembrava-se perfeitamente do irmo quando era beb. Teria Vladimir o mesmo sorriso desdentado
   
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irresistvel? Se bem que o menino j deveria ter dentes - e inclusive estar andando e dizendo suas primeiras palavras. Grigori queria que ele aprendesse a dizer "tio Grishka".
   No parava de pensar na noite em que Katerina viera se deitar em sua cama. Quando sonhava acordado, s vezes modificava os acontecimentos de modo que, em vez de expuls-la, ele a tomava nos braos, beijava sua boca carnuda e fazia amor com ela. Na vida real, contudo, sabia que o corao de Katerina pertencia a seu irmo.
   Grigori no tivera notcia alguma de Lev, que partira da Rssia havia mais de dois anos. Temia que alguma tragdia houvesse acometido o irmo nos Estados Unidos. Os vcios de Lev muitas vezes o metiam em encrencas, embora ele sempre desse um jeito de se safar. A origem de seus problemas estava na maneira como ele fora criado, sempre passando dificuldades, sem nenhuma disciplina de verdade e tendo apenas Grigori como parco substituto de pai e me. Grigori queria ter feito um trabalho melhor, mas ele prprio no passava de um garoto.
   A parte boa era que Katerina no tinha ningum para cuidar dela e do beb a no ser Grigori. Ele estava determinadssimo a continuar vivo, apesar da incompetncia catica do Exrcito russo, para um dia poder voltar para junto deles.
   O comandante daquela zona, general Brusilov, era soldado profissional - ao contrrio de tantos generais que no passavam de cortesos. Sob as ordens de Brusilov, os russos haviam conquistado vitrias em junho, obrigando os austracos a recuarem, aturdidos. Quando as ordens faziam algum sentido, Grigori e seus homens lutavam com afinco. Caso contrrio, usavam suas energias para se manterem fora da linha de tiro. Grigori havia ficado bom nisso e, consequentemente, ganhara a confiana de seu peloto.
   Em julho, o avano russo havia desacelerado, prejudicado, como sempre, pela falta de mantimentos. Mas agora o Exrcito da Guarda tinha chegado para reforar o contingente. A Guarda era um grupo de elite, composto pelos soldados mais altos e mais bem preparados fisicamente da Rssia. Ao contrrio do restante da tropa, tinham belos uniformes - verde-escuros com gales dourados e botas novas. Porm seu comandante, general Bezobrazov, outro corteso do czar, era fraco. Grigori achava que Bezobrazov no conseguiria tomar Kovel, por mais altos que fossem seus soldados.
   Quem trouxe as ordens ao raiar do dia foi o major Azov, um homem alto e pesado, vestido com um uniforme justo, e, como sempre, com os olhos vermelhos quela hora da manh. O tenente Kirillov o acompanhava. O tenente convocou
   
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os sargentos e Azov mandou que eles cruzassem o rio e atravessassem o brejo pelos caminhos de terra batida em direo ao oeste. Os austracos estavam a postos no brejo, mas no tinham escavado trincheiras: o solo era mido demais para isso.
   Grigori previa um desastre. Os austracos estariam  espera, protegidos, em posies que tinham podido escolher com cuidado. Os russos estariam concentrados em seguir as trilhas e no conseguiriam se mover depressa pelo terreno pantanoso. Seriam massacrados.
   Para piorar, tinham poucas balas.
  -		Alteza, temos um problema de munio - disse Grigori.
   Azov se movimentava depressa para um homem gordo. Sem aviso, desferiu um soco na boca de Grigori. Uma dor lancinante explodiu em seus lbios e ele caiu para trs.
  -		Isso vai manter voc calado por algum tempo - disse Azov. - Vocs recebero munio quando seus oficiais resolverem que  preciso - Ele se virou para os outros. - Formem fileiras e avancem quando ouvirem o sinal.
   Grigori se levantou do cho, sentindo gosto de sangue na boca. Tocando o rosto com delicadeza, descobriu que havia perdido um dos dentes da frente. Amaldioou a prpria displicncia. Em um instante de distrao, havia chegado perto demais de um oficial. J deveria estar cansado de saber: eles partiam para cima  menor provocao. Por sorte Azov no estava segurando um fuzil, ou teria sido a coronha da arma a atingir o seu rosto.
   Ele reuniu seu peloto e o disps em uma linha irregular. Seu plano era ficar para trs e deixar que outros fossem na frente, mas, para sua decepo, Azov despachou sua companhia com antecedncia e o peloto de Grigori foi um dos primeiros.
   Ele teria que pensar em alguma outra soluo.
   Entrou na gua do rio, seguido pelos 35 homens de seu peloto. A gua estava fria, mas, como fazia sol e calor, os homens no se incomodaram muito em se molharem. Grigori avanava devagar e seus homens o imitavam, mantendo-se logo atrs dele, esperando para ver o que seu lder faria.
   O rio Stokhod era largo e raso, e os homens chegaram ao outro lado sem que a gua passasse da altura de suas coxas. J haviam sido ultrapassados por outros soldados mais dispostos, constatou Grigori com satisfao.
   Uma vez na trilha estreita que cortava o brejo, o peloto de Grigori teve que entrar no mesmo ritmo dos outros e ele no pde executar seu plano de ficar para trs. Comeou a ficar preocupado. No queria que seus homens estivessem naquele grupo quando os austracos abrissem fogo.
   
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   Depois de avanarem cerca de dois quilmetros, a trilha tornou a se estreitar, obrigando os homens a formarem uma fila indiana e fazendo-os diminuir o ritmo. Grigori viu uma oportunidade. Fingindo estar impaciente com a demora, saiu da trilha e passou a andar pela gua lamacenta. O restante de seus homens logo o imitou. O peloto que vinha logo atrs acelerou e fechou a brecha.
   A gua batia no peito de Grigori e a lama era viscosa. Caminhar pelo brejo era muito lento, e - como ele havia planejado - seu peloto ficou para trs.
   O tenente Kirillov viu o que estava acontecendo e, irado, gritou:
  -		Ei, vocs a! Voltem para a trilha!
   Grigori gritou de volta.
  -		Sim, Excelncia. - Porm conduziu seus homens para mais longe ainda, fingindo procurar solo mais firme.
   O tenente soltou um palavro e desistiu.
   Grigori examinava o terreno  sua frente com a mesma ateno que os oficiais, embora por motivos diferentes. Enquanto os oficiais procuravam o exrcito austraco, ele procurava um lugar para se esconder.
   Continuou avanando enquanto deixava centenas de soldados o ultrapassarem. J que a Guarda  to cheia de si, pensou, ela que trave o combate.
   Por volta do meio da manh, ouviu os primeiros tiros vindos l da frente. A vanguarda havia entrado em combate com o inimigo. Estava na hora de buscar abrigo.
   Grigori chegou a um pequeno aclive onde o solo estava mais seco. O restante da companhia do major Azov j estava fora de seu campo de viso, bem mais  frente. Do alto da subida, Grigori gritou:
  -		Protejam-se! Posio inimiga  frente e  esquerda!
   No havia posio inimiga nenhuma, e seus homens sabiam disso, mas todos se jogaram no cho atrs de arbustos e rvores e miraram os fuzis encosta abaixo. Grigori disparou um tiro exploratrio em um tufo de vegetao cerca de 500 metros mais adiante, s para confirmar que no havia dado o azar de escolher um local de fato ocupado por austracos; mas ningum atirou de volta.
   Contanto que ficassem ali, estariam seguros, pensou Grigori com satisfao. Com o passar do dia, duas coisas poderiam acontecer. O mais provvel era que, dali a poucas horas, soldados russos voltassem cambaleando pelo brejo carregando seus feridos e perseguidos pelo inimigo - nesse caso, o peloto de Grigori se juntaria  debandada. Ou ento, por volta do anoitecer, Grigori concluiria que os russos tinham sado vitoriosos e faria seu grupo avanar rumo  comemorao.
   Enquanto isso, o nico problema era obrigar os homens a continuarem fingindo
   
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que estavam combatendo uma posio austraca. Era tedioso passar horas e horas deitado no cho olhando para a frente, como quem vasculha o terreno em busca de soldados inimigos. Os homens tendiam a comear a comer e beber, a fumar, a jogar cartas ou ento a cochilar, o que estragava a encenao.
   No entanto, antes que eles pudessem se acomodar, o tenente Kirillov apareceu uns 200 metros  direita de Grigori, do outro lado de uma lagoa. Grigori resmungou: aquilo poderia estragar tudo.
  -		Homens, o que esto fazendo? - gritou Kirillov.
  -		Abaixe-se, Excelncia! - gritou Grigori de volta.
   Isaak deu um tiro para o alto com seu rifle e Grigori se agachou. Kirillov fez o mesmo e ento voltou pelo caminho por onde tinha vindo.
   Isaak deu uma risadinha.
  -		Nunca falha.
   Grigori j no tinha tanta certeza. Kirillov lhe pareceu irritado, contrariado, como se soubesse que estava sendo passado para trs mas no conseguisse decidir o que fazer a respeito.
   Grigori ficou escutando a profuso de estrondos da batalha mais  frente. Calculou que ela estivesse acontecendo a menos de dois quilmetros dali e que no se movia em nenhuma direo.
   O sol subiu mais alto no cu e secou suas roupas molhadas. Ele comeou a ficar com fome e ps-se a roer um pedao de biscoito duro de sua marmita, evitando o local dolorido em que Azov tinha quebrado seu dente.
   Assim que a nvoa se dispersou, ele viu avies alemes voando baixo, cerca de um quilmetro e meio mais adiante. A julgar pelo barulho, estavam atirando com metralhadoras contra as tropas terrestres. A Guarda, amontoada em trilhas estreitas ou chapinhando na lama, deveria ser um alvo terrivelmente fcil. Grigori sentiu-se duplamente grato por ter garantido que nem ele nem seus homens estivessem l.
   Pelo meio da tarde, o som da batalha pareceu se aproximar. Os russos estavam sendo empurrados de volta. Ele se preparou para ordenar que seus homens se juntassem s tropas em fuga - mas ainda no era o momento. No queria chamar ateno. Bater em retirada devagar era quase to importante quanto avanar devagar.
   Viu alguns soldados dispersos  sua esquerda e  sua direita, voltando pelo brejo em direo ao rio, alguns obviamente feridos. O exrcito j havia comeado a retroceder, mas ainda no estava em franca retirada.
   De algum lugar ali perto, ouviu um relincho. Onde havia um cavalo, havia um
   
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oficial. Grigori disparou na mesma hora contra austracos imaginrios. Seus homens o imitaram, e uma srie de estampidos espaados ecoou pelo ar. Ele olhou em volta e viu o major Azov montado em um grande cavalo de caa cinzento que chapinhava pela lama. Azov gritava para um grupo de soldados que recuava, dizendo-lhes para voltar ao combate. Os soldados discutiram com ele at o verem sacar um revlver Nagant - idntico ao de Lev, pensou Grigori - e apont-lo na direo deles. Ento deram meia-volta e retornaram com relutncia por onde tinham vindo.
Azov guardou a arma no coldre e trotou at a posio de Grigori.
-		O que esto fazendo aqui, seus idiotas? - perguntou.
Grigori continuou deitado no cho, mas rolou de barriga para cima e recarregou o fuzil, enfiando seu ltimo cartucho de cinco tiros no lugar e fingindo pressa.
-		Tem uma posio inimiga no meio daquelas rvores ali na frente, Alteza - disse ele. -  melhor o senhor desmontar, eles podem v-lo.
Azov continuou montado.
-		Ento o que vocs esto fazendo... escondendo-se deles?
-		Sua Excelncia, o tenente Kirillov, nos disse para abat-los. Mandei uma patrulha atac-los pelo flanco enquanto ns damos cobertura.
Azov no era totalmente idiota.
-		Eles no parecem estar revidando o fogo.
-		Ns os acuamos.
Ele sacudiu a cabea.
-		Eles j bateram em retirada... se  que algum dia estiveram ali.
-		Acho que no, Alteza. Agora mesmo estavam disparando contra ns.
-		No tem ningum ali. - Azov ergueu a voz. - Cessar fogo! Homens, cessar fogo!
O peloto de Grigori parou de atirar e olhou para o major.
-		Ao meu sinal, ataquem! - disse o oficial, sacando o revlver.
Grigori no soube muito bem o que fazer. Estava claro que a batalha havia sido o desastre que ele previra. Depois de passar o dia inteiro evitando-a, no queria arriscar vidas quando era evidente que ela j havia terminado. Mas era temerrio entrar em conflito direto com oficiais.
Foi quando um grupo de soldados saiu do meio da vegetao, bem de onde Grigori vinha fingindo haver uma posio inimiga. Ele os encarou com surpresa. Mas os soldados no eram austracos, notou ele assim que conseguiu distinguir seus uniformes: eram russos em fuga.
Azov, no entanto, no mudou de atitude.

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  -		Esses homens so desertores covardes! - berrou ele. - Ataquem-nos! - E disparou o revlver contra os russos que se aproximavam.
   Os homens do peloto ficaram estupefatos. Oficiais muitas vezes ameaavam atirar em soldados que parecessem relutantes em combater, mas era a primeira vez que os homens de Grigori recebiam ordem de atacar os prprios companheiros. Todos olharam para ele, esperando instrues.
   Azov apontou a arma para Grigori.
  -		Atacar! - gritou ele. - Fuzilem esses traidores!
   Grigori tomou uma deciso.
  -		Certo, homens! - bradou. Levantou-se com alguma dificuldade. Virando as costas para os russos que se aproximavam, ele olhou para os dois lados e ergueu o fuzil. - Vocs ouviram o que o major disse! - Ele manejou a arma como se fosse vir-la, mas ento apontou-a para Azov.
   Se fosse para atirar em seus compatriotas, preferiria matar um oficial a um soldado.
   Azov o encarou por um instante, petrificado, e nesse mesmo segundo Grigori puxou o gatilho.
   O primeiro tiro atingiu o cavalo de Azov, fazendo-o titubear. Isso salvou a vida de Grigori, pois Azov atirou nele, mas o movimento sbito de sua montaria o fez errar o tiro. Com um gesto automtico, Grigori acionou o ferrolho da arma e tornou a disparar.
   Errou tambm o segundo tiro. Grigori soltou um palavro. Agora estava correndo srio perigo. Mas o major tambm.
   Azov lutava para dominar o cavalo e no conseguia mirar o revlver. Grigori seguiu seus movimentos espasmdicos com a mira do fuzil, disparou um terceiro tiro e acertou Azov no peito. Ento ficou olhando o major cair lentamente do cavalo. Sentiu uma onda de satisfao cruel quando o corpo pesado mergulhou em uma poa de lama.
   O cavalo se afastou, trpego, sentando-se de repente sobre a traseira feito um cachorro.
   Grigori andou at Azov. Cado de costas na lama, o major olhava para cima, sem se mexer, mas ainda com vida, sangrando pelo lado direito do peito. Grigori olhou em volta. Os soldados em fuga ainda estavam longe demais para ver com clareza o que estava acontecendo. Os homens do seu peloto eram de total confiana: ele j salvara suas vidas diversas vezes. Encostou o cano do fuzil contra a testa de Azov.
  -		Isto  por todos os bons russos que voc matou, seu co assassino - disse ele.
   
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Fez uma careta, arreganhando os dentes. - E pelo meu dente da frente - acrescentou antes de puxar o gatilho.
   O corpo do major ficou mole e ele parou de respirar.
   Grigori olhou para seus homens.
   - Infelizmente, o major foi morto por fogo inimigo - disse ele. - Recuar!
   Os homens vibraram e comearam a correr.
   Grigori foi at o cavalo. O animal tentou se levantar, mas Grigori pde ver que estava com a perna quebrada. Levou o fuzil  orelha dele e disparou seu ltimo tiro. O animal caiu de lado e parou de se mexer.
   Grigori sentiu mais pena do cavalo do que do major Azov.
   Ento foi atrs de seus homens, batendo em retirada.
Quando a ofensiva Brusilov terminou, Grigori foi transferido para a capital, ento rebatizada de Petrogrado, porque So Petersburgo soava alemo demais. Aparentemente, havia necessidade de soldados calejados para proteger a famlia do czar e seus ministros da populao irada. O que sobrara de seu batalho foi integrado  fora de elite do Primeiro Regimento de Metralhadoras, de modo que Grigori se mudou para o quartel deles na Sampsonievsky Prospekt, no distrito de Vyborg, um bairro operrio composto de fbricas e barracos. O Primeiro Regimento de Metralhadoras era bem alimentado e tinha boas instalaes, o que era uma tentativa de mant-lo satisfeito o bastante para defender o odiado regime.
   Ele estava feliz por voltar, mas a ideia de reencontrar Katerina o enchia de apreenso. Ansiava por olhar para ela, ouvir sua voz e segurar o beb que ela dera  luz, seu sobrinho. Mas o desejo que sentia o deixava nervoso. Ela era sua mulher, mas isso era mera formalidade. Katerina havia escolhido Lev - e Lev era o pai do seu filho. Grigori no tinha o direito de am-la.
   Ele chegou a cogitar a hiptese de no lhe contar que havia voltado. Em uma cidade com mais de dois milhes de habitantes, era bem provvel que nunca topassem um com o outro. Mas teria achado isso difcil demais de suportar.
   Em seu primeiro dia na capital, ele no teve permisso para sair do quartel. Ficou frustrado por no poder ir ver Katerina. Naquela tarde, ele e Isaak conheceram outros bolcheviques no quartel e Grigori concordou em criar um grupo de discusso.
   Na manh seguinte, seu peloto tornou-se parte de um esquadro encarregado de proteger a casa do prncipe Andrei - o antigo senhor absoluto das terras de
   
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sua regio - durante um banquete. O prncipe morava em um palcio cor-de-rosa e amarelo na avenida s margens do rio Neva, conhecida como English Embankment. Ao meio-dia, os soldados se alinharam nos degraus do palcio. Nuvens baixas de chuva escureciam a cidade, mas todas as janelas da casa estavam iluminadas. Por trs dos vidros, emoldurados por cortinas de veludo como em uma pea de teatro, lacaios e criadas vestidos com uniformes limpos zanzavam de um lado para outro, carregando garrafas de vinho, travessas de canaps e bandejas de prata com pilhas de frutas. No saguo, uma pequena orquestra tocava, e do lado de fora era possvel ouvir os acordes de uma sinfonia. Os grandes carros reluzentes paravam em frente aos degraus, lacaios corriam para abrir as portas e os convidados saam - os homens de casaco preto e cartola, as mulheres envoltas em peles. Uma pequena multido se reuniu do outro lado da rua para assistir.
   Era uma cena conhecida, mas havia uma diferena. Sempre que algum descia de um carro, a multido vaiava e gritava zombarias. Antigamente, a polcia teria dispersado as pessoas a golpes de cassetete no mesmo instante. Mas agora j no havia mais polcia, e os convidados subiam o mais rpido possvel os degraus entre as duas fileiras de soldados, atravessando s pressas o portal imponente do palcio, visivelmente com medo de passarem muito tempo do lado de fora.
   Na opinio de Grigori, aquelas pessoas tinham razo de hostilizar a nobreza que havia tornado aquela guerra um caos. Se houvesse algum problema, ele ficaria tentado a tomar o partido da multido. Com certeza no pretendia atirar naquela gente, e imaginou que muitos dos soldados tambm pensassem assim.
   Como os nobres podiam dar festas luxuosas em um momento daqueles? Metade da Rssia estava passando fome e at mesmo os soldados no front estavam em regime de racionamento. Homens como Andrei mereciam ser assassinados na prpria cama. Se eu o vir, pensou Grigori, vou ter que me controlar para no fuzil-lo como fiz com o major Azov.
   A procisso de carros chegou ao fim sem incidentes, e a multido se cansou e se dispersou. Grigori passou a tarde olhando bem para os rostos das mulheres que cruzavam a avenida, esperando ansioso pela chance improvvel de ver Katerina. Quando os convidados comearam a ir embora, j estava escuro e frio e ningum mais queria ficar na rua, de modo que no houve mais vaias.
   Depois da festa, os soldados foram chamados  porta dos fundos para comer as sobras dispensadas pelos empregados da casa: restos de carne e peixe, vegetais frios, brioches j meio comidos, mas e peras. A comida foi jogada em cima de uma mesa de cavalete, misturada de forma desagradvel: fatias de presunto sujas de pat de peixe, frutas com molho de carne, po coberto de cinzas de charuto.
   
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Mas os soldados j haviam comido coisa pior nas trincheiras, e fazia tempo desde seu desjejum de mingau com bacalhau salgado, de modo que atacaram a comida, esfomeados.
   Em nenhum momento Grigori viu o rosto odiado do prncipe Andrei. Talvez fosse melhor assim.
   Depois de marcharem de volta at o quartel e entregarem suas armas, eles receberam a noite de folga. Grigori ficou eufrico: era sua oportunidade de visitar Katerina. Foi at a porta dos fundos da cozinha do quartel e implorou por um pouco de po e carne para levar para ela: um sargento tinha l seus privilgios. Ento engraxou as botas e partiu.
   Vyborg, onde ficava o quartel, estava situado na parte nordeste da cidade, enquanto Katerina morava na outra extremidade, no bairro de Narva, a sudoeste - isso se continuasse ocupando o antigo quarto de Grigori perto da Metalrgica Putilov.
   Ele desceu a Sampsonievsky Prospekt na direo sul, atravessando a ponte Liteiny at o centro da cidade. Algumas das lojas sofisticadas continuavam abertas, com as vitrines iluminadas por luz eltrica, porm muitas estavam fechadas. Nas lojas mais comuns, havia poucas mercadorias  venda. A vitrine de uma padaria exibia um nico bolo e um cartaz escrito  mo que dizia: "Po s amanh."
   O amplo bulevar da Nevsky Prospekt o fez pensar em quando havia andado por ali com a me, naquele dia fatdico de 1905 em que a vira ser morta pelos soldados do czar. Agora ele prprio era um daqueles soldados. Mas no iria atirar em mulheres e crianas. Se o czar tentasse fazer isso agora, teria de enfrentar outro tipo de problema.
   Ele viu 10 ou 12 rapazes abrutalhados usando casacos e boinas pretas e carregando um retrato do czar quando jovem, com os cabelos escuros ainda sem entradas e uma barba ruiva cerrada. Um deles gritou:
   - Vida longa ao czar! - E todos eles pararam, ergueram as boinas e deram vivas. Vrios passantes ergueram os chapus.
   Grigori j havia encontrado grupos como aquele. Eram as Centenas Negras, que faziam parte da Unio do Povo Russo, um grupo de direita que desejava retornar aos tempos ureos em que o czar era o pai incontestvel de seu povo e a Rssia no tinha liberais, socialistas ou judeus. Segundo informaes obtidas pelos bolcheviques junto a seus contatos na polcia, os jornais deles eram bancados pelo governo e seus panfletos impressos nos pores das delegacias.
   Grigori passou lanando-lhes um olhar de desprezo, mas um dos rapazes o abordou:
   
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-		Ei, voc a! Por que est de chapu?
Grigori continuou andando sem responder, porm outro membro da gangue o segurou pelo brao.
-		Voc  o qu? Judeu? - perguntou o segundo homem. - Tire a boina!
-		Se tocar em mim de novo eu arranco a porra da sua cabea, seu moleque falastro - disse Grigori em voz baixa.
O homem recuou, estendendo um panfleto para Grigori.
-		D uma lida, amigo - falou ele. - A est dizendo como os judeus esto traindo vocs, soldados.
-		Se voc no sair da minha frente, vou enfiar esse panfleto idiota no seu cu - respondeu Grigori.
O homem olhou para os companheiros em busca de apoio, mas os outros j haviam comeado a espancar um homem de meia-idade que usava um chapu de pele. Grigori se afastou.
Enquanto passava diante de uma loja interditada com tbuas, uma mulher lhe dirigiu a palavra.
-		Ei, garoto - falou. - Quer dar uma trepada por um rublo? - Ela usava o jargo habitual das prostitutas, mas sua voz o surpreendeu: aquela mulher parecia instruda. Grigori lanou um olhar em sua direo. Ela vestia um casaco comprido e, quando ele a olhou, a mulher o abriu para mostrar que, apesar do frio, estava nua por baixo. Tinha 30 e poucos anos, seios fartos e uma barriga arredondada.
Grigori sentiu uma onda de desejo. Fazia anos que no se deitava com uma mulher. As prostitutas das trincheiras eram asquerosas, sujas e doentes. Mas aquela mulher parecia algum que ele poderia abraar.
Ela fechou o casaco.
-		Sim ou no?
-		Eu no tenho dinheiro - respondeu Grigori.
-		O que tem dentro dessa bolsa? - Ela meneou a cabea para a bolsa que ele carregava.
-		Uns restos de comida.
-		Eu me deito com voc por um po - disse a mulher. - Meus filhos esto morrendo de fome.
Grigori pensou naqueles seios fartos.
-		Onde?
-		Na sala dos fundos da loja.
Pelo menos, pensou Grigori, eu no vou estar louco de frustrao sexual quando encontrar Katerina.

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-		Est bem.
Ela abriu a porta e o fez entrar. Em seguida, fechou a porta e passou um trinco nela. Os dois atravessaram a loja vazia at outro cmodo.  luz mortia do poste de rua, Grigori viu que havia um colcho no cho, com um cobertor por cima.
A mulher se virou para encar-lo, deixando o casaco se abrir novamente. Ele olhou para o tufo de pelos pretos em seu baixo-ventre. Ela estendeu a mo.
-		Primeiro o po, sargento, por favor.
Ele retirou da bolsa um grande po preto, que lhe entregou.
-		Volto em um instante - disse a mulher.
Ela subiu correndo um lance de escada e abriu uma porta. Grigori ouviu uma voz de criana. Ento um homem tossiu - uma tosse seca que vinha do fundo do peito. Houve sons abafados de pessoas se movendo e vozes baixas se fizeram ouvir por alguns instantes. Ento ele tornou a escutar o barulho da porta e a mulher desceu a escada.
Ela tirou o casaco, deitou-se de costas no colcho e abriu as pernas. Grigori se deitou ao seu lado e a abraou. A mulher tinha um rosto atraente, inteligente, porm marcado pela angstia.
-		Hum, como voc  forte! - comentou ela.
Ele acariciou sua pele macia, mas havia perdido todo o desejo. A cena toda era pattica demais: a loja vazia, o marido doente, as crianas famintas e a falsa vontade de seduzi-lo da mulher.
Ela desabotoou sua cala e segurou seu pnis flcido.
-		Quer que eu chupe?
-		No. - Ele se sentou no colcho e lhe estendeu o casaco. - Pode vestir.
Com uma voz amedrontada, ela disse:
-		Eu no posso devolver o po... j est metade comido.
Ele fez que no com a cabea.
-		O que houve com vocs?
Ela vestiu o casaco e fechou os botes.
-		Voc tem cigarro?
Ele lhe deu um e pegou outro para fumar.
Ela soprou a fumaa.
-		Ns tnhamos uma sapataria... produtos de alta qualidade a preos justos para a classe mdia. Meu marido  bom negociante e ns vivamos bem. - Seu tom era de amargura. - Mas, tirando a nobreza, h dois anos que ningum nesta cidade compra sapatos novos.
-		No havia mais nada que vocs pudessem fazer?

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-		Sim, havia. - Seus olhos chisparam de raiva. - No ficamos simplesmente parados e aceitamos nosso destino sem reagir. Meu marido descobriu que podia fornecer botas de primeira para os soldados a metade do preo que o Exrcito estava pagando. Todas as pequenas fbricas que costumavam ser fornecedoras da loja estavam loucas para receber alguma encomenda. Ele foi ao Comit de Indstrias de Guerra.
-		O que  isso?
-		Faz tempo que voc saiu da cidade, hein, sargento? Hoje em dia, tudo o que funciona por aqui  administrado por comits independentes: o governo  incompetente demais para fazer qualquer coisa. O Comit de Indstrias de Guerra cuida do abastecimento do Exrcito... ou pelo menos cuidava, quando Polivanov era ministro da Guerra.
-		E qual foi o problema?
-		Ns recebemos a encomenda, meu marido usou todas as economias para pagar os fabricantes e ento o czar demitiu Polivanov.
-		Por qu?
-		Polivanov permitia que representantes eleitos dos trabalhadores fizessem parte do comit, por isso a czarina achou que ele fosse um revolucionrio. Seja como for, a encomenda foi cancelada... e ns fomos  falncia.
Grigori sacudiu a cabea, enojado.
-		E eu que pensei que s os comandantes do front fossem loucos.
-		Chegamos a tentar outras coisas. Meu marido estava disposto a fazer qualquer trabalho: ser garom, motorneiro de bonde, consertar estradas, mas ningum estava contratando e, de tanta preocupao e falta de comida, ele adoeceu.
-		Ento agora voc faz isso.
-		No sou muito boa. Mas alguns homens so gentis, como voc. J outros... - Ela estremeceu e desviou o olhar.
Grigori terminou o cigarro e se levantou.
-		Adeus. No vou perguntar seu nome.
Ela se ps de p.
-		Graas a voc, minha famlia ainda est viva. - Sua voz estava embargada. - E eu s preciso voltar s ruas amanh. - Ela ficou na ponta dos ps e beijou-lhe os lbios de leve. - Obrigada, sargento.
Grigori foi embora.
Estava ficando mais frio. Ele percorreu as ruas depressa at o bairro de Narva.  medida que se afastava da mulher do sapateiro, recuperou a libido e pensou arrependido em seu corpo macio.

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Ocorreu-lhe que, assim como ele, Katerina tinha necessidades fsicas. Dois anos era tempo demais para uma jovem ficar sem nenhum tipo de romance - ela ainda no passava dos 23 anos. Tinha poucos motivos para ser fiel a Lev ou a Grigori. Uma mulher com um beb bastava para afugentar muitos homens, mas, por outro lado, ela era muito atraente - pelo menos at dois anos atrs. Talvez no estivesse sozinha naquela noite. Isso sim seria terrvel.
Ele foi se aproximando de sua antiga casa pela linha do trem. Seria imaginao sua ou a rua tinha ficado mais miservel naqueles dois anos? Durante todo esse tempo, nada parecia ter sido pintado, consertado, ou mesmo limpo. Ele percebeu haver uma fila em frente  padaria da esquina, embora a loja estivesse fechada.
Ainda tinha sua chave. Entrou na casa.
Subiu a escada, temeroso. No queria encontr-la com um homem. Agora que estava ali, desejou ter mandado avisar sobre a sua vinda, para que ela pudesse ter se preparado e o esperasse sozinha.
Bateu na porta.
-		Quem ?
O som da voz dela encheu seus olhos de lgrimas.
-		Uma visita - respondeu ele com a voz rouca, abrindo a porta.
Ela estava em p junto  lareira, segurando uma panela. Deixou-a cair no cho, derramando leite, e levou as duas mos  boca. Soltou um gritinho.
-		Sou s eu - disse Grigori.
No cho ao seu lado, um menininho estava sentado, segurando uma colher de metal. Parecia ter acabado de parar de bater em uma lata vazia. Passou alguns instantes olhando para Grigori, espantado, antes de comear a chorar.
Katerina o pegou no colo.
-		No chore, Volodya - disse ela, ninando-o. - No precisa ter medo. - O menino se acalmou. -  o seu pai - disse Katerina.
Grigori no tinha certeza se queria que Vladimir pensasse que ele era seu pai, mas aquela no era hora para discutir. Ele entrou e fechou a porta s suas costas. Abraou me e filho, beijou o menino e ento deu um beijo na testa de Katerina.
Recuou um pouco e olhou para os dois. Ela j no era a menina de rosto jovial que ele havia resgatado do mal-intencionado capito de polcia Pinsky. Estava mais magra e tinha um ar cansado, tenso.
Estranhamente, o menino no se parecia muito com Lev. No exibia nenhum sinal de sua beleza, tampouco seu sorriso sedutor. Na verdade, Vladimir tinha o olhar azul intenso que Grigori via quando se olhava no espelho.
Grigori sorriu.

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-		Ele  lindo.
-		O que houve com a sua orelha? - perguntou Katerina.
Grigori tocou o que lhe restava da orelha direita.
-		Perdi quase inteira na batalha de Tannenberg.
-		E com o dente?
-		Eu desagradei a um oficial. Mas agora ele est morto, ento no final quem levou a melhor fui eu.
-		Voc no est mais to bonito.
Era a primeira vez que ela o chamava de bonito.
-		So ferimentos sem importncia. Tenho sorte de estar vivo.
Ele correu os olhos por seu antigo quarto. Havia diferenas sutis. Sobre o console da lareira - onde Grigori e Lev costumavam guardar seus cachimbos, sua lata de fumo, seus fsforos e as lascas de madeira para acender o fogo -, Katerina tinha posto um vaso de cermica, uma boneca e um carto-postal colorido de Mary Pickford. A janela exibia uma cortina. Era feita de trapos, como uma colcha de retalhos, mas Grigori nunca havia tido cortina nenhuma. Ele tambm reparou no cheiro, ou na falta dele, e se deu conta de que antes o ar dali era carregado de fumaa de tabaco, repolho fervido e homens sem banho. Agora, o aroma era de limpeza.
Katerina enxugou o leite derramado.
-		Eu desperdicei o jantar de Volodya - falou ela. - No sei o que vou lhe dar para comer. No tenho mais leite no peito.
-		No se preocupe. - Grigori sacou da bolsa um pedao de linguia, um repolho e uma lata de geleia. Katerina encarou a comida, incrdula. - Peguei da cozinha do quartel - explicou ele.
Ela abriu a geleia e deu um pouco para Vladimir com uma colher. O menino comeu e disse:
-		Mais?
Katerina comeu uma colherada ela prpria, depois deu mais geleia ao menino.
-		Parece um conto de fadas - disse ela. -  tanta comida! No vou precisar passar a noite em frente  padaria.
Grigori franziu o cenho.
-		Como assim?
Ela engoliu mais geleia.
-		Nunca tem po que chegue. Tudo  vendido assim que a padaria abre pela manh. O nico jeito de conseguir po  fazer fila. E, se voc no entrar nela antes da meia-noite, eles acabam antes de chegar a sua vez.

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-		Meu Deus! - Ele detestava a ideia de ela ter que dormir na calada. - E Volodya?
-		Uma das meninas fica de olho para ver se ele chora enquanto eu estou fora. Mas ele agora j dorme a noite inteira.
No era de espantar que a mulher do sapateiro estivesse disposta a ir para a cama com Grigori em troca de um po. Ele provavelmente tinha lhe pagado mais do que o normal.
-		E como voc est conseguindo se virar?
-		Ganho 12 rublos por semana na fbrica.
Ele ficou intrigado.
-		Mas isso  o dobro do que voc ganhava quando eu fui embora!
-		S que o aluguel deste quarto custava quatro rublos por semana. Agora custa oito. Isso me deixa quatro rublos para todo o resto. E um saco de batatas, que antes custava um rublo, agora custa sete.
-		Sete rublos por um saco de batatas! - Grigori estava pasmo. - Como  que as pessoas conseguem viver?
-		Todo mundo est passando fome. As crianas adoecem e morrem. Os velhos se apagam como velas. A situao piora a cada dia, e ningum faz nada.
O corao de Grigori se apertou. Enquanto sofria no Exrcito, seu consolo era pensar que Katerina e o beb estavam levando uma vida melhor, com um lugar quentinho para dormir e dinheiro suficiente para comprar comida. Mas tinha se enganado aquele tempo todo. Pensar que ela precisava deixar Vladimir sozinho ali para ir dormir em frente  padaria o enchia de raiva.
Os dois se sentaram  mesa e Grigori cortou a linguia com sua faca.
-		Um ch seria bom - disse ele.
Katerina sorriu.
-		Faz um ano que no tomo ch.
-		Vou trazer um pouco do quartel.
Katerina comeu a linguia. Grigori notou que ela teve que se controlar para no devor-la. Pegou Vladimir no colo e deu-lhe mais geleia. O menino ainda era um pouco novo demais para linguia.
Um contentamento agradvel tomou conta de Grigori. Enquanto estava no front, tinha sonhado com aquela cena: o quartinho, comida na mesa, o beb, Katerina. Agora o sonho havia se realizado.
-		Isso no deveria ser to difcil de encontrar - falou, pensativo.
-		Como assim?
-		Voc e eu temos boa sade e trabalhamos duro. Tudo o que eu quero  isto

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aqui: um quarto, alguma coisa para comer, poder descansar  noite. Deveramos ter isso todos os dias.
  -		Ns fomos trados pelos partidrios dos alemes na corte - disse ela.
  -		 mesmo? Como foi isso?
  -		Bom, voc sabe que a czarina  alem.
  -		Sei. - A mulher do czar nascera princesa Alix de Hesse e do Reno, no Imprio Germnico.
  -		E Strmer  alemo, claro.
   Grigori deu de ombros. At onde sabia, o primeiro-ministro Strmer era russo de nascena. Muitos russos tinham nomes alemes e vice-versa: h sculos que habitantes dos dois pases cruzavam a fronteira para l e para c.
  -		E Rasputin  pr-alemo.
  -		Ah, ? - Grigori desconfiava que o maior interesse do monge louco era seduzir as mulheres da corte e ganhar influncia e poder.
  -		Eles esto todos mancomunados. Strmer foi pago pelos alemes para fazer os camponeses morrerem de fome. O czar telefona para o primo, o Kaiser Guilherme, para lhe avisar onde os nossos soldados vo estar em seguida. Rasputin quer que a Rssia se renda. E a czarina e sua dama de companhia, Anna Vyrubova, dormem ambas com Rasputin ao mesmo tempo.
   Grigori j tinha escutado a maioria desses boatos. No acreditava que a corte do czar fosse pr-alem. Eles eram apenas burros e incompetentes. Muitos dos soldados, no entanto, acreditavam nessas histrias - e, a julgar por Katerina, alguns civis tambm. Cabia aos bolcheviques explicar os verdadeiros motivos que estavam levando os russos a perderem a guerra e morrerem de fome.
   Mas no naquela noite. Quando Vladimir bocejou, Grigori se levantou e ps-se a nin-lo, andando de um lado para outro enquanto Katerina falava. Ela lhe contou sobre a vida na fbrica, sobre os outros inquilinos da casa e sobre pessoas que ele conhecia. O capito Pinsky se tornara tenente da polcia secreta e perseguia liberais e democratas perigosos. Havia milhares de rfos nas ruas, vivendo de roubos e prostituio e morrendo de fome e de frio. Konstantin, melhor amigo de Grigori na Metalrgica Putilov, tinha entrado para o Comit Bolchevique de Petrogrado. A famlia Vyalov era a nica a estar ficando mais rica: por mais duro que fosse o racionamento, sempre tinham vodca, caviar, cigarros e chocolate para vender. Grigori observava com ateno sua boca larga e seus lbios carnudos. Era um prazer v-la falar. Katerina tinha um queixo firme e olhos corajosos, mas, para ele, sempre parecia vulnervel.
   Ninado pelos movimentos de Grigori e pela voz de Katerina, Vladimir 
   
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adormeceu. Com cuidado, Grigori deitou-o em uma cama que Katerina improvisara em um canto. Era apenas um saco cheio de trapos forrado com um cobertor, mas o beb se aninhou ali confortavelmente e levou o polegar  boca.
Quando um relgio de igreja bateu as nove, Katerina falou:
-		A que horas voc tem que estar de volta?
-		s dez - respondeu Grigori. -  melhor eu ir.
-		Espere um pouco. - Ela ps os braos em volta do seu pescoo e o beijou.
Foi delicioso. Seus lbios sobre os dele eram macios e geis. Ele fechou os
olhos por um segundo e sorveu o aroma de sua pele. Ento se afastou.
-		Isto est errado - disse.
-		Deixe de ser bobo.
-		Voc ama Lev.
Ela o encarou nos olhos.
-		Eu era uma camponesa de 20 anos, recm-chegada  cidade. Gostei dos ternos elegantes de Lev, dos seus cigarros e de sua vodca, do seu jeito esbanjador. Ele era atraente, bonito, divertido. Mas agora estou com 23 anos e tenho um filho... e onde est Lev?
Grigori deu de ombros.
-		No sabemos.
-		Mas voc est aqui. - Ela acariciou-lhe a bochecha. Grigori sabia que deveria afast-la, mas no conseguiu. - Paga o aluguel, traz comida para o meu beb - disse ela. - Acha que eu no me dou conta de como fui boba por amar Lev e no voc? No percebe que mudei de ideia? No entende que aprendi a am-lo?
Grigori a encarava em silncio, sem conseguir acreditar no que havia escutado.
Aqueles olhos azul-esverdeados o encaravam de volta, sinceros.
-		Isso mesmo - disse ela. - Eu amo voc.
Com um gemido, ele fechou os olhos, tomou-a nos braos e se rendeu.

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CAPTULO VINTE
De novembro a dezembro de 1916
                                
Ansiosa, Ethel Williams correu os olhos pela lista de baixas no jornal. Havia
vrios Williams, mas nenhum cabo William Williams dos Fuzileiros Galeses.
Com uma prece muda de agradecimento, ela dobrou o jornal, entregou-o a
Bernie Leckwith e ps a chaleira no fogo para preparar um chocolate quente.
No podia ter certeza de que Billy estava vivo. Ele poderia ter sido morto h
poucos dias ou poucas horas. A lembrana da Quarta-feira dos Telegramas em
Aberowen a assombrava - os rostos das mulheres contorcidos de medo e dor,
semblantes que carregariam para sempre as marcas cruis das notcias daquele
dia. Tinha vergonha da prpria alegria por Billy no estar entre os mortos.
Em Aberowen, os telegramas haviam continuado a chegar. A batalha do Somme
no terminou naquele primeiro dia. Durante todos os meses de julho, agosto,
setembro e outubro, o Exrcito britnico jogou seus jovens soldados na terra de
ningum para serem massacrados pelas metralhadoras. Os jornais insistiam em
anunciar vitria, mas os telegramas contavam uma histria diferente.
Como quase todas as noites, Bernie estava na cozinha da casa de Ethel. O
pequeno Lloyd gostava do "tio" Bernie. Costumava se sentar no colo dele, que lia
o jornal em voz alta para o menino. Lloyd compreendia muito pouco das palavras, mas mesmo assim parecia gostar de ouvi-las. Naquela noite, porm, Bernie
estava agitado por algum motivo e no deu ateno a Lloyd.
Mildred desceu do andar de cima trazendo um bule de ch.
-		Eth, pode me dar um pouco de ch? - pediu.
-		Sirva-se, voc sabe onde fica. No prefere uma xcara de chocolate quente?
-		No, obrigada, chocolate quente me d gases. Oi, Bernie, como anda a revoluo?
Bernie ergueu os olhos do jornal com um sorriso. Gostava de Mildred. Todos
gostavam dela.
-		A revoluo est ligeiramente atrasada - disse ele.
Mildred ps as folhas de ch dentro do bule.
-		Alguma notcia de Billy?
-		Nada ultimamente - respondeu Ethel. - E voc?
-		J faz algumas semanas.

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Era Ethel quem recolhia a correspondncia pela manh no cho do hall, portanto sabia que Mildred recebia cartas frequentes de Billy. Ethel imaginava que fossem cartas de amor: por que outro motivo um rapaz escreveria para a inquilina da irm? Mildred parecia retribuir os sentimentos de Billy: estava sempre perguntando por notcias suas, esforando-se para soar casual, mas sem conseguir disfarar a ansiedade.
Ethel gostava de Mildred, mas tinha suas dvidas se Billy, aos 18 anos, estaria pronto para assumir uma mulher de 23 e duas enteadas.  bem verdade que seu irmo sempre fora extraordinariamente maduro e responsvel para sua idade. E, at a guerra acabar, provavelmente envelheceria mais alguns anos. De toda forma, tudo o que Ethel queria era que ele voltasse vivo. Nada do que acontecesse depois tinha muita importncia.
-		O nome dele no est na lista de baixas do jornal de hoje, graas a Deus - disse Ethel.
-		Quando ser que ele vai ter uma licena?
-		Faz s cinco meses que ele foi lutar.
Mildred pousou o bule na mesa.
-		Ethel, posso lhe perguntar uma coisa?
-		Claro.
-		Estou pensando em me tornar independente... quer dizer, como costureira.
Ethel ficou surpresa. Mildred tinha sido promovida a supervisora na fbrica
de Mannie Litov, de modo que ganhava um salrio melhor.
-		Tenho uma amiga que pode me arrumar trabalho no arremate de chapus... - continuou Mildred. - Fixar vus, fitas, penas e contas.  um trabalho especializado, ento paga bem mais do que costurar uniformes.
-		Parece timo.
-		O problema  que teria de trabalhar em casa, ao menos no incio. Mais para a frente, gostaria de contratar outras garotas e arrumar um lugarzinho para mim.
-		Voc est mesmo pensando no futuro!
-		Tem que ser, no ? Quando a guerra terminar, ningum mais vai querer uniformes.
-		 verdade.
-		Ento... voc se importaria se eu usasse o andar de cima como ateli por um tempo?
-		 claro que no. Boa sorte!
-		Obrigada. - Impulsivamente, ela deu um beijo na bochecha de Ethel, ento recolheu o bule e saiu da cozinha.

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   Lloyd bocejou e esfregou os olhos. Ethel o pegou no colo e o ps na cama do quarto da frente. Passou um ou dois minutos a fit-lo com ar amoroso enquanto ele adormecia. Como sempre, a vulnerabilidade do filho a comovia. O mundo vai ser melhor quando voc crescer, Lloyd, prometeu em silncio. Ns vamos garantir isso.
   Ao voltar para a cozinha, ela tentou melhorar o humor de Bernie.
  -		Deveria haver mais livros para crianas - falou.
   Ele aquiesceu.
  -		Por mim, toda biblioteca teria uma seo infantil - falou ele, sem tirar os olhos do jornal.
  -		Talvez, se vocs bibliotecrios fizerem isso, os editores se sintam incentivados a publicar mais livros para crianas.
  -		 o que eu espero.
   Ethel ps mais carvo no braseiro e serviu um chocolate quente para cada um. Era raro Bernie ficar to introspectivo. Em geral, ela gostava daquelas noites aconchegantes. Eles eram dois forasteiros - uma galesa e um judeu -, por mais que no faltassem galeses e judeus em Londres. Qualquer que fosse o motivo, naqueles dois anos morando na cidade, Bernie se tornara um bom amigo, junto com Mildred e Maud.
   Tinha um palpite sobre o que ele estava pensando. Na noite anterior, um palestrante jovem e muito inteligente da Sociedade Fabiana havia falado no ncleo do Partido Trabalhista da regio sobre o "socialismo do ps-guerra". Ethel havia debatido com o convidado, que ficara claramente impressionado com ela. Depois da reunio, embora todos soubessem que ele era casado, o rapaz havia cortejado Ethel. Ela, por sua vez, havia gostado da ateno, mesmo sem levar o flerte a srio. Bernie talvez estivesse com cimes.
   Resolveu deix-lo ficar calado, se era isso que ele queria. Sentou-se  mesa da cozinha e abriu um envelope grande, cheio de cartas escritas por homens que estavam lutando no front. As leitoras do The Soldiers Wife enviavam as cartas dos maridos para o jornal, que pagava um xelim por cada uma que fosse publicada. Elas forneciam um retrato mais fiel da vida na frente de batalha do que qualquer outra coisa divulgada na grande imprensa. A maioria dos textos do jornal era escrita por Maud, porm as cartas tinham sido ideia de Ethel e ela era a editora daquela pgina, que se tornara a seo mais popular do peridico.
   Ela recebera a proposta de trabalhar, por um salrio melhor, como representante em tempo integral do Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Indstria
 
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Txtil, com a funo de conseguir mais associados. Contudo, havia recusado, pois queria ficar com Maud e continuar fazendo campanha.
Leu meia dzia de cartas, deu um suspiro e olhou para Bernie.
-		Eu achava que as pessoas fossem ficar contra a guerra - disse.
-		Mas no foi o que aconteceu - retrucou ele. - Como vimos pelos resultados da eleio.
No ms anterior, em Ayrshire, houvera uma eleio suplementar - um pleito realizado em um nico distrito eleitoral devido  morte do atual membro do Parlamento. O tenente-general Hunter-Weston, um conservador que havia combatido na batalha do Somme, tivera como adversrio um candidato antibelicista, o reverendo Chalmers. O oficial do Exrcito obtivera uma vitria esmagadora, 7149 votos contra 1300.
-		So os jornais - disse Ethel, frustrada. - O que a nossa pequena publicao pode fazer para promover a paz com toda a propaganda feita pela maldita imprensa de Northcliffe? - Lorde Northcliffe, militarista fervoroso, era dono dos peridicos The Times e Daily Mail.
-		No so apenas os jornais - falou Bernie. -  o dinheiro.
Bernie acompanhava de perto as finanas do governo, o que era estranho para um homem que nunca tivera mais que alguns xelins na vida. Ethel, vendo uma oportunidade para faz-lo sair de seu mau humor, perguntou:
-		Como assim?
-		Antes da guerra, nosso governo gastava cerca de meio milho de libras por dia com tudo: Exrcito, tribunais e prises, educao, benefcios, administrao das colnias, tudo.
-		Quanto dinheiro! - Ela lhe lanou um sorriso afetuoso. - Esse  o tipo de estatstica que meu pai sempre tinha na ponta da lngua.
Ele tomou um gole do chocolate quente e ento disse:
-		Adivinhe quanto ns gastamos agora.
-		O dobro? Um milho por dia? Parece impossvel.
-		Voc no chegou nem perto. A guerra custa cinco milhes de libras por dia. Isso  dez vezes o custo normal de governar o pas.
Ethel ficou chocada.
-		De onde vem esse dinheiro?
-		 esse o problema. Ns tomamos emprestado.
-		Mas a guerra j dura mais de dois anos. Ns devemos ter pegado... quase quatro bilhes de libras emprestadas!
-		Por a. O equivalente a 25 anos de gastos normais.

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-		E como vamos conseguir pagar isso?
-		Ns nunca conseguiremos pagar. Qualquer governo que tentasse cobrar a quantidade de impostos necessria para quitar essa dvida causaria uma revoluo.
-		Mas, ento, o que vai acontecer?
-		Se ns perdermos a guerra, nossos credores, que so quase todos americanos, iro  falncia. E, se ganharmos, vamos obrigar os alemes a pagar. O termo que eles usam  "reparao".
-		E como eles vo conseguir esse dinheiro?
-		Passando fome. Mas ningum liga para o que acontece com os perdedores. Alm do mais, os alemes fizeram a mesma coisa com os franceses em 1871. - Ele se levantou para colocar a xcara na pia da cozinha. - Est vendo por que no podemos fazer um acordo de paz com os alemes? Quem iria pagar a conta?
Ethel estava horrorizada.
-		E por isso temos que continuar mandando rapazes para morrer nas trincheiras. Porque no podemos pagar a conta. Pobre Billy. Como  cruel este nosso mundo.
-		Mas ns vamos mud-lo.
Espero que sim, pensou Ethel. Bernie achava que seria preciso uma revoluo. Ela j lera sobre a Revoluo Francesa e sabia que esse tipo de coisa nem sempre corria como o povo esperava. Mesmo assim, estava decidida a proporcionar uma vida melhor a Lloyd.
Os dois passaram algum tempo sentados em silncio, ento Bernie se levantou. Foi at a porta como se estivesse de sada, mas mudou de ideia.
-		Interessante aquele palestrante de ontem  noite.
-		 - respondeu ela.
-		E inteligente.
-		Sim, ele era inteligente.
Bernie tornou a se sentar.
-		Ethel... dois anos atrs, voc me disse que queria amizade, no romance.
-		Fiquei muito chateada por ferir seus sentimentos.
-		No fique. Nossa amizade  a melhor coisa que j me aconteceu.
-		Eu tambm gosto da nossa amizade.
-		Voc disse que eu logo iria esquecer aquelas ideias bobas e romnticas, e que ns seramos apenas amigos. Mas voc estava enganada. - Ele se inclinou para a frente na cadeira. -  medida que a conheci melhor, s passei a am-la mais do que nunca.
Ethel podia ver o desejo no olhar dele e ficou arrasada por no poder retribuir seus sentimentos.

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-		Eu tambm gosto muito de voc - respondeu. - Mas no dessa forma.
-		Que sentido faz ficar sozinha? Ns gostamos um do outro. Somos uma dupla to boa! Temos os mesmos ideais, os mesmos objetivos na vida, opinies parecidas... ns fomos feitos um para o outro.
-		Um casamento  mais do que isso.
-		Eu sei. E anseio por abraar voc. - Ele moveu os braos, como se fosse estend-los para toc-la, mas ela cruzou as pernas e se virou de lado na cadeira. Ele recolheu as mos, e um sorriso amargo transfigurou sua expresso normalmente afvel. - Entendo que eu no seja o homem mais bonito que voc j conheceu. Mas acho que ningum nunca a amou como eu amo.
Nisso ele tinha razo, pensou ela com tristeza. Muitos homens haviam gostado dela - e um a seduzira mas nenhum tinha demonstrado a mesma devoo paciente de Bernie. Se ela o desposasse, poderia ter certeza de que seria para sempre. E, em algum recanto de sua alma, ela ansiava por isso.
Percebendo sua hesitao, Bernie falou:
-		Case-se comigo, Ethel. Eu amo voc. Vou dedicar minha vida a faz-la feliz.  tudo o que eu quero.
Mas ser que ela precisava mesmo de um homem? No era infeliz. Lloyd era uma alegria constante, com seus passinhos trpegos, suas tentativas de falar e sua curiosidade sem limites. Seu filho lhe bastava.
-		O pequeno Lloyd precisa de um pai - disse Bernie.
Isso fez Ethel sentir uma pontada de culpa. Bernie j vinha mais ou menos desempenhando esse papel. Ser que deveria se casar com ele para o bem da criana? No era tarde demais para Lloyd comear a cham-lo de "papai"
Isso significaria abrir mo da pouca esperana que tinha de reencontrar a paixo arrebatadora que sentira por Fitz. Quando pensava nisso, ela ainda sentia um arroubo de nostalgia. Mas o que esse caso de amor me rendeu?, pensou com seus botes, tentando raciocinar de forma objetiva apesar das emoes que sentia. Fui trada por Fitz, rejeitada pela minha famlia e exilada para outro pas. Por que iria querer passar por isso de novo?
Por mais que se esforasse, ela no conseguia se obrigar a aceitar o pedido de Bernie.
-		Preciso pensar - disse ela.
O rosto dele se iluminou. Estava claro que nem sequer ousara receber uma resposta to positiva.
-		Pense quanto quiser - respondeu ele. - Eu espero.
Ela abriu a porta de casa.

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-		Boa noite, Bernie.
-		Boa noite, Ethel. - Bernie se inclinou para a frente, ao que ela ofereceu a face para ele beijar. Seus lbios se demoraram alguns instantes sobre a sua pele. Ela recuou na mesma hora. Ele segurou seu pulso. - Ethel...
-		Durma bem, Bernie - disse ela.
Depois de hesitar, ele aquiesceu.
-		Voc tambm - falou, indo embora em seguida.
Na noite da eleio, em novembro de 1916, Gus Dewar pensou que sua carreira poltica houvesse chegado ao fim.
Estava na Casa Branca, filtrando chamadas telefnicas e transmitindo mensagens para o presidente Wilson, que se encontrava em Shadow Lawn, a nova Casa Branca de vero em Nova Jersey, junto com a segunda esposa, Edith. Diariamente, o servio postal norte-americano levava documentos de Washington at Shadow Lawn, mas s vezes o presidente precisava receber as notcias mais depressa.
s nove horas daquela noite, j estava claro que o candidato republicano, um juiz da Suprema Corte chamado Charles Evans Hughes, havia conquistado a vitria em quatro estados decisivos: Nova York, Indiana, Connecticut e Nova Jersey.
No entanto, a ficha s caiu para Gus quando um mensageiro lhe trouxe as primeiras edies dos jornais de Nova York e ele viu a manchete:
HUGHES  ELEITO PRESIDENTE
Ficou chocado. Pensava que Woodrow Wilson estivesse ganhando. Os eleitores no haviam esquecido a eficincia com que ele lidara com a crise do Lusitania: tinha conseguido ao mesmo tempo se mostrar duro com os alemes e permanecer neutro. O slogan da campanha de Wilson era: "Ele nos manteve fora da guerra."
Hugues havia acusado Wilson de no ter preparado os Estados Unidos para o conflito, mas esse tiro sara pela culatra. Depois da brutal represso britnica ao Levante da Pscoa em Dublin, os americanos estavam mais determinados do que nunca a permanecerem neutros. O tratamento dispensado pela Gr-Bretanha aos irlandeses era to ruim quanto aquele que a Alemanha dispensava  Blgica, ento por que os Estados Unidos deveriam tomar partido?
Depois de ler os jornais, Gus afrouxou a gravata e tirou um cochilo no sof da sala anexa ao Salo Oval. A perspectiva de ter que abandonar a Casa Branca o atormentava. Trabalhar para Wilson havia se tornado sua razo de ser. Sua vida

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amorosa era um desastre, mas pelo menos ele sabia que tinha algum valor para o presidente dos Estados Unidos.
   Essa no era uma preocupao meramente egosta. Wilson estava determinado a criar uma ordem internacional em que as guerras pudessem ser evitadas. Assim como os vizinhos de porta j no resolviam suas rixas territoriais a tiros de revlver, era preciso que um dia os pases tambm deixassem suas desavenas serem solucionadas por um mediador independente. Sir Edward Grey, ministro das Relaes Exteriores da Gr-Bretanha, havia utilizado a expresso "liga das naes" em uma carta para Wilson, e o presidente gostara dela. Se Gus pudesse ajudar a concretizar algo assim, sua vida significaria alguma coisa.
   Porm, diante dos fatos, esse sonho no parecia mais possvel, pensou ele, caindo, frustrado, no sono.
   Foi despertado de manh bem cedo por um telegrama dizendo que Wilson vencera em Ohio - estado operrio que havia gostado do posicionamento do presidente em relao  jornada de trabalho de oito horas - e tambm no Kansas. Wilson estava novamente na disputa. Pouco depois, ele venceu em Minnesota por menos de 1.000 votos de diferena.
   A briga ainda no havia terminado, e Gus se animou.
   Na quarta-feira  noite, Wilson estava na frente com 264 votos dos delegados de cada estado contra 254 para o adversrio - uma vantagem de 10 votos. Porm um dos estados da federao, a Califrnia, ainda no havia declarado seu resultado, e dele dependiam 13 votos de delegados. Quem conquistasse a Califrnia seria presidente.
   O telefone de Gus emudeceu. No havia mais quase nada que ele pudesse fazer. A contagem em Los Angeles era lenta. Cada urna fechada era protegida por democratas armados, que acreditavam que uma fraude havia impedido sua vitria nas eleies de 1876.
   O resultado ainda estava indefinido quando a recepo ligou dizendo que Gus tinha uma visita. Para sua surpresa, quem o aguardava era Rosa Hellman, ex-editora do Buffalo Anarchist. Gus ficou contente: as conversas com Rosa eram sempre interessantes. Ele se lembrou de que um anarquista havia assassinado o presidente McKinley em Buffalo, em 1901. Mas o presidente Wilson estava bem longe, em Nova Jersey, de modo que ele a convidou a subir at sua sala e lhe ofereceu uma xcara de caf.
   Rosa usava um casaco vermelho. Quando Gus a ajudou a tir-lo, viu como ficava alto ao seu lado. Pde sentir um leve cheiro de perfume floral.
   - A ltima vez que nos vimos, voc me disse que eu era um idiota por ficar
   
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noivo de Olga Vyalov - lembrou ele enquanto pendurava o casaco dela na chapeleira.
Ela pareceu constrangida.
-		Peo desculpas.
-		Ah, mas voc estava certa. - Ele mudou de assunto. - Ento agora est trabalhando para uma agncia de notcias?
-		Isso mesmo.
-		Como correspondente em Washington.
-		No, eu sou a assistente caolha do correspondente.
Pela primeira vez ela mencionava seu defeito fsico. Gus hesitou, ento disse:
-		Eu costumava me perguntar por que voc no usava um tapa-olho. Mas hoje fico contente que no use. Voc  apenas uma linda mulher com um dos olhos fechado.
-		Obrigada. Voc  um homem gentil. Que tipo de coisa faz para o presidente?
-		Tirando atender s ligaes... eu leio os relatrios cheios de meias palavras do Departamento de Estado e depois digo a verdade a Wilson.
-		Como por exemplo...?
-		Segundo nossos embaixadores na Europa, a ofensiva do Somme est atingindo alguns de seus objetivos, embora no todos, com baixas severas dos dois lados.  quase impossvel provar que essa afirmao  falsa... alm de no informar nada ao presidente. Ento eu lhe digo que a batalha do Somme  uma tragdia para os britnicos. - Ele deu de ombros. - Ou pelo menos dizia. Talvez eu perca o meu emprego. - Ele estava ocultando seus verdadeiros sentimentos. A ideia de que Wilson pudesse perder o apavorava.
Ela aquiesceu.
-		Os votos na Califrnia esto sendo recontados. Quase um milho de eleitores foram s urnas, e a diferena  de uns cinco mil votos.
-		Quanta coisa depende das decises de um punhado de pessoas mal instrudas...
-		Democracia  isso.
Gus sorriu.
-		Uma pssima maneira de se governar um pas, mas qualquer outro sistema consegue ser pior ainda.
-		Se Wilson vencer, qual ser a prioridade dele?
-		Em off?
-		Claro.
-		A paz na Europa - respondeu Gus sem hesitar.
-		 mesmo?
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-		O slogan "Ele nos manteve fora da guerra" nunca o deixou l muito  vontade. A questo no depende s dele. Talvez sejamos arrastados para a guerra mesmo sem querer.
-		Mas o que ele pode fazer?
-		Pressionar os dois lados para tentar chegar a um meio-termo.
-		E ser que ele consegue?
-		No sei.
-		Uma coisa  certa: eles no podem continuar se massacrando como tm feito no Somme.
-		Deus  testemunha que no. - Ele tornou a mudar de assunto: - Conte-me as novas de Buffalo.
Ela o encarou com sinceridade no olhar.
-		Voc quer saber sobre Olga, ou  embaraoso demais?
Gus desviou os olhos. O que poderia ser mais embaraoso? Primeiro, ele havia recebido um recado de Olga anulando o noivado. Ela se desculpara de forma abjeta, mas sem dar nenhuma explicao. Gus no estava disposto a aceitar aquilo e escreveu-lhe de volta exigindo que se encontrassem pessoalmente. Confuso, sups que ela estivesse sendo pressionada a agir daquela forma. No entanto, mais tarde naquele mesmo dia, sua me descobriu, graas  sua rede de amigas fofoqueiras, que Olga estava de casamento marcado com o chofer do pai. "Mas por qu?", perguntou Gus, angustiado, ao que sua me respondeu: "Meu menino querido, por que outro motivo uma moa se casaria com o chofer?" Ele se limitou a olhar para ela, sem entender nada, e sua me por fim disse: "Ela s pode estar grvida." Foi o momento mais humilhante da vida de Gus e, mesmo um ano depois, seu rosto se contorcia de dor sempre que se lembrava daquilo.
Rosa leu sua expresso.
-		Eu no deveria ter falado nela. Sinto muito.
Gus pensou que talvez fosse melhor saber o que todos os outros j sabiam. Tocou de leve a mo de Rosa.
-		Obrigado por ser franca. Prefiro assim. E sim, estou curioso quanto a Olga.
-		Bem, eles se casaram naquela igreja ortodoxa russa da Ideal Street e a recepo foi no Hotel Statler. Seiscentos convidados, sendo que Josef Vyalov alugou o salo de baile e o salo de jantar, alm de ter servido caviar para todo mundo. Foi o casamento mais luxuoso da histria de Buffalo.
-		E como  o marido dela?
-		Lev Peshkov  bonito, charmoso e totalmente suspeito. Basta olhar para ele para saber que  um patife. E agora  genro de um dos homens mais ricos de Buffalo.
 
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-		E a criana?
-		Uma menina, Darya, mas eles a chamam de Daisy. Nasceu em maro. E Lev no  mais chofer,  claro. Acho que ele administra uma das boates de Vyalov.
Os dois passaram uma hora conversando, ento Gus a acompanhou at o trreo e chamou um txi para lev-la at em casa.
Na manh seguinte bem cedo, Gus recebeu por cabo o resultado da Califrnia. Wilson vencera por 3777 votos. Havia sido reeleito presidente.
Gus ficou eufrico. Mais quatro anos para tentar obter tudo aquilo que eles desejavam. Em quatro anos, poderiam mudar o mundo.
Enquanto ainda olhava para o telegrama, seu telefone tocou.
Ele atendeu e ouviu a telefonista dizer:
-		Ligao de Shadow Lawn. O presidente quer falar com o senhor, Sr. Dewar.
-		Obrigado.
Logo em seguida, ele ouviu a voz conhecida de Wilson:
-		Bom dia, Gus.
-		Parabns, Sr. Presidente.
-		Obrigado. Faa as malas. Quero que v para Berlim.
Quando Walter von Ulrich foi passar a licena em casa, sua me deu uma festa.
No havia muitas festas em Berlim. Mesmo para uma mulher rica e casada com um homem influente, era difcil comprar comida. Suzanne von Ulrich no se encontrava bem de sade: estava magra e vivia tossindo. No entanto, queria muito fazer alguma coisa para Walter.
Otto tinha uma adega cheia de bons vinhos comprados antes da guerra. Para no precisar oferecer um jantar completo, Suzanne decidiu organizar uma recepo vespertina. Serviu pequenos aperitivos de peixe defumado e torradinhas triangulares com queijo, compensando a pouca comida com champanhe  vontade.
Walter ficou grato pela considerao, mas na verdade no queria festa nenhuma. Tinha duas semanas de licena do campo de batalha, e tudo o que queria era uma cama macia, roupas secas e a oportunidade de passar o dia inteiro sem fazer nada no elegante salo da casa dos pais, olhando pela janela e pensando em Maud - ou ento sentado diante do piano de cauda Steinway tocando a cano Frhlingsglaube, de Schubert: "Agora tudo, tudo deve mudar."
Como ele e Maud haviam sido ingnuos ao dizer, em agosto de 1914, que estariam juntos novamente no Natal! J fazia mais de dois anos que ele no via seu

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belo rosto. E a Alemanha provavelmente ainda levaria outros dois anos para ganhar a guerra. A maior esperana de Walter era que a Rssia entrasse em colapso, permitindo aos alemes concentrarem suas foras em um derradeiro avano macio na frente ocidental.
    Nesse meio tempo, Walter s vezes tinha dificuldade para visualizar Maud, precisando consultar a fotografia de revista gasta e apagada que levava consigo: Lady Maud Fitzherbert sempre vestida na ltima moda. No lhe interessava uma festa sem ela. Enquanto se arrumava, desejou que sua me no tivesse se dado ao trabalho.
    A casa parecia largada. No havia criados suficientes para manter o lugar impecvel. Uma vez que os homens estavam no Exrcito e as mulheres tinham virado condutoras de bonde ou carteiras, os empregados mais velhos restantes penavam para manter os padres de limpeza e lustro exigidos por sua me. E, alm de suja, a casa estava fria. A cota de carvo no bastava para alimentar a calefao central, de modo que sua me havia instalado braseiros portteis no saguo, na sala de jantar e na sala de estar, mas eles no conseguiam dar conta do frio de novembro em Berlim.
    Contudo, Walter se alegrou quando os cmodos gelados se encheram de jovens e uma pequena banda comeou a tocar no saguo. Sua irm caula, Greta, havia convidado todos os amigos. Ele percebeu quanto sentia falta de uma vida social. Gostava de ver as moas usando seus lindos vestidos e os homens, ternos impecveis. Apreciava as brincadeiras, os flertes, as fofocas. Havia adorado sua experincia como diplomata - era uma vida que combinava com ele. Tinha facilidade para se mostrar encantador e jogar conversa fora.
    A casa dos Von Ulrich no tinha salo de baile, mas as pessoas comearam a danar no cho de lajotas do hall. Walter danou vrias vezes com a melhor amiga de Greta, Monika von der Helbard, uma ruiva alta e longilnea de cabelos compridos, que o fazia pensar nos quadros daqueles artistas ingleses que se autodenominavam pr-Rafaelitas.
    Ele foi lhe buscar uma taa de champanhe e sentou-se ao seu lado. Como todos faziam, ela lhe perguntou como era a vida nas trincheiras. Walter geralmente respondia que era dura, mas que os homens estavam com o moral elevado e que acabariam vencendo. Por algum motivo, porm, disse a verdade para Monika.
    - O pior de tudo  que  intil - falou. - Faz dois anos que estamos nas mesmas posies, com uns poucos metros de diferena, e no vejo como o alto-comando poder mudar isso com as atitudes que vem tomando... ou com qualquer atitude que possa vir a tomar. Estamos passando frio, fome, sofrendo de doenas 
    
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respiratrias, p de trincheira e dores de barriga, alm de profundamente entediados... e tudo isso por nada.
  -		No  o que temos lido nos jornais - disse ela. - Que tristeza! - Ela apertou seu brao em um gesto de compaixo. O toque foi como um pequeno choque eltrico. Era a primeira vez em dois anos que uma mulher de fora da sua famlia o tocava. De repente, ele pensou como seria maravilhoso abraar Monika, apertar aquele corpo quente contra o seu e beijar sua boca. Seus olhos cor de mbar o fitavam com um olhar sincero e, depois de alguns instantes, Walter percebeu que ela havia lido seus pensamentos. quela altura, j sabia que as mulheres muitas vezes de fato sabiam o que passava pela cabea dos homens. Ficou constrangido, porm estava claro que ela pouco se importava, e pensar isso o deixou ainda mais excitado.
   Algum se aproximou deles e Walter ergueu os olhos com irritao, imaginando que o homem quisesse tirar Monika para danar. Ento identificou um rosto conhecido.
  -		Meu Deus! - falou. O nome lhe voltou  cabea: como todo bom diplomata, era um excelente fisionomista. - Gus Dewar, no ? - perguntou, em ingls.
   Gus respondeu em alemo:
  -		Isso mesmo, mas podemos falar alemo. Como vai?
   Walter se levantou e apertou a mo de Gus.
  -		Permita que eu lhe apresente Freiin Monika von der Helbard. Este  Gus Dewar, conselheiro do presidente Woodrow Wilson.
  -		Encantada em conhec-lo, Sr. Dewar - disse ela. - Vou deixar os dois cavalheiros conversarem.
   Walter a observou ir embora com um misto de arrependimento e culpa. Por alguns instantes, havia se esquecido de que era um homem casado.
   Olhou para Gus. Quando os dois haviam se conhecido em Ty Gwyn, ele simpatizara com o americano na mesma hora. Gus era um homem esquisito, com uma cabea grande em um corpo comprido e fino, mas era tambm muito inteligente. Na poca, Gus acabara de sair de Harvard e tinha uma timidez charmosa, mas dois anos de trabalho na Casa Branca lhe haviam proporcionado certa autoconfiana. O estilo de terno casual disforme que os americanos gostavam de usar na verdade ficava elegante em seu corpo.
  -		 um prazer v-lo - disse Walter. - Hoje em dia so poucas as pessoas que vm aqui de frias.
  -		Na verdade eu no estou de frias - respondeu Gus.
   Walter esperou que o outro dissesse algo mais e, quando isso no aconteceu, deu-lhe a deixa:
   
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-		Qual o motivo, ento?
-		Digamos que estou pondo o p dentro da gua para ver se ela est morna o bastante para o presidente poder nadar.
Ento aquela era uma visita oficial.
-		Entendo.
-		Melhor ir direto ao ponto. - Gus tornou a hesitar, ao que Walter aguardou com pacincia. Por fim, o americano falou em voz baixa: - O presidente Wilson quer que os alemes e os Aliados comecem a negociar a paz.
O corao de Walter disparou, mas ele ergueu uma sobrancelha, demonstrando ceticismo.
-		Ele mandou voc vir dizer isso a mim?
-		Voc entende. O presidente no pode correr o risco de uma recusa pblica, que o faria parecer fraco. Ele poderia,  claro, mandar nosso embaixador aqui em Berlim falar com seu ministro das Relaes Exteriores. Mas, nesse caso, a coisa toda se tornaria oficial e, cedo ou tarde, a informao iria vazar. Ento ele pediu ao seu conselheiro menos graduado, eu, para vir a Berlim e acionar alguns dos contatos que fiz em 1914.
Walter aquiesceu. Muita coisa era feita dessa forma no mundo diplomtico.
-		Se ns recusarmos, ningum precisa saber.
-		E, mesmo que a notcia se espalhe, ser apenas como se alguns jovens de baixo escalo estivessem agindo por iniciativa prpria.
Fazia sentido, e Walter comeou a se animar.
-		O que o presidente Wilson quer, exatamente?
Gus respirou fundo.
-		Se o Kaiser escrevesse para os Aliados propondo uma conferncia de paz, o presidente apoiaria publicamente a proposta.
Walter reprimiu uma sensao de jbilo. Aquela conversa particular inesperada poderia ter consequncias que abalariam o mundo. Seria mesmo possvel pr fim ao pesadelo das trincheiras? Ser que ele teria a chance de rever Maud em questo de meses, em vez de anos? Ele disse a si mesmo para no ficar empolgado demais. Sondagens diplomticas extraoficiais como aquela geralmente no davam em nada. Mas no pde deixar de se entusiasmar.
-		Isso  da maior importncia, Gus - disse ele. - Tem certeza de que Wilson est falando srio?
-		Absoluta. Foi a primeira coisa que ele me disse depois de ganhar a eleio.
-		Qual  o interesse dele nisso?
-		O presidente no quer levar os Estados Unidos  guerra. Mas h um risco de

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sermos arrastados para ela mesmo assim. Ele quer a paz. E depois um novo sistema internacional para garantir que uma guerra como esta nunca mais acontea.
-		Vocs tm o meu apoio - disse Walter. - O que quer que eu faa?
-		Fale com seu pai.
-		Ele talvez no goste da proposta.
-		Use seus poderes de persuaso.
-		Farei o possvel. Consigo encontr-lo na embaixada americana?
-		No. A minha visita  particular. Estou hospedado no Hotel Adlon.
-		Naturalmente, Gus - disse Walter com um sorriso. O Adlon era o melhor hotel da cidade e j havia sido chamado de o mais luxuoso do mundo. Ele sentiu saudades daqueles ltimos anos de paz. - Ser que algum dia voltaremos a ser aqueles dois rapazes cuja maior preocupao era atrair o olhar do garom para pedir mais uma garrafa de champanhe?
Gus levou a pergunta a srio.
-		No, duvido que essa poca v voltar um dia, pelo menos no durante o nosso tempo de vida.
Greta, a irm de Walter, apareceu. Tinha cabelos louros encaracolados que se balanavam de forma sedutora quando ela movia a cabea.
-		Por que essas caras to tristes? - perguntou alegremente. - Sr. Dewar, venha danar comigo!
Gus se animou.
-		Com prazer! - respondeu.
Ela o levou embora.
Walter voltou  festa, mas, enquanto conversava com amigos e parentes, no parava de pensar na proposta de Gus e em qual seria a melhor maneira de promov-la. Quando fosse falar com o pai, tentaria no demonstrar entusiasmo demais. Ele poderia se posicionar contra. Walter iria desempenhar o papel de mensageiro neutro.
Assim que os convidados foram embora, sua me o encurralou no salo. O aposento era decorado no estilo rococ, que continuava sendo o preferido pelos alemes antiquados: espelhos rebuscados, mesas com pernas finas e recurvadas, um grande lustre.
-		Que moa agradvel essa Monika von der Helbard! - comentou ela.
-		Encantadora - concordou Walter.
Sua me no estava usando jias. Era presidente do comit de coleta de ouro e tinha doado seus penduricalhos para que fossem vendidos. Tudo o que lhe restava era a aliana de casamento.

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-		Tenho que convid-la de novo, da prxima vez com os pais. O pai dela  o Markgraf von der Helbard.
-		Sim, eu sei.
-		 uma tima famlia. Eles pertencem  Uradel, a nobreza antiga.
Walter andou em direo  porta.
-		A que horas a senhora acha que papai estar em casa?
-		Daqui a pouco. Walter, sente-se e converse comigo um pouco.
Walter havia deixado bvio que queria sair dali. O motivo era que precisava de uma hora de sossego para pensar na mensagem de Gus Dewar. Mas havia sido indelicado com a me, a quem amava, de modo que comeou a tentar se redimir.
-		Com prazer, me. - Puxou-lhe uma cadeira. - Pensei que a senhora fosse querer descansar, mas, se no quiser, eu adoraria conversar. - Sentou-se de frente para ela. - A festa foi tima. Muito obrigado por organiz-la.
Ela assentiu com a cabea, porm mudou de assunto.
-		Seu primo Robert est desaparecido - disse ela. - Ele sumiu durante a ofensiva Brusilov.
-		Eu sei. Talvez tenha sido preso pelos russos.
-		Tambm pode estar morto. E seu pai est com 60 anos. Voc logo poderia se tornar Graf Von Ulrich.
Essa possibilidade no seduzia Walter. Ultimamente, os ttulos de nobreza tinham cada vez menos importncia. Ele poderia at sentir orgulho de ser conde, mas isso talvez se revelasse uma desvantagem no mundo do ps-guerra.
De toda forma, o ttulo ainda no era seu.
-		A morte de Robert no foi confirmada.
-		Claro. Mas voc precisa se preparar.
-		Em que sentido?
-		Voc deveria se casar.
-		Ah! - Walter estava surpreso. Eu deveria ter imaginado, pensou.
-		Vai precisar de um herdeiro para assumir o ttulo quando voc morrer. E isso pode acontecer em breve, embora eu reze... - Sua voz ficou presa na garganta e ela parou de falar. Fechou os olhos por alguns instantes para recuperar a compostura. - ... embora eu reze aos cus todos os dias pela sua proteo. Seria melhor se voc fosse pai quanto antes.
Sua me tinha medo de perd-lo, mas ele tambm tinha medo de perd-la. Olhou para ela com afeto. Era loura e bonita, como Greta, e talvez um dia houvesse sido to cheia de vida quanto a filha. De fato, naquele exato momento seus olhos brilhavam e suas bochechas estavam coradas por causa da animao

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da festa e do champanhe. Contudo, nos ltimos tempos, o simples fato de subir a escada a deixava sem ar. Ela precisava de frias, comer bem e bastante e no ter que se preocupar com nada. Por causa da guerra, no poderia ter nenhuma dessas trs coisas. Os soldados no eram as nicas vtimas, refletiu Walter, preocupado.
-		Por favor, pense em Monika como uma possibilidade - disse sua me.
Ele ansiava por lhe falar sobre Maud.
-		Monika  uma moa fascinante, me, mas eu no a amo. Mal a conheo.
-		No h tempo para isso! Em tempos de guerra, a etiqueta pode ser ignorada. Encontre-a de novo. Voc tem mais dez dias de licena. Encontre-se com ela todos os dias. Pode pedi-la em casamento na vspera de partir.
-		Mas e os sentimentos dela? Ela pode no querer se casar comigo.
-		Ela gosta de voc. - Sua me desviou o olhar. - E vai fazer o que os pais mandarem.
Walter no sabia se deveria ficar irritado ou achar graa.
-		Voc e a me dela combinaram isso, no foi?
-		Estamos vivendo uma poca desesperada. Vocs poderiam se casar daqui a trs meses. Seu pai pode garantir que voc receba uma licena especial para o casamento e a lua de mel.
-		Ele disse isso? - Em geral, seu pai demonstrava uma hostilidade ferrenha em relao a privilgios especiais para soldados bem relacionados.
-		Ele entende a necessidade de termos um herdeiro para o ttulo.
Seu pai havia sido dobrado. Quanto tempo teria sido preciso? Ele no cedia com facilidade.
Walter tentou no se remexer na cadeira. Estava na pior situao possvel. Casado com Maud, no podia sequer fingir interesse em se casar com Monika. Porm, no podia explicar por qu.
-		Me, eu sinto muito por decepcion-la, mas no vou pedir Monika von der Helbard em casamento.
-		Mas por que no? - exclamou ela.
Ele se sentiu pssimo.
-		Tudo o que posso dizer  que gostaria de poder fazer a senhora feliz.
Ela o fitou com um olhar duro.
-		Seu primo Robert nunca se casou. No caso dele, nenhum de ns ficou surpreso. Espero que no haja nenhum problema dessa natureza...
Walter ficou constrangido pela referncia  homossexualidade de Robert.
-		Ah, me, faa-me o favor! Eu sei muito bem do que a senhora est falando

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em relao a Robert, e no sou como ele nesse departamento, de modo que pode ficar descansada.
Ela olhou para o outro lado.
-		Desculpe-me por ter falado nisso. Mas o que , ento? Voc est com 30 anos!
-		 difcil encontrar a moa certa.
-		Nem tanto assim.
-		Estou procurando algum como a senhora.
-		Agora voc est me provocando - disse ela, irritada.
Walter ouviu uma voz de homem do lado de fora da sala. Logo em seguida, seu pai entrou. Usava uniforme e esfregava as mos frias uma na outra.
-		Vai nevar - disse ele. Beijou a mulher e cumprimentou Walter com a cabea. - Imagino que a festa tenha sido um sucesso, no? Fiquei impossibilitado de vir... uma tarde inteira de reunies.
-		A festa foi esplndida - respondeu Walter. - Mame bolou canaps deliciosos quase do nada, e o Perrier-Jout estava uma delcia.
-		Que safra vocs tomaram? -Ade 1899.
-		Deveriam ter escolhido o 1892.
-		No restou muito dessa safra.
-		Ah...
-		Tive uma conversa intrigante com Gus Dewar.
-		Eu me lembro dele... o americano cujo pai  prximo do presidente Wilson.
-		O filho agora  mais prximo ainda do presidente. Gus trabalha na Casa Branca.
-		O que ele tinha a dizer?
A me de Walter se levantou.
-		Vou deixar vocs conversarem a ss - falou. Os dois se levantaram tambm.
-		Por favor, Walter querido, pense sobre o que eu disse - falou ela antes de sair. Instantes depois, o mordomo entrou com uma bandeja, sobre a qual trazia um
clice com uma dose generosa de conhaque castanho-dourado. Otto pegou o copo.
-		Quer um tambm? - perguntou a Walter.
-		No, obrigado, j tomei bastante champanhe.
Otto bebeu o conhaque e esticou as pernas em direo ao fogo.
-		Ento o jovem Dewar veio trazendo... algum tipo de recado?
-		Estritamente confidencial.
-		 claro.

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Walter no conseguia sentir muito carinho pelo pai. Suas desavenas eram intensas demais - e a intransigncia de Otto muito implacvel. Ele era tacanho, antiquado, incapaz de escutar a voz da razo e persistia nesses erros com uma alegre obstinao que Walter considerava repulsiva. A consequncia de sua tolice - e da de sua gerao em todos os pases da Europa - era o massacre do Somme. Walter no conseguia perdoar isso.
Mesmo assim, falou com o pai usando uma voz suave e modos amigveis. Queria que aquela conversa fosse o mais cordial e sensata possvel.
-		O presidente norte-americano no quer ser arrastado para a guerra - comeou.
-		Isso  bom.
-		Na verdade, ele gostaria que ns fizssemos um acordo de paz.
-		R! - Foi uma exclamao de desdm. - Que forma mais barata de nos derrotar!  muita audcia desse homem.
Walter ficou consternado com aquele desprezo to imediato, porm insistiu, escolhendo as palavras com cuidado:
-		Nossos inimigos alegam que o militarismo e a agressividade dos alemes provocaram esta guerra, mas  claro que isso no  verdade.
-		De fato, no  - respondeu Otto. - Ns fomos ameaados pela mobilizao russa em nossa fronteira oriental e pela mobilizao francesa a oeste. O Plano Schlieffen era a nica soluo possvel. - Como sempre, Otto falava como se Walter ainda tivesse 12 anos.
Este respondeu com pacincia:
-		Exatamente. Lembro-me de ouvir o senhor dizer que, para ns, esta era uma guerra defensiva, uma reao a uma ameaa intolervel. Tnhamos que nos proteger.
Se Otto ficou surpreso ao ouvir Walter repetir aqueles clichs para justificar o conflito, no deixou transparecer.
-		Est certo - falou.
-		E foi o que ns fizemos - continuou Walter, jogando seu trunfo. - Agora j alcanamos nossos objetivos.
Seu pai ficou espantado.
-		Como assim?
-		Ns eliminamos a ameaa. O Exrcito russo est destrudo e o regime do czar  beira do colapso. Ns conquistamos a Blgica, invadimos a Frana e combatemos os franceses e seu aliados britnicos at alcanarmos um impasse. Fizemos o que pretendamos desde o incio. Ns protegemos a Alemanha.
-		Um verdadeiro triunfo!

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-		Ento o que mais queremos?
-		A vitria total!
Walter se inclinou para a frente na cadeira, fitando o pai com ateno.
-		Por qu?
-		Nossos inimigos devem pagar pela agresso contra ns!  preciso que haja reparaes, talvez ajustes de fronteiras, concesses coloniais.
-		Esses no eram nossos objetivos originais para a guerra... ou eram?
Otto, no entanto, no queria abrir mo de nada.
-		No, mas agora que investimos tanto esforo e dinheiro no conflito, isso sem falar nas vidas de tantos jovens alemes valorosos, precisamos ganhar algo em troca.
Era uma argumentao fraca, porm Walter sabia que no adiantava tentar fazer o pai mudar de ideia. Pelo menos tinha conseguido faz-lo concordar com o fato de que os objetivos da Alemanha com aquela guerra haviam sido alcanados. Ento mudou de estratgia.
-		Tem certeza de que uma vitria total  possvel?
-		Tenho!
-		Em fevereiro, ns atacamos com todas as nossas foras a fortaleza francesa de Verdun. No conseguimos tom-la. Os russos nos atacaram pelo leste e os britnicos deram tudo o que tinham em sua ofensiva no rio Somme. Esses esforos monumentais dos dois lados no conseguiram pr fim ao impasse. - Ele aguardou uma resposta.
Contrariado, Otto falou:
-		At o momento, no.
-		Exato, o nosso prprio alto-comando reconheceu isso. Desde agosto, quando Von Falkenhayn foi demitido e Ludendorff tornou-se chefe do Estado-Maior, ns mudamos de ttica, passando do ataque para a defesa em profundidade. Mas como o senhor acha que uma estratgia de defesa em profundidade conduzir  vitria total?
-		Por meio de uma guerra submarina irrestrita! - respondeu Otto. - Os Aliados vm sendo sustentados por suprimentos norte-americanos, enquanto os nossos portos esto bloqueados pela Marinha britnica. Ns precisamos cortar sua linha de abastecimento... da eles iro se render.
Walter no queria entrar nesse mrito, mas, agora que tinha comeado, precisava continuar. Cerrando os dentes, ele falou, com a voz mais branda possvel:
-		Isso certamente faria os Estados Unidos entrarem na guerra.
-		Voc sabe quantos homens tem o Exrcito dos Estados Unidos?
-		No mximo uns 100 mil, mas...

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-		Isso mesmo. Eles no conseguem nem pacificar o Mxico! No representam a menor ameaa para ns.
Como a maioria dos homens da sua gerao, Otto nunca tinha ido aos Estados Unidos. E, assim como eles, no fazia ideia do que estava falando.
-		Os Estados Unidos so um pas grande e muito rico - disse Walter, ardendo de frustrao, porm mantendo um tom casual, tentando preservar a iluso de uma conversa amigvel. - Eles podem fortalecer seu exrcito.
-		Mas no to depressa. Precisaro de no mnimo um ano. A essa altura, os britnicos e franceses j tero se rendido.
Walter aquiesceu.
-		Ns j tivemos essa conversa antes, pai - disse ele em tom conciliatrio. - Assim como todas as pessoas de alguma forma relacionadas  estratgia de guerra. Existem argumentos plausveis de ambos os lados.
Otto no podia negar isso, de modo que apenas emitiu um grunhido de reprovao.
-		Enfim - disse Walter -, estou certo de que no cabe a mim decidir qual ser a reao da Alemanha a essa abordagem informal de Washington.
Seu pai mordeu a isca.
-		Nem a mim,  claro.
-		Wilson est dizendo que, se a Alemanha enviar uma carta formal aos Aliados propondo uma conferncia de paz, ele apoiar a proposta publicamente. Imagino que tenhamos o dever de transmitir esse recado ao nosso soberano.
-		De fato - respondeu Otto. - Quem dever decidir  o Kaiser.
Walter escreveu uma carta para Maud em uma folha de papel branco simples, sem cabealho.
Meu grande amor;
 inverno na Alemanha e no meu corao tambm.
Escreveu em ingls. No ps seu endereo no alto da folha, tampouco usou o nome de Maud.
Voc no pode imaginar quanto eu a amo e como sinto a sua falta.
Era difcil saber o que dizer. A carta talvez fosse lida por policiais curiosos, de modo que ele precisava garantir que nem ele nem Maud pudessem ser identificados.
Eu sou um entre um milho de homens separados das mulheres que amamos, e o vento do norte fustiga nossas almas.

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Sua ideia era que o texto pudesse passar como carta de um soldado qualquer afastado da famlia pela guerra.
O mundo me parece frio e soturno, como deve parecer a voc, mas a parte mais difcil de suportar  a nossa separao.
Desejou poder lhe falar sobre seu trabalho no servio de inteligncia do campo de batalha, sobre a tentativa de sua me de faz-lo se casar com Monika, sobre a escassez de comida em Berlim, ou mesmo sobre o livro que estava lendo, uma saga familiar intitulada Os Buddenbrook, mas tinha medo de que qualquer detalhe pusesse qualquer um dos dois em perigo.
No posso dizer muita coisa, mas quero que saiba que sou fiel a voc...
Ele se deteve, pensando com culpa na vontade que tivera de beijar Monika. Mas no havia cedido.
... e s promessas sagradas que fizemos um ao outro na ltima vez em que estivemos juntos.
Era o mais perto que ele podia chegar de se referir ao casamento. No queria correr o risco de que algum na Gr-Bretanha lesse a carta e descobrisse a verdade.
Penso todos os dias no momento de nosso reencontro, em que nos olharemos nos olhos e diremos: "Ol, meu amor."
At l, lembre-se de mim.
No assinou seu nome.
Ps a carta dentro de um envelope e guardou-a no bolso interno da frente do palet.
O servio postal entre a Alemanha e o Reino Unido estava interrompido.
Ele saiu do quarto, desceu a escada, ps um chapu e um sobretudo grosso com gola de pele e saiu para as ruas geladas de Berlim.
Encontrou Gus Dewar no bar do Adlon. O hotel ainda conservava uma sombra da dignidade que tinha antes da guerra, com garons em traje de gala e um quarteto de cordas, mas no havia bebidas importadas - nada de usque, conhaque ou gim ingls -, de modo que os dois pediram schnapps.
-		E ento? - perguntou Gus, ansioso. - Como a minha mensagem foi recebida?
Walter estava cheio de esperana; porm sabia haver poucos motivos para otimismo e queria dissimular o prprio entusiasmo. A notcia que tinha para dar a Gus era positiva, mas nem tanto.
-		O Kaiser vai escrever para o presidente - falou.
-		timo! O que ele vai dizer?
-		Eu vi um rascunho da mensagem. Infelizmente, o tom no me pareceu muito conciliatrio.

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-		Como assim?
Walter fechou os olhos para se lembrar do texto, ento recitou:
-		"A guerra mais formidvel de toda a histria j dura dois anos e meio. Nesse conflito, a Alemanha e seus aliados deram provas de nossa fora indestrutvel. Nossas linhas inabalveis seguem resistindo a ataques incessantes. Acontecimentos recentes mostram que a continuidade da guerra no ser capaz de assolar nosso poder de resistncia..." E assim por diante, sempre nesse tom.
-		Entendo por que voc diz que no parece muito conciliatrio.
-		Mas depois de um tempo o texto chega ao que interessa. - Walter recordou o trecho seguinte. - "Conscientes de nosso poderio militar e econmico e dispostos a levar at o fim, caso necessrio, a luta que nos foi imposta, porm, ao mesmo tempo animados pelo desejo de estancar o derramamento de sangue e pr fim aos horrores da guerra..." E agora vem a parte importante: "... propomos iniciar imediatamente negociaes de paz."
Gus ficou extasiado.
-		Que maravilha! Ele aceitou!
-		Fale baixo, por favor! - Walter olhou em volta com nervosismo, mas ningum parecia ter dado ateno. A msica do quarteto de cordas abafava a conversa dos dois.
-		Desculpe - falou Gus.
-		Mas voc tem razo. - Walter sorriu, deixando transparecer um pouco seu otimismo. - O tom  arrogante, combativo e desdenhoso... mas ele prope negociaes de paz.
-		Voc no imagina quanto estou grato.
Walter ergueu a mo em um gesto que pedia cautela.
-		Deixe-me lhe dizer uma coisa com toda a franqueza. Homens poderosos e prximos ao Kaiser que so contra a paz apoiaram essa proposta com cinismo, apenas para que o presidente norte-americano continuasse a v-los com bons olhos, certos de que os Aliados iro rejeit-la de qualquer maneira.
-		Vamos torcer para que estejam errados!
-		Deus queira.
-		Quando eles vo mandar a carta?
-		Ainda esto discutindo sobre os termos exatos. Quando chegarem a um consenso, a carta ser entregue ao embaixador norte-americano aqui em Berlim, com um pedido para que ele a transmita aos governos Aliados. - Esse jogo diplomtico de leva e traz era necessrio porque os governos inimigos no dispunham de meios de comunicao oficiais.

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-	 melhor eu ir para Londres - disse Gus. - Talvez possa fazer algo para 
preparar a recepo da carta.
-		Achei mesmo que voc fosse dizer isso. Tenho um pedido a fazer.
-		Depois do que voc fez para me ajudar?  s pedir!
-		 estritamente pessoal.
-		Sem problemas.
-		Vou ter que lhe revelar um segredo meu.
Gus sorriu.
-		Muito intrigante!
-		Gostaria que voc levasse uma carta minha para lady Maud Fitzherbert.
-		Ah... - Gus assumiu uma expresso pensativa. Sabia que s podia haver um
motivo para Walter estar escrevendo em segredo para Maud. - Entendo a discrio necessria. Mas pode ficar tranquilo.
-		Se os seus pertences forem revistados quando estiver saindo da Alemanha
ou entrando na Inglaterra, voc ter que dizer que se trata de uma carta de amor
de um americano na Alemanha para sua noiva em Londres. No h nenhum
nome ou endereo na correspondncia.
-		Est certo.
-		Obrigado - disse Walter com fervor. - Voc no sabe quanto isso significa
para mim.
No sbado, 2 de dezembro, houve um encontro de caa em Ty Gwyn. O conde
Fitzherbert e a princesa Bea se atrasaram em Londres, ento Bing Westhampton,
amigo de Fitz, fez as vezes de anfitrio e lady Maud de anfitri.
Antes da guerra, Maud adorava esses eventos. As mulheres no caavam, 
claro, mas ela gostava de ter a casa cheia de hspedes, do piquenique de almoo
em que as senhoras se reuniam aos homens, das grandes fogueiras e da comida
farta que todos encontravam  noite ao voltarem para casa. Porm descobriu-se
incapaz de aproveitar esses prazeres quando os soldados estavam sofrendo nas
trincheiras. Disse a si mesma que no se pode passar a vida inteira infeliz, nem
mesmo em tempos de guerra, mas no funcionou. Estampou no rosto o seu melhor
sorriso e incentivou todos a comerem e beberem  vontade, no entanto, quando
ouvia os tiros de espingarda, tudo em que conseguia pensar era nos campos de
batalha. Seu generoso prato de comida permaneceu intocado e as taas contendo os vinhos antigos e inestimveis de Fitz foram levadas embora ainda cheias.

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   Ultimamente, ela detestava ficar sem trabalhar, pois tudo o que fazia nessas horas era pensar em Walter. Estaria ele vivo ou morto? A batalha do Somme finalmente havia terminado. Segundo Fitz, os alemes tinham perdido meio milho de homens. Ser que Walter estava entre eles? Ou ser que estava deitado em algum hospital, aleijado?
   Talvez ele estivesse comemorando a vitria. Os jornais no conseguiam esconder totalmente o fato de que a principal investida militar britnica do ano de 1916 havia conquistado parcos 11 quilmetros de territrio. Os alemes talvez se sentissem no direito de se congratularem. At mesmo Fitz dizia, com a voz baixa e somente em particular, que a maior esperana da Gr-Bretanha agora era que os norte-americanos entrassem na guerra. Estaria Walter relaxando em algum bordel de Berlim, segurando uma garrafa de schnapps em uma das mos e apalpando uma behfraulein loura com a outra? Antes estivesse ferido, pensou ela, e ento sentiu vergonha de si mesma.
   Gus Dewar era um dos convidados de Ty Gwyn e, na hora do ch, foi ter com Maud. Todos os homens usavam plusfours, calas tpicas feitas de tweed e abotoadas abaixo do joelho, e o americano alto ficava especialmente ridculo com elas. Equilibrando uma xcara de ch com dificuldade em uma das mos, ele atravessou a sala de estar lotada at onde ela estava sentada.
   Maud conteve um suspiro. Quando um homem solteiro a abordava, em geral tinha intenes romnticas, de modo que ela precisava dispens-lo sem admitir que j era casada - o que s vezes era complicado. Atualmente, o nmero de bons partidos da aristocracia mortos na guerra era to alto que at mesmo os homens menos atraentes tentavam sua chance com ela: filhos caulas de bares falidos, clrigos magrelos com mau hlito e at mesmo homossexuais em busca de uma mulher que os fizesse parecer respeitveis.
   No que Gus Dewar fosse um partido to ruim. Ele no era bonito, tampouco tinha a graa natural de homens como Walter e Fitz, mas possua uma mente arguta e ideais nobres, alm de compartilhar o entusiasmo de Maud pela poltica internacional. E a combinao de sua deselegncia, tanto fsica quanto social, com uma franqueza um tanto rude lhe dava uma espcie de charme. Se ela fosse solteira, ele poderia at ter tido uma chance.
   Gus cruzou as pernas compridas ao seu lado, sobre um sof de seda amarela.
  -		Que prazer estar de volta a Ty Gwyn - falou.
  -		O senhor esteve aqui logo antes da guerra - recordou Maud. Jamais se esqueceria daquele fim de semana em janeiro de 1914, quando o rei havia se hospedado ali e acontecera um acidente terrvel na mina de Aberowen. Sua lembrana mais
   
527
 

vvida, no entanto, era de quando tinha beijado Walter, percebeu ela, envergonhada. Desejou poder beij-lo naquele instante. Como eles tinham sido tolos em se limitar aos beijos! Quem dera tivessem feito amor e ela houvesse engravidado, para que tivessem sido obrigados a se casar de forma apressada e indigna e acabassem relegados  desgraa social eterna em algum lugar horrvel como a Rodsia ou Bengala. Tudo aquilo que os inibira - seus pais, a sociedade, a carreira - parecia desimportante se comparado  possibilidade nefasta de Walter ser morto e de ela nunca mais tornar a v-lo.
-		Como os homens conseguem ser to burros a ponto de ir  guerra? - perguntou ela a Gus. - E continuar lutando mesmo depois de o custo exorbitante em matria de vidas humanas ter superado h muito tempo qualquer lucro possvel?
-		O presidente Wilson acredita que os dois lados deveriam comear a pensar em uma paz sem vitria - respondeu ele.
Ela ficou aliviada por ele no querer lhe dizer como seus olhos eram bonitos, ou alguma bobagem do gnero.
-		Eu concordo com o presidente - falou. - O Exrcito britnico j perdeu um milho de homens. S a batalha do Somme nos custou 400 mil baixas.
-		Mas o que o povo britnico acha disso?
Maud refletiu sobre a pergunta.
-		A maioria dos jornais continua a fingir que a batalha do Somme foi uma grande vitria. Qualquer tentativa de avaliao realista  tachada de antipatritica. Tenho certeza de que lorde Northcliffe na verdade preferiria viver sob uma ditadura militar. Mas grande parte da populao j sabe que no estamos fazendo muitos progressos.
-		Os alemes talvez estejam prestes a propor negociaes de paz.
-		Ai, espero que o senhor tenha razo.
-		Creio que uma proposta formal v ser feita em breve.
Maud o encarou.
-		Perdoe-me - disse ela. - Achei que o senhor estivesse apenas puxando conversa para ser educado. Mas no  s isso, certo? - Ela se animou. Negociaes de paz? Seria possvel?
-		No, eu no estou jogando conversa fora - disse Gus. - Sei que a senhorita tem amigos no governo liberal.
-		Na verdade, nosso governo no  mais liberal - falou ela. -  um governo de coalizo, com vrios ministros conservadores no gabinete.
-		Desculpe, usei o termo errado. Eu j sabia da coalizo. Ainda assim, o 

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primeiro-ministro ainda  Asquith, um liberal. E sei que a senhorita  prxima de muitos liberais importantes.
-		Sim, eu sou.
-		Ento vim pedir sua opinio sobre como a proposta alem pode vir a ser recebida.
Ela pensou bem. Sabia quem Gus representava. Quem estava lhe fazendo aquela pergunta era o presidente dos Estados Unidos. Era melhor que sua resposta fosse precisa. Por acaso, Maud tinha uma informao valiosssima.
-		Dez dias atrs, o gabinete trouxe  baila um documento redigido por lorde Lansdowne, ex-ministro das Relaes Exteriores conservador, afirmando que seria impossvel ganharmos a guerra.
O interesse de Gus se aguou.
-		 mesmo? Eu no fazia ideia.
-		 claro que no. Era segredo. No entanto, alguns boatos circularam e Northcliffe tem se mostrado violentamente contra o que chama de conversa derrotista sobre negociaes de paz.
-		E como o documento de Lansdowne foi recebido? - perguntou Gus, animado.
-		Eu diria que existem quatro homens inclinados a pensar como ele: o ministro das Relaes Exteriores, Sir Edward Grey; o chanceler McKenna; Runciman, presidente da Cmara de Comrcio; e o prprio primeiro-ministro.
A expresso de Gus ficou radiante de esperana.
-		Um grupo poderoso!
-		Sobretudo agora que o agressivo Winston Churchill saiu do governo. Ele nunca se recuperou da catstrofe da expedio aos Dardanelos, projeto que era seu xod.
-		E que membros do gabinete ficaram contra Lansdowne?
-		David Lloyd George, ministro da Guerra, o poltico mais popular do pas. Alm de lorde Robert Cecil, ministro do Bloqueio Naval; Arthur Henderson, ministro da Pagadoria-Geral, que tambm  o lder do Partido Trabalhista; e Arthur Balfour, primeiro-lorde do Almirantado.
-		Eu li a entrevista que Lloyd George deu aos jornais. Ele disse que queria ver a luta durar at o nocaute.
-		Infelizmente, a maior parte do povo concorda com ele.  claro que as pessoas no tm muito acesso a outros pontos de vista. Os opositores da guerra, como o filsofo Bertrand Russell, por exemplo, so constantemente intimidados pelo governo.
-		Mas qual foi a concluso do gabinete?

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   -		Nenhuma.  como terminam muitas das reunies de Asquith. As pessoas reclamam que ele  indeciso.
   -		Que frustrante. Mas parece que uma proposta de paz no vai se deparar com ouvidos moucos.
    Como era revigorante, pensou Maud, conversar com um homem que a levava totalmente a srio. At mesmo os que tratavam de assuntos inteligentes com ela tendiam a se mostrar um pouco condescendentes. Na verdade, Walter foi o nico outro homem a conversar com ela de igual para igual.
    Nesse momento, Fitz entrou na sala. Vestia roupas londrinas, em preto e cinza, e obviamente acabara de saltar do trem. Usava um tapa-olho e andava com o auxlio de uma bengala.
   -		Queiram me desculpar por t-los decepcionado - falou ele, dirigindo-se a todos os presentes. - Tive que ficar na cidade ontem  noite. Londres est em polvorosa por conta dos ltimos desdobramentos polticos.
   -		Que desdobramentos? - quis saber Gus. - Ainda no lemos os jornais de hoje.
   -		Lloyd George escreveu para Asquith ontem  noite exigindo mudanas no modo como estamos conduzindo a guerra. Ele quer criar um Conselho de Guerra todo-poderoso, formado por trs ministros e responsvel por todas as decises.
   -		E Asquith vai concordar? - perguntou Gus.
   -		 claro que no. Sua resposta foi que, se um conselho desses existisse, o primeiro-ministro teria de ser o presidente.
    Bing Westhampton, o irnico amigo de Fitz, estava sentado junto  janela com os ps para cima.
   -		Isso  um contrassenso - disse ele. - Qualquer conselho presidido por Asquith ser to fraco e indeciso quanto o gabinete. - Ele olhou em volta como quem pede desculpas. - Sem querer ofender os ministros do governo aqui presentes.
   -		Mas voc tem razo - disse Fitz. - A carta  mesmo um desafio  liderana de Asquith, sobretudo considerando que Max Aitken, amigo de Lloyd George, vazou a histria para todos os jornais. Agora no h mais nenhuma chance de acordo. Vai ser um combate at o nocaute, como diria Lloyd George. Se ele no conseguir o que quer, ter que sair do gabinete. E, se conseguir, quem ter que renunciar  Asquith... e ns seremos obrigados a escolher um novo primeiro-ministro.
    Maud cruzou olhares com Gus. No tinha dvidas de que compartilhavam a mesma opinio tcita. Com Asquith em Downing Street, a iniciativa de paz tinha uma chance. Se o beligerante Lloyd George ganhasse aquela disputa, tudo seria diferente.
    
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O gongo do hall soou, avisando aos hspedes que era hora de trocar de roupa para a noite. O grupo que tomava ch se dispersou. Maud foi para o seu quarto.
Suas roupas j haviam sido separadas. O vestido era o mesmo que ela comprara em Paris para a temporada londrina de 1914. Desde ento havia comprado poucas roupas. Tirou o vestido que usara para o ch e ps um roupo de seda. Ainda no iria tocar a sineta para chamar a criada: tinha alguns minutos para si. Sentou-se diante da penteadeira e olhou para seu rosto no espelho. Tinha 26 anos - e seus traos acusavam a idade. Maud nunca fora bonita, mas as pessoas costumavam dizer que ela era atraente. Com a austeridade dos tempos de guerra, perdera o pouco que tinha de suavidade juvenil, e os ngulos de seu rosto haviam se tornado mais pronunciados. O que Walter pensaria quando a visse caso algum dia se reencontrassem? Ela tocou os prprios seios. Pelo menos ainda eram firmes. Ele gostaria disso. Pensar em Walter fez seus mamilos endurecerem. Ela se perguntou se teria tempo para...
Algum bateu  porta, e ela abaixou as mos, sentindo-se culpada.
-		Quem ? - perguntou.
A porta se abriu e Gus Dewar entrou no quarto.
Maud se levantou, apertando o roupo em volta do corpo e falando com o mximo de rispidez possvel:
-		Sr. Dewar, por favor, saia daqui agora mesmo!
-		No fique alarmada - disse ele. - Preciso falar com a senhorita em particular.
-		No consigo imaginar por que motivo...
-		Eu estive com Walter em Berlim.
Maud se calou, chocada. Ficou encarando Gus. Como ele poderia saber sobre os dois?
-		Ele me deu uma carta para a senhorita - prosseguiu. Levou a mo ao bolso interno do palet de tweed e sacou um envelope.
Maud o apanhou com a mo trmula.
-		Ele me disse que evitou usar o prprio nome ou o da senhorita - falou Gus - por medo de a carta ser lida na fronteira, mas, no fim das contas, ningum revistou minha bagagem.
Maud segurava a carta nas mos, aflita. H tempos que ansiava por notcias de Walter, mas agora temia que elas fossem ruins. Talvez ele tivesse arrumado uma amante e a carta implorasse a compreenso de Maud. Ou ento se casado com uma garota alem e estivesse escrevendo para lhe pedir segredo eterno em relao ao casamento anterior. Pior ainda: poderia ter dado incio a um processo de divrcio.

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Ela rasgou o envelope para abri-lo.
Meu grande amor,
 inverno na Alemanha e no meu corao tambm. Voc no pode imaginar 
quanto eu a amo e como sinto a sua falta.
Seus olhos se encheram de lgrimas.
-		Oh! - disse ela. - Oh, Sr. Dewar, obrigada por me trazer isto!
Ele deu um passo hesitante em sua direo.
-		Pronto, pronto - falou, afagando-lhe o brao.
Ela tentou ler o resto da carta, mas no conseguia enxergar as palavras no 
papel.
-		Estou to feliz! - disse, aos prantos.
Deixou a cabea cair sobre o ombro de Gus, que a envolveu com os braos.
-		Est tudo bem - disse.
Maud se rendeu aos prprios sentimentos e ps-se a soluar.
 
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CAPTULO VINTE E UM
Dezembro de 1916

Fitz estava trabalhando no Almirantado, em Whitehall. No era o servio que
queria. Ansiava por voltar para junto dos Fuzileiros Galeses, na Frana. Por
mais que detestasse a sujeira e o desconforto das trincheiras, no conseguia
se sentir bem estando seguro em Londres enquanto outros arriscavam a vida.
Tinha horror de que o considerassem covarde. Os mdicos, no entanto, insistiam que a sua perna ainda no estava forte o bastante, e o Exrcito no queria
deix-lo voltar.
   Como Fitz falava alemo, Smith-Cumming, do Escritrio do Servio Secreto -
o homem que se autodenominava "C" - o havia recomendado para a Inteligncia
Naval, de modo que ele fora lotado provisoriamente em um departamento
conhecido como Sala 40. A ltima coisa que desejava era um cargo burocrtico,
mas, para sua prpria surpresa, descobriu que aquele trabalho era de suma
importncia para o esforo de guerra.
   No primeiro dia do conflito, um navio do servio postal chamado CS Alert
fora enviado para o mar do Norte, onde levara  tona os resistentes cabos submarinos de telecomunicaes alemes e cortara todos eles. Com essa medida astuciosa, os britnicos haviam forado o inimigo a usar o telgrafo para a maioria
de suas mensagens. E sinais telegrficos podiam ser interceptados. Como no
eram burros, os alemes codificavam suas mensagens. A Sala 40 era o lugar onde
os britnicos tentavam quebrar esses cdigos.
   Fitz trabalhava com um grupo heterogneo de pessoas - algumas bem esquisitas, a maioria no muito militar - que se esforava para decifrar a algaravia
captada pelas estaes de escuta do litoral. Ele no tinha talento para o desafio
de quebrar cdigos - nunca conseguira sequer descobrir quem era o assassino
em um livro de mistrio de Sherlock Holmes -, mas podia traduzir as mensagens
decodificadas para o ingls e, o que era mais importante, sua experincia no
campo de batalha lhe permitia julgar quais delas eram relevantes.
   No que fizesse muita diferena. No final de 1916, a frente ocidental mal havia
sado da posio que ocupava no incio do ano, apesar do empenho monumental de ambos os lados - o ataque implacvel dos alemes contra Verdun e a ainda
mais sacrificante investida britnica no Somme. Os Aliados precisavam urgentemente
   
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de ajuda. Se os Estados Unidos entrassem no conflito, a balana poderia pender a favor deles - mas, at ento, no havia sinal disso.
   Os comandantes de todos os exrcitos emitiam suas ordens tarde da noite ou ao raiar do dia, de modo que Fitz comeava cedo e trabalhava sem descanso at o meio-dia. Na quarta-feira depois do encontro de caa, saiu do Almirantado ao meio-dia e meia e pegou um txi para casa. O trecho ngreme da Avenida Whitehall at Mayfair, embora curto, era demais para ele.
   As trs mulheres com quem vivia - Bea, Maud e tia Herm - estavam se sentando  mesa para almoar. Ele entregou sua bengala e o quepe do uniforme para Grout e foi se juntar s senhoras. Sempre que voltava do ambiente funcional do escritrio, sua casa lhe proporcionava um prazer reconfortante: os mveis refinados, os criados de passo leve, a porcelana francesa sobre a toalha branca como a neve.
   Ele perguntou a Maud quais eram as ltimas novidades da poltica. Havia uma batalha em curso entre Asquith e Lloyd George. Na vspera, Asquith havia renunciado teatralmente ao cargo de primeiro-ministro. Fitz estava preocupado: no era um f do liberal Asquith, mas e se o novo primeiro-ministro se deixasse seduzir pelos argumentos simplrios em defesa da paz?
  -		O rei encontrou-se com Bonar Law - disse Maud. Andrew Bonar Law era o lder dos conservadores. O ltimo resqucio de poder real na poltica britnica era o direito do monarca de nomear o primeiro-ministro, ainda que seu candidato precisasse obter o apoio do Parlamento.
  -		E qual foi o resultado? - quis saber Fitz.
  -		Bonar Law recusou o cargo de primeiro-ministro.
   Fitz ficou contrariado.
  -		Como  que ele pde dizer no ao rei? - A seu ver, um homem deveria obedecer a seu monarca, sobretudo um conservador.
  -		Ele acha que Lloyd George deve assumir. Mas o rei no quer Lloyd George.
  -		Espero que no queira, mesmo - interveio Bea. - Esse homem  praticamente um socialista.
  -		 verdade - disse Fitz. - Porm ele  mais agressivo do que todos os outros somados. Pelo menos injetaria alguma energia no esforo de guerra.
  -		Tenho medo de que ele no aproveite uma chance de paz - disse Maud.
  -		Paz? - repetiu Fitz. - No acho que voc tenha que se preocupar muito com isso. -- Tentou no soar exaltado, mas conversas derrotistas sobre paz o faziam pensar em todas as vidas que tinham sido perdidas: o jovem tenente Carlton-Smith, tantos soldados do Aberowen Pais e at mesmo o infeliz Owen Bevin,
   
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executado por um peloto de fuzilamento. Teria o sacrifcio deles sido em vo? A ideia lhe parecia uma blasfmia. Forando-se a usar um tom de voz normal, tornou a falar: - No haver paz antes de um dos lados vencer.
Os olhos de Maud faiscaram de raiva, mas ela tambm se controlou.
-		Talvez ns consigamos o melhor dos dois mundos: Lloyd George como presidente do Conselho de Guerra, para que o conflito seja liderado de forma enrgica, e um primeiro-ministro que seja um verdadeiro estadista para negociar a paz, como Arthur Balfour, se resolvermos que  isso que queremos.
-		Hum... - Fitz no gostava nem um pouco dessa ideia, porm Maud tinha um jeito de formular seus argumentos que tornava difcil discordar dela. Fitz mudou de assunto. - Quais so seus planos para hoje  tarde?
-		Tia Herm e eu vamos ao East End. Estamos organizando um Clube de Mulheres de Soldados. Ns lhes damos ch e bolo, pagos por voc, Fitz, a quem somos muito gratas, e tentamos ajudar com seus problemas.
-		Tais como?
Quem respondeu foi tia Herm:
-		Arrumar um lugar limpo para morar e encontrar algum de confiana para cuidar das crianas so os mais frequentes.
Fitz achou graa.
-		Tia, estou surpreso. A senhora costumava desaprovar as aventuras de Maud no East End.
-		Ns estamos em guerra - disse tia Herm, desafiadora. - Temos que fazer tudo o que pudermos.
Por impulso, Fitz falou:
-		Talvez eu v com vocs.  bom eles verem que os condes levam tiros com a mesma facilidade que os estivadores.
Maud pareceu espantada, mas disse:
-		Bom, claro, se quiser.
Ele notou que a irm no tinha gostado da ideia. Sem dvida naquele clube devia se falar uma certa dose de bobagens esquerdistas - voto feminino e outras tolices do mesmo naipe. No entanto, como era ele quem pagava tudo, Maud no podia impedi-lo de aparecer.
O almoo terminou e eles foram se aprontar. Fitz foi at o quarto de vestir da mulher. A criada grisalha de Bea, Nina, a ajudava a tirar o vestido do almoo. Bea murmurou alguma coisa em russo e Nina respondeu na mesma lngua, o que deixou Fitz irritado, pois a ideia parecia ser exclu-lo. Ele falou em russo, no intuito de deixar as duas pensando que havia entendido tudo, ento disse  criada:

535
 

-		Por favor, deixe-nos a ss. - Ela fez uma mesura e saiu do quarto.
-		No vi Boy hoje - disse Fitz. Ele sara de casa cedo naquela manh. - Preciso ir ao quarto das crianas antes que o levem para passear.
-		Ele no vai sair agora - disse Bea com nervosismo. - Est tossindo um pouco,
Fitz fechou o rosto.
-		Ele precisa de ar puro.
Para sua surpresa, ela de repente adquiriu um ar choroso.
-		Estou com medo por ele - falou. - Com voc e Andrei arriscando a vida na guerra, Boy pode ser tudo o que me resta.
Seu irmo Andrei era casado, porm no tinha filhos. Se Andrei e Fitz morressem, Boy passaria a ser a nica famlia de Bea. Isso explicava por que ela protegia tanto a criana.
-		Mesmo assim, no  bom para o menino ficar sendo tratado a po de l.
-		Eu no conheo essa expresso - disse ela, emburrada.
-		Acho que voc sabe do que eu estou falando.
Bea tirou as anguas. Seu corpo havia ficado mais voluptuoso do que antes. Fitz a observou desatar as fitas que prendiam suas meias. Imaginou-se mordendo a carne macia da parte interna de sua coxa.
Ela percebeu seu olhar.
-		Estou cansada - falou. - Preciso dormir uma hora.
-		Eu poderia acompanh-la.
-		Pensei que voc fosse visitar os pobres com sua irm.
-		No sou obrigado a ir.
-		Preciso mesmo descansar.
Ele se levantou para sair, mas ento mudou de ideia. Sentia-se zangado, rejeitado.
-		J faz muito tempo que voc no me recebe na sua cama.
-		No tenho contado os dias.
-		Eu tenho, e so semanas, no dias.
-		Desculpe. Tenho andado to preocupada com tudo. - Ela voltou a ficar  beira das lgrimas.
Fitz sabia que ela temia pelo irmo - e compreendia sua ansiedade impotente -, porm milhes de mulheres estavam vivendo a mesma agonia, e a nobreza tinha a obrigao de ser estica.
-		Ouvi dizer que voc criou o hbito de assistir  missa na embaixada russa enquanto eu estava na Frana. - No havia igreja ortodoxa russa em Londres, mas a embaixada tinha uma capela.
-		Quem lhe contou isso?

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-		No importa. - Tia Herm lhe contara. - Antes de ns nos casarmos, eu lhe
pedi que se convertesse ao anglicanismo, e voc obedeceu.
Ela evitava seus olhos.
-		No achei que fosse ter problema algum eu assistir a uma ou duas missas -
falou baixinho. - Sinto muitssimo por ter desagradado voc.
Fitz no confiava em clrigos estrangeiros.
-		O padre de l anda dizendo a voc que  pecado ter prazer ao se deitar com
seu marido?
-		 claro que no! Mas, quando voc est fora, eu me sinto muito sozinha,
muito afastada de tudo com que fui criada...  reconfortante ouvir hinos e preces russas que conheo to bem.
Fitz sentiu pena dela. Devia ser difcil. Ele no conseguia sequer cogitar viver
de forma permanente em um pas estrangeiro. E sabia, graas a conversas com
outros homens casados, que no era incomum uma mulher resistir aos assdios
do marido depois de ter tido um filho.
No entanto, obrigou o prprio corao a endurecer. Todo mundo precisava
fazer sacrifcios. Bea deveria estar grata por no precisar correr para cima de
rajadas de metralhadoras.
-		Eu acho que cumpri meu dever para com voc - falou. - Quando nos casamos, paguei as dvidas da sua famlia. Contratei especialistas, russos e ingleses,
para planejarem a reorganizao das propriedades. - Os especialistas haviam
aconselhado Andrei a drenar pntanos para criar mais terra cultivvel e explorar
o terreno em busca de carvo e outros minerais, mas o irmo de Bea nunca fizera nada disso. - No  culpa minha se Andrei desperdiou todas as oportunidades que teve.
-		Sim, Fitz - respondeu ela. - Voc fez tudo o que prometeu.
-		E agora peo a voc que cumpra o seu dever. Ns precisamos gerar herdeiros. Se Andrei morrer sem gerar descendentes, o nosso filho herdar duas propriedades imensas. Ele vai ser um dos maiores proprietrios de terras do mundo.
Precisamos ter mais filhos para o caso de, Deus nos livre, acontecer alguma coisa
com Boy.
Ela manteve os olhos abaixados.
-		Eu sei do meu dever.
Fitz sentiu-se desonesto. Falava em herdeiros - e tudo o que dissera era verdade -, mas no lhe revelava que estava louco para ver seu corpo macio estirado
para ele sobre os lenis, branco sobre branco, e seus cabelos louros derramando-se sobre o travesseiro. Afastou essa viso da mente.

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   -		Se voc sabe do seu dever, por favor, cumpra-o. Da prxima vez que eu entrar no seu quarto, espero ser recebido como o marido amoroso que sou.
   -		Sim, Fitz.
    Ele saiu. Estava contente por ter fincado o p, mas tambm tinha uma sensao incmoda de ter feito alguma coisa errada, o que era ridculo. Ele havia deixado claro para Bea quanto seu comportamento estava errado, e ela havia aceitado sua reprimenda. Era assim que deveria ser entre marido e mulher. Fitz, no entanto, no conseguiu ficar to satisfeito quanto deveria.
    Afastou Bea do pensamento ao encontrar Maud e tia Herm no saguo. Ps o quepe do uniforme e olhou de relance para o espelho, desviando os olhos depressa. Ultimamente, tentava no pensar muito na prpria aparncia. A bala havia danificado os msculos do lado esquerdo de seu rosto, o que deixava sua plpebra permanentemente cada. No era uma desfigurao grave, mas sua vaidade jamais iria se recuperar. Disse a si mesmo para agradecer o fato de a sua viso no ter sido afetada.
    O Cadillac azul continuava na Frana, mas ele conseguira arrumar outro. Seu motorista conhecia o caminho: era bvio que j havia levado Maud ao East End. Meia hora mais tarde, eles estacionaram diante do Salo do Evangelho do Calvrio, uma capela pequenina e miservel com telhado de zinco. A construo poderia muito bem ter sido trazida diretamente de Aberowen. Fitz se perguntou se o pastor era gals.
    O ch j havia comeado e o lugar estava lotado de mes jovens com seus filhos. O cheiro era pior do que o de um alojamento militar e Fitz teve que resistir  tentao de cobrir o nariz com um leno.
    Maud e Herm comearam a trabalhar na mesma hora, Maud recebendo as mulheres no escritrio dos fundos, uma de cada vez, e Herm conduzindo-as at l. Fitz mancou de mesa em mesa, perguntando s mulheres onde seus maridos estavam servindo e quais tinham sido as suas experincias. Enquanto isso, as crianas rolavam pelo cho. No geral, as moas costumavam dar risadinhas e ficar sem palavras quando Fitz se dirigia a elas, mas aquele grupo no se deixava envergonhar com tanta facilidade. As mulheres lhe perguntaram em que regimento ele havia servido e como tinha sido ferido.
    Somente depois de percorrer metade da sala ele viu Ethel.
    Havia reparado que dois escritrios ocupavam os fundos do salo, um deles o de Maud, e ele se perguntara distraidamente quem estaria no segundo. Por acaso, ergueu os olhos bem na hora em que a porta se abriu e Ethel saiu da sala.
    Fazia dois anos que no a via, mas ela no estava muito diferente. Seus cachos
    
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escuros balanavam quando ela andava e seu sorriso parecia um raio de sol. O vestido estava to desbotado e gasto quanto as roupas de todas as mulheres ali presentes, exceto Maud e Herm, mas ela ainda conservava a mesma silhueta esbelta - e Fitz no pde deixar de pensar no corpo mignon que tinha conhecido to bem. Ethel no precisou sequer olhar para ele para enfeiti-lo. Era como se o tempo no houvesse passado desde que os dois tinham rolado juntos, aos risos e beijos, sobre a cama da Sute Gardnia.
   Ela se dirigiu ao nico outro homem que havia ali, um sujeito encurvado de terno casual cinza-escuro feito de algum material pesado, que tomava notas em um livro-razo sentado diante de uma mesa. O homem usava culos de lentes grossas, mas mesmo assim Fitz pde ver a expresso de adorao em seus olhos quando ele os ergueu para Ethel. Ela o abordou com uma amabilidade natural que fez Fitz se perguntar se os dois seriam casados.
   Ethel ento se virou, deparando-se com o olhar de Fitz. Suas sobrancelhas se arquearam e sua boca formou um O de surpresa. Ela deu um passo para trs, como se estivesse agitada, e esbarrou em uma cadeira. A mulher que a ocupava ergueu o rosto com uma expresso irritada. Ethel articulou um "Desculpe" sem olhar para ela.
   Fitz se levantou de onde estava sentado, o que no era fcil com a perna estropiada, sem desgrudar os olhos de Ethel. Ela estava visivelmente indecisa, sem saber se deveria se aproximar dele ou fugir para a segurana de sua sala.
  -		Ol, Ethel. - Suas palavras no conseguiram atravessar a sala barulhenta, mas ela provavelmente pde ver seus lbios se moverem e adivinhar o que ele dissera.
   Ela se decidiu e foi em sua direo.
  -		Boa tarde, lorde Fitzherbert - falou, com seu sotaque gals cadenciado fazendo a expresso corriqueira soar melodiosa. Estendeu a mo e os dois se cumprimentaram. A pele dela estava spera.
   Imitando-a, ele passou para um tratamento mais formal:
  -		Como vai, Sra. Williams?
   Ela puxou uma cadeira e se sentou. Enquanto fazia o mesmo, Fitz percebeu que ela havia, com astcia, colocado os dois em p de igualdade, sem qualquer intimidade.
  -		Eu vi o senhor na cerimnia de Aberowen Reck - disse ela. - Fiquei muito triste... - Sua voz engasgou na garganta. Ela baixou os olhos e recomeou: - Fiquei muito triste quando vi que estava ferido. Espero que esteja melhorando.
  -		Aos poucos. - Fitz podia ver que a preocupao dela era genuna. Aparentemente, apesar de tudo o que havia acontecido, ela no o odiava. Aquilo o comoveu.
   
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-		Como foi que se feriu?
Ele j havia repetido a histria tantas vezes que estava cansado de cont-la.
-		Foi no primeiro dia da batalha do Somme. Eu praticamente no lutei. Ns samos da trincheira, passamos pelo arame farpado e comeamos a atravessar a terra de ningum. Ento, quando dei por mim, estava sendo levado embora de padiola, sentindo uma dor terrvel.
-		Meu irmo o viu cair.
Fitz se lembrou do insubordinado cabo William Williams.
-		Foi mesmo? O que houve com ele?
-		A seo dele capturou uma trincheira alem, mas depois ficou sem munio e teve que abandon-la.
Como estava no hospital, Fitz no havia recebido relatrio algum sobre o ataque.
-		Ele recebeu uma medalha?
-		No. O coronel lhe disse que ele deveria ter defendido a posio at a morte. Billy respondeu "Como assim, igual ao senhor?" e levou uma punio.
Fitz no ficou surpreso. Williams era sinnimo de encrenca.
-		Mas o que a senhora est fazendo aqui?
-		Eu trabalho com a sua irm.
-		Ela no me disse nada.
Ethel o encarou com olhar firme.
-		Ela jamais pensaria que o senhor se interessaria em ter notcias de seus antigos criados.
Era uma provocao, mas ele a ignorou.
-		E qual a sua funo?
-		Sou gerente editorial do jornal The Soldiers Wife. Organizo a impresso e a distribuio e edito a seo de cartas. Alm de administrar o dinheiro.
Ele ficou impressionado. Era um grande passo para uma ex-governanta. Mas ela sempre tivera um talento extraordinrio para a organizao.
-		O meu dinheiro, imagino?
-		Creio que no. Maud  cuidadosa. Ela sabe que o senhor no se importa em pagar por ch e bolos, e por cuidados mdicos para os filhos dos soldados, mas no usaria seu dinheiro para propaganda contra a guerra.
Ele estava alongando a conversa pelo simples prazer de observar seu rosto enquanto ela falava.
-		 isso que o jornal publica? - perguntou. - Propaganda contra a guerra?
-		Ns debatemos publicamente o que vocs s mencionam em particular: a possibilidade de paz.

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Ela estava certa. Fitz sabia que polticos de alto escalo dos dois partidos vinham conversando sobre a paz, o que o deixava com raiva. Mas no queria discutir com Ethel.
-		Seu heri, Lloyd George,  a favor de intensificar os combates.
-		O senhor acha que ele ser primeiro-ministro?
-		No  o que o rei quer. Mas talvez ele seja o nico candidato capaz de unir o Parlamento.
-		Temo que ele venha a prolongar a guerra.
Maud saiu de sua sala. O ch estava terminando e as mulheres j recolhiam as xcaras e pires e juntavam seus filhos. Fitz ficou pasmo ao ver tia Herm carregando uma pilha de pratos sujos. Como a guerra mudava as pessoas!
Tornou a olhar para Ethel. Ela ainda era a mulher mais atraente que ele havia conhecido na vida. Cedeu a um impulso e, em voz baixa, perguntou:
-		Pode se encontrar comigo amanh?
Ela pareceu chocada.
-		Para qu? - perguntou baixinho.
-		Sim ou no?
-		Onde?
-		Na Victoria Station.  uma da tarde. No acesso  plataforma trs.
Antes que ela pudesse responder, o homem de culos grossos se aproximou e Ethel ps-se a apresent-lo:
-		Conde Fitzherbert, permita-me lhe apresentar o senhor Bernie Leckwith, presidente do ncleo de Aldgate do Partido Trabalhista Independente.
Fitz o cumprimentou com um aperto de mo. Leckwith tinha 20 e poucos anos. Sups que a vista ruim o houvesse dispensado das Foras Armadas.
-		Sinto muito por v-lo ferido, lorde Fitzherbert - disse Leckwith com sotaque do East End londrino.
-		Fui apenas um entre milhares de outros e tenho sorte de estar vivo.
-		Pensando em retrospecto, o senhor acha que ns poderamos ter feito alguma coisa de diferente na batalha do Somme? Algo que pudesse ter alterado o resultado de forma significativa?
Fitz pensou por alguns instantes. Era uma excelente pergunta.
Enquanto ele pensava, Leckwith acrescentou:
-		Ser que precisvamos de mais homens e munio, como alegam os generais? Ou de tticas mais flexveis e de uma comunicao melhor, como dizem os polticos?
-		Todas essas coisas teriam ajudado - disse Fitz com ar pensativo -, mas, para

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falar a verdade, no acho que poderiam ter nos dado a vitria. O ataque j nasceu condenado. Porm no tnhamos como saber disso de antemo. Precisvamos tentar.
Leckwith aquiesceu, como se aquilo confirmasse a prpria opinio.
-		Obrigado pela sua franqueza - falou, quase como se Fitz houvesse feito uma confisso.
Eles saram da capela. Fitz levou tia Herm e Maud at o carro que os aguardava, entrou em seguida e o motorista os levou embora dali.
Fitz percebeu que estava ofegante. Havia sofrido um pequeno choque. Trs anos antes, Ethel estava contando fronhas em Ty Gwyn. Hoje, era gerente editorial de um jornal que, apesar de pequeno, ministros importantes consideravam uma pedra no sapato do governo.
Qual seria o relacionamento dela com Bernie Leckwith, aquele homem de inteligncia surpreendente?
-		Quem era aquele tal de Leckwith? - perguntou ele a Maud.
-		Um poltico importante da regio.
-		Ele  marido de Williams?
Maud riu.
-		No, embora todos achem que devesse ser. Ele  um homem brilhante, que compartilha seus ideais e adora o filho dela. No entendo por que Ethel ainda no se casou com ele.
-		Talvez ele no faa o corao dela bater mais depressa.
Maud arqueou as sobrancelhas, e Fitz percebeu que tinha sido perigosamente franco.
-		Moas desse tipo querem romance, no  mesmo? - acrescentou depressa. - Ela vai se casar com um heri de guerra, no com um bibliotecrio.
-		Ethel no  uma moa desse tipo, ou de qualquer outro tipo - disse Maud com a voz um tanto gelada. - Ela  excepcional, isso sim. No se encontra duas como ela na vida.
Fitz desviou o olhar. Sabia que isso era verdade.
Perguntou-se como seria o menino. Ele deveria ser uma das crianas de cara suja que brincavam no cho da capela. Era provvel que tivesse visto o prprio filho naquela tarde. A ideia o deixou estranhamente comovido. Por algum motivo, teve vontade de chorar.
O carro estava passando pela Trafalgar Square. Ele pediu ao motorista que parasse.
-		 melhor eu dar um pulo no escritrio - explicou a Maud.
Ele entrou mancando no antigo prdio do Almirantado e subiu a escada. Sua

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mesa ficava na seo diplomtica, que ocupava a Sala 45. O subtenente Carver, estudante de latim e grego que viera de Cambridge para ajudar na decodificao dos sinais telegrficos alemes, disse-lhe que, como de hbito, poucas mensagens haviam sido interceptadas durante a tarde, de modo que estava sem nada para fazer. Havia, no entanto, algumas novidades polticas.
  -		O senhor j soube? - perguntou Carver. - O rei convocou Lloyd George.
Durante toda a manh seguinte, Ethel disse a si mesma que no iria encontrar Fitz. Como ele se atrevia a sugerir uma coisa dessas? Ela ficara mais de dois anos sem qualquer notcia sua. Ento, quando finalmente haviam se encontrado, ele nem lhe perguntara sobre Lloyd - seu prprio filho! Continuava o mesmo enganador egosta e insensvel de sempre.
   Ainda assim, ela havia ficado em polvorosa. Fitz a fitara com seus olhos verdes penetrantes e fizera perguntas sobre a sua vida que a deixaram com a sensao de ser importante para ele - apesar de todas as provas em contrrio. No era mais o homem perfeito de antes, quase um deus: seu rosto lindo estava maculado por um olho semicerrado e ele andava curvado sobre a bengala. Porm, aquela debilidade s fazia com que Ethel quisesse cuidar dele. Ela disse a si mesma que era uma boba. O conde tinha todos os cuidados que o dinheiro podia comprar. No iria encontr-lo.
   Ao meio-dia, ela saiu da redao do The Soldier's Wife - duas salinhas em cima de uma grfica, divididas com o Partido Trabalhista Independente - e pegou um nibus. Maud no estava no jornal naquela manh, o que poupou Ethel de ter que inventar uma desculpa.
   A viagem de nibus e metr de Aldgate at a Victoria Station era longa, de modo que Ethel chegou ao encontro alguns minutos depois da uma da tarde. Imaginou que Fitz poderia ter ficado impaciente e ido embora, e a ideia a deixou levemente nauseada; mas ele estava l, usando um terno de tweed como se estivesse indo para o campo, e ela se sentiu melhor na mesma hora.
   Ele sorriu.
  -		Tive medo de voc no vir - falou.
  -		No sei por que vim - respondeu ela. - Por que voc me chamou aqui?
  -		Quero lhe mostrar uma coisa. - Ele a tomou pelo brao.
   Os dois saram da estao. Andar de braos dados com ele provocou em Ethel uma satisfao tola. Ficou pasma com a coragem de Fitz. Ele era um homem
   
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facilmente reconhecvel. E se topassem com algum amigo seu? Ela imaginou que,
se fosse o caso, os dois homens fingiriam no ter se visto. Na classe social de Fitz,
no se esperava que um homem com alguns anos de casado fosse fiel  esposa.
Eles pegaram um nibus e, alguns pontos depois, desceram no mal-afamado
subrbio de Chelsea, um bairro de aluguis baratos ocupado por artistas e escritores. Ethel se perguntou o que ele queria lhe mostrar. Eles percorreram uma rua
de casinhas independentes, no geminadas.
-		Voc j assistiu a um debate no Parlamento? - perguntou Fitz.
-		No - respondeu ela. - Mas adoraria.
-		 preciso ser convidado por um membro de uma das cmaras. Quer que eu
organize isso?
-		Quero, por favor!
Fitz parecia feliz por ela ter aceitado.
-		Vou verificar quando haver algo interessante. Acho que voc gostaria de ver
Lloyd George em ao.
-Sim!
-		Ele hoje est montando seu governo. Imagino que v beijar a mo do rei
como primeiro-ministro ainda esta noite.
Ethel olhou em volta, pensativa. Em alguns trechos, Chelsea ainda se parecia
com a aldeia interiorana que havia sido no sculo anterior. As construes mais
antigas eram chals e casas de fazenda, estruturas baixas com amplos jardins e
pomares. Como era dezembro, no havia muito verde, mas, de qualquer forma,
o bairro tinha uma agradvel atmosfera semirrural.
-		A poltica  uma coisa engraada - comentou ela. - Desde que aprendi a ler
jornal, venho querendo que Lloyd George seja primeiro-ministro, mas, agora
	que isso aconteceu, estou com medo.
-		Por qu?
-		Ele  o mais beligerante dos membros do alto escalo do governo. Sua
nomeao poderia arruinar qualquer chance de paz. Por outro lado...
Fitz fez uma cara intrigada.
-		O qu?
-		Ele  o nico que pode aceitar discutir a paz sem ser crucificado pelos jornais sensacionalistas de Northcliffe.
-		Isso l  verdade - concordou Fitz, preocupado. - Se qualquer outro fizesse
isso, as manchetes iriam bradar: "Fora Asquith... ou Fora Balfour, Fora Bonar
Law... e Viva Lloyd George!" Mas, se a imprensa atacar Lloyd George, no vai
sobrar mais ningum.

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-		Ento talvez ainda haja uma esperana de paz.
Ele se permitiu assumir um tom de voz irritado.
-		Por que voc torce pela paz e no pela vitria?
-		Porque foi assim que ns nos metemos nesta encrenca - respondeu ela, sem se alterar. - O que voc queria me mostrar?
-		Isto aqui. - Ele abriu o trinco de um porto e o segurou para ela passar. Os dois entraram no terreno de uma casa independente de dois andares. O jardim estava abandonado e a casa precisava de pintura, mas era uma residncia charmosa, de tamanho mdio - o tipo de lugar que poderia pertencer a um msico de sucesso, pensou Ethel, ou talvez a um ator conhecido. Fitz tirou uma chave do bolso e abriu a porta da frente. Ambos entraram, ento ele fechou a porta e a beijou.
Ela se deixou levar pelo momento. Fazia muito tempo que ningum a beijava, e ela se sentiu como um viajante sedento no meio do deserto. Acariciou o pescoo comprido de Fitz e apertou os seios contra o peito dele. Percebeu que ele estava to vido quanto ela. Antes de perder o controle, empurrou-o para longe.
-		Pare.
-		Por qu?
-		Da ltima vez que fizemos isso, eu acabei tendo uma conversa com seu maldito advogado. - Ethel se afastou dele. - No sou mais to inocente.
-		Desta vez vai ser diferente - disse ele, ofegante. - Fui um tolo por deixar voc ir embora. Hoje entendo isso. Eu tambm era jovem.
Para se acalmar, ela correu os olhos pelos cmodos. Estavam repletos de mveis antigos e fora de moda.
-		De quem  esta casa? - perguntou.
-		Sua - respondeu ele. - Se voc quiser.
Ela o encarou. Aonde ele estava querendo chegar?
-		Voc poderia morar aqui com a criana - explicou ele. - Durante anos, a casa pertenceu a uma senhora de idade que foi governanta do meu pai. Ela morreu faz alguns meses. Voc poderia redecorar tudo e comprar mveis novos.
-		Morar aqui? - indagou ela. - Para ser o que sua?
Ele foi incapaz de dizer a palavra.
-		Sua amante? - insistiu ela.
-		Voc pode ter uma bab, uma ou duas criadas e um jardineiro. At um carro com motorista, se quiser.
A nica parte que a seduzia naquilo tudo era ele.
Fitz, no entanto, interpretou mal a expresso pensativa de Ethel.
-		A casa  pequena demais? Voc preferiria morar em Kensington? Quer um

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mordomo e uma governanta? Ser que no entende que eu lhe darei tudo o que voc quiser? A minha vida sem voc  vazia.
Ethel viu que ele estava dizendo a verdade. Pelo menos a verdade daquele momento, em que estava excitado e insatisfeito. Porm havia sentido na prpria carne a rapidez com que ele podia mudar de ideia.
Mas o problema era que tambm estava louca por ele.
Fitz deve ter lido isso em seu rosto, pois tornou a abra-la. Ela ergueu o rosto para ser beijada. Quero mais disso, pensou.
Mais uma vez, livrou-se do abrao antes de perder o controle.
-		E ento? - perguntou ele.
Ela no poderia tomar uma deciso sensata com ele a beijando daquela forma.
-		Eu preciso ficar sozinha - falou. Forou-se a se afastar dele antes que fosse tarde demais. - Deixe-me ir para casa - continuou, abrindo a porta. - Preciso de tempo para pensar. - Na soleira, ela hesitou.
-		Pense quanto quiser - disse ele. - Eu espero.
Ela fechou a porta e saiu correndo.
Gus Dewar estava na National Gallery, na Trafalgar Square, parado diante do Autorretrato aos 63 anos, de Rembrandt, quando uma mulher ao seu lado falou:
-		Que homem mais feio!
Gus se virou e ficou surpreso ao reconhecer Maud Fitzherbert.
-		Quem? Eu ou Rembrandt? - perguntou, fazendo-a rir.
Os dois saram passeando juntos pela galeria.
-		Que coincidncia agradvel encontr-la aqui - disse ele.
-		Na verdade, eu vi o senhor entrar e o segui - confessou ela. Baixou a voz: - Queria lhe perguntar por que os alemes ainda no fizeram a proposta de paz que o senhor me contou ser iminente.
Gus no sabia a resposta.
-		Talvez eles tenham mudado de ideia - falou, desanimado. - Na Alemanha, assim como aqui, existe uma faco que defende a paz e outra que defende a guerra. Talvez a faco a favor da guerra tenha levado a melhor e conseguido fazer o Kaiser mudar de ideia.
-		Mas no  possvel que eles no entendam que batalhas no fazem mais a menor diferena! - disse ela, exasperada. - O senhor leu nos matutinos de hoje que os alemes tomaram Bucareste?

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Gus fez que sim com a cabea. A Romnia havia declarado guerra em agosto e, durante algum tempo, os britnicos tinham alimentado esperanas de que aquela nova aliada pudesse desferir um golpe certeiro - mas a Alemanha invadira o pas em setembro, e agora a capital romena havia cado.
-		Na verdade, esse desfecho  bom para a Alemanha, que passou a ter nas mos o petrleo romeno.
-		Exatamente - disse Maud. -  a mesma coisa de sempre: um passo para a frente, um passo para trs. Quando ns vamos aprender?
-		A nomeao de Lloyd George como primeiro-ministro no  animadora - comentou Gus.
-		Ah! Talvez nisso o senhor esteja enganado.
-		Ser? Ele construiu sua reputao poltica pelo fato de ser mais agressivo do que todos os outros. Seria difcil para ele conseguir a paz depois disso.
-		No tenha tanta certeza. Lloyd George  imprevisvel. Ele poderia mudar de ideia. Isso surpreenderia apenas os que tiveram a ingenuidade de consider-lo sincero.
-		Bem, j  uma esperana.
-		Ainda assim, eu gostaria que tivssemos uma primeira-ministra mulher.
Gus duvidava que isso algum dia fosse acontecer, mas ficou calado.
-		Eu queria lhe perguntar mais uma coisa - disse ela, e ento se interrompeu.
Gus virou-se de frente para ela. Talvez os quadros houvessem lhe aguado a
sensibilidade, mas ele se pegou admirando seu rosto. Reparou nos contornos bem marcados do nariz e do queixo, nas mas do rosto protuberantes, no pescoo comprido. Os traos angulosos eram suavizados pelos lbios carnudos e pelos grandes olhos verdes.
-		Fique  vontade - falou ele.
-		O que Walter lhe disse?
Gus recordou aquela surpreendente conversa no bar do Hotel Adlon, em Berlim.
-		Que precisava me revelar um segredo. Mas depois no me disse qual era ele.
-		Ele pensou que o senhor fosse conseguir adivinhar.
-		O que adivinhei foi que ele deve estar apaixonado pela senhorita. E, pela sua reao quando lhe entreguei a carta em Ty Gwyn, pude ver que o amor dele  correspondido. - Gus sorriu. - Se me permite dizer, ele  um homem de sorte.
Ela aquiesceu e Gus leu em sua expresso algo semelhante a alvio. O segredo no deve ser s esse, percebeu; era por isso que ela precisava descobrir quanto ele sabia. Ele se perguntou o que mais os dois estariam escondendo. Talvez estivessem noivos.

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Eles seguiram andando pela galeria. Entendo por que ele a ama, pensou Gus. Eu mesmo poderia me apaixonar por voc em um piscar de olhos.
Ela tornou a surpreend-lo ao perguntar de repente:
-		O senhor j se apaixonou, Sr. Dewar?
Era uma pergunta invasiva, mas ele respondeu assim mesmo:
-		J... duas vezes.
-		Mas no est mais apaixonado.
Ele sentiu um impulso de se confidenciar com ela.
-		No ano que a guerra foi declarada, cometi o deslize de me apaixonar por uma mulher j casada.
-		Ela o amava?
-		Sim.
-		O que aconteceu?
-		Eu lhe pedi que deixasse o marido para ficar comigo. Foi muito errado da minha parte, e sei que a senhorita vai ficar chocada. Mas ela era uma pessoa melhor do que eu e recusou minha proposta imoral.
-		Eu no me choco com facilidade. E a segunda vez?
-		No ano passado, fiquei noivo de uma moa na minha cidade natal, Buffalo; mas ela se casou com outro homem.
-		Oh! Eu sinto muito. Talvez eu no devesse ter perguntado. Despertei uma lembrana dolorosa.
-		Extremamente dolorosa.
-		Espero que me perdoe, mas preciso dizer que isso me deixa mais tranquila.  que, ento, o senhor sabe quanto sofrimento o amor pode provocar.
-		, sei mesmo.
-		Mas talvez a paz venha, no fim das contas, e meu sofrimento termine em breve.
-		Espero muito que sim, lady Maud - disse Gus.
Ethel remoeu por dias a fio a proposta de Fitz. Congelando no quintal dos fundos de sua casa enquanto girava a manivela para torcer a roupa, imaginou-se naquela bela casa de Chelsea, com Lloyd correndo pelo jardim vigiado por uma bab atenta. "Eu lhe darei tudo o que voc quiser", dissera Fitz, e ela sabia que era verdade. Ele poria a casa em seu nome. Viajaria com ela para a Sua e para o sul da Frana. Com algum esforo, poderia obrig-lo a lhe pagar uma penso anual, de

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modo que teria uma renda at o dia de sua morte, mesmo que ele se cansasse dela - embora tambm soubesse que era capaz de garantir que isso nunca acontecesse.
   Aquilo era vergonhoso, repugnante, disse ela a si mesma com severidade. Ela seria uma mulher paga para fazer sexo - e o que significava a palavra "prostituta" seno isso? Nunca poderia convidar os pais para visitar seu refgio em Chelsea: eles saberiam na hora o que aquilo significava.
   Mas ser que estava ligando para isso? Talvez no, mas precisava levar outras coisas em conta. Ela queria mais da vida alm de conforto. Como amante de um milionrio, no poderia continuar militando em prol das mulheres da classe trabalhadora. Seria o fim de sua vida poltica. Perderia o contato com Bernie e Mildred - e at mesmo encontrar Maud seria constrangedor.
   Mas quem era ela para pedir tanto da vida? Era Ethel Williams, nascida na casa humilde de um minerador de carvo! Como poderia desdenhar uma vida inteira de conforto? Isso sim  tirar a sorte grande, disse a si mesma, usando um dos jarges de Bernie.
   Alm disso, havia Lloyd. Ele teria uma governanta e, futuramente, Fitz lhe pagaria uma escola gr-fina. Ele cresceria rodeado pela elite e teria uma vida privilegiada. Ser que Ethel tinha o direito de lhe negar isso?
   No estava nem perto de encontrar uma resposta quando abriu o jornal na sala que dividia com Maud e ficou sabendo sobre uma outra proposta dramtica. No dia 12 de dezembro, o chanceler alemo Theobald von Bethmann-Hollweg havia proposto negociaes de paz com os Aliados.
   Ethel ficou radiante. Paz! Seria mesmo possvel? Ser que Billy voltaria para casa?
   Na mesma hora, o premi francs descreveu a mensagem como um golpe ardiloso, enquanto o ministro das Relaes Exteriores russo denunciou as "propostas mentirosas" dos alemes, porm Ethel acreditava que somente a reao da Gr-Bretanha contaria de verdade.
   Alegando uma inflamao na garganta, Lloyd George no estava fazendo nenhum tipo de pronunciamento pblico. Em dezembro, metade dos londrinos tinha tosses e resfriados, mas, mesmo assim, Ethel desconfiou que Lloyd George quisesse apenas tempo para pensar. Interpretou isso como um bom sinal. Uma resposta imediata teria sido negativa; qualquer outra coisa dava margem a esperana. Ele pelo menos estava cogitando a paz, pensou ela com otimismo.
   Nesse meio-tempo, o presidente Wilson ps o peso dos Estados Unidos na balana a favor da paz. Sua sugesto era que, em preparao s negociaes, todas as potncias em conflito afirmassem seus objetivos, ou seja, o que estavam tentando obter com os combates.
   
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-		Isso os deixou constrangidos - disse Bernie Leckwith naquela mesma noite. - Eles j esqueceram por que comearam a guerra. Agora s esto lutando porque querem vencer.
Ethel se lembrou do que a Sra. Dai dos Pneis tinha dito sobre a greve: Quando os homens entram em uma briga, s pensam em ganhar. Seja qual for o custo, no desistem. Perguntou-se como uma primeira-ministra mulher teria reagido a uma proposta de paz.
Com o passar dos dias, no entanto, percebeu que Bernie tinha razo. A sugesto do presidente Wilson foi recebida com um estranho silncio. Nenhum dos pases respondeu de imediato. Isso deixou Ethel com mais raiva ainda... Como podiam continuar a guerra quando nem sequer sabiam por que estavam lutando?
No final da semana, Bernie organizou uma assembleia geral para debater o comunicado dos alemes. No dia da reunio, Ethel acordou e viu o irmo em p ao lado de sua cama, vestindo seu uniforme cqui.
-		Billy! - exclamou. - Voc est vivo!
-		E tenho uma semana de licena - respondeu ele. - Saia j da cama, sua preguiosa.
Ela se levantou com um salto, vestiu um roupo por cima da camisola e o abraou.
-		Ai, Billy, estou to feliz em ver voc! - Reparou nas listras em sua manga. - Voc agora  sargento?
-		Sou.
-		Como foi que entrou em casa?
-		Mildred abriu a porta para mim. Na verdade, eu cheguei ontem  noite.
-		Onde voc dormiu?
Ele pareceu acanhado.
-		L em cima.
Ethel sorriu.
-		Garoto de sorte.
-		Eu gosto muito dela, Eth.
-		Eu tambm - respondeu Ethel. - Mildred  ouro puro. Voc vai se casar com ela?
-		Se eu sobreviver  guerra, vou.
-		No liga para a diferena de idade?
-		Ela tem 23 anos. No  uma velha de 30 nem nada.
-		E as meninas?
Billy deu de ombros.

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-		Elas so boazinhas, mas, mesmo que no fossem, eu as aturaria pela Mildred.
-		Ento voc a ama mesmo.
-		No  difcil.
-		Ela abriu um pequeno negcio, voc deve ter visto quanto chapu tem l no quarto dela.
-		Eu sei. E, pelo que ela diz, est indo bem.
-		Muito bem. Ela  trabalhadora. Tommy veio com voc?
-		Ele pegou o mesmo navio que eu, mas j embarcou no trem para Aberowen.
Lloyd acordou, viu um desconhecido no quarto e comeou a chorar. Ethel o
pegou no colo para acalm-lo.
-		Venha at a cozinha - disse ela para Billy. - Vou preparar o caf da manh para ns.
Enquanto ela fazia um mingau, Billy se sentou e comeou a ler o jornal. Depois de alguns instantes, exclamou:
-		Maldio!
-		O que foi?
-		Estou vendo que o desgraado do Fitzherbert andou abrindo aquela boca grande. - Ele olhou para Lloyd, quase como se o beb pudesse ficar ofendido com aquela referncia insultuosa ao pai.
Ethel olhou por cima do ombro do irmo e leu:
PAZ: A SPLICA DE UM SOLDADO "No nos abandonem agora!"
Conde ferido conta sua histria
Um discurso comovente contra a atual proposta do chanceler alemo para iniciar negociaes de paz foi pronunciado ontem na Cmara dos Lordes. O orador, conde Fitzherbert, major dos Fuzileiros Galeses, est em Londres convalescendo de ferimentos sofridos durante a batalha do Somme.
Segundo lorde Fitzherbert, negociar a paz com os alemes seria uma traio a todos os homens que perderam a vida na guerra. "Ns acreditamos estar vencendo e podemos obter uma vitria total contanto que vocs no nos abandonem agora", disse ele.
De uniforme, usando um tapa-olho e apoiado em uma bengala, o conde causou forte impresso na Cmara. Foi ouvido em meio a um silncio absoluto e ovacionado ao se sentar.

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    O texto prosseguia longamente no mesmo tom. Ethel ficou horrorizada. Aquilo era uma conversa oca sentimentaloide, mas iria funcionar. Fitz no costumava usar o tapa-olho - devia t-lo posto s para impressionar. Seu discurso faria com que muitos se opusessem ao plano de paz.
    Ela tomou o caf com Billy, depois vestiu Lloyd, trocou de roupa e saiu de casa. Billy iria passar o dia com Mildred, mas prometeu ir  assembleia daquela noite.
    Quando Ethel chegou  redao do The Soldiers Wife, viu que todos os jornais haviam reproduzido o discurso de Fitz. Vrios deles o haviam publicado na manchete. As opinies diferiam, mas todos concordavam que o conde havia desferido um golpe devastador.
   -		Como algum pode ser contra um simples debate sobre a paz? - perguntou ela a Maud.
   -		Pergunte a ele voc mesma - respondeu Maud. - Eu o convidei  assembleia de hoje  noite, e ele aceitou.
    Ethel se espantou.
   -		Ele vai ter uma acolhida calorosa!
   -		Espero sinceramente que sim.
    As duas passaram o dia preparando uma edio especial do jornal com a manchete PEQUENO RISCO DE PAZ. Maud gostou da ironia, mas Ethel a achou sutil demais. No final da tarde, Ethel foi pegar Lloyd na casa da bab, levou-o para casa, deu-lhe comida e o ps na cama. Deixou-o aos cuidados de Mildred, que no frequentava reunies polticas.
    O Salo do Evangelho do Calvrio j estava ficando cheio quando Ethel chegou e, em pouco tempo, s restavam lugares em p. Na plateia havia muitos soldados e marinheiros de uniforme. Bernie presidia a assembleia. Comeou com um discurso prprio que, embora curto, conseguiu ser enfadonho - ele no era bom orador. Ento chamou o primeiro palestrante convidado, um filsofo da Universidade de Oxford.
    Ethel conhecia os argumentos a favor da paz melhor do que o filsofo e, enquanto ele falava, ficou analisando os dois homens que a estavam cortejando. Fitz era o resultado de centenas de anos de riqueza e cultura. Como sempre, estava lindamente vestido, com os cabelos bem cortados, as mos brancas e as unhas limpas. Bernie vinha de uma tribo de nmades perseguidos que haviam sobrevivido sendo mais inteligentes do que seus algozes. Usava o nico terno que possua, de sarja pesada cinza-escura. Ethel jamais o vira vestir qualquer outra coisa: quando fazia calor, ele simplesmente tirava o palet.
    A plateia escutava em silncio. O movimento trabalhista estava cindido quanto
 
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 paz. Ramsay MacDonald, que discursara no Parlamento em 3 de agosto de 1914 contra a entrada da Gr-Bretanha no conflito, havia pedido demisso do cargo de lder do Partido Trabalhista quando a guerra foi declarada dois dias depois. Desde ento, os membros do partido no Parlamento vinham defendendo a guerra, assim como a maioria de seus eleitores. Contudo, as pessoas que apoiavam os trabalhistas, em geral, eram as mais cticas da classe trabalhadora, de modo que havia uma forte minoria a favor da paz.
   Fitz comeou falando sobre as valorosas tradies britnicas. Durante centenas de anos, afirmou ele, a Gr-Bretanha havia mantido o equilbrio de poder na Europa, geralmente tomando o partido das naes mais fracas para que no houvesse tirania por parte de nenhum pas.
  -		O chanceler alemo no disse nada sobre os termos de um acordo de paz, mas qualquer discusso teria de comear pelo status quo - disse ele. - A paz agora significa que a Frana ser humilhada e privada de parte de seu territrio e que a Blgica virar um satlite. A Alemanha dominaria o continente por uma simples questo de poderio militar. No podemos permitir que isso acontea. Temos que lutar pela vitria.
   Quando o debate foi aberto, Bernie disse:
  -		O conde Fitzherbert est aqui em carter puramente individual, no como oficial do Exrcito, e ele me deu sua palavra de honra de que os soldados da ativa que estiverem na plateia no sero punidos por nada do que disserem. Caso contrrio, ns no o teramos convidado a participar da assembleia.
   O prprio Bernie fez a primeira pergunta. Como sempre, muito boa.
  -		Lorde Fitzherbert, segundo a sua anlise, se a Frana for humilhada e perder territrio, isso ir desestabilizar a Europa.
   Fitz aquiesceu.
  -		Ao passo que, se a Alemanha for humilhada e perder os territrios da Alscia e da Lorena, como sem dvida seria o caso, isso traria estabilidade ao continente.
   Ethel pde ver que Fitz ficou momentaneamente sem ao. No previra ter de lidar com uma oposio to feroz ali no East End. Em termos intelectuais, o conde no era preo para Bernie. Ela sentiu um pouco de pena dele.
  -		Por que a diferena? - concluiu Bernie, ao que se ouviu um murmrio de aprovao dos defensores da paz na plateia.
   Fitz se recuperou depressa.
  -		A diferena - respondeu ele -  que a Alemanha  o agressor, um agressor brutal, militarista e cruel, de modo que, se ns negocissemos a paz agora, 
   
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estaramos recompensando esse comportamento e incentivando que ele se repita no futuro!
   Isso provocou vivas da outra parte da plateia, o que preservou a dignidade de Fitz, mas o argumento era fraco, pensou Ethel, e Maud se levantou para dizer isso.
  -		A guerra no foi culpa de uma s nao! - disse ela. - Culpar a Alemanha se tornou lugar-comum, e os nossos jornais belicistas incentivam esse conto de fadas. Quando recordamos a invaso da Blgica pela Alemanha, falamos como se ela tivesse ocorrido sem qualquer provocao. Esquecemos a mobilizao de seis milhes de soldados russos na fronteira alem. Esquecemos a recusa francesa em declarar neutralidade. - Alguns homens a vaiaram. Nunca se  ovacionado por dizer s pessoas que a situao no  to simples quanto elas acham, pensou Ethel. - No estou dizendo que a Alemanha  inocente! - protestou Maud. - Mas sim que nenhum pas  inocente. Que no estamos lutando pela estabilidade na Europa nem para que os belgas tenham justia, nem muito menos para punir o militarismo alemo. Estamos lutando porque somos orgulhosos demais para admitir que cometemos um erro!
   Um soldado uniformizado se levantou para falar e Ethel viu, orgulhosa, que era Billy.
  -		Eu lutei no Somme - comeou ele, ao que a plateia se calou. - Quero contar a vocs por que ns perdemos tantos homens l. - Ethel ouviu a mesma voz forte e a mesma convico serena do pai e percebeu que Billy teria dado um timo pregador. - Nossos oficiais... - Nessa hora, ele esticou o brao e apontou um dedo acusador para Fitz: - ... nos disseram que o ataque seria moleza.
   Ethel viu Fitz se remexer, pouco  vontade, em sua cadeira no tablado.
  -		Eles nos disseram que nossa artilharia tinha destrudo as posies inimigas, arrasado suas trincheiras e demolido seus abrigos e que - prosseguiu Billy -, quando chegssemos ao outro lado, veramos apenas alemes mortos.
   Ethel observou que ele no estava se dirigindo s pessoas sobre o tablado, mas sim olhando em volta, percorrendo a plateia com um olhar intenso para garantir que todos olhassem para ele.
  -		Por que eles nos disseram isso? - indagou Billy, passando a olhar diretamente para Fitz e falando com uma nfase calculada. - Esse monte de mentiras. - Um murmrio de aprovao veio da plateia.
   Ethel viu o semblante de Fitz se turvar. Sabia que, para homens da sua classe, ser chamado de mentiroso era o maior de todos os insultos. Billy tambm sabia disso.
  -		As posies alems no tinham sido destrudas - disse Billy -, como ns descobrimos ao dar de cara com rajadas de metralhadora.
   
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Desta vez, a reao da plateia foi menos discreta. Algum gritou:
-		Vergonhoso!
Fitz se levantou para dizer alguma coisa, mas Bernie falou:
-		Um instante, lorde Fitzherbert, por favor, deixe a pessoa que est com a palavra terminar. - Fitz se sentou, balanando a cabea com fora de um lado para outro.
Billy ergueu a voz:
-		Por acaso nossos oficiais verificaram, por reconhecimento areo e pelo envio de patrulhas, quanto estrago nossa artilharia havia realmente causado s linhas alems? Caso contrrio, por que no checaram?
Fitz tornou a se levantar, furioso. Alguns dos presentes aplaudiram, outros vaiaram. Ele comeou a falar:
-		Vocs no entendem! - disse ele.
Mas a voz de Billy foi mais forte.
-		Se eles conheciam a verdade - exclamou -, por que nos disseram o contrrio?
Fitz comeou a gritar, e metade da plateia tambm estava aos berros, porm
Billy conseguiu se fazer ouvir acima de tudo isso.
-		Estou fazendo uma pergunta simples! - rugiu ele. - Nossos oficiais so tolos... ou mentirosos?
Ethel recebeu uma carta na caligrafia grande e firme de Fitz, escrita em seu papel timbrado caro, encabeado pelo braso da famlia. Ele no mencionava a assembleia em Aldgate, mas a convidava para ir ao Palcio de Westminster no dia seguinte, tera-feira, 19 de dezembro, sentar-se na galeria da Cmara dos Comuns e ouvir o primeiro discurso de Lloyd George como primeiro-ministro. Ela ficou animada. Nunca tinha pensado que um dia fosse ver o interior do Palcio de Westminster, quanto mais ouvir seu heri falar.
-		Por que voc acha que ele a convidou? - perguntou Bernie naquela noite, indo, como sempre, ao xis da questo.
Ethel no tinha uma resposta plausvel para isso. Gentileza pura e simples nunca fizera parte do temperamento de Fitz. Ele sabia ser altrusta quando isso lhe convinha. Bernie, com toda a sua sagacidade, perguntava-se se o conde queria algo em troca.
Bernie tinha um temperamento mais cerebral do que intuitivo, porm havia notado uma conexo entre Fitz e Ethel e reagira tornando-se levemente amoroso.

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Nada dramtico, pois esse no era seu estilo, mas ele segurava sua mo por alguns instantes a mais do que deveria, aproximava-se dela um pouco mais do que seria confortvel, afagava seu ombro ao lhe dirigir a palavra e segurava-lhe o cotovelo quando ela descia algum degrau. Sentindo-se de uma hora para outra inseguro, Bernie tentava dizer, por meio desses gestos instintivos, que Ethel lhe pertencia. Infelizmente, ela achava difcil no se retrair quando ele agia dessa forma. Fitz havia sido um lembrete cruel do que ela no sentia por Bernie.
    Maud chegou  redao s dez e meia de tera-feira e as duas passaram a manh toda trabalhando juntas. Maud no podia redigir a manchete da edio seguinte antes de Lloyd George ter pronunciado seu discurso, mas havia muitas outras coisas no jornal: classificados de empregos, anncios de babs, conselhos sobre sade feminina e infantil escritos pelo Dr. Greenward, receitas e cartas.
   -		Fitz ficou revoltado com aquela assembleia - comentou Maud.
   -		Eu lhe disse que ele iria passar maus bocados.
   -		Com isso ele no se importa - respondeu Maud. - Mas Billy o chamou de mentiroso.
   -		Tem certeza de que no  s porque Billy ganhou a discusso?
    Maud deu um sorriso pesaroso.
   -		Talvez.
   -		S espero que ele no faa Billy pagar por isso.
   -		No vai fazer - disse Maud com firmeza. - Seria descumprir sua palavra.
   -		timo.
    As duas almoaram em um caf na Mile End Road. "Uma boa parada para motoristas", dizia a placa do lado de fora, e o lugar estava de fato cheio de caminhoneiros. Maud foi recebida com alegria pelos funcionrios do balco. Elas comeram empado de carne com ostras, que eram acrescentadas, por serem baratas, para compensar a pouca quantidade de carne.
    Depois do almoo, pegaram um nibus e atravessaram Londres at o West End. Ethel ergueu os olhos para o mostrador gigantesco do Big Ben e viu que eram trs e meia. O pronunciamento de Lloyd George estava marcado para as quatro. Ele tinha o poder de pr fim  guerra e salvar milhes de vidas. Ser que iria faz-lo?
    Lloyd George sempre havia lutado pelos trabalhadores. Antes da guerra, enfrentara a Cmara dos Lordes e o rei para instituir as penses para os idosos. Ethel sabia quanto isso significava para as pessoas pobres de mais idade. No primeiro dia em que o benefcio foi pago, tinha visto mineradores aposentados - homens outrora fortes, agora curvados e trmulos - sarem da agncia de 
    
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correios de Aberowen chorando de alegria por no serem mais miserveis. Foi ento que Lloyd George se tornou um heri da classe operria. Os lordes queriam gastar o dinheiro com a Marinha Real.
Eu poderia escrever seu discurso de hoje, pensou ela. Diria o seguinte: "H horas na vida de um homem, e na vida de uma nao, em que  correto dizer: eu fiz tudo o que pude e no sou capaz de fazer mais, portanto abandonarei a luta e buscarei outro caminho. Uma hora atrs, eu ordenei um cessar-fogo em toda a linha de combate britnica na Frana. Senhores, as armas se calaram."
Era possvel. Os franceses ficariam furiosos, mas teriam que acatar o cessar-fogo, ou correr o risco de os britnicos assinarem uma paz em separado e os condenarem a uma derrota certa. O acordo de paz seria duro para Frana e Blgica, mas no tanto quanto perder outros milhes de vidas.
Isso seria um ato digno de um grande chefe de Estado. Seria tambm o fim da carreira poltica de Lloyd George: nenhum eleitor votaria no homem que havia perdido a guerra. Mas que sada magistral!
Fitz a aguardava no saguo central. Junto com ele estava Gus Dewar. O americano sem dvida estava to ansioso quanto todos para descobrir como Lloyd George reagiria  iniciativa de paz.
Os quatro subiram a longa escadaria at a galeria e tomaram seus lugares com vista para a Cmara. Fitz sentou-se  direita de Ethel e Gus  esquerda. Abaixo deles, as fileiras de bancos de couro verde dos dois lados do salo j estavam cheias de membros do Parlamento, com exceo dos poucos lugares na primeira fila, tradicionalmente reservados para o gabinete.
-		No falta um s membro do Parlamento! - disse Maud em voz alta.
Um dos funcionrios da Cmara, vestindo libr, composta por uma cala de veludo na altura dos joelhos e meias brancas, disse com diligncia:
-		Silncio, por favor!
Um dos parlamentares estava de p, falando, mas quase ningum lhe dava ateno. Todos aguardavam o novo primeiro-ministro. Em voz baixa, Fitz disse a Ethel:
-		Seu irmo me ofendeu.
-		Ah, coitadinho - disse Ethel, irnica. - Voc ficou magoado?
-		Antigamente, as pessoas duelavam por menos.
-		Que ideia mais sensata para o sculo XX.
O sarcasmo dela no o atingiu.
-		Ele sabe quem  o pai de Lloyd?
Ethel hesitou: no queria lhe contar a verdade, tampouco mentir.
A hesitao dela confirmou suas suspeitas.

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-		Entendo - comentou Fitz. - Isso explica a virulncia dele.
-		No me parece haver necessidade de procurar um motivo oculto - disse ela.
- Voc no acha que o que aconteceu no Somme  suficiente para deixar os soldados com raiva?
-		Ele deveria ser levado  corte marcial por insolncia.
-		Mas voc prometeu no...
-		 - falou ele, contrariado. - Infelizmente, eu prometi.
Lloyd George adentrou a Cmara.
Era um homem baixo e franzino, vestido de fraque, com os cabelos meio compridos um pouco desgrenhados e o bigode farto j inteiramente branco. Tinha 53
anos, mas havia energia no seu andar e, quando ele se sentou e disse algo para
um dos parlamentares, Ethel viu o conhecido sorriso das fotografias dos jornais.
Ele comeou seu discurso s quatro e dez. Com a voz um tanto rouca, disse
que estava com a garganta inflamada. Fez uma pausa, ento prosseguiu:
-		Compareo hoje diante da Cmara dos Comuns carregando a mais terrvel
responsabilidade que pode recair sobre os ombros de qualquer homem.
Bom comeo, pensou Ethel. Pelo menos ele no iria desdenhar o comunicado
dos alemes como um truque ou uma distrao sem importncia, como os franceses e russos haviam feito.
-		Qualquer homem ou grupo de homens que, de forma deliberada ou sem
motivos suficientes, prolongasse um conflito terrvel como este carregaria na alma
um crime que nem mesmo todos os oceanos seriam capazes de lavar.
Um toque bblico, pensou Ethel: uma referncia ao ritual da lavagem dos pecados da Igreja Batista.
Mas ento, qual um pregador, o primeiro-ministro afirmou o contrrio:
-		Mas qualquer homem ou grupo de homens que, por cansao ou desespero,
abandonasse a luta sem que o objetivo maior que nos fez entrar nela houvesse
sido totalmente alcanado seria responsvel pelo mais oneroso ato de covardia
jamais perpetrado por qualquer chefe de Estado.
              Ansiosa, Ethel se remexeu na cadeira. Para que lado ele iria tender? Pensou na
Quarta-feira dos Telegramas em Aberowen, tornando a vislumbrar a expresso
de dor das famlias. Com certeza Lloyd George, mais do que qualquer outro poltico,
no permitiria que um sofrimento como aquele continuasse se pudesse evit-lo.
Caso contrrio, de que adiantaria estar na poltica?
George citou Abraham Lincoln:
-		Ns aceitamos essa guerra em nome de um objetivo, e de um objetivo digno,
e a guerra terminar quando ele for alcanado.

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Isso no era nada promissor. Ethel teve vontade de lhe perguntar que objetivo era esse. Woodrow Wilson tinha feito a mesma pergunta e ainda estava aguardando que fosse respondida. Ela, no entanto, continuou sem resposta. Lloyd George falou:
-		Existe alguma possibilidade de alcanarmos esse objetivo aceitando a proposta do chanceler alemo? Essa  a nica pergunta que devemos nos fazer.
Ethel sentiu-se frustrada. Como essa questo poderia ser discutida se ningum sabia qual era o objetivo da guerra?
Lloyd George ergueu a voz como um pregador prestes a se referir ao inferno:
-		Participar de uma conferncia a convite da Alemanha, que se proclama vitoriosa, sem termos a menor ideia de que propostas ela pretende fazer... - Ele ento fez uma pausa e correu os olhos pela Cmara, olhando primeiro para os liberais s suas costas e  sua direita e, em seguida, para os conservadores na bancada da oposio, do outro lado do recinto. - ... significa enlaar nosso prprio pescoo com a corda que a Alemanha tem nas mos!
Os membros do Parlamento soltaram um rugido de aprovao.
Ele estava rejeitando a proposta de paz.
Ao lado de Ethel, Gus Dewar enterrou o rosto nas mos.
-		E quanto a Alun Pritchard, morto na batalha do Somme? - perguntou Ethel em voz alta.
-		Silncio! - disse o funcionrio da Cmara.
Ethel se levantou.
-		Sargento Profeta Jones, morto! - gritou ela.
-		Fique quieta e sente-se, pelo amor de Deus! - falou Fitz.
L embaixo, na Cmara, Lloyd George continuava a falar, embora um ou dois parlamentares tivessem erguido os olhos para a galeria.
-		Clive Pugh! - gritou ela a plenos pulmes.
Dois funcionrios vieram na sua direo, um de cada lado.
-		Espinhento Llewellyn!
Eles a agarraram pelos braos e a levaram embora.
-		Joey Ponti! - berrou Ethel, e ento eles a arrastaram porta afora.

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CAPTULO VINTE E DOIS
Janeiro e fevereiro de 1917

Walter von Ulrich sonhou que estava em uma carruagem indo encontrar
Maud. Ao descer uma encosta, a carruagem comeou a acelerar perigosamente, sacolejando pela estrada irregular. "Mais devagar! Mais devagar!", gritou ele, porm o condutor no conseguia escut-lo por causa do barulho dos
cascos dos cavalos, que lembrava estranhamente o motor de um carro. Walter
estava apavorado com a possibilidade de a carruagem desembestada acabar
batendo e ele jamais chegar at Maud. Quando tentou novamente dizer ao condutor para ir mais devagar, o esforo de gritar o despertou.
    Na realidade, ele estava dentro de um carro, um Mercedes 37/95 Double
Phaeton, conduzido por um chofer, que percorria a baixa velocidade uma estrada acidentada na Silsia. Sentado ao seu lado, seu pai fumava um charuto. Eles
haviam deixado Berlim de manh bem cedo, ambos usando casacos de pele - o
carro no tinha capota -, e seguiam para o leste, rumo ao quartel-general do alto-
-comando.
    O sonho era fcil de interpretar. Os Aliados haviam rejeitado com desdm a
proposta de paz que Walter se esforara tanto para obter. Essa rejeio havia fortalecido as Foras Armadas alems, que desejavam reiniciar a guerra submarina
irrestrita e afundar todas as embarcaes que estivessem na zona de guerra, fossem elas militares ou civis, de passageiros ou de carga, inimigas ou neutras. Com
isso, pretendiam fazer a Gr-Bretanha e a Frana passarem fome e se renderem.
Os polticos, sobretudo o chanceler, temiam que esse fosse o caminho da derrota, pois provavelmente faria os Estados Unidos entrarem no conflito, contudo os
partidrios da guerra submarina estavam vencendo. O Kaiser havia demonstrado sua inclinao ao promover o beligerante Arthur Zimmermann a ministro
das Relaes Exteriores. E Walter havia sonhado com uma descida irrefrevel
ladeira abaixo rumo ao desastre.
    A seu ver, o maior perigo para a Alemanha eram os Estados Unidos. O objetivo da poltica externa alem deveria ser manter os americanos fora da guerra.
Era verdade que o bloqueio naval aliado estava fazendo a Alemanha passar fome.
Porm os russos no iriam aguentar muito mais e, quando capitulassem, a
Alemanha invadiria as regies abastadas do oeste e do sul do Imprio Russo, com
    
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suas vastas lavouras de milho e seus poos de petrleo inesgotveis. E, ento, todo o Exrcito alemo iria poder se concentrar na frente ocidental. Essa era a nica esperana.
Mas ser que o Kaiser veria isso?
A deciso final seria tomada naquele dia.
Uma luz fraca de inverno comeava a iluminar a zona rural, coberta de neve em alguns trechos. Walter se sentia um irresponsvel por estar to longe da linha de frente.
-		Eu j deveria ter voltado para o front h semanas - falou.
-		Est claro que o Exrcito quer voc na Alemanha - disse Otto. - Eles prezam seu trabalho como analista de informaes de inteligncia.
-		A Alemanha est cheia de homens mais velhos que poderiam fazer esse servio no mnimo to bem quanto eu. Foi o senhor quem arranjou isso?
Otto deu de ombros.
-		Imagino que, se voc se casasse e tivesse um filho, poderia ser transferido para onde quisesse.
-		O senhor est me mantendo em Berlim para me fazer casar com Monika von der Helbard? - perguntou Walter, incrdulo.
-		Eu no tenho poder para tanto. Mas talvez haja homens no alto-comando que compreendam a necessidade de preservarmos as linhagens da nobreza.
Isso era uma hipocrisia, e Walter estava prestes a protestar quando o carro saiu da estrada, atravessou um porto ornamentado e comeou a subir um longo acesso margeado por rvores sem folhas e gramados cobertos de neve. No final do acesso, havia uma casa imensa, a maior que Walter j vira na Alemanha.
-		Este  o Castelo Pless? - perguntou ele.
-		Exato.
-		 enorme.
-		Trezentos quartos.
Eles desceram do carro e adentraram um saguo do tamanho de uma estao ferroviria. As paredes estavam decoradas com cabeas de javali emolduradas de seda vermelha e uma escadaria de mrmore gigantesca conduzia aos sales do segundo piso. Walter havia passado metade da vida frequentando lugares esplndidos, mas aquele ali era excepcional.
Um general os abordou, e Walter reconheceu Von Henscher, um dos amigos de seu pai.
-		Os senhores ainda tm tempo para tomar um banho e passar uma escova nas roupas se forem rpidos. - falou o general, dirigindo-se a Otto em um tom

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urgente porm amistoso. - Esto sendo aguardados no salo de jantar daqui a 40 minutos. - Ele olhou para Walter. - Este deve ser o seu filho.
   -		Ele trabalha no departamento de inteligncia - respondeu Otto.
    Walter prestou uma rpida continncia.
   -		Eu sei. Pus o nome dele na lista. - O general se dirigiu a Walter. - O senhor conhece os Estados Unidos, no conhece?
   -		Passei trs anos em nossa embaixada em Washington, senhor.
   -		timo. Eu nunca estive nos Estados Unidos. Nem o seu pai. Nem, para falar a verdade, a maioria dos homens aqui presentes... com a notvel exceo do nosso novo ministro das Relaes Exteriores.
    Vinte anos antes, ao voltar para a Alemanha depois de uma viagem  China, Arthur Zimmermann havia passado pelos Estados Unidos, indo de trem de So Francisco a Nova York. Por conta dessa experincia, era considerado um especialista no pas. Walter no disse nada.
   -		Herr Zimmermann me pediu para consultar vocs em relao a um assunto - disse Von Henscher. Isso deixou Walter lisonjeado, mas tambm intrigado. Por que o novo ministro das Relaes Exteriores iria querer sua opinio? - Mas teremos mais tempo para isso depois. - Von Henscher acenou para um lacaio com um uniforme antiquado que os conduziu at um quarto de dormir.
    Meia hora mais tarde, os dois estavam na sala de jantar, transformada para a ocasio em salo de conferncias. Ao olhar em volta, Walter ficou admirado ao ver que quase todos os homens que tinham alguma importncia na Alemanha estavam presentes ali, incluindo o chanceler Theobald von Bethmann-Hollweg - que, aos 60 anos, j estava com os cabelos  escovinha quase totalmente brancos.
    A maioria dos comandantes militares de alto escalo da Alemanha estava sentada em volta de uma mesa comprida. Para os homens de menor vulto, como Walter, filas de cadeiras duras estavam dispostas contra a parede. Um ajudante distribuiu alguns exemplares de um memorando de 200 pginas. Walter espiou o documento por cima do ombro do pai. Viu diagramas indicando a tonelagem dos navios que entravam e saam dos portos britnicos, tabelas com o preo e a capacidade do transporte de carga, o valor calrico das refeies na Gr-Bretanha e at mesmo um clculo de quanta l era gasta na fabricao de uma saia.
    Depois de aguardarem duas horas, o Kaiser Guilherme entrou vestido com um uniforme de general. Todos se levantaram na mesma hora. Sua Majestade estava plido e parecia de mau humor. Faltavam apenas alguns dias para seu aniversrio. Como sempre, ele mantinha o brao esquerdo atrofiado imvel ao lado do corpo, para tentar disfar-lo. Walter achou difcil evocar o mesmo 
    
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sentimento de lealdade jubilosa que experimentara de forma to natural quando menino. J no conseguia fingir que o Kaiser era o sbio pai de seu povo. Era bvio demais que Guilherme II no passava de um homem comum, totalmente atropelado pelos acontecimentos. Incompetente, desnorteado e profundamente infeliz, era um argumento vivo contra a monarquia hereditria.
   O Kaiser correu os olhos pelos homens reunidos, meneando a cabea para um ou outro de seus preferidos, o que inclua Otto. Ento sentou-se e gesticulou para um homem de barba branca: Henning von Holtzendorff, chefe do Estado-Maior do Almirantado.
   O almirante tomou a palavra e ps-se a citar trechos de seu memorando: o nmero de submarinos que a Marinha poderia manter nos mares ao mesmo tempo, a tonelagem de carga necessria para a sobrevivncia dos Aliados e a velocidade com que seus adversrios poderiam substituir embarcaes afundadas.
  -		Calculo que possamos afundar 600 toneladas de carga por ms - disse ele.
   Estava fazendo uma apresentao impressionante, em que cada afirmao era
sustentada por um nmero. Para Walter, o nico motivo de desconfiana era justamente o fato de o almirante se mostrar to preciso e seguro: no era possvel que a guerra fosse to previsvel assim.
   Von Holtzendorff apontou para a mesa, indicando um documento amarrado com uma fita, provavelmente a ordem imperial para dar incio  guerra submarina irrestrita.
  -		Se Vossa Majestade aprovar meu plano hoje, eu garanto que os Aliados iro capitular daqui a exatos cinco meses. - Ele tornou a se sentar.
   O Kaiser olhou para o chanceler. Agora sim, pensou Walter, vamos ouvir uma avaliao mais realista. J fazia sete anos que Bethmann-Hollweg era chanceler e, ao contrrio do monarca, ele tinha noo da complexidade das relaes internacionais.
   Em tom pessimista, o chanceler falou sobre a entrada dos Estados Unidos na guerra e sobre os abundantes recursos norte-americanos em matria de contingente, suprimentos e dinheiro. Para balizar seu argumento, citou opinies de todos os alemes importantes que conheciam os Estados Unidos. No entanto, para decepo de Walter, parecia lhe faltar convico. Ele deveria achar que o Kaiser j havia se decidido. Estaria aquela reunio servindo apenas para ratificar uma deciso j tomada? A Alemanha estava mesmo condenada?
   A capacidade de ateno do Kaiser era pequena para qualquer um que discordasse dele e, enquanto Bethmann discursava, ele se remexia na cadeira, soltando grunhidos de impacincia e fazendo caretas desaprovadoras. O chanceler comeou a se mostrar indeciso:
   
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-		Se as autoridades militares considerarem a guerra submarina essencial, no cabe a mim contradiz-las. Mas, por outro lado...
Ele no chegou a completar a frase. Von Holtzendorff levantou-se com um pulo e o interrompeu:
-		Dou minha palavra de oficial naval que nenhum norte-americano pisar neste continente! - disse ele.
Mas que absurdo, pensou Walter. O que a palavra de oficial naval dele tinha a ver com o assunto? Aquilo, no entanto, funcionou melhor do que todas as suas estatsticas. O Kaiser ficou radiante e vrios outros homens menearam a cabea, aprovando.
Bethmann pareceu desistir. Seu corpo se afundou na cadeira, seu rosto relaxou e ele falou com voz derrotada:
-		Se o sucesso nos aguarda, devemos ir ao seu encontro.
O Kaiser gesticulou e Von Holtzendorff fez o documento preso pela fita deslizar pela mesa.
No, pensou Walter, no  possvel que ele v tomar essa deciso fatdica com base em uma argumentao to precria!
O Kaiser empunhou uma caneta e assinou: Guilherme Imperator Rex.
Ento pousou a caneta e se levantou.
Todos se puseram de p imediatamente.
Isso no pode ser o fim, pensou Walter.
O Kaiser saiu da sala. A tenso se dissipou e um burburinho irrompeu no recinto. Bethmann permaneceu sentado em seu lugar, com os olhos fixos na mesa. Parecia um homem condenado. Estava murmurando alguma coisa e Walter se aproximou para escutar. Era uma expresso em latim: Finis Germaniae - o fim dos alemes.
O general Von Henscher apareceu e disse a Otto:
-		Se quiser me acompanhar, podemos ter um almoo reservado. - Depois virou-se para Walter e falou: - Tambm est convidado, rapaz.
Ele os conduziu at uma sala contgua, onde estava servido um buf frio.
Como o Castelo Pless era uma das residncias do Kaiser, a comida ali era boa. Walter estava irritado e deprimido, porm, como todos na Alemanha, tambm estava faminto, de modo que fez uma montanha de frango frio, salada de batatas e po branco em seu prato.
-		A deciso de hoje j havia sido prevista pelo ministro das Relaes Exteriores Zimmermann - disse Von Henscher. - Ele quer saber o que podemos fazer para desencorajar os Estados Unidos a entrarem na guerra.

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A chance disso  pequena, pensou Walter. Se ns afundarmos os navios norte-americanos e afogarmos seus cidados, no vejo como abrandar a situao.
-		Ser que podemos, por exemplo - prosseguiu o general -, fomentar um movimento de protesto entre os um milho e trezentos mil americanos nascidos aqui na Alemanha?
Walter conteve um suspiro de irritao.
-		 claro que no - respondeu ele. - Isso  um conto de fadas idiota.
Seu pai o censurou com rispidez:
-		Veja bem como fala com seus superiores.
Von Henscher fez um gesto apaziguador.
-		Deixe o rapaz dizer o que pensa, Otto. Gostaria de ouvir a opinio sincera dele. Por que diz isso, major?
-		Essas pessoas no amam a nossa ptria - respondeu Walter. - Por que acha que foram embora daqui? Podem at comer wurst e tomar cerveja, mas so cidados americanos e iro lutar pelos Estados Unidos.
-		E as de origem irlandesa?
-		 a mesma coisa. Elas detestam os britnicos,  claro, mas quando nossos submarinos matarem americanos vo nos detestar ainda mais.
-		Como o presidente Wilson pode declarar guerra contra ns? - indagou Otto com irritao. - Ele acabou de ser reeleito por ser o homem que manteve os Estados Unidos fora do conflito!
Walter deu de ombros.
-		De certa forma, isso at facilita as coisas. O povo acreditar que ele no teve escolha.
-		O que poderia det-lo? - perguntou Von Henscher.
-		Oferecermos proteo aos navios de pases neutros...
-		Isso est fora de cogitao - interrompeu seu pai. - Guerra irrestrita significa guerra irrestrita. Era isso que a Marinha queria e foi isso que Sua Majestade lhes deu.
-		Se Wilson no se deixar influenciar por questes domsticas - disse Von Henscher ser que incidentes externos em seu prprio hemisfrio chamariam sua ateno? - Ele se virou para Otto. - No Mxico, por exemplo?
Otto sorriu, parecendo satisfeito.
-		O senhor est se lembrando do Ypiranga. Devo admitir que esse foi um pequeno triunfo de diplomacia agressiva.
Walter nunca havia compartilhado a alegria do pai em relao ao incidente com o carregamento de armas enviado pela Alemanha ao Mxico. Otto e seus

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amigos tinham humilhado o presidente Wilson - e talvez ainda viessem a se arrepender disso.
-		E qual  a situao hoje? - perguntou Von Henscher.
-		A maior parte do Exrcito norte-americano est no Mxico ou ento estacionada na fronteira - disse Walter. - Oficialmente, esto caando um criminoso chamado Pancho Villa, que vem agindo na regio. O presidente Carranza est indignado com essa violao de sua soberania territorial, mas no h muito que ele possa fazer.
-		Se ns o ajudssemos, isso mudaria alguma coisa?
Walter pensou um pouco. Esse tipo de estrepolia diplomtica lhe parecia arriscado, mas era seu dever responder s perguntas com a maior exatido possvel.
-		Os mexicanos acreditam que o Texas, o Novo Mxico e o Arizona foram roubados deles. Nutrem um sonho de recuperar esses territrios, mais ou menos como os franceses em relao  Alscia e  Lorena. O presidente Carranza talvez seja burro o suficiente para acreditar que isso  possvel.
-		De toda forma, a tentativa com certeza desviaria a ateno norte-americana da Europa! - interveio Otto com entusiasmo.
-		Por algum tempo - concordou Walter com relutncia. - No longo prazo, nossa interferncia poderia dar mais poder aos americanos que desejam entrar na guerra junto com os Aliados.
-		O que nos interessa  o curto prazo. Voc ouviu Von Holtzendorff: em cinco meses, nossos submarinos deixaro os Aliados de joelhos. Queremos apenas manter os americanos ocupados at l.
-		E o Japo? - perguntou Von Henscher. - Alguma chance de conseguirmos convencer os japoneses a atacarem o canal do Panam ou mesmo a Califrnia?
-		Falando de forma realista, no - respondeu Walter com firmeza. A conversa estava entrando cada vez mais no reino da fantasia.
Von Henscher, no entanto, insistiu:
-		Mesmo assim, essa simples ameaa poderia deixar mais soldados norte-americanos presos  Costa Oeste.
-		Sim, talvez.
Otto limpou os lbios de leve com o guardanapo.
-		Isso tudo  muito interessante, mas preciso ver se Sua Majestade precisa de mim - disse ele.
Os trs se levantaram. Walter falou:
-		General, se me permite um comentrio...
Seu pai deu um suspiro, mas Von Henscher respondeu:

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  -		Por favor.
  -		General, acho tudo isso muito perigoso. Se vazar a informao de que os lderes alemes cogitaram fomentar problemas no Mxico e incentivar um ataque japons  Califrnia, a opinio pblica norte-americana ficar to indignada que a declarao de guerra pode ocorrer bem antes do esperado, talvez imediatamente. Perdoe-me se eu estiver afirmando o bvio, mas precisamos manter essa conversa totalmente confidencial.
  -		Naturalmente - respondeu Von Henscher. Ento sorriu para Otto. - Seu pai e eu somos da velha guarda, mas ainda no desaprendemos tudo. Conte com a nossa discrio.
Fitz ficou contente que a proposta de paz alem tivesse sido rejeitada - e orgulhoso de sua participao no processo. Porm, quando tudo terminou, comeou a ter dvidas.
   Ficou pensando no assunto enquanto andava - ou melhor, enquanto mancava - pela Piccadilly na manh da quarta-feira, 17 de janeiro, a caminho de seu escritrio no Almirantado. As negociaes de paz teriam sido uma forma traioeira de a Alemanha consolidar seus ganhos, legitimando seu controle sobre a Blgica, o nordeste da Frana e partes da Rssia. Para a Gr-Bretanha, participar dessas negociaes teria sido o mesmo que reconhecer sua derrota. Mas eles ainda no haviam vencido.
   As palavras de Lloyd George sobre uma vitria por nocaute soavam bem nos jornais, mas qualquer pessoa sensata sabia que isso era um sonho impossvel. A guerra iria continuar, talvez por um ano, talvez por mais tempo. E, caso os americanos continuassem neutros, era possvel que no fim das contas tudo terminasse em negociaes de paz. E se ningum conseguisse vencer aquela guerra? Mais um milho de homens morreria a troco de nada. O pensamento que assombrava Fitz era que, no frigir dos ovos, Ethel poderia ter razo.
   E se a Gr-Bretanha perdesse? Haveria crise financeira, desemprego, pobreza. Os trabalhadores assumiriam a bandeira do pai de Ethel e diriam que nunca lhes foi permitido participar da discusso sobre a guerra. A raiva do povo contra seus governantes no teria limites. Protestos e passeatas se transformariam em revoltas. Fazia apenas pouco mais de um sculo que os parisienses tinham executado seu rei e grande parte da nobreza. Ser que os londrinos fariam a mesma coisa? Fitz se imaginou, algemado e descalo, transportado em uma carroa at o local
   
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da execuo, alvo de cusparadas e vaias da multido. Pior ainda: viu o mesmo acontecendo com Maud, com sua tia Herm, com Bea e Boy. Afastou esse pesadelo de seus pensamentos.
    Que temperamento o de Ethel, pensou ele com um misto de admirao e pesar. Tinha quase morrido de vergonha ao ver sua convidada ser expulsa da galeria durante o pronunciamento de Lloyd George, mas, ao mesmo tempo, aquilo o fizera se sentir ainda mais atrado por ela.
    Infelizmente, Ethel se voltara contra ele. Fitz a seguira at alcan-la no saguo principal da Cmara, onde ela o agredira, dizendo que a guerra seria prolongada por culpa dele e de gente da sua laia. Pela maneira como falou, era como se todos os soldados mortos na Frana tivessem sido abatidos por Fitz em pessoa.
    Aquele foi o fim de seus planos quanto  casa de Chelsea. Ele havia lhe mandado um ou dois recados, mas ela no respondera. Sua decepo foi grande. Quando pensava nas tardes deliciosas que os dois poderiam ter passado naquele ninho de amor, a frustrao o acometia como uma dor no peito.
    No entanto, ainda lhe restava algum consolo. Bea levara a srio sua reprimenda. Ela agora o recebia em seu quarto vestida com belas roupas de dormir, e lhe oferecia o corpo perfumado como na poca em que os dois eram recm-casados. Afinal de contas, ela era uma aristocrata bem-educada, que sabia para que servia uma esposa.
    Enquanto refletia sobre a princesa submissa e a ativista poltica irresistvel, o conde adentrou o antigo prdio do Almirantado e encontrou sobre sua mesa um telegrama alemo parcialmente decodificado.
    O cabealho dizia:
    Berlin zu Washington, W. 158. 16 de janeiro de 1917.
    Fitz olhou automaticamente para o p do texto para ver quem o assinava. O nome no final da mensagem era:
    Zimmermann.
    Isso despertou seu interesse. Era uma mensagem do ministro das Relaes Exteriores alemo para seu embaixador nos Estados Unidos. Fitz apanhou um lpis e traduziu o texto, inserindo rabiscos e pontos de interrogao nas partes em que os blocos de cdigo no haviam sido decifrados.
    Mensagem altamente secreta para informao pessoal de Sua Excelncia a ser entregue ao ministro imperial no (?Mxico?) com xxxxpor rota segura.
    Os pontos de interrogao indicavam um bloco de cdigos cujo significado era incerto. Os decodificadores estavam arriscando um palpite. Se estivessem
    
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certos, aquela era uma mensagem para o embaixador alemo no Mxico. Ela estava apenas sendo enviada por intermdio da embaixada em Washington.
Mxico, pensou Fitz. Que estranho.
A frase seguinte estava totalmente decodificada.
Propomos iniciar guerra submarina irrestrita em 1 de fevereiro.
-		Meu Deus! - disse Fitz em voz alta. Aquilo j era temido, mas estava diante de uma prova concreta e com uma data ainda por cima! A notcia cairia como uma bomba na Sala 40.
Ainda assim tentaremos manter os Estados Unidos neutros xxxx. Caso contrrio propomos ao (?Mxico?) uma aliana sob as seguintes condies: conduzir a guerra, selar a paz.
-		Uma aliana com o Mxico? - disse Fitz para si mesmo. - Isso  muito srio. Os americanos vo ficar possessos!
Sua Excelncia deve por enquanto informar o presidente em segredo sobre a guerra com os EUA xxxx e ao mesmo tempo servir de intermedirio entre ns e o Japo xxxx nossos submarinos foraro a Inglaterra a selar a paz dentro de alguns meses. Acusar recebimento.
Fitz ergueu o rosto e se deparou com o olhar do jovem Carver, percebendo agora que ele mal conseguia conter o entusiasmo.
-		O senhor deve estar lendo a mensagem de Zimmermann que ns interceptamos - disse o subtenente.
-		Na medida do possvel - respondeu Fitz com tranquilidade. Estava to eufrico quanto Carver, mas sabia esconder melhor. - Por que a decodificao est to incompleta?
-		 um cdigo novo que ainda no quebramos completamente. Mesmo assim, a mensagem  quente, o senhor no acha?
Fitz tornou a examinar sua traduo. Carver no estava exagerando. Aquilo parecia uma tentativa de fazer o Mxico se aliar  Alemanha contra os Estados Unidos. Era sensacional.
Poderia at deixar o presidente norte-americano furioso o suficiente para declarar guerra  Alemanha.
O corao de Fitz disparou.
-		Acho - disse ele. - E vou lev-la agora mesmo para Hall Piscadela. - O capito William Reginald Hall, diretor do servio de inteligncia da Marinha, tinha um cacoete facial crnico, da o apelido; mas no havia nada de errado com o crebro dele. - Ele vai fazer perguntas e preciso ter algumas respostas prontas. Quais so as chances de termos uma decodificao completa?

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-		Vamos precisar de vrias semanas para dominar o novo cdigo.
Fitz soltou um grunhido de irritao. A reconstruo de novos cdigos a partir de seus princpios bsicos era um trabalho rduo que no podia ser apressado.
Carver continuou:
-		Mas estou vendo que a mensagem vai ser encaminhada de Washington para o Mxico. Nessa rota, eles ainda esto usando um cdigo diplomtico antigo que ns quebramos mais de um ano atrs. Talvez possamos conseguir uma cpia do telegrama encaminhado, no?
-		Sim,  possvel! - disse Fitz com animao. - Temos um agente no escritrio telegrfico da Cidade do Mxico. - Ele pensou nas consequncias. - Quando revelarmos isso para o mundo...
-		No podemos fazer isso - falou Carver, aflito.
-		Por que no?
-		Os alemes saberiam que estamos lendo as mensagens deles.
Fitz viu que ele estava certo. Este era o eterno dilema do servio secreto: como usar as informaes obtidas sem comprometer a fonte.
-		Mas isso  to importante que talvez valha a pena correr o risco.
-		Duvido. Este departamento j forneceu informaes confiveis demais. Eles no vo se arriscar a perder isso.
-		Droga! No  possvel que vamos encontrar algo assim e ficar de mos atadas.
Carver deu de ombros.
-		Na nossa rea, acontece.
Fitz no estava disposto a aceitar uma coisa dessas. A entrada dos Estados Unidos no conflito poderia significar a vitria. Isso com certeza valeria qualquer sacrifcio. Mas ele conhecia as Foras Armadas bem o suficiente para saber que alguns homens demonstrariam mais coragem e disposio para defender um departamento do que uma fortaleza. Era preciso levar a srio a objeo de Carver.
-		Precisamos de uma cortina de fumaa - disse ele.
-		Podemos dizer que os americanos interceptaram o telegrama - sugeriu Carver.
Fitz aquiesceu.
-		A mensagem vai ser encaminhada de Washington para o Mxico, ento poderamos dizer que o governo norte-americano a recebeu da Western Union.
-		Talvez a Western Union no goste muito disso...
-		Eles que se danem. A questo  a seguinte: como poderemos aproveitar ao mximo essa informao? Ser que nosso governo deve divulg-la? Ou ser que devemos entreg-la aos americanos? Ou quem sabe no seria melhor arranjarmos um terceiro elemento para confrontar os alemes?

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   Carver ergueu as duas mos, como se estivesse se rendendo.
  -		Isso foge da minha alada.
  -		Mas no da minha - disse Fitz, subitamente inspirado. - E eu conheo a pessoa certa para nos ajudar.
Fitz encontrou Gus Dewar em um pub do sul de Londres chamado The Ring.
   Para sua surpresa, Dewar era f de boxe. Quando adolescente, ele frequentava um ringue  beira do lago em Buffalo e, em suas viagens pela Europa no ano de 1914, havia assistido a lutas em todas as capitais do continente. Mas era discreto quanto  sua paixo, pensou Fitz com ironia. O boxe no era um assunto muito popular nas rodas de ch de Mayfair.
   No entanto, todas as classes sociais estavam representadas no The Ring. Cavalheiros vestidos a rigor se misturavam com estivadores de casaco rasgado. Bookmakers anotavam apostas em todos os cantos, enquanto garons traziam bandejas abarrotadas de pints de cerveja. O ar estava carregado com a fumaa dos charutos, cachimbos e cigarros. No havia lugares para sentar, nem mulheres.
   Fitz encontrou Gus em uma conversa acalorada com um londrino de nariz quebrado, discutindo sobre o lutador americano Jack Johnson, o primeiro negro a conquistar o ttulo mundial de pesos pesados, cujo casamento com uma branca fizera pastores cristos pedirem seu linchamento. O londrino havia irritado Gus ao concordar com os religiosos.
   Fitz nutria uma esperana secreta de que Gus se apaixonasse por Maud. Eles formariam um belo casal. Os dois eram intelectuais, liberais, levavam tudo assustadoramente a srio e viviam lendo livros. A famlia Dewar era fruto do que os americanos chamavam de Old Money, "dinheiro antigo" - a coisa mais prxima de uma aristocracia que os Estados Unidos possuam.
   Alm disso, tanto Gus quanto Maud eram a favor da paz. Por mais que Fitz no fizesse a menor ideia do motivo, Maud sempre havia defendido de forma ardorosa o fim da guerra. E Gus idolatrava seu patro Woodrow Wilson, que fizera um pronunciamento no ms anterior conclamando a uma "paz sem vencedores", expresso que havia enfurecido Fitz e boa parte das lideranas britnica e francesa.
   Mas a afinidade que Fitz detectara entre Gus e Maud no havia levado a nada. Fitz amava a irm, mas se perguntava o que haveria de errado com ela. Ser que Maud queria terminar como uma solteirona?
   
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   Depois de conseguir afastar Gus do homem de nariz quebrado, Fitz puxou o assunto do Mxico.
  -		Isso est uma confuso s - disse Gus. - Para tentar agradar ao presidente Carranza, Wilson chamou de volta o general Pershing e seus soldados, mas no adiantou nada... Carranza no quer nem ouvir falar em policiar a fronteira. Por que a pergunta?
  -		Depois eu conto - respondeu Fitz. - A prxima luta vai comear.
   Enquanto eles assistiam a um lutador chamado Benny, o Judeu dar uma surra
em Albert Careca Collins, Fitz decidiu evitar o assunto da proposta de paz alem. Sabia que o americano estava inconsolvel com o fracasso da iniciativa de Wilson. Gus vivia se perguntando se poderia ter conduzido melhor a situao, ou feito algo mais para apoiar o plano do presidente. Fitz achava que aquela estratgia estivera fadada ao fracasso desde o incio, porque, na verdade, nenhum dos dois lados queria a paz.
   No terceiro assalto, Albert Careca foi  lona e no se levantou mais.
  -		Voc quase no me pega aqui - disse Gus. - Vou partir em breve.
  -		Est ansioso para voltar para casa?
  -		Sim, se  que vou conseguir chegar l. Posso ser afundado por um submarino alemo no meio do caminho.
   Os alemes haviam reiniciado a guerra submarina irrestrita no dia 1 de fevereiro, exatamente como previa a mensagem interceptada de Zimmermann. Isso deixara os americanos irritados, mas no tanto quanto Fitz esperava.
  -		A reao do presidente Wilson ao anncio da guerra submarina foi surpreendentemente branda - comentou ele.
  -		Ele rompeu relaes diplomticas com a Alemanha. No tem nada de brando nisso.
  -		Mas no declarou guerra - comentou Fitz.
   Ele ficara arrasado. Havia lutado com afinco contra as negociaes de paz, porm Maud, Ethel e seus amigos pacifistas tinham razo quando diziam no haver esperana de vitria em um futuro prximo - pelo menos, no sem ajuda externa. Fitz tinha certeza de que a guerra submarina irrestrita faria os americanos entrarem no conflito. Mas, at ento, isso no havia acontecido.
  -		Para ser franco - disse Gus -, eu acho que o presidente Wilson ficou furioso com a deciso alem e agora est pronto para declarar guerra. Pelo amor de Deus, ele j tentou de tudo. Mas foi reeleito por ser o homem que nos manteve fora do conflito. S h um jeito de mudar isso: ser levado  guerra por uma onda irresistvel de apelo popular.
   
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-		Nesse caso - disse Fitz acho que tenho algo capaz de ajud-lo.
Gus arqueou uma sobrancelha.
-		Desde que fui ferido, venho trabalhando em uma unidade que decodifica mensagens telegrficas alems interceptadas.
Fitz tirou do bolso uma folha de papel coberta com a prpria caligrafia.
-		Seu governo vai receber isto aqui oficialmente nos prximos dias. Estou lhe mostrando agora porque precisamos de conselhos sobre como proceder. - Ele entregou o papel a Gus.
O espio britnico na Cidade do Mxico havia conseguido interceptar a mensagem retransmitida no cdigo antigo, de modo que o papel entregue a Gus era uma decodificao completa da mensagem de Zimmermann. O texto, na ntegra, dizia:
De Washington para Mxico, 19 de janeiro de 1917
Pretendemos iniciar guerra submarina irrestrita em 1 de fevereiro. Apesar disso, nos esforaremos para manter os EUA neutros. Caso no tenhamos sucesso, faremos ao Mxico uma proposta de aliana sob as seguintes condies:
Travar a guerra juntos.
Selar a paz juntos.
Apoio financeiro generoso e um compromisso de nossa parte de que o Mxico ir reconquistar os territrios perdidos do Texas, Novo Mxico e Arizona. Deixamos os detalhes da ocupao por sua conta.
O senhor informar o presidente sobre esta questo da maneira mais confidencial possvel assim que a guerra contra os EUA estiver iminente, acrescentando a sugesto de que ele, por iniciativa prpria, deve convidar o Japo a aderir de imediato e, ao mesmo tempo, servir de mediador entre o Japo e nosso pas.
Queira, por favor, chamar a ateno do presidente para o fato de que a utilizao implacvel de nossos submarinos traz a perspectiva de obrigarmos a Inglaterra a selar a paz daqui a poucos meses.
Gus leu algumas linhas, segurando o papel junto aos olhos por causa da luz fraca do ringue, e disse:
-		Uma aliana? Meu Deus!
Fitz olhou em volta. Uma nova luta havia comeado e o barulho da multido estava alto demais para que algum conseguisse escutar Gus.
O americano continuou lendo.
-		Reconquistar o Texas? - disse ele, incrdulo. E ento, assumindo um tom raivoso: - Convidar o Japo? - Ele ergueu os olhos do papel. - Isto aqui  um acinte!

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Era a reao que Fitz esperava, e ele teve de reprimir o prprio entusiasmo.
-		Acinte  a palavra certa - falou com uma solenidade forada.
-		Os alemes esto se propondo a pagar ao Mxico para invadir os Estados Unidos!
-		Exato.
-		E esto pedindo que o Mxico tente conseguir a ajuda do Japo!
-		Exato.
-		Quero s ver quando isso vazar!
-		 sobre isso que gostaria de conversar com voc. Ns queremos ter certeza de que a mensagem ser divulgada de forma favorvel ao seu presidente.
-		Por que o governo britnico simplesmente no a revela ao mundo?
Gus no tinha parado para pensar no assunto.
-		Por dois motivos - respondeu Fitz. - Em primeiro lugar, no queremos que os alemes saibam que estamos lendo as mensagens deles. Em segundo, podemos ser acusados de ter forjado este telegrama.
Gus aquiesceu.
-		Me perdoe. Fiquei to irritado que nem estava conseguindo raciocinar. Vamos analisar isso friamente.
-		Se possvel, ns gostaramos que vocs dissessem que o governo norte-americano conseguiu uma cpia do telegrama por meio da Western Union.
-		Wilson no vai mentir.
-		Ento consigam uma cpia com a Western Union, assim no vai ser mentira.
Gus aquiesceu.
-		Isso deve ser possvel. Quanto ao segundo problema, quem poderia divulgar a mensagem sem levantar suspeitas de falsificao?
-		O prprio presidente, imagino.
-		 uma possibilidade.
-		Mas voc tem outra ideia melhor? - perguntou Fitz.
-		Tenho - respondeu Gus, pensativo. - Acho que tenho.
Ethel e Bernie se casaram no Salo do Evangelho do Calvrio. Nenhum dos dois dava muita importncia para religio e ambos gostavam do pastor de l.
Ethel no falava com Fitz desde o dia do pronunciamento de Lloyd George. A oposio pblica do conde  paz havia sido para ela um duro lembrete de seu verdadeiro carter. Ele representava tudo o que ela odiava: tradio, conservadorismo

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, explorao da classe trabalhadora, riqueza imerecida. Jamais poderia ser amante de um homem assim e sentiu vergonha de si mesma por sequer ficar tentada pela casa de Chelsea. Sua verdadeira alma gmea era Bernie.
   Ethel usou o mesmo vestido de seda cor-de-rosa que Walter von Ulrich lhe dera de presente para o casamento de Maud. No havia mocinhas para serem damas de honra, de modo que Mildred e Maud cumpriram a funo, apesar da idade. Os pais de Ethel vieram de Aberowen de trem. Infelizmente, Billy estava na Frana e no conseguiu licena. O pequeno Lloyd usou uma roupa de pajem que Mildred havia costurado especialmente para ele - azul-celeste, com botes de lato e uma pequena boina.
   Bernie surpreendeu Ethel ao convidar uma famlia da qual ningum ouvira falar. Sua me idosa, que s falava idiche, passou a cerimnia inteira murmurando coisas ininteligveis. Ela morava com o irmo mais velho de Bernie, o bem-sucedido Theo, que - como Mildred descobriu ao flertar com ele - era dono de uma fbrica de bicicletas em Birmingham.
   Aps a cerimnia, um ch com bolos foi servido no salo. No houve bebidas alcolicas, o que agradou Da e Mam, e os fumantes tiveram que sair para acender seus cigarros. Mam beijou Ethel e disse:
   - Que alegria ver voc com a vida resolvida, apesar de tudo. - A expresso apesar de tudo tinha um grande peso, pensou Ethel. Significava: "Parabns, embora voc seja uma mulher perdida com um filho ilegtimo de pai desconhecido e esteja se casando com um judeu, alm de morar em Londres, o que d no mesmo que morar em Sodoma e Gomorra." Ainda assim, Ethel aceitou a bno de Mam - e jurou nunca dizer coisa parecida a um filho seu.
   Mam e Da haviam comprado passagens baratas de ida e volta para o mesmo dia, ento foram pegar o trem. Quando a maioria dos convidados j havia ido embora, os que tinham ficado saram para tomar um drinque no Dog and Duck.
   Ethel e Bernie voltaram para casa na hora de Lloyd dormir. Pela manh, Bernie havia empilhado suas poucas roupas e muitos livros em um carrinho de mo e o empurrara da penso onde morava at a casa de Ethel.
   Para que tivessem uma noite a ss, eles puseram Lloyd para dormir no andar de cima, com as filhas de Mildred, o que Lloyd considerou um agrado e tanto. Em seguida, Ethel e Bernie tomaram um chocolate quente na cozinha e foram para a cama.
   Ethel estava usando uma camisola nova. Bernie vestia um pijama limpo. Ao entrar na cama ao lado da mulher, comeou a suar de nervosismo. Ethel acariciou-lhe o rosto.
   
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-		Embora eu seja uma mulher desonrada, no tenho muita experincia - disse ela. - S meu primeiro marido e, mesmo assim, apenas nas poucas semanas antes de ele ir embora. - Ethel no havia contado a Bernie sobre Fitz, e jamais contaria. Apenas Billy e o advogado Albert Solman conheciam a verdade.
-		J  mais do que eu - disse Bernie, mas ela podia sentir que ele estava comeando a relaxar. - S tive umas poucas experincias.
-		Como se chamavam as moas?
-		Ah, nem queira saber.
Ela sorriu.
-		Quero, sim. Quantas foram? Seis? Dez? Vinte?
-		Meu Deus, no! Foram trs. A primeira foi Rachel Wright, na escola. Depois ela me disse que precisaramos nos casar, e eu acreditei. Quase morri de preocupao.
Ethel deu uma risadinha.
-		O que houve?
-		Na semana seguinte, ela foi para a cama com Micky Armstrong e eu me safei.
-		Foi bom com ela?
-		Acho que foi. Eu tinha s 16 anos. Tudo o que eu queria, no fundo, era poder dizer que no era mais virgem.
Ela o beijou com delicadeza, ento perguntou:
-		E depois, quem foi?
-		Carol McAllister. Ela era minha vizinha. Eu lhe paguei um xelim. Foi meio rpido... acho que ela sabia o que fazer e dizer para que terminasse depressa. Na verdade, pegar o dinheiro era a parte favorita dela.
Ethel fez uma careta de reprovao, ento se lembrou da casa em Chelsea e percebeu que havia cogitado fazer o mesmo que Carol McAllister. Constrangida, perguntou:
-		E quem foi a outra?
-		Uma mulher mais velha. Ela era minha senhoria. Vinha para a minha cama  noite quando o marido estava fora.
-		E era bom com ela?
-		Era timo. Foi um perodo feliz para mim.
-		E o que deu errado?
-		O marido comeou a desconfiar e eu tive que ir embora.
-		E depois?
-		Depois conheci voc e perdi todo o interesse pelas outras mulheres.
Os dois comearam a se beijar. Dali a pouco, ele ergueu sua camisola e cobriu

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o corpo dela com o seu. Mostrou-se delicado, preocupado em no machuc-la, mas penetrou-a com facilidade. Ethel sentiu uma onda de afeto por ele, por sua gentileza, por sua inteligncia e pela devoo que nutria por ela e por seu filho. Enlaou-o com os braos, apertando o corpo dele contra o seu. O orgasmo de Bernie no demorou a vir. Ento, satisfeitos, os dois adormeceram.
Gus Dewar percebeu que as saias das mulheres haviam mudado. Agora, deixavam aparecer os tornozelos. Dez anos antes, a viso de um tornozelo era algo excitante; hoje em dia, era corriqueiro. Talvez as mulheres cobrissem a sua nudez para ficarem mais sedutoras, no menos.
   Rosa Hellman usava um casaco vermelho-escuro elegante, com pregas que desciam pelas costas. O casaco era enfeitado com a pele preta de algum animal, o que ele imaginava vir a calhar em Washington no ms de fevereiro. Seu chapu cinza era pequeno e redondo, adornado por uma fita vermelha e uma pena - no muito prtico, mas desde quando os chapus das americanas eram feitos para serem prticos?
  -		Fico honrada com este convite - disse ela. Gus ficou na dvida se ela estava zombando dele ou no. - Voc acabou de voltar da Europa, no foi?
   Os dois foram almoar no salo do Hotel Willard, dois quarteires a leste da Casa Branca. Gus a havia convidado por um motivo especfico.
  -		Eu tenho uma matria para voc - disse ele assim que pediram a comida.
  -		Ah, que timo! Deixe-me adivinhar. O presidente vai pedir divrcio de Edith para se casar com Mary Peck?
   Gus fechou o rosto. Wilson tivera um caso com Mary Peck enquanto era casado com a primeira mulher. Ele duvidava que os dois houvessem de fato cometido adultrio, mas Wilson tivera a ingenuidade de escrever cartas para Mary demonstrando mais afeio do que o adequado. Todos os fofoqueiros de Washington conheciam essa histria, mas os jornais nunca haviam publicado nada a respeito.
  -		Estou falando de coisa sria - disse Gus com gravidade.
  -		Ah, desculpe - disse Rosa. Ela imprimiu ao rosto uma expresso solene que fez Gus ter vontade de rir.
  -		A nica condio ser que voc no pode dizer que obteve a informao da Casa Branca.
  -		Combinado.
   
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-		Vou lhe mostrar um telegrama do ministro das Relaes Exteriores da Alemanha, Arthur Zimmermann, para o embaixador alemo no Mxico.
Ela fez cara de espanto.
-		Onde voc conseguiu isso?
-		Por meio da Western Union - mentiu ele.
-		No est codificado?
-		Cdigos podem ser quebrados. - Ele lhe entregou uma cpia datilografada da traduo completa para o ingls.
-		Esta conversa  em off?
-		No. A nica coisa que no quero que voc divulgue  onde conseguiu o telegrama.
-		Tudo bem. - Ela comeou a ler. Em poucos instantes, seu queixo caiu. Ela ergueu os olhos. - Gus, isto aqui  pra valer? - perguntou.
-		Eu por acaso sou homem de fazer brincadeiras?
-		No, nunca foi. - Ela prosseguiu a leitura. - Os alemes vo pagar ao Mxico para invadir o Texas?
-		 o que diz Herr Zimmermann.
-		Gus, isto aqui no  uma simples matria...  o furo do sculo!
Ele se permitiu um leve sorriso, tentando no parecer to triunfante quanto se sentia.
-		Foi justamente o que achei que voc fosse dizer.
-		Voc est agindo por conta prpria ou a mando do presidente?
-		Rosa, voc acha que eu faria uma coisa dessas sem aprovao da mais alta instncia?
-		Imagino que no. Nossa! Ento isso est vindo para mim direto do presidente Wilson.
-		No oficialmente.
-		Mas como posso saber se  verdade? No me parece que eu possa escrever a matria com base apenas em um pedao de papel e na sua palavra.
Gus j esperava por esse percalo.
-		O secretrio de Estado Lansing vai confirmar pessoalmente a autenticidade do telegrama para o seu chefe, contanto que a conversa permanea confidencial.
-		 o suficiente. - Ela tornou a baixar os olhos para o pedao de papel. - Isso muda tudo. Voc pode imaginar o que o povo americano vai dizer quando ler esta mensagem?
-		Imagino que eles vo ficar mais inclinados a entrar na guerra e lutar contra a Alemanha.

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-		Inclinados? - repetiu ela. - Eles vo espumar de raiva! Wilson vai ser obrigado a declarar guerra.
Gus ficou calado.
Depois de alguns instantes, Rosa interpretou seu silncio.
-		Ah, entendo.  por isso que vocs esto divulgando o telegrama. O presidente quer declarar guerra.
Ela havia acertado na mosca. Gus sorriu, apreciando aquele embate de intelectos com uma mulher to brilhante.
-		Eu no estou dizendo isso.
-		Mas este telegrama vai enfurecer o povo americano de tal forma que ele vai exigir a guerra. E Wilson poder dizer que no descumpriu as promessas de campanha, mas sim que foi forado pela opinio pblica a mudar de poltica.
Rosa, na verdade, era um pouco inteligente demais para o que ele pretendia.
-		No  essa a matria que voc vai escrever, ? - perguntou ele, aflito.
Ela sorriu.
-		Ah, no.  s que eu me recuso a engolir qualquer coisa sem questionar. J fui anarquista, lembra?
-		E agora?
-		Agora sou reprter. E s existe um jeito de escrever essa matria.
Ele ficou aliviado.
O garom trouxe a comida: salmo poch para ela, fil com pur de batatas para ele. Rosa se levantou.
-		Tenho que voltar para a redao.
Gus ficou surpreso.
-		E o seu almoo?
-		Est falando srio? - disse ela. - No vou conseguir comer. Voc no entende o que fez?
Ele achava que sim, mas falou:
-		Diga para mim.
-		Acabou de mandar os Estados Unidos para a guerra.
Gus aquiesceu.
-		Eu sei. Agora, v escrever a matria.
-		Irei - disse ela. - Obrigada por ter me escolhido.
Em instantes, j havia ido embora.

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CAPTULO VINTE E TRS
Maro de 1917

Foi um inverno de frio e fome em Petrogrado. O termmetro do lado de fora
do quartel do Primeiro Regimento de Metralhadoras passou um ms inteiro
marcando -15C. Os padeiros pararam de assar tortas, bolos, pastis e qualquer
outra coisa que no fosse po, mas mesmo assim no havia farinha suficiente.
Guardas armados vigiavam a porta da cozinha do quartel, pois muitos soldados
tentavam implorar por mais comida ou ento roub-la.
   Em um dia muito frio no incio de maro, Grigori teve uma tarde de folga e
resolveu ir visitar Vladimir, que devia estar com a senhoria enquanto Katerina trabalhava. Vestiu seu sobretudo militar e saiu andando pelas ruas geladas da cidade.
Na Nevsky Prospekt, cruzou olhares com uma criana pedinte, uma menina de
seus 9 anos, parada em uma esquina sob um vento rtico. Algo nela o incomodou,
e ele fechou o rosto ao passar. Logo em seguida, percebeu o que o intrigara. O olhar
que a menina havia lhe lanado era um convite ao sexo. Ele ficou to chocado que
parou de andar no ato. Como ela podia ser uma puta naquela idade? Ele se virou
com o intuito de question-la, mas a criana tinha desaparecido.
   Seguiu em frente, atormentado. Sabia,  claro, que alguns homens buscavam
sexo com crianas: aprendera isso quando ele e Lev tinham ido pedir ajuda a um
padre, muitos anos antes. No entanto, por algum motivo, a imagem daquela
menina de 9 anos fazendo um pattico arremedo de sorriso provocante deixou
seu corao apertado. Aquilo lhe deu vontade de chorar por seu pas. Ns estamos transformando nossas crianas em prostitutas, pensou, o que pode ser pior
do que isso?
   Quando chegou a sua antiga casa, estava taciturno. Assim que entrou, ouviu
Vladimir aos prantos. Subiu at o quarto de Katerina e encontrou o menino sozinho,
com o rosto vermelho e contorcido pelo choro. Pegou-o no colo e ps-se a nin-lo.
   O quarto estava limpo, arrumado e tinha o cheiro de Katerina. Grigori ia at
l quase todos os domingos. Eles tinham uma rotina: saam para um passeio
matinal, depois voltavam para casa e preparavam o almoo com a comida que
Grigori trazia do quartel, quando ele conseguia arranj-la. Ento, enquanto
Vladimir tirava sua soneca, os dois faziam amor. Aos domingos, quando havia
comida suficiente, Grigori era imensamente feliz naquele quarto.
   
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Os berros de Vladimir se transformaram em um choramingo contnuo de irritao. Com o menino nos braos, Grigori saiu  procura da senhoria, que teoricamente deveria estar cuidando da criana. Encontrou-a na lavanderia, um anexo rebaixado que havia nos fundos da casa, passando lenis molhados por um espremedor de roupas. Era uma mulher de uns 50 anos, com os cabelos grisalhos presos por um leno. Em 1914, quando Grigori havia entrado para o Exrcito, ela era rechonchuda, mas agora tinha o pescoo descarnado e uma papada flcida. At mesmo as senhorias estavam passando fome.
Quando o viu, a mulher assumiu uma expresso de espanto e culpa.
-		A senhora no ouviu o menino chorando? - perguntou Grigori.
-		No posso ficar ninando essa criana o dia inteiro - respondeu ela, na defensiva, continuando a girar a manivela do espremedor.
-		Talvez ele esteja com fome.
-		Ele j tomou seu leite - falou ela depressa. Aquela resposta rpida pareceu suspeita, e Grigori imaginou que ela prpria deveria ter tomado o leite. Teve vontade de esgan-la.
No ar frio da lavanderia sem aquecimento, ele sentiu que a pele macia de beb de Vladimir estava irradiando calor.
-		Acho que ele est com febre - falou. - A senhora no percebeu que ele estava quente?
-		Eu agora tambm sou mdica?
Vladimir parou de chorar e caiu em um estado de prostrao que Grigori achou ainda mais preocupante. Normalmente era um menino esperto, agitado, curioso e at um pouco destrutivo, mas agora estava imvel no colo de Grigori, com o rosto corado e os olhos vidrados.
Grigori tornou a coloc-lo na cama, no canto do quarto de Katerina. Pegou uma jarra na estante dela, saiu de casa e foi correndo at a rua ao lado, onde havia um armazm. Comprou leite, um pouco de acar em um embrulho de papel e uma ma.
Quando voltou, Vladimir estava igual.
Aqueceu o leite, dissolveu o acar nele e adicionou um pouco de casca de po dormido. Ento, molhou pedaos do po na mistura e os deu para Vladimir. Lembrava-se de que a me costumava dar isso a Lev quando seu irmo era beb e adoecia. Vladimir comeu como se estivesse faminto e com sede.
Quando o po e o leite acabaram, Grigori pegou a ma. Usando seu canivete, cortou-a em gomos e descascou um deles. Comeu a casca e estendeu o resto para Vladimir, dizendo:
-		Um pouco para mim, um pouco para voc. - Antigamente, o menino achava

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a brincadeira divertida, mas desta vez se mostrou indiferente, deixando a ma
cair de sua boca.
No havia nenhum mdico na regio e, de qualquer forma, Grigori no tinha
dinheiro para uma consulta, porm uma parteira morava a algumas ruas dali.
Era Magda, a bonita mulher de seu velho amigo Konstantin, representante da
Metalrgica Putilov no Comit Bolchevique. Grigori e Konstantin jogavam
xadrez sempre que podiam - em geral, quem ganhava era Grigori.
Ele ps uma fralda limpa em Vladimir e ento enrolou o menino no cobertor
da cama de Katerina, deixando apenas os olhos e o nariz de fora. Os dois saram
para o frio.
Konstantin e Magda moravam em um apartamento de dois cmodos junto com
a tia de Magda, que cuidava de seus trs filhos pequenos. Grigori temia que Magda
estivesse fora, fazendo o parto de algum beb, mas por sorte a encontrou em casa.
Magda era experiente e bondosa, ainda que um pouco rude. Levou a mo 
testa de Vladimir e disse:
-		Ele est com uma infeco.
-		 grave?
-		Ele est tossindo?
-		No.
-		Como esto as fezes?
-		Moles.
Ela tirou as roupas de Vladimir e disse:
-		Imagino que os seios de Katerina estejam sem leite.
-		Como voc adivinhou? - perguntou Grigori, surpreso.
-		 comum. Uma mulher s pode dar de comer ao filho se ela prpria estiver
comendo. Nada surge do nada.  por isso que o menino est to magrinho.
Grigori no sabia que Vladimir estava magro.
Magda cutucou a barriga de Vladimir e ele chorou.
-		Infeco intestinal - disse ela.
-		Ele vai ficar bem?
-		 bem provvel que sim. Crianas pegam infeces o tempo todo. Geralmente,
elas sobrevivem.
-		O que ns podemos fazer?
-		Molhe a testa dele com gua morna para fazer a febre baixar. D muita gua
para ele, quanto ele quiser. No se preocupe se ele no comer. Faa Katerina
comer, para ela poder lhe dar o peito. Leite materno,  disso que ele precisa.
Grigori levou Vladimir para casa. No caminho, comprou mais leite, que 

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aqueceu no braseiro. Deu o leite a Vladimir com uma colher e o menino bebeu tudo. Ele ento esquentou uma panela com gua e lavou o rosto do menino com um pano. Pareceu dar certo: o beb perdeu o aspecto corado, de olhos vidrados, e comeou a respirar normalmente.
   s sete e meia, quando Katerina chegou, Grigori j estava menos aflito. Ela parecia cansada e com frio. Havia comprado um repolho e alguns gramas de banha de porco e Grigori os colocou em uma frigideira para fazer um ensopado enquanto ela descansava. Contou-lhe sobre a febre de Vladimir, sobre a senhoria negligente e sobre as recomendaes de Magda.
  -		O que eu posso fazer? - perguntou Katerina, desesperada e exausta. - Tenho que ir para a fbrica. No tem mais ningum para cuidar de Volodya.
   Grigori deu um pouco de caldo do ensopado ao menino e ento o colocou para dormir. Depois de comerem, Grigori e Katerina foram se deitar juntos na cama.
  -		No me deixe dormir demais - falou Katerina. - Tenho que entrar na fila do po.
  -		Deixe que eu vou - disse Grigori. - Fique aqui e descanse. - Ele chegaria atrasado ao quartel, mas provavelmente conseguiria se safar: ultimamente, os oficiais estavam temerosos demais de um motim para criar caso por conta de transgresses sem importncia.
   Katerina no se fez de rogada e caiu em um sono profundo.
   Quando Grigori ouviu o relgio da igreja bater as duas, calou as botas e vestiu o sobretudo. Vladimir parecia dormir normalmente. Ele saiu de casa e foi andando at a padaria. Para sua surpresa, j havia uma fila comprida ali, e ele percebeu que sara de casa um pouco tarde. Havia umas 100 pessoas na fila, todas encapotadas, batendo com os ps na neve. Algumas tinham trazido cadeiras ou bancos. Um rapaz empreendedor trouxera um braseiro e estava vendendo mingau, lavando as tigelas na neve depois que as pessoas terminavam de comer. Mais uma dzia de fregueses entrou na fila atrs de Grigori.
   Enquanto esperavam, todos fofocavam e resmungavam. Duas mulheres na frente de Grigori discutiam sobre quem era culpado pela falta de po: uma dizia que eram os alemes na corte; a outra, os judeus que estocavam farinha.
  -		Quem  que governa? - perguntou-lhes Grigori. - Quando um bonde vira, vocs pem a culpa no motorneiro, porque  ele quem est ao volante. Os judeus no nos governam. Os alemes no nos governam. Quem nos governa  o czar e a nobreza. - Era essa a mensagem dos bolcheviques.
  -		Quem iria governar o pas se no houvesse czar? - indagou a mulher mais nova com ceticismo. Ela usava um chapu de feltro amarelo.
   
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-		Eu acho que deveramos governar a ns mesmos - falou Grigori. - Como  na Frana e nos Estados Unidos.
-		No sei - comentou a mulher mais velha. - As coisas no podem continuar assim.
A padaria abriu s cinco. Um minuto depois, correu pela fila a notcia de que cada pessoa s poderia comprar um po.
-		A noite inteira por um s po! - disse a mulher de chapu amarelo.
Eles ainda demoraram mais uma hora para chegar ao comeo da fila. A mulher do padeiro recebia um cliente de cada vez. Quando a mais velha das duas mulheres na frente de Grigori entrou, a mulher do padeiro disse para os que estavam na fila:
-		Acabou. No tem mais po.
A mulher de chapu amarelo disse:
-		No, por favor! S mais um!
A expresso da mulher do padeiro era impassvel. Talvez aquilo j tivesse acontecido antes.
-		Se ns tivssemos mais farinha, faramos mais po - disse ela. - Acabou, entendeu? Eu no posso lhe vender po se no tenho mais.
A ltima cliente saiu da padaria com o po debaixo do casaco e afastou-se s pressas.
A mulher de chapu amarelo comeou a chorar.
A mulher do padeiro bateu a porta.
Grigori deu meia-volta e foi embora.
A primavera chegou a Petrogrado na quinta-feira, 8 de maro, mas o Imprio Russo teimava em se ater ao calendrio juliano, segundo o qual era 23 de fevereiro. J fazia 300 anos que o restante da Europa usava o calendrio moderno.
A alta da temperatura coincidiu com o Dia Internacional da Mulher, e as trabalhadoras das fbricas txteis entraram em greve, saindo em passeata dos subrbios industriais at o centro da cidade para protestar contra as filas para comprar po, a guerra e o czar. O governo havia anunciado que passaria a racionar o po, mas isso parecia ter agravado ainda mais a escassez dele.
Assim como todas as unidades do Exrcito estacionadas na cidade, o Primeiro Regimento de Metralhadoras foi destacado para ajudar a polcia e os cossacos montados a manter a ordem. O que aconteceria, pensou Grigori, se os soldados

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recebessem ordens para atirar nos manifestantes? Ser que iriam obedecer? Ou ser que virariam seus fuzis para os oficiais? Em 1905, eles haviam acatado as ordens e disparado contra os trabalhadores. Desde ento, contudo, o povo russo havia suportado uma dcada de tirania, represso, guerra e fome.
   Mas no houve incidentes, de modo que Grigori e sua seo voltaram para o quartel naquela noite sem terem disparado um s tiro.
   Na sexta-feira, mais trabalhadores entraram em greve.
   O czar estava no quartel-general do Exrcito em Mogilev, a mais de 600 quilmetros dali. Quem estava encarregado da cidade era o comandante do distrito militar de Petrogrado, general Khabalov. Este decidiu designar soldados para as pontes a fim de manter os manifestantes longe do centro. A seo de Grigori foi posicionada perto do quartel para proteger a ponte Liteiny, que atravessava o rio Neva at a Liteiny Prospekt. No entanto, como a gua do rio ainda estava congelada, os manifestantes simplesmente passaram por cima do gelo para evitar as tropas, para alegria dos soldados que assistiam - assim como Grigori, a maioria deles simpatizava com os grevistas.
   Nenhum partido poltico havia organizado a greve. Como os outros partidos revolucionrios de esquerda, os bolcheviques mais seguiam do que conduziam a classe trabalhadora.
   Outra vez, a seo de Grigori no partiu para o conflito, porm a situao no foi igual em todos os lugares. Quando ele voltou para o quartel no sbado  noite, ficou sabendo que a polcia havia atacado os manifestantes em frente  estao de trem no final da Nevsky Prospekt. Para surpresa geral, os cossacos haviam defendido os grevistas contra a polcia. Os homens se referiam aos cossacos como camaradas. Grigori tinha suas dvidas. Na verdade, os cossacos nunca tinham sido fiis a ningum a no ser a si mesmos, pensou. Eles simplesmente adoravam uma briga.
   No domingo, Grigori foi acordado s cinco da manh, bem antes de o dia raiar. Durante o caf da manh, correu um boato de que o czar teria instrudo o general Khabalov a dar um fim s greves e passeatas usando toda a fora necessria. A expresso era sinistra, pensou Grigori: toda a fora necessria.
   Aps o desjejum, os sargentos receberam suas ordens. Cada peloto deveria proteger um ponto diferente da cidade: no apenas as pontes, mas tambm os cruzamentos, as estaes de trem e as agncias dos correios. Os bloqueios estariam conectados por telefones de campanha. A capital do pas seria defendida como uma cidade inimiga capturada. E pior ainda: o regimento de Grigori deveria instalar metralhadoras nos locais em que houvesse possibilidade de transtornos.
   
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    Quando Grigori transmitiu as instrues a seus homens, eles ficaram horrorizados. Isaak perguntou:
   -		O czar vai realmente mandar o Exrcito metralhar seu prprio povo?
   -		A questo : se ele fizer isso, os soldados vo obedecer? - indagou Grigori.
    Seu entusiasmo crescente vinha acompanhado de medo. Ele estava animado
com as greves, pois sabia que o povo russo precisava desafiar seus governantes. Caso contrrio, a guerra iria se arrastar, as pessoas morreriam de fome e no haveria chance de Vladimir ter uma vida melhor do que a de Grigori e Katerina. Fora essa convico que o levara a se alistar no partido. Por outro lado, ele acalentava uma esperana secreta de que, se os soldados simplesmente se recusassem a obedecer s ordens, a revoluo talvez comeasse sem muito derramamento de sangue. No entanto, quando seu prprio regimento recebeu ordens para montar ninhos de metralhadora nas esquinas de Petrogrado, ele comeou a achar que aquela esperana era uma ingenuidade.
    Haveria mesmo possibilidade de algum dia o povo russo se ver livre da tirania dos czares? s vezes isso parecia um mero devaneio. Contudo, outros pases tinham feito revolues e derrubado seus algozes. At mesmo os ingleses j haviam matado seu rei um dia.
    Petrogrado parecia uma panela de gua no fogo, pensou Grigori: havia espirais de fumaa, algumas borbulhas de violncia e a superfcie tremulava com um calor intenso. A gua, no entanto, parecia hesitar e, como reza o ditado, panela vigiada no ferve.
    Seu peloto foi enviado para o Palcio Tauride, a imensa casa de veraneio de Catarina II na cidade, agora sede do impotente Parlamento russo, a Duma. A manh estava tranquila: at mesmo os famintos gostavam de dormir at mais tarde aos domingos. Mas o tempo continuou ensolarado e, ao meio-dia, as pessoas comearam a chegar dos subrbios, a p e de bonde. Um grupo se reuniu no grande jardim do Palcio Tauride. Grigori percebeu que no havia s operrios, mas tambm homens e mulheres de classe mdia, estudantes e uns poucos empresrios aparentemente bem-sucedidos. Alguns tinham trazido os filhos. Ser que estavam participando de um protesto poltico, ou apenas dando um passeio no parque? Grigori imaginou que nem eles prprios tinham certeza.
    Na entrada do palcio, viu um rapaz bem-vestido, cujo rosto bonito reconheceu de fotografias nos jornais, e percebeu estar diante do parlamentar trudovique Aleksandr Fedorovich Kerenski. Os trudoviques eram uma faco moderada dissidente dos socialistas revolucionrios. Grigori lhe perguntou o que estava acontecendo dentro do palcio.
    
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-		O czar dissolveu a Duma formalmente hoje - informou-lhe Kerenski.
Grigori sacudiu a cabea, revoltado.
-		Que reao mais tpica - comentou. - Reprimir quem protesta em vez de dar ateno s suas queixas.
Kerenski o encarou firme. Talvez no esperasse uma anlise como aquela de um soldado.
-		De fato - disse ele. - Seja como for, ns deputados estamos ignorando o decreto do czar.
-		O que vai acontecer?
-		Quase todos acreditam que as passeatas vo arrefecer assim que as autoridades conseguirem restabelecer o fornecimento de po - disse Kerenski e entrou.
Grigori se perguntou o que fazia os moderados pensarem que isso iria acontecer. Se as autoridades fossem capazes de restabelecer o fornecimento de po, j no teriam feito isso, em vez de passarem a racion-lo? Os moderados, no entanto, sempre pareciam se basear em esperanas, no em fatos.
No incio da tarde, Grigori ficou surpreso ao ver os rostos sorridentes de Katerina e Vladimir. Em geral passava os domingos com eles, mas havia imaginado que no os veria naquele dia. Para grande alvio de Grigori, Vladimir parecia disposto e alegre. O menino tinha claramente se recuperado da infeco. O clima estava quente o bastante para Katerina usar o casaco aberto, exibindo a silhueta voluptuosa. Ele desejou poder acarici-la. Ela lhe deu um sorriso, fazendo-o pensar em como beijaria seu rosto quando os dois estivessem deitados na cama, e Grigori sentiu uma pontada de desejo quase insuportvel. Detestava perder aquele momento de intimidade das tardes de domingo.
-		Como voc soube que eu estaria aqui? - perguntou a ela.
-		Um palpite feliz.
-		Estou contente por terem vindo, mas  perigoso para vocs ficar no centro da cidade.
Katerina olhou para a multido que passeava pelo parque.
-		Est me parecendo bem seguro.
Grigori foi incapaz de contradiz-la. No havia sinal de perigo.
Me e filho saram para dar uma volta pelo lago congelado. A respirao de Grigori ficou presa na garganta quando ele viu Vladimir sair andando e cair no cho quase na mesma hora. Katerina levantou o menino, acalmou-o e seguiu em frente. Os dois pareciam to vulnerveis. O que seria deles?
Quando voltaram, Katerina disse que levaria Vladimir para casa para tirar seu cochilo.

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   -		Passe pelas ruas de trs - disse Grigori. - Fique longe das multides. No sei o que pode acontecer.
   -		Est bem - disse ela.
   -		Prometa.
   -		Eu prometo.
    Grigori no viu nenhum derramamento de sangue naquele dia, porm  noite, no quartel, ouviu relatos bem diferentes de outros grupos. Na praa Znamenskaya, os soldados haviam recebido ordens para atirar nos manifestantes e 40 pessoas tinham morrido. Grigori sentiu o corao gelar. Katerina poderia ter sido morta s de andar pela rua!
    Outros soldados ficaram igualmente indignados e, no refeitrio, os nimos estavam exaltados. Sentindo o estado de esprito dos homens, Grigori subiu em uma das mesas e tomou as rdeas da situao, pedindo ordem e convidando os soldados a falarem um de cada vez. O jantar logo se transformou em um grande comcio. O primeiro a quem ele deu a palavra foi Isaak, conhecido por ser a estrela do time de futebol do regimento.
   -		Eu me alistei no Exrcito para matar alemes, no russos - disse Isaak, ao que se ouviu um rugido de aprovao. - Os manifestantes so nossos irmos e irms, nossas mes e nossos pais... e o nico crime deles  pedir po!
    Grigori conhecia todos os bolcheviques do regimento, portanto convocou vrios deles a falar - mas tambm teve o cuidado de chamar outros, de modo a no parecer parcial demais. Em circunstncias normais, os homens eram cautelosos ao expressar suas opinies, por medo de que seus comentrios fossem denunciados e eles acabassem sendo punidos - naquele dia, contudo, no pareciam ligar para isso.
    O orador mais impressionante foi Yakov, um homem alto e com ombros to largos quanto os de um urso. Com lgrimas nos olhos, ele subiu na mesa ao lado de Grigori e comeou a falar:
   -		Quando eles nos disseram para atirar, eu no soube o que fazer. - Yakov parecia incapaz de levantar a voz, e o silncio tomou conta do recinto enquanto os outros homens tentavam escut-lo. - Eu pedi: "Por favor, Deus, guie meus passos agora", e escutei meu corao, mas Deus no me deu resposta alguma. - Os homens permaneciam calados. - Ergui meu fuzil - disse Yakov. - O capito gritava: "Atirem! Atirem!", mas em quem eu deveria atirar? Na Galcia, sabamos quem eram nossos inimigos porque eles estavam disparando contra ns. Mas hoje, na praa, ningum estava nos atacando. Quase todas as pessoas eram mulheres, algumas com crianas. Nem os homens tinham armas.
    
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   Ele se calou. Os soldados estavam imveis como pedras, como se temessem que qualquer movimento pudesse romper aquele transe. Depois de alguns instantes, Isaak o incentivou a continuar:
  -		E depois, Yakov Davidovich, o que aconteceu?
  -		Eu puxei o gatilho - respondeu Yakov, e lgrimas escorreram de seus olhos para a barba preta cerrada. - Nem sequer mirei a arma. O capito estava gritando comigo e eu atirei para ele calar a boca. Mas acertei uma mulher. Uma menina, na verdade. Acho que devia ter uns 19 anos. Ela estava usando um casaco verde. Dei um tiro no peito dela e o sangue se espalhou pelo casaco inteiro, vermelho sobre verde. Ento ela caiu. - quela altura, ele chorava desbragadamente, falando aos arquejos. - Larguei minha arma e tentei chegar at ela para ajud-la, mas a multido veio para cima de mim, me cobrindo de socos e pontaps, embora eu no tenha sentido quase nada. - Ele enxugou o rosto com a manga. - Agora estou encrencado, porque perdi meu fuzil. - Houve outra pausa demorada.
   Grigori no havia percebido a porta se abrir, mas, de repente, o tenente Kirillov estava ali.
  -		Desa desse raio de mesa, Yakov - gritou ele. Olhou para Grigori. - Voc tambm, Peshkov, seu desordeiro. - Ento se virou para falar com os homens, sentados em bancos diante de suas mesas de cavalete: - Voltem para seus alojamentos, todos vocs - ordenou. - Qualquer um que permanecer neste recinto mais um minuto vai ser aoitado.
   Ningum se mexeu. Os homens encaravam o tenente com ar de poucos amigos. Grigori se perguntou se era daquela forma que comeava um motim.
   Yakov, no entanto, estava tomado demais pela prpria tristeza para se dar conta do instante dramtico que havia criado. Desceu da mesa atabalhoadamente e a tenso se dissipou. Alguns dos homens mais prximos de Kirillov se levantaram, carrancudos, porm amedrontados. Insolente, Grigori ainda continuou em cima da mesa por mais alguns segundos, mas sentiu que os homens ainda no estavam furiosos o suficiente para se voltarem contra um oficial, de modo que acabou descendo. O grupo comeou a sair do refeitrio. Kirillov no se moveu, fuzilando todos os soldados com o olhar.
   Grigori voltou para o alojamento e dali a pouco a sineta tocou, ordenando o apagar das luzes. Como era sargento, ele tinha o privilgio de um recesso protegido por uma cortina nos fundos do dormitrio de seu peloto. Pde ouvir os homens conversando em voz baixa.
  -		No vou atirar em mulheres - disse um deles.
   
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-		Nem eu.
Uma terceira voz falou:
-		Se fizerem isso, um desses oficiais filhos da me vai atirar em vocs por desobedincia!
-		Vou mirar para errar - disse outra voz.
-		Eles podem ver.
-		 s mirar um pouco acima das cabeas da multido. Ningum vai poder ter certeza do que voc est fazendo.
-		 isso que eu vou fazer - falou mais uma voz.
-		Eu tambm.
-		Eu tambm.
Veremos, pensou Grigori enquanto se rendia ao sono. No escuro, era fcil dizer palavras corajosas.  luz do dia, a histria poderia ser outra.
Ill
Na segunda-feira, o peloto de Grigori marchou por uma curta distncia ao longo da Sampsonievsky Prospekt at a ponte Liteiny, com ordens para impedir os manifestantes de atravessarem o rio em direo ao centro da cidade. A ponte tinha pouco mais de 350 metros de comprimento e era sustentada por imensos pilares de pedra, incrustados no rio congelado como dois navios quebra-gelo  deriva.
Era o mesmo trabalho que tinham feito na sexta-feira, mas as ordens eram diferentes. O tenente Kirillov deu as instrues para Grigori. Nos ltimos tempos, ele vinha falando como se estivesse constantemente de mau humor, e talvez fosse mesmo o caso: os oficiais provavelmente achavam to ruim quanto os soldados terem que enfrentar os prprios compatriotas.
-		Nenhum manifestante deve atravessar o rio, seja pela ponte ou pelo gelo, entendido? Vocs devem atirar em quem desobedecer aos seus comandos.
Grigori escondeu o desprezo que sentia.
-		Sim, Excelncia! - respondeu vigorosamente.
Kirillov repetiu as ordens e ento desapareceu. Grigori teve a impresso de que o tenente estava com medo. Sem dvida temia ser responsabilizado pelo que acontecesse, quer suas ordens fossem obedecidas ou desafiadas.
Grigori no tinha a menor inteno de obedecer. Deixaria que os lderes da passeata o atrassem para uma conversa enquanto seus seguidores atravessavam o gelo, exatamente como havia acontecido na sexta-feira.

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No entanto, de manh bem cedo, um destacamento da polcia veio se juntar
ao seu peloto. Para seu horror, ele viu que os policiais eram liderados por seu
velho inimigo, Mikhail Pinsky. Este no parecia estar sofrendo com a escassez de
po: seu rosto redondo estava mais gordo do que nunca, e seu uniforme de policial, apertado na cintura. Ele carregava um alto-falante. Kozlov, seu comparsa
com cara de fuinha, no estava por perto.
-		Eu conheo voc - disse Pinsky a Grigori. - Voc trabalhava na Metalrgica
Putilov.
-		At voc me forar a me apresentar ao Exrcito - respondeu Grigori.
-		Seu irmo  um assassino, mas fugiu para os Estados Unidos.
-		Isso  voc quem diz.
-		Ningum vai atravessar este rio hoje.
-		Veremos.
-		Espero cooperao total dos seus homens, entendido?
-		No est com medo? - perguntou Grigori.
-		Da turba? No seja idiota.
-		No, do futuro. Imagine se os revolucionrios conseguirem o que querem. O
que acha que eles vo fazer? Voc passou a vida inteira intimidando os fracos,
espancando as pessoas, assediando as mulheres e aceitando subornos. No tem
medo de um dia levar o troco?
Pinsky apontou um dedo enluvado para Grigori.
-		Vou delatar voc como subversivo, seu maldito! - disse ele, afastando-se em
seguida.
Grigori deu de ombros. J no era to fcil quanto antes para a polcia prender quem bem entendesse. Se Grigori fosse preso, Isaak e outros soldados poderiam se amotinar, e os oficiais sabiam disso.
O dia comeou calmo, mas Grigori percebeu que havia poucos trabalhadores
nas ruas. Muitas fbricas estavam fechadas por falta de combustvel para seus
motores a vapor e fornalhas. Outros lugares haviam entrado em greve, com os fun-
cionrios exigindo aumento para compensar os preos inflacionados, ou calefao
para as oficinas geladas, ou ainda grades de proteo em volta de mquinas peri-
gosas. Na verdade, parecia que ningum estava indo trabalhar naquele dia. Mas o
sol raiou, brilhante, e as pessoas no iriam ficar em casa. De fato, no meio da
manh, Grigori viu uma grande multido de homens e mulheres usando as roupas
esfarrapadas de operrios descendo a Sampsonievsky Prospekt.
Grigori tinha 30 soldados e dois cabos sob seu comando. Havia posicionado
os homens em quatro fileiras de oito, de uma ponta a outra da rua, impedindo o

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acesso  ponte. Pinsky tinha mais ou menos o mesmo nmero de homens, metade a p e metade a cavalo, e os colocou ao longo dos acostamentos.
    Apreensivo, Grigori observou a passeata se aproximar. Era impossvel prever o que estava por vir. Sozinho, poderia ter conseguido evitar o derramamento de sangue, oferecendo uma resistncia meramente simblica e ento deixando os manifestantes passarem. Contudo, no sabia o que Pinsky pretendia fazer.
    Os manifestantes chegaram mais perto. Eram centenas de pessoas - centenas no, milhares. Homens e mulheres com os dlms azuis e sobretudos esfarrapados dos operrios. A maioria ostentava braadeiras ou fitas vermelhas. Seus cartazes diziam Abaixo o czar e Po, paz e terra. Aquilo j no era mais um simples protesto, concluiu Grigori: havia se tornado um movimento poltico.
    Quando os lderes se aproximaram, ele sentiu a tenso aumentar entre seus homens.
    Ele se adiantou, indo ao encontro dos manifestantes. Para sua surpresa, quem vinha na frente era Varya, me de Konstantin. Seus cabelos grisalhos estavam presos por um leno vermelho e ela carregava uma bandeira da mesma cor em uma vara grossa.
   -		Ol, Grigori Sergeivich - disse ela com simpatia. - Vai atirar em mim?
   -		No, eu no - retrucou ele. - Mas no posso responder pela polcia.
    Embora Varya tivesse parado, os demais continuaram a andar, pressionados
pelos milhares de outros que vinham s suas costas. Grigori ouviu Pinsky mandar seus homens a cavalo avanarem. Esses policiais montados, conhecidos como faras, formavam a tropa mais odiada da fora policial. Estavam armados com aoites e cassetetes.
   -		Tudo o que queremos  ganhar a vida e alimentar nossas famlias - disse Varya. - No  isso que voc quer tambm, Grigori?
    Os manifestantes no enfrentaram os soldados de Grigori, nem tentaram passar por eles para chegar  ponte. Em vez disso, estavam se espalhando ao longo das margens do rio. Os faras de Pinsky conduziram seus cavalos com nervosismo pelo caminho que ladeava o rio, porm no eram numerosos o suficiente para formar uma barreira contnua. Mas nenhum dos manifestantes queria ser o primeiro a se arriscar, de modo que, por alguns instantes, houve um impasse.
    O tenente Pinsky levou seu alto-falante  boca:
   -		Para trs! - gritou. O instrumento no passava de um pedao de lata em forma de cone, e s tornava sua voz um pouco mais alta. - Vocs no podem entrar no centro da cidade. Voltem para seus locais de trabalho de maneira ordeira. Isto  uma ordem da polcia. Para trs!
 
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   Ningum recuou - a maioria das pessoas nem escutou o que ele disse porm os manifestantes comearam a xingar e vaiar. Do meio da multido, algum jogou uma pedra. Ela atingiu a anca de um cavalo, que se espantou. O cavaleiro, pego de surpresa, quase caiu no cho. Furioso, endireitou-se, puxou as rdeas e aoitou o animal. A multido riu, o que o deixou ainda mais irritado, mas ele conseguiu controlar a montaria.
   Um manifestante corajoso aproveitou a distrao, driblou um fara na margem do rio e correu para o meio do gelo. Vrias outras pessoas de ambos os lados da ponte o imitaram. Os faras sacaram seus aoites e cassetetes, girando e empinando os cavalos enquanto golpeavam. Alguns dos manifestantes caram no cho, mas houve quem conseguisse passar - o que incentivou outros a tambm tentarem. Em poucos segundos, 30 pessoas ou mais estavam correndo pelo rio congelado.
   Para Grigori, aquele era um desfecho favorvel. Ele poderia dizer que havia tentado aplicar a proibio - de fato mantivera as pessoas fora da ponte -, mas que o nmero de manifestantes era grande demais, impossibilitando-o de impedir a multido de atravessar o gelo.
   Pinksy j no pensava assim.
   Ele virou seu alto-falante para os policiais armados e disse:
  -		Apontar!
  -		No! - gritou Grigori, mas era tarde demais. Os policiais assumiram posio de tiro, apoiando-se em um dos joelhos, e ergueram os fuzis. Os manifestantes que encabeavam a multido tentaram recuar, porm foram empurrados para a frente pelos milhares atrs deles. Alguns correram em direo ao rio, desafiando os faras.
  -		Fogo! - gritou Pinsky.
   Ao estampido dos tiros, que soavam como fogos de artifcio, seguiram-se gritos de medo e dor enquanto os manifestantes caam mortos ou feridos.
   Grigori voltou 12 anos no tempo. Viu a praa em frente ao Palcio de Inverno, as centenas de homens e mulheres ajoelhados, rezando, os soldados com seus fuzis e sua me cada no cho com o sangue a se espalhar pela neve. Em sua mente, ouviu Lev, ento com 11 anos, gritar: "Ela morreu! Ma morreu, minha me morreu!"
  -		No - disse ele em voz alta. - No vou deixar que eles repitam isso. - Girou a trava de segurana de seu fuzil Mosin-Nagant, destravando o ferrolho, e ento ergueu a arma at o ombro.
   A multido gritava e corria em todas as direes, pisoteando quem houvesse
   
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cado. Os faras, descontrolados, golpeavam a esmo. A polcia disparava indiscriminadamente contra a multido.
    Grigori mirou Pinsky com cuidado, pretendendo acertar o meio do seu corpo. No atirava muito bem e o tenente estava a cerca de 60 metros de distncia, mas tinha uma chance de acert-lo. Apertou o gatilho.
    Pinsky continuou a gritar pelo alto-falante.
    Grigori tinha errado. Abaixou a mira - o fuzil dava uma pequena guinada para cima ao ser disparado - e tornou a apertar o gatilho.
    Errou de novo.
    A carnificina prosseguia, com a polcia disparando alucinadamente contra a multido em fuga.
    O cartucho do fuzil de Grigori tinha cinco tiros. Ele em geral conseguia acertar alguma coisa com um dos cinco. Disparou uma terceira vez.
    Pisnky soltou um grito de dor que foi amplificado pelo alto-falante. Seu joelho direito pareceu se dobrar sob o corpo. Ele soltou o alto-falante e caiu no cho.
    Os homens de Grigori seguiram seu exemplo. Atacaram a polcia, alguns com tiros e outros usando os fuzis como porretes. Outros arrancaram os faras de suas montarias. Os manifestantes tomaram coragem e entraram na briga. Alguns dos que estavam no gelo deram meia-volta e retornaram.
    A fria da turba foi um espetculo terrvel. Desde que qualquer um conseguia se lembrar, a polcia de Petrogrado era de uma brutalidade desdenhosa, indisciplinada e fora de controle, e agora o povo estava se vingando. Policiais cados no cho eram chutados e pisoteados, os que estivessem em p eram derrubados e os faras viram seus cavalos serem abatidos enquanto ainda estavam montados. A polcia resistiu apenas por alguns instantes, ento os que conseguiram saram correndo.
    Grigori viu Pinsky se levantar com esforo. Tornou a mirar, louco para acabar com a raa daquele desgraado, mas um fara entrou no caminho, puxando Pinsky at o pescoo de seu cavalo e partindo a galope.
    Grigori ficou parado, observando a polcia fugir.
    Aquela era a maior encrenca em que havia se metido na vida.
    Seu peloto tinha se amotinado. Infringindo diretamente as ordens recebidas, eles haviam atacado a polcia em lugar dos manifestantes. E o exemplo partira dele, ao atirar no tenente Pinsky, que estava vivo para contar a histria. No teria como abafar aquilo, ou dar qualquer desculpa que fizesse alguma diferena - tampouco havia como escapar da punio. Ele era culpado de traio. Poderia ser levado  corte marcial e executado.
    Apesar disso, estava feliz.
    
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Varya abriu caminho pela turba. Havia sangue em seu rosto, mas ela estava sorrindo.
-		E agora, sargento?
Grigori no iria se resignar a ser punido. O czar estava assassinando seu povo. J que era assim, seu povo iria contra-atacar.
-		Para o quartel - disse. - Vamos armar a classe operria! - Ele arrancou a bandeira vermelha de sua mo. - Sigam-me!
Ele voltou pela Sampsonievsky Prospekt. Logo atrs vinham seus homens, que haviam sido reunidos por Isaak, e em seguida a multido. Grigori no sabia ao certo o que iria fazer, mas no sentia necessidade de ter um plano: ali, marchando  frente da multido, tinha a sensao de que era capaz de qualquer coisa.
A sentinela abriu os portes do quartel para os soldados e depois no conseguiu fech-los para deter os manifestantes. Sentindo-se invencvel, Grigori conduziu a marcha pelo ptio de desfiles at o arsenal. O tenente Kirillov saiu do prdio do quartel-general, viu a multido e saiu correndo na direo dela.
-		Ei, homens! - gritou. - Alto l! Parem onde esto!
Grigori o ignorou.
Kirillov se deteve e sacou o revlver.
-		Alto l! - falou. - Alto, ou eu atiro!
Dois ou trs soldados do peloto de Grigori ergueram os fuzis e atiraram em Kirillov. Vrias balas o atingiram e ele caiu no cho, sangrando.
Grigori seguiu em frente.
O arsenal era protegido por dois soldados. Nenhum deles tentou impedir Grigori, que usou os dois ltimos tiros de seu cartucho para arrancar a fechadura das portas de madeira macia. A multido ento invadiu o arsenal, empurrando e acotovelando-se para pegar as armas. Alguns dos homens de Grigori assumiram o comando, abrindo caixotes de madeira cheios de fuzis e revlveres e dis- tribuindo-os junto com caixas de munio.
 isso, pensou Grigori. Uma revoluo. Estava ao mesmo tempo eufrico e aterrorizado.
Armou-se com dois dos revlveres Nagant que eram distribudos aos oficiais, recarregou seu fuzil e encheu os bolsos de munio. No tinha certeza do que pretendia fazer, mas, agora que era um criminoso, precisava de armas.
Os demais soldados do quartel aderiram ao saque ao arsenal e logo todos estavam armados at os dentes.
Carregando a bandeira vermelha de Varya, Grigori conduziu a multido para fora do quartel. As passeatas sempre seguiam em direo ao centro da cidade.

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Acompanhado de Isaak, Yakov e Varya, ele atravessou a ponte at a Liteiny Prospekt, tomando o rumo do abastado centro de Petrogrado. Tinha a sensao de estar voando ou ento sonhando, como se houvesse bebido um gole generoso de vodca. Passara anos falando sobre desafiar a autoridade do regime, mas agora estava fazendo isso de verdade e sentia-se um novo homem, uma criatura diferente, um pssaro; Recordou as palavras do velho que havia falado com ele depois de sua me morrer baleada. "Que voc viva muito", dissera ele enquanto Grigori se afastava do Palcio de Inverno, carregando o corpo da me. "Que viva o suficiente para se vingar do czar coberto de sangue pelo mal que fez hoje." Talvez seu desejo se realize, velho, pensou ele, exultante.
   O Primeiro Regimento de Metralhadoras no foi o nico a ter se amotinado naquela manh. Quando ele chegou ao outro lado da ponte, ficou ainda mais animado ao ver as ruas cheias de soldados usando os quepes virados para trs ou os casacos desabotoados, em desobedincia ao regulamento. A maioria exibia braadeiras vermelhas ou fitas vermelhas na lapela para mostrar que eram revolucionrios. Carros confiscados passavam roncando, dirigidos sem a menor cautela, com canos de fuzil e baionetas despontando pelas janelas e moas sentadas no colo dos soldados, s gargalhadas, l dentro. As barreiras e postos de controle da vspera tinham sumido. As ruas haviam sido tomadas pelo povo.
   Grigori viu uma loja de vinhos com a vitrine quebrada e a porta derrubada. Um soldado e uma garota saram l de dentro, com uma garrafa em cada mo, pisoteando o vidro quebrado. Ao lado, o dono de um caf havia disposto pratos de peixe defumado e rodelas de linguia em uma mesa na calada e estava postado ao lado dela, com uma fita vermelha na lapela, sorrindo com nervosismo e convidando os soldados a se servirem. Grigori imaginou que ele estivesse tentando garantir que o seu estabelecimento no fosse invadido e saqueado como a loja de vinhos.
   Conforme eles se aproximavam do centro, o clima de folia aumentava. Embora fosse apenas meio-dia, algumas pessoas j estavam bastante embriagadas. As garotas pareciam dispostas a beijar qualquer um que estivesse usando uma braadeira vermelha, e Grigori viu um soldado apalpando explicitamente os seios fartos de uma sorridente mulher de meia-idade. Algumas garotas tinham vestido uniformes de soldado e andavam com afetao pelas ruas, usando quepes e botas grandes demais para elas e sentindo-se obviamente liberadas.
   Um Rolls-Royce lustroso veio chegando pela rua e a multido tentou det-lo. O motorista pisou no acelerador, mas algum abriu a porta e puxou-o para fora do carro. As pessoas se acotovelaram para tentar entrar. Grigori viu o conde Maklakov, um dos diretores da Metalrgica Putilov, sair atabalhoado do banco
   
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de trs. Lembrou-se de como Maklakov ficara encantado com a princesa Bea no dia em que ela havia visitado a fbrica. A multido zombou do conde, mas no o agrediu enquanto ele se afastava s pressas, erguendo a gola de pele do casaco at as orelhas. Umas nove ou dez pessoas se apertaram dentro do Rolls-Royce e algum saiu dirigindo o carro, buzinando alegremente.
   Na esquina seguinte, um pequeno grupo atormentava um homem alto, vestido como um trabalhador de classe mdia, com seu chapu de feltro e seu sobretudo j bastante pudo. Um soldado o cutucava com o cano do fuzil e uma velha lhe dava cusparadas, enquanto um rapaz de macaco de operrio jogava um punhado de lixo nele.
  -		Deixem-me passar! - pediu o homem, tentando imprimir autoridade  sua voz, mas fazendo apenas as pessoas rirem. Grigori reconheceu a silhueta magra de Kanin, o supervisor da seo de fundio da Metalrgica Putilov. Seu chapu caiu e Grigori notou que ele havia ficado careca.
   Grigori abriu caminho pela pequena multido.
  -		No h nada de errado com este homem! - gritou. - Ele  engenheiro, eu trabalhava com ele.
   Kanin o reconheceu.
  -		Obrigado, Grigori Sergeivich - agradeceu ele. - S estou tentando chegar  casa da minha me para ver se ela est bem.
   Grigori virou-se para a multido.
  -		Deixem-no passar - falou. - Eu me responsabilizo por ele. - Viu uma mulher carregando um rolo de fita vermelha, provavelmente saqueado de algum armarinho, e pediu-lhe um pedao. Ela cortou um pouco de fita com uma tesoura e Grigori a amarrou em volta da manga esquerda do casaco de Kanin. A multido vibrou.
  -		Agora o senhor vai estar seguro - disse Grigori.
   Kanin apertou-lhe a mo, afastando-se dali, e as pessoas o deixaram passar.
   O grupo de Grigori chegou  Nevsky Prospekt, a ampla rua comercial que ia do Palcio de Inverno at a estao ferroviria Nikolaevsky. A rua estava repleta de gente bebendo direto do gargalo, beijando-se e dando tiros para o alto. Os restaurantes ainda abertos ostentavam cartazes que diziam "Comida grtis para os revolucionrios!" e "Comam quanto quiserem, paguem quanto puderem!". Muitas lojas haviam sido invadidas e havia cacos de vidro por todo o calamento. Um dos odiados bondes - caros demais para serem usados pelos operrios - tinha sido virado no meio da rua e um carro Renault batera nele.
Grigori ouviu um tiro de fuzil, porm, como foi um entre muitos, durante um segundo ele no deu importncia; mas ento Varya, que estava ao seu lado, 

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cambaleou e caiu no cho. Grigori e Yakov se ajoelharam junto dela, um de cada lado. A mulher parecia inconsciente. Com alguma dificuldade, os dois viraram seu corpo pesado e viram na mesma hora que no havia mais nada a fazer: um tiro a atingira na testa e seus olhos estavam voltados para cima, sem enxergar mais nada.
   Grigori no se permitiu sentir tristeza, nem por si mesmo, nem pelo filho de Varya, seu melhor amigo, Konstantin. Havia aprendido no campo de batalha a revidar primeiro e prantear depois. Mas seria aquilo um campo de batalha? Quem poderia querer matar Varya? O ferimento, contudo, indicava um tiro to certeiro que ele mal podia crer que ela tivesse sido vtima de uma bala perdida, disparada a esmo.
   No instante seguinte, sua pergunta foi respondida. Yakov caiu ajoelhado, com o peito sangrando. Seu corpo pesado desabou sobre as pedras do calamento com um baque.
   Grigori se afastou dos dois corpos dizendo:
   - Que droga  essa?
   Agachou-se, tornando-se um alvo menos visvel, e olhou em volta depressa  procura de abrigo.
   Ouviu outro tiro e um soldado que passava com um cachecol vermelho amarrado em volta do quepe foi ao cho, agarrando a prpria barriga.
   Havia um atirador por perto, e ele estava mirando nos revolucionrios.
   Grigori correu trs passos e mergulhou atrs do bonde virado.
   Uma mulher gritou, depois outra. As pessoas viram os corpos ensanguentados e comearam a sair correndo.
   Grigori levantou a cabea e vasculhou os prdios em volta. O atirador devia ser um fuzileiro da polcia, mas onde estaria ele? Grigori achava que o estampido do tiro de fuzil tinha vindo do outro lado da rua, a menos de um quarteiro de distncia. Os prdios reluziam sob a luz da tarde. Havia um hotel, uma joalheria com as persianas de ao fechadas, um banco e, na esquina, uma igreja. Ele no viu nenhuma janela aberta, de modo que o atirador s podia estar em cima de algum telhado. O nico que oferecia abrigo era o da igreja, uma construo de pedra em estilo barroco com torres, parapeitos e uma cpula em forma de cebola.
   Mais um tiro ecoou e uma mulher vestida de operria gritou e caiu segurando o prprio ombro. Grigori teve certeza de que o som viera da igreja, mas no viu fumaa alguma. Isso provavelmente queria dizer que a polcia havia abastecido seus atiradores com munio que no produzia fumaa. Aquilo era mesmo uma guerra.
   Agora, um quarteiro inteiro da Nevsky Prospekt estava deserto.
   
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   Grigori mirou o fuzil no parapeito que corria por cima da parede lateral da igreja. Era a posio de tiro que ele teria escolhido, pois dava vista para a rua inteira. Ficou observando com ateno. Com o canto do olho, viu mais dois fuzis apontando na mesma direo que o seu, empunhados por soldados que haviam buscado abrigo ali perto.
   Um soldado e uma garota chegaram cambaleando pela rua, ambos embriagados. A garota danava alegremente, erguendo a saia do vestido para exibir os joelhos, enquanto seu namorado valsava ao redor dela, apoiando o fuzil no pescoo e fingindo toc-lo como se fosse um violino. Os dois usavam braadeiras vermelhas. Vrias pessoas gritaram palavras de alerta, mas o casal no escutou. Quando passaram pela igreja, felizes e alheios ao perigo, dois tiros ecoaram e o soldado e sua namorada caram no cho.
   Novamente, Grigori no viu nenhuma espiral de fumaa - mas mesmo assim disparou, furioso, contra o parapeito acima da porta da igreja, esvaziando o cartucho do fuzil. Seus tiros lascaram a pedra da fachada e levantaram pequenas nuvens de p. Os outros dois fuzis tambm dispararam e Grigori viu que estavam atirando na mesma direo, contudo no parecia que nenhum deles houvesse acertado algo.
   Aquilo era impossvel, pensou Grigori enquanto recarregava a arma. Eles estavam disparando contra um alvo invisvel. O atirador devia estar deitado, bem afastado da borda, de modo que nenhuma parte de sua arma despontasse por entre as colunas do parapeito.
   Mas algum precisava det-lo. Ele j havia matado Varya, Yakov, dois soldados e uma garota inocente.
   S havia uma forma de alcan-lo: subir no telhado.
   Grigori tornou a atirar contra o parapeito. Como j esperava, isso fez os outros dois soldados atirarem tambm. Imaginando que o atirador devesse ter abaixado a cabea por alguns segundos, Grigori se levantou, abandonando a proteo do bonde virado e correndo at o outro lado da rua, onde colou o corpo  vitrine de uma livraria - uma das poucas lojas que no haviam sido saqueadas.
   Mantendo-se dentro da sombra vespertina lanada pelos prdios, foi avanando pela rua at a igreja. Ela era separada do banco ao seu lado por um beco. Ele aguardou pacientemente por vrios minutos, at o tiroteio recomear - ento disparou pelo beco e parou com as costas viradas para a lateral leste da igreja.
   Ser que o atirador o vira correr e adivinhara seu plano? No tinha como saber.
   Sem descolar o corpo da parede, contornou a igreja at chegar a uma pequena porta. Estava destrancada. Entrou sem fazer barulho.
   
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Era uma igreja suntuosa, lindamente decorada de mrmore vermelho, verde e amarelo. No havia missa naquela hora, porm 20 ou 30 fiis estavam em p ou sentados, de cabea baixa, fazendo suas preces individuais. Grigori vasculhou o recinto, em busca de uma porta que pudesse levar a uma escada. Percorreu a nave a passos largos, temendo que mais pessoas estivessem sendo mortas a cada minuto que demorasse.
Um jovem padre, incrivelmente bonito com seus cabelos pretos e sua pele branca, viu o fuzil em sua mo e abriu a boca para protestar, mas Grigori o ignorou e passou depressa por ele.
No vestbulo, viu uma portinha de madeira em uma parede. Quando a abriu, se deparou com uma escada em caracol que subia. Atrs dele, uma voz disse:
-		Pare, meu filho. O que est fazendo?
Ele se virou e viu o jovem padre.
-		Esta escada leva ao telhado?
-		Eu sou o padre Mikhail. Voc no pode entrar com essa arma na casa de Deus.
-		Tem um atirador no seu telhado.
-		Ele  da polcia!
-		O senhor sabia? - Grigori encarou o padre, incrdulo. - Ele est matando gente!
O padre ficou calado.
Grigori subiu a escada correndo.
Um vento frio soprava de algum lugar l em cima. Era evidente que o padre Mikhail estava do lado da polcia. Ser que havia algum jeito de o padre avisar o atirador? No, a menos que ele corresse at a rua e acenasse - o que provavelmente o faria tomar um tiro.
Depois de uma longa subida quase no escuro, Grigori viu outra porta.
Quando seus olhos chegaram ao mesmo nvel da parte de baixo da porta, o que fazia dele um alvo ainda bem pequeno, ele a abriu alguns centmetros com a mo esquerda, mantendo o fuzil na direita. A luz forte do sol entrou pela brecha. Ele escancarou a porta.
No viu ningum.
Apertou os olhos para proteg-los do sol e examinou a rea visvel atravs do pequeno retngulo do portal. Estava no campanrio. A porta se abria para o sul. A Nevsky Prospekt ficava do lado norte da igreja. O atirador estava do outro lado - a no ser que tivesse mudado de lugar para emboscar Grigori.
Com cautela, Grigori subiu um degrau, depois outro e espichou a cabea para fora.

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Nada aconteceu.
Ele atravessou a porta.
Sob seus ps, o telhado pouco inclinado descia at uma calha, que margeava um parapeito decorativo. Tbuas de madeira enfileiradas permitiam que trabalhadores se movimentassem por ali sem pisar nas telhas. s suas costas, a torre se erguia at a abertura do sino.
Com a arma na mo, ele contornou a torre.
Na primeira quina, deparou-se com a Nevsky Prospekt, que se estendia na direo oeste. Sob a luz forte, podia ver o Jardim Alexander e o Almirantado na outra ponta. A meia distncia, a rua estava abarrotada de gente, mas no havia ningum nas proximidades da igreja. O atirador ainda devia estar em ao.
Grigori apurou os ouvidos, mas no escutou nenhum tiro.
Seguiu dando a volta na torre at poder espiar pela quina seguinte. L chegando, conseguiu ver toda a parede norte da igreja. Tinha certeza de que encontraria o policial ali, deitado de bruos, atirando por entre os pilares do parapeito - mas no viu ningum. Para alm do parapeito, podia ver a larga rua mais abaixo, com pessoas acocoradas nos vos das portas e encolhidas nas esquinas, esperando para ver o que iria acontecer.
Logo em seguida, o fuzil do atirador disparou. Um grito vindo da rua informou a Grigori que o homem havia atingido seu alvo.
O tiro viera de cima da cabea de Grigori.
Ele ergueu os olhos. O campanrio tinha vrias janelas sem vidraas e era cercado por pequenas torres abertas, situadas em diagonal nas quinas. O atirador estava l em cima em algum lugar, disparando por uma das muitas aberturas disponveis. Por sorte, Grigori havia permanecido bem colado  parede, o que o deixara invisvel para o atirador.
Ele voltou para dentro do campanrio. No espao exguo da escada, seu fuzil lhe pareceu grande e difcil de manejar. Ele o largou no cho e sacou um dos revlveres. Pelo peso dele, soube que estava vazio. Soltou um palavro: carregar um Nagant Ml895 era tarefa demorada. Tirou uma caixa de balas do bolso do uniforme e inseriu sete delas, uma a uma, pela complexa abertura de carregamento do revlver. Ento puxou o co para trs.
Deixando para trs o fuzil, subiu a escada em caracol p ante p. Manteve um ritmo constante, sem querer se esforar a ponto de sua respirao ficar audvel. Segurava o revlver na mo direita, apontando-o escada acima.
Dali a poucos segundos, sentiu cheiro de fumaa.
O atirador estava fumando um cigarro. Mas o cheiro pungente de fumo 

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queimado era capaz de percorrer uma longa distncia, de modo que Grigori no podia ter certeza de quo perto estava o outro homem.
    frente e acima de onde estava, viu um reflexo de luz do sol. Subiu agachado, pronto para atirar. A luz entrava por uma janela sem vidraa. O atirador no estava ali.
   Grigori subiu mais um pouco e tornou a ver luz. O cheiro de fumaa ficou mais forte. Seria imaginao sua ou ele estava mesmo sentindo a presena do atirador um pouco mais  frente, depois da curva da escada? Se fosse o caso, ser que o atirador tambm sentia a presena dele?
   Ouviu o som de algum inspirando com fora. Levou um susto to grande que quase puxou o gatilho. Ento se deu conta de que era o barulho que voc fazia ao tragar um cigarro. Logo em seguida, escutou o rudo mais suave e satisfeito do fumante soltando a fumaa.
   Hesitou. No sabia para que lado o homem estava olhando, nem para onde sua arma poderia estar apontada. Queria ouvir novamente o disparo do fuzil, pois isso lhe diria que a ateno do atirador estava voltada para o lado de fora.
   Aguardar poderia significar outra morte, outro Yakov ou outra Varya sangrando sobre as pedras frias do calamento. Por outro lado, se Grigori fracassasse, quantas outras pessoas seriam abatidas pelo policial naquela tarde?
   Ele se forou a ter pacincia. Era como estar no campo de batalha. No se podia sair correndo para socorrer um companheiro ferido, sacrificando assim a prpria vida. Voc s devia correr riscos quando os motivos eram incontornveis.
   Ele ouviu outra tragada, seguida por uma longa expirao, e instantes depois a guimba amassada de um cigarro veio descendo a escada, ricocheteando na parede e aterrissando aos seus ps. Ouviu-se o barulho de um homem mudando de posio dentro de um espao apertado. Ento Grigori escutou murmrios abafados, a maioria deles parecendo insultos:
  -		Porcos... revolucionrios... judeus fedidos... putas doentes... dbeis mentais... - O atirador estava se preparando para matar novamente.
   Se Grigori conseguisse det-lo naquele instante, salvaria pelo menos uma vida.
   Ele subiu mais um degrau.
   Os murmrios prosseguiram:
  -		Animais... eslavos... ladres e criminosos... - A voz lhe pareceu um tanto familiar, e Grigori se perguntou se j conhecia aquele sujeito.
   Deu mais um passo e ento viu os ps do homem, calados com botas de couro preto novas em folha, do tipo usado pela polcia. Eram ps pequenos: o atirador era um homem baixo. Estava apoiado sobre um dos joelhos, a posio mais
   
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estvel para atirar. Grigori pde ver que ele havia se posicionado dentro de uma das pequenas torres de quina, para que conseguisse atirar em trs direes diferentes.
   Mais um degrau, pensou Grigori, e poderei lhe dar um tiro na cabea.
   Ele subiu o degrau seguinte, mas a tenso o fez pisar em falso. Ele tropeou, caiu e a arma escapou de sua mo, aterrissando no degrau de pedra com um rudo metlico.
   O atirador xingou alto, assustado, e olhou em volta.
   Com espanto, Grigori reconheceu o comparsa de Pinsky, Ilya Kozlov.
   Tentou agarrar a arma no cho, mas no conseguiu. O revlver foi caindo pela escadaria de pedra com uma lentido torturante, degrau por degrau, at ir parar bem fora do seu alcance.
   Kozlov comeou a se virar, porm, ajoelhado como estava, no conseguiu se mover depressa.
   Grigori recuperou o equilbrio e subiu mais um degrau.
   Kozlov tentou girar o fuzil. Era o Mosin-Nagant padro do Exrcito russo, mas com uma mira telescpica acoplada. Mesmo sem a baioneta, o fuzil tinha mais de um metro de comprimento, de modo que Kozlov no conseguiu prepar-lo com rapidez suficiente. Movendo-se depressa, Grigori chegou mais perto, batendo com o ombro esquerdo no cano do fuzil. Kozlov apertou o gatilho inutilmente e uma bala ricocheteou pela parede curva do vo da escada.
   Kozlov saltou de p com uma agilidade surpreendente. Tinha uma cabea pequena e um rosto cruel e, em algum lugar de sua mente, Grigori imaginou que ele tivesse se tornado atirador para se vingar de todos os meninos - e meninas - maiores que algum dia o houvessem maltratado.
   Grigori conseguiu agarrar o fuzil e os dois homens lutaram pela arma, um de frente para o outro na pequena torre apertada, ao lado da janela sem vidraa. Grigori ouviu gritos de empolgao e imaginou que as pessoas na rua provavelmente conseguiam v-los.
   Grigori era maior e mais forte e sabia que conseguiria se apoderar da arma. Kozlov tambm percebeu isso, ento a largou de repente. Grigori cambaleou para trs. Em uma frao de segundo, o policial sacou seu cassetete de madeira curto e golpeou, acertando Grigori na cabea, Por alguns instantes, Grigori viu estrelas. Com a vista embaada, notou que Kozlov tornava a erguer o cassetete. Levantou o fuzil e o cassetete acertou o cano. Antes de o policial poder desferir um novo golpe, Grigori soltou a arma, agarrou a frente do casaco de Kozlov com as duas mos e o ergueu do cho.
   
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   O outro homem era franzino e no pesava quase nada. Grigori manteve-o suspenso por alguns instantes. Ento, usando toda a sua fora, atirou-o pela janela.
   Kozlov pareceu cair pelo ar muito lentamente. A luz do sol cintilou nos ornamentos verdes do seu uniforme enquanto ele voava por cima do parapeito do telhado da igreja. Um grito demorado de puro terror ecoou pelo silncio. Ele ento atingiu o solo com um baque que pde ser ouvido mesmo do campanrio. O berro se interrompeu abruptamente.
   Aps alguns instantes de silncio, uma ovao se fez ouvir.
   Grigori se deu conta de que era a ele que as pessoas estavam ovacionando. Podiam ver o uniforme da polcia no cho e a farda do Exrcito na pequena torre, ento deduziram o que havia acontecido. Enquanto ele observava, elas emergiam de vos de portas e esquinas e iam se postar no meio da rua, com os olhos erguidos em sua direo, gritando e aplaudindo. Ele era um heri.
   No ficou  vontade com a situao. Havia matado vrias pessoas na guerra, e h tempos que no se deixava abalar por isso, mas ainda assim achava difcil comemorar outra morte, por mais que Kozlov tivesse merecido. Continuou onde estava por algum tempo, deixando-se aplaudir, mas sentindo-se constrangido. Ento se abaixou para entrar de volta e desceu a escada em caracol.
   No caminho, recolheu seu revlver e seu fuzil. Quando chegou  igreja, o padre Mikhail estava  sua espera com um ar amedrontado. Grigori apontou o revlver para ele.
   - Eu deveria lhe dar um tiro - falou. - Aquele policial que o senhor deixou subir no telhado matou dois amigos meus e pelo menos trs outras pessoas. O senhor  um demnio assassino por ter permitido que ele fizesse isso. - O padre ficou to chocado ao ser chamado de demnio que no soube o que responder. Grigori, no entanto, no conseguiu se forar a atirar em um civil desarmado, ento soltou um grunhido e saiu da igreja.
   Os homens de seu peloto estavam  sua espera e soltaram rugidos de aprovao quando ele emergiu  luz do sol. No pde evitar que o erguessem nos ombros e sassem carregando-o em procisso.
   De cima dos seus braos, ele notou que o clima na rua estava diferente. As pessoas estavam mais embriagadas e em cada quarteiro havia uma ou outra desmaiada pelas soleiras. Ele ficou surpreso ao ver homens e mulheres fazendo muito mais do que apenas trocar beijos nos becos. Todos estavam armados: sem dvida a turba havia assaltado outros arsenais e talvez at fbricas de armamentos. Em cada cruzamento havia carros batidos, alguns com ambulncias e mdicos cuidando dos feridos. Alm dos adultos, havia crianas na rua, sendo que os
   
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meninos pequenos eram os que mais se divertiam, roubando comida, fumando
cigarros e brincando dentro de carros abandonados.
   Grigori viu uma loja de peles sendo saqueada com uma eficincia que lhe
pareceu profissional e identificou Trofim, ex-comparsa de Lev, carregando braadas de casacos de pele para fora da loja e empilhando-os em um carrinho de
mo sob o olhar de outro amigo de Lev, o policial corrupto Fyodor, que vestira
um sobretudo do tipo que os camponeses usavam para esconder o uniforme. Os
criminosos da cidade viam a revoluo como uma oportunidade.
   Depois de algum tempo, os homens de Grigori o puseram no cho. A tarde
estava escurecendo e vrias fogueiras haviam sido acesas na rua. Em volta delas,
pessoas reunidas bebiam e cantavam canes.
   Grigori ficou pasmo ao ver um menino de cerca de 10 anos pegar a pistola de
um soldado desmaiado. Era uma Luger P08 automtica de cano comprido, normalmente fornecida s guarnies de artilharia alems: o soldado devia t-la
pego de um prisioneiro no front. O menino segurou a arma com as duas mos,
sorrindo, e apontou-a para o homem no cho. Quando Grigori avanou para
tirar-lhe a pistola das mos, o menino puxou o gatilho e uma bala se enterrou no
peito do soldado embriagado. O menino gritou, mas, de tanto susto, manteve o
gatilho puxado, de modo que a pistola automtica continuou a disparar. O coice
da arma empurrou o brao do menino para cima e ele disparou uma chuva de
balas, acertando uma senhora de idade e outro soldado, at esvaziar o cartucho
de oito tiros. Ento largou a pistola.
   Antes que Grigori pudesse reagir ao horror que sentia, ouviu um grito e se
virou. No vo da porta de uma chapelaria fechada, um casal fazia sexo. A mulher,
de costas para a parede, tinha a saia erguida at a cintura e as pernas abertas; seus
ps calados com botas estavam fincados no cho. O homem, que usava uma
farda de cabo, estava enfiado no meio de suas pernas, com os joelhos dobrados e
a cala aberta, estocando. Ao redor dos dois, o peloto de Grigori aplaudia.
   O homem pareceu atingir o orgasmo. Recuou depressa, deu as costas para a
mulher e abotoou a braguilha enquanto ela puxava a saia para baixo. Um soldado chamado Igor disse:
  -		Espere um instante. Agora  a minha vez! - Ento levantou a saia da mulher,
exibindo suas pernas brancas.
   Os outros vibraram.
  -		No! - disse a mulher, tentando afast-lo. Ela estava bbada, mas no indefesa.
   Igor era um homem baixinho e musculoso, dotado de uma fora imprevisvel.
Ele a empurrou em direo  parede e agarrou-lhe os pulsos.

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-		Vamos l - falou. - Um soldado a mais, outro a menos no faz diferena.
A mulher se debateu, mas dois outros soldados a seguraram para imobiliz-la.
O primeiro parceiro dela falou:
-		Ei, deixem-na em paz!
-		Voc j teve a sua vez, agora sou eu - disse Igor, desabotoando a cala.
A cena deixou Grigori revoltado.
-		Parem com isso! - gritou ele.
Igor lanou-lhe um olhar desafiador.
-		Est me dando essa ordem como oficial, Grigori Sergeivich?
-		Como oficial no... como ser humano! - respondeu Grigori. - Ora, Igor, voc est vendo que ela no o quer. H muitas outras mulheres por a.
-		Eu quero esta. - Igor olhou em volta. - Todos ns queremos esta... no , rapazes?
Grigori deu um passo  frente e parou com as mos nos quadris.
-		Vocs so homens ou cachorros? - gritou. - A mulher disse no! - Ele passou o brao ao redor do revoltado Igor. - Me diga uma coisa, camarada - pediu. - Tem algum lugar por aqui onde um homem possa tomar um trago?
Igor abriu um sorriso, os soldados vibraram e a mulher escapuliu.
-		Estou vendo um pequeno hotel do outro lado da rua - disse Grigori. - O que acham de perguntarmos ao dono se ele por acaso tem um pouco de vodca?
Os homens tornaram a vibrar e todos entraram no hotel.
No saguo, um dono assustado servia cerveja de graa. Grigori achou a atitude sensata. Os homens demoravam mais tempo para beber cerveja do que vodca, o que os deixava menos propensos a ficarem violentos.
Ele aceitou um copo e deu um gole generoso. Sua euforia havia desaparecido. Era como se tivesse ficado sbrio depois de um momento de embriaguez. O incidente com a mulher na soleira o deixara estarrecido, e ver o menininho disparando a pistola automtica tinha sido horrvel. Para se fazer uma revoluo, no bastava apenas livrar-se dos grilhes. Armar o povo era arriscado. Permitir aos soldados confiscar os carros da burguesia era quase igualmente letal. At mesmo a liberdade aparentemente inofensiva de beijar quem voc bem entendesse havia conduzido, em poucas horas, a uma tentativa de estupro coletivo por parte do peloto de Grigori.
Aquilo no podia continuar.
Era preciso haver ordem. No que Grigori quisesse voltar aos velhos tempos,  claro. O czar lhes dera filas para comprar po, uma polcia violenta e soldados sem botas. Contudo, era preciso haver liberdade sem caos.

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   Grigori murmurou uma desculpa dizendo que precisava urinar e abandonou
seus homens. Voltou pelo mesmo caminho da vinda, a Nevsky Prospekt. O povo
tinha vencido a batalha do dia. A polcia e os oficiais do Exrcito do czar haviam
sido derrotados. No entanto, se isso conduzisse apenas a uma orgia de violncia,
o povo no tardaria a clamar pelo retorno do antigo regime.
   Quem estava no comando? Pelo que Kerenski tinha contado a Grigori na vspera, a Duma havia desafiado o czar e se recusado a fechar. O Parlamento era um
tanto impotente, mas pelo menos simbolizava a democracia. Grigori resolveu ir
at o Palcio Tauride para ver se havia algo acontecendo por l.
   Andou na direo norte at o rio, depois para o leste at os jardins do palcio.
Quando chegou, a noite j havia cado. A fachada clssica do palcio tinha dzias
de janelas e todas estavam acesas. Vrios milhares de pessoas haviam tido a mesma
ideia de Grigori, de modo que o amplo ptio frontal estava abarrotado de soldados e operrios zanzando de um lado para outro.
   Um homem com um alto-falante fazia um pronunciamento, repetindo sem
parar as mesmas palavras. Grigori abriu caminho at a frente para poder ouvir.
  -		O Grupo de Trabalhadores do Comit de Indstrias de Guerra foi libertado
da priso Kresty - gritava o homem.
   Grigori no sabia ao certo que grupo era esse, mas o nome soava bem.
  -		Junto com outros camaradas, eles formaram o comit executivo provisrio
do Soviete de Delegados dos Trabalhadores.
   Grigori gostou da ideia. Um soviete era um conselho de representantes. Em
1905, havia sido criado um soviete de So Petersburgo. Grigori tinha apenas 16
anos na poca, mas sabia que o conselho fora eleito por operrios e organizara
greves. Ele possua um lder carismtico, chamado Leon Trtski, que desde ento
estava exilado.
  -		Tudo isso ser anunciado oficialmente em uma edio extra do jornal
Izvestia. O comit executivo formou uma comisso de abastecimento alimentar
para garantir que os operrios e soldados tenham o que comer. Tambm criou
uma comisso militar para amparar a revoluo.
   No houve meno  Duma. A multido aplaudia, porm Grigori tinha dvidas se os soldados aceitariam receber ordens de uma comisso militar autonomeada. Onde estava a democracia nisso tudo?
   Sua pergunta foi respondida pela ltima frase do pronunciamento:
  -		O comit convoca os operrios e soldados a elegerem representantes para o
soviete o quanto antes e a enviarem esses representantes aqui para o palcio de
modo que possam participar do novo governo revolucionrio!

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   Era isso que Grigori queria escutar. O novo governo revolucionrio - um soviete de operrios e soldados. Agora sim haveria mudana sem desordem. Cheio de entusiasmo, ele saiu do ptio e comeou a voltar para o quartel. Mais cedo ou mais tarde, os homens retornariam para suas camas. Mal podia esperar para lhes dar a notcia.
   Ento, pela primeira vez, eles teriam uma eleio.
Na manh do dia seguinte, o Primeiro Regimento de Metralhadoras se reuniu no ptio de desfiles para eleger um delegado para o soviete de Petrogrado. Isaak sugeriu o sargento Grigori Peshkov.
   Ele foi eleito por unanimidade.
   Grigori ficou satisfeito. Conhecia a vida dos soldados e operrios e levaria o cheiro de leo de mquina da vida real para os corredores do poder. Jamais colocaria uma cartola na cabea e esqueceria suas razes. Iria garantir que a revolta conduzisse a melhorias, e no a uma violncia descontrolada. Agora tinha uma chance concreta de construir uma vida melhor para Katerina e Vladimir.
   Ele atravessou depressa a ponte Liteiny, sozinho desta vez, e tomou o caminho do Palcio Tauride. A prioridade no momento tinha que ser o po. Katerina, Vladimir e os outros 2,5 milhes de habitantes de Petrogrado precisavam comer. E, agora que havia assumido a responsabilidade - pelo menos na sua imaginao -, ficou apreensivo. Os agricultores e donos de moinhos da zona rural precisavam mandar mais farinha para os padeiros de Petrogrado imediatamente, mas s fariam isso depois que fossem pagos. Como o soviete iria garantir que houvesse dinheiro suficiente? Ele comeou a achar que derrubar o governo havia sido a parte mais fcil.
   O palcio tinha uma fachada central comprida e duas alas. Grigori descobriu que tanto a Duma quanto o soviete estavam reunidos. Como no poderia deixar de ser, a Duma - o antigo Parlamento de classe mdia - ocupava a ala direita, enquanto o soviete, a esquerda. Mas quem estava no comando? Ningum sabia. Primeiro era preciso resolver isso, pensou Grigori com impacincia, antes de poderem cuidar dos problemas de verdade.
   Nos degraus do palcio, Grigori viu a figura alta e magra de Konstantin, com sua cabeleira negra. Foi quando percebeu, chocado, que no fizera meno alguma de avisar Konstantin sobre a morte de sua me, Varya. Contudo, viu na mesma hora que o amigo j sabia. Alm da braadeira vermelha, Konstantin usava um cachecol preto amarrado em volta do chapu.
   
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   Grigori lhe deu um abrao.
  -		Eu estava l quando aconteceu - falou.
  -		Foi voc quem matou o atirador da polcia?
  -		Sim.
  -		Obrigado. Mas a verdadeira vingana ser a revoluo.
   Konstantin havia sido eleito um dos dois delegados da Metalrgica Putilov.
Durante a tarde, cada vez mais representantes foram chegando - at que, no incio da noite, j eram mais de trs mil amontoados no imenso Salo Catarina.
Quase todos eram soldados. Como se organizavam em regimentos e pelotes,
Grigori imaginou que tivesse sido mais fcil para eles realizarem eleies do que
para os operrios, muitos dos quais estavam proibidos de entrar em seus locais
de trabalho. Alguns delegados tinham sido eleitos por umas poucas dzias de
pessoas, outros por milhares. A democracia no era to simples quanto parecia.
   Algum props que o nome do conselho deveria ser trocado para Soviete dos
Delegados de Operrios e Soldados de Petrogrado, ideia que foi aprovada ao som
de aplausos ensurdecedores. No parecia existir nenhum procedimento estabelecido. No havia pauta, nem resolues sendo propostas ou apoiadas, nem mecanismo de votao. As pessoas apenas se levantavam e falavam, geralmente mais
de uma de cada vez. No palanque, vrios homens com uma aparncia suspeita de
classe mdia tomavam notas, e Grigori sups que fossem os membros do comit executivo formado na vspera. Pelo menos algum estava registrando as atas.
   Apesar do caos preocupante, a atmosfera era de tremenda animao. Todos
sentiam ter travado uma batalha e vencido. Fosse qual fosse o resultado, estavam
construindo um mundo novo.
   Mas ningum falava em po. Frustrados com a falta de atitude do soviete,
Grigori e Konstantin deixaram o Salo Catarina em um momento particularmente catico e atravessaram o palcio para descobrir o que a Duma estava
fazendo. No caminho, viram soldados com braadeiras vermelhas empilhando
comida e munio no corredor, como se estivessem se preparando para um
cerco.  claro, pensou Grigori: o czar no vai aceitar o que aconteceu e pronto.
Em algum momento, tentar recuperar o controle pela fora. E isso implica atacar o palcio.
   Na ala direita, toparam com o conde Maklakov, um dos diretores da Metalrgica
Putilov. Ele era delegado de um partido de centro-direita, mas se dirigiu aos dois
com educao. Disse-lhes que mais um comit havia sido formado, o Comit
Temporrio de Membros da Duma para a Restaurao da Ordem na Capital e o
Estabelecimento de Relaes com Indivduos e Instituies. Apesar do nome
   
609
 

ridculo, Grigori teve a sensao de que aquela era uma tentativa inquietante de a Duma assumir o controle. Ficou ainda mais preocupado quando Maklakov lhe disse que o comit havia nomeado um tal coronel Engelhardt como comandante de Petrogrado.
-		Sim - disse Maklakov com satisfao. - E eles instruram todos os soldados a retornarem aos quartis e obedecerem s ordens.
-		O qu? - Grigori estava chocado. - Mas isso seria o fim da revoluo. Os oficiais do czar retomariam o controle!
-		Os membros da Duma no acreditam que haja uma revoluo.
-		Os membros da Duma so uns idiotas - retrucou Grigori, furioso.
Maklakov empinou o nariz e se afastou.
Konstantin estava to irritado quanto Grigori.
-		Isso  uma contrarrevoluo! - falou.
-		E precisa ser impedida - disse Grigori.
Os dois voltaram s pressas para a ala esquerda. No grande saguo, um presidente de sesso tentava controlar os debates. Grigori saltou para o palanque.
-		Tenho um anncio urgente! - gritou.
-		Voc e todo mundo - disse o presidente com desnimo. - Mas que se dane, pode falar.
-		A Duma est ordenando que os soldados retornem aos quartis e aceitem a autoridade dos oficiais!
Um grito de protesto se ergueu do grupo de delegados.
-		Camaradas! - exclamou Grigori, tentando acalm-los. - Ns no aceitaremos a velha ordem de volta!
Os representantes concordaram com um rugido.
-		O povo da cidade precisa de po. Nossas mulheres precisam se sentir seguras na rua. As fbricas precisam reabrir e as moendas precisam girar... mas no como era antes.
Grigori havia conquistado a ateno de todos, que no sabiam ao certo aonde ele queria chegar.
-		Ns, soldados, temos que parar de espancar os burgueses, de assediar as mulheres na rua e de saquear lojas de vinho. Devemos voltar para nossos quartis, curar a bebedeira e retomar nossas funes, mas... - Ele fez uma pausa de efeito e acrescentou: - ... sob nossas prprias condies!
Houve um burburinho de aprovao.
-		E que condies seriam essas?
Algum gritou:

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-		Comits eleitos para emitir ordens no lugar dos oficiais!
Outra pessoa disse:
-		Acabar com tratamentos do tipo "Sua Excelncia" e "Mais Alto Fulgor" e passar a usar tenente, coronel e general.
-		Chega de prestar continncia! - gritou mais algum.
Grigori no sabia o que fazer. Cada um tinha sua prpria sugesto. No conseguia sequer escut-las, quanto mais se lembrar de todas elas.
O presidente da sesso veio em seu socorro:
-		Eu proponho que todos aqueles que tenham alguma sugesto formem um grupo com o camarada Sokolov. - Grigori sabia que Nikolai Sokolov era um advogado de esquerda. Isso  bom, pensou: precisamos de algum para redigir nossa proposta nos termos jurdicos corretos. O presidente continuou: - Depois de chegarem a um consenso sobre o que desejam, tragam sua proposta para ser aprovada pelo soviete.
-		Certo. - Grigori saltou para fora do palanque. Sokolov estava sentado diante de uma pequena mesa em uma das laterais do salo. Grigori e Konstantin se aproximaram dele, acompanhados de pelo menos uma dzia de outros delegados.
-		Muito bem - disse Sokolov. - A quem devo enderear a proposta?
Outra vez, Grigori no soube o que fazer. Estava prestes a responder "Ao mundo", quando um soldado sugeriu:
-		 guarnio de Petrogrado.
-		E a todos os soldados da Guarda, do Exrcito e da Artilharia - disse outro.
-		E da Marinha - falou um terceiro.
-		Muito bem - disse Sokolov enquanto anotava. - Para execuo imediata e precisa, imagino?
-		Sim.
-		E tambm para informao dos operrios de Petrogrado?
Grigori comeou a ficar impaciente.
-		Sim, sim - respondeu. - Ento, quem props comits eleitos?
-		Fui eu - disse um soldado de bigode grisalho. Ele estava sentado na beirada da mesa, bem em frente a Sokolov. Como se estivesse ditando, prosseguiu: - Todas as tropas devem criar comits com seus representantes eleitos.
Sem parar de escrever, Sokolov disse:
-		Em todas as companhias, batalhes, regimentos...
-		Postos de treinamento, baterias, esquadres, navios de guerra - acrescentou algum.

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-		Quem ainda no tiver elegido seus delegados deve faz-lo - atalhou o homem de bigode grisalho.
-		Certo - disse Grigori, irrequieto. - Continuando: as armas de qualquer tipo, incluindo veculos blindados, ficam sob o controle dos comits de cada batalho e companhia, no dos oficiais.
Vrios dos soldados manifestaram sua aprovao.
-		Muito bem - disse Sokolov.
-		Todas as unidades militares ficam subordinadas ao Soviete dos Delegados de Operrios e Soldados e a seus comits - continuou Grigori.
Pela primeira vez, Sokolov ergueu os olhos.
-		Isso significaria que o soviete controla o Exrcito.
-		Sim - disse Grigori. - As ordens da comisso militar da Duma s devem ser obedecidas quando no entrarem em conflito com as decises do soviete.
Sokolov continuou olhando para Grigori.
-		Isso torna a Duma to impotente quanto sempre foi. Ela antes era subordinada aos caprichos do czar. Agora, qualquer deciso sua ter que ser aprovada pelo soviete.
-		Exatamente - disse Grigori.
-		Ento o soviete  o poder supremo.
-		Coloque isso no papel - falou Grigori.
Sokolov colocou.
-		Os oficiais ficam proibidos de ser grosseiros com outras patentes - disse algum.
-		Est certo - falou Sokolov.
-		E no devem cham-las de tyi, como se fossem animais ou crianas.
Grigori achava que essas clusulas eram triviais.
-		O documento precisa de um ttulo - falou.
-		O que voc sugere? - perguntou Sokolov.
-		Como voc intitulou as ordens anteriores do soviete?
-		No h nenhuma ordem anterior - respondeu Sokolov. - Esta  a primeira.
-		Ento est decidido - disse Grigori. - Ponha o ttulo "Ordem Nmero Um".
Redigir seu primeiro texto legislativo como representante eleito causou profunda satisfao em Grigori. Ao longo dos dois dias seguintes, vrios outros foram redigidos, e ele ficou totalmente absorvido pelo trabalho incessante de um governo

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revolucionrio. No entanto, pensava o tempo todo em Katerina e Vladimir e, na noite de quinta-feira, finalmente teve a oportunidade de escapulir para ver como eles estavam.
   Enquanto seguia rumo aos bairros residenciais do sudoeste, tinha o corao cheio de apreenso. Katerina havia prometido ficar longe dos problemas, contudo, as mulheres de Petrogrado consideravam aquela revoluo to delas quanto dos homens. Afinal de contas, tudo havia comeado no Dia Internacional da Mulher. Isso no era nenhuma novidade. A me de Grigori morrera na revoluo fracassada de 1905. Se Katerina houvesse decidido ir at o centro da cidade com Vladimir no colo para ver o que estava acontecendo, no teria sido a nica me a fazer isso. E muitos inocentes haviam morrido - alvejados pela polcia, pisoteados pela multido, atropelados por soldados bbados ao volante de carros confiscados, ou atingidos por balas perdidas. Ao entrar na velha casa, ele temeu ser recebido por uma das inquilinas, com uma expresso solene no rosto e os olhos cheios de lgrimas, dizendo "Aconteceu uma coisa terrvel".
   Subiu a escada, bateu na porta de Katerina e entrou. Ela pulou da cadeira e se atirou em seus braos.
   -		Voc est vivo! - exclamou ela, beijando-o com avidez. - Eu estava to preocupada! No sei o que seria de ns sem voc.
   -		Desculpe no ter podido vir antes - disse Grigori. - Mas eu agora sou delegado do soviete.
   -		Um delegado! - Katerina estava radiante de orgulho. - Meu marido! - Ela lhe deu um abrao.
   Grigori tinha conseguido impression-la de verdade. Era a primeira vez que isso acontecia.
   -		Um delegado s faz representar as pessoas que o elegeram - falou com modstia.
   -		Mas elas sempre escolhem os mais inteligentes e confiveis.
   -		Bom, elas tentam.
   O cmodo estava iluminado pela luz fraca de uma lamparina a leo. Grigori ps um embrulho sobre a mesa. Graas a seu novo status, no tivera problemas para conseguir comida na cozinha do quartel.
   -		Tem tambm alguns fsforos e um cobertor no pacote - disse ele.
   -		Obrigada!
   -		Espero que voc esteja ficando o mximo possvel em casa. Ainda est perigoso nas ruas. Alguns de ns estamos fazendo uma revoluo, mas outros esto simplesmente perdendo as estribeiras.
   
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-		Eu mal sa de casa. Estava esperando notcias suas.
-		Como vai nosso menininho? - Vladimir dormia no canto do quarto.
-		Com saudades do pai.
Ela estava se referindo a Grigori. Ele no fazia questo que Vladimir o chamasse de pai, mas havia aceitado o capricho de Katerina. Dificilmente algum deles tornaria a ver Lev um dia - h quase trs anos que ele no mandava notcias -, de modo que o menino jamais saberia a verdade. Talvez fosse melhor assim.
-		 uma pena ele estar dormindo - disse Katerina. - Ele adora ver voc.
-		Eu falo com ele pela manh.
-		Voc vai poder passar a noite aqui? Que maravilha!
Grigori se sentou, ao que Katerina se ajoelhou diante dele e tirou suas botas.
-		Voc parece cansado - comentou.
-		E estou, mesmo.
-		Vamos para a cama. J  tarde.
Katerina comeou a desabotoar a farda de Grigori e ele se recostou na cadeira, deixando que ela o ajudasse.
-		O general Khabalov est escondido no Almirantado - disse ele. - Ficamos com medo de que retomasse o controle das estaes de trem, mas ele nem sequer tentou.
-		Por que no?
Grigori deu de ombros.
-		Covardia. O czar ordenou a Ivanov que entrasse em Petrogrado e estabelecesse uma ditadura militar, mas os homens de Ivanov se amotinaram e a operao foi cancelada.
Katerina franziu as sobrancelhas.
-		A antiga classe governante simplesmente desistiu?
-		 o que parece. Estranho, no? Mas est claro que no vai haver contrarre- voluo.
Eles foram para a cama, Grigori de roupa de baixo, Katerina ainda de vestido. Ela nunca havia se despido na sua frente. Talvez sentisse que no podia se entregar totalmente. Era uma peculiaridade sua que ele aceitava, mas no sem alguma tristeza. Ele a abraou e beijou. Quando a penetrou, ela disse:
-		Eu te amo. - E ele se sentiu o homem mais sortudo do mundo.
Depois, sonolenta, ela perguntou:
-		O que vai acontecer agora?
-		Haver uma assembleia constituinte, eleita pelo que eles chamam de voto quaternrio: universal, direto, secreto e igualitrio. Enquanto isso, a Duma est formando um governo provisrio.

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-		Quem vai ser o lder?
-		Lvov.
Katerina sentou-se na cama.
-		Um prncipe! Por qu?
-		Eles querem a confiana de todas as classes.
-		Ao diabo com todas as classes! - A indignao a tornava ainda mais bela, corando suas faces e fazendo seus olhos brilharem. - Quem fez a revoluo foram os operrios e os soldados. Por que precisamos da confiana de quem quer que seja?
Essa questo tambm havia incomodado Grigori, mas a resposta o convencera.
-		Ns precisamos que os empresrios faam suas fbricas operar, que os atacadistas voltem a abastecer a cidade e que os lojistas reabram suas portas.
-		E quanto ao czar?
-		A Duma est exigindo que ele abdique. Mandaram dois delegados at Pskov para lhe dar o ultimato.
Katerina arregalou os olhos.
-		Abdicar? O czar? Mas isso seria o fim.
-		Sim.
-		E  possvel?
-		No sei - respondeu Grigori. - Vamos descobrir amanh.
Na sexta-feira, no Salo Catarina do Palcio Tauride, o debate foi tumultuado. Dois ou trs mil homens e algumas mulheres abarrotavam o salo e o ar recendia a fumaa de tabaco e a soldados sem banho. Todos esperavam notcias sobre o que o czar iria fazer.
A todo momento, anncios interrompiam o debate. Muitas vezes, no eram nada urgentes - um soldado se levantava para dizer que seu batalho havia formado um comit e prendido o coronel. s vezes, no eram sequer anncios, mas discursos exigindo que a revoluo fosse defendida.
No entanto, Grigori percebeu que havia algo de diferente quando um sargento de cabelos grisalhos saltou para cima do palanque, com o rosto afogueado e a respirao acelerada, trazendo na mo uma folha de papel e pedindo silncio.
Com a voz lenta e bem alta, ele disse:
-		O czar assinou um documento...
A vibrao comeou logo depois dessas poucas palavras.

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-		... abdicando a coroa...
Os vivas se transformaram em um rugido. Grigori ficou admirado. Aquilo era mesmo verdade? Teria o sonho se realizado de fato?
O sargento ergueu a mo, pedindo silncio. Ainda no havia terminado.
-		... e, por causa da sade precria de seu filho de 12 anos, Alexei, o czar nomeou como sucessor o gro-duque Mikhail, seu irmo caula.
A comemorao se transformou em uivos de protesto.
-		No! - gritou Grigori, sua voz se perdendo entre os milhares de outras.
Quando, depois de vrios minutos, todos comearam a se acalmar, um rugido
ainda mais alto ressoou vindo do lado de fora. A multido no ptio devia ter escutado a mesma notcia e a estava recebendo com a mesma indignao.
-		O governo provisrio no pode aceitar isso - disse Grigori a Konstantin.
-		Concordo - respondeu seu amigo. - Vamos dizer isso a eles.
Os dois saram do soviete e atravessaram o palcio. Os ministros do governo recm-formado estavam reunidos na sala que antes abrigava o comit temporrio - na verdade, tratava-se praticamente dos mesmos homens, o que era preocupante. J estavam debatendo sobre o pronunciamento do czar.
Pavel Miliukov estava em p. O moderado, que usava um monculo, argumentava que a monarquia deveria ser preservada como smbolo de legitimidade.
-		Quanta imbecilidade - murmurou Grigori. A monarquia simbolizava incompetncia, crueldade e derrota, tudo menos legitimidade. Felizmente, outros pensavam como ele. Kerenski, agora ministro da Justia, props que o gro-duque Mikhail fosse instrudo a recusar a coroa e, para alvio de Grigori, a maioria dos presentes concordou.
Kerenski e o prncipe Lvov foram escolhidos para partir imediatamente ao encontro de Mikhail. Miliukov, lanando um olhar raivoso atravs de seu monculo, disse:
-		E eu deveria ir com eles, para representar a opinio da minoria!
Grigori imaginou que essa sugesto tola fosse ser rejeitada, porm os outros ministros assentiram sem convico. Grigori ento se levantou. Sem pensar muito, disse:
-		E eu acompanharei os ministros como observador do soviete de Petrogrado.
-		Est certo, est certo - disse Kerenski com a voz cansada.
Os quatro saram do palcio por uma porta lateral e entraram em duas limusines Renault que os aguardavam. O ex-presidente da Duma, um homem muito gordo chamado Mikhail Rodzianko, os acompanhava. Grigori mal conseguia acreditar no que estava lhe acontecendo. Fazia parte de uma delegao

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prestes a ordenar que um prncipe da coroa recusasse o ttulo de czar. Menos de uma semana antes, havia descido obedientemente de uma mesa porque o tenente Kirillov mandara. O mundo estava mudando to depressa que era difcil no ficar para trs.
   Grigori nunca havia entrado na residncia de um aristocrata e teve a impresso de adentrar um mundo de sonho. A imensa casa era abarrotada de riquezas. Para onde quer que olhasse, havia vasos deslumbrantes, relgios ornamentados, candelabros de prata e bibels incrustados de jias. Se tivesse agarrado uma tigela de ouro e sado correndo pela porta da frente, poderia t-la vendido por dinheiro suficiente para comprar uma casa - embora, naquele momento, ningum fosse comprar tigelas de ouro, pois tudo o que queriam era po.
   O prncipe Georgy Lvov, homem de cabelos prateados com uma barba grande e espessa, obviamente no estava impressionado com o ambiente, tampouco intimidado com a solenidade de sua misso, porm todos os demais pareciam nervosos. Ficaram esperando na sala de estar, arrastando os ps pelos grossos tapetes, sob os olhares carrancudos de retratos de antepassados.
   Por fim, o gro-duque Mikhail apareceu. Era um homem de 38 anos, que ostentava uma calvcie prematura e um bigodinho. Para surpresa de Grigori, parecia mais nervoso do que a delegao. Apesar de manter a cabea erguida com arrogncia, dava uma impresso de timidez e perplexidade. Depois de algum tempo, reuniu a coragem necessria para perguntar:
  -		O que os senhores tm a me dizer?
  -		Ns viemos lhe pedir para no aceitar a coroa - respondeu Lvov.
  -		Oh, cus! - exclamou Mikhail, parecendo no saber o que fazer em seguida.
   Kerenski manteve a presena de esprito. Falou de maneira clara e firme.
  -		O povo de Petrogrado reagiu com indignao  deciso de Sua Majestade, o czar - disse ele. - Um contingente macio de soldados j est marchando rumo ao Palcio Tauride. A menos que ns anunciemos imediatamente que o senhor se recusou a assumir o ttulo de czar, haver uma violenta revolta seguida de guerra civil.
  -		Ah, meu Deus! - comentou Mikhail com voz dbil.
   Grigori percebeu que o gro-duque no era muito inteligente. O que no  nenhuma surpresa, pensou. Se aquelas pessoas fossem inteligentes, no estariam a ponto de perder o trono da Rssia.
  -		Vossa Alteza - disse Miliukov por trs de seu monculo -, eu represento a opinio da minoria no governo provisrio. A nosso ver, a monarquia  o nico smbolo de autoridade aceito pelo povo.
   
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Mikhail pareceu ainda mais confuso. A ltima coisa de que precisava era de uma alternativa, percebeu Grigori - aquilo s piorava a situao para ele.
-		Os senhores se importam que eu troque algumas palavras a ss com Rodzianko? - pediu o gro-duque. - No saiam daqui... ns vamos apenas nos retirar para a sala ao lado.
Assim que o titubeante czar nomeado e o gordo ex-presidente do Parlamento foram embora, os demais puseram-se a conversar em voz baixa. Ningum dirigiu a palavra a Grigori. Ele era o nico representante da classe trabalhadora presente e notou que os outros sentiam um certo medo dele, desconfiados - com razo - de que os bolsos de seu uniforme de sargento estivessem recheados de armas e munio.
Rodzianko tornou a aparecer.
-		Ele me perguntou se poderamos garantir sua integridade pessoal caso ele se torne czar - disse ele. Grigori achou repulsivo que o gro-duque estivesse mais preocupado consigo mesmo do que com o prprio pas, mas no ficou surpreso. - Eu respondi que no - concluiu Rodzianko.
-		E...? - indagou Kerenski.
-		Ele vai voltar daqui a pouco.
Depois de um intervalo que pareceu interminvel, Mikhail retornou. Todos se calaram. Durante vrios instantes, ningum disse nada.
Por fim, Mikhail disse:
-		Eu decidir recusar a coroa.
Grigori teve a sensao de que seu corao havia parado de bater. Oito dias, pensou ele - as mulheres de Vyborg atravessaram a ponte Liteiny. E agora o reinado dos Romanov havia chegado ao fim.
Ele se lembrou das palavras da me no dia de sua morte: "No vou descansar at a Rssia ser uma repblica." Ento pensou: pode descansar agora, me.
Kerenski estava apertando a mo do gro-duque e dizendo algo pomposo, mas Grigori no estava prestando ateno.
Ns conseguimos, pensou ele. Ns fizemos uma revoluo.
Ns depusemos o czar.
Em Berlim, Otto von Ulrich abriu uma garrafa magnum de champanhe Perrier-Jout 1892.
Os Von Ulrich haviam convidado os Von der Helbard para almoar. Konrad,

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pai de Monika, era um Graf, ou conde, portanto sua me era uma Grfin, uma
condessa. A Grfin Eva von der Helbard era uma mulher vistosa, que usava os
cabelos grisalhos presos em um penteado alto e complexo. Antes do almoo,
encurralou Walter e lhe disse que Monika era uma excelente violinista e que
havia sido a primeira de sua classe na escola em todas as matrias. Com o canto
do olho, ele viu seu pai conversando com Monika e imaginou que ela tambm
estivesse ouvindo uma avaliao do desempenho escolar dele.
A insistncia dos pais em tentar empurrar Monika para cima dele o irritava. O
fato de que ele sentia uma forte atrao por ela piorava ainda mais a situao.
Alm de linda, ela era inteligente. Seus cabelos estavam sempre arrumados com
esmero, mas Walter no conseguia deixar de imagin-la soltando-os  noite e
sacudindo a cabea para liberar os cachos. Nos ltimos tempos, vinha tendo dificuldade em imaginar Maud.
Otto ento ergueu sua taa.
-		Adeus ao czar! - brindou.
-		Pai, estou surpreso com o senhor - disse Walter com irritao. - Est mesmo
comemorando a derrubada de um monarca legtimo por uma turba de operrios
e soldados amotinados?
Otto enrubesceu. Greta, irm de Walter, afagou o brao do pai para tranquiliz-lo.
-		No ligue, papai - disse ela. - Walter s diz essas coisas para chatear o senhor.
-		Eu conheci o czar Nicolau quando trabalhei em nossa embaixada em
Petrogrado - falou Konrad.
-		E o que o senhor achou dele? - quis saber Walter.
Monika respondeu no lugar do pai. Lanando um sorriso conspiratrio para
Walter, ela disse:
-		Papai costumava dizer que, se o czar no tivesse nascido em bero de ouro,
talvez, com algum esforo, pudesse ter virado um carteiro competente.
-		Essa  a tragdia da monarquia hereditria. - Walter se virou para o pai: -
Mas o senhor certamente reprova a democracia na Rssia, no?
-		Democracia? - repetiu Otto, irnico. - Veremos. Tudo o que se sabe  que o
novo primeiro-ministro  um aristocrata liberal.
-		Voc acha que o prncipe Lvov tentar selar a paz conosco? - perguntou
Monika para Walter.
Essa era a questo do momento.
-		Espero que sim - respondeu Walter, tentando no olhar para os seios de
Monika. - Se todas as nossas tropas na frente oriental puderem ser transferidas
para a Frana, talvez consigamos derrotar os Aliados.

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Ela ergueu sua taa e fitou Walter nos olhos por cima da borda.
-		Ento vamos brindar a isso - falou.
Em uma trincheira fria e mida no nordeste da Frana, o peloto de Billy tomava gim.
Quem havia providenciado a garrafa fora Robin Mortimer, o oficial destitudo.
-		Eu vinha guardando isto aqui - disse ele.
-		Bem, macacos me mordam! - comentou Billy, usando uma das expresses de Mildred. Mortimer era um sujeito rabugento que nunca tinha sido visto oferecendo bebida a ningum.
Mortimer serviu o gim nas tigelas de metal que os soldados usavam para comer.
-		Um brinde  revoluo - disse ele, e todos beberam, estendendo logo em seguida as tigelas para uma segunda dose.
Billy j estava animado antes mesmo de beber o gim. Os russos haviam provado que ainda era possvel derrubar tiranos.
Todos cantavam "Bandeira Vermelha" quando o conde Fitzherbert veio mancando do recesso da trincheira, suas botas chapinhando na lama. Fora promovido a coronel e estava mais arrogante do que nunca.
-		Silncio! - gritou.
O canto foi morrendo aos poucos.
-		Estamos comemorando a derrubada do czar russo! - disse Billy.
-		O czar era um monarca legtimo - disse Fitz com raiva -, e aqueles que o depuseram so criminosos. Chega de cantoria.
O desprezo de Billy por Fitz aumentou um ponto.
-		Ele era um tirano que assassinou milhares dos seus sditos, e todos os homens civilizados do mundo esto celebrando hoje.
Fitz observou-o com ateno. O conde j no usava mais o tapa-olho, mas sua plpebra esquerda havia ficado cada para sempre. No entanto, isso no parecia afetar sua viso.
-		Sargento Williams... eu deveria ter adivinhado. Conheo voc... e sua famlia.
E como!, pensou Billy.
-		A sua irm  uma agitadora pacifista.
-		E a sua tambm, senhor - retrucou Billy, o que fez Robin Mortimer soltar uma risada rouca e ento se calar de repente.
-		Mais uma palavra insolente e voc vai ganhar uma punio - disse Fitz a Billy.

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-		Perdo, senhor.
-		Agora sosseguem o facho, todos vocs. E chega de cantoria. - Fitz se afastou.
-		Vida longa  revoluo - falou Billy baixinho.
Fitz fingiu no escutar.
Em Londres, a princesa Bea gritou:
-No!
-		Tente ficar calma - disse Maud, que acabara de lhe dar a notcia.
-		Eles no podem fazer isso! - gritou Bea. - No podem obrigar nosso amado czar a abdicar! Ele  o pai do povo!
-		Talvez seja melhor assim...
-		No acredito em voc! Isso  uma mentira cruel!
A porta se abriu e Grout espichou a cabea para dentro com uma expresso preocupada.
Bea pegou um vaso japons contendo um arranjo de plantas secas e atirou-o pela sala. O vaso bateu na parede e se espatifou.
Maud afagou o ombro de Bea.
-		Pronto, passou - disse. No sabia ao certo o que mais poderia fazer. Ela prpria estava contentssima em ver o czar derrubado, mas, ainda assim, se compadecia de Bea, para quem todo um estilo de vida havia sido destrudo.
Grout chamou algum com um dedo e uma criada entrou na sala, parecendo assustada. Ele apontou para o vaso quebrado e a criada comeou a juntar os cacos.
A mesa estava posta para o ch: xcaras, pires, bules, jarrinhas de leite e creme, tigelas de acar. Bea derrubou tudo no cho com violncia.
-		Esses revolucionrios vo matar todo mundo!
O mordomo se abaixou e comeou a limpar a baguna.
-		No se exalte - disse Maud.
Bea comeou a chorar.
-		Pobre czarina! E pobres dos filhos dela! O que vai ser deles?
-		Talvez seja melhor voc deitar um pouco - falou Maud. - Venha, vou acompanh-la at o quarto. - Ela segurou o cotovelo de Bea, que se permitiu ser conduzida para fora da sala.
-		 o fim de tudo - soluou Bea.
-		No se preocupe - disse Maud. - Talvez seja um novo comeo.

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Ethel e Bernie estavam em Aberowen. Era uma espcie de lua de mel. Ethel estava gostando de apresentar a Bernie os lugares de sua infncia: a entrada da mina, a capela, a escola. Chegou at a lhe mostrar Ty Gwyn - Fitz e Bea no estavam -, embora no o tivesse levado  Sute Gardnia.
O casal estava hospedado com a famlia Griffiths, que tornara a oferecer a Ethel o quarto de Tommy, de modo que no foi preciso incomodar Gramper. Eles estavam na cozinha da Sra. Griffiths quando seu marido, Len - ateu e socialista revolucionrio chegou de supeto brandindo um jornal.
-		O czar abdicou! - disse ele.
Todos vibraram e aplaudiram. H uma semana que recebiam notcias das rebelies em Petrogrado, e Ethel vinha se perguntando como aquilo iria terminar.
-		Quem assumiu o poder? - perguntou Bernie.
-		Um governo provisrio chefiado pelo prncipe Lvov - respondeu Len.
-		Ento no chega a ser um triunfo do socialismo - disse Bernie.
-		No.
-		Alegrem-se, rapazes... - falou Ethel. - Uma coisa de cada vez! Vamos ao Two Crowns comemorar. Posso deixar Lloyd um pouco com a Sra. Ponti.
As mulheres puseram os chapus e todos saram para o pub. Em uma hora, o lugar j estava lotado. Ethel ficou espantada ao ver o pai e a me entrarem. A Sra. Griffiths tambm os viu e disse:
-		Caramba, o que eles vieram fazer aqui?
Alguns minutos depois, Da subiu em uma cadeira e pediu silncio.
-		Sei que alguns de vocs esto surpresos por me verem aqui, mas ocasies especiais pedem atitudes especiais. - Ele lhes mostrou um caneco de cerveja. - No mudei meus hbitos da vida inteira, mas o dono do pub teve a gentileza de me oferecer um copo de gua da torneira. - Todos riram. - Estou aqui para compartilhar com meus vizinhos a vitria conquistada na Rssia. - Ele ergueu o caneco. - Um brinde...  revoluo!
Todos vibraram e beberam.
-		Vejam s! - disse Ethel. - Da no Two Crowns! Nunca pensei que fosse ver esse dia.
Na Prairie House ultramoderna de Josef Vyalov em Buffalo, Lev Peshkov pegou uma garrafa do armrio de bebidas e serviu-se um drinque. Ele no bebia mais vodca. Desde que fora morar com o sogro rico, tinha aprendido a apreciar usque escocs. Gostava de beb-lo como faziam os americanos, com pedras de gelo.

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-		O que voc acha, Gus? - quis saber o presidente Wilson. - Voc  o nico aqui que conhece Petrogrado. O que vai acontecer?
-		Detesto falar como um funcionrio do Departamento de Estado, mas a situao pode tender para qualquer um dos dois lados - respondeu Gus.
Lev no gostava de morar com os sogros. Teria preferido que ele e Olga tivessem um lugar s para eles. Porm Olga preferia assim e, alm do mais, o pai dela
pagava por tudo. Lev estava preso ali at conseguir juntar seu prprio dinheiro.
Josef lia o jornal enquanto Lena costurava. Lev ergueu o copo para eles.
-		Vida longa  revoluo! - disse de forma exuberante.
-		Cuidado com o que fala - respondeu Josef. - Isso vai ser ruim para os
negcios.
Olga entrou.
-		Querido, sirva-me uma tacinha de xerez, por favor - pediu ela.
Lev reprimiu um suspiro. Ela adorava lhe pedir pequenos favores, e, na frente
dos sogros, ele no podia se recusar a faz-los. Serviu o xerez adocicado em uma
pequena taa e entregou-a para Olga, curvando-se como um garom. Ela deu um
sorriso bonito, sem entender a ironia.
Lev tomou um gole do usque e saboreou o gosto e a pungncia da bebida.
-		Sinto pena da pobre czarina e dos seus filhos - comentou a Sra. Vyalov. - O
que ser deles?
-		Com certeza sero todos mortos pela turba - disse Josef.
-		Coitados. O que o czar fez a esses revolucionrios para merecer isso?
-		Essa pergunta eu posso responder - disse Lev. Sabia que deveria ficar calado, mas no conseguiu, sobretudo com o usque a lhe aquecer as entranhas. -
Quando eu tinha 11 anos, a fbrica onde minha me trabalhava entrou em greve.
A Sra. Vyalov deu um muxoxo. Ela no acreditava em greves.
-		A polcia reuniu todos os filhos dos grevistas. Nunca vou me esquecer.
Fiquei aterrorizado.
-		Por que eles fariam uma coisa dessas? - perguntou a Sra. Vyalov.
-		Ento os policiais bateram em todos ns - disse Lev. - No traseiro, com
varas. Para dar uma lio a nossos pais.
A Sra. Vyalov tinha empalidecido. No suportava crueldade com crianas ou
animais.
-		Foi isso o que o czar e seu regime fizeram comigo, me - disse Lev. Ele chacoalhou o gelo no copo. -  por isso que eu bebo  revoluo.

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   O presidente riu. Os dois estavam no Salo Oval - Wilson atrs da escrivaninha e Gus em p diante dela.
   -		Vamos l - pediu Wilson. - D um palpite. Os russos vo sair da guerra ou no?  a pergunta mais importante do ano.
   -		Est bem. Todos os ministros do novo governo so de partidos polticos com nomes assustadores que incluem os termos socialista e revolucionrio, mas na verdade so empresrios e profissionais de classe mdia. O que eles de fato querem  uma revoluo burguesa que lhes d liberdade para fomentar a indstria e o comrcio. O povo, no entanto, quer po, paz e terra: po para os operrios, paz para os soldados e terra para os camponeses. Nada disso agrada a homens como Lvov e Kerenski. Ento, para responder  pergunta do senhor, eu acho que o governo de Lvov vai buscar uma mudana gradual. Sobretudo, vo continuar na guerra. Mas os trabalhadores no vo se contentar com isso.
   -		E quem vai ganhar no final?
   Gus se lembrou de sua ida a Petrogrado, antiga So Petersburgo, e do homem que havia lhe demonstrado como se fundia uma roda de locomotiva em uma oficina suja e caindo aos pedaos da Metalrgica Putilov. Mais tarde, Gus vira o mesmo homem brigando com um policial por causa de uma garota. No conseguia recordar seu nome, mas ainda podia visualiz-lo, com seus ombros largos e braos fortes e um dos dedos faltando. Porm, acima de tudo, visualizava seu olhar azul intenso, de determinao irrefrevel.
   -		O povo russo - respondeu Gus. - O povo russo vai ganhar no final.
   
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CAPTULO VINTE E QUATRO
Abril de 1917

Em um dia ameno no incio da primavera, Walter estava passeando com
Monika von der Helbard pelo jardim da casa dos pais dela em Berlim. A casa
era imponente e o jardim grande, com um pavilho de tnis, um gramado de crquete, uma pista de equitao para exercitar os cavalos e um parquinho infantil
com balanos e um escorrega. Walter se lembrou de ter visitado o lugar quando
criana e ficado com a impresso de que era o paraso. O jardim, no entanto, no
era mais idlico. Todos os cavalos, com exceo dos mais idosos, tinham sido despachados para o Exrcito. Galinhas arranhavam as lajotas da varanda ampla. A
me de Monika engordava um porco no pavilho de tnis. Cabras pastavam no
gramado de crquete e, segundo boatos, a prpria Grfin as ordenhava.
   Contudo, as velhas rvores estavam recuperando suas folhas, o sol brilhava e
Walter caminhava, relaxado, s de colete e camisa, com o palet jogado por sobre o
ombro - estado de nudez parcial que teria desagradado  sua me, que, no entanto,
se encontrava dentro da casa, fofocando com a Grfin. Sua irm, Greta, comeara o
passeio junto com Walter e Monika, mas arranjara uma desculpa qualquer para
deix-los sozinhos - outra coisa que sua me teria reprovado, pelo menos em teoria.
   Monika tinha um cachorro chamado Pierre. Era um gracioso poodle de pernas
compridas, com uma farta pelagem encaracolada cor de ferrugem e olhos castanho-claros, e Walter no pde deixar de pensar que o animal se parecia um
pouco com a dona, por mais linda que ela fosse.
   Walter gostava da forma como Monika tratava o cachorro. Ela no o acariciava, nem lhe dava restos de comida ou falava com ele em um tom de voz infantil
como faziam algumas garotas. Simplesmente deixava que o animal caminhasse
ao seu lado, jogando de vez em quando uma bola de tnis velha para ele pegar.
   -		E os russos, que decepo! - comentou ela.
   Walter aquiesceu. O governo do prncipe Lvov havia anunciado que o pas
continuaria na guerra. A frente oriental alem no seria liberada, de modo que
no haveria reforos para a Frana. O conflito continuaria a se arrastar.
   -		Nossa nica esperana agora  que o governo de Lvov caia e a faco pacifista assuma o poder - disse ele.
   -		E isso  provvel?
   
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-		Difcil dizer. Os revolucionrios continuam exigindo po, paz e terra. O governo prometeu uma eleio democrtica para uma assembleia constituinte... mas quem ir vencer? - Ele apanhou um graveto do cho e lanou-o para Pierre. O cachorro disparou para peg-lo e o trouxe de volta todo orgulhoso. Walter se abaixou para fazer carinho na sua cabea e, quando se ergueu, Monika estava muito perto dele.
-		Eu gosto de voc, Walter - disse, encarando-o firme com seus olhos cor de mbar. - Tenho a impresso de que nunca ficaramos sem assunto.
Ele, alm de sentir o mesmo, sabia que, se tentasse beij-la naquele instante, ela deixaria.
Afastou-se um passo.
-		Eu tambm gosto de voc - disse. - E do seu cachorro. - Para mostrar que suas palavras eram casuais, soltou uma risada.
Mesmo assim, pde ver que Monika ficou magoada. Ela mordeu o lbio e deu-lhe as costas. Havia sido o mais ousada que uma moa bem-educada poderia ser - e ele a rejeitara.
Os dois seguiram andando. Depois de um longo silncio, Monika disse:
-		Fico me perguntando qual  o seu segredo.
Meu Deus, pensou Walter, como ela  perspicaz!
-		Eu no tenho segredos - mentiu ele. - Voc tem?
-		Nenhum que valha a pena contar. - Ela ergueu a mo para tirar alguma coisa presa ao ombro dele. - Uma abelha - falou.
-		Est cedo demais no ano para abelhas.
-		Quem sabe o vero no vai chegar mais cedo.
-		No est fazendo tanto calor assim.
Ela fingiu sentir um calafrio.
-		Tem razo, est esfriando. Ser que voc poderia buscar um xale para mim? Se for at a cozinha e pedir a uma das criadas, ela encontrar um para lhe dar.
-		 claro. - No estava frio, mas um cavalheiro jamais se recusava a cumprir um pedido como aquele, por mais caprichoso que fosse. Era bvio que ela queria passar um tempo sozinha. Ele voltou andando at a casa. Tinha que resistir ao seu assdio, mas sentia muito por mago-la. Afinal, os dois de fato combinavam - suas mes tinham razo - e estava claro que Monika no conseguia entender por que ele insistia em rejeit-la.
Walter entrou na casa e desceu pela escada dos fundos at o subsolo, onde encontrou uma criada idosa usando um vestido preto e uma touca rendada. Ela saiu em busca de um xale.

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Walter ficou esperando no hall. A casa era decorada no moderno estilo Jugendstil, que havia substitudo o floreado rococ que os pais de Walter adoravam por cmodos bem iluminados, de cores suaves. O hall margeado de colunas era todo feito de mrmore cinza, e o cho, revestido com um tapete cor de cogumelo.
Parecia-lhe que Maud estava a um milho de quilmetros dali, em outro planeta. E, de certa forma, estava mesmo, pois o mundo anterior  guerra jamais voltaria. Havia quase trs anos que no via sua mulher ou tinha notcias suas - e talvez nunca mais tornasse a v-la. Embora ela no tivesse lhe sado da cabea - ele jamais se esqueceria da paixo que haviam vivido juntos -, Walter constatava, para sua agonia, que j no era capaz de recordar detalhes dos momentos que viveram juntos: que roupa ela usava, onde eles estavam quando haviam se beijado ou ficado de mos dadas, ou o que haviam comido e bebido, e quais eram os assuntos de suas conversas em todas aquelas festas londrinas, to parecidas entre si. s vezes lhe passava pela cabea que, de certa forma, a guerra os divorciara. Porm afastou esse pensamento: era de uma deslealdade vergonhosa.
A criada lhe trouxe um xale de caxemira amarelo. Ele voltou at Monika e encontrou-a sentada em um toco de rvore, com Pierre aos seus ps. Walter lhe entregou o xale, que ela colocou em volta dos ombros. A cor lhe caa bem, fazendo seus olhos cintilarem e deixando sua pele radiante.
Monika ostentava uma expresso estranha e entregou-lhe sua carteira.
-		Ela deve ter cado do seu palet - falou.
-		Ah, obrigado. - Ele a guardou de volta no bolso interno do palet, que ainda trazia pendurado no ombro.
-		Vamos voltar para dentro de casa - disse ela.
-		Como quiser.
O humor dela havia mudado. Talvez tivesse simplesmente resolvido desistir dele. Ou ser que acontecera alguma outra coisa?
Ele foi invadido por um pensamento assustador. Teria sua carteira realmente cado do bolso? Ou ser que ela a havia pegado, qual um batedor de carteiras, ao enxotar aquela improvvel abelha do ombro?
-		Monika - disse ele, parando e virando-se para encar-la. - Voc mexeu na minha carteira?
-		Voc disse que no tinha segredos - respondeu ela, ficando toda vermelha.
Ela devia ter visto o recorte de jornal que ele guardava ali: Lady Maud Fitzherbert
sempre vestida na ltima moda.
-		Que falta de educao a sua - disse ele com irritao. Estava zangado, sobretudo consigo mesmo. No deveria andar com aquela foto incriminatria. Se Monika

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podia concluir seu significado, outras pessoas tambm poderiam. Ele ento cairia em desgraa e seria afastado do Exrcito. Talvez fosse acusado de traio e preso, ou at fuzilado.
Havia sido um tolo. Mas sabia que jamais conseguiria jogar fora aquela imagem. Era tudo o que lhe restava de Maud.
Monika tocou seu brao.
-		Eu nunca fiz uma coisa dessas na vida e estou envergonhada. Mas voc precisa entender meu desespero. Ah, Walter, seria to fcil eu me apaixonar por voc, e percebo que voc tambm poderia me amar. Vejo isso nos seus olhos, na forma como sorri quando me v. Mas voc nunca disse nada! - Seus olhos estavam cheios de lgrimas. - Eu estava ficando louca.
-		Sinto muito por isso. - Ele j no conseguia permanecer indignado. Ela havia rompido com todas as regras de etiqueta e aberto o corao para ele. Walter se sentiu muito triste por ela, triste por eles dois.
-		Eu simplesmente precisava entender por que voc vive me rejeitando. Agora entendo,  claro. Ela  linda. At se parece um pouco comigo. - Monika enxugou as lgrimas. - Mas conheceu voc antes de mim, s isso. - Ela o fitou com aqueles penetrantes olhos cor de mbar. - Imagino que estejam noivos.
Walter no podia mentir para uma pessoa que estava sendo to sincera com ele. No soube o que responder.
Ela adivinhou o motivo de sua hesitao.
-		Ai, meu Deus! - exclamou. - Vocs so casados, no so?
Aquilo era um desastre.
-		Se as pessoas descobrirem, estarei em srios apuros.
-		Eu sei.
-		Posso confiar em voc para guardar meu segredo?
-		E voc ainda pergunta? - disse ela. - Voc  o melhor homem que j conheci. Eu no faria nada para prejudic-lo. Jamais direi uma s palavra.
-		Obrigado. Sei que vai manter sua promessa.
Ela desviou o olhar, lutando para conter as lgrimas.
-		Vamos entrar.
No hall, ela disse:
-		V andando. Preciso lavar o rosto.
-		Est bem.
-		Eu espero... - A voz dela se transformou em um soluo. - Espero que ela saiba a sorte que tem - sussurrou. Ento virou as costas e desapareceu no cmodo ao lado.

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Walter vestiu o palet e se recomps, subindo em seguida a escadaria de mrmore. A sala de estar era decorada no mesmo estilo discreto, com madeira clara e cortinas verde-gua. Os pais de Monika tinham um gosto melhor do que os seus, concluiu.
Sua me olhou para ele e percebeu na mesma hora que havia algo de errado.
-		Onde est Monika? - perguntou com rispidez.
Ele ergueu uma sobrancelha para a me. No era do seu feitio fazer uma pergunta cuja resposta poderia ser "Foi ao banheiro". Era bvio que estava tensa. Em voz baixa, ele respondeu:
-		Ela j est voltando.
-		Veja s isso - falou seu pai, brandindo uma folha de papel. - O gabinete de Zimmermann acabou de mandar este documento para minha avaliao. Esses tais revolucionrios russos querem atravessar a Alemanha. Que audcia! - Ele havia bebido uma ou outra taa de schnapps e estava um pouco exaltado.
-		De que revolucionrios o senhor est falando, pai? - indagou Walter com educao. No ligava para a resposta, mas ficou grato por ter um assunto para conversar.
-		Os de Zurique! Martov, Lnin e o restante deles. Agora que o czar foi deposto, teoricamente a liberdade de expresso foi instaurada na Rssia, ento eles querem voltar para casa. Mas no podem chegar at l!
Konrad von der Helbard, pai de Monika, disse em tom pensativo:
-		Imagino que no. No h como ir da Sua  Rssia sem passar pela Alemanha... Qualquer outro caminho por terra os obrigaria a passar pelas linhas de combate. Mas ainda h navios a vapor fazendo a rota entre a Inglaterra e a Sucia pelo mar do Norte, no?
-		Sim, mas eles no iriam se arriscar a passar pela Gr-Bretanha - disse Walter. - Os britnicos prenderam Trtski e Bukharin. E passar pela Frana ou pela Itlia seria ainda pior.
-		Ento eles esto presos! - exclamou Otto, triunfante.
-		O que o senhor vai aconselhar o ministro Zimmermann a fazer, pai?
-		A recusar, claro. No queremos essa ral contaminando nosso povo. Sabe-se l que tipo de problema esses demnios seriam capazes de provocar na Alemanha.
-		Lnin e Martov - disse Walter, intrigado. - Martov  menchevique, porm Lnin  bolchevique. - O servio de inteligncia alemo tinha bastante interesse nos revolucionrios russos.
-		Bolcheviques, mencheviques, socialistas, revolucionrios:  tudo a mesma coisa - disse Otto.

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-		No , no - discordou Walter. - Os bolcheviques so os mais radicais.
-		Outro motivo para mant-los fora do nosso pas! - falou a me de Monika com energia.
Walter ignorou o comentrio.
-		E mais importante ainda: os bolcheviques que vivem fora da Rssia tendem a ser mais extremistas do que os que permaneceram no pas. Os bolcheviques de Petrogrado apoiam o governo provisrio do prncipe Lvov, mas seus camaradas de Zurique, no.
Sua irm Greta interveio:
-		Como voc sabe uma coisa dessas?
Walter sabia por ter lido relatrios de inteligncia de espies alemes na Sua, que interceptavam a correspondncia dos revolucionrios. Mas respondeu:
-		Lnin fez um discurso em Zurique alguns dias atrs repudiando o governo provisrio.
Otto grunhiu com desdm, porm Konrad von der Helbard se inclinou para a frente na cadeira:
-		O que voc est pensando, meu rapaz?
-		Que, se ns nos recusarmos a deixar os revolucionrios passarem pela Alemanha, estaremos protegendo a Rssia das ideias subversivas deles.
Sua me pareceu confusa.
-		Explique, por favor.
-		Estou sugerindo que deveramos ajudar esses homens perigosos a voltarem para casa. Uma vez l, eles tentaro minar o governo russo, prejudicando sua capacidade de continuar na guerra, ou ento vo tomar o poder e selar a paz. Seja como for, a Alemanha sai ganhando.
Houve um breve silncio enquanto todos refletiam a respeito. Ento Otto deu uma risada sonora e bateu palmas.
-		Este  o meu filho! - exclamou. - Ele puxou um pouco ao seu velho pai, afinal!
Meu grande amor,
Zurique  uma cidade fria  beira de um lago, escreveu Walter, mas o sol ilumina o espelho dagua, as colinas verdejantes em volta e os Alpes ao longe. As ruas formam uma trama quadriculada, sem curvas: os suos so ainda mais ordeiros do que os alemes! Queria que voc estivesse aqui, meu amor, como queria que estivesse comigo aonde quer que eu fosse!!!

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   Os pontos de exclamao eram para dar ao censor do correio a impresso de que a carta fora escrita por uma garota com a emoo  flor da pele. Embora Walter estivesse na Sua, um pas neutro, continuava tomando cuidado para que o texto no identificasse o remetente ou o destinatrio.
   Fico me perguntando se voc tem passado pelo constrangimento de sofrer assdio por parte de pretendentes. Com sua beleza e charme, duvido que no. Eu,  claro, no possuo nenhum dos dois, mas mesmo assim tenho despertado interesse. Minha me escolheu um partido para mim, uma pessoa amiga de minha irm - algum de que gosto e que conheo desde sempre. Foi bem difcil durante algum tempo e, infelizmente, acho que essa pessoa acabou descobrindo que eu tenho uma amizade que impossibilita o matrimnio. Apesar disso, acredito que nosso segredo esteja protegido.
   Caso um censor se desse ao trabalho de ler a carta at ali, concluiria que se tratava de uma lsbica escrevendo  amante. Qualquer um na Inglaterra que lesse a carta chegaria  mesma concluso. Isso, no entanto, no tinha muita importncia: sem dvida Maud, por ser feminista e aparentemente solteira aos 26 anos, j era suspeita de tendncias homossexuais.
   Dentro de poucos dias estarei em Estocolmo, outra cidade fria  beira da gua, e voc poder me mandar uma carta para o Grand Hotel de l.
   Assim como a Sua, a Sucia era um pas neutro, com servio postal para a Inglaterra.
   Eu adoraria receber notcias suas!!!
   At l, meu maravilhoso amor, lembre-se de quem a ama...
   Waltraud
Os Estados Unidos declararam guerra  Alemanha na sexta-feira, 6 de abril de 1917.
   Walter j esperava por isso, porm no deixou de ficar abalado. Os Estados Unidos eram um pas rico, vigoroso e democrtico: ele no conseguia imaginar um inimigo pior. A nica esperana agora era que a Rssia entrasse em colapso, o que daria  Alemanha uma chance de vencer no front ocidental antes de os americanos terem tempo de reunir suas foras.
   Trs dias depois, 32 revolucionrios russos exilados se reuniram no Hotel Zhringerhof, em Zurique: homens, mulheres e uma criana - um menino de quatro anos chamado Robert. De l, seguiram a p at o arco barroco da estao ferroviria para tomarem um trem a caminho de casa.
   
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   Walter temera que eles fossem desistir da viagem. Martov, o lder menchevi- que, havia se recusado a partir sem a permisso do governo provisrio em Petrogrado - uma atitude estranhamente respeitosa para um revolucionrio. A permisso foi negada, mas Lnin e os bolcheviques decidiram voltar mesmo assim. Walter quis se certificar de que no haveria nenhum percalo na viagem, de modo que acompanhou o grupo at a estao  margem do rio e embarcou junto no trem.
   Esta  a arma secreta da Alemanha, pensou Walter: 32 arruaceiros descontentes que querem derrubar o governo russo. Que Deus nos ajude.
   Vladimir Ilitch Ulinov, conhecido como Lnin, tinha 46 anos. Era um homem baixo e atarracado, vestido com esmero, porm sem elegncia, ocupado demais para perder tempo com estilo. Era ruivo, mas, como ficara calvo cedo, ostentava uma careca lustrosa com apenas uma sobra de franja na frente e tinha o bigode e o cavanhaque cuidadosamente aparados, entre o ruivo e o grisalho.  primeira vista, Walter o achara sem graa, desprovido de charme ou beleza.
   Walter estava se fazendo passar por um funcionrio do Ministrio das Relaes Exteriores encarregado de tomar todas as providncias prticas para a viagem dos bolcheviques pela Alemanha. Lnin o examinara com um olhar duro e desconfiado, claramente adivinhando que ele era, na verdade, algum tipo de agente do servio de inteligncia.
   Eles viajaram at a comuna de Schaffhausen, na fronteira, onde foram transferidos para um trem alemo. Como tinham morado na regio germanfona da Sua, todos falavam um pouco de alemo. Lnin dominava bem o idioma. Walter descobriu que ele era um linguista notvel: fluente em francs, com um ingls razovel e capaz de ler Aristteles em grego antigo. Para Lnin, relaxar significava passar uma ou duas horas debruado sobre um dicionrio de lngua estrangeira.
   Em Gottmadingen, voltaram a trocar de trem, desta vez embarcando em um vago isolado, preparado especialmente para eles, como se portassem alguma doena contagiosa. Trs das quatro portas do vago estavam lacradas. A quarta ficava junto ao compartimento onde Walter dormia. Isso servia para tranquilizar as autoridades alems, que estavam excessivamente aflitas, mas na verdade no era necessrio: os russos no tinham a menor vontade de fugir - queriam voltar para casa.
   Lnin e sua mulher Nadya tinham um compartimento exclusivo, mas os demais viajavam amontoados, quatro por compartimento. Isso  que  igualdade, pensou Walter com cinismo.
   Enquanto o trem cruzava a Alemanha de sul a norte, Walter comeou a sentir a fora de carter escondida sob o exterior insosso de Lnin. Este no 
   
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demonstrava interesse por comida, bebida, conforto ou bens materiais. Todo o seu dia era ocupado pela poltica. Vivia discutindo temas polticos, escrevendo sobre poltica ou ento pensando no assunto e tomando notas. Walter observou que, em qualquer discusso, Lnin parecia saber mais do que seus camaradas e dava a impresso de ter pensado no assunto mais e melhor do que eles - a menos que a questo em pauta no tivesse nada a ver com a Rssia ou com poltica: nesse caso, ele se mostrava bastante desinformado.
   Lnin era um verdadeiro desmancha-prazeres. Na primeira noite, Karl Radek, um rapaz de culos, estava contando piadas no compartimento ao lado:
   -		Um homem foi preso por dizer: "Nicolau  um imbecil." Ele disse ao policial: "Eu estava falando de outro Nicolau, no de nosso amado czar." Ento o policial disse: "Seu mentiroso! Se voc disse imbecil,  obvio que estava se referindo ao czar!"
   Todos os companheiros de Radek caram na gargalhada. Lnin saiu de seu compartimento com uma expresso irada e mandou que calassem a boca.
   Lnin tambm no gostava que fumassem perto dele. Ele prprio havia parado, por insistncia da me, j fazia 30 anos. Por respeito ao lder, as pessoas fumavam no banheiro ou nos fundos do vago. Como havia apenas um banheiro para 32 pessoas, isso gerava filas e desentendimentos. Lnin dedicou seu considervel intelecto  soluo desse problema. Cortou pedaos de papel e distribuiu para todos dois tipos de bilhetes: alguns para o uso normal do banheiro e outros, em nmero menor, para fumar. Isso reduziu a fila e acabou com as brigas. Walter achou graa. Deu certo e todos ficaram felizes, mas no houve debate ou qualquer tentativa de uma deciso coletiva. Naquele grupo, Lnin era um ditador bondoso. Se ele algum dia ganhasse poder de verdade, ser que administraria o Imprio Russo da mesma forma?
   Mas Lnin conquistaria mesmo o poder? Se isso no acontecesse, Walter estava perdendo seu tempo.
   Ele s conseguia pensar em uma forma de melhorar as chances de Lnin - e decidiu tomar providncias nesse sentido.
   Desceu do trem em Berlim, dizendo que voltaria para acompanhar os russos no ltimo trecho da viagem.
   -		No demore - falou um deles. - Vamos partir de novo daqui a uma hora.
   -		Vou ser rpido - respondeu Walter. O trem partiria quando Walter mandasse, mas os russos no sabiam disso.
   O vago estava parado em um desvio da estao Potsdamer e ele levou somente alguns minutos para ir a p de l at o Ministrio das Relaes Exteriores, no
   
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nmero 76 da Wilhelmstrasse, no corao da Berlim antiga. A espaosa sala de seu pai continha uma escrivaninha pesada de mogno, um retrato do Kaiser e um armrio com portas de vidro que abrigava sua coleo de objetos em cermica, incluindo a fruteira do sculo XVIII que havia comprado em sua ltima viagem a Londres. Como Walter esperava, Otto estava sentado diante da escrivaninha.
-		No h dvida quanto s crenas de Lnin - disse ao pai enquanto os dois tomavam caf. - Ele diz que o povo se livrou do smbolo da opresso, o czar, mas sem mudar a sociedade russa. Os trabalhadores no conseguiram assumir o controle: a classe mdia continua mandando em tudo. Alm disso, por algum motivo, Lnin nutre um dio pessoal por Kerenski.
-		Mas ser que ele  capaz de derrubar o governo provisrio?
Walter abriu os braos em um gesto de impotncia.
-		Ele  muito inteligente, determinado,  um lder nato e no faz outra coisa a no ser trabalhar. Porm os bolcheviques so apenas mais um pequeno partido poltico entre uma dzia ou mais que disputam o poder. No h como saber quem sair vitorioso.
-		Ento todo esse esforo pode ter sido em vo.
-		A no ser que ns faamos alguma coisa para ajudar os bolcheviques a vencerem.
-		Como por exemplo?
Walter respirou fundo.
-		Dar dinheiro a eles.
-		O qu? - Otto ficou indignado. - Dar dinheiro a revolucionrios socialistas? O governo alemo?
-		Sugiro um valor inicial de 100 mil rublos - falou Walter com tranquilidade. - De preferncia em moedas de ouro de 10 rublos, se possvel.
-		O Kaiser jamais concordaria com isso.
-		Ele precisa saber? Zimmermann tem autoridade para aprovar isso sozinho.
-		Ele nunca faria uma coisa dessas.
-		Tem certeza?
Otto passou um bom tempo encarando Walter em silncio, refletindo.
Por fim, falou:
-		Vou perguntar a ele.
Aps trs dias a bordo do trem, os russos saram da Alemanha. Em Sassnitz, no litoral, compraram bilhetes para o navio de passageiros Queen Victoria, no qual

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atravessariam o mar Bltico at o extremo sul da Sucia. Walter os acompanhou. A travessia foi rdua e todos ficaram enjoados, com exceo de Lnin, Radek e Zinoviev, que permaneceram no convs entretidos em uma discusso poltica acalorada e nem pareceram reparar no mar revolto.
   Eles pegaram um trem noturno at Estocolmo, onde o burgomestre socialista lhes serviu um desjejum de boas-vindas. Walter se registrou no Grand Hotel, esperando encontrar uma carta de Maud  sua espera. No havia correspondncia alguma.
   Ficou to decepcionado que teve vontade de se jogar nas guas frias da baa. Aquela tinha sido sua nica chance de se comunicar com a mulher em quase trs anos e algo tinha dado errado. Ser que ela ao menos havia recebido sua carta?
   Fantasias sombrias o atormentavam. Ser que ela ainda o amava? Ou ser que o esquecera? Quem sabe no havia um novo homem em sua vida? Ele no sabia o que pensar.
   Radek e os bem-vestidos socialistas suecos levaram Lnin, um tanto contra a sua vontade, at a seo de roupas masculinas da loja de departamentos PUB. As botas de montanha com travas na sola que o russo calava desapareceram. Ele ganhou um sobretudo com gola de veludo e um chapu novo. Agora, disse Radek, ele finalmente estava vestido como algum capaz de liderar seu povo.
   Ao cair da noite, os russos foram  estao embarcar em outro trem, desta vez rumo  Finlndia. Walter se separaria do grupo ali, mas o acompanhou at a estao. Antes de o trem partir, teve um momento a ss com Lnin.
   Os dois foram se sentar em um compartimento iluminado por uma fraca lmpada eltrica, cuja luz se refletia na careca de Lnin. Walter estava tenso. Precisava fazer tudo certo. Sabia que no adiantaria implorar ou suplicar a Lnin. E aquele homem sem dvida no poderia ser intimidado. Somente uma lgica fria seria capaz de convenc-lo.
   Walter estava com um discurso pronto.
  -		O governo alemo est ajudando o senhor a voltar para casa - disse ele. - Mas sabe que no estamos fazendo isso por caridade.
   Lnin o interrompeu em um alemo fluente.
  -		Vocs acham que isso vai prejudicar a Rssia! - vociferou ele.
   Walter no o contradisse.
  -		Mesmo assim, o senhor aceitou a nossa ajuda.
  -		Pelo bem da revoluo! Ela  o nico parmetro que nos permite separar o certo do errado.
  -		Achei mesmo que o senhor fosse dizer isso. - Walter estava carregando uma
   
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mala pesada, que pousou no cho do vago do trem com um baque. - No fundo falso desta mala, esto 100 mil rublos em notas e moedas.
-		O qu? - Geralmente, Lnin se mostrava imperturbvel, mas desta vez pareceu surpreso. - Para qu?
-		Para o senhor.
Lnin ficou ofendido.
-		Um suborno? - perguntou ele, indignado.
-		De forma alguma - respondeu Walter. - No temos por que suborn-lo. Seus objetivos so os mesmos que os nossos. O senhor clama pela derrubada do governo provisrio e pelo fim da guerra.
-		Para que o dinheiro, ento?
-		Propaganda. Para ajud-lo a divulgar sua mensagem. Ela  a mesma que ns gostaramos de transmitir. Uma mensagem de paz entre a Alemanha e a Rssia.
-		Para que vocs possam ganhar sua guerra capitalista e imperialista contra a Frana!
-		Como eu j disse, ns no estamos ajudando o senhor por caridade. Nem o senhor esperaria isso de ns.  apenas uma questo de pragmatismo poltico. Por ora, seus interesses coincidem com os nossos.
Lnin fez a mesma expresso de quando Radek insistira em comprar roupas novas para ele: a ideia lhe causava ojeriza, mas ele no podia negar que fizesse sentido.
-		A cada ms vamos lhe dar uma quantia equivalente - disse Walter -, contanto,  claro, que o senhor continue a fazer uma campanha eficaz pela paz.
Houve um longo silncio.
-		O senhor disse que o sucesso da revoluo  o nico parmetro que permite separar o certo do errado. Se for mesmo verdade, deveria aceitar o dinheiro.
L fora, na plataforma, um apito soou.
Walter se ps de p.
-		Preciso ir embora agora. Adeus, e boa sorte.
Lnin ficou olhando para a mala no cho, sem dizer nada.
Walter saiu do compartimento e desceu do trem.
Ento se virou e lanou um olhar para a janela do compartimento de Lnin. Quase esperava ver a janela se abrir e a mala ser atirada para fora.
Ouviu-se outro apito acompanhado por uma buzina. Os vages estremeceram e comearam a se mover e o trem saiu lentamente da estao, levando a bordo Lnin, os outros exilados russos e a mala de dinheiro.
Walter tirou um leno do bolso do peito do sobretudo e enxugou a testa. Apesar do frio, estava suando.

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Walter foi andando da estao at o Grand Hotel pelo litoral. Estava escuro e um vento frio soprava do Bltico, vindo do leste. Ele deveria estar comemorando: havia acabado de subornar Lnin! Contudo, a sensao que tinha era de anticlmax. E estava mais deprimido do que deveria com o silncio de Maud. Havia uma dzia de razes possveis para ela no lhe ter escrito. Ele no deveria supor o pior. Mas havia chegado muito perto de se apaixonar por Monika, ento por que no poderia ter acontecido algo parecido com Maud? No conseguia deixar de pensar que ela deveria t-lo esquecido.
   Resolveu que iria se embebedar naquela noite.
   Na recepo do hotel, recebeu um recado datilografado: "Por favor, v at a sute 201, onde uma pessoa o aguarda com uma mensagem." Imaginou que fosse um funcionrio do Ministrio das Relaes Exteriores. Talvez eles tivessem mudado de ideia quanto a apoiar Lnin. Se fosse o caso, haviam chegado tarde demais.
   Ele subiu a escada e bateu  porta do quarto 201. L de dentro, uma voz abafada perguntou em alemo:
  -		Quem ?
  -		Walter von Ulrich.
  -		Pode entrar, a porta est aberta.
   Ele entrou e fechou a porta. A sute estava iluminada por velas.
  -		Algum tem uma mensagem para mim? - indagou ele, tentando enxergar na penumbra. Um vulto se levantou de uma cadeira. Era uma mulher e estava de costas para ele, mas algo nela fez seu corao saltar no peito. Ela se virou de frente.
   Era Maud.
   O queixo de Walter caiu e ele ficou petrificado.
  -		Ol, Walter - disse ela.
   Ento, perdendo o autocontrole, ela atirou-se em seus braos.
   O cheiro conhecido de Maud encheu suas narinas. Ele beijou-lhe os cabelos e acariciou-lhe as costas. No conseguia falar, com medo de chorar. Apertou o corpo dela contra o seu, mal acreditando que aquela mulher era de fato ela, que a estava abraando e tocando, algo que havia desejado com tanta sofreguido durante quase trs anos. Ela ergueu o rosto para o seu, com os olhos marejados, e ele a encarou, embriagando-se com o que via. Maud estava ao mesmo tempo igual e diferente: mais magra, com marcas de expresso finssimas sob os olhos que antes no existiam, porm com o mesmo olhar inteligente e penetrante que ele conhecia to bem.
   
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-		"Ele fitava meu rosto com tanto ardor que parecia querer sorv-lo" - disse ela em ingls.
Ele sorriu.
-		Ns no somos Hamlet e Oflia, ento, por favor, no v entrar para um convento.
-		Meu Deus, como senti sua falta!
-		E eu a sua. Estava esperando uma carta... mas voc aqui! Como conseguiu?
-		Eu disse ao servio de imigrao que planejava entrevistar polticos escandinavos sobre o voto feminino. Depois, encontrei o ministro do Interior em uma festa e dei uma palavrinha com ele.
-		E como fez para vir?
-		Os vapores de passageiros ainda esto circulando.
-		Mas  muito perigoso... nossos submarinos esto afundando todas as embarcaes.
-		Eu sei. Mas corri o risco. Estava desesperada. - Ela recomeou a chorar.
-		Venha se sentar. - Mantendo o brao ao redor de sua cintura, ele a conduziu pelo quarto at o sof.
-		No - disse ela quando estavam prestes a se acomodar. - Ns esperamos demais antes da guerra. - Ela o tomou pela mo, fazendo-o atravessar a porta interna que dava para o quarto de dormir. A lenha estalava na lareira. - No vamos perder mais tempo. Venha para a cama.
Grigori e Konstantin faziam parte de uma delegao do soviete de Petrogrado destacada para receber Lnin na Estao Finlndia tarde da noite, na segunda-feira 16 de abril.
A maioria deles nunca tinha visto Lnin, que, com exceo de uns poucos meses, passara os ltimos 17 anos no exlio. Grigori tinha 11 anos quando Lnin deixou a Rssia. No obstante, conhecia sua reputao - e, ao que tudo indicava, o mesmo valia para outros milhares de pessoas que se reuniram na estao para receb-lo. Grigori se perguntava por que havia tanta gente. Talvez, assim como ele, aquelas pessoas estivessem insatisfeitas com o governo provisrio, desconfiadas de seus ministros de classe mdia e irritadas com o fato de a guerra no ter chegado ao fim.
A Estao Finlndia ficava no distrito de Vyborg, perto das fbricas txteis e do quartel do Primeiro Regimento de Metralhadoras. Uma multido ocupava a

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praa. Grigori no esperava que fosse haver traio, mas, por via das dvidas, havia mandado Isaak trazer dois pelotes e vrios blindados. O telhado da estao era equipado com um canho de luz e algum o fazia correr pela massa de pessoas que aguardava no escuro.
   O interior da estao estava lotado de operrios e soldados, todos portando bandeiras vermelhas e cartazes. Uma banda militar tocava. s vinte para a meia-noite, duas unidades de marinheiros entraram em formao na plataforma para servir de guarda de honra. A delegao do soviete aguardava na sala de espera grandiosa, outrora reservada para o czar e a famlia real, porm Grigori saiu para a plataforma e se juntou  multido.
   Por volta da meia-noite, Konstantin apontou em direo aos trilhos e Grigori, acompanhando seu dedo, viu ao longe os faris de um trem. Um burburinho de expectativa se ergueu da multido que aguardava. O trem entrou na estao soltando fumaa e parou com um chiado. Trazia o nmero 293 pintado na frente.
   Em poucos instantes, um homem baixo e atarracado desceu do trem usando um jaqueto de l e um chapu de feltro. Grigori pensou que aquele no podia ser Lnin - ele certamente no estaria usando as roupas da classe dominante. Uma jovem se adiantou para lhe entregar um buqu de flores, que ele aceitou franzindo as sobrancelhas de forma antiptica. Era Lnin mesmo.
   Atrs dele vinha Lev Kamenev, que fora enviado pelo Comit Central Bolchevique para encontrar Lnin na fronteira, caso houvesse algum problema - embora, no fim das contas, ele tivesse entrado no pas sem dificuldades. Kamenev indicou com um gesto que deveriam seguir para a sala de espera real.
   Com certa grosseria, Lnin deu as costas a Kamenev e dirigiu-se aos marinheiros.
   - Camaradas! - gritou. - Vocs foram enganados! Fizeram uma revoluo, mas os frutos dela foram roubados pelos traidores do governo provisrio!
   Kamenev empalideceu. A poltica de quase toda a esquerda era apoiar o governo provisrio, pelo menos temporariamente.
   Grigori, no entanto, ficou maravilhado. No acreditava na democracia burguesa. O parlamento autorizado pelo czar em 1905 no passara de um truque, destitudo de seu poder quando as perturbaes terminaram e todos voltaram ao trabalho. O atual governo estava rumando pelo mesmo caminho.
   E agora, finalmente, algum tinha coragem de dizer isso.
   Grigori e Konstantin seguiram Lnin e Kamenev at a sala de espera. A multido foi atrs deles se espremendo at o recinto ficar abarrotado. O presidente do soviete de Petrogrado, Nikolai Chkeidze, careca e com cara de rato, deu um passo  frente. Depois de apertar a mo de Lnin, disse:
   
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   -		Em nome do soviete de Petrogrado e da revoluo, saudamos sua chegada 
Rssia. Mas...
   Grigori arqueou as sobrancelhas para Konstantin. Aquele "mas" parecia inadequadamente precoce para a ocasio. Konstantin encolheu os ombros ossudos.
   -		Mas ns acreditamos que a principal tarefa da democracia revolucionria
agora  defender nossa revoluo contra qualquer ataque... - Chkeidze fez uma
pausa, concluindo em seguida de forma enftica: - ... seja ele interno ou externo.
   -		Ele no est fazendo um discurso de boas-vindas, est dando um aviso -
murmurou Konstantin.
   -		Acreditamos que, para tanto,  preciso que haja unio entre todos os partidrios da revoluo, e no desunio. Esperamos que o senhor concorde conosco
e tambm busque esses objetivos.
   Parte da delegao aplaudiu educadamente.
   Lnin se deteve antes de responder. Olhou para os rostos  sua volta e para o
teto decorado de forma luxuosa. Ento, em um gesto que pareceu ter a inteno
de insultar, deu as costas a Chkeidze e dirigiu-se  multido:
   -		Camaradas, soldados, marinheiros e operrios! - disse ele, fazendo questo
de excluir os parlamentares de classe mdia. - Eu os sado como a vanguarda do
exrcito proletrio mundial. Hoje, ou talvez amanh, todo o imperialismo europeu poder ruir. A revoluo que vocs fizeram inaugurou um novo tempo. Vida
longa  revoluo socialista mundial!
   Todos vibraram. Grigori ficou espantado. Eles haviam acabado de conseguir
fazer uma revoluo em Petrogrado cujos resultados ainda eram incertos. Como
poderiam pensar em uma revoluo mundial? Apesar disso, a ideia o entusiasmava. Lnin tinha razo: todos deveriam se voltar contra os lderes que tinham
enviado tantos homens para a morte naquela guerra mundial sem sentido.
   Lnin se afastou da delegao com passos firmes e saiu para a praa.
   Um rugido se ergueu da multido que o aguardava. Os soldados de Isaak suspenderam Lnin at o teto reforado de um blindado. O canho de luz o iluminava. Ele tirou o chapu.
   Sua voz era rspida e monocrdia, mas suas palavras, eletrizantes.
   -		O governo provisrio traiu a revoluo! - bradou ele.
   Todos vibraram. Grigori ficou surpreso: at ento, no sabia quantas pessoas
pensavam como ele.
   -		Esta guerra  uma guerra imperialista predatria. No queremos participar
dessa vergonhosa carnificina imperialista. Com a derrubada do capital, podemos
selar uma paz democrtica!
   
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Isso provocou um rugido ainda mais alto.
-		No queremos as mentiras ou as farsas de um parlamento burgus! A nica forma de governo possvel  um soviete de delegados dos trabalhadores. Todos os bancos devem ser tomados e submetidos ao controle do soviete. Todas as terras particulares devem ser confiscadas. E todos os oficiais do Exrcito devem ser eleitos pelo povo!
Era exatamente assim que Grigori pensava, e ele vibrou e brandiu as mos junto com quase todo o restante da multido.
-		Vida longa  revoluo!
O povo foi  loucura.
Lnin desceu de cima do blindado e entrou nele. O veculo comeou a se afastar muito lentamente. A multido o cercou e passou a segui-lo, agitando bandeiras vermelhas. A banda militar uniu-se  procisso, tocando uma marcha.
-		Esse  o homem! - exclamou Grigori.
-		 isso a - concordou Konstantin.
E eles seguiram o cortejo.

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CAPTULO VINTE E CINCO
Maio e junho de 1917

A boate Monte Carlo, em Buffalo, tinha um aspecto horrvel  luz do dia,
porm Lev Peshkov gostava dela mesmo assim. A marcenaria era toda arranhada, a pintura lascada, os estofados manchados e o carpete vivia repleto de
guimbas de cigarro; mas Lev considerava a boate um paraso. Ao entrar, beijou a
moa da chapelaria, deu um charuto ao leo de chcara e disse ao barman, que
erguia um engradado, para tomar cuidado.
   O emprego de gerente de boate lhe caa como uma luva. Sua principal responsabilidade era garantir que ningum roubasse nada. Como ele prprio era um
ladro, sabia o que fazer. Fora isso, precisava apenas garantir que houvesse bebida suficiente atrs do balco e uma banda decente no palco. Alm do salrio,
recebia cigarros de graa e todo o lcool que conseguisse beber sem cair. Estava
sempre vestido com trajes de gala, o que o fazia se sentir um prncipe. Josef Vyalov
deixava que ele cuidasse sozinho da boate. Contanto que o dinheiro continuasse
a entrar, seu sogro no tinha interesse algum no estabelecimento - exceto o de
aparecer de vez em quando com seus cupinchas para assistir ao espetculo.
   Lev s tinha um problema: sua mulher.
   Olga no era mais a mesma. Durante algumas semanas, no vero de 1915, ela
havia se mostrado louca por sexo, sempre vida pelo seu corpo. Mas agora ele
sabia que isso tinha sido uma exceo. Desde que haviam se casado, tudo o que
ele fazia a desagradava. Ela queria que Lev tomasse banho todos os dias, escovasse os dentes e parasse de peidar. No gostava de danar nem de beber e pedia-lhe
para no fumar. Nunca ia  boate. Os dois dormiam em camas separadas. Olga
dizia que ele no passava de um p de chinelo.
   - Eu sou mesmo um p de chinelo - devolveu ele um dia. -  por isso que era
chofer. - Mas ela continuou insatisfeita.
   Ento ele havia contratado Marga.
   Seu caso antigo estava no palco naquele instante, ensaiando um nmero novo
com a banda, enquanto duas negras de leno na cabea limpavam as mesas e
varriam o cho. Marga usava um vestido justo e batom vermelho. Lev havia lhe
dado um emprego de danarina sem nem ao menos saber se ela era boa. Marga,
no entanto, se revelara no apenas talentosa, mas uma estrela. Agora, cantava
   
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uma msica sugestiva, sobre uma mulher que espera a noite inteira por seu homem.
Apesar da minha frustrao
A expectativa
Apimenta nossa relao
Sempre que ele volta
Lev sabia exatamente do que ela estava falando.
Ficou observando Marga at ela terminar de cantar. Ela desceu do palco e lhe deu um beijo na face. Ele pegou duas garrafas de cerveja e a acompanhou at o camarim.
-		timo nmero - disse ao entrar.
-		Obrigada. - Marga levou a garrafa  boca e a virou. Lev ficou olhando seus lbios vermelhos tocarem a boca da garrafa. Ela deu um gole generoso. Ento o pegou olhando para ela, engoliu e abriu um sorriso. - Isso faz voc lembrar alguma coisa?
-		Pode apostar que sim. - Ele a abraou e correu as mos por seu corpo. Em poucos minutos, Marga se ajoelhou, desabotoou sua cala e o abocanhou. Era boa nisso, a melhor que ele j conhecera. Ou realmente gostava do que estava fazendo, ou ento era a melhor atriz dos Estados Unidos. Ele fechou os olhos e suspirou de prazer.
A porta se abriu e Josef Vyalov entrou no camarim.
-		Ento  verdade! - disse ele, furioso.
Dois de seus capangas, Ilya e Theo, entraram atrs dele.
Lev ficou apavorado. s pressas, tentou abotoar a cala e se desculpar ao mesmo tempo.
Marga se levantou e limpou a boca com a mo.
-		Vocs esto no meu camarim! - protestou.
-		E voc na minha boate - retrucou Vyalov. - Mas no por muito tempo. Est demitida. - Ele se virou para Lev: - Enquanto voc for casado com a minha filha, est proibido de trepar com suas subalternas!
-		Ele no estava trepando comigo, Vyalov, ou voc no percebeu? - falou Marga com insolncia.
Vyalov lhe deu um soco na boca. Ela gritou e caiu para trs com o lbio sangrando.
-		Voc foi demitida - disse ele. - D o fora daqui.
Ela pegou a bolsa e foi embora.
Vyalov olhou para Lev.
-		Seu babaca! - xingou. - J no fiz o suficiente por voc?

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-		Desculpe, Pa - disse Lev. Tinha verdadeiro pavor do sogro. Vyalov era capaz de tudo: quem o desagradasse poderia ser chicoteado, torturado, aleijado ou assassinado. Ele no tinha d nem temia a lei. Nesse sentido, era to poderoso quanto o czar.
-		E tambm no venha me dizer que  a primeira vez - disse Vyalov. - Eu tenho escutado esses boatos desde que pus voc como gerente aqui.
Lev ficou calado. Os boatos eram verdadeiros. Houvera outras garotas, embora no desde que Marga tinha sido contratada.
-		Vou transferir voc - disse Vyalov.
-		Como assim?
-		Vou tirar voc da boate. Tem garotas demais nesta porra de lugar.
Lev ficou arrasado. Ele adorava a Monte Carlo.
-		Mas o que eu vou fazer?
-		Tenho uma fundio na altura do porto. L no trabalha mulher nenhuma. O gerente adoeceu e est no hospital. Voc pode ficar de olho na fbrica para mim.
-		Uma fundio? - Lev no podia acreditar naquilo. - Eu?
-		Voc trabalhou na Metalrgica Putilov.
-		Mas na estrebaria!
-		E tambm numa mina de carvo.
-		Na estrebaria.
-		Ento voc conhece o ambiente.
-		Conheo e detesto!
-		E eu por acaso perguntei se voc gostava? Deus do cu, acabei de flagrar voc com as calas arriadas. Pense na sorte que teve de no acabar pior.
Lev calou a boca.
-		V l para fora e entre na porcaria do carro - mandou Vyalov.
Lev saiu do camarim e atravessou a boate, com Vyalov em seu encalo. Mal conseguia acreditar que estava indo embora para sempre. O barman e a moa da chapelaria ficaram olhando para ele, pressentindo que havia algo errado.
-		Ivan, hoje  noite voc  quem manda - disse Vyalov ao barman.
-		Sim, chefe.
O Packard Twin Six de Vyalov aguardava junto ao meio-fio. O novo motorista, um rapaz de Kiev, estava parado ao lado do carro, todo orgulhoso. O leo de chcara se adiantou para abrir a porta de trs para Lev. Pelo menos ainda viajo no banco de trs, pensou.
Para se consolar, recordou a si mesmo que estava vivendo como um nobre russo, se no melhor. Ele e Olga ocupavam a ala do quarto das crianas no casaro

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de Vyalov. Os americanos ricos no tinham tantos criados quanto os russos, mas as suas casas eram mais limpas e cuidadas do que os palcios de Petrogrado. Tinham banheiros modernos, geladeiras e aspiradores de p, alm de calefao central. A comida era boa. Vyalov no compartilhava o amor pelo champanhe da aristocracia russa, mas sempre havia usque sobre o aparador. E Lev tinha seis ternos.
   Sempre que se sentia oprimido pelos maus-tratos do sogro, ele se lembrava dos velhos tempos em Petrogrado: do quartinho que dividia com Grigori, da vodca barata, do po preto duro e do ensopado de rabanete. Lembrava-se de que, na poca, pensava que seria um luxo andar de bonde em vez de ir a p para todos os lugares. Enquanto esticava as pernas no banco de trs da limusine de Vyalov, olhou para as meias de seda e para os sapatos pretos lustrosos que calava, dizendo a si mesmo para se sentir grato.
   Vyalov entrou depois dele e os dois foram de carro at a beira do lago. A fundio de Vyalov era uma verso menor da Metalrgica Putilov: os mesmos prdios decrpitos com janelas quebradas, as mesmas chamins altas cuspindo fumaa negra, os mesmos operrios maltrapilhos de rosto sujo. Lev sentiu um aperto no corao.
   - A fbrica se chama Metalrgica de Buffalo, mas s fabrica um produto - disse Vyalov. - Ventiladores. - O carro passou pelo porto estreito. - Antes da guerra, ela estava perdendo dinheiro. Eu a comprei e diminu o salrio dos funcionrios para mant-la funcionando. De uns tempos para c, os negcios melhoraram. Temos uma longa lista de encomendas para hlices de avio e navios e ventoinhas para motores de blindados. Os operrios agora querem um aumento, mas eu preciso recuperar um pouco do que gastei antes de comear a distribuir dinheiro.
   A ideia de trabalhar ali apavorava Lev, porm o medo que sentia de Vyalov era mais forte - e no queria fracassar. Decidiu que no seria ele a conceder um aumento aos operrios.
   Vyalov lhe mostrou a fbrica. Lev desejou no estar usando seu smoking. Por dentro, no entanto, o lugar no se parecia com a Metalrgica Putilov. Era bem mais limpo. No havia crianas correndo de um lado para outro. Tirando as fornalhas, tudo o mais era movido a eletricidade. Enquanto os russos precisavam de 12 homens puxando uma corda para erguer a caldeira de uma locomotiva a vapor, ali a imensa hlice propulsora de um navio era iada por um guindaste eltrico.
   Vyalov apontou para um homem calvo usando camisa de colarinho e gravata por baixo do macaco.
   
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-		Aquele ali  o nosso inimigo - falou. - Brian Hall, secretrio do ncleo local do sindicato.
Lev avaliou Hall. O homem estava ajustando uma prensa pesada, girando uma porca com o auxlio de uma chave de boca de cabo longo. Ele tinha um ar briguento e, quando levantou os olhos e viu Lev e Vyalov, lanou-lhes um olhar desafiador, como se estivesse tentado a perguntar se eles estavam ali para criar algum problema.
Vyalov ergueu a voz acima do barulho de um esmeril:
-		Hall, venha c!
O homem no se apressou, guardando a chave de boca dentro de uma caixa de ferramentas e limpando as mos em um trapo antes de se aproximar.
-		Este  seu novo chefe, Lev Peshkov - disse Vyalov.
-		Como vai? - disse Hall para Lev antes de se virar para Vyalov. - Peter Fisher levou um corte feio no rosto de uma lasca de ao que escapou da mquina hoje de manh. Teve que ser levado para o hospital.
-		Sinto muito por isso - disse Vyalov. - A metalurgia  uma indstria perigosa, mas ningum  obrigado a trabalhar aqui.
-		A lasca quase acertou o olho dele - falou Hall, indignado. - Ns deveramos usar culos de proteo.
-		Desde que comprei a fbrica, ningum ficou cego.
Hall logo se irritou:
-		E temos que esperar algum ficar cego para comear a usar os culos?
-		De que outro jeito eu vou saber que vocs precisam deles?
-		Um homem no deixa de pr uma tranca na porta de casa porque nunca foi roubado.
-		Mas quem paga pela tranca  ele.
Hall meneou a cabea como se no esperasse nada melhor e, com um ar cansado de quem sabe das coisas, voltou para junto de sua mquina.
-		Eles vivem pedindo alguma coisa - disse Vyalov a Lev.
Lev concluiu que Vyalov queria que ele fosse duro com os operrios. Bem, isso ele sabia fazer. Era assim que eram administradas todas as fbricas de Petrogrado.
Os dois saram da metalrgica e subiram de carro a Avenida Delaware. Lev sups que estivessem indo para casa jantar. Jamais passaria pela cabea de Vyalov perguntar se Lev estava de acordo. Seu sogro tomava decises por todo mundo.
Em casa, Lev tirou os sapatos, que estavam sujos de andar na fundio, calou um par de chinelos bordados que Olga lhe dera de presente no Natal e em seguida foi at o quarto do beb. Lena, me de Olga, estava l com Daisy.

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  -		Olhe, Daisy,  o seu papai! - disse ela.
   A filha de Lev j estava com um ano e dois meses e aprendendo a andar.
Cambaleou pelo quarto em direo ao pai, sorrindo, ento caiu e ps-se a chorar. Ele a pegou do cho e deu-lhe um beijo. Nunca tivera o menor interesse em
bebs ou crianas antes, mas Daisy conquistara seu corao. Quando ela estava
irritada, sem querer dormir, e ningum mais conseguia acalm-la, Lev a ninava,
murmurando palavras carinhosas e cantando trechos de canes folclricas russas, at seus olhos se fecharem, seu corpinho relaxar e ela adormecer no seu colo.
  -		Ela  igualzinha ao pai bonito! - disse Lena.
   Para Lev, Daisy era igual a qualquer beb, mas ele no contradizia a sogra.
Lena o adorava. Flertava com ele, tocava-o com frequncia e beijava-o sempre
que tinha oportunidade. Estava apaixonada por Lev, embora sem dvida pensasse que no estava fazendo nada alm de demonstrar um afeto familiar normal.
   Do outro lado do quarto, estava uma jovem russa chamada Polina. Ela era a
bab, mas no tinha muito o que fazer: Olga e Lena passavam a maior parte do
tempo cuidando de Daisy. Lev entregou a criana a Polina. Quando o fez, a bab
o encarou nos olhos. Tinha uma beleza russa clssica, com cabelos louros e
mas do rosto protuberantes. Lev se perguntou por um instante se poderia ter
um caso com ela e se safar. Polina tinha seu prprio quartinho. Ser que ele conseguiria entrar l sem ningum perceber? Talvez valesse a pena o risco: havia
notado o desejo no olhar dela.
   Ento Olga entrou no quarto, fazendo-o se sentir culpado.
  -		Que surpresa! - disse ao v-lo ali. - No esperava que fosse voltar para casa
antes das trs da manh.
  -		Seu pai me transferiu - disse Lev com amargura. - Agora sou gerente da
fundio.
  -		Mas por qu? Achei que estivesse indo bem na boate.
  -		No fao ideia - mentiu Lev.
  -		Talvez seja por causa do alistamento obrigatrio - disse Olga. O presidente
Wilson havia declarado guerra  Alemanha e estava prestes a dar incio ao recenseamento militar. - A fundio vai ser classificada como indstria essencial 
guerra. Papai quer manter voc fora do Exrcito.
   Lev ficara sabendo por meio dos jornais que o alistamento seria administrado
por juntas de recrutamento locais. Vyalov certamente tinha pelo menos um
amigo na junta capaz de dar um "jeitinho" para ele. Era assim que aquela cidade
funcionava. Mas Lev no corrigiu Olga. Ele precisava de um libi que no envolvesse Marga - e ela acabara de inventar um.
   
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-		Claro - disse ele. - Imagino que deva ser isso.
-		Pap - falou Daisy.
-		Que menina esperta! - disse Polina.
-		Tenho certeza de que voc far um timo trabalho administrando a fbrica - comentou Lena.
Lev lhe exibiu seu melhor e mais modesto sorriso americano.
-		Vou fazer o melhor que puder - disse.
II
Gus Dewar sentia que sua misso europeia para o presidente havia sido um fracasso.
-		Fracasso? - disse Woodrow Wilson. - De jeito nenhum! Voc conseguiu que a Alemanha fizesse uma proposta de paz. No  culpa sua que os britnicos e franceses tenham mandado os alemes s favas. Voc pode levar um cavalo at o bebedouro, mas no pode obrig-lo a beber. - Mesmo assim, a verdade era que Gus no havia conseguido fazer os dois lados se reunirem nem sequer para conversas preliminares.
Isso o deixava ainda mais vido por ter sucesso na prxima tarefa importante que Wilson lhe confiasse.
-		A Metalrgica de Buffalo foi fechada por causa de uma greve - disse o presidente. - Estamos com navios, avies e veculos militares empacados nas linhas de montagem  espera das hlices e ventoinhas que ela fabrica. Voc  de Buffalo: v at l e faa-os voltar ao trabalho.
Em sua primeira noite de volta  cidade natal, Gus foi jantar na casa de Chuck Dixon, seu antigo rival pelo afeto de Olga Vyalov. Chuck e sua nova esposa, Dris, moravam em uma manso vitoriana na Avenida Elmwood, paralela  Delaware, e Chuck pegava o trem da Belt Line todos os dias de manh para ir trabalhar no banco do pai.
Dris era uma moa bonita, um pouco parecida com Olga, e, ao observar os recm-casados, Gus ficou imaginando se de fato apreciaria essa rotina domstica. J havia sonhado em acordar diariamente ao lado de Olga, mas isso fazia dois anos e, agora que o encanto que ela exercia havia se exaurido, achava que talvez preferisse seu apartamento de solteiro na Rua 16, em Washington.
Quando todos j estavam sentados diante de seus bifes com pur de batatas, Dris perguntou:
-		O que aconteceu com a promessa do presidente Wilson de nos manter fora da guerra?

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-		Ningum pode dizer que ele no tentou - respondeu Gus com a voz tranquila. - Ele vem fazendo campanha pela paz h trs anos. Os adversrios simplesmente no quiseram escutar.
-		Isso no significa que temos que entrar na briga.
-		Querida, os alemes esto afundando navios americanos! - disse Chuck, impaciente.
-		Ento mandem os navios americanos ficarem fora da zona de guerra! - Dris parecia zangada e Gus imaginou no ser a primeira vez que os dois tinham aquela discusso. Com certeza a raiva dela vinha do medo de Chuck ser obrigado a se alistar.
Para Gus, essas questes tinham nuances demais, por isso ele evitava fazer declaraes arrebatadas do que era certo ou errado. Com delicadeza, disse:
-		Tudo bem, isso  uma alternativa, que inclusive foi cogitada pelo presidente. Mas ela significa aceitar que a Alemanha tem o poder de nos dizer aonde os navios americanos podem ou no podem ir.
-		Ns no podemos ser intimidados dessa forma, nem pela Alemanha, nem por qualquer outro pas! - disse Chuck com indignao.
Dris no arredou p.
-		Se for para salvar vidas, por que no?
-		A maioria dos americanos parece pensar como Chuck - disse Gus.
-		Isso no significa que eles estejam certos.
-		Wilson acredita que um presidente deve lidar com a opinio pblica da mesma forma que um navio lida com o vento: usando-a a seu favor, mas nunca indo contra ela por completo.
-		Ento por que o alistamento obrigatrio? Isso transforma os homens americanos em escravos.
-		Voc no acha que  justo sermos todos igualmente responsveis por lutar pelo nosso pas?- Gus atalhou novamente.
-		Ns temos um exrcito profissional. Composto por homens que pelo menos se alistaram voluntariamente.
-		O nosso exrcito tem 130 mil homens - argumentou Gus. - Nesta guerra, isso no  nada. Vamos precisar de no mnimo um milho de soldados.
-		Muito mais homens para morrer - disse Dris.
-		Uma coisa eu garanto: ns l no banco estamos contentes - falou Chuck. - Emprestamos muito dinheiro para empresas norte-americanas fornecedoras dos Aliados. Se os alemes ganharem a guerra, e os britnicos e franceses no puderem pagar o que devem, vamos entrar pelo cano.

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Dris assumiu uma expresso pensativa.
-		Eu no sabia disso.
Chuck afagou a mo da mulher.
-		No se preocupe, querida. Isso no vai acontecer. Os Aliados vo ganhar, ainda mais com a nossa ajuda.
-		Existe outro motivo para lutarmos - disse Gus. - Quando a guerra terminar, os Estados Unidos podero participar do acordo de paz em p de igualdade com os demais pases. Talvez no parea grande coisa, mas o sonho de Wilson  criar uma liga das naes para solucionar futuros conflitos sem termos que matar uns aos outros. - Ele olhou para Dris. - Imagino que voc seja a favor disso.
-		Com certeza.
Chuck mudou de assunto.
-		O que trouxe voc para casa, Gus? Fora o desejo de explicar a ns, reles mortais, as decises do presidente.
Ele lhes contou sobre a greve. Falou em tom casual, como se estivesse batendo papo em um coquetel, mas na verdade estava preocupado. A Metalrgica de Buffalo era crucial para o esforo de guerra, e ele no sabia ao certo como faria os operrios voltarem ao trabalho. Wilson havia solucionado uma greve nacional dos ferrovirios logo antes da reeleio e parecia achar que intervir em disputas industriais era parte natural da vida poltica. Gus, por sua vez, considerava isso uma responsabilidade pesada.
-		Voc sabe quem  o dono dessa fbrica, no sabe? - perguntou Chuck.
Gus havia verificado.
-		Vyaiov.
-		E sabe quem a administra para ele?
-		No.
-		Seu novo genro, Lev Peshkov.
-		Ah - disse Gus. - Isso eu no sabia.
Lev estava furioso por causa da greve. O sindicato vinha tentando se aproveitar de sua inexperincia. Ele tinha certeza de que Brian Hall e os operrios o consideravam um fraco. Estava decidido a provar que eles estavam enganados.
A princpio, tentara se mostrar razovel.
-		O Sr. V precisa recuperar um pouco do dinheiro que perdeu durante os anos difceis - havia dito a Hall.

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-		E os operrios precisam recuperar um pouco do que eles perderam com a reduo salarial! - retrucara o outro.
-		No  a mesma coisa.
-		No, no  - concordara Hall. - Vocs so ricos e eles so pobres.  pior para eles. - A esperteza do sindicalista era irritante.
Lev estava louco para voltar a cair nas graas do sogro. Deixar um homem como Josef Vyalov muito tempo insatisfeito era perigoso. O problema era que Lev tinha um nico trunfo - seu charme -, que no funcionava com Vyalov.
Mas o sogro estava do lado dele quanto  fundio.
-		s vezes  preciso deixar que eles faam greve - dissera ele. - O que no se pode  ceder. Voc tem que aguentar firme. Eles vo ficando mais sensatos  medida que comeam a passar fome. - Mas o genro sabia como Vyalov era capaz de mudar de ideia rpido.
Para apressar o fracasso da greve, Lev tinha seu prprio plano. Ele usaria o poder da imprensa.
Graas ao sogro, que havia garantido sua admisso, Lev era scio do Iate Clube de Buffalo. A maioria dos principais empresrios da cidade tambm frequentava o local, incluindo Peter Hoyle, editor do Buffalo Advertiser. Certa tarde, Lev abordou Hoyle na sede do clube, no incio da Avenida Porter.
O Advertiser era um jornal conservador que vivia defendendo a estabilidade e punha a culpa de todos os problemas nos estrangeiros, nos negros e nos agitadores socialistas. Hoyle, homem imponente de bigode preto, era amigo de Vyalov.
-		Ol, jovem Peshkov - disse ele. Tinha uma voz alta e rspida, como se estivesse acostumado a gritar para ser ouvido acima do barulho das rotativas. - Fiquei sabendo que o presidente mandou o filho de Cam Dewar vir para c resolver a sua greve.
-		 o que parece, mas ele ainda no me procurou.
-		Eu conheo o rapaz.  um ingnuo. Voc no tem muito com que se preocupar.
Lev achava o mesmo. Em 1914, quando Petrogrado ainda se chamava So
Petersburgo, havia tirado um dlar de Gus Dewar, e fazia um ano que tinha roubado a noiva dele com a mesma facilidade.
-		Eu queria conversar com o senhor sobre a greve - disse ele, sentando-se na poltrona de couro, de frente para Hoyle.
-		O Advertiser j tachou os grevistas de socialistas e revolucionrios antiamericanos - disse Hoyle. - O que mais podemos fazer?
-		Cham-los de agentes inimigos - disse Lev. - Eles esto atravancando a 

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produo dos veculos de que os nossos rapazes vo precisar quando chegarem  Europa... mas os operrios esto dispensados do servio militar!
-		 um ngulo de ataque possvel - disse Hoyle, franzindo as sobrancelhas. - Mas ainda no sabemos como vai funcionar o alistamento.
-		Com certeza as indstrias de guerra vo ficar de fora.
-		 verdade.
-		E, mesmo assim, eles esto exigindo mais dinheiro. Muitas pessoas aceitariam um salrio menor em troca de um emprego que as mantivesse fora da guerra.
Hoyle sacou um bloco de anotaes do bolso do palet e comeou a escrever.
-		Aceitariam um salrio menor por um emprego que dispensasse do alistamento - murmurou ele.
-		Talvez o senhor at se pergunte: de que lado eles esto?
-		Parece uma boa manchete.
Lev ficou surpreso e satisfeito. Tinha sido moleza.
Hoyle ergueu os olhos do bloco.
-		Imagino que o Sr. V saiba que ns estamos tendo esta conversa, no?
Lev no previra essa pergunta. Para disfarar a perplexidade, sorriu. Se dissesse que no, Hoyle desistiria de tudo na hora.
-		Sim,  claro - mentiu. - Na verdade, a ideia foi dele.
Vyalov pediu a Gus que o encontrasse no Iate Clube. Brian Hall props uma reunio no escritrio do sindicato em Buffalo. Os dois lados queriam se encontrar no prprio terreno, para se sentirem confiantes e no comando da situao. Assim, Gus reservou uma sala de conferncias no Hotel Statler.
Lev Peshkov havia atacado os grevistas afirmando que eles queriam fugir do alistamento, e o Advertiser publicara suas palavras na primeira pgina, sob o ttulo DE QUE LADO ELES ESTO? Gus ficara consternado ao ler o jornal: esse tipo de comentrio agressivo servia apenas para agravar o problema. Porm o tiro de Lev sara pela culatra. Os jornais daquela manh divulgaram uma onda de protestos de trabalhadores em outras indstrias de guerra, indignados com a sugesto de que deveriam receber salrios baixos devido  sua condio privilegiada e furiosos por serem acusados de fugir do alistamento. A trapalhada de Lev animou Gus, mas ele sabia que seu verdadeiro inimigo era Vyalov - e isso o deixava nervoso.
Gus levou todos os jornais consigo para o Statler e os disps sobre uma mesa

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de canto na sala de reunio. Deixou em posio de destaque um dirio popular com a manchete E VOC, LEV, VAI SE ALISTAR?
Gus havia pedido a Brian Hall para chegar ao hotel 15 minutos antes de Vyalov. O lder sindical no se atrasou. O assessor do presidente reparou que ele vestia um terno elegante e um chapu de feltro cinza. Era uma boa ttica. Mesmo que voc representasse os trabalhadores, aparentar inferioridade era um erro. Hall, ao seu modo, parecia to importante quanto Vyalov.
O sindicalista viu os jornais e sorriu.
-		O jovem Lev cometeu um erro - falou, satisfeito. - Arranjou um monte de sarna para se coar.
-		Manipular a imprensa  um jogo perigoso - disse Gus. Ele foi direto ao assunto: - Voc est pedindo um aumento de um dlar por dia.
-		So s 10 centavos a mais do que meus operrios estavam ganhando quando Vyalov comprou a fbrica e...
-		Esquea isso - interrompeu Gus, demonstrando mais coragem do que de fato sentia. - Se eu conseguir 50 centavos, voc aceita?
Hall pareceu indeciso.
-		Eu teria que consultar os operrios...
-		No - falou Gus. - Preciso que decida agora. - Rezou para seu nervosismo no estar transparecendo.
Hall foi evasivo.
-		Vyalov concordou com isso?
-		Deixe que eu me preocupo com Vyalov. Cinquenta centavos,  pegar ou largar. - Gus resistiu ao impulso de enxugar a testa.
Hall fitou Gus com um olhar demorado, perscrutador. Gus desconfiava que, por trs daquela aparncia de brigo, havia um crebro astuto. Por fim, Hall falou:
-		Vamos aceitar... por enquanto.
-		Obrigado. - Gus conseguiu no soltar o ar dos pulmes em um grande suspiro de alvio. - Aceita um caf?
-		Com prazer.
Gus virou-lhe as costas, grato pela chance de esconder o rosto, e tocou a sineta para chamar um garom.
Josef Vyalov e Lev Peshkov entraram na sala. Gus no apertou a mo de nenhum dos dois.
-		Sentem-se - falou, lacnico.
O olhar de Vyalov recaiu sobre os jornais em cima da mesa lateral, e uma

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expresso de raiva cruzou seu rosto. Gus imaginou que Lev j estivesse encrencado por conta daquelas manchetes.
Tentou no encarar Lev. Aquele era o motorista que havia seduzido sua noiva
-		mas ele no podia permitir que isso turvasse seu raciocnio. A vontade de Gus era lhe dar um soco na cara. Contudo, se aquela reunio sasse conforme o planejado, o resultado seria mais humilhante para Lev do que um soco - e muito mais satisfatrio para ele prprio.
Um garom apareceu e Gus disse:
-		Caf para meus convidados, por favor, e um prato de sanduches de presunto.
-		Fez questo de no perguntar o que os outros queriam. Tinha visto Woodrow Wilson agir assim com aqueles que desejava intimidar.
Sentou-se e abriu uma pasta. Dentro dela, havia uma folha de papel em branco. Ele fingiu l-la. Lev se sentou e disse:
-		Ento o presidente mandou voc vir at aqui para negociar com a gente, Gus? S ento Gus se permitiu olhar para Lev. Passou um bom tempo encarando-o
sem dizer nada. Um rapaz bonito, pensou ele, mas indigno de confiana e fraco. Quando Lev comeou a parecer constrangido, Gus finalmente falou:
-		Porra, voc est maluco?
Lev ficou to chocado que chegou a arrastar a cadeira para trs, como se estivesse com medo de apanhar.
-		Mas o que...
Gus endureceu a voz.
-		Os Estados Unidos esto em guerra - disse ele. - O presidente no vai negociar com voc. - Olhou para Brian Hall. - Nem com voc - falou, embora tivesse feito um acordo com Hall apenas 10 minutos atrs. Por fim, olhou para Vyalov.
-		E nem mesmo com voc - concluiu.
Vyalov o encarou de volta com o olhar firme. Ao contrrio do genro, no se deixou intimidar. No entanto, j no exibia a expresso de deboche com a qual havia iniciado a reunio. Aps uma longa pausa, perguntou:
-		Ento o que voc veio fazer aqui?
-		Estou aqui para lhes dizer o que vai acontecer - falou Gus, sem alterar o tom de voz. - E, depois que eu tiver acabado, vocs vo aceitar.
-		Essa  boa! - disse Lev.
-		Cala a boca, Lev - disse Vyalov. - Prossiga, Dewar.
-		Vocs vo propor aos operrios um aumento de 50 centavos por dia - disse Gus. Virou-se para Hall: - E voc vai aceitar a proposta.

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Hall manteve a expresso impassvel e falou:
-		Ah, ?
-		E quero seus homens de volta ao trabalho ao meio-dia de hoje.
-		E posso saber por que ns deveramos fazer o que voc est dizendo? - perguntou Vyalov.
-		Por causa da alternativa.
-		Que seria...?
-		O presidente despachar um batalho do Exrcito at a fundio para assumir o controle, ocup-la, liberar todas as mercadorias prontas para os clientes e continuar a oper-la com engenheiros militares. Depois da guerra, talvez ele at devolva a fbrica. - Ele se virou para Hall. - E, nesse caso, pode ser que seus homens tambm recuperem os empregos. - Gus desejou ter pedido a autorizao de Woodrow Wilson antes de dizer isso, mas agora era tarde demais.
-		Ele tem o direito de fazer isso? - quis saber Lev, estupefato.
-		Em tempos de guerra, sim - respondeu Gus.
-		Isso  o que voc diz - falou Vyalov com ceticismo.
-		Ento recorram  Justia contra ns - disse Gus. - Acham mesmo que existe algum juiz nos Estados Unidos que v ficar do lado de vocs... e dos inimigos do nosso pas? - Ele se recostou na cadeira e os fitou com uma arrogncia que no sentia. Aquilo iria mesmo funcionar? Ser que acreditariam nele? Ou ser que iriam desmascarar seu blefe, rir na sua cara e ir embora dali?
Fez-se um longo silncio. A expresso de Hall era inescrutvel. Vyalov estava pensativo. Lev parecia enjoado.
Por fim, Vyalov se voltou para Hall:
-		Voc est disposto a aceitar 50 centavos?
-		Estou - limitou-se a dizer Hall.
Vyalov tornou a olhar para Gus.
-		Nesse caso, ns tambm aceitamos.
-		Obrigado, cavalheiros. - Gus fechou a pasta, tentando conter o tremor das prprias mos. - Vou avisar o presidente.
O sbado foi de sol e calor. Lev disse a Olga que precisavam dele na fbrica e ento foi  casa de Marga. Ela morava em um quartinho no bairro de Lovejoy. Os dois se abraaram, mas, quando Lev comeou a desabotoar sua blusa, ela falou:
-		Vamos ao Humboldt Park.

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-		Prefiro trepar.
-		Depois. Leve-me ao parque e, quando voltarmos, eu lhe mostro uma coisa especial. Uma coisa que nunca fizemos antes.
A garganta de Lev ficou seca.
-		Por que eu preciso esperar?
-		O dia est to lindo.
-		E se algum nos vir?
-		Vai ter um milho de pessoas no parque.
-		Mesmo assim...
-		Est com medo do seu sogro, no ?
-		At parece - respondeu Lev. - Escute, sou o pai da neta dele. O que ele vai fazer? Me dar um tiro?
-		Vou trocar de vestido.
-		Eu espero no carro. Se voc tirar a roupa na minha frente, posso acabar perdendo o controle.
Lev dirigia um Cadillac cup novo, com capacidade para trs passageiros. Podia no ser o carro mais bacana da cidade, mas era um bom comeo. Sentou-se ao volante e acendeu um cigarro.  claro que tinha, sim, medo de Vyalov. Porm, ele havia passado a vida inteira correndo riscos. Afinal de contas, no era Grigori. E tudo tinha dado bastante certo at ali, pensou ele, sentado no carro, com um terno de vero azul, prestes a levar uma garota bonita ao parque. A vida era boa.
Antes de ele terminar o cigarro, Marga saiu do prdio e entrou no carro ao seu lado. Usava um vestido sem mangas ousado e tinha os cabelos enrolados por cima das orelhas, na ltima moda.
Ele dirigiu at o Humboldt Park, na regio leste da cidade. Os dois se sentaram em um banco de ripas de madeira para aproveitar o sol e ver as crianas brincarem junto ao lago. Lev no conseguia parar de tocar os braos nus de Marga. Adorava os olhares invejosos que recebia dos outros homens. Ela  a garota mais bonita do parque, pensou, e est comigo. Quer melhor do que isso?
-		Sinto muito pela sua boca - disse ele. O lbio inferior de Marga ainda estava inchado por causa do soco de Vyalov. O resultado era bem sensual.
-		No foi culpa sua - disse ela. - Seu sogro  um calhorda.
-		 verdade.
-		A Hot Spot me ofereceu um emprego na hora. Vou comear assim que puder voltar a cantar.
-		Ainda di?
Ela arriscou alguns compassos.

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Eu brinco com meus cabelos
Jogo um pouco de baralho
Enquanto sozinha espero
A chegada de um milionrio
Tocou a prpria boca de leve.
-		Sim - respondeu.
Lev se inclinou para mais perto dela.
-		Deixe-me dar um beijinho para sarar. - Ela ergueu o rosto em direo ao seu
e ele a beijou delicadamente, quase sem tocar-lhe os lbios.
-		No precisa ser com tanto cuidado - disse ela.
Ele abriu um sorriso.
-		Certo, e que tal assim? - Tornou a beij-la e, desta vez, deixou a ponta da lngua acariciar a parte interna de seus lbios.
Um minuto depois, ela disse:
-		Desse jeito tambm no tem problema. E deu uma risadinha.
-		J que  assim... - Ento ele ps a lngua inteira dentro da boca de Marga. Ela
retribuiu com entusiasmo, como sempre fazia. Suas lnguas se encontraram e ela
levou a mo  nuca de Lev para lhe acariciar o pescoo. Ele ouviu algum dizer
"Que pouca-vergonha!" e se perguntou se os transeuntes podiam ver sua ereo.
-		Estamos chocando o povo desta cidade - disse ele, sorrindo para Marga.
Ergueu a cabea para ver se havia algum olhando e se deparou com sua mulher,
Olga.
Ela encarava os dois, perplexa, e sua boca formava um O mudo.
Ao lado dela estava seu sogro, vestindo terno, colete e chapu de palha.
Carregava Daisy no colo. A filha de Lev usava uma touca branca para proteger
seu rosto do sol. A bab, Polina, vinha logo atrs.
-		Lev! - exclamou Olga. - Mas o que... Quem  essa mulher?
Lev achou que talvez pudesse ter se safado daquela situao na base da conversa, mas apenas se Vyalov no estivesse ali.
Levantou-se do banco.
-		Olga... eu no sei o que dizer.
-		No diga porcaria nenhuma - falou Vyalov com rispidez.
Olga comeou a chorar.
Vyalov entregou Daisy para a bab.
-		Leve minha neta para o carro agora mesmo.
-		Sim, Sr. Vyalov.

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Vyalov agarrou o brao de Olga e a afastou dali.
-		V com Polina, meu bem.
Olga cobriu os olhos com as mos para esconder as lgrimas e saiu atrs da bab.
-		Seu merda! - gritou Vyalov a Lev.
Lev cerrou os punhos. Se o sogro lhe batesse, iria revidar. Vyalov podia ser forte como um touro, mas era 20 anos mais velho. Lev era mais alto e havia aprendido a brigar nos bairros pobres de Petrogrado. No iria levar uma surra.
Vyalov leu seus pensamentos.
-		No vou sair no brao com voc - disse ele. - J passamos desse ponto.
Ento o que vai fazer?, quis perguntar Lev. Porm manteve a boca fechada.
Vyalov olhou para Marga.
-		Eu deveria ter batido em voc com mais fora.
Marga pegou a bolsa, abriu-a, ps a mo l dentro e assim ficou.
-		Se chegar perto de mim mais um centmetro, eu juro que lhe dou um tiro na barriga, seu campons russo com cara de porco.
Lev no pde deixar de admirar a empfia dela. Poucos tinham coragem de ameaar Josef Vyalov.
A expresso de Vyalov ficou sombria de raiva, mas ele deu as costas para Marga e falou com Lev.
-		Sabe o que vai ser de voc?
Que diabo o aguardava desta vez?
Lev ficou calado.
-		Voc vai entrar para a droga do Exrcito - disse Vyalov.
Lev gelou.
-		O senhor est brincando.
-		Qual foi a ltima vez que voc me ouviu falar alguma coisa de brincadeira?
-		Eu no vou entrar para o Exrcito. Como o senhor pretende me obrigar?
-		Ou voc se alista como voluntrio, ou ento vai ser convocado.
-		No pode fazer isso! - exclamou Marga.
-		Pode, sim - disse Lev, arrasado. - Ele consegue armar qualquer coisa nesta cidade.
-		E quer saber de uma coisa? - disse Vyalov. - Voc pode at ser meu genro, mas, por Deus, espero que morra na guerra.
Em uma tarde no final de junho, Chuck e Dris Dixon deram uma festa em seu jardim. Gus foi com os pais. Todos os homens estavam de terno, mas as mulheres

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usavam trajes de vero e chapus extravagantes, de modo que os convidados formavam um grupo colorido. Havia sanduches e cerveja, limonada e bolo. Um palhao distribua guloseimas e um professor primrio de bermuda organizava brincadeiras com as crianas: corrida do saco, do ovo na colher, de trs pernas.
Dris quis conversar de novo com Gus sobre a guerra.
-		H boatos sobre um motim no Exrcito francs - disse ela.
Gus sabia que a verdade era mais grave do que os boatos: 54 divises francesas haviam se amotinado e 20 mil homens, desertado.
-		Imagino que seja por isso que eles mudaram sua ttica de ofensiva para defensiva - respondeu, mantendo-se neutro.
-		Parece que os oficiais franceses tratam mal seus soldados. - Dris adorava as ms notcias sobre a guerra, pois elas corroboravam sua oposio. - E a ofensiva Nivelle tem sido um desastre.
-		A chegada das tropas americanas vai levantar o moral deles. - Os primeiros norte-americanos haviam embarcado em navios a caminho da Frana.
-		Mas at agora ns mandamos apenas um contingente simblico. Espero que isso queira dizer que s vamos desempenhar um papel pequeno no conflito.
-		No, no  isso. Precisamos recrutar, treinar e armar pelo menos um milho de homens. No podemos fazer isso de uma hora para outra. Mas no ano que vem mandaremos centenas de milhares de soldados.
Dris olhou por cima do ombro de Gus e falou:
-		Deus me livre, l vem um dos nossos novos recrutas.
Virando-se para trs, Gus viu a famlia Vyalov: Josef e Lena acompanhados de Olga, Lev e uma menininha. Lev usava uma farda. Estava muito elegante, porm trazia uma expresso emburrada no belo rosto.
Gus ficou constrangido, mas seu pai, encarnando a persona de senador, apertou a mo de Josef cordialmente e disse algo que o fez rir. Sua me se dirigiu a Lena com simpatia e cobriu o beb de mimos. Gus percebeu que seus pais haviam previsto aquele encontro e decidido agir como se tivessem esquecido que o filho e Olga j haviam sido noivos.
Ele cruzou olhares com Olga e meneou a cabea com educao. Ela corou.
Lev demonstrou a impertinncia de sempre.
-		Ento, Gus, o presidente est contente com voc por ter solucionado a greve?
Os outros ouviram a pergunta e se calaram, aguardando a resposta.
-		Ele est contente com voc por ter sido sensato - respondeu diplomaticamente. - Estou vendo que entrou para o Exrcito.
-		Fui voluntrio - disse Lev. - Estou treinando para ser oficial.

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-		E o que est achando?
De repente, Gus se deu conta de que ele e Lev estavam cercados por uma plateia: os Vyalov, os Dewar e os Dixon. Os dois homens no tinham sido vistos juntos em pblico desde a anulao do noivado. Todos estavam curiosos.
-		Vou me acostumar com o Exrcito - respondeu Lev. - E voc?
-Eu?
-		Vai ser voluntrio? Afinal de contas, voc e seu presidente nos puseram na guerra.
Gus no respondeu nada, mas sentiu vergonha. Lev tinha razo.
-		Quer dizer, voc tambm pode esperar para ver se vai ser ou no convocado - disse Lev, pondo sal na ferida. - Nunca se sabe, talvez tenha sorte. De qualquer forma, se voltar para Washington, imagino que o presidente possa lhe conseguir uma dispensa. - Ele riu.
Gus sacudiu a cabea.
-		No - falou ele. - Andei pensando no assunto. Voc tem razo, eu fao parte do governo que instituiu o alistamento. No posso me eximir.
Viu o pai assentir com a cabea, como se j estivesse esperando por isso, porm sua me disse:
-		Mas, Gus, voc trabalha para o presidente! Existe maneira melhor de ajudar no esforo de guerra?
-		Acho que daria impresso de covardia - disse Lev.
-		Exatamente - falou Gus. - Portanto, no vou voltar para Washington. Por ora, essa parte da minha vida terminou.
Ele ouviu a me exclamar:
-		No, Gus!
-		J falei com o general Clarence, da Diviso de Buffalo - disse ele. - Vou entrar para o Exrcito Nacional.
Sua me comeou a chorar.

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CAPTULO VINTE E SEIS
Meados de junho de 1917

Ethel nunca havia pensado nos direitos da mulher antes de se ver na biblioteca
de Ty Gwyn, solteira e grvida, ouvindo Solman, aquele advogado repugnante, lhe explicar como a vida funcionava. Iria passar seus melhores anos se
esfalfando para alimentar e cuidar do filho de Fitz, enquanto o pai no tinha a
menor obrigao de ajudar no que quer que fosse. A injustia disso lhe dera vontade de matar Solman.
   Sua raiva tinha aumentado ainda mais enquanto procurava trabalho em
Londres. Os nicos empregos que conseguia eram aqueles que os homens no
queriam e, mesmo assim, por metade do salrio que eles ganhavam, ou menos.
   No entanto, fora durante os anos de convivncia com as mulheres valentes,
trabalhadoras e miserveis do East End londrino que seu feminismo inflamado
havia se tornado duro feito concreto. Os homens gostavam de inventar um conto
de fadas no qual havia uma diviso de trabalho na famlia: enquanto o homem
saa para ganhar dinheiro, a mulher cuidava da casa e das crianas. A realidade
no era bem assim. A maioria das mulheres que Ethel conhecia trabalhava 12
horas por dia, alm de cuidar da casa e das crianas. Malnutridas, sobrecarregadas, morando em barracos e vestindo trapos, elas ainda assim entoavam canes,
riam e amavam seus filhos. Para Ethel, uma nica mulher dessas tinha mais
direito de votar do que 10 homens juntos.
   Ela vinha defendendo isso h tanto tempo que teve uma sensao muito estranha quando o voto feminino se tornou uma possibilidade concreta, em meados
de 1917. Quando pequena, costumava perguntar "Como vai ser l no cu?", mas
ningum nunca lhe dera uma resposta plausvel.
   O Parlamento concordou em debater o assunto em junho.
  -		Isso  resultado do meio-termo em relao a duas questes - disse ela a
Bernie com entusiasmo ao ler a reportagem no Times. - A comisso parlamentar, que Asquith convocou para se esquivar do problema, estava desesperada para
evitar uma briga.
   Bernie estava dando o caf da manh a Lloyd: torrada mergulhada em ch doce.
  -		Imagino que o governo esteja com medo de que as mulheres voltem a se
acorrentar aos trilhos - disse ele.
   
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   Ethel assentiu.
   -		E, se os polticos se meterem nesse tipo de polmica, as pessoas comearo a dizer que no esto concentrados em vencer a guerra. Ento a comisso recomendou que o direito de voto fosse concedido apenas a mulheres com mais de 30 anos que tenham casa prpria ou paguem um aluguel acima de cinco libras por ano, ou ento que sejam casadas com um homem nessas condies. O que significa que sou nova demais.
   -		Essa foi a primeira questo - disse Bernie. - E a outra?
   -		Segundo Maud, o gabinete ficou dividido. - O Gabinete de Guerra era formado por quatro homens e pelo primeiro-ministro, Lloyd George. - Curzon,  claro, est contra ns. - O conde Curzon, lder da Cmara dos Lordes, tinha orgulho de sua misoginia. Ele presidia a Liga de Oposio ao Voto Feminino. - Milner tambm. Mas temos o apoio de Henderson. - Arthur Henderson era o lder do Partido Trabalhista, cujos parlamentares apoiavam as mulheres, embora no se pudesse dizer o mesmo de muitos membros do partido. - Bonar Law est do nosso lado, mas sem muito entusiasmo.
   -		Dois a favor, dois contra, e Lloyd George, como sempre, querendo agradar todo mundo.
   -		A segunda  que o voto ser livre. - Isso significava que o governo no obrigaria seus partidrios a votarem contra ou a favor.
   -		Ento, acontea o que acontecer, no ser culpa do governo.
   -		Ningum nunca disse que Lloyd George era ingnuo - falou Ethel.
   -		Mas ele deu uma chance a vocs.
   -		E no passa de uma chance mesmo. Temos muita campanha a fazer.
   -		Acho que voc vai notar uma mudana de postura - disse Bernie, otimista. - O governo est desesperado para que as mulheres entrem na indstria e substituam todos os homens mandados para a Frana, ento tem feito muita propaganda sobre como elas so timas motoristas de nibus e operrias de fbricas de munio. Isso torna mais difcil dizer que as mulheres so inferiores.
   -		Espero que voc tenha razo - disse Ethel com fervor.
   Fazia quatro meses que eles estavam casados, e Ethel no havia se arrependido. Bernie era inteligente, interessante e gentil. Os dois acreditavam nas mesmas coisas e trabalhavam juntos para conquist-las. Bernie provavelmente seria o candidato trabalhista de Aldgate nas prximas eleies gerais, seja l quando elas fossem realizadas - como tantas outras coisas, o pleito teria que aguardar o fim da guerra. Bernie daria um bom parlamentar, trabalhador e sagaz como era. Porm Ethel no sabia se os trabalhistas conseguiriam ganhar em Aldgate.
   
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O parlamentar que os representava no momento era um liberal, mas muitas coisas haviam mudado desde a ltima eleio, em 1910. Mesmo que a clusula sobre o sufrgio feminino no fosse aprovada, as outras propostas da comisso parlamentar dariam o direito de voto a muitos outros membros da classe trabalhadora.
   Bernie era um bom homem, mas Ethel, para sua vergonha, s vezes ainda se lembrava, com nostalgia, de Fitz - que no era inteligente, nem interessante, nem gentil e cujas crenas eram opostas s suas. Quando pensava nessas coisas, sentia-se rebaixada ao mesmo nvel de homens que eram obcecados por danarinas de canc. Enquanto esses indivduos se excitavam com meias, anguas e calcinhas de babado, Ethel ficava fascinada com as mos macias, o sotaque carregado e o cheiro limpo e levemente perfumado de Fitz.
   Mas ela agora era Eth Leckwith. Todo mundo falava em Eth e Bernie como se os dois fossem feitos um para o outro.
   Ela calou os sapatos em Lloyd e o levou at a casa da bab, indo a p em seguida at a redao do The Soldiers Wife. O tempo estava bom e ela se sentia esperanosa. Ns podemos mudar o mundo, pensou. No  fcil, mas  possvel. O jornal de Maud iria angariar apoio para o projeto de lei entre as mulheres da classe trabalhadora e garantir que todo mundo ficasse de olho nos parlamentares durante a votao.
   Maud j se encontrava na redao pouco espaosa, tendo chegado cedo, sem dvida por causa das notcias. Estava sentada diante de uma velha mesa manchada, usando um vestido de vero lils e um chapu que parecia um casquete, com uma pena exageradamente comprida espetada no topo. A maioria de suas roupas datava de antes da guerra, mas, mesmo assim, ela se vestia com elegncia. Parecia refinada demais para aquele lugar, como um cavalo de corrida em um curral.
  -		Precisamos publicar uma edio extra - falou, rabiscando em um bloquinho. - Estou escrevendo a primeira pgina.
   Ethel sentiu uma onda de entusiasmo. Era disso que gostava: de ao. Sentou-se  mesa, de frente para ela, e disse:
  -		Vou garantir que as outras pginas fiquem prontas. Que tal uma coluna sobre como os leitores podem ajudar?
  -		Boa ideia. Venham  nossa assembleia, convenam o parlamentar em que votaram, escrevam uma carta para um jornal, esse tipo de coisa.
  -		Vou fazer um rascunho. - Ela pegou um lpis e tirou um bloco de uma gaveta.
  -		Temos que mobilizar as mulheres contra esse projeto de lei - disse Maud.
   Ethel ficou petrificada com o lpis na mo.
   
663
 

-		O qu? - perguntou ela. - Voc disse contra?
-		 claro. O governo vai fingir dar o voto s mulheres, mas continuar privando a maioria de ns desse direito.
Ethel olhou para o outro lado da mesa e viu a manchete que Maud havia escrito: VOTEM CONTRA ESTA TRAPAA!
-		Espere um pouco. - Ela no considerava aquilo uma trapaa. - Isso pode no ser tudo o que queremos, mas  melhor do que nada.
Maud a encarou com raiva.
-		 pior do que nada. Esse projeto de lei s finge tornar as mulheres iguais.
Maud estava sendo terica demais.  claro que, em princpio, era errado discriminar as mulheres mais jovens. Porm isso no tinha importncia no momento. Era uma questo de pragmatismo poltico.
-		Veja bem, s vezes as reformas precisam acontecer aos poucos - disse Ethel. - O voto foi estendido aos homens de forma bastante gradual. At hoje, s cerca de metade deles pode votar...
Maud a interrompeu com autoritarismo:
-		Voc j pensou em quem so as mulheres excludas?
Esse era um dos defeitos de Maud: ela s vezes parecia arrogante. Ethel tentou no se ofender. Mantendo a calma, respondeu:
-		Bom, eu sou uma delas.
Maud no abrandou o tom:
-		A maioria das operrias das fbricas de munio, que so parte fundamental do esforo de guerra, seria jovem demais para votar. O mesmo vale para grande parte das enfermeiras que arriscaram a vida para cuidar de soldados feridos na Frana. Se morarem em quartos de penso, as vivas de guerra no podero votar, apesar de todo o seu sacrifcio. Ser que voc no enxerga que o objetivo desse projeto de lei  transformar as mulheres em minoria?
-		Ento voc quer fazer campanha contra o projeto?
-		Mas  claro!
-		Isso  loucura. - Ethel estava surpresa e angustiada por estar discordando to violentamente de algum que era sua amiga e companheira de luta h tanto tempo. - Desculpe, mas no entendo como podemos pedir aos parlamentares que votem contra uma coisa que estamos exigindo h dcadas.
-		No  isso que estamos fazendo! - A raiva de Maud aumentou. - Nossa campanha  pela igualdade, e isso no  igualdade. Se cairmos nessa armadilha, vamos passar mais uma gerao  margem da vida poltica!
-		No se trata de cair em uma armadilha - disse Ethel, irritada. - Eu no estou

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sendo enganada. Entendo o que quer dizer... e voc nem est sendo muito sutil. Mas seu juzo est errado.
-		Ah,  mesmo? - indagou Maud com dureza. De repente, Ethel viu quanto ela se parecia com Fitz: ambos defendiam pontos de vista opostos com o mesmo tipo de obstinao.
-		Pense s na propaganda que a oposio vai fazer! - disse Ethel. - "Ns sempre avisamos que as mulheres no sabem o que querem", diro eles. " por isso que elas no podem votar." Vamos ser motivo de chacota mais uma vez.
-		Nossa propaganda precisa ser melhor que a deles - falou Maud com desenvoltura. - S temos que explicar a situao para todos com muita clareza.
Ethel sacudiu a cabea.
-		Voc est enganada. Esse tipo de coisa mexe demais com a emoo das pessoas. H anos combatemos a legislao que impede as mulheres de votar. Essa  a barreira. Quando ela cair, outras concesses passaro a ser vistas como meros detalhes tcnicos. Vai ser relativamente fcil diminuir a idade de voto e atenuar outras restries. Voc precisa entender isso.
-		No, no entendo - respondeu Maud friamente. No gostava que lhe dissessem que ela precisava entender alguma coisa. - Esse projeto de lei  um passo para trs. Qualquer um que o defenda  um traidor.
Ethel ficou encarando Maud. Estava magoada.
-		Voc no pode acreditar numa coisa dessas! - falou.
-		Por favor, no venha me dizer no que posso ou no acreditar.
-		H dois anos que estamos trabalhando e militando nisso juntas - falou Ethel, com os olhos cheios de lgrimas. - Voc acha mesmo que, se eu discordo de voc,  porque sou desleal  causa do sufrgio feminino?
Maud foi implacvel:
-		Com toda a certeza.
-		Ento est bem - disse Ethel e, sem saber o que mais poderia fazer, saiu da redao.
Fitz encomendou seis ternos novos a seu alfaiate. Todos os antigos estavam folgados em seu corpo magro, o que lhe dava um aspecto envelhecido. Ele vestiu suas roupas de gala novas: fraque preto, colete branco e colarinho de bico com gravata borboleta branca. Olhou-se no espelho de p do quarto de vestir e pensou: agora sim.

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   Desceu para a sala de estar. Dentro de casa, conseguia andar sem bengala. Maud lhe serviu uma taa de vinho Madeira.
   -		Como est se sentindo? - perguntou tia Herm.
   -		Os mdicos dizem que a perna est melhorando, mas  um processo lento. - Fitz tinha voltado s trincheiras no comeo do ano, mas o frio e a umidade haviam se mostrado insuportveis, de modo que estava de volta  lista de convalescentes e trabalhando no servio de inteligncia.
   -		Sei que voc preferiria estar l - disse Maud -, mas no estamos tristes por ter escapado dos combates da primavera.
   Fitz aquiesceu. A ofensiva Nivelle tinha sido um fracasso, que causara a demisso do general francs Nivelle. Os soldados franceses estavam se amotinando: defendiam suas trincheiras, mas se negavam a cumprir as ordens de avanar. At ali, aquele havia sido mais um ano ruim para os Aliados.
   Maud, no entanto, estava errada ao pensar que Fitz preferiria estar no front. O trabalho que ele estava fazendo na Sala 40 talvez fosse mais importante ainda do que os combates na Frana. Muitos haviam temido que os submarinos alemes fossem estrangular as linhas de abastecimento britnicas. Contudo, a Sala 40 conseguia localizar os submarinos e alertar os navios. Essa informao, aliada  ttica de despachar os navios em comboios escoltados por destrieres, tornava os submarinos bem menos eficazes. Embora poucos soubessem a respeito dessa estratgia, ela era um sucesso.
   O perigo agora era a Rssia. Com o czar deposto, qualquer coisa poderia acontecer. At o momento, os moderados haviam se mantido no controle, mas ser que isso iria durar? No eram apenas a famlia de Bea e a herana de Boy que corriam perigo. Se os extremistas assumissem o governo russo, poderiam selar a paz, o que liberaria centenas de milhares de soldados alemes para combater na Frana.
   -		Pelo menos no perdemos a Rssia - disse Fitz.
   -		Ainda - retrucou Maud. - Todo mundo sabe que os alemes esto torcendo por um triunfo bolchevique.
   Enquanto ela falava, a princesa Bea entrou na sala, usando um vestido decotado de seda prateada e um conjunto de jias de diamantes. Fitz e Bea iriam a um jantar seguido de um baile: estavam em plena temporada londrina. Bea ouviu o comentrio de Maud e disse:
   -		No subestimem a famlia real russa. Ainda pode haver uma contrarrevoluo. Afinal de contas, o que o povo russo ganhou? Os operrios seguem passando fome e os soldados continuam a morrer, enquanto os alemes no param de avanar.
   
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Grout entrou trazendo uma garrafa de champanhe. Abriu-a sem fazer barulho e serviu uma taa para Bea. Como sempre, ela tomou um s gole e pousou a taa.
-		O prncipe Lvov anunciou que as mulheres podero votar na eleio da Assembleia Constituinte - falou Maud.
-		Isso se a eleio acontecer - disse Fitz. - O governo provisrio est fazendo vrios pronunciamentos, mas ser que algum lhe d ouvidos? At onde consigo entender, cada vilarejo nomeou seu prprio soviete e est se autogerindo.
-		Imaginem s! - exclamou Bea. - Aqueles camponeses supersticiosos, analfabetos, fingindo governar alguma coisa!
-		 um perigo - disse Fitz com irritao. - As pessoas no fazem ideia da facilidade com que eles podem descambar para a anarquia e a barbrie.  Esse assunto o tirava do srio.
-		Que ironia vai ser se a Rssia se tornar mais democrtica do que a Gr-Bretanha - falou Maud.
-		O Parlamento est prestes a debater o voto feminino - disse Fitz.
-		Somente para mulheres com mais de 30 anos que tenham casa prpria ou alugada, ou que sejam casadas com um homem nessas condies.
-		Mesmo assim, voc deve estar contente com o progresso que conseguiu. Li um artigo a respeito em uma revista, assinado pela sua camarada Ethel. - Ao abrir a New Statesman na sala de estar de seu clube, Fitz levara um susto ao se deparar com as palavras de sua ex-governanta. Ficou incomodado ao pensar que talvez no conseguisse escrever um artigo to claro e articulado. - Ela diz que as mulheres deveriam aceitar isso sob o argumento de que  melhor um pssaro na mo do que dois voando.
-		Infelizmente eu discordo - disse Maud, glida. - No vou esperar at os 30 anos para ser considerada um membro da raa humana.
-		Vocs duas brigaram?
-		Ns concordamos em nos separar.
Fitz notou que Maud estava furiosa. Para acalmar os nimos, virou-se para lady Hermia:
-		Se o Parlamento britnico conceder o direito de voto s mulheres, tia, em quem a senhora vai votar?
-		No tenho certeza se vou s urnas - respondeu tia Herm. - No  uma coisa um pouco vulgar?
Maud pareceu contrariada, mas Fitz sorriu.
-		Se as senhoras de boa famlia pensarem assim, as nicas a votar sero as mulheres da classe trabalhadora, que vo eleger os socialistas - disse ele.

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-		Oh, cus! - falou Herm. - Ento talvez seja melhor eu votar.
-		A senhora apoiaria Lloyd George?
-		Um advogado gals? Nem pensar.
-		Ou, quem sabe, Bonar Law, o lder conservador.
-		Imagino que sim.
-		Mas ele  canadense.
-		Deus me livre!
-		 esse o problema de se ter um imprio. A ral do mundo inteiro acha que faz parte dele.
A bab entrou com Boy. Ele j estava com dois anos e meio e era um menino rechonchudo, com os mesmos cabelos louros e grossos da me. Correu at Bea, que o ps sentado no colo.
-		Eu comi mingau e a bab deixou cair o acar! - disse ele, soltando uma risada. Esse tinha sido o grande acontecimento do dia no quarto das crianas.
Estar com o filho trazia o melhor de Bea  tona, pensou Fitz. Sua expresso se suavizava e ela ficava afetuosa, afagando e beijando o menino. Dali a um minuto, este se contorceu para descer do colo dela e andou at Fitz com passos trpegos.
-		Como vai o meu soldadinho? - perguntou Fitz. - Vai crescer para atirar nos alemes?
-		Pou! Pou! - disse Boy. E Fitz viu que o nariz do menino estava escorrendo.
-		Jones, ele est resfriado? - perguntou com rispidez.
A bab fez cara de assustada. Era uma moa de Aberowen, mas tinha feito treinamento profissional.
-		No, meu amo, tenho certeza que no... estamos em junho!
-		Existem resfriados de vero.
-		Ele passou o dia todo muito bem.  s um pouco de ranho.
-		S pode ser. - Fitz tirou um leno de linho do bolso interno do fraque e limpou o nariz de Boy. - Ele tem brincado com crianas do povo?
-		No, senhor, de forma alguma.
-		E no parque?
-		Nas partes que frequentamos, s h crianas de boa famlia. Fico muito atenta a isso.
-		Espero que fique mesmo. Este menino  herdeiro do ttulo dos Fitzherbert e pode vir a ser um prncipe russo tambm. - Fitz ps Boy no cho e o menino voltou correndo em direo  bab.
Grout tornou a aparecer trazendo um envelope sobre uma bandeja de prata.
-		Telegrama, meu amo - informou o mordomo. - Para a princesa.

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Fitz indicou com um gesto que Grout deveria entregar a correspondncia  sua mulher. Bea fechou o rosto, aflita - em tempos de guerra, telegramas eram motivo de nervosismo para todos. Com um rasgo, ela abriu a mensagem e, ao examinar a folha de papel, soltou um grito desesperado.
-		O que houve? - perguntou Fitz, sobressaltado.
-		Meu irmo!
-		Ele est vivo?
-		Sim... mas foi ferido. - Ela desatou a chorar. - Tiveram que amputar o brao dele, mas Andrei est se recuperando. Ah, meu pobre irmo!
Fitz pegou o telegrama e o leu. A nica informao a mais era que o prncipe Andrei tinha sido levado para sua casa de campo em Bulovnir, na provncia de Tambov, a sudeste de Moscou. Esperava que Andrei estivesse de fato se restabelecendo. Muitos homens morriam de ferimentos infeccionados - e a amputao nem sempre impedia a gangrena de se alastrar.
-		Querida, eu sinto muitssimo - disse Fitz. Maud e Herm, cada uma de um lado de Bea, tentavam reconfort-la. - Aqui diz que receberemos uma carta em seguida, mas s Deus sabe quanto tempo levar para chegar at aqui.
-		Eu preciso saber como ele est! - disse Bea aos soluos.
-		Vou pedir ao embaixador britnico para averiguar o fato com cautela. - Mesmo naquela poca democrtica, um conde ainda tinha seus privilgios.
-		Venha, Bea, vamos subir at seu quarto - disse Maud.
Bea aquiesceu e se levantou.
-		 melhor eu ir ao jantar de lorde Silverman... - disse Fitz. - Bonar Law vai estar presente. - Fitz tinha pretenses de ser ministro de um governo conservador um dia, ento aproveitava qualquer oportunidade de conversar com o lder do partido. - Mas no vou ao baile e voltarei direto para casa.
Bea assentiu novamente e se deixou ser conduzida at o andar de cima.
Grout entrou e disse:
-		O carro est pronto, meu amo.
Durante o curto trajeto at a Belgrave Square, Fitz ficou remoendo aquela notcia. O prncipe Andrei nunca tinha sido um bom administrador das terras da famlia. Provavelmente usaria sua deficincia como desculpa para cuidar ainda menos dos negcios. Seu patrimnio iria decair mais ainda. Mas o que Fitz poderia fazer ali, em Londres, a quase 2500 quilmetros de distncia? Sentia-se frustrado e aflito. A Rssia estava a um passo da anarquia - e era a displicncia de nobres como Andrei que proporcionava aos revolucionrios sua oportunidade.
Quando ele chegou  casa dos Silverman, Bonar Law j estava l - assim como

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Perceval Jones, presidente da Celtic Minerais e representante de Aberowen no Parlamento. Jones era naturalmente presunoso, mas, naquela noite, estava quase explodindo de orgulho por se encontrar em companhia to distinta. Com as mos nos bolsos, conversava com lorde Silverman deixando  mostra a imensa corrente de ouro de seu relgio atravessada no colete largo.
   Fitz no deveria ter ficado to surpreso. Aquele era um jantar poltico - e o prestgio de Jones no Partido Conservador estava aumentando. Sem dvida, ele tambm esperava um cargo no governo quando e se Bonar Law se tornasse primeiro-ministro. Ainda assim, aquilo era um pouco como dar de cara com seu mordomo-chefe em um baile de gala - e Fitz teve a sensao inquietante de que o bolchevismo talvez estivesse chegando a Londres, no por meio da revoluo, mas furtivamente.
    mesa, Jones chocou Fitz ao se dizer a favor do voto feminino.
   -		Meu Deus do cu, por qu? - quis saber o conde.
   -		Ns fizemos uma pesquisa com os presidentes e representantes dos distritos eleitorais - respondeu Jones, ao que Fitz viu Bonar Law aquiescer. - Para cada um contra o projeto de lei, h dois a favor.
   -		Conservadores? - perguntou Fitz, incrdulo.
   -		Sim, milorde.
   -		Mas por qu?
   -		A lei s dar o direito de voto s mulheres com mais de 30 anos que tenham algum imvel ou vivam de aluguel, ou que sejam casadas com um homem que se enquadre nesse perfil. Isso exclui a maioria das operrias, pois elas costumam ser mais jovens. E todas aquelas intelectuais insuportveis so solteironas que moram de favor na casa dos outros.
   Fitz ficou pasmo. Sempre havia considerado o sufrgio feminino uma questo de princpios. Porm empresrios cheios de si como Jones no davam a menor importncia para princpios. Fitz nunca havia pensado nas consequncias eleitorais.
   -		Continuo sem entender...
   -		As novas eleitoras sero, em sua maioria, mulheres maduras, de classe mdia, mes de famlia. - Com um gesto vulgar, Jones cutucou um dos lados do nariz. - Lorde Fitzherbert, elas formam o grupo mais conservador do pas. Essa lei vai dar ao nosso partido seis milhes de novos votos.
   -		Ento o senhor vai defender o voto feminino?
   -		Ns temos que fazer isso! Precisamos dessas mulheres conservadoras. Na prxima eleio, teremos trs milhes de novos eleitores homens da classe trabalhadora, muitos recm-sados do Exrcito e quase todos contra ns. Mas as nossas mulheres sero mais numerosas.
   
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  -		Mas e quanto aos nossos princpios, homem? - protestou Fitz, embora sentisse que aquela fosse uma batalha perdida.
  -		Princpios? - repetiu Jones. - Estamos falando de pragmatismo poltico. - Ele deu um sorriso condescendente que enfureceu Fitz. - Mas o senhor sempre foi um idealista, milorde, se me permite o comentrio.
  -		Somos todos idealistas - falou lorde Silverman, botando panos quentes no conflito como um bom anfitrio. -  por isso que estamos na poltica. Pessoas sem ideais no se preocupam com essas coisas. Mas no podemos nos esquivar da realidade das eleies e da opinio pblica.
   Fitz no queria ser taxado de sonhador, como se no tivesse senso prtico, ento se apressou a dizer:
  -		 claro que no. Mesmo assim, a questo do lugar da mulher na sociedade afeta o prprio conceito de vida familiar, algo que eu imaginava ser importante para os conservadores.
  -		A questo continua em aberto - disse Bonar Law. - Os parlamentares tero voto livre e agiro de acordo com suas respectivas conscincias.
   Fitz assentiu com submisso e Silverman passou a falar sobre o motim no Exrcito francs.
   Durante o resto do jantar, o conde permaneceu calado. Achava preocupante que aquele projeto de lei tivesse o apoio tanto de Ethel Leckwith quanto de Perceval Jones. Havia um grande risco de ele ser aprovado. Fitz achava que os conservadores deveriam defender valores tradicionais, sem se deixarem influenciar por questes eleitoreiras de curto prazo. No entanto, embora tivesse percebido claramente que Bonar Law no pensava assim, no teve coragem de dizer que discordava dele. Estava com vergonha de si mesmo por no ter sido totalmente honesto, uma sensao que detestava.
   Foi embora da casa de lorde Silverman logo depois de Bonar Law. Voltou para casa e foi direto para o andar de cima. Despiu o fraque, vestiu um roupo de seda e seguiu para o quarto de Bea.
   Encontrou a mulher sentada na cama, tomando uma xcara de ch. Pde ver que Bea havia chorado, mas ela passara um pouco de p de arroz no rosto e vestira uma camisola florida e um casaquinho de tric cor-de-rosa com mangas bufantes. Perguntou a ela como estava se sentindo.
  -		Estou arrasada - respondeu Bea. - Andrei  o nico parente que me resta.
  -		Eu sei. - Os pais dela eram falecidos e a princesa no tinha nenhum outro parente prximo. -  preocupante... mas ele provavelmente vai ficar bem.
   Ela pousou a xcara e o pires.
   
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-		Andei pensando bastante, Fitz.
Vindo de Bea, esse no era um comentrio usual.
-		Por favor, me d sua mo - disse ela.
Ele tomou a mo esquerda de Bea nas suas. Ela estava bonita e, apesar do
assunto triste, Fitz teve um frmito de desejo. Pde sentir os anis que ela usava:
uma aliana de noivado de brilhante e uma aliana de casamento de ouro. Teve
um impulso de levar a mo da mulher  boca e morder a parte carnuda na base
de seu polegar.
-		Quero que voc me leve  Rssia - falou Bea.
Ele ficou to espantado que largou sua mo.
-		O qu?
-		No recuse ainda... pense um pouco - pediu ela. - Voc vai dizer que  perigoso, e eu sei que . Mesmo assim, h centenas de britnicos na Rssia neste
exato momento: diplomatas, empresrios, oficiais do Exrcito e soldados em
nossas misses militares no pas, jornalistas e outros.
-		E Boy?
-		Detesto me separar do nosso filho, mas Jones  tima bab, Hermia o adora
e no tenho dvidas de que Maud agir com sensatez caso acontea algo de ruim.
-		Ns precisaramos de vistos...
-		Voc poderia acionar seus contatos. Ora, voc acabou de jantar com pelo
menos um membro do gabinete.
Ela estava certa.
-		O Ministrio das Relaes Exteriores provavelmente me pediria para escrever um relatrio sobre a viagem... ainda mais se visitarmos a zona rural, onde
nossos diplomatas quase nunca se aventuram.
Ela tornou a segurar a mo do marido.
-		Meu nico parente vivo est gravemente ferido, talvez  beira da morte.
Preciso v-lo. Por favor, Fitz. Eu lhe imploro.
A verdade era que Fitz no estava to relutante quanto ela supunha. A experincia nas trincheiras havia modificado sua percepo do perigo. Afinal de contas, a maioria das pessoas sobrevivia a uma barragem de artilharia. Uma viagem
 Rssia, embora arriscada, no era nada comparada a isso. Ainda assim, ele
hesitava.
-		Entendo seu desejo - disse ele. - Deixe eu me informar melhor.
Ela tomou isso como um sim.
-		Ah, obrigada! - falou.
-		No me agradea ainda. Deixe-me descobrir se  possvel.

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-		Est bem - respondeu Bea, mas ele pde ver que a mulher j estava prevendo o resultado.
Ele se levantou e falou enquanto se dirigia  porta:
-		Preciso me preparar para dormir.
-		Depois que vestir seu pijama... volte, por favor. Quero que voc me abrace.
Fitz sorriu.
-		Claro - respondeu.
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No dia em que o Parlamento iria deliberar sobre o voto feminino, Ethel organizou uma assembleia em um salo nas proximidades do Palcio de Westminster.
Ela agora era funcionria do Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Indstria Txtil, que ficara mais do que satisfeito em fisgar uma ativista to famosa. Sua principal tarefa era recrutar membros do sexo feminino nas fbricas exploradoras do East End, porm o sindicato acreditava em lutar por seus membros no apenas no local de trabalho, mas tambm na arena da poltica nacional.
O fim de sua relao com Maud a deixava triste. Talvez sempre tivesse havido algo um tanto artificial na amizade entre a irm de um conde e sua ex-governanta, mas Ethel tinha nutrido esperanas de que elas pudessem superar a diferena de classes. No entanto, no fundo de seu corao, Maud acreditava - sem nem mesmo ter conscincia disso - que havia nascido para mandar e Ethel para obedecer.
Ethel esperava que a votao no Parlamento ocorresse antes do final da assembleia, para ela poder anunciar o resultado, porm o debate se alongou e a reunio precisava terminar s dez. Ethel e Bernie foram aguardar a notcia em um pub na Avenida Whitehall frequentado por parlamentares trabalhistas.
J passava das onze e o pub estava fechando quando dois parlamentares entraram apressados. Um deles viu Ethel.
-		Ns ganhamos! - gritou ele. - Quer dizer, vocs ganharam. As mulheres.
Ela mal conseguiu acreditar.
-		Eles aprovaram a clusula?
-		Por ampla maioria... 387 votos contra 57!
-		Ns ganhamos! - Ethel beijou Bernie. - Ganhamos!
-		Meus parabns - disse ele. - Saboreie a vitria. Voc merece.
Eles no puderam comemorar com um drinque. Os novos regulamentos em vigor durante a guerra obrigavam os pubs a parar de servir bebidas em um horrio

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determinado. Teoricamente, isso contribua para aumentar a produtividade da
classe trabalhadora. Ethel e Bernie saram para pegar um nibus at em casa.
Enquanto aguardavam no ponto, Ethel estava eufrica.
-		Nem acredito. Depois de tantos anos, as mulheres podem votar!
Um passante a ouviu: um homem alto, vestido com trajes de gala, que andava
com o auxlio de uma bengala.
Ela reconheceu Fitz.
-		No tenha tanta certeza disso - disse ele. - Ns vamos derrotar vocs na
Cmara dos Lordes.

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CAPTULO VINTE E SETE

De junho a setembro de 1917

alter von Ulrich saiu da trincheira e, arriscando a prpria vida, comeou a atravessar a terra de ningum.
   Grama nova e flores silvestres brotavam das crateras das bombas. Era um fim de tarde ameno de vero em uma regio que j pertencera  Polnia, depois  Rssia e agora estava parcialmente ocupada pelas tropas alems. Walter vestia um casaco sem insgnias por cima de um uniforme de cabo. Para melhorar o disfarce, havia sujado o rosto e as mos. Usava uma boina branca, como uma bandeira de paz, e carregava nos ombros uma caixa de papelo.
   Disse a si mesmo que no havia motivo para medo.
   Era possvel ver, com alguma dificuldade, as posies russas  luz do crepsculo. Fazia muitas semanas que no havia troca de tiros, e Walter achava que sua aproximao fosse despertar mais curiosidade do que desconfiana.
   Se estivesse errado, era um homem morto.
   Os russos estavam preparando uma ofensiva. Avies de reconhecimento e batedores alemes haviam identificado novas tropas sendo conduzidas para as linhas de frente e carregamentos de munio sendo recebidos. Isso tinha sido confirmado por soldados russos famintos que haviam cruzado a fronteira e se rendido na esperana de conseguir uma refeio de seus captores alemes.
   Os indcios da ofensiva iminente tinham sido uma grande decepo para Walter. Ele vinha torcendo para que o novo governo russo fosse incapaz de se manter na guerra. Em Petrogrado, Lnin e os bolcheviques bradavam pela paz, publicando uma enxurrada de jornais e panfletos pagos com dinheiro alemo.
   O povo russo no queria a guerra. O pronunciamento feito por Pavel Miliukov
-		o moderado de monculo que era ministro das Relaes Exteriores -, no qual dizia que a Rssia ainda buscava uma "vitria decisiva", havia levado trabalhadores e soldados enfurecidos s ruas outra vez. O jovem e teatral ministro da Guerra, Kerenski, responsvel pela nova ofensiva que estava por vir, havia reinstitudo a punio por aoitamento no Exrcito e devolvido a autoridade aos oficiais. Mas ser que os soldados russos iriam lutar? Era isso que os alemes precisavam saber
-		e Walter estava arriscando a vida para descobrir.
   Os sinais eram conflitantes. Em algumas partes do front, soldados russos haviam
   
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hasteado bandeiras brancas e declarado uma trgua unilateral. Outros setores pareciam tranquilos e disciplinados. Foi um desses que Walter decidiu visitar.
   Ele finalmente havia sado de Berlim. Era bem provvel que Monika von der Helbard tivesse dito aos pais, sem rodeios, que no haveria casamento nenhum. De toda forma, Walter estava outra vez na frente de batalha, reunindo informaes de inteligncia.
   Passou a caixa que carregava para o outro ombro. J podia ver meia dzia de cabeas despontando do parapeito de uma das trincheiras. Todas usavam boinas - os soldados russos no tinham capacetes. Os homens ficaram olhando para ele, mas ainda sem apontarem as armas.
   Walter era fatalista em relao  morte. Achava que poderia morrer feliz depois da noite maravilhosa passada com Maud em Estocolmo. Mas  bvio que preferia continuar vivo. Queria dividir um lar com Maud e ter filhos. E esperava faz-lo em uma Alemanha prspera e democrtica. Isso, no entanto, significava vencer a guerra, o que por sua vez implicava arriscar a prpria vida, de modo que ele no tinha escolha.
   Ainda assim, sentiu um frio na barriga ao entrar na linha de tiro dos fuzis. No custava nada para um soldado apontar a arma e puxar o gatilho... Afinal de contas, era para isso que estavam ali.
   Walter estava sem fuzil, e esperava que os soldados houvessem percebido. Tinha uma Luger 9mm presa ao cinto nas costas, mas eles no podiam v-la. Enxergavam apenas a caixa que ele carregava. Torceu para que parecesse inofensiva.
   A cada passo que dava sem morrer, sentia-se grato porm consciente de que, um a um, eles o levavam mais para perto do perigo. Agora posso morrer a qualquer segundo, filosofou. Perguntou-se se um homem chegava a escutar o tiro que o matava. O que Walter mais temia era ser ferido e sangrar lentamente at a morte, ou ento sucumbir a uma infeco qualquer em um hospital de campanha imundo.
   J podia ver o rosto dos russos e notou que eles pareciam achar graa daquilo, alm de estarem surpresos e admirados. Procurou, aflito, por sinais de medo: era esse o maior perigo. Um soldado assustado era capaz de atirar s para romper a tenso.
   Por fim, restavam apenas dez metros a percorrer, depois nove, depois oito... Ento ele chegou  beira da trincheira.
   - Ol, camaradas - falou em russo, pousando a caixa no cho.
   Estendeu a mo para o soldado mais prximo. Automaticamente, o homem fez o mesmo e o ajudou a pular para dentro da trincheira. Um pequeno grupo se reuniu  sua volta.
   
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-		Vim fazer uma pergunta a vocs - disse ele.
A maioria dos russos instrudos falava um pouco de alemo, porm os soldados eram camponeses, e poucos compreendiam qualquer idioma alm do seu. Quando criana, Walter aprendera russo como parte da preparao, imposta com rigidez pelo pai, para uma carreira no Exrcito e no Ministrio das Relaes Exteriores. Nunca havia praticado muito a lngua, mas achava que seria capaz de recordar o suficiente para aquela misso.
-		Primeiro, uma bebida - falou. - Trouxe a caixa para dentro da trincheira, rasgou a tampa e retirou uma garrafa de schnapps. Sacou a rolha, deu um gole, enxugou a boca e passou a garrafa para o soldado mais prximo, um cabo alto de 18 ou 19 anos. O homem sorriu, bebeu e passou a garrafa adiante.
Walter examinou discretamente seus arredores. A trincheira era mal construda. As paredes, inclinadas, no estavam sustentadas por vigas de madeira. O cho irregular no era coberto por tbuas, de modo que, mesmo sendo vero, estava enlameado. A trincheira nem mesmo seguia uma linha reta - embora isso provavelmente fosse bom, uma vez que no havia recessos para reduzir o impacto de um ataque de artilharia. Um cheiro asqueroso pairava no ar: obviamente, os homens nem sempre se davam ao trabalho de ir at a latrina. Qual era o problema com aqueles russos? Tudo o que faziam era descuidado, catico e mal-acabado.
Enquanto a garrafa circulava, um sargento apareceu.
-		O que est acontecendo aqui, Feodor Igorovich? - perguntou, dirigindo-se ao cabo alto. - Por que vocs esto conversando com a porra de um alemo?
Feodor era jovem, mas um bigode farto e recurvado lhe cobria as faces. Por algum motivo, usava uma boina de marinheiro de vis sobre a cabea. Parecia to seguro de si que beirava a arrogncia:
-		Tome um trago, sargento Gavrik.
O sargento bebeu no gargalo como os outros, mas no se mostrou to descontrado quanto seus homens. Lanou um olhar desconfiado para Walter.
-		Que merda  essa? O que voc est fazendo aqui?
Walter havia ensaiado o que dizer.
-		Em nome dos trabalhadores, soldados e camponeses alemes, vim perguntar por que vocs esto nos combatendo.
Aps alguns instantes de silncio perplexo, Feodor respondeu:
-		Por que vocs esto nos combatendo?
Walter j tinha sua resposta pronta:
-		No temos escolha. Nosso pas ainda  governado pelo Kaiser. Ainda no fizemos nossa revoluo. Mas vocs j. O czar foi deposto e a Rssia agora 

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governada pelo povo. Ento eu vim perguntar ao povo: por que vocs esto nos combatendo?
Feodor olhou para Gavrik e disse:
-		 exatamente o que ns vivemos nos perguntando!
Gavrik deu de ombros. Walter sups que ele fosse um tradicionalista que estivesse escondendo as prprias opinies.
Vrios outros soldados avanaram pela trincheira para se juntar ao grupo. Walter abriu mais uma garrafa. Correu os olhos pela roda de homens magros, maltrapilhos e sujos que se embriagavam rapidamente.
-		O que os russos querem?
Vrios homens responderam.
-		Terra.
-		Paz.
-		Liberdade.
-		Mais bebida!
Walter tirou uma terceira garrafa da caixa. Aqueles homens precisavam mesmo era de sabonete, boa comida e botas novas, pensou.
-		Quero voltar para meu vilarejo - disse Feodor. - Eles esto dividindo as terras do prncipe e preciso garantir que minha famlia receba a sua parte.
-		Vocs apoiam algum partido poltico? - perguntou Walter.
-		Os bolcheviques! - respondeu um soldado. Os outros vibraram, concordando.
Walter ficou satisfeito.
-		E so membros do partido?
Todos fizeram que no com a cabea.
-		Eu apoiava os socialistas revolucionrios - disse Feodor -, mas eles nos decepcionaram. - Os demais assentiram. - Kerenski trouxe de volta os aoitamentos - acrescentou ele.
-		E ordenou uma ofensiva de vero - disse Walter. Podia ver, bem na sua frente, uma pilha de caixas de munio, mas no as mencionou, com medo de lembrar aos russos da possibilidade evidente de ser um espio. - Os nossos avies viram - acrescentou.
-		Por que ns precisamos atacar? - perguntou Feodor a Gavrik. - Poderamos muito bem selar a paz aqui e agora! - Ouviu-se um murmrio de aprovao.
-		Ento o que vocs faro se receberem a ordem de avanar? - quis saber Walter.
-		Seria preciso reunir o comit de soldados para discutir a questo - respondeu Feodor.

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-		No fale merda - disse Gavrik. - Os comits de soldados esto proibidos de debater sobre as ordens.
Houve um burburinho descontente e algum na beira da roda falou baixinho:
-		Isso  o que veremos, camarada sargento.
O grupo no parava de aumentar. Talvez os russos conseguissem sentir o cheiro da bebida de longe. Walter distribuiu mais duas garrafas. Para explicar a situao aos recm-chegados, falou:
-		O povo alemo quer a paz tanto quanto vocs. Se no nos atacarem, no vamos atac-los.
-		Um brinde a isso! - exclamou um dos recm-chegados, provocando vivas esparsos.
Walter temia que o barulho pudesse chamar a ateno de algum oficial e se perguntou como iria fazer para os russos falarem em voz baixa apesar do schnapps - mas j era tarde demais. Uma voz alta e autoritria perguntou:
-		O que est acontecendo aqui? O que vocs esto aprontando? - O monte de gente se abriu para dar passagem a um homem grande, com uma farda de major. O oficial olhou para Walter e perguntou:
-		Posso saber quem  voc?
Walter ficou preocupado. O oficial sem dvida tinha o dever de captur-lo. O servio de inteligncia alemo sabia como os russos tratavam seus prisioneiros de guerra. Ser capturado por eles era uma sentena de morte lenta por fome e frio.
Ele forou um sorriso e estendeu a ltima garrafa fechada.
-		Aceite uma bebida, major.
O oficial o ignorou e virou-se para Gavrik.
-		O que voc acha que est fazendo?
Gavrik no se deixou intimidar:
-		Os homens no jantaram hoje, major, ento como eu poderia obrig-los a recusar uma bebida?
-		Voc deveria ter capturado o alemo!
-		Agora que tomamos a bebida dele, no podemos captur-lo - disse Feodor, j arrastando a voz. - No seria justo! - concluiu, para vibrao dos demais.
O major se dirigiu a Walter:
-		Voc  um espio, e eu deveria explodir a sua cabea. - Levou a mo  arma que trazia no cinto.
Os soldados deram gritos de protesto. O major continuou com uma expresso raivosa, porm no disse mais nada. Claramente no queria entrar em conflito com os soldados.

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   -		 melhor eu ir andando - disse-lhes Walter. - Seu major est me parecendo um pouco hostil. Alm do mais, temos um bordel logo atrs da nossa linha de combate, e sei que tem uma loura peituda l que talvez esteja se sentindo um pouco sozinha...
   Todos riram e deram vivas. Era uma meia verdade: o bordel de fato existia, mas Walter nunca o visitara.
   -		Lembrem-se - disse ele -: ns no vamos lutar se vocs no lutarem!
   Ele escalou a trincheira para sair. Esse era o momento mais perigoso. Ps-se de p, deu alguns passos, virou-se, acenou e continuou andando. Os homens j haviam matado a curiosidade e no havia sobrado nenhum schnapps. Talvez lhes desse na telha cumprir seu dever e atirar no inimigo. Walter tinha a sensao de estar com um alvo desenhado nas costas de seu casaco.
   A noite caa. Ele logo estaria fora de vista. Poucos metros o separavam da segurana. Precisou reunir toda sua fora de vontade para no comear a correr - pois achava que isso poderia levar algum a lhe dar um tiro. Cerrando os dentes, continuou andando no mesmo ritmo em meio  profuso de bombas no detonadas.
   Olhou para trs. J no divisava mais a trincheira. Isso significava que eles no conseguiam v-lo. Estava seguro.
   Comeou a respirar com mais tranquilidade e seguiu em frente. O risco valera a pena. Ele havia descoberto muitas coisas. Embora aquela seo no tivesse hasteado nenhuma bandeira branca, os russos estavam em pssimas condies para lutar. Os soldados se sentiam obviamente descontentes e no escondiam o desejo de se rebelar, enquanto os oficiais mantinham a disciplina por um fio. O sargento tomara cuidado para no irritar seus homens e o major no se atrevera a capturar Walter. Com esse estado de esprito, era impossvel que as tropas demonstrassem garra no campo de batalha.
   Walter distinguiu a linha alem. Gritou o prprio nome e uma senha combinada anteriormente. Pulou para dentro da trincheira. Um tenente bateu continncia para ele.
   -		Incurso proveitosa, senhor?
   -		Sim, obrigado - respondeu Walter. - Muito proveitosa.
Katerina estava deitada na cama do antigo quarto de Grigori, usando apenas uma combinao fina. A janela estava aberta, deixando entrar o ar morno do ms de

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julho e o rugido dos trens que passavam a poucos passos dali. Ela estava grvida de seis meses.
   Grigori correu um dedo pelo contorno de seu corpo, comeando no ombro, passando por um seio intumescido, descendo de volta at as costelas, subindo pela suave protuberncia de sua barriga e descendo pela coxa. Antes de Katerina, nunca havia experimentado aquele tipo de alegria serena. Quando jovem, suas relaes com as mulheres tinham sido breves. Para ele, ficar deitado junto a uma mulher depois do sexo, tocando seu corpo com delicadeza e carinho, mas sem pressa ou desejo, era algo novo e emocionante. Talvez esse fosse o significado do casamento, pensou.
  -		Voc fica ainda mais linda grvida - falou baixinho para no acordar Vlad.
   H dois anos e meio que vinha servindo de pai para o garoto de Lev, mas agora
iria ter seu prprio filho. Gostaria de dar ao beb o mesmo nome de Lnin, mas eles j tinham um Vladimir. A gravidez de Katerina havia tornado Grigori um linha-dura em termos de poltica. Ele tinha que pensar em que tipo de pas o nenm iria crescer e queria que seu filho fosse livre. Por algum motivo, imaginava que seria um menino. Era preciso garantir que a Rssia fosse governada pelo povo, no por um czar, nem por um parlamento de classe mdia, nem por uma coalizo de empresrios e generais que traria de volta os antigos costumes sob novos disfarces.
   Na verdade, no gostava de Lnin. Este vivia em um estado permanente de ira. Estava sempre gritando com os outros. Quem quer que discordasse dele era um porco, um desgraado, um imbecil. No entanto, trabalhava com mais afinco do que qualquer outra pessoa, refletia demoradamente sobre tudo e sempre tomava as decises certas. No passado, todas as "revolues" russas tinham levado apenas a hesitao. Grigori sabia que Lnin no deixaria isso acontecer.
   O governo provisrio tambm sabia - e havia indcios de que pretendia atacar Lnin. A imprensa de direita o acusara de ser um espio alemo, o que era ridculo. Contudo, era verdade que Lnin tinha uma fonte secreta de financiamento. Por ser bolchevique desde antes da guerra, Grigori fazia parte do ncleo do partido, portanto sabia que o dinheiro vinha da Alemanha. Caso esse segredo vazasse, poderia alimentar as suspeitas.
   Ele estava pegando no sono quando ouviu passos no corredor, seguidos por uma batida forte e insistente na porta. Enquanto vestia a cala, gritou:
  -		O que foi? - Vlad acordou e comeou a chorar.
  -		Grigori Sergeivich? - perguntou uma voz de homem.
  -		Sou eu. - Grigori abriu a porta e se deparou com Isaak. - O que houve?
   
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-		Eles emitiram mandados de priso para Lnin, Zinoviev e Kamenev.
Grigori gelou.
-		Precisamos avis-los!
-		Estou com um carro do Exrcito esperando l fora.
-		Vou calar as botas.
Isaak foi embora. Katerina pegou Vlad no colo para acalm-lo. Grigori se vestiu s pressas, deu um beijo nos dois e desceu correndo a escada.
Pulou para dentro do carro ao lado de Isaak e disse:
-		Lnin  o mais importante. - O governo tinha razo em escolh-lo como alvo. Zinoviev e Kamenev eram grandes revolucionrios, porm Lnin era o motor que impulsionava o movimento. - Temos que avis-lo primeiro. V at a casa da irm dele. O mais rpido possvel.
Isaak partiu a toda.
Enquanto o carro fazia uma curva cantando pneus, Grigori se segurou firme. Quando o veculo se endireitou, ele perguntou:
-		Como voc descobriu?
-		Um bolchevique do Ministrio da Justia me disse.
-		Quando os mandados foram assinados?
-		Hoje de manh.
-		Espero que cheguemos a tempo. - Grigori estava morrendo de medo que Lnin j tivesse sido detido. Ningum mais possua uma determinao to inabalvel quanto a sua. Ele podia ser truculento, mas havia transformado os bolcheviques no partido mais importante de todos. Sem ele, a revoluo poderia se atolar novamente em incertezas e concesses.
Isaak seguiu at a Rua Shirokaya e parou em frente a um prdio residencial de classe mdia. Grigori saltou do carro, entrou correndo no edifcio e bateu  porta do apartamento dos Yelizarov. Anna, irm mais velha de Lnin, veio abrir. Era uma mulher de seus 50 anos, com os cabelos grisalhos repartidos no meio. Grigori j a havia encontrado antes: ela trabalhava no Pravda.
-		Ele est aqui? - indagou Grigori.
-		Est. Por qu? O que aconteceu?
Grigori sentiu uma onda de alvio. No havia chegado tarde demais. Entrou no apartamento.
-		Eles vo prend-lo.
Anna fechou a porta com violncia.
-		Volodya! - chamou, usando o apelido do nome de batismo de Lnin. - Venha c, rpido!

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Lnin apareceu, vestindo, como sempre, um terno escuro pudo, camisa de colarinho e gravata. Grigori explicou em poucas palavras a situao.
-		Vou embora agora mesmo - disse Lnin.
-		No quer pelo menos jogar algumas coisas na mala...? - perguntou Anna.
-		 arriscado demais. Mande tudo depois. Eu lhe aviso onde estou. - Ele olhou para Grigori. - Obrigado pelo aviso, Grigori Sergeivich. Voc tem um carro?
-		Tenho.
Sem dizer mais nada, Lnin saiu para o corredor.
Grigori o seguiu at a rua e apressou-se para abrir a porta do carro.
-		Eles tambm emitiram mandados para Zinoviev e Kamenev - disse Grigori enquanto Lnin entrava.
-		Volte para o apartamento e telefone para eles - ordenou Lnin. - Mark tem telefone e sabe onde eles esto. - Ele bateu a porta. Inclinando-se para a frente, disse alguma coisa para Isaak que Grigori no escutou. Isaak saiu com o carro.
Lnin era assim o tempo todo. Ladrava ordens para todos, e as pessoas lhe obedeciam porque ele sempre demonstrava sensatez.
Grigori sentiu um grande peso sendo erguido de seus ombros. Olhou de um lado para outro da rua. Um grupo de homens saiu de um prdio na calada oposta. Alguns usavam ternos, outros uniformes de oficiais do Exrcito. Grigori ficou chocado ao reconhecer Mikhail Pinsky. Em teoria, a polcia secreta havia sido abolida, mas, pelo jeito, homens como Pinsky continuavam a trabalhar no Exrcito.
Aqueles homens provavelmente estavam  procura de Lnin - e haviam acabado de perd-lo por terem entrado no prdio errado.
Grigori voltou correndo para dentro do edifcio. A porta do apartamento dos Yelizarov continuava aberta. L dentro estavam Anna; seu marido, Mark; Gora, enteado de Anna; e a empregada da famlia, uma jovem camponesa chamada Anyushka - todos parecendo chocados. Grigori fechou a porta s suas costas.
-		Ele foi levado embora em segurana - disse Grigori. - Mas a polcia est l fora. Preciso ligar para Zinoviev e Kamenev agora mesmo.
-		O telefone est logo ali, na mesa de canto - disse Mark.
Grigori hesitou.
-		Como funciona? - Nunca tinha usado um telefone.
-		Ah, perdo - disse Mark. Ele empunhou o aparelho, levando uma das peas ao ouvido e segurando a outra junto  boca. - Tambm  novidade para ns, mas usamos tanto que nem estranhamos mais. - Com impacincia, pressionou vrias vezes o gancho que encimava a base do telefone. - Sim, telefonista, por favor - falou, dando um nmero em seguida.

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Algum bateu forte na porta.
Grigori levou o dedo aos lbios, mandando os outros ficarem calados.
Anna levou Anyushka e o menino para os fundos do apartamento.
Mark falava depressa ao telefone. Grigori ficou parado em frente  porta de
entrada. Uma voz disse:
-		Abram ou vamos arrombar esta porta! Temos um mandado!
Grigori gritou de volta:
-		S um instante, estou vestindo minha cala! - A polcia sempre aparecia no
prdio em que Grigori morava, ento ele conhecia todas as desculpas possveis
para faz-la esperar.
Mark voltou a pressionar o gancho do telefone e pediu outra ligao.
-		Quem ? Quem est batendo? - gritou Grigori.
-		Polcia! Abram imediatamente!
-		Estou indo, preciso trancar o cachorro na cozinha.
-		Andem logo com isso!
Grigori ouviu Mark dizer:
-		Avise a ele para se esconder. A polcia est na porta da minha casa. - Ele ps
o receptor do telefone no gancho e meneou a cabea para Grigori, que abriu a
porta e recuou para dar passagem.
Pinsky entrou no apartamento.
-		Onde est Lnin? - perguntou.
Vrios oficiais do Exrcito entraram atrs dele.
-		No tem ningum aqui com esse nome - respondeu Grigori.
Pinsky o encarou.
-		O que voc est fazendo aqui? - perguntou. - Sempre soube que era um
encrenqueiro.
Mark deu um passo  frente e pediu, sem alterar a voz:
-		Posso ver o mandado, por favor?
Relutante, Pinsky lhe entregou um pedao de papel.
Mark analisou o papel por alguns instantes, ento disse:
-		Alta traio? Isso  ridculo!
-		Lnin  um agente alemo - disse Pinsky, apertando os olhos para encarar
Mark. - Voc  o cunhado dele, no ?
Mark lhe devolveu o mandado.
-		O homem que os senhores procuram no est aqui - disse.
Pinsky, ao notar que Mark estava dizendo a verdade, assumiu uma expresso
irritada.

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-		E quer me dizer por que no? - perguntou. - Ele mora aqui!
-		Lnin no se encontra - repetiu Mark.
O rosto de Pinsky ficou vermelho.
-		Algum veio avis-lo? - Ele agarrou Grigori pela lapela da sua farda. - O que voc est fazendo aqui?
-		Eu sou delegado do soviete de Petrogrado pelo Primeiro Regimento de Metralhadoras e, a menos que voc queira que o regimento faa uma visita ao seu quartel-general,  melhor tirar essas mos gordas do meu uniforme.
Pinsky o soltou.
-		Vamos dar uma olhada mesmo assim - falou.
Ao lado da mesa do telefone havia uma estante. Pinsky apanhou uma dzia de livros, atirando-os no cho. Acenou para os oficiais entrarem no apartamento.
-		Ponham tudo abaixo - ordenou.
Walter foi at um vilarejo dentro do territrio conquistado dos russos e deu a um campons, que ficou espantado e radiante, uma moeda de ouro em troca de suas roupas: um casaco imundo de pele de carneiro, um agasalho de algodo, uma cala folgada de tecido spero e sapatos feitos de tiras de casca de faia entrelaadas. Felizmente, Walter no teve que comprar sua roupa de baixo, pois o homem estava sem.
Ele cortou os cabelos com uma tesoura de cozinha e parou de se barbear.
Em uma pequena cidade-mercado, comprou um saco de cebolas. No fundo do saco, debaixo das cebolas, ps uma bolsa de couro contendo 10 mil rublos em moedas e notas.
Certa noite, sujou as mos e o rosto de terra e, usando as roupas do campons e carregando o saco de cebolas, atravessou a terra de ningum, passou pela linha de frente russa e caminhou at a estao de trem mais prxima, onde comprou uma passagem de terceira classe.
Adotou uma atitude agressiva, rosnando para todos os que tentavam falar com ele, como se temesse que fossem querer lhe roubar as cebolas, o que provavelmente era verdade. Carregava uma faca grande, enferrujada, porm afiada, presa ao cinto a olhos vistos - alm de um revlver Nagant, confiscado de um oficial russo capturado, escondido debaixo do casaco malcheiroso. Nas duas ocasies em que um policial lhe dirigiu a palavra, deu um sorriso imbecil e ofereceu-lhe uma cebola, suborno to desprezvel que ambos os policiais soltaram um

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grunhido de repulsa e se afastaram. Caso algum deles houvesse insistido em revistar o saco, Walter estava disposto a mat-lo, mas no foi necessrio. Comprava passagens para trajetos curtos, descendo a cada trs ou quatro paradas, pois nenhum campons viajaria centenas de quilmetros s para vender suas cebolas.
   Estava tenso, sempre alerta. Seu disfarce era frgil. Qualquer pessoa que conversasse com ele durante mais de alguns segundos saberia que no era de fato russo. A penalidade para o que estava fazendo era a morte.
   No incio teve medo, mas ele acabou passando e, no segundo dia, j estava entediado. No tinha nada com que ocupar a mente. No podia ler,  bvio: na verdade, precisava tomar cuidado para no consultar os horrios afixados nas estaes ou ficar olhando demais para os anncios, pois a maioria dos camponeses era analfabeta. Enquanto uma srie de trens lentos chacoalhava pelas interminveis florestas russas, Walter embarcou em uma fantasia complexa sobre o apartamento em que ele e Maud iriam morar depois da guerra. Ele teria uma decorao moderna, feita de madeira clara e cores neutras, como a da casa dos Von der Helbard, em vez da atmosfera pesada e escura da residncia de seus pais. Tudo seria fcil de limpar e conservar, sobretudo na cozinha e na lavanderia, de modo a poderem ter menos criados. Teriam um piano bom de verdade, um Steinway de cauda, pois ambos gostavam de tocar. Comprariam um ou dois quadros modernos chamativos, talvez de expressionistas austracos, para chocarem a velha gerao e passarem a imagem de um casal progressista. O quarto de dormir seria claro e arejado, e nele poderiam ficar deitados nus sobre uma cama macia, beijando-se, conversando e fazendo amor.
   E assim ele viajou at Petrogrado.
   O plano, intermediado por um socialista revolucionrio da embaixada sueca, era que um enviado dos bolcheviques estaria esperando todos os dias em Petrogrado, durante uma hora, para pegar o dinheiro com Walter na estao Varsvia, s seis da tarde. Walter chegou ao meio-dia e aproveitou a oportunidade para andar pela cidade, no intuito de avaliar a capacidade do povo russo de seguir combatendo.
   Ficou chocado com o que viu.
   Assim que saiu da estao, foi cercado por prostitutos e prostitutas de todas as idades, inclusive crianas. Atravessou a ponte sobre um canal e seguiu alguns quilmetros para o norte at o centro da cidade. A maioria das lojas estava fechada, muitas com tbuas pregadas nas fachadas, outras simplesmente abandonadas, com o vidro estilhaado das vitrines a cintilar na calada. Viu muitos
   
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bbados e duas brigas. De vez em quando, um automvel ou uma carruagem puxada a cavalo passava depressa, com os passageiros escondidos atrs de cortinas fechadas, fazendo os pedestres se espalharem. Quase todos estavam magros, maltrapilhos e descalos. A situao era bem pior do que em Berlim.
   Ele viu muitos soldados, sozinhos e em grupos, a maioria demonstrando indisciplina: marchando fora de ritmo ou vadiando em seus postos, com as fardas desabotoadas, batendo papo com civis e, aparentemente, fazendo o que bem entendiam. Walter confirmou a impresso que tivera ao visitar a linha de frente russa: aqueles homens no estavam com disposio para lutar.
   Isso tudo eram timas notcias, pensou ele.
   Ningum o abordou e ele foi ignorado pela polcia. Era apenas mais uma silhueta esfarrapada cuidando da prpria vida em uma cidade  beira da runa.
   Animadssimo, voltou para a estao s seis da tarde e logo identificou seu contato, um sargento que carregava um fuzil com um cachecol vermelho amarrado no cano. Antes de se apresentar, Walter analisou o homem. Era uma figura imponente, no muito alto, mas espadado e corpulento. Faltava-lhe a orelha direita, um dos dentes da frente e o anular da mo esquerda. Ele aguardava com a pacincia de um soldado veterano, porm seus olhos azuis atentos no deixavam escapar muita coisa. Embora Walter pretendesse observ-lo s escondidas, o soldado notou seu olhar, meneou a cabea, deu meia-volta e se afastou. Compreendendo a deixa evidente, Walter o seguiu. Os dois entraram em um lugar espaoso, cheio de mesas e cadeiras.
  -		Sargento Grigori Peshkov? - indagou Walter.
   Grigori assentiu:
  -		Eu sei quem  o senhor. Sente-se.
   Walter olhou ao redor. Um samovar chiava em um canto e uma velha de xale vendia peixes defumados e em conserva. Quinze ou 20 pessoas ocupavam as mesas. Ningum olhou duas vezes para o soldado nem para o campons que obviamente estava ali para tentar vender seu saco de cebolas. Um rapaz de jaqueta azul que parecia operrio entrou logo depois deles. Walter o encarou nos olhos por um instante e observou enquanto ele se sentava, acendia um cigarro e abria o Pravda.
  -		Posso comer alguma coisa? - perguntou Walter. - Estou faminto, mas acho que os preos aqui so um pouco salgados para um campons.
   Grigori foi buscar uma poro de po preto com arenque e duas xcaras de ch com acar. Walter comeou a comer. Depois de um minuto a observ-lo, Grigori riu.
   
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-		Estou admirado que tenha conseguido se fazer passar por campons - disse ele. - Eu saberia que o senhor  burgus.
-		Como?
-		Suas mos esto sujas, mas o senhor come em pequenos bocados e limpa a boca com um trapo como se fosse um guardanapo de linho. Um campons de verdade enfia a comida goela abaixo e faz barulho para tomar o ch.
A arrogncia do sargento irritou Walter. Afinal de contas, pensou ele, eu sobrevivi trs dias dentro de um maldito trem. Queria ver voc tentar isso na Alemanha. Estava na hora de lembrar a Peshkov que ele precisava fazer jus ao dinheiro.
-		Conte-me sobre a situao dos bolcheviques - pediu.
-		Ela  perigosamente boa - respondeu Grigori. - Nos ltimos meses, milhares de russos entraram para o partido. Leon Trtski finalmente anunciou que nos apoia. O senhor deveria ouvir o que ele diz. Ele costuma lotar o Cirque Moderne quase todas as noites. - Walter pde ver que Grigori idolatrava Trtski. At mesmo os alemes sabiam que sua retrica era fascinante. Ele era uma conquista e tanto para os bolcheviques. - Em fevereiro passado, tnhamos 10 mil membros. Hoje, temos 200 mil - concluiu Grigori com orgulho.
-		Isso  timo, mas vocs podem mudar as coisas? - quis saber Walter.
-		Temos grandes chances de vencer a eleio para a Assembleia Constituinte.
-		Quando ser o pleito?
-		Ele vem sendo adiado h tempos...
-		Por qu?
Grigori deu um suspiro.
-		Primeiro, o governo provisrio convocou um conselho de representantes que, depois de dois meses, finalmente concordou em formar um segundo conselho, com 60 membros, para redigir a lei eleitoral...
-		Por qu? Qual o motivo de um processo to complicado?
Grigori pareceu furioso.
-		Eles dizem que querem uma eleio totalmente inquestionvel, mas o verdadeiro motivo  que os partidos conservadores esto fazendo corpo mole, pois sabem que vo perder.
Aquele homem era apenas um sargento, pensou Walter, mas sua anlise parecia bastante sofisticada.
-		E quando vai ser a eleio, afinal?
-		Em setembro.
-		E por que o senhor acha que os bolcheviques vo ganhar?

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  -		Ainda somos o nico grupo comprometido de verdade com a paz. E todos sabem disso, graas aos jornais e panfletos que publicamos.
  -		Ento por que disse que a situao  "perigosamente" boa?
  -		Porque isso nos torna o alvo principal do governo. Foi emitida uma ordem de priso para Lnin. Ele teve que entrar para a clandestinidade. Mas continua na liderana do partido.
   Walter tambm acreditava nisso. Se Lnin fora capaz de manter o controle dos bolcheviques durante o exlio, em Zurique, sem dvidas conseguiria faz-lo de um esconderijo na Rssia.
   Walter havia efetuado a entrega e reunido a informao de que precisava. Tinha cumprido sua misso. Foi tomado por uma sensao de alvio. Agora, tudo o que precisava fazer era voltar para casa.
   Com o p, empurrou o saco que continha os 10 mil rublos at Grigori.
   Acabou de tomar seu ch e se levantou.
  -		Aproveite suas cebolas - disse, encaminhando-se para a porta.
   Com o canto do olho, viu o homem de jaqueta azul dobrar seu exemplar do Pravda e se levantar.
   Walter comprou uma passagem para Luga e embarcou no trem. Entrou em um compartimento de terceira classe. Espremeu-se para passar por um grupo de soldados que fumava e bebia vodca, por uma famlia de judeus com todos os seus pertences embolados em trouxas presas com barbante e por alguns camponeses com caixotes vazios que provavelmente tinham vendido seus frangos. No fundo do vago, parou e olhou para trs.
   O sujeito de jaqueta azul entrou no vago.
   Walter passou alguns segundos observando o homem abrir caminho entre os passageiros, acotovelando as pessoas sem cerimnia para passar. Somente um policial faria uma coisa dessas.
   Walter saltou do trem e saiu da estao apressado. Recordando o passeio de reconhecimento que fizera  tarde, seguiu a passos rpidos em direo ao canal. No vero, as noites eram curtas, de modo que ainda havia bastante luz. Ele esperava ter conseguido despistar seu perseguidor, porm, ao olhar por cima do ombro, viu que o homem ainda estava atrs dele. O mais provvel era que estivesse seguindo Peshkov antes e houvesse decidido investigar seu amigo campons vendedor de cebolas.
   O homem apertou o passo.
   Caso fosse capturado, Walter seria fuzilado como espio. No tinha escolha quanto ao que fazer em seguida.
   
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   Encontrava-se em um bairro de classe baixa. Petrogrado inteira aparentava pobreza, mas aquele distrito em especial era cheio dos hotis baratos e bares sujos que proliferavam em volta das estaes de trem de todo o mundo. Walter comeou a correr, mas o homem de jaqueta azul tambm se apressou para no perd-lo de vista.
   Walter chegou a uma olaria  beira do canal. A construo era cercada por um muro alto e tinha um porto gradeado de ferro, porm ao lado dela havia um armazm abandonado em um terreno sem cerca. Walter saiu da rua, atravessou correndo o terreno do armazm e escalou o muro para entrar na olaria.
   Tinha de haver um vigia em algum lugar, mas Walter no viu ningum. Procurou um esconderijo. Era uma pena ainda estar to claro. A olaria tinha seu prprio cais, com um pequeno per de madeira. Estava cercado por pilhas de tijolos da altura de um homem, mas ele precisava ver sem ser visto. Aproximou-se de uma pilha parcialmente desfeita - alguns dos tijolos deviam ter sido vendidos - e se apressou a reorganizar alguns outros, de modo a poder se esconder atrs deles e espiar por uma fresta. Tirou o Nagant do cinto e puxou o co do revlver.
   Instantes depois, pde ver o sujeito de jaqueta azul escalar o muro.
   Era um homem de estatura mediana, magro, com um bigodinho. Parecia assustado: havia percebido que j no estava apenas seguindo um suspeito. Estava envolvido em uma caada humana - e no sabia se era o caador ou a caa.
   Seu perseguidor sacou uma arma.
   Walter apontou o revlver por entre a fresta nos tijolos, mirando no homem, mas no estava prximo o suficiente para ter certeza de que acertaria o alvo.
   O sujeito se deteve por alguns instantes, olhando em volta, obviamente indeciso quanto ao que fazer. Ento se virou e comeou a andar, hesitante, em direo  gua.
   Walter foi atrs dele. Havia invertido o jogo.
   O homem foi passando por entre as pilhas de tijolos, examinando a rea. Walter o imitou, abaixando-se atrs dos tijolos sempre que o homem parava, chegando cada vez mais perto. No queria um tiroteio demorado, que pudesse atrair a ateno de outros policiais. Precisava abater seu inimigo com um ou dois tiros e fugir depressa.
   Quando o homem chegou  extremidade do terreno que dava para a gua, os dois estavam a menos de 10 metros de distncia. O homem olhou de um lado para o outro do canal, como se Walter pudesse ter sado remando em um barco.
   Walter saiu do seu esconderijo e mirou bem no meio das costas do homem.
   Quando o sujeito virou as costas para a gua, deu de cara com Walter.
   Ento soltou um grito.
   
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Foi um som agudo e feminino de espanto e terror. Walter soube, naquele mesmo instante, que se lembraria do grito pelo resto da vida.
Ele apertou o gatilho, o revlver disparou e o grito foi interrompido de chofre.
Um tiro bastou. O agente da polcia secreta desabou no cho, sem vida.
Walter se agachou junto ao corpo. Os olhos do homem fitavam o cu, vidrados. No havia pulso nem respirao.
Arrastou o corpo at a beira do canal. Colocou tijolos nos bolsos da cala e da jaqueta para lastrear o cadver. Ento o empurrou por cima do parapeito baixo e deixou-o cair na gua.
O corpo submergiu. Walter virou as costas e foi embora.
Quando a contrarrevoluo comeou, Grigori estava em uma reunio do soviete de Petrogrado.
Ficou preocupado, mas no surpreso.  medida que a popularidade dos bolcheviques aumentava, a oposio ficava cada vez mais violenta. O partido estava se saindo bem nas eleies locais, ganhando o controle de um soviete de provncia atrs do outro, alm de angariar 30% dos votos para o conselho municipal de Petrogrado. Em resposta a isso, o governo - agora liderado por Kerenski - prendera Trtski e adiara mais uma vez a to esperada eleio nacional para a Assembleia Constituinte. Os bolcheviques vinham dizendo desde o comeo que o governo provisrio jamais organizaria um pleito nacional - e esse novo adiamento s fez aumentar a credibilidade do partido.
Foi ento que o Exrcito entrou em cena.
O general Kornilov era um cossaco de cabea raspada que tinha um corao de leo e um crebro de ovelha, segundo o famoso comentrio do general Alexeev. No dia 9 de setembro, Kornilov ordenou s suas tropas que marchassem sobre Petrogrado.
O soviete reagiu depressa. Os delegados resolveram instituir imediatamente o Comit de Reao  Contrarrevoluo.
Um comit era intil, pensou Grigori com impacincia. Ps-se de p, reprimindo sua raiva e seu medo. Como delegado do Primeiro Regimento de Metralhadoras, era ouvido com respeito, sobretudo em questes militares.
- Um comit desses no faz sentido se os seus membros forem apenas pronunciar discursos - disse ele, exaltado. - Se as informaes que acabamos de receber forem verdadeiras, parte das tropas de Kornilov no deve estar muito longe dos

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limites de Petrogrado. S a fora poder det-los. - Ele estava sempre vestido com o uniforme de sargento e portava seu fuzil e um revlver. - O comit no vai servir para nada a menos que mobilize os operrios e soldados de Petrogrado contra o motim do Exrcito.
   Grigori sabia que apenas o Partido Bolchevique era capaz de mobilizar o povo. E todos os outros delegados tambm sabiam disso, fosse qual fosse sua lealdade partidria. No fim das contas, ficou resolvido que o comit seria composto por trs mencheviques, trs socialistas revolucionrios e trs bolcheviques, incluindo Grigori - no entanto, todos sabiam que os bolcheviques eram os nicos a fazer diferena.
   Assim que houve consenso quanto a isso, o recm-formado comit deixou a sala de reunio. Fazia seis meses que Grigori estava na poltica, e ele j havia aprendido a manipular o sistema. Assim, ignorou a composio formal do comit e convidou uma dzia de pessoas teis a se juntar a eles, dentre as quais Konstantin, da Metalrgica Putilov, e Isaak, do Primeiro Regimento de Metralhadoras.
   O soviete havia sido transferido do Palcio Tauride para o Instituto Smolny, uma antiga escola para meninas, e o comit tornou a se reunir em uma sala de aula, cercado de bordados emoldurados e aquarelas infantis.
   -		Os senhores tm uma proposta para abrir o debate? - indagou o presidente da sesso.
   Aquilo era perda de tempo, mas Grigori j era delegado h tempo suficiente para saber como contornar a situao. Adiantou-se na mesma hora para assumir o controle da assembleia e fazer o comit se concentrar em aes em vez de palavras.
   -		Sim, camarada presidente, se me permite - disse ele. - Proponho cinco coisas que precisamos fazer. - Uma lista numerada era sempre uma boa ideia: fazia as pessoas sentirem que precisavam escutar at o final. - Primeiro: mobilizar os soldados de Petrogrado contra o motim do general Kornilov. Como podemos fazer isso? Sugiro que o cabo Isaak Ivanovich faa uma lista dos principais quartis com os nomes de lderes revolucionrios de confiana em cada um deles. Assim que identificarmos nossos aliados, devemos enviar uma mensagem instruindo-os a acatarem as ordens deste comit e se prepararem para repelir os amotinados. Se Isaak comear agora, em poucos minutos pode trazer a lista e a mensagem para a aprovao deste comit.
   Grigori fez uma breve pausa para permitir que os outros meneassem a cabea e, tomando isso como uma aprovao, prosseguiu:
   -		Obrigado. V em frente, camarada Isaak. Em segundo lugar, precisamos mandar uma mensagem para Kronstadt. - A base naval de Kronstadt, uma ilha a pouco mais de 30 quilmetros da costa, era conhecida pelo tratamento brutal
   
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dispensado aos marinheiros, sobretudo aos jovens recrutas. H seis meses que os marinheiros haviam se rebelado contra seus algozes, torturando e matando muitos de seus oficiais. A base era agora um reduto de radicais. - Os marinheiros devem se armar, vir at Petrogrado e ficar s nossas ordens. - Grigori apontou para um delegado bolchevique que sabia ser prximo dos marinheiros. - Camarada Gleb, voc assumiria essa tarefa, com a aprovao do comit?
   Gleb aquiesceu.
  -		Se me permitem, posso fazer uma minuta da carta para o nosso presidente assinar e ento lev-la eu mesmo at Kronstadt - disse ele.
  -		Por favor, faa isso.
   Os membros do comit comearam a parecer um pouco atordoados. As coisas estavam indo mais depressa do que o normal. Os nicos que no estavam surpresos eram os bolcheviques.
  -		Em terceiro lugar, precisamos organizar os operrios em unidades defensivas e arm-los. Podemos conseguir as armas nos arsenais do Exrcito e nas fbricas de armamentos. A maioria dos trabalhadores vai precisar de um treinamento bsico de tiro e disciplina militar. Sugiro que essa tarefa seja efetuada em conjunto pelos sindicatos e pela Guarda Vermelha. - A Guarda Vermelha era o brao armado dos soldados e operrios revolucionrios. Nem todos eram bolcheviques, porm costumavam obedecer s ordens dos comits do partido. - Proponho que o camarada Konstantin, delegado da Metalrgica Putilov, fique encarregado disso. Ele saber qual  o principal sindicato de cada uma das grandes fbricas.
   Grigori sabia que estava transformando a populao de Petrogrado em um exrcito revolucionrio - e os demais bolcheviques do comit tambm -, mas ser que o restante dos delegados estava entendendo seu plano? No final de todo aquele processo, supondo que a contrarrevoluo fosse derrotada, seria muito difcil para os moderados desarmar a fora que haviam criado e restaurar a autoridade do governo provisrio. Caso conseguissem enxergar to mais adiante assim, talvez tentassem abrandar ou reverter as propostas de Grigori. Por ora, no entanto, estavam concentrados em impedir um golpe militar. Como sempre, somente os bolcheviques tinham uma estratgia.
  -		Sim, tima ideia, vou fazer uma lista - disse Konstantin. Ele daria prioridade aos lderes sindicais bolcheviques,  claro, mas, de toda forma, ultimamente eles eram os mais eficazes.
  -		Em quarto lugar - continuou Grigori o Sindicato dos Ferrovirios precisa fazer o possvel para impedir o avano do exrcito de Kornilov. - Os bolcheviques haviam trabalhado duro para assumir o controle desse sindicato, e agora
   
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tinham pelo menos um partidrio em cada galpo ferrovirio. Os sindicalistas bolcheviques sempre se ofereciam para servir de tesoureiros, secretrios ou presidentes. - Embora algumas tropas estejam vindo para c pelas estradas, a maioria dos homens e dos mantimentos ter que chegar de trem. O sindicato pode garantir que eles se atrasem e obrig-los a fazer longos desvios. Camarada Viktor, o comit pode contar com voc para essa misso?
   Viktor, um delegado dos ferrovirios, fez que sim com a cabea.
   -		Vou criar um comit especial dentro do sindicato para organizar a perturbao do avano dos amotinados.
   -		Por ltimo, precisamos incentivar outras cidades a estabelecer comits como o nosso - disse Grigori. - A revoluo precisa ser defendida em toda parte. Ser que outros membros deste comit poderiam sugerir com que cidades devemos nos comunicar?
   Era uma distrao proposital, porm todos morderam a isca. Satisfeitos por terem algo para fazer, os integrantes comearam a gritar nomes de cidades que deveriam criar Comits de Reao. Isso garantiu que, em vez de esmiuarem as propostas mais importantes de Grigori, eles as deixassem passar sem contestao - ningum sequer pensou nas consequncias a longo prazo de se armar a populao.
   Isaak e Gleb rascunharam suas cartas e obtiveram a assinatura do presidente da sesso sem maiores discusses. Konstantin elaborou a lista dos lderes operrios e comeou a despachar recados para eles. Viktor partiu para organizar os ferrovirios.
   O comit passou a discutir os termos de uma mensagem s cidades vizinhas. Grigori se retirou discretamente. Havia conseguido o que queria. A defesa de Petrogrado, e da revoluo, estava bem encaminhada. E os bolcheviques estavam no comando dela.
   O que precisava agora era obter informaes confiveis sobre o paradeiro do exrcito contrarrevolucionrio. Haveria mesmo tropas se aproximando dos subrbios ao sul de Petrogrado? Caso houvesse, talvez fosse preciso det-las com mais rapidez do que o Comit de Reao seria capaz de fazer.
   Atravessando a ponte, ele percorreu o curto trajeto que separava o Instituto Smolny de seu quartel. Uma vez l, encontrou o regimento j se preparando para combater os amotinados de Kornilov. Reuniu um blindado, um motorista e trs soldados revolucionrios de confiana e ps-se a cruzar a cidade na direo sul.
   A tarde de outono j escurecia  medida que o grupo zanzava pelos subrbios do sul,  procura do exrcito invasor. Aps um par de horas infrutferas, Grigori decidiu que, muito provavelmente, as informaes sobre o avano de Kornilov tinham sido exageradas. De qualquer maneira, era bem capaz de ele no 
   
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encontrar nada alm de um destacamento avanado. Ainda assim, era importante verificar, de modo que insistiu na busca.
Acabaram encontrando uma brigada de infantaria montando acampamento em uma escola.
Grigori cogitou voltar ao quartel e trazer o Primeiro Regimento de Metralhadoras at ali para atac-los. Contudo, pensou que talvez houvesse uma sada melhor. Era arriscado, mas, caso funcionasse, evitaria bastante derramamento de sangue.
Ele iria tentar vencer na base da conversa.
O grupo passou por uma sentinela aptica e entrou no ptio da escola. Grigori desceu do blindado. Como precauo, desdobrou a baioneta na ponta do fuzil, colocando-a em posio de ataque. Em seguida, pendurou a arma no ombro. Sentindo-se vulnervel, forou-se a aparentar tranquilidade.
Vrios soldados se aproximaram. Um coronel perguntou:
-		O que est fazendo aqui, sargento?
Grigori o ignorou e dirigiu-se a um cabo.
-		Camarada, preciso falar com o lder do seu comit de soldados - disse.
-		Esta brigada no tem comits de soldados, camarada - respondeu o coronel. - Volte para o seu blindado e suma daqui.
O cabo, no entanto, se manifestou de pronto em tom desafiador, embora parecesse nervoso:
-		Eu era o lder do comit do meu peloto, sargento... antes de os comits serem proibidos,  claro.
O semblante do coronel se fechou de raiva.
Aquilo era a revoluo em miniatura, percebeu Grigori. Quem sairia ganhando - o coronel ou o cabo?
Outros soldados chegaram mais perto para escutar.
-		Ento me diga uma coisa - pediu Grigori ao cabo -, por que vocs esto atacando a revoluo?
-		No, no - respondeu o cabo. - Ns estamos aqui para defend-la.
-		Algum andou mentindo para vocs. - Grigori se virou e levantou a voz para se dirigir aos homens em volta. - O primeiro-ministro, camarada Kerenski, destituiu o general Kornilov, mas Kornilov se recusa a abandonar o cargo, por isso mandou vocs atacarem Petrogrado.
Um murmrio de reprovao percorreu o grupo.
O coronel parecia constrangido: ele sabia que Grigori tinha razo.
-		Chega dessas mentiras! - disparou. - Saia daqui agora, sargento, ou eu vou lhe dar um tiro.

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-		Nem toque nessa arma, coronel - disse Grigori. - Seus homens tm o direito de saber a verdade. - Ele olhou para o grupo que aumentava. - Estou certo?
-		Sim! - disseram vrios homens.
-		Eu no aprovo tudo o que Kerenski fez - disse Grigori. - Ele reinstaurou a pena de morte e os aoitamentos. Mas  o nosso lder revolucionrio, enquanto o general Kornilov quer destruir a revoluo.
-		Mentira! - exclamou o coronel com irritao. - Ser que vocs no entendem? Este sargento  um bolchevique. Todo mundo sabe que eles foram comprados pelos alemes!
-		Como vamos saber em quem acreditar? - perguntou o cabo. - O senhor diz uma coisa, sargento, mas o coronel diz outra.
-		Ento no acreditem em nenhum de ns dois - disse Grigori. - Descubram por si mesmos. - Ele ergueu a voz para garantir que todos pudessem ouvi-lo: - No precisam ficar escondidos nesta escola.  s irem at a fbrica mais prxima e perguntarem a qualquer operrio. Conversem com os soldados que virem nas ruas. Logo descobriro a verdade.
O cabo assentiu.
-		Boa ideia.
-		Vocs no vo fazer nada disso - disse o coronel, furioso. - Ordeno que todos permaneam na escola.
Que baita erro, pensou Grigori.
-		Seu coronel no quer que vocs descubram por si mesmos - falou ele. - Isso no mostra que ele deve estar mentindo?
O coronel levou a mo  pistola e disse:
-		Sargento, essas so as palavras de um amotinado.
Os homens encaravam o coronel e Grigori. O momento era crtico, e Grigori estava mais perto da morte do que nunca.
De repente, o sargento percebeu que estava em desvantagem. Havia ficado to envolvido na discusso que se esquecera de planejar o que fazer quando ela chegasse ao fim. Trazia o fuzil pendurado no ombro, mas a trava de segurana estava acionada. Precisaria de vrios segundos para tirar a arma do ombro, girar a alavanca difcil de manejar que destravava o mecanismo de segurana e erguer o fuzil at uma posio de tiro. O coronel conseguiria sacar a pistola e atirar bem mais depressa. Sentindo uma onda de medo, Grigori teve que reprimir um impulso de virar as costas e sair correndo.
-		Amotinado? - indagou ele, ganhando tempo e tentando no deixar o medo enfraquecer o tom decidido da prpria voz. - Quando um general destitudo

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marcha sobre a capital, mas seus soldados se recusam a atacar o governo legtimo, quem  o amotinado? Eu digo que  o general. E os oficiais que tentam executar suas ordens traioeiras.
O coronel sacou a pistola.
-		Fora daqui, sargento. - Ele se virou para os outros. - Homens, entrem na escola e renam-se no hall de entrada. Lembrem-se: insubordinao  crime no Exrcito, e a pena de morte foi reinstaurada. Vou atirar em quem desobedecer a esta ordem.
Ele apontou a arma para o cabo.
Grigori notou que os soldados estavam prestes a obedecer quele oficial autoritrio, confiante e armado. Desesperado, viu que s lhe restava uma sada. Ele teria que matar o coronel.
Encontrou uma maneira de fazer isso. Teria de agir muito depressa, mas achou que podia conseguir.
Se estivesse errado, iria morrer.
Ele tirou o fuzil do ombro esquerdo e, passando-o sem demora para a mo direita, deu uma estocada para a frente com toda a sua fora, lanando-o contra o flanco do coronel. A ponta afiada da baioneta comprida rasgou a fazenda do uniforme e Grigori sentiu quando ela se afundou na barriga macia. O coronel deu um grito de dor, mas no caiu. Apesar do ferimento, virou-se, descrevendo um arco com a mo que segurava a arma, e puxou o gatilho.
O tiro no acertou em nada.
Grigori empurrou o fuzil, forando a baioneta para dentro e para cima, buscando atingir o corao. O rosto do coronel se contorceu de agonia e sua boca se abriu, mas sem produzir som algum, e ele desabou no cho ainda agarrando a pistola.
Grigori puxou a baioneta de volta com violncia.
A pistola do coronel caiu de sua mo.
Todos ficaram olhando para o coronel, que agonizava silenciosamente sobre a grama seca do ptio. Grigori desarmou a trava de segurana de seu fuzil, mirou no corao do oficial e disparou duas vezes  queima-roupa. O homem ficou inerte.
-		Como o senhor disse, coronel - falou ele. -  a pena de morte.
Fitz e Bea pegaram um trem em Moscou, acompanhados apenas pela criada russa de Bea, Nina, e pelo criado de Fitz, Jenkins, um ex-campeo de boxe que

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havia sido rejeitado pelo Exrcito por no conseguir enxergar mais de 10 metros
 frente do nariz.
Eles desembarcaram em Bulovnir, a pequena estao que dava acesso s terras
do prncipe Andrei. Os especialistas contratados por Fitz tinham sugerido que
Andrei construsse ali uma pequena comunidade, com uma madeireira, depsitos de cereais e um moinho. Contudo, nada disso tinha sido feito, de modo que
os camponeses ainda transportavam seus produtos usando cavalos e carroas por
mais de 30 quilmetros at a antiga cidade-mercado.
Andrei mandara uma carruagem aberta para receb-los, com um condutor
carrancudo que ficou apenas observando Jenkins erguer os bas at a traseira do
veculo. Enquanto seguiam por uma estrada de terra que cortava as plantaes,
Fitz recordou sua visita anterior, quando ainda era recm-casado com a princesa e os aldees haviam se postado  beira da estrada para aplaudi-los. A atmosfera agora era diferente. Os agricultores que trabalhavam nos campos mal
erguiam os olhos quando a carruagem passava, enquanto nos vilarejos e aldeias
os moradores faziam questo de lhes dar as costas.
   Esse tipo de coisa deixava Fitz irritado e de mau humor, mas seu nimo
melhorou ao ver as pedras da velha casa, gastas pelo tempo, serem tingidas de
amarelo-claro pelo sol baixo da tarde. Um pequeno grupo de criados, vestido
de forma impecvel, surgiu pela porta da frente como patos na hora da rao e
se alvoroou em volta da carruagem, abrindo portas e carregando a bagagem.
Georgi, caseiro de Andrei, beijou a mo de Fitz e disse, em ingls, palavras obviamente decoradas:
   -		Bem-vindo de volta ao seu lar na Rssia, conde Fitzherbert.
   As casas russas costumavam ser grandiosas porm malcuidadas, e Bulovnir
no era exceo. O saguo de p-direito duplo precisava de pintura, o lustre inestimvel estava coberto de poeira e um cachorro havia urinado no piso de mrmore. O prncipe Andrei e a princesa Valeriya aguardavam sob um enorme
retrato do av de Bea, que os encarava l de cima com as sobrancelhas franzidas
e olhar severo.
   Bea correu para abraar Andrei.
   Valeriya tinha uma beleza clssica, com traos simtricos e cabelos escuros
presos em um penteado bem arrumado. Apertou a mo de Fitz e disse em francs:
   -		Obrigada por terem vindo. Estamos muito felizes em v-los.
   Quando Bea largou Andrei, enxugando as lgrimas, Fitz estendeu a mo para
o cunhado apertar. Andrei estendeu sua mo esquerda: a manga direita de seu
palet pendia vazia. Ele estava plido e magro - como se sofresse de uma 
   
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doena debilitante - e, embora tivesse apenas 33 anos, sua barba preta ostentava alguns fios grisalhos.
-		Vocs no imaginam como fico aliviado em v-los - disse ele.
-		Est havendo algum problema? - quis saber Fitz. Eles falavam francs, idioma que os quatro dominavam.
-		Venha at a biblioteca. Valeriya vai levar Bea at o andar de cima.
Eles se separaram das mulheres e adentraram um cmodo empoeirado cheio de livros encadernados em couro que no pareciam ser lidos com frequncia.
-		Pedi um ch. Infelizmente, no temos xerez.
-		Ch est timo. - Fitz se acomodou em uma cadeira. Sua perna ferida doa por conta da longa viagem. - O que est acontecendo?
-		Voc est armado?
-		Sim, na verdade estou. Trouxe meu revlver de servio na bagagem. - Fitz tinha um Webley Mark V que havia recebido do Exrcito em 1914.
-		Por favor, mantenha-o ao alcance da mo. Eu ando com o meu o tempo todo. - Andrei abriu o palet, revelando um cinto e um coldre.
-		 melhor me dizer por qu.
-		Os camponeses criaram um comit da terra. Alguns socialistas revolucionrios vieram falar com eles e colocaram ideias idiotas em suas cabeas. Eles alegam ter o direito de confiscar todas as terras que eu no esteja cultivando para dividi-las entre si.
-		Voc j no passou por isso antes?
-		Sim, na poca do meu av. Ns enforcamos trs camponeses e achamos que o problema estivesse resolvido. Mas essas ideias perniciosas ficaram adormecidas e tornaram a brotar h pouco tempo.
-		O que voc fez desta vez?
-		Passei um sermo neles, lhes mostrei que perdi o brao para defend-los dos alemes e eles se acalmaram... at alguns dias atrs, quando meia dzia de homens da regio voltou do Exrcito. Eles disseram que foram dispensados, mas eu tenho certeza de que so desertores. Infelizmente,  impossvel verificar.
Fitz aquiesceu. A ofensiva Kerenski tinha sido um fracasso e os alemes e austracos haviam contra-atacado. Isso deixara os russos em frangalhos - e os alemes agora estavam a caminho de Petrogrado. Milhares de soldados russos tinham abandonado o campo de batalha para voltar s suas aldeias.
-		Eles trouxeram seus fuzis, alm de pistolas que devem ter roubado de oficiais ou tomado de prisioneiros alemes. Seja como for, esto fortemente armados e cheios de ideias subversivas. Um cabo, Feodor Igorovich, parece ser o lder

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do grupo. Ele disse a Georgi no entender por que eu ainda estava reivindicando a posse de qualquer uma de minhas terras, quanto mais as improdutivas.
   -		No entendo o que acontece com os homens no Exrcito - disse Fitz, exasperado. - Seria de esperar que a experincia lhes ensinasse o valor da autoridade e da disciplina, mas parece acontecer justamente o contrrio.
   -		Temo que as coisas tenham chegado a um estado crtico esta manh - prosseguiu Andrei. - O irmo mais novo do cabo Feodor, Ivan Igorovich, ps seu gado para pastar no meu pasto. Georgi descobriu e ns dois fomos reclamar com Ivan. Comeamos a tocar seu gado para fora da propriedade. Ele tentou fechar o porto para nos impedir. Eu estava com uma espingarda e lhe dei uma coronhada na cabea. A maioria desses malditos camponeses tem a cabea mais dura do que balas de canho, mas esse era diferente e o pobre coitado caiu e morreu. Os socialistas esto usando isso como pretexto para exaltar os nimos de todo mundo.
   Por educao, Fitz escondeu a prpria repulsa. Ele reprovava o costume russo de bater nos inferiores, e no ficava surpreso quando isso conduzia quele tipo de agitao.
   -		Voc avisou algum?
   -		Mandei um recado para a cidade, relatando a morte e solicitando um destacamento de policiais ou soldados para manter a ordem, mas meu mensageiro ainda no voltou.
   -		Ento, por enquanto, estamos sozinhos.
   -		Sim. Infelizmente, se as coisas piorarem, creio que precisaremos mandar as senhoras embora.
   Fitz ficou arrasado. Aquilo era muito pior do que ele previra. Poderiam acabar todos mortos. Aquela viagem tinha sido um erro terrvel. Ele precisava levar Bea embora dali quanto antes.
   Levantou-se da cadeira. Ciente de que os ingleses costumavam se gabar com estrangeiros de sua frieza em situaes de crise, falou:
   -		 melhor eu ir me trocar para o jantar.
   Andrei o conduziu at seu quarto, no andar de cima. Jenkins havia tirado das malas suas roupas para a noite e as passara a ferro. Fitz comeou a se despir. Sentia-se um perfeito idiota. Havia posto a si mesmo e  mulher em risco. A impresso que conseguira ter da situao na Rssia era til, mas o relatrio que escreveria no compensava o risco que havia corrido. Ele se deixara convencer pela mulher, o que era sempre um erro. Decidiu que iriam tomar o primeiro trem de volta na manh seguinte.
   Seu revlver estava sobre a penteadeira, junto com as abotoaduras. Ele o testou
   
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para ver se estava funcionando, abrindo-o em seguida para carreg-lo com balas Webley calibre .455. No havia onde coloc-lo em uma casaca. Acabou enfiando a arma no bolso da cala, onde formou uma salincia horrorosa.
Chamou Jenkins para que o criado guardasse suas roupas de viagem e foi at o quarto de Bea. Encontrou-a em p diante do espelho, apenas de roupa de baixo, experimentando um colar. Ela lhe pareceu mais voluptuosa do que de costume, com os seios e os quadris um pouco mais cheios, e Fitz se perguntou se ela no estaria grvida. Havia sentido um enjoo repentino naquela manh em Moscou, recordou ele, no carro a caminho da estao de trem. Ele se lembrou da primeira gravidez dela - e isso o levou de volta a uma poca que agora considerava perfeita, quando tinha Ethel e Bea e no havia guerra.
Estava prestes a dizer  mulher que eles precisavam partir no dia seguinte quando olhou pela janela e se deteve.
O quarto ficava na parte da frente da casa e dava vista para o terreno da propriedade e para as plantaes que se estendiam at a aldeia mais prxima. O que chamara a ateno de Fitz tinha sido uma aglomerao de pessoas. Com um pressentimento terrvel, foi at a janela e examinou a rea.
Viu cerca de 100 camponeses aproximando-se da casa pelo terreno. Embora ainda fosse dia, muitos carregavam tochas acesas. Alguns, notou Fitz, empunhavam fuzis.
-		Puta que pariu - falou.
Bea ficou chocada.
-		Fitz! Por acaso esqueceu que eu estou aqui?
-		Olhe s para isso - disse ele.
Bea arquejou de espanto.
-		Ah, no!
-		Jenkins! Jenkins! Voc est a? - gritou Fitz. Abriu a porta de comunicao e viu o criado, com uma expresso amedrontada, pendurando seu terno de viagem em um cabide. - Ns estamos correndo um grande perigo - disse ele. - Precisamos sair daqui em cinco minutos. V correndo at a estrebaria, atrele os cavalos a uma carruagem e traga-a at a porta da cozinha o mais rpido que puder.
Jenkins deixou o terno cair no cho e saiu correndo.
Fitz virou-se para Bea:
-		Vista um casaco, qualquer um, escolha um par de sapatos confortveis, depois desa pela escada dos fundos at a cozinha e me espere l.
Para lhe fazer justia, ela no ficou histrica: simplesmente fez o que ele mandou.

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Fitz saiu do quarto e, mancando o mais rpido que pde, foi at o quarto de Andrei. No encontrou o cunhado nem Valeriya.
Desceu at o trreo. Georgi e alguns dos criados homens estavam reunidos no saguo, parecendo assustados. Fitz tambm estava com medo, mas torceu para que isso no fosse evidente.
Encontrou o prncipe e a princesa na sala de estar. Havia uma garrafa de champanhe aberta no gelo e duas taas haviam sido servidas, mas nenhum dos dois bebia. Andrei estava parado diante da lareira e Valeriya olhava pela janela para a multido que se aproximava. Os camponeses j estavam quase na porta da casa. Alguns traziam armas de fogo; a maioria portava facas, marretas e foices.
-		Georgi vai tentar acalm-los - disse Andrei. - Se isso no der certo, eu mesmo vou ter que falar com eles.
-		Pelo amor de Deus, Andrei - exclamou Fitz. - J no  mais hora de conversar. Ns precisamos ir embora.
Antes que Andrei pudesse responder, eles ouviram vozes exaltadas no saguo.
Fitz foi at a porta e abriu uma fresta. Viu Georgi discutindo com um jovem campons alto, cujo bigode farto se estendia pelas faces. Feodor Igorovich, imaginou ele. Os dois estavam cercados por homens e um punhado de mulheres. Algumas pessoas seguravam tochas acesas. Outras se empurravam para entrar pela porta da frente. Era difcil entender o sotaque regional, porm uma frase era gritada repetidas vezes:
-		Ns vamos falar com o prncipe!
Andrei tambm ouviu e passou por Fitz para adentrar o saguo.
-		No... - disse Fitz, mas j era tarde demais.
A turba vaiou e xingou quando Andrei apareceu em trajes de gala. Erguendo a voz, ele disse:
-		Se vocs forem todos embora ordeiramente agora mesmo, talvez no fiquem to encrencados assim.
Feodor gritou de volta:
-		Quem est encrencado  voc! Voc matou meu irmo!
Fitz ouviu Valeriya dizer em voz baixa:
-		Meu lugar  ao lado do meu marido. - Antes que Fitz pudesse det-la, ela tambm j havia sado para o saguo.
-		Eu no queria que Ivan morresse - disse Andrei -, mas ele estaria vivo agora se no tivesse desobedecido  lei e desafiado seu prncipe!
Com um movimento sbito e veloz, Feodor girou o fuzil ao contrrio e golpeou Andrei no rosto com a coronha.

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Andrei cambaleou para trs, levando uma das mos  face.
Os camponeses vibraram.
-		Foi isso que voc fez com Ivan! - gritou Feodor.
Fitz levou a mo ao revlver.
Feodor ergueu o fuzil acima da cabea. Durante um segundo que pareceu congelado no tempo, o comprido Mosin-Nagant pairou no ar como o machado de um carrasco. Ele ento baixou o fuzil, desferindo um golpe violento contra o topo da cabea de Andrei. Ouviu-se um estalo medonho, e ele caiu.
Valeriya soltou um grito.
Fitz, parado na soleira com a porta entreaberta, desarmou com o polegar a trava do lado esquerdo do cano de seu revlver e mirou em Feodor - mas os camponeses se amontoaram ao redor de seu alvo. Comearam a chutar e espancar Andrei, que jazia desmaiado no cho. Valeriya tentou chegar ao marido para ajud-lo, porm no conseguiu vencer a multido.
Um campons golpeou o retrato do av carrancudo de Bea com uma foice, rasgando a tela. Um dos homens deu um tiro de espingarda no lustre, espatifando-o em mil pedaos tilintantes. Cortinas se incendiaram de repente: algum provavelmente ateara fogo nelas com uma tocha.
Fitz j estivera no campo de batalha e aprendera que o herosmo deveria ser equilibrado com um calculismo frio. Sabia que, sozinho, jamais conseguiria salvar Andrei daquela turba. Mas talvez conseguisse resgatar Valeriya.
Guardou a arma no bolso.
Adentrou o saguo. Todas as atenes estavam voltadas para o prncipe cado de costas no cho. Valeriya estava  beira do grupo, esmurrando inutilmente os ombros dos camponeses  sua frente. Agarrando-a pela cintura, Fitz a ergueu nos braos e carregou-a dali, recuando de volta at a sala de estar. O peso fez sua perna ruim doer como se estivesse em chamas, mas ele cerrou os dentes.
-		Me solte! - gritou ela. - Preciso ajudar Andrei!
-		Ns no podemos ajudar Andrei! - disse ele. Ento mudou a cunhada de posio e jogou seu corpo sobre o ombro, aliviando a presso na perna. Ao fazer isso, uma bala passou to perto de Fitz que ele chegou a senti-la cortar o ar. Olhou para trs e viu um soldado uniformizado, todo sorridente, apontando uma pistola para os dois.
Ouviu um segundo tiro e sentiu um impacto. Por um instante, pensou que tivesse sido atingido, porm no sentiu dor, e correu at a porta de comunicao que conduzia  sala de jantar.
Ouviu o soldado gritar:

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   - Ela est fugindo!
   Fitz irrompeu pela porta no instante em que outra bala acertava o batente. Soldados comuns no recebiam treinamento para atirar com pistolas, e s vezes no se davam conta de quanto elas eram menos precisas do que fuzis. Correndo de forma claudicante, ele passou pela mesa posta com esmero, toda prata e cristais, pronta para o jantar de quatro ricos aristocratas. Ouviu que vrias pessoas vinham no seu encalo. No final da sala, uma porta conduzia  rea da cozinha. Ele entrou por um corredor estreito e foi dar no cmodo seguinte. Uma cozinheira e vrias ajudantes haviam parado de trabalhar e estavam imveis, seus rostos aterrorizados.
   Os homens que perseguiam Fitz estavam perto demais. Assim que conseguissem mirar com preciso, ele iria morrer. Precisava fazer alguma coisa para det-los.
   Ps Valeriya no cho. Ela cambaleou e Fitz viu sangue em seu vestido. Ela havia sido baleada, mas estava viva e consciente. Ele a sentou em uma cadeira e ento se virou para o corredor. O soldado sorridente corria em sua direo, disparando a esmo, seguido por vrios outros homens que avanavam em fila indiana pelo espao apertado. Atrs deles, nas salas de jantar e de estar, Fitz viu labaredas.
   Ele sacou sua Webley. Era uma arma de ao dupla, portanto no precisava ser rearmada. Depois de passar todo o peso do corpo para sua perna boa, mirou cuidadosamente no ventre do soldado que corria para cima dele. Apertou o gatilho, a arma disparou e o homem caiu no cho de pedra  sua frente. Fitz ouviu as mulheres darem gritos de terror na cozinha.
   Disparou imediatamente no homem seguinte, que tambm caiu. Atirou uma terceira vez em outro homem, com o mesmo resultado. O quarto homem recuou, agachado, em direo  sala de estar.
   Fitz bateu a porta da cozinha. Seus perseguidores agora iriam hesitar, tentando encontrar uma maneira de verificar se ele estava  sua espera - e isso talvez lhe desse justamente o tempo de que precisava.
   Pegou Valeriya, que parecia estar perdendo os sentidos, no colo. Apesar de nunca ter entrado na cozinha daquela casa, avanou em direo aos fundos. Outro corredor o conduziu atravs de despensas e lavanderias. Por fim, abriu uma porta que conduzia ao lado de fora.
   Ao sair, ofegante, sentindo uma dor infernal na perna ruim, viu a carruagem  espera, com Jenkins sentado no lugar do condutor e Bea l dentro junto de Nina, que soluava descontroladamente. Um estribeiro com ar assustado segurava os cavalos.
   Ele jogou de qualquer jeito uma Valeriya inconsciente dentro da carruagem, ento subiu atrs dela e gritou para Jenkins:
   
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-		Vamos! Vamos!
Jenkins aoitou os cavalos, o estribeiro pulou para sair do caminho e a carruagem partiu.
-		Voc est bem? - perguntou Fitz a Bea.
-		No, mas estou viva e ilesa. E voc...?
-		No fui ferido. Mas temo pela vida do seu irmo. - Na realidade, tinha quase certeza de que Andrei estava morto quela altura, mas no queria dizer isso a ela.
Bea olhou para Valeriya.
-		O que aconteceu?
-		Acho que ela levou um tiro. - Fitz a observou com mais ateno. O rosto de Valeriya estava branco e imvel. - Meu Deus do cu!- falou.
-		Ela est morta, no est? - indagou Bea.
-		Voc precisa ser forte.
-		Eu serei. - Bea segurou a mo sem vida de sua cunhada. - Pobre Valeriya.
A carruagem seguiu em disparada pela estradinha que cortava a propriedade
e passou pela pequena casa em que a me de Bea havia morado depois da morte do marido. Fitz olhou para a casa grande. Um pequeno grupo de camponeses frustrados estava parado  porta da cozinha. Um deles mirava um fuzil, e Fitz empurrou a cabea de Bea para baixo e se abaixou.
Quando tornou a olhar, eles j estavam fora do alcance da arma. Camponeses e empregados saam da casa por todas as portas. Uma luz estranha iluminava as janelas, e Fitz percebeu que a propriedade estava pegando fogo. Enquanto observava, fumaa comeou a brotar da porta da frente e uma labareda de cor laranja escapou por uma janela aberta, incendiando a trepadeira que subia pela parede externa.
A carruagem ento alcanou um promontrio e comeou a sacolejar colina abaixo, fazendo a velha casa sumir de vista.

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CAPTULO VINTE E OITO
Outubro e novembro de 1917

O almirante Von Holtzendorff nos prometeu que os britnicos morreriam de fome em cinco meses - disse Walter com raiva. - Isso foi nove
meses atrs.
-		Ele cometeu um erro - disse-lhe seu pai.
Walter se conteve para no responder com sarcasmo.
Os dois estavam na sala de Otto no Ministrio das Relaes Exteriores em
Berlim. Otto estava sentado em uma cadeira de madeira esculpida atrs de uma
grande escrivaninha. Da parede atrs dele, pendia um retrato do Kaiser
Guilherme I, av do atual monarca, no dia em que havia sido proclamado imperador germnico na Galeria dos Espelhos de Versalhes.
Walter estava furioso com as desculpas esfarrapadas do pai.
-		O almirante deu sua palavra de oficial de que nenhum americano poria os
ps na Europa - disse. - Segundo o nosso servio de inteligncia, 14 mil deles
desembarcaram na Frana no ms de junho.  isso que d confiar na palavra de
um oficial!
Otto se sentiu atingido pelo que o filho disse.
-		Ele fez o que achava melhor para o seu pas! - falou, irado. - O que mais um
homem pode fazer?
Walter ergueu a voz:
-		O senhor ainda me pergunta? Ele pode evitar fazer promessas falsas.
Quando no tiver certeza, pode se abster de dizer que tem. Pode falar a verdade,
ou ento manter a porcaria da boca fechada.
-		Von Holtzendorff deu o melhor conselho que pde.
A debilidade desses argumentos tirava Walter do srio.
-		Esse tipo de humildade teria vindo a calhar antes do acontecido. Mas no
houve humildade alguma. O senhor estava l, no Castelo Pless, e sabe o que aconteceu. Von Holtzendorff deu a sua palavra. Ele iludiu o Kaiser. Fez os americanos
entrarem na guerra contra ns. Nenhum homem poderia ter prestado um servio pior ao seu monarca!
-		Imagino que voc queira que ele renuncie. Mas, nesse caso, quem iria assumir seu
 lugar?

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  -		Renunciar? - Walter estava explodindo de raiva. - Eu quero que ele ponha o cano do revlver na boca e puxe o gatilho.
   Otto fechou a cara.
  -		Isso  uma coisa terrvel de se dizer.
  -		A morte dele seria uma pequena retribuio por todos aqueles que morreram devido  sua tolice arrogante.
  -		Vocs jovens no tm nenhum bom senso.
  -		Como se atreve a me falar sobre bom senso? O senhor e sua gerao fizeram a Alemanha entrar em uma guerra que nos deixou em frangalhos e que matou milhes de pessoas. Uma guerra que, depois de trs anos, ainda no vencemos.
   Otto desviou os olhos. No podia negar que a Alemanha ainda no havia ganhado a guerra. Os dois adversrios viviam um impasse na Frana. A guerra submarina irrestrita no tinha conseguido cortar o abastecimento dos Aliados. Enquanto isso, o bloqueio naval britnico matava o povo alemo de fome aos poucos.
  -		Temos que aguardar para ver o que acontece em Petrogrado - disse Otto. - Se a Rssia sair da guerra, o equilbrio vai mudar.
  -		Exato - disse Walter. - Tudo agora depende dos bolcheviques.
No incio de outubro, Grigori e Katerina foram  casa da parteira.
   "Grigori agora passava-quase todas as noites no apartamento de um quarto perto da Metalrgica Putilov. Os dois j no faziam amor - era desconfortvel demais para ela. Sua barriga estava imensa - a pele esticada feito o couro de uma bola de futebol e o umbigo protuberante, em vez de voltado para dentro. Grigori nunca tinha convivido intimamente com uma mulher grvida, e achava a experincia ao mesmo tempo assustadora e emocionante. Sabia que aquilo tudo era normal, mas, mesmo assim, a ideia de que a cabea de um beb distenderia cruelmente o canal estreito que ele tanto amava lhe dava calafrios.
   Eles se encaminharam para a casa da parteira Magda, mulher de Konstantin. Vladimir ia sentado nos ombros de Grigori. O menino estava com quase trs anos, porm Grigori ainda o carregava sem esforo. Sua personalidade j comeava a se desenhar: ao seu modo infantil, ele era inteligente e srio, mais parecido com Grigori do que com seu charmoso e rebelde pai biolgico, Lev. Um beb era como uma revoluo, pensou Grigori: voc poderia at comear uma, mas era impossvel controlar o que seria dela.
   
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   A contrarrevoluo do general Kornilov tinha sido esmagada antes mesmo de comear. O Sindicato dos Ferrovirios garantira que a maioria de suas tropas ficasse presa em desvios nas estradas de ferro, a quilmetros de Petrogrado. Aqueles que conseguiam chegar perto da cidade eram recebidos por bolcheviques, que frustravam seus planos simplesmente dizendo-lhes a verdade, como Grigori havia feito no ptio da escola. Os soldados ento se voltavam contra os oficiais que faziam parte da conspirao e os executavam. O prprio Kornilov foi detido e encarcerado.
   Grigori ficou conhecido como o homem que fez o exrcito de Kornilov recuar. Protestou que isso era um exagero, mas a modstia s fez aumentar seu prestgio. Ele foi eleito para o Comit Central do Partido Bolchevique.
   Trtski saiu da priso. Os bolcheviques conquistaram 51% dos votos nas eleies municipais de Moscou. O nmero de membros do partido alcanou 350 mil.
   Grigori estava tomado pela sensao inebriante de que qualquer coisa poderia acontecer, incluindo um desastre total. A revoluo poderia ser derrotada a qualquer momento. Era isso que ele temia, pois, nesse caso, seu filho cresceria em uma Rssia to ruim quanto antes. Grigori pensou nos marcos de sua prpria infncia: o enforcamento do pai, a morte da me em frente ao Palcio de Inverno, o padre que baixou a cala do pequeno Lev, o trabalho massacrante na Metalrgica Putilov. Queria uma vida diferente para o filho.
   -		Lnin est convocando um levante armado - disse ele a Katerina enquanto caminhavam at a casa de Magda. O lder bolchevique estava escondido fora da cidade, porm enviava um fluxo constante de cartas furiosas incitando o partido a agir.
   -		Eu acho que ele tem razo - disse Katerina. - Todos esto fartos de governos que falam em democracia mas no fazem nada quanto ao preo do po.
   Como de hbito, Katerina dava voz ao pensamento da maioria dos operrios de Petrogrado.
   Magda j os aguardava e havia preparado um ch.
   -		Sinto muito por no ter acar - falou. - H semanas que no consigo arranjar nenhum.
   -		Mal posso esperar para essa criana nascer - disse Katerina. - Estou to cansada de carregar todo este peso...
   Magda apalpou a barriga de Katerina e disse que ela estava a cerca de duas semanas de dar  luz.
   -		O parto de Vladimir foi horrvel - disse Katerina. - Eu no tinha nenhum amigo, e a parteira era uma vaca siberiana carrancuda chamada Kseniya.
   
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-		Eu conheo Kseniya - disse Magda. - Ela  competente, mas um pouco dura.
-		Eu que o diga!
Konstantin estava de sada para o Instituto Smolny. Embora o soviete no se reunisse todos os dias, havia assembleias constantes de comits e grupos especiais. quela altura, o governo provisrio de Kerenski estava to fraco que a autoridade do soviete aumentava espontaneamente.
-		Ouvi dizer que Lnin voltou  cidade - disse Konstantin a Grigori.
-		Sim, ontem  noite.
-		Onde ele est hospedado?
-		 segredo. A polcia ainda est querendo prend-lo.
-		O que o fez voltar?
-		Vamos descobrir amanh. Ele convocou uma reunio do Comit Central.
Konstantin saiu para pegar um bonde at o centro da cidade. Grigori acompanhou Katerina at em casa. Quando estava prestes a voltar ao quartel, ela disse:
-		Eu me sinto melhor sabendo que Magda vai estar ao meu lado.
-		Que bom! - Grigori ainda tinha a sensao de que um parto era mais perigoso do que um levante armado.
-		E voc tambm estar comigo - acrescentou ela.
-		No no mesmo quarto - respondeu Grigori em nervosismo;
-		No,  claro que no. Mas vai estar logo atrs da porta, andando de um lado para outro, e isso vai me deixar segura.
-		Que bom!
-		Voc vai estar l, no vai?
-		Vou - respondeu ele. - Acontea o que acontecer, eu vou estar l.
Dali a uma hora, quando chegou ao quartel, Grigori o encontrou em polvorosa. No ptio de desfiles, oficiais tentavam carregar vages com armas e munio, mas sem muito sucesso: todos os comits de batalho estavam reunidos ou se preparando para se reunir.
-		Kerenski fez o que temamos! - disse Isaak, agitado. - Est tentando nos mandar para o front.
Grigori sentiu um frio na barriga.
-		Mandar quem para o front?
-		Toda a guarnio de Petrogrado! As ordens acabam de chegar. Querem que troquemos de lugar com os soldados da linha de frente.
-		E que motivo eles deram?
-		Dizem que  por causa do avano alemo. - Os alemes haviam conquistado as ilhas do golfo de Riga e estavam marchando em direo a Petrogrado.

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   -		Que mentira! - disse Grigori, irado. - Isso  uma tentativa de minar o soviete. - E das mais inteligentes, percebeu ele ao refletir sobre a questo. Se os soldados de Petrogrado fossem substitudos por outros que estivessem voltando da frente de batalha, seria preciso dias, talvez semanas de organizao para formar novos comits de soldados e eleger novos delegados para o soviete. Pior ainda: os recm-chegados no teriam a experincia dos ltimos seis meses de batalhas polticas, o que significava que elas precisariam ser travadas outra vez. - O que os soldados esto dizendo?
   -		Eles esto furiosos. Querem que Kerenski negocie a paz, no que os mande para a morte.
   -		Eles vo se recusar a sair de Petrogrado?
   -		No sei. Vai ser til se tiverem o apoio do soviete.
   -		Vou cuidar disso.
   Grigori selecionou um blindado e dois guarda-costas e atravessou a ponte Liteiny at o Instituto Smolny. Aquilo parecia um revs, pensou, mas talvez pudesse virar uma oportunidade. At o momento, nem todos os soldados apoiavam os bolcheviques, entretanto, a tentativa de Kerenski de mand-los para o front talvez pudesse servir de incentivo para os reticentes. Quanto mais pensava no assunto, mais lhe parecia que Kerenski poderia estar cometendo seu maior erro.
   O Smolny era um prdio imponente, onde antes funcionava uma escola para filhas de aristocratas. Duas metralhadoras do regimento de Grigori protegiam a entrada. Guardas Vermelhos tentavam verificar a identidade de todos os visitantes - mas Grigori percebeu, com apreenso, que o nmero de pessoas que entravam e saam era to grande que o controle estava longe de ser rigoroso.
   No ptio, deparou-se com uma cena de atividade frentica. Blindados, motocicletas, caminhes e carros zanzavam sem parar, competindo por espao. Uma ampla escadaria conduzia  fileira de arcadas e a colunata clssica. Em uma sala do primeiro andar, Grigori encontrou o comit executivo do soviete em plena sesso.
   Os mencheviques conclamavam os soldados dos quartis a se prepararem para ser transferidos para o front. Como sempre, pensou Grigori com repulsa, os mencheviques estavam se rendendo sem luta. Ele foi tomado pelo pnico de que a revoluo estivesse lhe escapando das mos.
   Foi se juntar aos demais bolcheviques do comit para conceber uma deciso mais combativa.
   -		A nica forma de defender Petrogrado contra os alemes  mobilizar os operrios - disse Trtski.
   
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-		Como fizemos durante o putsch de Kornilov - falou Grigori com entusiasmo. - Precisamos de outro Comit de Reao para se encarregar da defesa da cidade.
Trtski redigiu uma minuta, levantando-se em seguida para fazer a moo.
Os mencheviques ficaram indignados.
-		Isso seria criar um segundo centro de comando militar alm do quartel general do Exrcito! - disse Mark Broido. - Nenhum homem pode servir a dois senhores.
Para desgosto de Grigori, a maior parte dos membros do comit concordou com esse argumento. A proposta menchevique foi aprovada e Trtski se viu derrotado. Grigori deixou a reunio em desespero. Ser que a lealdade dos soldados ao soviete resistiria quela desfeita?
Na mesma tarde, os bolcheviques se encontraram na Sala 36 e decidiram que no podiam aceitar a deciso do comit. Eles concordaram em tornar a apresentar sua moo  noite, na assembleia que reuniria todo o soviete.
Da segunda vez, os bolcheviques venceram.
Grigori ficou aliviado. O soviete decidira apoiar os soldados e instituir um comando militar alternativo.
Haviam dado um grande passo rumo  tomada do poder.
No dia seguinte, cheios de otimismo, Grigori e outros lderes bolcheviques saram discretamente do Instituto Smolny, sozinhos ou em duplas, tomando cuidado para no chamar a ateno da polcia secreta. De l, seguiram at o apartamento espaoso de uma camarada, Galina Flakserman, para a assembleia do Comit Central.
Grigori estava nervoso com a reunio e chegou cedo. Deu a volta no quarteiro,  procura de transeuntes que pudessem ser espies da polcia, mas no viu ningum suspeito. Dentro do prdio, inspecionou as diferentes sadas - eram trs - e determinou qual seria a rota de fuga mais rpida.
Os bolcheviques se acomodaram ao redor de uma grande mesa de jantar, muitos usando os sobretudos de couro que vinham se tornando uma espcie de uniforme do grupo. Lnin no havia chegado, de modo que comearam sem ele. A ausncia do lder preocupou Grigori - talvez ele houvesse sido preso -, mas Lnin chegou s 10 horas, disfarado com uma peruca que ficava escorregando de sua cabea e quase o deixava com cara de idiota.

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   Contudo, a resoluo que ele props no tinha nada de risvel: Lnin convocou um levante armado, liderado pelos bolcheviques, para derrubar o governo provisrio e assumir o poder.
   Grigori ficou extasiado.  claro que todos queriam um levante armado, porm a maioria dos revolucionrios dizia que ainda era cedo. Finalmente, o mais poderoso deles estava dizendo  agora.
   Lnin falou durante uma hora. Como sempre, mostrou-se exaltado, batendo na mesa, gritando e insultando os que discordassem dele. Seu estilo o prejudicava - a vontade que se tinha era de votar contra algum to grosseiro. Mas, apesar disso, ele era persuasivo. Tinha um amplo conhecimento, seu instinto poltico era infalvel e poucos conseguiam no se abalar pelos golpes implacveis de sua argumentao lgica.
   Desde o incio, Grigori ficou do lado de Lnin. O mais importante era conquistar o poder e pr fim quela hesitao, pensou. Todos os outros problemas poderiam ser solucionados mais tarde. Mas ser que os outros iriam concordar?
   Zinoviev discursou contra. Normalmente um homem bonito, ele tambm havia mudado de aparncia para enganar a polcia. Tinha deixado a barba crescer e cortado a cabeleira preta e encaracolada. Segundo ele, a estratgia de Lnin era arriscada demais. Ele temia que o levante servisse de pretexto para um golpe militar da direita. Queria que o Partido Bolchevique se concentrasse em vencer as eleies para a Assembleia Constituinte.
   Essa argumentao tmida enfureceu Lnin.
   -		O governo provisrio nunca vai organizar uma eleio nacional! - disse ele. - Qualquer um que pense o contrrio  um tolo, um ingnuo.
   Trtski e Stlin apoiaram o levante, mas o primeiro irritou Lnin ao dizer que deveriam esperar o Congresso dos Sovietes de toda a Rssia, marcado para comear dali a 10 dias.
   Grigori achou que era uma boa ideia - Trtski sempre demonstrava sensatez -, mas Lnin o surpreendeu ao vociferar:
   -		No!
   -		Ns provavelmente conseguiremos a maioria entre os delegados... - falou Trtski.
   -		Se o congresso formar um governo, ele est fadado a ser de coalizo! - disse Lnin, enfurecido. - Somente os bolcheviques de centro sero aceitos nele. Quem poderia desejar isso, a no ser um traidor contrarrevolucionrio?
   O insulto fez Trtski corar, mas ele ficou calado.
   Grigori percebeu que Lnin tinha razo. Como sempre, ele estava pensando
   
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mais  frente do que todos os demais. Em uma coalizo, a primeira exigncia dos mencheviques seria que o primeiro-ministro fosse um moderado - e provavelmente se contentariam com qualquer um, menos Lnin.
   De repente Grigori se deu conta - ao mesmo tempo que o restante do comit, imaginou ele - de que a nica forma de Lnin se tornar primeiro-ministro era por meio de um golpe.
   A discusso exaltada se estendeu madrugada adentro. No fim das contas, o levante armado foi aprovado por 10 votos a 2.
   Lnin, no entanto, no conseguiu tudo o que queria. Ainda no havia data marcada para o golpe.
   Depois da reunio, Galina trouxe um samovar e serviu queijo, linguia e po aos revolucionrios esfomeados.
Quando era criana, nas terras do prncipe Andrei, Grigori certa vez assistira ao auge da caada de um cervo. Os cachorros haviam encurralado um macho logo nos arredores do vilarejo e todos tinham ido ver. Quando Grigori chegou, o animal estava morrendo e os ces j devoravam avidamente os intestinos que se esparramavam de seu ventre aberto, enquanto os caadores a cavalo comemoravam tomando conhaque. No entanto, o pobre cervo ainda esboou uma ltima tentativa de reao. Ele brandiu sua enorme galhada, empalando um dos ces e ferindo outro. Por um instante, chegou a parecer capaz de se levantar, mas ento desabou de volta sobre o solo manchado de sangue e fechou os olhos.
   Para Grigori, o primeiro-ministro Kerenski, lder do governo provisrio, era igual ao cervo. Todos sabiam que ele estava derrotado - menos o prprio.
    medida que o frio intenso do inverno russo se fechava ao redor de Petrogrado como um punho, a crise chegou ao pice.
   O Comit de Reao, logo rebatizado de Comit Revolucionrio Militar, era dominado pela personalidade carismtica de Trtski. Ele no era um homem bonito - com seu narigo, sua testa grande e seus olhos esbugalhados que encaravam o mundo por trs de lentes sem armao -, mas era charmoso e persuasivo. Enquanto Lnin gritava e intimidava, Trtski argumentava e seduzia. Grigori desconfiava que ele fosse to irredutvel quanto Lnin, mas que sabia disfarar melhor.
   Em 5 de novembro, uma segunda-feira, dois dias antes do incio do Congresso dos Sovietes de toda a Rssia, Grigori foi a uma assembleia geral de soldados na Fortaleza de Pedro e Paulo, convocada pelo Comit Revolucionrio Militar. A
   
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assembleia comeou ao meio-dia e se estendeu por toda a tarde, com centenas de soldados travando debates polticos na praa em frente  fortaleza, enquanto seus oficiais bufavam, impotentes. Ento Trtski chegou, ao som de aplausos ensurdecedores. Os soldados o escutaram e, em seguida, votaram a favor de obedecer ao comit em vez de ao governo - ou seja, a Trtski, e no a Kerenski.
   Enquanto se afastava da praa, Grigori ponderou que o governo jamais iria tolerar que uma das mais importantes unidades militares do pas declarasse lealdade a terceiros. Os canhes da fortaleza ficavam do outro lado do rio, bem em frente ao Palcio de Inverno, quartel-general do governo provisrio. Agora, pensou ele, Kerenski sem dvida iria reconhecer a derrota e renunciar.
   No dia seguinte, Trtski anunciou precaues contra um golpe contrarrevolucionrio por parte do Exrcito. Ordenou  Guarda Vermelha e aos soldados leais ao soviete que ocupassem as pontes, as estaes de trem e as delegacias de polcia, alm das agncias de correio, de telgrafo, a central telefnica e o banco estatal.
   Grigori estava ao lado de Trtski, transformando a enxurrada de comandos daquele grande homem em instrues detalhadas para unidades militares especficas e despachando as ordens cidade afora por mensageiros a cavalo, de bicicleta ou de carro. Achava que as "precaues" de Trtski se assemelhavam muito a um golpe.
   Para seu espanto e alegria, houve pouca resistncia.
   Um espio no Palcio Marinsky informou que o primeiro-ministro Kerenski havia solicitado um voto de confiana ao pr-parlamento - o rgo que havia fracassado de maneira to canhestra na tarefa de criar a Assembleia Constituinte. O pr-parlamento recusou. Ningum deu muita importncia ao fato. Kerenski j fazia parte do passado: era apenas mais um incapaz que havia tentado governar a Rssia e falhado. Ele voltou ao Palcio de Inverno, onde seu governo impotente seguiu fingindo governar.
   Lnin estava escondido no apartamento de outra camarada, Margarita Fofanova. O Comit Central lhe dera ordens para no sair pela cidade, com medo de que fosse preso. Grigori era um dos poucos a saber onde ele estava. s oito da noite, Margarita chegou ao Instituto Smolny com um recado de Lnin ordenando aos bolcheviques que iniciassem uma insurreio armada imediatamente. Trtski esbravejou:
   - E o que ele acha que ns estamos fazendo?
   Grigori, no entanto, achou que Lnin tinha razo. Apesar de tudo, os bolcheviques ainda no haviam conquistado plenamente o poder. Assim que o Congresso dos Sovietes se reunisse, ele teria autoridade total - e, nesse caso,
   
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mesmo que os bolcheviques fossem a maioria, o resultado seria mais um governo de coalizo baseado em compromissos.
   O congresso estava marcado para comear no dia seguinte, s duas da tarde. Apenas Lnin parecia compreender a urgncia da situao, pensou Grigori com uma sensao de desespero. Ele precisava estar ali, no centro dos acontecimentos.
   Grigori decidiu ir busc-lo.
   A noite estava gelada, com um vento que soprava do norte e parecia varar sem dificuldade o sobretudo de couro que Grigori usava por cima do uniforme de sargento. O centro da cidade parecia surpreendentemente calmo: pessoas de classe mdia bem-vestidas saam dos teatros e se encaminhavam a p para restaurantes iluminados, enquanto pedintes os importunavam querendo esmola e prostitutas sorriam nas esquinas. Grigori meneou a cabea para um camarada que vendia um panfleto assinado por Lnin intitulado "Ser que os bolcheviques vo conseguir se manter no poder?". Grigori no comprou um exemplar. J conhecia a resposta para essa pergunta.
   O apartamento de Margarita ficava na extremidade norte do distrito de Vyborg. Grigori no podia ir at l de carro, pois tinha medo de chamar ateno para o esconderijo de Lnin. Caminhou at a Estao Finlndia e l pegou um bonde. A viagem foi longa, e ele passou a maior parte do tempo imaginando se Lnin iria se recusar a acompanh-lo.
   Contudo, para seu grande alvio, Lnin quase no precisou ser convencido.
   - Sem o senhor, acredito que os outros camaradas no daro o ltimo passo decisivo - disse Grigori, e isso bastou para persuadi-lo.
   Para que Margarita no pensasse que ele havia sido preso, o lder deixou um recado sobre a mesa da cozinha. O texto dizia: "Fui para onde voc no queria que eu fosse. Adeus, Ilitch." Os membros do partido o chamavam de Ilitch, seu segundo nome de batismo.
   Grigori verificou a pistola enquanto Lnin vestia uma peruca, uma boina de operrio e um sobretudo surrado. Os dois ento partiram.
   O sargento se manteve alerta, com medo de que topassem com um destacamento da polcia ou uma patrulha do Exrcito e Lnin fosse reconhecido. Decidiu que no permitiria que Lnin fosse capturado - se necessrio, atiraria sem hesitao.
   Eles eram os nicos passageiros do bonde. Lnin perguntou  condutora o que ela achava dos ltimos desdobramentos polticos.
   Enquanto saam da Estao Finlndia, ouviram o barulho de cascos de cavalos e se esconderam, mas era apenas um grupo de cadetes legalistas procurando encrenca.
   
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    meia-noite, Grigori, sentindo-se triunfante, chegou com Lnin ao Instituto Smolny.
   O lder foi imediatamente at a Sala 36 e convocou uma reunio do Comit Central Bolchevique. Trtski relatou que a Guarda Vermelha agora controlava muitos dos pontos estratgicos da cidade. Para Lnin, no entanto, isso no bastava. Por motivos simblicos, afirmou ele, as tropas revolucionrias precisavam capturar o Palcio de Inverno e prender os ministros do governo provisrio. Esse seria o ato que convenceria o povo de que o poder havia passado, de forma definitiva e irrevogvel, para as mos dos revolucionrios.
   Grigori soube que ele tinha razo.
   E todos os outros tambm.
   Trtski comeou a planejar a tomada do Palcio de Inverno.
   Naquela noite, Grigori no voltou para junto de Katerina.
No podia haver erros.
   Grigori sabia que o ltimo ato da revoluo tinha de ser decisivo. Certificou-se de que as ordens estivessem claras e chegassem a seu destino na hora certa.
   O plano no era complicado, mas ele estava aflito, achando que o cronograma de Trtski era otimista demais. O grosso da fora de ataque seria formado por marinheiros revolucionrios. A maioria deles viria de trem e navio de Helsingfors, capital da regio finlandesa. Eles tinham partido s trs da manh. Outros marinheiros viriam de Kronstadt, base naval que ficava em uma ilha a pouco mais de 30 quilmetros da costa.
   O ataque estava marcado para comear ao meio-dia.
   Como uma operao de guerra, ele iria iniciar com uma barragem de artilharia: os canhes da Fortaleza de Pedro e Paulo disparariam em direo ao outro lado do rio para demolir os muros do palcio. Ento os soldados e marinheiros ocupariam o prdio. Segundo Trtski, tudo estaria terminado s duas da tarde, hora marcada para o incio do Congresso dos Sovietes.
   Lnin queria se levantar durante a abertura para anunciar que os bolcheviques j haviam conquistado o poder. Essa era a nica forma de evitar mais um governo indeciso, incompetente e baseado em compromissos - a nica forma de garantir que Lnin ficasse no comando.
   Grigori temia que as coisas no corressem to depressa quanto Trtski esperava.
   
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A segurana do Palcio de Inverno era falha, de modo que, ao raiar do dia, Grigori conseguiu infiltrar Isaak para uma misso de reconhecimento. Ele voltou relatando haver no prdio cerca de 300 soldados legalistas. Caso estivessem bem organizados e lutassem com coragem, seria uma batalha cruenta.
Isaak tambm descobriu que Kerenski tinha abandonado a cidade. Como a Guarda Vermelha estava no controle das estaes, ele no havia conseguido fugir de trem e acabara partindo em um carro confiscado.
-		Como um homem que no consegue pegar um trem na prpria capital pode ser primeiro-ministro? - indagou Isaak.
-		De toda forma, ele se foi - respondeu Grigori com satisfao. - E duvido que volte algum dia.
No entanto, Grigori ficou pessimista quando deu meio-dia e nenhum dos marinheiros tinha aparecido.
Ele atravessou a ponte at a Fortaleza de Pedro e Paulo para verificar se os canhes estavam prontos. Para seu horror, descobriu que se tratavam de peas de museu: eram meramente ornamentais, no podiam ser disparados. Mandou ento Isaak sair em busca de peas de artilharia que funcionassem.
Correu de volta at o Smolny para avisar Trtski de que seu plano estava atrasado. O guarda na porta lhe disse:
-		Algum veio aqui atrs de voc, camarada. Era algo sobre uma parteira.
-		No posso cuidar disso agora - respondeu ele.
As coisas estavam acontecendo muito depressa. Grigori foi informado de que a Guarda Vermelha havia tomado o Palcio Marinsky e dispersado o pr-parlamento sem derramamento de sangue. Os bolcheviques que estavam encarcerados haviam sido soltos. Trtski ordenara a todos os soldados fora de Petrogrado que ficassem onde estavam - e eles estavam lhe obedecendo em vez de a seus oficiais. Lnin redigia um manifesto que comeava assim: "Aos cidados da Rssia: o governo provisrio foi derrubado!"
-		Mas o ataque ainda no comeou - disse Grigori a Trtski, angustiado. - No vejo como poderia comear antes das trs.
-		No se preocupe - disse Trtski. - Podemos atrasar a abertura do congresso.
Grigori voltou para a praa em frente ao Palcio de Inverno. s duas da tarde,
finalmente, viu o navio lana-minas Amur adentrar o Neva com mil marinheiros da base de Kronstadt no convs. Os operrios de Petrogrado coalharam as margens do rio para saudar sua chegada.
Se Kerenski tivesse posto algumas minas no canal estreito, teria mantido os marinheiros fora da cidade e derrotado a revoluo. Porm no havia mina

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alguma, de modo que os marinheiros comearam a desembarcar com suas japonas de l e fuzis nas mos. Grigori se preparou para posicion-los ao redor do Palcio de Inverno.
No entanto, para sua grande irritao, o plano continuava prejudicado por contratempos. Isaak encontrou um canho e, com muito esforo, conseguiu arrast-lo at a posio correta, mas ento descobriu que no havia balas para ele. Enquanto isso, os soldados legalistas erguiam barricadas dentro do palcio.
Louco de tanta frustrao, Grigori voltou para o Smolny.
Uma sesso extraordinria do soviete de Petrogrado estava prestes a comear. O espaoso saguo da escola para meninas, pintado de um branco virginal, estava lotado de centenas de delegados. Grigori subiu no palanque e sentou-se ao lado de Trtski, que estava prestes a abrir a sesso.
-		O ataque foi adiado devido a uma srie de problemas - falou.
Trtski recebeu a m notcia tranquilamente. Lnin teria ficado possesso.
-		Quando vocs podem tomar o palcio? - perguntou ele.
-		Para ser realista, s seis da tarde.
Trtski meneou a cabea com calma, levantando-se para se dirigir ao soviete reunido.
-		Em nome do Comit Revolucionrio Militar, eu declaro que o governo provisrio no existe mais! - clamou.
Ouviu-se um estrondo de vivas e gritos. Espero que eu consiga transformar essa mentira em realidade, pensou Grigori.
Quando o barulho diminuiu, Trtski listou as conquistas da Guarda Vermelha: a captura, durante a noite, de estaes de trem e outros pontos estratgicos, e a disperso do pr-parlamento. Ele tambm anunciou que vrios ministros do governo tinham sido presos.
-		O Palcio de Inverno no foi tomado, mas seu destino ser decidido a qualquer momento! - Os homens tornaram a vibrar.
-		Vocs esto se antecipando  vontade do Congresso dos Sovietes! - gritou um dissidente.
Esse era um argumento democrtico moderado, do tipo que o prprio Grigori teria defendido antigamente, antes de se tornar um realista.
A resposta de Trtski foi to rpida que ele j deveria estar esperando a crtica.
-		Os operrios e soldados j se anteciparam  vontade do Congresso ao se rebelarem - retrucou.
De repente, um rumor atravessou o salo. As pessoas comearam a se levantar. Grigori olhou em direo  porta, perguntando-se qual o motivo daquilo.
 
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Ento viu Lnin entrar. Os delegados comearam a ovacion-lo. Quando Lnin subiu ao palanque, o barulho se tornou ensurdecedor. Ele e Trtski ficaram lado a lado, sorridentes, e se curvavam para agradecer  multido, que aplaudia de p o golpe que ainda no havia ocorrido.
   Grigori, incapaz de suportar a tenso entre a vitria que estava sendo proclamada no salo e a realidade da desordem e dos atrasos do lado de fora, foi embora dali.
   Os marinheiros ainda no haviam chegado de Helsingfors e os canhes da fortaleza ainda no estavam prontos para disparar. Ao anoitecer, uma chuva fina passou a cair. Em p  beira da praa, com o Palcio de Inverno  sua frente e o quartel-general do Estado-Maior s suas costas, Grigori viu um grupo de cadetes sair do prdio. Os distintivos de seus uniformes informavam que pertenciam  Escola de Artilharia Mikhailovsky, e eles estavam indo embora, levando consigo quatro peas de artilharia pesada. Grigori os deixou passar.
   s sete da noite, ordenou que uma fora de soldados e marinheiros entrasse no quartel-general do Estado-Maior e assumisse o controle. Estes no encontraram oposio.
   s oito, os 200 cossacos que vigiavam o palcio decidiram voltar para seu quartel e Grigori os deixou passar pelo cordo de segurana. Percebeu que aqueles atrasos irritantes talvez no fossem uma tragdia completa: conforme o tempo passava, as foras que teria de enfrentar estavam diminuindo.
   Logo antes das dez, Isaak informou que os canhes da Fortaleza de Pedro e Paulo finalmente estavam prontos. Grigori ordenou que fosse disparado um tiro de festim, seguido de uma pausa. Conforme j esperava, isso fez mais soldados fugirem do palcio.
   Seria to fcil assim?
   Um alarme soou a bordo do Amur. Ao tentar descobrir o motivo, Grigori olhou rio abaixo e viu as luzes de uma embarcao que se aproximava. Sentiu o corao gelar. Teria Kerenski conseguido enviar tropas leais para salvar seu governo no ltimo segundo? Mas, logo em seguida, uma vibrao irrompeu no convs do Amur e Grigori descobriu que os recm-chegados eram os marinheiros de Helsingfors.
   Assim que o navio foi ancorado com segurana, ele enfim deu a ordem para o incio do bombardeio.
   Ouviu-se um estrondo de artilharia. Algumas bombas explodiram no ar, iluminando as embarcaes no rio e o palcio sitiado. Grigori viu uma janela de canto no terceiro andar ser atingida e imaginou se haveria algum l dentro. Para
   
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seu assombro, os bondes iluminados continuavam a cruzar normalmente a ponte Troitsky e a ponte do Palcio ali perto.
   Aquilo,  claro, no se parecia em nada com o campo de batalha. No front, centenas de peas de artilharia disparavam ao mesmo tempo, milhares at; ali, eram apenas quatro. Os intervalos entre os disparos eram longos, e era espantoso ver quantos deles se perdiam, caindo antes do alvo e afundando no rio sem causar dano algum.
   Grigori mandou cessar o bombardeio e enviou pequenos grupos de soldados para dentro do palcio em misso de reconhecimento. Ao voltarem, estes informaram que os poucos guardas restantes no estavam oferecendo nenhuma resistncia.
   Pouco depois da meia-noite, Grigori comandou a entrada de um contingente maior de soldados no palcio. Seguindo uma estratgia preestabelecida, eles se espalharam pelo prdio, correndo ao longo dos corredores escuros imponentes, neutralizando os opositores e procurando ministros do governo. O palcio parecia um quartel catico: havia colches de soldados espalhados sobre o piso de tacos dos sales nobres ricamente decorados e lixo por toda parte - guimbas de cigarro, cascas de po e garrafas vazias com rtulos franceses, que os guardas tinham provavelmente roubado da adega suntuosa do czar.
   Grigori ouviu alguns tiros esparsos, mas no havia muito combate ali. Ele no encontrou nenhum ministro no trreo. Ocorreu-lhe que eles poderiam ter conseguido fugir e teve um momento de pnico. No queria ser obrigado a relatar a Trtski e Lnin que os membros do governo de Kerenski tinham lhe escapado por entre os dedos.
   Acompanhado por Isaak e por dois outros homens, ele subiu correndo uma ampla escadaria para verificar o andar seguinte. Juntos, arrombaram as portas duplas que davam para uma sala de reunio e ali encontraram o que restava do governo provisrio: um punhado de homens de terno e gravata amedrontados, sentados diante de uma mesa e em poltronas espalhadas pela sala, com os olhos esbugalhados de apreenso.
   Um deles conseguiu reunir um vestgio de autoridade.
  -		O governo provisrio est aqui... O que vocs querem? - perguntou ele.
   Grigori reconheceu Alexander Konovalov, o magnata da indstria txtil que
era vice do primeiro-ministro Kerenski.
  -		Vocs esto todos presos - respondeu Grigori. Foi um bom momento, e ele o saboreou.
   Ento voltou-se para Isaak:
   
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  -		Anote os nomes deles. - Reconheceu todos os presentes. - Konovalov, Maliantovich, Nikitin, Tereschenko... - Assim que a lista ficou pronta, acrescentou: - Leve-os at a Fortaleza de Pedro e Paulo e ponha-os em celas. Eu vou at o Smolny dar a boa notcia a Trtski e Lnin.
   Ele saiu do palcio. Ao atravessar a praa, deteve-se por alguns instantes, recordando a me. Ela havia morrido 12 anos antes naquele mesmo local, fuzilada pelos guardas do czar. Grigori se virou e olhou para o imenso palcio, com suas fileiras de colunas brancas e o luar se refletindo nas centenas de janelas. Em um acesso de raiva, brandiu o punho em direo ao prdio.
  -		Esse  o castigo, seus demnios! - vociferou. - Esse  o castigo por terem matado minha me.
   Ele aguardou at recuperar a calma. No sei nem com quem estou falando, pensou. Pulou para dentro de seu blindado ocre, que o esperava ao lado de uma barricada demolida.
  -		Para o Smolny - disse para o soldado ao volante.
   Durante o curto trajeto, comeou a se sentir eufrico. Agora ns realmente conseguimos, disse a si mesmo. Somos os vencedores. O povo derrotou seus algozes.
   Subiu correndo os degraus do Smolny e entrou no salo. O Lugar estava abarrotado e o Congresso dos Sovietes j estava acontecendo. Trtski no conseguira atras-lo por muito tempo. Essa era uma pssima notcia. Seria tpico dos mencheviques e dos outros revolucionrios covardes exigir um lugar no novo governo, por mais que no tivessem feito nada para derrubar o antigo.
   Uma bruma de fumaa de tabaco pairava ao redor dos lustres. Os membros do comit executivo estavam sentados no palanque. Grigori, que conhecia quase todos, analisou a composio do grupo. Observou que os bolcheviques ocupavam 14 das 25 cadeiras. Isso significava que o partido tinha o maior nmero de delegados. Contudo, ficou horrorizado ao ver que o grupo era presidido por Kamenev - bolchevique moderado que havia votado contra o levante armado! Como Lnin alertara, o congresso estava se preparando para outro acordo fraco, repleto de concesses.
   Grigori correu os olhos pelos delegados presentes no salo e viu Lnin na primeira fila. Aproximou-se e disse ao homem na cadeira ao lado:
  -		Preciso falar com Ilitch... deixe-me sentar no seu lugar. - O homem pareceu contrariado, mas depois de um instante se levantou.
   Grigori cochichou no ouvido de Lnin.
  -		Ns tomamos o Palcio de Inverno - disse. Citou ento os nomes dos ministros que haviam sido detidos.
   
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-		Tarde demais - respondeu Lnin, desolado.
Era o que Grigori temia.
-		O que est havendo aqui?
Lnin ficou vermelho de raiva.
-		Martov fez a moo. - Julius Martov era um velho inimigo de Lnin. Ele sempre quisera que o Partido Operrio Social-Democrata Russo fosse como o Partido Trabalhista da Gr-Bretanha e lutasse pelos direitos dos trabalhadores pela via democrtica. E tinha sido sua disputa com Lnin quanto a essa questo que cindira o partido, nos idos de 1903, em suas duas faces atuais: os bolcheviques de Lnin e os mencheviques de Martov. - Ele defendeu o fim do combate nas ruas seguido por negociaes para um governo democrtico.
-		Negociaes? - perguntou Grigori, incrdulo. - Mas ns tomamos o poder!
-		Ns apoiamos a proposta - disse Lnin em tom monocrdio.
Grigori ficou pasmo.
-		Por qu?
-		Se tivssemos votado contra, teramos perdido. Dos 670 delegados, 300 so nossos. Somos o maior partido por uma boa margem, mas no temos a maioria absoluta.
Grigori quase chorou. O golpe chegara tarde demais. Haveria uma nova coalizo, cuja composio seria ditada por acordos e concesses, e o governo continuaria a hesitar enquanto os russos passavam fome dentro do pas e morriam no front.
-		Mesmo assim, eles esto nos atacando - acrescentou Lnin.
Grigori prestou ateno no orador da vez, um homem que ele no conhecia.
-		Este congresso foi convocado para debater sobre o novo governo, mas o que estamos vendo? - dizia o orador com raiva.- Uma tomada irresponsvel do poder j ocorreu, sem que fosse ouvida a vontade do congresso! Precisamos salvar a revoluo dessa empreitada insensata.
Houve uma enxurrada de protestos dos delegados bolcheviques. Grigori ouviu Lnin exclamar:
-		Porco! Miservel! Traidor!
Kamenev pediu ordem.
O discurso seguinte, no entanto, tambm se mostrou fortemente hostil para com os bolcheviques e seu golpe e foi seguido por outros no mesmo tom. O menchevique Lev Khinchuk defendeu negociaes com o governo provisrio, e a indignao que isso causou entre os delegados foi to violenta que por alguns minutos ele no pde continuar. Por fim, gritando para se fazer ouvir acima do barulho, ele falou:
 
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-		Ns estamos abandonando este congresso! - E ento se retirou.
Grigori percebeu que a ttica deles seria dizer que, com a sua retirada, o congresso perdera a autoridade.
-		Desertores! - bradou algum, e o grito foi repetido por todo o salo.
Grigori ficou consternado. Haviam esperado tanto por aquele congresso...
Seus delegados representavam a vontade do povo russo. Mas ele estava se desintegrando.
Ele olhou para Lnin. Para seu espanto, os olhos do lder brilhavam de contentamento.
-		Que maravilha - comentou ele. - Estamos salvos! Jamais imaginei que eles fossem cometer um erro desses.
Aquelas palavras no faziam sentido para Grigori. Teria Lnin perdido a razo?
O orador seguinte foi Mikhail Gendelman, um proeminente socialista revolucionrio.
-		Levando em conta a tomada de poder pelos bolcheviques - disse ele -, responsabilizando-os por essa atitude inconsequente e criminosa e considerando impossvel colaborar com eles, a faco dos socialistas revolucionrios est abandonando o congresso! - E, com essas palavras, tambm se retirou, seguido por todos os seus correligionrios. O grupo foi alvo de xingamentos, vaias e assobios por parte dos delegados remanescentes.
Grigori ficou arrasado. Como seu triunfo podia ter degringolado, to depressa, em tamanha desordem?
Lnin, contudo, parecia ainda mais satisfeito.
Uma srie de delegados dos soldados se pronunciou a favor do golpe bolchevique, e Grigori comeou a se animar, mas continuava sem entender o jbilo de Lnin. Ilitch passara a rabiscar algo em um bloco de anotaes.  medida que os discursos se sucediam, corrigia e reescrevia suas palavras. Por fim, entregou duas folhas de papel a Grigori.
-		Isto deve ser proposto ao congresso para aprovao imediata - disse ele.
Era uma declarao longa, cheia da retrica habitual de Lnin, porm os olhos
de Grigori foram logo atrados para a frase crucial: "O congresso decide, por meio desta, assumir o controle do governo."
Era o que Grigori queria.
-		Quem deve ler? Trtski? - perguntou.
-		No, Trtski no. - Lnin correu os olhos pelos homens e pela nica mulher sobre o palanque. - Lunacharsky - falou.
Lnin achava que Trtski j havia conquistado glria suficiente, sups Grigori.

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Levou a declarao at Lunacharsky, que acenou para o presidente do congresso. Poucos minutos depois, Kamenev convocou Lunacharsky, que se levantou para ler as palavras de Lnin.
Cada frase foi recebida por um rugido de aprovao.
O presidente convocou uma votao.
E ento, por fim, Grigori comeou a entender por que Lnin estava feliz. Sem a presena dos mencheviques e dos socialistas revolucionrios, os bolcheviques possuam a maioria esmagadora. Eles poderiam fazer o que quisessem. No havia razo para concesses.
Os delegados votaram. Apenas dois foram contra a proposta.
Os bolcheviques haviam conquistado o poder - e agora tinham legitimidade.
O presidente encerrou a sesso. Eram cinco da manh de quinta-feira, dia 8 de novembro. A Revoluo Russa obtivera a vitria. E o poder estava nas mos dos bolcheviques.
Grigori saiu do salo atrs de Josef Stlin, o revolucionrio da Gergia, e de outro homem. O companheiro de Stlin usava um sobretudo de couro e um cinturo de balas, como muitos dos bolcheviques, mas alguma coisa nele disparou um alarme na memria de Grigori. Quando o homem se virou para dizer alguma coisa a Stlin, ele o reconheceu, e um frmito de choque e horror atravessou seu corpo.
Era Mikhail Pinsky.
Ele havia se juntado  revoluo.
Grigori estava exausto. H dois dias que no dormia. Andara to ocupado que mal tinha visto os dias passarem. Nunca havia viajado em um veculo to desconfortvel quanto o blindado, mas mesmo assim adormeceu dentro dele a caminho de casa. Quando Isaak o acordou, viu que estavam em frente ao seu prdio. Perguntou-se quanto Katerina saberia sobre o ocorrido. Torceu para ela no ter escutado muita coisa, pois assim teria o prazer de lhe contar sobre o triunfo da revoluo.
Ele entrou no edifcio e subiu a escada, cambaleante. Havia luz debaixo da porta.
- Sou eu - disse, adentrando o quarto.
Katerina estava sentada na cama com um beb minsculo no colo.
Grigori foi tomado pela felicidade.

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-		O beb nasceu! - exclamou. - Como ele  lindo...
-		 uma menina.
-		Uma menina!
-		Voc prometeu que estaria aqui - disse Katerina em tom acusador.
-		Mas eu no sabia! - Ele olhou para a criana. - Ela tem cabelos pretos, como eu. Como vamos cham-la?
-		Eu mandei um recado.
Grigori se lembrou do guarda lhe dizendo que algum estava  sua procura. Era algo sobre uma parteira, dissera o homem.
-		Oh, meu Deus - falou Grigori. - Eu estava to ocupado...
-		Magda estava fazendo outro parto - disse Katerina. - O meu teve que ser com Kseniya.
Grigori ficou preocupado.
-		Voc sofreu?
-		 claro que sofri - disparou Katerina.
-		Eu sinto muito. Mas escute! Houve uma revoluo! Uma revoluo de verdade, desta vez... ns assumimos o poder! Os bolcheviques vo formar um governo. - Ele se curvou para beij-la.
-		Foi o que eu imaginei - disse ela, e virou o rosto para o outro lado.

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CAPTULO VINTE E NOVE
Maro de 1918

Walter estava em p no telhado de uma pequena igreja medieval no vilarejo
de Villefranche-sur-Oise, no muito longe de Saint-Quentin. Durante algum
tempo, aquela havia sido uma zona de descanso e recreao da retaguarda alem,
e, tirando o melhor proveito possvel da situao, os habitantes franceses tinham
vendido ali omeletes e vinho - quando conseguiam obt-los - aos conquistadores. "Malheur la guerre", diziam. "Pour nous, pour vous, pour tout le monde" "A
guerra  uma tragdia - para ns, para vocs, para todo mundo." Desde ento,
pequenos avanos das foras aliadas tinham enxotado os moradores dali, posto
abaixo metade das construes e deixado o vilarejo mais prximo do front:
agora, era uma zona de agrupamento.
   L embaixo, na rua estreita que cortava o centro do vilarejo, soldados alemes
marchavam em linhas de quatro. J fazia horas que estavam passando, milhares
deles. Tinham um aspecto cansado, porm feliz, muito embora devessem saber
que estavam se encaminhando para o front. Eles haviam sido transferidos da
frente oriental para l. Para quem esteve na Polnia em fevereiro, a Frana em
maro era um progresso, pensou Walter, seja l o que os esperasse ali.
   Ver aquilo encheu seu corao de alegria. Aqueles homens tinham sido liberados pelo armistcio entre a Alemanha e a Rssia. H poucos dias, os negociadores
haviam assinado um tratado de paz em Brest-Litovsk. A Rssia estava definitivamente fora da guerra. Ao apoiar Lnin e os bolcheviques, Walter ajudara a tornar
isso realidade - e agora assistia ao resultado triunfal.
   Neste momento, o Exrcito alemo tinha 192 divises na Frana, em comparao com as 129 de um ano atrs, e a maior parte das novas unidades tinha sido
transferida do front oriental. Pela primeira vez, eles tinham mais homens naquela regio do que os Aliados, que, segundo os servios de inteligncia alemes,
contavam com 173 divises. Ao longo dos ltimos trs anos e meio, o povo alemo tinha sido informado diversas vezes que seu pas estava  beira da vitria.
Desta vez, Walter achava que isso era verdade.
   Ele no compartilhava a opinio do pai de que os alemes eram um tipo superior de ser humano, mas, por outro lado, compreendia que, se a Alemanha dominasse a Europa, no seria uma coisa ruim. Os 
   franceses tinham muitos talentos
   
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brilhantes - na culinria, na pintura, na moda, na vinicultura mas eram pssimos governantes. Os funcionrios pblicos franceses se consideravam uma espcie de aristocracia e no viam problema algum em deixar os cidados esperando horas e horas. Uma dose de eficincia alem lhes faria muitssimo bem. O mesmo valia para os desorganizados italianos. A Europa Oriental seria a maior beneficiada. O velho Imprio Russo ainda estava na Idade Mdia, com camponeses maltrapilhos morrendo de fome em barracos e mulheres sendo aoitadas por adultrio. A Alemanha lhes daria ordem, justia e mtodos agrcolas modernos. Haviam acabado de inaugurar sua primeira linha area regular. Os avies iam e voltavam entre Viena e Kiev como trens. Depois que a Alemanha ganhasse a guerra, haveria toda uma rede de voos pela Europa. E Walter e Maud poderiam criar seus filhos em um mundo pacfico e ordenado.
   No entanto, esse momento vantajoso no campo de batalha no iria durar muito. Os americanos haviam comeado a chegar em maior nmero. Eles tinham precisado de quase um ano para formar seu exrcito, mas agora a Frana contava com 300 mil soldados norte-americanos - e mais deles desembarcavam a cada dia. A Alemanha precisava vencer imediatamente, conquistar a Frana e repelir os Aliados em direo ao mar, antes que os reforos americanos fizessem a balana pender para o lado deles.
   O ataque iminente tinha sido batizado de Kaiserschlacht, ou batalha do Imperador. De uma forma ou de outra, seria a ltima ofensiva da Alemanha.
   Walter tinha sido enviado novamente para o front. Agora, a Alemanha precisava que todos os seus homens lutassem, principalmente porque muitos oficiais tinham morrido. Ele havia recebido o comando de um Sturmbataillon - uma tropa de assalto -, e feito um treinamento para aprender as tticas mais recentes junto com seus homens. Alguns destes eram veteranos empedernidos, outros, meninos e velhos recrutados por desespero. Durante o treinamento, Walter passara a gostar deles, mas precisava tomar cuidado para no se apegar demais a homens que talvez fosse obrigado a mandar para a morte.
   Gottfried von Kessel, o antigo rival de Walter da embaixada alem em Londres, havia feito o mesmo curso. Apesar dos problemas de vista, Gottfried era tenente no batalho de Walter. A guerra pouco havia adiantado para abrandar sua atitude arrogante de sabe-tudo.
   Walter examinou a zona rural  sua volta com seu binculo militar. O dia estava claro e frio, de modo que ele conseguia ver muito bem. Ao sul, o largo rio Oise atravessava lentamente uma rea pantanosa. Ao norte, viam-se campos frteis salpicados de aldeias, casas de fazenda, pontes, pomares e pequenos bosques.
   
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Quase dois quilmetros a oeste, ficava a rede de trincheiras alems e, logo depois, o campo de batalha. Ali, a mesma paisagem agrcola tinha sido devastada pela guerra. Campos de trigo estreis cheios de crateras lembravam a Lua; todos os vilarejos estavam reduzidos a montes de pedras; os pomares explodidos e as pontes derrubadas. Se ele focasse o binculo com cuidado, poderia ver os cadveres de homens e cavalos em decomposio e as carcaas de blindados carbonizados.
   Do outro lado dessa terra devastada, estavam os britnicos.
   Um ronco forte fez Walter olhar para o leste. Nunca havia visto o veculo que se aproximava, embora j tivesse ouvido falar dele. Tratava-se de uma pea de artilharia mvel, com um cano e um mecanismo de disparo gigantescos, montados sobre um chassi com motor prprio de 100 cavalos de potncia. O veculo vinha seguido de perto por um caminho de carga pesada, provavelmente trazendo projteis igualmente gigantescos. Uma segunda e uma terceira pea de artilharia vieram logo em seguida. As equipes que viajavam em cima desses blindados acenavam com as boinas ao passar, como se estivessem em uma parada da vitria.
   Walter se sentiu confiante. Uma vez iniciada a ofensiva, aquelas peas de artilharia poderiam ser reposicionadas com rapidez. Elas dariam uma cobertura muito melhor ao avano da infantaria.
   Walter tinha ouvido dizer que armas ainda maiores do que aquelas estavam bombardeando Paris de uma distncia de aproximadamente 100 quilmetros. Parecia quase impossvel.
   Na esteira dos blindados, veio um Mercedes 37/95 Double Phaeton que lhe pareceu muito familiar. O carro saiu da estrada e estacionou na praa em frente  igreja. O pai de Walter desceu l de dentro.
   O que Otto estaria fazendo ali?
   Walter atravessou o portal baixo que conduzia  torre e desceu s pressas a estreita escada em caracol at o trreo. A nave da igreja abandonada havia sido transformada em dormitrio. Ele passou por entre os sacos de dormir e caixotes virados que serviam de mesa e cadeira aos homens.
   Do lado de fora, o cemitrio da igreja estava repleto de pontes de trincheira: plataformas de madeira pr-fabricadas que permitiriam s peas de artilharia e aos caminhes de abastecimento que viriam no rasto das tropas de assalto atravessarem as trincheiras britnicas capturadas. As tbuas estavam empilhadas em meio s lpides para no ficarem to visveis do cu.
   O fluxo de homens e veculos que cruzava o vilarejo de leste a oeste j havia praticamente cessado. Algo estava acontecendo.
   
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Otto estava fardado e o cumprimentou de maneira formal, prestando continncia. Walter pde ver que o pai mal se continha de entusiasmo.
-		Uma visita especial est chegando! - disse ele na mesma hora.
Estava explicado.
-		Quem ?
-		Voc vai ver.
Walter imaginou que fosse o general Ludendorff, atual comandante supremo em exerccio.
-		O que ele quer fazer?
-		Falar com os soldados,  claro. Por favor, rena os homens em frente  igreja.
-		Daqui a quanto tempo?
-		Ele est vindo logo atrs de mim.
-		Certo. - Walter correu os olhos pela praa. - Sargento Schwab, venha c! Cabo Grunwald tambm! E vocs, homens, venham! - Ele despachou mensageiros at a igreja, o refeitrio que havia sido montado em um grande celeiro e o acampamento na colina ao norte. - Quero todos em frente  igreja, adequadamente vestidos, daqui a 15 minutos. Rpido! - Os soldados saram correndo.
Walter percorreu o vilarejo a passos rpidos para informar aos oficiais, ordenando aos homens que fossem para a praa e ficassem de olho na estrada que vinha do leste. Encontrou seu superior, o general de diviso Schwarzkopf, em uma antiga leiteria na periferia do vilarejo, terminando um caf da manh tardio composto de po e sardinhas em lata.
Em 15 minutos, dois mil homens foram reunidos e, 10 minutos depois, estavam todos apresentveis, com os uniformes abotoados e as boinas bem arrumadas na cabea. Walter foi buscar um caminho de reboque e o parou com a traseira virada para os homens. Improvisou degraus at a caamba do veculo usando caixotes de munio.
Otto tirou do Mercedes um pedao de tapete vermelho e o estendeu no cho, conduzindo aos degraus.
Walter fez o cabo Grunwald - um homem alto, de mos e ps grandes - sair da formao e o mandou ficar de guarda no telhado da igreja, com seu binculo e um apito.
Eles ento se puseram a aguardar.
Meia hora se passou, depois uma hora. Os homens foram ficando impacientes, as linhas se tornaram disformes e comeou a haver bate-papo.
Dali a mais uma hora, Grunwald tocou seu apito.
-		Preparem-se! - vociferou Otto. - Ele est chegando!

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Uma cacofonia de ordens gritadas se fez ouvir. Os homens assumiram rapidamente posio de sentido. Uma caravana entrou na praa.
A porta de um veculo blindado se abriu e um homem vestido de general saltou. No entanto, no era Ludendorff, com sua cabea calva e pontuda. O visitante especial se movia de forma estranha, mantendo a mo esquerda no bolso do dlm como se estivesse com o brao ferido.
Depois de alguns instantes, Walter percebeu que se tratava do prprio Kaiser.
O general de diviso Schwarzkopf se aproximou e prestou continncia.
Quando os homens perceberam quem era o visitante, o burburinho resultante logo se transformou em uma vibrao generalizada. No incio, o general de diviso pareceu irritado com aquela indisciplina, porm o Kaiser abriu um sorriso magnnimo que fez Schwarzkopf se recompor sem demora, assumindo um ar de aprovao.
O monarca subiu os degraus, ficou em p na caamba do caminho e agradeceu pela recepo calorosa. Quando o barulho finalmente cessou, ele comeou a falar:
- Alemes! - disse. - Chegou a hora da vitria!
Todos tornaram a vibrar e, desta vez, Walter fez o mesmo.
 uma da manh de quinta-feira, 21 de maro, a brigada j estava organizada em posio de avanar, pronta para o ataque. Walter e os outros oficiais de seu batalho estavam sentados em um abrigo na trincheira da linha de frente. Para aliviar a tenso da espera, eles conversavam.
Gottfried von Kessel explicava a estratgia de Ludendorff.
-		Essa ofensiva rumo ao oeste vai criar uma brecha entre britnicos e franceses - disse- ele, com a mesma autoconfiana ignorante que costumava exibir quando os dois trabalhavam juntos na embaixada alem de Londres. - E depois ns vamos dar uma guinada para o norte, obrigando o flanco direito dos britnicos a mudar de curso para imprens-los contra o canal da Mancha.
-		No, no - disse o tenente Von Braun, um homem mais velho. - A coisa mais inteligente a fazer, depois de rompermos a linha de frente do inimigo,  avanarmos todo o caminho at a costa atlntica. Imaginem s: uma linha alem cortando a Frana ao meio e separando o exrcito francs de seus aliados.
-		Mas, nesse caso, ns teramos inimigos ao norte e ao sul! - protestou Von Kessel.
Um terceiro homem, o capito Kellerman, entrou na conversa.

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  -		Ludendorff vai dar uma guinada para o sul - previu ele. - Ns precisamos conquistar Paris. Isso  tudo o que importa.
  -		Paris  apenas simblica! - disse Von Kessel com desdm.
   Aquilo tudo no passava de especulao - ningum sabia ao certo. Walter estava tenso demais para ficar escutando conversas inteis, de modo que saiu do abrigo. Na trincheira, os homens estavam sentados no cho, imveis e calmos. As horas que precediam uma batalha eram um momento de reflexo e preces. No jantar da vspera, a sopa de cevada havia sido incrementada com carne, um raro agrado. O moral estava alto - todos sentiam que o fim da guerra era iminente.
   A madrugada estava clara e estrelada. A cozinha de campanha distribua o desjejum: po preto e um caf ralo com gosto de nabo. A chuva que cara mais cedo tinha estiado e quase no havia mais vento. Isso significava que eles poderiam disparar bombas de gs venenoso. Ambos os lados usavam gs, porm Walter tinha ouvido dizer que, desta vez, os alemes experimentariam uma nova mistura: o mortfero fosgnio aliado ao gs lacrimogneo. Este ltimo no era letal, mas conseguia penetrar as mscaras de gs padro do Exrcito britnico. A teoria era que a irritao causada pelo gs lacrimogneo faria os soldados inimigos tirarem as mscaras para esfregar os olhos, e eles ento inalariam o fosgnio e morreriam.
   As grandes peas de artilharia estavam posicionadas ao longo de toda a borda do lado alemo da terra de ningum. Walter nunca vira tanto armamento reunido. As equipes empilhavam munio. Atrs delas, uma segunda linha artilharia estava pronta para avanar, com os cavalos j atrelados - elas formariam a segunda onda da barragem.
   s 4h30, o silncio tomou conta do front. As cozinhas de campanha desapareceram; as equipes de artilharia sentaram-se no cho, aguardando; os oficiais se levantaram dentro das trincheiras, olhando ao longo da terra de ningum, at a escurido onde dormia o inimigo. At mesmo os cavalos silenciaram. Esta  a nossa ltima chance de vitria, pensou Walter. Perguntou-se se deveria rezar.
   s 4h40, a fumaa branca de um sinalizador subiu em direo ao cu, seu brilho apagando as estrelas cintilantes. Logo em seguida, a grande pea de artilharia ao lado de Walter disparou, produzindo um claro de labaredas e um estrondo to forte que ele cambaleou para trs como se tivesse sido empurrado. Mas aquilo no foi nada. Em segundos, toda a artilharia comeou a disparar. O barulho era muito mais alto do que o de uma tempestade. Os clares iluminavam os rostos dos artilheiros enquanto eles manejavam os projteis pesados e a cordite usada como carga propulsora. O ar ficou carregado de gs e fumaa, e Walter tentou respirar apenas pelo nariz. O impacto fazia o cho sob seus ps tremer.
   
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   Walter logo comeou a ver exploses e chamas do lado britnico,  medida que as bombas alems atingiam depsitos de munio e tanques de gasolina. Ele conhecia a sensao de estar sob o fogo de artilharia pesada e sentiu pena do inimigo. Torceu para Fitz no estar l.
   As peas de artilharia ficaram to quentes que queimariam a pele de qualquer um tolo o suficiente para toc-las. O calor deformava os canos de tal forma que chegava a prejudicar a mira, de modo que as equipes precisavam usar sacos molhados para esfri-los. Os soldados de Walter se ofereceram para trazer baldes de gua de crateras prximas para manter os sacos midos. A infantaria sempre se mostrava disposta a ajudar os artilheiros antes de um ataque: cada soldado inimigo morto pela barragem era um homem a menos para atirar nas foras terrestres quando elas avanassem.
   A luz do dia trouxe consigo nvoa. Junto s armas, a ignio das cargas propulsoras consumia o vapor, mas ao longe no era possvel enxergar nada. Walter ficou preocupado. Os artilheiros teriam de mirar "pelo mapa". Felizmente, eles possuam diagramas detalhados e precisos das posies britnicas, que apenas um ano antes tinham sido posies alems. Mas a possibilidade de corrigir a mira por meio da observao era insubstituvel. Aquilo era um mau comeo.
   A nvoa se misturou  fumaa das armas. Walter amarrou um leno por sobre o nariz e a boca. Os britnicos no estavam disparando de volta, pelo menos no naquele trecho. Isso encorajou Walter. Talvez a artilharia inimiga j tivesse sido destruda. O nico alemo morto perto de Walter era um operador de morteiro cuja boca de fogo havia explodido, provavelmente porque o projtil fora detonado dentro do cano. Uma equipe de padioleiros levou embora o cadver, enquanto uma equipe mdica fazia curativos nos ferimentos dos soldados prximos atingidos por estilhaos.
   s nove da manh, Walter posicionou os homens em suas respectivas posies de largada: as tropas de assalto deitadas no cho atrs da artilharia e a infantaria regular em p nas trincheiras. Atrs deles, concentravam-se a segunda onda de artilharia, as equipes mdicas, os operadores dos telefones de campanha, os reabastecedores de munio e os mensageiros.
   A tropa de assalto usava o moderno capacete arredondado de ao, apelidado de "balde de carvo". Eles haviam sido os primeiros a abandonar o antigo Pickelhaube pontudo. Estavam armados com carabinas Mauser K98. Seu cano curto a tornava pouco precisa para tiros de longa distncia, mas ela era mais fcil de manejar em combates corpo a corpo nas trincheiras do que os fuzis mais compridos. Cada homem carregava uma sacola atravessada no peito com uma dzia de granadas de mo. Como elas tinham um cabo de madeira, os soldados britnicos as 
   
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chamavam de "espremedores de batatas", em referncia ao utenslio de cozinha usado por suas mulheres. Aparentemente, toda cozinha britnica tinha o seu. Walter descobrira isso ao interrogar prisioneiros de guerra: nunca havia entrado em uma cozinha britnica.
   Ele ps a mscara de gs e fez sinal para os homens o imitarem, de modo a no serem afetados pelos prprios gases venenosos quando chegassem ao outro lado. Ento, s nove e meia, se levantou. Pendurou o fuzil nas costas e segurou uma granada em cada mo, conforme deveria fazer qualquer soldado de assalto prestes a avanar. Como ningum conseguia escutar nada, ele no podia gritar ordens, ento simplesmente gesticulou com o brao e comeou a correr.
   Seus homens o seguiram rumo  terra de ningum.
   O solo estava firme e seco: h semanas que no chovia forte. Isso era bom para os agressores, pois tornava mais fcil mobilizar homens e veculos.
   Eles avanavam abaixados. A artilharia alem disparava por cima de suas cabeas. Os homens de Walter sabiam estar correndo perigo de ser atingidos pelo fogo amigo que aterrissasse antes do alvo, sobretudo no meio da nvoa, uma vez que os observadores das equipes de artilharia no podiam corrigir a mira do atirador. Mas o risco valia a pena. Daquela forma, eles poderiam chegar to perto da trincheira inimiga que, quando o bombardeio terminasse, os britnicos no teriam tempo de assumir suas posies e montar seus ninhos de metralhadora antes de serem atacados pelas tropas de assalto.
   Enquanto corriam pela terra de ningum,
   Walter  torceu  para que o
    arame enfarpado do lado inimigo houvesse sido destrudo pela artilharia. Caso contrrio, seus homens perderiam tempo cortando-o.
   Houve uma exploso  sua direita e ele ouviu um grito. Logo em seguida, um brilho no solo chamou sua ateno e ele divisou o fio de uma mina. Ele e seus homens estavam no meio de um campo minado que no havia sido detectado. Walter foi invadido por uma onda de pnico ao perceber que seu prximo passo poderia faz-lo voar pelos ares. Ento, recuperou o controle.
   - Cuidado! Vejam onde pisam! - gritou, mas suas palavras se perderam em meio ao estrondo da artilharia. Seus homens continuaram a correr: os feridos, como sempre, teriam de ser deixados para trs para aguardar as equipes mdicas.
   Instantes depois, s 9h40, a artilharia cessou fogo.
   Ludendorff tinha abandonado a velha ttica de vrios dias de bombardeio antes de um ataque: isso dava ao inimigo tempo demais para convocar reservas. Estimava-se que cinco horas bastassem para confundir e desmoralizar o inimigo, sem que ele pudesse ter tempo para se reorganizar.
   
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   Em teoria, pensou Walter.
   Ele se empertigou e passou a correr mais depressa. Estava com a respirao ofegante porm regular, e quase no suava - apesar de alerta, estava calmo. Agora faltavam segundos para o contato com o inimigo.
   Chegou ao arame farpado britnico. Este no havia sido destrudo, mas havia brechas pelas quais pde conduzir seus homens.
   Os comandantes de companhias e pelotes ordenaram aos soldados que tornassem a se espalhar. As ordens eram dadas com gestos, em vez de palavras: talvez j estivessem perto o suficiente para ser ouvidos.
   A nvoa agora estava a favor deles, pois os escondia dos inimigos, pensou Walter com um leve arrepio de euforia. Naquele ponto, j era de se esperar que estivessem vivendo o inferno de ser alvejados pelas metralhadoras. Mas os britnicos no podiam v-los.
   Ele chegou a um trecho em que o solo fora completamente revirado por bombas alems. A princpio, tudo o que conseguiu distinguir foram crateras e montes de terra. Ento viu um pedao de trincheira e percebeu ter chegado  linha de frente britnica. A trincheira, no entanto, havia sido destruda: a artilharia fizera um bom trabalho.
   Ser que havia algum l dentro? Nenhum tiro tinha sido disparado. Ainda assim, era melhor ter certeza. Walter retirou o pino de uma granada e a jogou dentro da trincheira por precauo. Depois que ela explodiu, olhou por cima do parapeito. Vrios homens estavam cados no cho, nenhum deles se movendo. Quem no tivesse sido morto antes pela artilharia havia sido liquidado pela granada.
   At agora voc teve sorte, pensou Walter. No espere que ela dure.
   Ele correu ao longo da linha inimiga para verificar como o restante de seu batalho estava se saindo. Viu meia dzia de soldados britnicos se rendendo, com as mos erguidas tocando os capacetes abaulados de ao, as armas largadas no cho. Se comparados aos seus captores alemes, eles pareciam bem alimentados.
   O tenente Von Braun apontava seu fuzil para os prisioneiros, porm Walter no queria que seus oficiais perdessem tempo lidando com presos. Tirou a mscara de gs: os britnicos estavam sem as suas.
   - Sigam em frente! - gritou ele em ingls. - Por ali, por ali. - Ele apontou para as linhas alems. Os britnicos fizeram o que Walter mandou, ansiosos por sair dali e salvar suas vidas. - Deixe-os ir - gritou para Von Braun. - O escalo da retaguarda vai cuidar deles. Vocs precisam continuar avanando. - Era para isso que servia uma tropa de assalto.
 
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Ele voltou a correr. Por vrias centenas de metros, se deparou com as mesmas cenas: trincheiras destrudas, baixas inimigas, nenhuma resistncia de fato. Ento escutou tiros de metralhadora. Logo em seguida, topou com um peloto que havia se abrigado dentro de crateras de bomba. Deitou-se ao lado do sargento, um bvaro chamado Schwab.
-		No estamos conseguindo identificar o ninho - informou-lhe o sargento. - Estamos atirando na direo do barulho.
Schwab no havia compreendido a ttica. As tropas de assalto deveriam evitar os focos de resistncia inimigos e seguir adiante, deixando que eles fossem neutralizados pela infantaria que viria em seguida.
-		Continuem a avanar! - ordenou-lhe Walter. - Contornem a metralhadora. - Quando houve um intervalo entre os tiros, ele se levantou e gesticulou para os homens. - Vamos! Levantem-se, levantem-se! - Os soldados obedeceram. Ele os conduziu para longe da metralhadora e os fez atravessar uma trincheira vazia.
Topou novamente com Gottfried. O tenente carregava uma lata de biscoitos que ia enfiando na boca enquanto corria.
-		Incrvel! - gritou ele. - Voc tem que provar a comida dos britnicos!
Walter derrubou a lata da sua mo.
-		Seu idiota, voc est aqui para lutar, no para comer - berrou. - Ande logo.
Ele foi surpreendido por alguma coisa que passou correndo por cima do seu
p. Ento viu um coelho desaparecer em meio  nvoa. A artilharia certamente havia destrudo suas tocas.
Verificou a bssola para se certificar de que continuava na direo norte. No sabia se as trincheiras que estava encontrando eram de comunicao ou de abastecimento, de modo que a disposio delas no lhe dizia muita coisa.
Sabia que os britnicos, seguindo o exemplo alemo, tinham aberto vrias linhas de trincheiras. Depois de passar pela primeira, esperava encontrar a qualquer momento uma trincheira bem defendida que eles chamavam de Linha Vermelha, e ento - caso conseguisse passar por ela - uma terceira, cerca de dois quilmetros mais a oeste, chamada de Linha Marrom.
Dali para a frente, no havia nada seno terreno aberto at a costa ocidental.
Bombas explodiram na nvoa  sua frente. No era possvel que fossem os britnicos. Eles estariam disparando contra as prprias defesas. Aquilo s podia ser a segunda barragem de artilharia alem. Walter e seus homens estavam correndo o risco de ultrapassar sua prpria artilharia. Ele se virou. Felizmente, a maioria da tropa estava atrs dele. Ergueu os braos.
-		Abriguem-se! - gritou. - Espalhem a notcia!

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Os soldados, que j haviam chegado  mesma concluso que ele, mal precisaram do aviso. Recuaram alguns metros correndo e pularam para dentro das trincheiras vazias.
Walter estava exultante. Tudo estava correndo maravilhosamente bem.
No cho da trincheira havia trs soldados britnicos cados. Dois estavam imveis e o terceiro grunhia. Onde estariam os outros? Talvez tivessem fugido. Ou ento aquele era um esquadro suicida, deixado para trs no intuito de proteger uma posio indefensvel, para que seus companheiros em retirada tivessem mais chances de escapar.
Um dos britnicos mortos era um homem excepcionalmente alto, de mos e ps grandes. Na mesma hora, Grunwald tirou as botas do cadver.
-		So do meu tamanho! - falou para Walter, como se quisesse se justificar. Este no teve coragem de impedi-lo: as botas de Grunwald estavam cheias de furos.
Ele se sentou para recuperar o flego. Ao repassar aquela primeira fase da ofensiva em sua cabea, no conseguia pensar em como ela poderia ter dado mais certo.
Uma hora depois, a artilharia alem tornou a suspender o fogo. Walter reuniu seus homens e seguiu em frente.
Quando estava no meio da subida de uma longa encosta, ouviu vozes. Ergueu uma das mos para deter os homens mais prximos dele. Logo  frente, algum falou em ingls:
-		No consigo ver porra nenhuma.
Algo naquele sotaque lhe pareceu familiar. Seria australiano? Parecia mais indiano.
Com o mesmo sotaque, uma segunda voz disse:
-		Se eles no conseguem v-lo, tambm no podem atirar em voc!
Subitamente, Walter foi transportado de volta a 1914 e  grande casa de campo
de Fitz no Pas de Gales. Era assim que os criados de l falavam. Os homens  sua frente, naquele campo francs devastado, eram galeses.
L nas alturas, o cu pareceu clarear um pouco.
O sargento Billy Williams tentou enxergar por entre a nvoa. Felizmente, o bombardeio havia terminado, mas isso s significava que os alemes estavam chegando. O que ele deveria fazer?
No tinha recebido ordens. Seu peloto ocupava um reduto, um posto 

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defensivo localizado em uma encosta, um pouco recuado em relao  linha de frente. Em condies climticas normais, aquela posio oferecia uma vista ampla para um declive longo e gradual, estendendo-se at uma pilha de destroos, provavelmente as antigas instalaes de uma fazenda. Uma trincheira os conectava a outros redutos, quela altura invisveis. Normalmente, as ordens vinham da retaguarda, mas, naquele dia, nenhuma havia chegado. O telefone estava mudo; a linha provavelmente cortada pela barragem.
   Na trincheira, os homens estavam em p ou sentados. Tinham sado do abrigo aps o fim do bombardeio. De vez em quando, no meio da manh, a cozinha de campanha mandava para a trincheira um carrinho com um grande vaso de ch quente, mas desta vez no havia nem sinal da bebida. E eles j haviam comido suas raes de emergncia no caf da manh.
   O peloto estava armado com uma metralhadora leve Lewis, de modelo norte-americano. A arma estava montada sobre a parede dos fundos da trincheira, logo acima do abrigo. Era operada por George Barrow, de 19 anos - o rapaz do reformatrio -, um bom soldado, to ignorante que achava que o ltimo invasor da Inglaterra se chamava Normando, o Conquistador. George fumava um cachimbo sentado atrs da metralhadora, protegido das balas perdidas por sua culatra de ao.
   Os soldados tambm dispunham de um morteiro Stokes, armamento til que disparava um projtil de 7,5 centmetros de dimetro em um raio de at 730 metros. O cabo Johnny Ponti, que perdera o irmo Joey na batalha do Somme, tinha desenvolvido uma eficincia mortfera com esse tipo de arma.
   Billy subiu at a metralhadora e postou-se ao lado de George, mas no conseguiu ver um palmo  frente do nariz.
   -		Billy, os outros pases tm imprios como o nosso? - perguntou-lhe George.
   -		Tm - respondeu Billy. - Os franceses so donos da maior parte do norte da frica, e h tambm as ndias Orientais Holandesas, o sudoeste da frica que pertence aos alemes...
   -		Ah - falou George, um pouco decepcionado. - Eu j tinha ouvido falar nesses lugares, mas no achei que pudesse ser verdade.
   -		Por que no?
   -		Bem, que direito eles tm de governar outros povos?
   -		E que direito ns temos de governar a Nigria, a Jamaica e a ndia?
   -		Ns temos direito porque somos britnicos - Billy aquiesceu.
   George Barrow, que obviamente nunca tinha visto um atlas na vida, sentia-se superior a Descartes, Rembrandt e Beethoven. E muita gente pensava como ele. Todos haviam sido submetidos a anos de propaganda na escola, onde ouviam
   
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falar de todas as vitrias militares da Gr-Bretanha, mas de nenhuma derrota. Ensinavam-lhes sobre a democracia em Londres, e no sobre a tirania no Cairo. Nas aulas sobre o funcionamento do sistema judicirio britnico, ningum mencionava as punies por aoitamento na Austrlia, a fome na Irlanda ou os massacres na ndia. Eles aprendiam que catlicos queimavam protestantes na fogueira, e ficavam chocados quando porventura descobriam que os protestantes faziam o mesmo com os catlicos  menor oportunidade. Poucos haviam tido um pai como o Da de Billy para lhes dizer que o mundo pintado por seus professores na escola era uma fantasia.
   Mas, naquele dia, Billy no estava com tempo para colocar juzo na cabea de George. Tinha mais com que se preocupar.
   O cu clareou um pouco e Billy achou que talvez a nvoa estivesse se dissipando; ento, de repente, ela desapareceu por completo.
  -		Puta merda! - exclamou George. Uma frao de segundo depois, Billy viu o que o chocara. A menos de 500 metros de distncia, subindo a encosta na sua direo, havia vrias centenas de soldados alemes.
   Billy pulou para dentro da trincheira. Vrios homens tinham avistado o inimigo ao mesmo tempo, e suas exclamaes de surpresa alertaram os outros. Billy espiou por uma fresta na placa de ao montada no parapeito. Os alemes demoraram mais a reagir, provavelmente porque os britnicos estavam menos visveis em suas trincheiras. Um ou outro parou onde estava, porm a maioria continuou a correr.
   Um minuto depois, ouviram-se disparos de fuzil vindos de ambos os lados da trincheira. Alguns alemes caram. Os demais se jogaram no cho, buscando abrigo em crateras de bomba e atrs de alguns arbustos mirrados. Acima da cabea de Billy, a metralhadora Lewis abriu fogo com um barulho que parecia o alarido de uma torcida de futebol. No minuto seguinte, os alemes comearam a revidar os tiros. Billy observou, com alvio, que eles no pareciam dispor de metralhadoras nem de morteiros de trincheira. Ele ouviu um de seus homens soltar um grito: talvez um alemo de olhar aguado tivesse visto algum espiando com imprudncia por cima do parapeito da trincheira; ou ento, o que era mais provvel, um atirador de sorte tinha acertado uma desafortunada cabea britnica.
   Tommy Griffiths surgiu ao lado de Billy.
  -		Dai Powell foi atingido - falou ele.
  -		 grave?
  -		Ele est morto. Tiro na cabea.
  -		Ah, droga - disse Billy. A Sra. Powell fazia tric como ningum e costumava mandar suteres para o filho na Frana. Para quem ela iria tricotar agora?
   
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-		Peguei a coleo que ele guardava no bolso da farda - disse Tommy. Dai possua um mao de cartes-postais pornogrficos comprados de um francs. As imagens mostravam garotas rolias com tufos generosos de pelos pubianos. A maioria dos homens do batalho j havia pegado aqueles postais emprestados em algum momento.
-		Pra qu? - indagou Billy, distrado, enquanto vigiava o inimigo.
-		No quero que eles acabem parando em Aberowen.
-		Ah, sim.
-		O que fao com eles?
-		Porra, Tommy, ser que voc pode me perguntar depois? Tenho algumas centenas de alemes desgraados com que me preocupar agora.
-		Desculpe, Bill.
Quantos alemes haveria l fora? Era difcil estimar o nmero de homens em um campo de batalha, mas Billy pensou ter identificado pelo menos 200 inimigos, sendo que, provavelmente, havia mais deles fora do seu campo de viso. Imaginou que estivesse enfrentando um batalho. Seu peloto de 40 soldados estava em uma desvantagem numrica desesperadora.
O que ele deveria fazer?
H mais de 24 horas que no via nenhum oficial. Ele tinha a maior patente do grupo. Estava no comando. Precisava de um plano.
J havia superado a raiva que sentia da incompetncia de seus superiores. Era tudo parte do sistema de classes que ele fora criado para desprezar. Porm, nas raras ocasies em que ficava incumbido do comando, no conseguia tirar prazer nenhum disso. Pelo contrrio: sentia o peso da responsabilidade e temia tomar decises erradas que provocassem a morte de seus companheiros.
Se os alemes lanassem um ataque frontal, seu peloto seria dizimado. Contudo, o inimigo no sabia quanto ele estava vulnervel. Ser que Billy conseguiria dar a impresso de ter mais homens do que de fato possua?
Passou-lhe pela cabea bater em retirada. Mas soldados no deviam fugir no instante em que fossem atacados. Aquela era uma posio defensiva, e ele tinha a obrigao de tentar mant-la.
Iria ficar ali e lutar, ao menos por ora.
Assim que tomou essa deciso, viu-se tomando outras em seguida.
-		Dispare outra rajada neles, George! - gritou Billy. Quando a metralhadora Lewis abriu fogo, ele saiu correndo pela trincheira. - Mantenham fogo cerrado, rapazes - falou. - Vamos fazer com que eles pensem que estamos s centenas aqui.
Ele viu o corpo de Dai Powell cado no cho, com o sangue j escurecendo ao

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redor do rombo em sua cabea. Dai estava usando um dos suteres tricotados pela me debaixo do uniforme. Era horrvel, marrom, mas provavelmente o mantivera aquecido.
-		Descanse em paz, garoto - murmurou Billy.
Mais adiante na trincheira, encontrou Johnny Ponti.
-		Johnny, meu chapa, comece a lanar seus Stokes - falou. - Coloque esses desgraados para pular.
-		Certo - disse Johnny. Ele abriu o suporte de duas pernas do morteiro no cho da trincheira. - A que distncia? Uns 450 metros?
O parceiro de Johnny era um rapaz de rosto redondo chamado Hewitt Seboso. Este subiu no degrau de tiro para olhar e gritou de volta:
-		Isso, entre 450 e 550 metros. - Billy tambm deu uma espiada, porm Seboso e Johnny j haviam trabalhado juntos antes, de modo que deixou a deciso a cargo deles.
-		Dois anis, ento, a 45 graus - falou Johnny. Os morteiros auto-propulsionados podiam receber cargas propulsoras extras, em forma de anel, para aumentar seu alcance.
Johnny pulou no degrau de tiro para dar outra olhada nos alemes, ento ajustou a mira. Os outros soldados ao redor dele recuaram. Johnny largou um morteiro dentro do cano. Quando o projtil atingiu o fundo, um percussor acendeu o explosivo de propulso e ele foi disparado.
O morteiro aterrissou perto demais e explodiu a alguma distncia dos soldados inimigos mais prximos.
-		Uns 50 metros  frente e um pouco mais  direita - gritou Seboso.
Johnny reajustou a mira e disparou outra vez. O segundo morteiro foi parar
dentro de uma cratera de bomba onde alguns alemes estavam se escondendo.
-		 isso a! - gritou Seboso.
Billy no conseguiu ver se algum inimigo tinha sido atingido, mas os tiros os estavam obrigando a manter a cabea baixa.
-		Disparem mais uma dzia desses! - ordenou.
Chegou por trs de Robin Mortimer, o oficial destitudo, que estava sobre o degrau de tiro atirando em ritmo constante. Quando parou para recarregar o fuzil, Mortimer cruzou olhares com Billy.
-		V buscar mais munio, galesinho - disse ele. Como sempre, falou em tom rabugento, por mais que quisesse ajudar. - Voc no vai querer que todo mundo fique sem ao mesmo tempo.
Billy assentiu com a cabea.

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-		Boa ideia, obrigado. - O estoque de munio ficava pouco menos de 100 metros atrs, em uma trincheira de comunicao. Ele escolheu dois recrutas que mal sabiam atirar. - Jenkins, Narigudo, tragam mais munio, rpido. - Os dois rapazes saram correndo.
Billy deu mais uma espiada pela fresta do parapeito. Ao fazer isso, viu um dos alemes se levantar. Billy imaginou que aquele deveria ser o comandante, prestes a ordenar um ataque. Seu corao se encolheu no peito. Eles provavelmente tinham se dado conta de que estavam enfrentando no mximo algumas dzias de homens e percebido que seria fcil sobrepuj-los.
Mas Billy estava enganado. O oficial gesticulou em direo  retaguarda e ento saiu correndo encosta abaixo. Seus homens o seguiram. O peloto de Billy vibrou, disparando loucamente contra os homens em fuga, abatendo mais alguns antes de eles sarem do alcance de suas armas.
Os alemes chegaram s runas da fazenda e se esconderam em meio aos destroos.
Billy no pde deixar de sorrir. Havia acabado de repelir uma fora dez vezes mais numerosa que a sua! Eu deveria ser general, isso sim, pensou.
-		Cessar fogo! - gritou. - Eles esto fora de alcance.
Jenkins e Narigudo reapareceram com caixas de munio.
-		Continuem trazendo, rapazes - disse Billy. - Talvez eles voltem.
Porm, quando voltou a olhar, ele viu que os alemes tinham outro plano. Haviam se dividido em dois grupos e estavam se afastando das runas para ambos os lados. Enquanto Billy os observava, eles comearam a circundar sua posio, mantendo-se fora da linha de tiro.
-		Ah, cacete! - disse ele. Os alemes estavam se preparando para se infiltrar entre a sua posio e os redutos vizinhos, para ento atac-los pelos dois flancos. Ou talvez apenas passassem ao largo deles, deixando que as foras da retaguarda os eliminassem.
De toda forma, aquela posio iria cair nas mos do inimigo.
-		George, desa a metralhadora - disse Billy. - E voc, Johnny, desmonte o morteiro. Todos vocs, catem suas coisas. Ns vamos recuar.
Todos levaram aos ombros fuzis e mochilas, seguiram s pressas para a trincheira de comunicao mais prxima e comearam a correr.
Billy vasculhou o abrigo para ter certeza de que no havia ningum ali. Puxou o pino de uma granada e a jogou l dentro, para que o inimigo no ficasse com nenhum suprimento deixado para trs.
Ento bateu em retirada atrs de seus homens.

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IV
Ao cair da tarde, Walter e seu batalho j haviam tomado uma das linhas de retaguarda das trincheiras britnicas.
   Apesar de cansado, sentia-se triunfante. O batalho tinha enfrentado algumas escaramuas violentas, mas nenhuma batalha demorada. Graas  nvoa, a ttica das tropas de assalto havia funcionado melhor ainda do que o esperado. Eles haviam aniquilado uma oposio fraca, contornado focos de resistncia e ganhado bastante terreno.
   Walter encontrou um abrigo e entrou nele. Vrios de seus homens o acompanharam. O lugar tinha uma atmosfera caseira, como se os britnicos estivessem morando ali h alguns meses: havia fotografias de revistas pregadas nas paredes, uma mquina de escrever em cima de uma caixa virada, talheres e loua dentro de velhas formas de bolo e at mesmo um cobertor estendido como uma toalha de mesa sobre uma pilha de caixotes. Walter imaginou que aquele havia sido o quartel-general de algum batalho.
   Seus homens no tardaram a encontrar a comida. Havia bolachas, geleia, queijo e presunto. No pde evitar que eles comessem, mas os proibiu de abrir qualquer uma das garrafas de usque. Os soldados arrombaram um armrio trancado e encontraram um pote de caf. Um deles acendeu uma pequena fogueira do lado de fora e preparou um bule. Ofereceu a Walter uma xcara adoada com leite condensado em lata. Estava delicioso.
   - Eu li no jornal que os britnicos estavam com pouca comida, como ns - disse o sargento Schwab. Ele ergueu a lata de geleia que estava comendo com uma colher. - Pouca uma ova!
   Walter vinha se perguntando quanto tempo os homens levariam para entender isso. H muito ele suspeitava que as autoridades alems exageravam os efeitos da guerra submarina no abastecimento dos Aliados. Agora sabia a verdade - e os soldados tambm. A Gr-Bretanha estava em regime de racionamento, mas os britnicos no pareciam estar morrendo de fome. Os alemes, sim.
   Ele encontrou um mapa abandonado de forma displicente pelas foras que haviam batido em retirada. Ao compar-lo com o que tinha, percebeu no estar muito longe do canal Crozat. Isso significava que, em um dia, os alemes haviam recuperado todo o territrio conquistado a to duras penas pelos Aliados durante os cinco meses da batalha do Somme, dois anos antes.
   A vitria estava realmente ao alcance dos alemes.
   Walter sentou-se diante da mquina de escrever britnica e comeou a redigir seu relatrio.
   
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CAPTULO TRINTA
Final de maro e abril de 1918

Fitz organizou uma festa em Ty Gwyn no fim de semana da Pscoa. Possua
motivos ocultos para tanto. Os homens que convidou eram to violentamente contrrios ao novo regime da Rssia quanto ele.
   Seu convidado de honra era Winston Churchill.
   Winston era membro do Partido Liberal, portanto era de se esperar que
pudesse simpatizar com os revolucionrios. Porm tambm era neto de um
duque e tinha tendncia ao autoritarismo. Durante muito tempo, Fitz o considerara um traidor da sua classe, mas agora estava inclinado a perdo-lo, tamanha a
intensidade de seu dio pelos bolcheviques.
   Winston chegou na Sexta-Feira Santa. Fitz mandou o Rolls-Royce busc-lo na
estao de Aberowen. Ele entrou na sala de estar com seu passo saltitante - um
homem baixo, de aparncia frgil, cabelos ruivos e tez rosada. Tinha as botas
molhadas de chuva. Usava um terno bem cortado de tweed amarelo-claro e uma
gravata borboleta do mesmo azul de seus olhos. Tinha 43 anos, mas ainda havia
algo de juvenil em sua forma de menear a cabea para os conhecidos e apertar a
mo dos convidados a quem ainda no tinha sido apresentado.
   Depois de correr os olhos pelos lambris entalhados, pelo papel de parede
estampado, pela lareira de pedra esculpida e pelos mveis de carvalho escuro, ele
comentou:
  -		Fitz, a sua casa  decorada como o Palcio de Westminster!
   Ele tinha motivos para estar entusiasmado. Havia voltado ao governo. Lloyd
George o nomeara ministro das Munies. Muitos se perguntavam por que o
primeiro-ministro teria trazido de volta um colega to encrenqueiro e imprevisvel, e o consenso era que ele preferia ter Churchill no seu time, atirando para
fora.
  -		Seus mineradores apoiam os bolcheviques - falou Winston, com um misto
de jocosidade e repulsa, enquanto se sentava e esticava as botas molhadas na
direo da lareira acesa. - Metade das casas por que passei tinha bandeiras vermelhas hasteadas.
  -		Eles no tm a menor ideia do que esto comemorando - disse Fitz com desdm. Por trs da fachada de desprezo, estava muito aflito.
   
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Winston aceitou uma xcara de ch de Maud e pegou um muffin amanteigado de um prato que um lacaio oferecia.
-		Fiquei sabendo que voc sofreu uma perda pessoal.
-		Os camponeses mataram meu cunhado, o prncipe Andrei, e a mulher dele.
-		Sinto muito.
-		Bea e eu por acaso estvamos l na ocasio e escapamos por um triz.
-		Foi o que ouvi dizer!
-		Os camponeses ocuparam as terras dele, uma propriedade muito grande, que por direito  a herana do meu filho, e o novo regime endossou esse roubo.
-		Temo que sim. A primeira medida de Lnin foi aprovar o Decreto sobre a Terra.
-		Justia seja feita - disse Maud -, Lnin tambm anunciou uma jornada de trabalho de oito horas para os operrios e educao universal e gratuita para seus filhos.
Fitz ficou irritado com o comentrio. Maud no tinha o menor tato. Aquela no era a hora de defender Lnin.
Winston, no entanto, lhe respondeu  altura.
-		E tambm um Decreto sobre a Imprensa que probe os jornais de se oporem ao governo - disparou ele de volta. -  isso que eles chamam de liberdade socialista.
-		O direito hereditrio do meu filho no  o nico motivo da minha preocupao, nem sequer o principal - disse Fitz. - Se os bolcheviques conseguirem sair impunes depois do que fizeram na Rssia, onde vai ser a prxima revoluo? Os mineradores do Pas de Gales j acham que o carvo subterrneo na realidade no pertence ao dono das terras na superfcie. Em qualquer sbado  noite,  possvel ouvir "Bandeira Vermelha" sendo cantada em metade dos pubs galeses.
-		O regime bolchevique deveria ser estrangulado no bero - disse Winston. Ele assumiu um ar pensativo. - Estrangulado no bero - repetiu, satisfeito com a expresso.
Fitz controlou sua impacincia. s vezes, Winston imaginava ter elaborado um plano de ao poltica, quando tudo o que havia feito era cunhar uma frase de efeito.
-		Mas ns no estamos fazendo nada! - disse Fitz, exasperado.
O gongo soou para avisar aos presentes que era hora de trocar de roupa para o jantar. Fitz no insistiu no assunto: tinha o fim de semana inteiro para dizer o que pensava.
A caminho de seu quarto de vestir, ocorreu-lhe que, estranhamente, Boy no

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tinha sido levado para a sala de estar na hora do ch. Antes de ir se trocar, ele desceu um corredor comprido at a ala das crianas.
Boy j estava com trs anos e trs meses, e no era mais um beb, nem uma criana pequena, mas um menino que j andava e falava e que tinha os mesmos olhos azuis e os mesmos cachos louros de Bea. Seu filho estava sentado junto  lareira, enrolado em um cobertor, enquanto a bela e jovem bab Jones lia uma histria para ele. O herdeiro legtimo de milhares de hectares de terras agrcolas na Rssia estava chupando o dedo. Ele no se levantou e correu em direo a Fitz como teria feito normalmente.
-		O que houve com ele? - indagou este.
-		Ele est com dor de barriga, meu amo.
Fitz achava que a bab Jones lembrava um pouco Ethel Williams, embora fosse menos inteligente.
-		Tente ser mais precisa - disse Fitz com impacincia. - Qual o problema com a barriga dele?
-		Ele est com diarreia.
-		Como ele foi pegar uma porcaria dessas?
-		No sei. O toalete do trem no era muito limpo...
Isso tornava Fitz culpado, pois fora ele quem arrastara a famlia at o Pas de Gales para aquele fim de semana. Ele se conteve para no xingar.
-		Voc chamou um mdico?
-		O Dr. Mortimer est a caminho.
Fitz disse a si mesmo para no ficar to preocupado. As crianas viviam pegando infeces bobas. Quantas vezes ele prprio tivera dor de barriga quando pequeno? No entanto, as crianas s vezes morriam de gastroenterite.
Ele se ajoelhou em frente ao sof, ficando cara a cara com o filho.
-		Como vai meu soldadinho?
Boy respondeu com uma voz letrgica:
-		Estou com piriri.
Ele devia ter aprendido aquela expresso vulgar com a criadagem - de fato, havia um qu de sotaque gals na forma como ele a pronunciou. Porm, Fitz decidiu no dar importncia ao fato no momento.
-		O mdico j vai chegar - disse ao filho. - Ele vai acabar com o dodi.
-		Eu no quero tomar banho.
-		Quem sabe voc no pode ficar sem banho hoje? - Fitz se levantou. - Mande me chamar quando o mdico estiver aqui - falou ele para a bab. - Quero conversar eu mesmo com ele.

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-		Sim, meu amo.
Ele deixou a ala das crianas e foi at o quarto de vestir. Seu criado havia separado as roupas do jantar, com os fechos de diamante j presos ao peito da camisa e abotoaduras do mesmo estilo nos punhos, um leno de linho limpo no bolso do palet e uma meia de seda dentro de cada sapato de couro envernizado.
Antes de mudar de roupa, foi at o quarto de Bea.
Sua mulher estava grvida de oito meses.
Ele no a vira naquela fase quando ela estava esperando Boy. Tinha partido para a Frana em agosto de 1914, quando a princesa estava apenas no quarto ou quinto ms, e s voltara depois de Boy nascer. Nunca havia testemunhado aquela dilatao espetacular, tampouco podido admirar a espantosa capacidade do corpo humano de mudar e se distender.
Bea estava sentada  penteadeira, mas no se olhava no espelho. Em vez disso, estava recostada, com as pernas afastadas e as mos apoiadas na barriga. Tinha os olhos fechados e o rosto plido.
-		No consigo encontrar uma posio confortvel - reclamou. - Em p, sentada, deitada: sinto dor de qualquer jeito.
-		 melhor voc ir at a ala das crianas dar uma olhada em Boy.
-		Eu vou, assim que conseguir reunir foras! - falou ela com rispidez. - Nunca deveria ter vindo para o campo.  ridculo eu receber convidados neste estado.
Fitz sabia que ela estava certa.
-		Mas ns precisamos do apoio desses homens se quisermos fazer alguma coisa a respeito dos bolcheviques.
-		Boy ainda est mal da barriga?
-		Sim. O mdico est a caminho.
-		Quando ele chegar, mande-o vir me examinar. Embora eu duvide que um mdico da roa v saber grande coisa.
-		Vou avisar aos criados. Imagino que voc no v descer para jantar?
-		Como eu poderia descer, me sentindo deste jeito?
-		Foi s uma pergunta. Maud pode se sentar  cabeceira.
Fitz voltou para o seu quarto de vestir. Alguns homens haviam deixado de lado os fraques com gravata branca e passado a usar palets de smoking e gravatas pretas no jantar, dando a guerra como desculpa. Fitz no entendia o que uma coisa tinha a ver com a outra. Por que a guerra deveria obrigar as pessoas a se vestirem informalmente?
Ele colocou seu traje de gala e desceu a escada.

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Depois do jantar, enquanto o caf era servido na sala de estar, Winston comentou, em tom de provocao:
-		Ento, lady Maud, vocs mulheres conseguiram finalmente o direito de voto.
-		Algumas de ns, sim - respondeu ela.
Fitz sabia que ela estava decepcionada com o fato de a nova lei beneficiar apenas mulheres com mais de 30 anos que fossem proprietrias ou inquilinas de um imvel, ou ento casadas com um homem nessas condies. Ele, por sua vez, estava irritado que a lei tivesse sido sequer aprovada.
Churchill continuou a provoc-la:
-		A senhorita deveria agradecer ao nosso lorde Curzon aqui, que surpreendeu a todos ao se abster de votar quando o projeto tramitou pela Cmara dos Lordes.
O conde Curzon era um homem de rara inteligncia, cujo ar rgido de superioridade era exacerbado por um colete de metal que usava por conta de um problema nas costas. Havia uma rima a seu respeito:
Sou George Nathaniel Curzon, homem de renome
E no h ningum que por mim no se impressione
Curzon tinha sido vice-rei da ndia e agora era lder da Cmara dos Lordes, alm de um dos cinco membros do Gabinete de Guerra. Era tambm presidente da Liga de Oposio ao Voto Feminino, de modo que a sua absteno tinha causado espanto no mundo poltico e representado uma grande decepo para os adversrios da causa, entre os quais Fitz.
-		A lei j havia sido aprovada pela Cmara dos Comuns - disse Curzon. - Eu senti que no poderamos ir contra os parlamentares eleitos.
Isso era algo que ainda aborrecia Fitz.
-		Mas os Lordes existem justamente para analisar detidamente as decises dos Comuns e conter seus excessos. Esse, sem dvida, era um caso exemplar disso!
-		Se ns tivssemos barrado a lei, acredito que os Comuns teriam se sentido afrontados e nos obrigariam a vot-la de novo.
Fitz deu de ombros.
-		No seria a primeira vez que teramos esse tipo de disputa.
-		Mas, infelizmente, o Comit Bryce est reunido.
-		Ah! - Fitz no havia pensado nisso. O Comit Bryce cogitava reformar a Cmara dos Lordes. - Ento foi por isso?
-		Eles apresentaro seu relatrio em breve. At l, no podemos nos dar ao luxo de uma disputa aberta com os Comuns.

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-		No. - Com grande relutncia, Fitz foi obrigado a concordar. Se os Lordes tentassem desafiar de forma contundente os Comuns, Bryce poderia recomendar que os poderes da cmara alta do Parlamento fossem restringidos. - Ns poderamos ter perdido toda a nossa influncia. E de modo permanente.
-		Foi justamente o raciocnio que me levou a me abster.
A poltica s vezes deprimia Fitz.
O mordomo Peei serviu uma xcara de caf a Curzon e murmurou para Fitz:
-		O Dr. Mortimer est no escritrio pequeno aguardando o senhor, meu amo.
Fitz estava preocupado com a dor de barriga de Boy e ficou satisfeito com a
interrupo.
-		 melhor eu ir falar com ele - disse. Pediu licena e saiu da sala.
Aquele escritrio era mobiliado com peas que no se encaixariam em nenhum outro cmodo da casa: uma desconfortvel cadeira esculpida em estilo gtico, uma paisagem da Esccia de que ningum gostava e a cabea de um tigre que o pai de Fitz havia caado na ndia.
Mortimer era um mdico competente da regio que ostentava um ar de confiana um tanto excessivo, como se pensasse que sua profisso o colocava de certa forma no mesmo nvel de um conde. Ainda assim, era educado o suficiente.
-		Boa noite, milorde - falou. - Seu filho est com uma infeco gstrica branda, que provavelmente no ter nenhuma consequncia.
-		Provavelmente?
-		Estou usando a palavra de propsito. - Mortimer falava com um sotaque gals que havia sido atenuado pela educao formal. - Ns cientistas sempre trabalhamos com probabilidades, nunca com certezas. Costumo dizer aos seus mineradores que eles descem para a mina todas as manhs sabendo que provavelmente no haver nenhuma exploso.
-		Hum... - O diagnstico no chegava a tranquilizar Fitz. - O senhor esteve com a princesa?
-		Sim, estive. O mal de que ela sofre tampouco  grave. Na verdade, ela no sofre de mal nenhum: est apenas dando  luz.
Fitz pulou da cadeira.
-		O qu?
-		Ela achou que estivesse no oitavo ms de gravidez, mas errou nos clculos. Na verdade, est grvida de nove meses e, com sorte, daqui a poucas horas no estar mais.
-		Quem est com ela?

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-		Ela est rodeada por suas criadas. Mandei chamar uma parteira competente e eu prprio posso auxiliar no parto, se o senhor desejar.
-		 tudo culpa minha - disse Fitz, amargurado. - Eu no deveria ter insistido para que ela sasse de Londres.
-		Bebs perfeitamente saudveis nascem fora de Londres todos os dias.
Fitz teve a sensao de que o mdico estava zombando dele, mas decidiu ignorar aquilo.
-		E se algo sair errado?
-		Conheo a reputao do seu mdico londrino, o professor Rathbone. Ele  um profissional de grande renome, sem dvida, mas creio poder afirmar com segurana que eu j trouxe mais bebs ao mundo do que ele.
-		Bebs de mineradores.
-		De fato, a grande maioria, mas na hora do nascimento no parece haver diferena alguma entre eles e os pequenos aristocratas.
Mortimer estava mesmo zombando de Fitz.
-		No estou gostando do seu atrevimento - reagiu ele.
O mdico no se deixou intimidar.
-		Nem eu do seu - retrucou. - O senhor j deixou bem claro, sem um pingo de cortesia, que me considera inadequado para cuidar da sua famlia. Ficarei feliz em ir embora. - Ele recolheu sua maleta.
Fitz deu um suspiro. Aquela era uma briga tola. Ele estava com raiva dos bolcheviques, no daquele gals de classe mdia cheio de no me toques.
-		Ora, homem, no seja bobo.
-		 o que estou tentando fazer. - Mortimer comeou a sair do escritrio.
-		O senhor no deveria pr os interesses dos pacientes em primeiro lugar?
O mdico se deteve junto  porta.
-		Meu Deus, Fitzherbert, a sua empfia  inacreditvel.
Poucas pessoas j haviam falado assim com Fitz. No entanto, ele engoliu a rplica mordaz que lhe veio  mente. Poderia levar horas para encontrar outro mdico. Bea jamais o perdoaria se ele deixasse Mortimer ir embora com os brios feridos.
-		Vou esquecer que o senhor disse isso - falou Fitz. - Na verdade, se o senhor preferir, vou esquecer todo esse nosso dilogo.
-		Imagino que isso seja o mais prximo de um pedido de desculpas que conseguirei do senhor.
Era verdade, mas Fitz ficou calado.
-		Vou tornar a subir - disse o mdico.

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III
A princesa Bea no deu  luz discretamente. Seus gritos puderam ser ouvidos em toda a ala principal da casa, onde ficava o seu quarto. Maud assumiu o piano e ps-se a tocar ragtime bem alto para entreter os convidados e abafar o barulho - mas todas as msicas daquele ritmo eram parecidas entre si e, em 20 minutos, ela desistiu. Alguns dos convidados se recolheram, porm,  meia-noite, a maioria dos homens foi se reunir na sala de bilhar. Peei serviu conhaque.
   Fitz presenteou Winston com um charuto cubano El Rey dei Mundo. Enquanto seu convidado o acendia, ele falou:
  -		O governo precisa fazer alguma coisa em relao aos bolcheviques.
   Winston deu uma olhada rpida pela sala, como se quisesse confirmar que
todos os presentes eram de total confiana. Ento se recostou na cadeira e disse:
  -		A situao  a seguinte: a Esquadra Setentrional Britnica j est em guas russas, na costa de Murmansk. Em teoria, a tarefa dela  garantir que os navios russos na regio no caiam nas mos dos alemes. Ns tambm temos uma pequena misso em Arkhangelsk. Estou fazendo presso para que soldados desembarquem em Murmansk. A longo prazo, eles poderiam formar o ncleo de uma fora contrarrevolucionria no norte da Rssia.
  -		No  suficiente - disse Fitz na mesma hora.
  -		Concordo. Por mim, ns mandaramos tropas para Baku, no mar Cspio, para garantir que os imensos poos de petrleo de l no sejam tomados pelos alemes, ou at mesmo pelos turcos, e para o mar Negro, onde j existe um embrio de resistncia antibolchevique na Ucrnia. Por fim, na Sibria, temos milhares de toneladas de mantimentos em Vladivostok, cujo valor talvez chegue a um bilho de libras. Esses suprimentos destinavam-se a abastecer a Rssia quando o pas era nosso aliado. Temos o direito de enviar tropas at l para proteger nossos bens.
   Oscilando entre o ceticismo e a esperana, Fitz perguntou:
  -		Lloyd George vai fazer alguma dessas coisas?
  -		Publicamente, no - respondeu Winston. - O problema so essas bandeiras vermelhas hasteadas nas casas dos mineradores. Existe em nosso pas uma grande onda de solidariedade ao povo russo e  sua revoluo. E, por mais que eu deteste Lnin e seus asseclas, entendo por qu. Com todo o respeito  famlia da princesa Bea... - ele ergueu os olhos para o teto enquanto outro grito comeava a vir do andar de cima - ... no se pode negar que a classe dominante da Rssia demorou a reagir ao descontentamento de seu povo.
   Winston era uma mistura curiosa, pensou Fitz: aristocrata e homem do povo;
   
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administrador brilhante porm incapaz de resistir ao impulso de se intrometer no trabalho alheio; um sedutor que, no entanto, desagradava  maioria de seus colegas polticos.
-		Os revolucionrios russos so ladres e assassinos - disse Fitz.
-		Sem dvida. Mas precisamos aceitar o fato de que nem todo mundo os v dessa forma. Portanto, nosso primeiro-ministro no pode se opor abertamente  revoluo.
-		Opor-se  revoluo apenas em pensamento no adianta muito - disse Fitz, sem pacincia.
-		At certo ponto,  possvel agir sem que ele fique oficialmente sabendo.
-		Entendo. - Fitz no tinha certeza se isso significava grande coisa.
Maud entrou na sala. Os homens se levantaram, um pouco surpresos. Em uma casa de campo, as mulheres no costumavam por os ps na sala de bilhar. Maud ignorava as regras que no lhe convinham. Ela se aproximou de Fitz e lhe deu um beijo na face.
-		Parabns, meu caro Fitz - falou. - Voc ganhou outro filho homem.
Os homens comemoraram e aplaudiram, cercando Fitz para lhe dar tapinhas nas costas e apertar sua mo.
-		Como est minha mulher? - perguntou ele a Maud.
-		Exausta, mas orgulhosa.
-		Graas a Deus.
-		O Dr. Mortimer j foi, mas a parteira disse que voc pode ir ver o beb.
Fitz encaminhou-se at a porta.
-		Eu o acompanho at l em cima - disse Winston.
Enquanto eles saam da sala, Fitz ouviu Maud dizer:
-		Por favor, Peei, sirva-me um conhaque.
Em voz baixa, Winston se dirigiu ao conde:
-		Voc j foi  Rssia, naturalmente, e sabe falar a lngua.
Fitz se perguntou aonde o outro queria chegar.
-		Um pouco - respondeu. - Nada do que me gabar, mas consigo me fazer entender.
-		Voc j topou com um sujeito chamado Mansfield Smith-Cumming?
-		Para falar a verdade, j. Ele dirige... - Fitz hesitou em mencionar o Escritrio do Servio Secreto em voz alta. - Ele dirige um departamento especial. J escrevi um ou outro relatrio para ele.
-		Ah, timo. Quando estiver de volta  cidade, talvez voc queira ir dar uma palavrinha com ele.

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   Isso, sim, era interessante.
  -		Quando ele quiser,  claro - disse Fitz, tentando no se mostrar ansioso.
  -		Vou pedir a ele para entrar em contato. Talvez ele tenha outra misso para voc.
   Os dois haviam chegado  porta dos aposentos de Bea. L de dentro, vinha o choro inconfundvel de um recm-nascido. Fitz sentiu-se envergonhado ao perceber seus olhos se encherem de lgrimas.
  -		 melhor eu entrar - falou. - Boa noite.
  -		Parabns, e boa noite para voc tambm.
O menino foi batizado de Andrew Alexander Murray Fitzherbert. Era um tiquinho de gente, com um chumao de cabelos negros como os de Fitz. Eles o levaram at Londres de Rolls-Royce, enrolado em vrias mantas. Mais dois carros os seguiam, para o caso de o primeiro enguiar. Pararam para tomar caf da manh em Chepstow, almoaram em Oxford e chegaram  casa de Mayfair a tempo para o jantar.
   Alguns dias depois, em uma tarde amena de abril, Fitz estava andando pela margem do Tmisa, olhando para as guas turvas do rio, a caminho de um encontro com Mansfield Smith-Cumming.
   O Servio Secreto havia ficado grande demais para o antigo endereo na regio de Victoria. O homem conhecido como "C" havia transferido sua organizao em franca expanso para um luxuoso prdio vitoriano chamado Whitehall Court,  beira do rio, com vista para o Big Ben. Um elevador privativo levou Fitz at o ltimo andar, onde o chefe da agncia de espionagem ocupava dois apartamentos interligados por um passadio no telhado.
  -		Faz muitos anos que estamos de olho em Lnin - disse C. - Se no conseguirmos dep-lo, ele vai ser um dos piores tiranos que o mundo j conheceu.
  -		Concordo com o senhor. - Fitz estava aliviado por C pensar o mesmo que ele sobre os bolcheviques. - Mas o que podemos fazer?
  -		Vamos falar sobre o que o senhor poderia fazer. - C tirou da escrivaninha um compasso de ao, do tipo usado para medir distncias em mapas. Como quem no quisesse nada, enfiou a ponta do instrumento na perna esquerda.
   Fitz conseguiu reprimir o grito de susto que lhe subiu  garganta. Aquilo era um teste,  claro. Ele recordou que C usava uma perna artificial de madeira por conta de um acidente de carro. Deu um sorriso.
   
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-		Belo truque - falou. - Quase ca nele.
C largou o compasso e o encarou firme atravs do monculo.
-		Um lder cossaco na Sibria derrubou o regime bolchevique local - disse ele. - Preciso saber se vale a pena apoi-lo.
Fitz ficou espantado.
-		s claras?
-		 claro que no. Mas eu tenho recursos secretos. Se conseguirmos manter um ncleo contrarrevolucionrio no leste da Rssia, isso pode compensar um gasto de, digamos, 10 mil libras por ms.
-		Qual  o nome dele?
-		Capito Semenov, 28 anos. Ele est em Manchuli, que fica bem ao lado da Ferrovia Oriental Chinesa, perto da interseo com o Expresso Transiberiano.
-		Ento esse capito Semenov controla uma via frrea e poderia controlar outra.
-		Exato. E ele odeia os bolcheviques.
-		De modo que precisamos saber mais sobre ele.
-		 a que o senhor entra.
Fitz ficou encantado com a chance de ajudar a derrubar Lnin. Ocorreram-lhe vrias perguntas: como encontraria Semenov? Estavam falando de um cossaco, e estes eram conhecidos por atirar primeiro e fazer perguntas depois. Ser que Semenov iria falar com Fitz ou mat-lo?  claro que o capito afirmaria ser capaz de derrotar os bolcheviques, mas Fitz conseguiria avaliar se isso era verdade? Haveria algum jeito de garantir que ele no desperdiasse o dinheiro britnico?
No entanto, a pergunta que fez foi:
-		Eu sou o homem certo para essa misso? No me entenda mal, mas sou uma personalidade conhecida, e mesmo na Rssia estou longe de ser um annimo...
-		Para ser franco, no temos muitas alternativas. Precisamos de algum dos escales mais elevados, para o caso de haver negociao com Semenov. E no existem muitos homens de total confiana que falem russo. Acredite em mim, o senhor  a melhor opo disponvel.
-		Entendo.
-		Vai ser perigoso,  claro.
Fitz se lembrou da multido de camponeses espancando Andrei at a morte. Poderia ter sido ele em seu lugar. Conteve um arrepio de medo.
-		Compreendo o perigo - disse com voz firme.
-		Ento me diga: o senhor aceita ir at Vladivostok?
-		 claro que sim - respondeu Fitz.

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CAPTULO TRINTA E UM
De maio a setembro de 1918

Gus Dewar no se adaptou com facilidade  vida militar. Era um homem
alto, desengonado, e achava difcil marchar, prestar continncia e bater
com os ps no cho  moda do Exrcito. Quanto aos exerccios fsicos, no
praticava nenhum desde os tempos da escola. Seus amigos, que conheciam sua
predileo por flores sobre a mesa do jantar e lenis de linho na cama, haviam
pensado que o Exrcito seria um choque terrvel para ele. Chuck Dixon, que foi
seu companheiro de treinamento de oficiais, comentou:
  -		Gus, em casa voc no prepara nem o seu prprio banho.
   Mas Gus sobreviveu. Aos 11 anos, tinha sido mandado para um internato, de
modo que no era novidade para ele ser importunado por valentes e receber
ordens de superiores estpidos. Foi alvo de alguma zombaria por causa de suas
origens abastadas e de seus modos impecveis, porm suportou tudo com
pacincia.
   Nos exerccios mais vigorosos, comentou Chuck com surpresa, a silhueta
comprida de Gus revelou uma espcie de graa antes exibida apenas nas quadras
de tnis.
  -		Voc parece uma girafa - disse Chuck -, mas tambm corre como se fosse
uma. - Graas a sua grande envergadura, Gus tambm se saiu bem no boxe,
embora o sargento que o treinava tivesse lhe dito, com pesar, que lhe faltava o
instinto assassino necessrio.
   Infelizmente, no entanto, ele se mostrou um pssimo atirador.
   Gus queria se sair bem no Exrcito, em parte por saber que todos achavam que
ele no iria conseguir. Precisava provar a eles, e talvez a si mesmo, que no era
um molenga. Contudo, esse no era o nico motivo. Ele acreditava naquilo por
que estava lutando.
   O presidente Wilson pronunciara um discurso diante da Cmara dos Representantes e do Senado que havia ecoado mundo afora como um clarim. Ele havia
clamado por nada menos que uma nova ordem mundial.
   "E preciso formar uma associao geral de naes com regras especficas, no
intuito de proporcionar garantias mtuas de independncia poltica e integridade territorial a todos os pases, sejam eles grandes ou pequenos."
   
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   Uma liga das naes era o sonho de Wilson, Gus e muitos outros - inclusive, de forma um tanto surpreendente, de Sir Edward Grey, que tivera a ideia quando ministro das Relaes Exteriores da Gr-Bretanha.
   Wilson havia estabelecido um programa com 14 proposies. Abordara a reduo dos arsenais militares; o direito dos povos das colnias a participarem das decises sobre o prprio futuro; e a liberdade dos pases dos Blcs, da Polnia e dos povos subordinados ao Imprio Otomano. O discurso ficara conhecido como os 14 Pontos de Wilson. Gus invejava os homens que haviam ajudado o presidente a escrev-lo. Antigamente, ele prprio teria participado do processo.
   "Um princpio evidente permeia todo o programa", dissera Wilson. "Trata-se do princpio de justia para todos os povos e nacionalidades, e de seu direito de conviver uns com os outros segundo os mesmos termos de liberdade e segurana, sejam eles fortes ou fracos." Os olhos de Gus tinham se enchido de lgrimas ao ler essas palavras. "Esse  o nico princpio que deve reger a conduta do povo dos Estados Unidos da Amrica", afirmara o presidente.
   Poderiam mesmo as naes solucionar suas desavenas sem guerra? Paradoxalmente, isso era algo por que valia a pena lutar.
   Gus, Chuck e seu batalho de metralhadoras zarparam de Hoboken, Nova Jersey, a bordo do Corinna, antigo cruzeiro de luxo convertido em navio de transporte militar. A viagem levou duas semanas. Como segundos-tenentes, eles dividiam uma cabine no convs superior. Embora no passado tivessem competido pelo amor de Olga Vyalov, haviam se tornado amigos.
   O navio fazia parte de um comboio escoltado pela Marinha, e a travessia transcorreu sem percalos, a no ser pelo fato de vrios homens terem morrido de gripe espanhola, uma nova doena que vinha assolando o mundo. A comida era ruim: os homens brincavam, dizendo que os alemes haviam desistido da guerra submarina e agora estavam tentando alcanar a vitria envenenando-os.
   O Corinna aguardou um dia e meio na costa de Brest, no extremo noroeste da Frana. Os soldados ento desembarcaram em um cais abarrotado de homens, veculos e provises, dominado por gritos de ordens e pelo ronco de motores. Oficiais impacientes e estivadores suados zanzavam de um lado para outro. Gus cometeu o erro de perguntar a um sargento no cais qual era o motivo do atraso.
   - Atraso, senhor? - indagou o sargento, conseguindo fazer a palavra "senhor" soar como um insulto. - Ontem mesmo ns desembarcamos cinco mil homens, junto com seus carros, armas, barracas e cozinhas de campanha, e os transferimos para seus respectivos trens e transportes rodovirios. Hoje vamos 
   
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desembarcar outros cinco mil, e amanh a mesma quantidade. No h atraso nenhum, senhor. Estamos indo rpido pra caralho.
   Chuck sorriu para Gus e murmurou:
   - Agora voc j sabe.
   Os estivadores eram soldados negros. Sempre que soldados negros e brancos precisavam dividir o mesmo teto, havia problemas, em geral causados por recrutas brancos do interior do sul dos Estados Unidos; ento o Exrcito tinha desistido de tentar. Em vez de misturar as raas no front, destacara os regimentos formados por negros para executar trabalhos braais na retaguarda. Gus sabia que os soldados de cor reclamavam muito disso: eles queriam lutar pelo seu pas como todos os outros.
   A maior parte do regimento saiu de Brest de trem. No foram acomodados em vages de passageiros, e sim amontoados em carros que geralmente transportavam animais. Gus fez os homens rirem ao traduzir a placa na lateral de um dos vages: "40 homens ou 8 cavalos". O batalho de metralhadoras, no entanto, tinha seus prprios veculos, de modo que Gus e Chuck seguiram de carro at seu acampamento ao sul de Paris.
   Nos Estados Unidos, o treinamento para a guerra de trincheiras havia sido realizado com fuzis de madeira, mas agora eles portavam armas e munio de verdade. Como eram oficiais, Gus e Chuck tinham recebido uma pistola semiautomtica Colt M1911 cada, carregadas com pentes de sete tiros. Antes de sair de seu pas tinham se livrado de seus chapus de pele e vestido os prticos casquetes, com suas tpicas dobras na frente e atrs. Tinham tambm capacetes de ao no mesmo formato arredondado daqueles usados pelos britnicos.
   Ali, instrutores franceses com fardas azuis lhes ensinavam a lutar em conjunto com a artilharia pesada, habilidade que o Exrcito norte-americano at ento no havia precisado desenvolver. Como falava francs, Gus foi inevitavelmente destacado para servir de intermedirio entre os dois Exrcitos. As relaes entre franceses e norte-americanos eram boas, embora os franceses reclamassem que o preo do conhaque havia subido assim que os soldados americanos tinham pisado em seu pas.
   O sucesso da ofensiva alem havia continuado ao longo do ms de abril. Ludendorff avanara to depressa em Flandres que, segundo o general Haig, os britnicos estavam acuados contra a parede - expresso que repercutiu pelas tropas norte-americanas como uma onda de choque.
   Gus no estava com pressa nenhuma de combater, porm Chuck comeou a ficar impaciente no campo de treinamento. Por que eles estavam ali, perguntava
   
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ele, encenando batalhas de mentira, quando deveriam estar lutando de verdade? A seo mais prxima do front alemo era na cidade de Reims, a terra do champanhe, que ficava a nordeste de Paris; mas o superior de Gus, coronel Wagner, disse-lhe que os servios de inteligncia dos Aliados tinham certeza de que no haveria nenhuma ofensiva alem naquele setor.
   A inteligncia aliada, no entanto, se enganou redondamente quanto a essa previso.
Walter estava exultante. As baixas eram numerosas, porm a estratgia de Ludendorff estava dando certo. Os alemes vinham atacando os pontos fracos do inimigo, movendo-se depressa e deixando focos de resistncia para trs para serem eliminados depois. Apesar de algumas manobras defensivas inteligentes por parte do general Foch, novo comandante supremo das foras aliadas, os alemes ganhavam terreno mais depressa do que nunca desde 1914.
   O maior problema era o fato de o avano ser retardado sempre que os soldados alemes se deparavam com estoques de comida. Eles simplesmente paravam para comer, e Walter constatou que era impossvel faz-los prosseguir antes de estarem satisfeitos. Era estranhssimo ver os soldados sentados no cho, chupando ovos crus, entupindo-se de bolo e presunto ao mesmo tempo, ou bebendo garrafas de vinho pelo gargalo enquanto bombas caiam  sua volta e balas zuniam por cima de suas cabeas. Ele sabia que outros oficiais vinham tendo o mesmo problema. Alguns tentavam ameaar os homens com pistolas, mas nem mesmo isso os convencia a abandonar a comida e seguir em frente.
   Tirando isso, a ofensiva de primavera era um triunfo. Depois de quatro anos de guerra, Walter e seus homens estavam exaustos, porm o mesmo valia para os soldados franceses e britnicos com os quais se deparavam.
   Depois das batalhas do Somme e de Flandres, o terceiro ataque de Ludendorff em 1918 estava programado para ocorrer no setor entre Reims e Soissons. Ali, os Aliados ocupavam uma serra conhecida como Chemin des Dames, o Caminho das Damas - assim batizada porque a estrada que a cruzava havia sido construda para as filhas de Lus XV poderem visitar uma amiga.
   A ltima etapa da mobilizao alem ocorreu em 26 de maio, um domingo ensolarado e fresco por conta de uma brisa que vinha do nordeste. Mais uma vez, Walter sentiu orgulho ao ver as colunas de soldados alemes marchando rumo  linha de frente, os milhares de armas sendo levados at suas posies sob o fogo
   
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cerrado da artilharia francesa e as linhas telefnicas sendo instaladas entre os abrigos dos comandantes e as posies das baterias.
   A ttica de Ludendorff continuava a mesma. s duas da madrugada daquela noite, milhares de peas de artilharia abririam fogo, disparando gs, bombas de metralha e explosivos em direo s linhas francesas, no ponto mais alto da serra. Walter notou com satisfao que a intensidade dos disparos franceses diminuiu na mesma hora, prova de que as armas alems estavam acertando o alvo. A barragem foi de curta durao, conforme rezava a nova filosofia de combate, e s 5h40 a artilharia cessou fogo.
   Ento as tropas de assalto avanaram.
   Os alemes estavam atacando encosta acima, mas, apesar disso, encontraram pouca resistncia, e - para surpresa e deleite de Walter - conseguiram chegar  estrada no alto da serra em menos de uma hora. J era dia claro, de modo que ele pde ver os franceses em retirada descendo por toda a encosta oposta.
   As tropas de assalto avanavam a uma velocidade regular, mantendo o mesmo ritmo da barragem de artilharia, mas ainda assim chegaram antes do meio-dia ao rio Aisne, no fundo do vale. Alguns agricultores tinham destrudo suas segadeiras mecnicas e queimado as colheitas precoces em seus celeiros, porm, como a maioria tinha ido embora s pressas, havia recompensas valiosas para as equipes responsveis pelo confisco, que vinham logo atrs dos soldados alemes. Para espanto de Walter, os franceses nem sequer haviam explodido as pontes sobre o Aisne enquanto recuavam. Isso sugeria que estavam em pnico.
   Os 500 homens de Walter seguiram at a prxima serra durante a tarde, acampando na margem oposta do rio Vesle. Tinham avanado praticamente 20 quilmetros em apenas um dia.
   No dia seguinte, fizeram uma pausa para aguardar reforos, mas, no terceiro, tornaram a avanar. No quarto, quinta-feira, 30 de maio, depois de ganharem incrveis 48 quilmetros desde a segunda-feira, chegaram  margem norte do rio Marne.
   Aquele era o local, recordou Walter com apreenso, em que o avano alemo tinha sido interrompido em 1914.
   Ele jurou que isso no aconteceria novamente.
No dia 30 de maio, quando a Terceira Diviso recebeu ordens para ajudar na defesa do rio Marne, Gus estava com a Fora Expedicionria Norte-Americana

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no campo de treinamento de Chteauvillain, ao sul de Paris. A maior parte da diviso comeou a ser embarcada nos trens, embora a castigada malha ferroviria francesa provavelmente fosse levar dias para transport-la. Gus, Chuck e as metralhadoras, no entanto, partiram na mesma hora pela estrada.
   Gus estava animado e temeroso. Aquilo no era como uma luta de boxe, em que havia um juiz para fazer valer as regras e interromper o combate caso ele ficasse perigoso. Como ele reagiria quando algum de fato disparasse uma arma na sua direo? Ser que viraria as costas e sairia correndo? O que o impediria de fazer isso? Ele geralmente tomava a deciso mais lgica..
   Os carros eram to pouco confiveis quanto os trens, e vrios deles enguiaram ou ficaram sem gasolina. Alm disso, eles foram atrasados pelos civis que vinham na direo oposta, fugindo da batalha, alguns conduzindo rebanhos de vacas, outros empurrando seus pertences em carroas e carrinhos de mo.
   Dezessete metralhadoras chegaram  pequena e arborizada cidade de Chteau-Thierry, 80 quilmetros a leste de Paris, s 18 horas da sexta-feira. Era uma bela cidadezinha iluminada pelo sol de fim de tarde. Ela era cortada pelo Marne, com duas pontes ligando a periferia sul ao centro da cidade, mais ao norte. Os franceses ocupavam ambas as margens, porm a vanguarda das foras alems j havia alcanado o limite norte da cidade.
   O batalho de Gus recebeu ordens para montar seus armamentos ao longo da margem sul, em uma posio elevada, para que pudessem controlar as pontes. Cada equipe estava munida com uma metralhadora pesada Hotchkiss M1914 montada em um trip slido e alimentada por cintures de cartuchos metlicos articulados, com capacidade para 250 tiros. Elas tambm tinham fuzis lana-granadas, que disparavam projteis a um ngulo de 45 graus, apoiados em suportes de dois ps, e alguns morteiros de trincheira na mesma linha dos Stokes britnicos.
   Enquanto o sol se punha, Gus e Chuck supervisionavam o posicionamento de seus pelotes entre as duas pontes. Nenhum treinamento os havia preparado para tomar aquele tipo de deciso: contavam apenas com o bom senso. Gus escolheu um prdio de trs andares cujo trreo era ocupado por um caf fechado. Arrombou a porta dos fundos para entrar e subiu a escada. Uma das janelas do sto dava vista para o outro lado do rio e para uma rua na outra margem que seguia na direo norte. Ele ordenou que uma das equipes de metralhadora pesada se posicionasse ali. Esperava que o sargento fosse lhe dizer que era uma ideia imbecil, porm o homem aquiesceu e ps mos  obra.
   Gus posicionou mais trs metralhadoras em pontos semelhantes.
   
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   Enquanto procurava abrigos adequados para morteiros, deparou-se com uma garagem de barcos feita de tijolos na margem do rio, mas no sabia ao certo se ela ficava no seu setor ou no de Chuck, de modo que saiu  procura do amigo para confirmar. Encontrou-o  beira do rio, uns 100 metros mais  frente, perto da ponte ao leste, observando o outro lado com um binculo. Andou dois passos nessa direo e ento escutou um baque terrvel.
   Ele se virou na direo do barulho e, no segundo seguinte, vrios outros estrondos ensurdecedores ressoaram. Ele se deu conta de que a artilharia alem havia aberto fogo quando um projtil explodiu dentro do rio, jogando gua pelos ares.
   Tornou a olhar para o lugar em que Chuck estava, bem a tempo de ver o amigo desaparecer em meio a uma exploso de terra.
   -		Meu Deus do cu! - exclamou, disparando naquela direo.
   Bombas e morteiros explodiam ao longo de toda a margem sul. Os homens se jogavam no cho. Gus chegou ao local em que tinha visto Chuck pela ltima vez e olhou em volta, desnorteado. Tudo o que restara eram pilhas de terra e pedra. Ento notou um brao despontando dos escombros. Moveu uma pedra e descobriu, para seu horror, que o membro no estava mais preso a um corpo.
   Seria o brao de Chuck? Tinha de haver uma forma de saber, mas Gus estava chocado demais para atinar qual seria ela. Usou a ponta da bota para afastar um pouco de terra solta, mas no adiantou. Ento se ajoelhou e comeou a cavar com as mos. Viu uma gola marrom-clara com um disco de metal no qual se podia ler "US" e gemeu:
   -		Ai, meu Deus. - Rapidamente, desenterrou o rosto de Chuck. No havia nenhum movimento, respirao ou pulso.
   Tentou se lembrar do que deveria fazer em seguida. A quem deveria comunicar a morte? Algo tinha que ser feito com o corpo, mas o qu? Em uma situao normal, o certo seria chamar um agente funerrio.
   Ao erguer os olhos, viu que um sargento e dois cabos o encaravam. Um morteiro explodiu na rua s suas costas e os trs abaixaram a cabea por reflexo, voltando a olhar para ele em seguida. Estavam aguardando ordens suas.
   Levantou-se abruptamente, relembrando parte do que havia aprendido no treinamento. No cabia a ele cuidar dos companheiros mortos ou feridos. Ele estava vivo e inteiro, e seu dever era lutar. Foi tomado por um dio irracional dos alemes que tinham matado Chuck. Desgraados, pensou, eu vou dar o troco. Recordou o que estava fazendo antes: posicionando as armas. Era o que deveria continuar a fazer. Tambm precisaria assumir o comando do peloto de Chuck.
   
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Ele apontou para o sargento encarregado dos morteiros.
-		Esqueam a garagem de barcos, ela est exposta demais - falou. Apontou para o outro lado da rua, na direo de um beco estreito entre uma vincola e um estbulo de aluguel. - Armem trs morteiros ali naquele beco.
-		Sim, senhor. - O sargento se afastou apressado.
Gus olhou para a rua  sua frente.
-		Est vendo aquele telhado plano, cabo? Monte uma metralhadora l em cima.
-		Tenente, me perdoe, mas aquilo ali  uma oficina de automveis, pode haver um tanque de gasolina l dentro.
-		Caramba, voc tem razo. Bem observado, cabo. Na torre daquela igreja, ento. S vai haver hinrios debaixo dela.
-		Sim, senhor, muito melhor. Obrigado, senhor.
-		Os outros, venham comigo. Vamos procurar abrigo enquanto eu penso onde colocar o restante das armas.
Ele os conduziu at o outro lado da rua e ao longo de um caminho estreito, como uma viela, que margeava os fundos das construes. Uma bomba aterrissou no quintal de uma loja de produtos agrcolas e fez chover sobre Gus nuvens de fertilizante em p, como um lembrete de que no estavam fora de alcance.
Seguiu depressa pela viela, tentando sempre que possvel se proteger do bombardeio atrs de alguma parede, bradando ordens para seus suboficiais e posicionando as metralhadoras nas estruturas mais altas e de aspecto mais slido e os morteiros nos jardins entre as casas. De vez em quando, seus subordinados faziam sugestes ou discordavam dele. Ele os ouvia e ento tomava decises rpidas.
Em pouco tempo a noite caiu, o que dificultou o trabalho. Os alemes dispararam uma chuva de artilharia sobre a cidade, a maioria dos disparos atingindo em cheio a posio norte-americana na margem sul. Vrios prdios foram destrudos, deixando a rua  beira do rio parecida com uma boca cheia de dentes podres. Logo nas primeiras horas, as bombas destruram trs das metralhadoras de Gus.
J era meia-noite quando ele conseguiu voltar para o quartel-general do batalho, localizado em uma fbrica de mquinas de costura algumas ruas mais ao sul. O coronel Wagner, acompanhado do oficial que era seu equivalente no Exrcito francs, examinava um mapa em grande escala da cidade. Gus informou que todas as suas armas e as de Chuck estavam posicionadas.
-		Bom trabalho, Dewar - elogiou o coronel. - O senhor est bem?
-		 claro que estou, senhor - respondeu Gus, intrigado e ligeiramente ofendido,

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achando que seu coronel talvez achasse que ele no tinha fibra suficiente para
aquele trabalho.
-		 que o senhor est coberto de sangue.
-		Ah, ? - Gus baixou os olhos e viu que de fato havia bastante sangue coagulado na frente de seu uniforme. - De onde ser que ele veio?
-		Do seu rosto, parece. O senhor est com um corte feio nele.
Gus levou a mo  bochecha, fazendo uma careta quando seus dedos tocaram
a ferida.
-		Nem sei quando isso aconteceu - falou.
-		V at o posto mdico e pea para limparem o ferimento.
-		No  nada de mais, coronel. Eu prefiro...
-		Faa o que estou mandando, tenente. Isso pode ficar srio se infeccionar. -
O coronel abriu um leve sorriso. - No quero perd-lo. O senhor parece ter as
qualidades de um oficial til.
IV
s quatro horas da manh seguinte, os alemes iniciaram um bombardeio de
gs. Walter e suas tropas de assalto se aproximaram do limite norte da cidade ao
raiar do dia, imaginando que a resistncia dos franceses fosse ser to fraca quan-
to nos dois meses anteriores.
Eles teriam preferido contornar Chteau-Thierry, mas era impossvel. A ferro-
via at Paris cruzava a cidade, que possua duas pontes importantes do ponto de
vista estratgico. Era preciso conquist-la.
Fazendas e lavouras deram lugar a chals e chcaras, que por sua vez deram
lugar a ruas asfaltadas e jardins. Quando Walter se aproximou da primeira das
casas de dois andares, uma rajada de metralhadora emergiu de uma das janelas
do andar de cima, crivando de buracos a rua diante de seus ps como gotas de
chuva em um lago. Ele se jogou por cima de uma cerca baixa, caiu sobre uma
horta e saiu rolando at conseguir se abrigar atrs de uma macieira. Seus homens
se espalharam da mesma forma, menos dois, que caram no meio da rua. Um
deles ficou imvel, enquanto o outro gemia de dor.
Walter olhou para trs e viu o sargento Schwab.
-		Pegue seis homens, encontre a porta dos fundos daquela casa e destrua
aquele ninho de metralhadora - ordenou ele. Localizou seus tenentes. - Von
Kessel, siga um quarteiro mais para oeste e entre na cidade por l. Von Braun,
venha na direo leste comigo.

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   Ele evitou as ruas principais e seguiu por becos e quintais dos fundos, porm havia fuzileiros e metralhadores a cada dez casas. Alguma coisa havia acontecido para reavivar o esprito de luta dos franceses, percebeu Walter com apreenso.
   Durante toda a manh, os soldados da tropa de assalto lutaram de casa em casa, sofrendo pesadas baixas. No deveria ser essa a estratgia deles, dar o sangue para conquistar cada metro. Aqueles homens eram treinados para seguir o caminho de menor resistncia, se infiltrando por trs das linhas inimigas e interrompendo as comunicaes, de modo que as foras da vanguarda perdessem o moral e a liderana e se rendessem sem demora  infantaria que viria em seguida. Agora, no entanto, essa ttica havia fracassado e os soldados estavam enfrentando a duras penas, no mano a mano, um inimigo que parecia ter recuperado o flego.
   Ainda assim, eles avanaram, e ao meio-dia Walter viu-se de p sobre as runas do castelo medieval que dava seu nome  cidade. O castelo ficava no alto de um morro, e a prefeitura ficava ao p da elevao. A partir dela, a rua principal seguia em linha reta por uns 250 metros at uma ponte de dois arcos que atravessava o rio Marne. A leste, cerca de 450 metros rio acima, ficava a nica outra forma de transpor as guas do Marne, uma ponte ferroviria.
   Isso tudo ele pde ver a olho nu. Sacou o binculo e focalizou as posies inimigas na margem sul. Descuidados, os homens no faziam questo de se esconder, sinal de que eram novatos na guerra: veteranos no se exibiam desse jeito. Ele observou que eram jovens, cheios de energia, bem nutridos e bem-vestidos. Consternado, viu que seus uniformes no eram azuis, mas sim marrom-claros.
   Aqueles soldados eram americanos.
Durante a tarde, os franceses recuaram para a margem norte do rio, de modo que Gus pde disparar suas peas de artilharia, lanando morteiros e tiros de metralhadora por sobre as cabeas dos franceses contra os alemes que se aproximavam. Os armamentos americanos dispararam uma enxurrada de munio ao longo das avenidas retas que atravessavam Chteau-Thierry de norte a sul, transformando-as em corredores da morte. Mesmo assim, ele podia ver os alemes avanarem, sem medo, de um banco at um caf, de um beco at a soleira de uma loja, subjugando os franceses por pura superioridade numrica.
    medida que a tarde se transformava em uma noite sangrenta, Gus olhou por uma janela alta e viu os restos esfrangalhados da fora francesa recuarem, com seus uniformes azuis, na direo da ponte oeste. Eles ainda tentaram resistir na
   
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extremidade norte da ponte, mantendo a posio enquanto o sol vermelho se punha atrs das colinas a oeste. Ento, quando a noite caiu, recuaram para o outro lado.
   Um pequeno grupo de alemes percebeu o que estava acontecendo e quis persegui-los. Gus os viu correr para a ponte, quase invisveis sob o crepsculo, formas cinzentas se movendo contra uma paisagem cinzenta. Foi ento que a ponte explodiu. Ele se deu conta de que os franceses haviam preparado a detonao com antecedncia. Corpos saram voando pelos ares e o arco norte desabou, transformando-se em uma pilha de entulho no rio.
   Ento o silncio caiu.
   No quartel-general, Gus se deitou sobre uma esteira e dormiu um pouco; era a primeira vez que o fazia em quase 48 horas. Foi acordado pela barragem matutina alem. Com cara de sono, saiu correndo da fbrica de mquinas de costura em direo  margem do rio. Sob a luz perolada da manh de junho, viu que os alemes haviam ocupado toda a margem norte e bombardeavam as posies norte-americanas na margem sul a uma distncia terrivelmente curta.
   Ele tomou medidas para substituir as equipes que haviam passado a noite em claro por soldados um pouco mais descansados. Ento comeou a ir de posio em posio, mantendo-se sempre atrs das construes que margeavam o rio. Sugeriu aos homens maneiras de ganharem mais proteo, transferindo a arma para uma janela menor, usando chapas de metal corrugado para proteger as equipes dos destroos, ou empilhando escombros dos dois lados da arma. Contudo, a melhor forma de seus homens se defenderem era tornar impossvel a vida dos artilheiros inimigos.
   - Faam esses desgraados se arrependerem de ter nascido - disse Gus.
   Os homens obedeceram de bom grado. A Hotchkiss disparava 450 tiros por minutos e tinha um alcance de pouco mais de 3,5 quilmetros, de modo que alcanava com muita eficincia a outra margem do rio. Os morteiros Stokes j no eram to teis: sua trajetria em arco era feita para a guerra de trincheiras, onde disparos em linha reta eram incuos. Os fuzis lana-granadas, no entanto, tinham um grande poder de destruio a curta distncia.
   Os dois lados se atacavam como boxeadores sem luvas lutando dentro de um ringue fechado. O barulho de tanta munio sendo disparada ao mesmo tempo era constantemente ensurdecedor. Prdios ruam, os feridos gritavam de agonia, padioleiros sujos de sangue iam e vinham correndo entre a margem do rio e o posto mdico e batedores traziam mais munio e jarras de caf quente para os soldados cansados que manejavam as armas.
   
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   Com o passar das horas, Gus notou, sem grande interesse, que no estava assustado. No pensava muito no assunto - havia coisas demais a fazer. Por um breve instante, no meio do dia, quando estava na cantina da fbrica de mquinas de costura, tomando goles generosos de caf com leite cheio de acar em vez de almoar, espantou-se ao pensar na pessoa estranha em que havia se transformado. Seria mesmo Gus Dewar que estava correndo de um prdio a outro sob uma barragem de artilharia, gritando para seus homens fazerem o inimigo se arrepender de ter nascido? Aquele mesmo homem tivera medo de perder a coragem, dar meia-volta e abandonar o campo de batalha. Quando chegou a hora, no entanto, mal havia pensado na prpria segurana, preocupado como estava com o risco que seus homens corriam. Como essa mudana tinha acontecido? Ento um cabo chegou para lhe dizer que seu esquadro havia perdido a chave de boca usada para trocar os canos superaquecidos das metralhadoras Hotchkiss, de modo que ele engoliu o resto do caf e foi correndo cuidar do problema.
   Ao fim da tarde, teve um momento de tristeza. No lusco-fusco, espiou por acaso pela janela estilhaada de uma cozinha e viu o lugar  beira do rio em que Chuck Dixon tinha morrido. J no se sentia abalado com a forma como Chuck havia desaparecido em meio a uma exploso de terra: presenciara muito mais morte e destruio nos ltimos trs dias. O que lhe ocorreu naquele instante, causando-lhe um tipo diferente de choque, era que um dia precisaria contar esse acontecimento terrvel aos pais de Chuck, Albert e Emmeline, donos de um banco em Buffalo, e  sua jovem esposa, Dris, to avessa  entrada dos Estados Unidos na guerra - sem dvida por temer justamente o que havia ocorrido. O que Gus diria a eles? "Chuck lutou com bravura"? Chuck nem mesmo tinha lutado: ele morrera no primeiro minuto de sua primeira batalha, sem disparar um nico tiro. Teria feito pouca diferena se houvesse sido um covarde - o resultado teria sido o mesmo. Sua vida fora simplesmente desperdiada.
   Enquanto Gus olhava para aquele local, imerso em pensamentos, seu olhar foi atrado por um movimento na ponte ferroviria.
   O corao subiu-lhe  boca. Homens adentravam a ponte, vindos do outro lado.  meia-luz, era quase impossvel distinguir seus uniformes cinzentos. Eles corriam de forma desengonada pelos trilhos, tropeando nos dormentes e no cascalho. Seus capacetes eram arredondados e eles carregavam os fuzis a tiracolo. Eram alemes.
   Gus correu at o ninho de metralhadora mais prximo, atrs do muro de um jardim. A equipe no havia reparado na fora de assalto. Gus cutucou o ombro do atirador.
   
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  -		Atire na ponte! - gritou. - Olhe ali, alemes! - O atirador girou o cano da metralhadora na direo do novo alvo.
   Gus apontou para um soldado qualquer.
  -		V correndo at o quartel-general e avise que h uma incurso inimiga na ponte leste - gritou. - Rpido, rpido!
   Ele identificou um sargento.
  -		Certifique-se de que todos estejam atirando na ponte - falou. - Ande!
   Rumou para oeste. No era possvel mover depressa as metralhadoras pesadas
- com o trip, uma Hotchkiss pesava 40 quilos -, porm ele ordenou que todos os soldados com fuzis lana-granadas e todas as equipes de morteiros assumissem novas posies de onde pudessem defender a ponte.
   Os alemes comearam a ser massacrados, mas, empedernidos, no paravam de avanar. Pelo binculo, Gus viu um homem alto com uma farda de major que lhe pareceu familiar. Ficou imaginando se no seria algum que tivesse conhecido antes da guerra. Enquanto ele olhava, o major foi atingido e caiu no cho.
   Os alemes vinham apoiados por uma barragem atemorizante, disparada pela prpria artilharia. Era como se cada arma na margem norte estivesse apontada para a extremidade sul da ponte ferroviria, onde estavam reunidos os americanos. Gus via seus homens carem um aps outro, mas substitua cada atirador morto ou ferido por um novo soldado, de modo que o tiroteio prosseguia quase sem interrupo.
   Os alemes pararam de correr e comearam a assumir posies fixas, aproveitando a tnue proteo proporcionada pelos companheiros mortos. Os mais corajosos continuaram a avanar, mas, como no havia onde se esconder, eles foram rapidamente abatidos.
   A noite caiu, mas isso no fez diferena: o tiroteio prosseguiu em intensidade mxima de ambos os lados. Os inimigos se transformaram em vultos indistintos, iluminados pelos clares dos disparos e pelas exploses das bombas. Gus trocou algumas das metralhadoras pesadas de posio, quase certo de que aquela incurso no era um ardil para que o inimigo pudesse atravessar o rio despercebido em algum outro ponto.
   O combate atingiu um impasse e, por fim, os alemes comearam a recuar.
   Ao ver que havia equipes de padioleiros na ponte, Gus ordenou que seus homens cessassem fogo.
   Em reao a isso, a artilharia alem se calou.
  -		Deus todo poderoso - falou Gus para ningum em especial. - Acho que ns os afugentamos.
   
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III
Uma bala americana havia quebrado a tbia de Walter. Deitado sobre os trilhos, ele sentia uma dor terrvel, mas sofria ainda mais ao ver os soldados alemes recuando e ouvir as armas pararem de atirar. Nesse instante, teve certeza de que havia fracassado.
   Gritou quando o suspenderam para coloc-lo em uma padiola. Ouvir os gritos dos feridos era ruim para o moral dos homens, mas ele no pde evitar. Os padioleiros o transportaram aos trancos e barrancos pela ferrovia, atravessando a cidade at o posto mdico, onde algum lhe administrou morfina e ele perdeu os sentidos.
   Acordou com a perna em uma tala. Comeou a perguntar a todos os que passavam por seu catre sobre o andamento da batalha, mas no conseguiu detalhes at Gottfried von Kessel aparecer. Olhando para o seu ferimento com uma satisfao maliciosa, Gottfried lhe disse que o Exrcito alemo desistira de atravessar o rio Marne em Chteau-Thierry. Talvez tentassem em outro lugar.
   No dia seguinte, logo antes de ser colocado em um trem de volta para casa, Walter ficou sabendo que o grosso da Terceira Diviso do Exrcito norte-americano tinha chegado e assumido posies ao longo de toda a margem sul do Marne.
   Um companheiro ferido lhe contou sobre uma batalha sangrenta em um bosque perto de uma cidade chamada Bois de Belleau. Ambos os lados haviam sofrido um grande nmero de baixas, mas os americanos tinham vencido.
   De volta a Berlim, os jornais continuavam a divulgar vitrias alems, porm as linhas nos mapas no estavam se aproximando de Paris, e Walter chegou  amarga concluso de que a ofensiva de primavera havia fracassado. Os americanos tinham chegado cedo demais.
   Ele teve alta do hospital e foi convalescer em seu antigo quarto na casa dos pais.
   No dia 8 de agosto, um ataque aliado em Amiens usou quase 500 dos novos "tanques". Esses veculos blindados viviam s voltas com inmeros problemas, mas podiam ser impossveis de deter, de modo que os britnicos conquistaram 13 quilmetros em um nico dia.
   Treze quilmetros no eram muita coisa, mas Walter desconfiava que a mar houvesse virado, e podia ver no rosto do pai que o velho pensava o mesmo. Ningum mais em Berlim falava em ganhar a guerra.
   Certa noite, no final de setembro, Otto chegou em casa com uma expresso funesta no rosto. No lhe restava mais nada de sua exuberncia habitual. Walter chegou a se perguntar se o pai iria chorar.
   
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-		O Kaiser voltou para Berlim - disse Otto.
Walter sabia que o Kaiser Guilherme estava no quartel-general do Exrcito localizado na cidade termal de Spa, nas colinas da Blgica.
-		E por que motivo?
A voz de Otto se transformou quase em um sussurro, como se ele no suportasse dar a notcia em um tom de voz normal:
-		Ludendorff quer um armistcio.

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CAPTULO TRINTA E DOIS
Outubro de 1918

Maud foi almoar no Ritz com seu amigo lorde Remarc, subsecretrio do
Departamento de Guerra. Johnny estava usando um colete novo, lils.
Enquanto os dois saboreavam um pot-au-feu, ela lhe perguntou:
-		A guerra vai mesmo terminar?
-		Todo mundo acha que sim - respondeu Johnny. - Os alemes tiveram 700
mil baixas este ano. Eles no podem continuar.
Maud se perguntou com tristeza se Walter seria um desses 700 mil homens. Sabia
que ele talvez estivesse morto - e esse pensamento parecia uma pedra de gelo no
lugar de seu corao. Ela no tinha notcias dele desde a segunda e idlica lua de mel
dos dois em Estocolmo. Imaginava que o trabalho de Walter no o fizesse mais viajar
para pases neutros de onde pudesse lhe escrever. A verdade terrvel era que ele provavelmente havia retornado  frente de batalha para a ltima e decisiva ofensiva alem.
Esses pensamentos eram mrbidos, porm realistas. Muitas mulheres tinham
perdido os homens que amavam: maridos, irmos, filhos, namorados. Todas
haviam passado quatro anos convivendo diariamente com esse tipo de tragdia.
J no era mais possvel ser pessimista demais. O luto era a norma.
Ela afastou seu prato fundo.
-		Existe algum outro motivo para termos esperana de que haja paz?
-		Sim. A Alemanha agora tem um novo chanceler, que escreveu para o presidente Wilson sugerindo um armistcio baseado nos famosos 14 Pontos do presidente americano.
-		Isso  promissor! Wilson concordou?
-		No. Ele disse que primeiro a Alemanha tem que se retirar de todos os territrios conquistados.
-		E o que nosso governo acha disso?
-		Lloyd George est uma fera. Os alemes esto tratando os Estados Unidos
como o membro principal da aliana, e o presidente Wilson age como se os dois
pases pudessem selar a paz sem nos consultar.
-		E isso tem alguma importncia?
-		Infelizmente, sim. Nosso governo no est necessariamente de acordo com
os 14 Pontos de Wilson.

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Maud aquiesceu.
-		Imagino que sejamos contra o quinto ponto, segundo o qual os povos das colnias deveriam ter voz em seus prprios governos.
-		Exato. O que dizer da Rodsia, de Barbados, da ndia? No se pode esperar que ns peamos permisso aos nativos antes de civiliz-los. Os americanos so liberais alm da conta. E tambm somos terminantemente contra o segundo ponto: liberdade nos mares em tempos de guerra e de paz. O poder da Gr-Bretanha depende da Marinha. No teramos conseguido fazer a Alemanha passar fome at capitular se no tivssemos sido capazes de bloquear seu comrcio martimo.
-		E o que os franceses acham disso tudo?
Johnny sorriu.
-		Segundo Clemenceau, Wilson est tentando superar Deus. "O prprio Senhor se contentou com dez mandamentos", disse ele.
-		Tenho a impresso de que a maior parte dos britnicos mdios na verdade gostam de Wilson e de seus pontos.
Johnny fez que sim com a cabea.
-		E os lderes europeus no tm como mandar o presidente americano parar de negociar a paz.
Maud queria tanto acreditar naquilo que estava ficando assustada. Disse a si mesma para no ficar feliz ainda. A decepo poderia ser grande demais.
Um garom lhes serviu um linguado Waleska e lanou um olhar encantado para o colete de Johnny.
Maud abordou sua outra preocupao:
-		Tem tido notcias de Fitz? - A misso de seu irmo na Sibria era secreta, mas Fitz havia se confidenciado com ela, e Johnny a mantinha informada.
-		O tal lder cossaco se revelou uma decepo. Fitz fez um pacto com ele, e ns o financiamos por algum tempo, mas o sujeito na verdade no passava de um tirano. Fitz vai continuar l, tentando convencer os russos a derrubar os bolcheviques. Enquanto isso, Lnin transferiu seu governo de Petrogrado para Moscou, onde se sente mais protegido de uma eventual invaso.
-		Mesmo que os bolcheviques sejam depostos, um novo regime voltaria a lutar contra a Alemanha?
-		Voc quer uma resposta realista? No. - Johnny tomou um gole de Chablis. - Porm vrias figuras muito poderosas do governo britnico tm um dio mortal dos bolcheviques.
-		Por qu?

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-		O regime de Lnin  brutal.
-		O do czar tambm era, mas Winston Churchill nunca planejou derrub-lo.
-		No fundo, eles temem que, se o bolchevismo der certo por l, acabe chegando aqui em seguida.
-		Bem, se der certo, por que no?
Johnny encolheu os ombros.
-		Voc no pode esperar que pessoas como o seu irmo pensem assim.
-		 verdade - concordou Maud. - Me pergunto como ele est passando...
- Ns estamos na Rssia! - disse Billy Williams quando o navio atracou e ele ouviu as vozes dos estivadores. - Porra, o que estamos fazendo na Rssia?
-		Como podemos estar na Rssia? - perguntou Tommy Griffiths. - Ela fica para o leste. Faz semanas que estamos navegando rumo ao oeste.
-		Ns demos meia-volta ao mundo e chegamos pelo outro lado.
Tommy no ficou convencido. Ele se debruou na amurada e olhou para fora.
-		As pessoas parecem meio chinesas - disse.
-		Mas esto falando russo. Parecem aquele cavalario, Peshkov, o que roubou os irmos Ponti nas cartas e depois fugiu.
Tommy apurou os ouvidos.
-		, tem razo. Que coisa mais estranha.
-		Isto aqui deve ser a Sibria - disse Billy. - Est explicado este frio do cacete.
Alguns minutos depois, eles descobriram que estavam em Vladivostok.
Quase ningum prestou ateno nos Aberowen Pais enquanto eles marchavam pela cidade. J havia milhares de soldados uniformizados ali. A maioria era japonesa, mas havia tambm tropas americanas, tchecas e de outras nacionalidades. A cidade porturia era movimentada, com bondes passando por amplos bulevares, hotis modernos, teatros e centenas de lojas. Parecia Cardiff, pensou Billy, s que mais fria.
Quando chegaram ao quartel, encontraram um batalho de londrinos idosos que havia sido transferido de Hong Kong. Fazia sentido, pensou Billy, mandar velhos caquticos para aquele fim de mundo. Os Pais, no entanto, embora desgastados pelas baixas, tinham um ncleo de veteranos experientes. Quem teria mexido os pauzinhos para tir-los da Frana e mand-los para o outro lado do mundo?
Ele no tardou a descobrir. Depois do jantar, o brigadeiro, homem de aparncia

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tranquila, obviamente prximo da aposentadoria, avisou-lhes que o coronel conde Fitzherbert viria falar com eles.
   O capito Gwyn Evans, o famoso dono das lojas de departamentos, trouxe um caixote de madeira que antes continha latas de banha e Fitz subiu nele - no sem alguma dificuldade devido  perna machucada. Billy o observou sem a menor compaixo. Reservava o sentimento para Cotoco Pugh e para muitos outros mineiros aleijados que haviam se ferido extraindo o carvo do conde. Fitz era presunoso, arrogante e um explorador desumano de homens e mulheres do povo. Era uma pena que os alemes no tivessem acertado seu corao em vez da perna.
  -		Nossa misso  dividida em quatro partes - comeou Fitz, erguendo a voz para se dirigir aos 600 homens reunidos. - Em primeiro lugar, estamos aqui para proteger nossos bens. Ao sair do porto e passar pelos trilhos auxiliares da ferrovia, talvez vocs tenham reparado em um imenso depsito de suprimentos vigiado por soldados. Esse terreno de quatro hectares contm 600 mil toneladas de munio e outros equipamentos militares enviados para c pela Gr-Bretanha e pelos Estados Unidos quando os russos eram nossos aliados. Agora que os bolcheviques assinaram a paz com a Alemanha, no queremos que balas pagas pelo nosso povo caiam nas mos deles.
  -		Isso no faz sentido - disse Billy, alto o suficiente para Tommy e os demais  sua volta conseguirem escutar. - Em vez de nos trazer at aqui, por que eles no transportaram os suprimentos de volta?
   Irritado, Fitz lanou um olhar na direo da voz, mas prosseguiu:
  -		Em segundo lugar, h muitos nacionalistas tchecos neste pas, alguns prisioneiros de guerra e outros que trabalhavam aqui antes do conflito. Eles formaram a chamada Legio Tcheca e esto tentando pegar um navio de Vladivostok para se juntar s nossas foras na Frana. Esses homens esto sendo intimidados pelos bolcheviques, e nosso trabalho  ajud-los a sair daqui. Os lderes comunitrios cossacos da regio vo nos ajudar a fazer isso.
  -		Lderes comunitrios cossacos? - indagou Billy. - Quem ele est tentando enganar? Esses desgraados so uns bandidos.
   Fitz tornou a ouvir o burburinho de protesto. Desta vez, o capito Evans pareceu irritado e atravessou o refeitrio para ficar mais perto de Billy e seu grupo.
  -		Aqui na Sibria, existem 800 mil prisioneiros de guerra austracos e alemes que foram libertados desde a assinatura do tratado de paz. Precisamos impedir que esses homens voltem aos campos de batalha na Europa. Por fim, suspeitamos que os alemes estejam de olho nos poos de petrleo de Baku, no sul da Rssia. No podemos permitir que eles cheguem a essas reservas.
 
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-		Tenho a sensao de que Baku fica bem longe daqui - falou Billy.
Em tom amigvel, o brigadeiro disse:
-		Algum de vocs tem perguntas?
Fitz o fuzilou com o olhar, mas j era tarde demais.
-		Eu no li nada sobre isso nos jornais - disse Billy.
-		Como muitas misses militares, esta  secreta - respondeu Fitz -, e vocs no podero dizer onde esto nas cartas que escreverem para casa.
-		Ns estamos em guerra contra a Rssia, senhor?
-		No, no estamos. - Fitz fez questo de desviar os olhos de Billy. Talvez se lembrasse de como ele havia levado a melhor na assembleia sobre as negociaes de paz no Salo do Evangelho do Calvrio. - Algum mais tem perguntas, fora o sargento Williams?
-		Ns estamos tentando derrubar o governo bolchevique? - insistiu Billy.
Um murmrio de irritao repercutiu entre os soldados, muitos dos quais
eram simpatizantes da revoluo.
-		No existe governo bolchevique - respondeu Fitz, cada vez mais enraivecido. - O regime de Moscou no foi reconhecido por Sua Majestade, o rei.
-		A nossa misso foi autorizada pelo Parlamento?
O brigadeiro parecia aflito - no estava esperando esse tipo de pergunta -, e o capito Evans disse:
-		J chega, sargento. D aos outros uma chance de falar.
Fitz, no entanto, no teve a presena de esprito de calar a boca. No pareceu lhe ocorrer que a capacidade de argumentao de Billy, herdada de um pai inconformista e radical, poderia ser superior  sua.
-		As misses militares so autorizadas pelo Departamento de Guerra, no pelo Parlamento - argumentou ele.
-		Ento esta misso foi ocultada de nossos representantes eleitos! - exclamou Billy, indignado.
-		Devagar com o andor, meu chapa - murmurou Tommy com nervosismo.
-		Por necessidade - respondeu Fitz.
Billy ignorou o conselho de Tommy; j estava furioso demais. Levantou-se e perguntou, com voz alta e distinta:
-		Senhor, o que estamos fazendo  legal?
Quando Fitz enrubesceu, Billy notou que havia acertado na mosca.
-		 claro que sim... - comeou Fitz.
-		Se a nossa misso no foi aprovada pelo povo britnico nem pelo povo russo - interrompeu Billy -, como pode ser legal?

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-		Sente-se, sargento - disse o capito Evans. - Isto aqui no  uma reunio do seu maldito Partido Trabalhista. Mais uma palavra e vai receber uma punio.
Satisfeito, Billy se sentou. J tinha dito tudo o que queria.
-		Ns fomos convidados a vir at aqui pelo Governo Provisrio de toda a Rssia, cujo brao executivo  formado por um diretrio de cinco membros sediado em Omsk, no extremo oeste da Sibria - disse Fitz. - E  para l que vocs esto indo agora - concluiu.
A noite caa. Lev Peshkov, trmulo, aguardava em um depsito de carga em Vladivostok, nos confins da linha transiberiana. Usava um sobretudo militar por cima do uniforme de tenente, mas jamais estivera em um lugar to frio quanto a Sibria.
Estar na Rssia o deixava furioso. Quatro anos antes, tivera a sorte de escapar dali e mais sorte ainda de se casar com a filha de uma famlia norte-americana rica. E agora estava de volta - tudo por causa de uma garota. Qual o problema comigo?, perguntou a si mesmo. Por que nunca estou satisfeito?
Um porto se abriu e uma carroa puxada a mula saiu do depsito. Lev pulou para o assento ao lado do soldado britnico que guiava o veculo.
-		E a, Sid? - falou Lev.
-		Tudo certo - respondeu ele.
Sid era um homem magro de cerca de 40 anos, que tinha o rosto prematuramente enrugado e que estava sempre com um cigarro na boca. Era do East End londrino, portanto, falava com um sotaque bem diferente do de Gales do Sul ou do norte do estado de Nova York. No incio, Lev tivera dificuldade para entender o que ele dizia.
-		Trouxe o usque?
-		No, s latas de chocolate em p.
Lev se virou para trs, inclinou-se em direo  caamba e ergueu uma das pontas da lona que a cobria. Tinha quase certeza de que Sid estava brincando. Viu uma caixa de papelo na qual se lia "Chocolate e Cacau Fry s".
-		Chocolate no faz muito sucesso entre os cossacos - falou.
-		Olhe mais embaixo.
Lev afastou a caixa e viu outro rtulo "Teachers Highland Cream - A Perfeio em Usque Escocs".
-		Quantas caixas? - perguntou.

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-		Doze.
Tornou a cobrir a caixa.
-		Melhor do que chocolate em p.
Ele guiou Sid para fora do centro da cidade. Olhava para trs com frequncia para ver se algum os seguia e ficou apreensivo ao ver um oficial superior do Exrcito americano, mas ningum lhes perguntou nada. Vladivostok estava lotada de refugiados que haviam escapado do regime bolchevique, e a maioria tinha trazido muito dinheiro. Gastavam como se no houvesse amanh - e, para muitos deles, provavelmente no havia mesmo. Dessa forma, as lojas iam de vento em popa e as ruas estavam cheias de carroas daquele tipo transportando mercadorias. Como na Rssia faltava de tudo, muito do que se vendia era contrabandeado da China ou, como o usque de Sid, roubado dos militares.
Lev viu uma mulher com uma garotinha e pensou em Daisy. Sentia saudades da filha. quela altura, ela j sabia andar e falar e investigava o mundo. Tinha um biquinho que derretia o corao de todos, at mesmo o de Josef Vyalov. Fazia seis meses que Lev no a via. Agora com dois anos e meio, ela devia ter mudado bastante desde que Lev fora embora.
Ele tambm sentia saudades de Marga. Era com ela que sonhava, com seu corpo nu se enroscando no seu na cama. Ela tinha sido a causa dos seus problemas com o sogro e o motivo que o fizera parar na Sibria, mas, mesmo assim, ele ansiava por rev-la.
-		Sid, voc tem algum vcio? - quis saber Lev. Sentia que precisava de uma amizade mais prxima com o taciturno Sid: parceiros no crime precisavam confiar um no outro.
-		No - respondeu Sid. - S em dinheiro.
-		Seu amor pelo dinheiro costuma levar voc a correr riscos?
-		Tirando roubar, no.
-		E roubar lhe causa algum problema?
-		Nada grave. Fui preso uma vez, mas s por seis meses.
-		Meu fraco so as mulheres.
-		 mesmo?
Lev j estava habituado ao costume britnico de fazer a pergunta depois que a resposta j tivesse sido dada.
-		 - disse ele. - No consigo resistir a elas. Quando entro em uma boate, preciso estar de braos dados com uma garota bonita.
-		Srio?
-		Srio.  mais forte que eu.

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   A carroa entrou em uma zona porturia cheia de ruas de terra batida e estalagens para marinheiros - lugares sem nome ou endereo. Sid parecia nervoso.
   -		Voc est armado, certo? - perguntou Lev.
   -		S tenho isto aqui. - Ele afastou o sobretudo para revelar uma pistola enorme, com um cano de 30 centmetros, enfiada na cintura da cala.
   Lev nunca tinha visto uma arma daquelas.
   -		Que porra  essa?
   -		Uma Webley-Mars. A pistola mais potente do mundo. Coisa rara.
   -		Voc nem precisa puxar o gatilho...  s brandir a arma no ar que as pessoas morrem de medo.
   Naquela regio, ningum era pago para retirar a neve das ruas, de modo que a carroa ou seguia o rastro dos veculos anteriores, ou ento derrapava no gelo dos caminhos menos utilizados. Estar na Rssia lhe trazia o irmo  memria. Ele no havia se esquecido da promessa de mandar para Grigori o valor de uma passagem para os Estados Unidos. Estava fazendo um bom dinheiro com a venda de suprimentos militares roubados para os cossacos. Com a venda daquele dia, teria o bastante para a passagem de Grigori.
   Lev j havia feito muitas coisas erradas durante sua curta vida, mas, se pudesse se reconciliar com o irmo, se sentiria melhor em relao a si mesmo.
   A carroa entrou em um beco e dobrou para trs de um prdio baixo. Lev abriu uma caixa de papelo e sacou uma garrafa de usque l de dentro.
   -		Fique aqui vigiando a carga - disse a Sid. - Seno quando voltarmos no vai ter sobrado nada.
   -		No se preocupe - respondeu Sid, mas ele parecia apreensivo.
   Lev enfiou a mo debaixo do sobretudo para tocar a pistola semiautomtica Colt .45 que trazia na cintura, ento entrou pela porta dos fundos.
   O lugar era a verso siberiana de uma taberna. Um espao pequeno com algumas cadeiras e uma nica mesa. No havia balco, mas uma porta aberta deixava entrever uma cozinha suja com uma prateleira cheia de garrafas e um barril. Trs homens estavam sentados junto a uma lareira acesa, vestidos com casacos de pele esfarrapados. Lev reconheceu o do meio, um homem que sabia se chamar Sotnik. Este usava uma cala folgada enfiada dentro de botas de montaria. Tinha as mas do rosto protuberantes e olhos puxados, alm de ostentar um bigode extravagante e costeletas. O clima deixara sua pele vermelha e cheia de vincos. Ele poderia ter qualquer idade entre 25 e 55 anos.
   Lev apertou as mos de todos os presentes. Sacou a rolha da garrafa, e um dos
   
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homens - provavelmente o dono do bar - trouxe quatro copos, um de cada tipo. Lev serviu doses generosas, e todos beberam.
-		Este  o melhor usque do mundo - falou ele em russo. - Vem de um pas frio, como a Sibria, onde a gua das nascentes de montanha  pura neve derretida. Pena que seja to caro.
A expresso de Sotnik era inescrutvel.
-		Quanto?
Lev no iria deix-lo regatear novamente.
-		O preo que voc aceitou ontem - respondeu. - Em rublos de ouro, ou nada feito.
-		Quantas garrafas?
-		Cento e quarenta e quatro.
-		Onde elas esto?
-		Aqui perto.
-		Voc deveria tomar cuidado. Este bairro est cheio de ladres.
Isso poderia ser tanto um aviso quanto uma ameaa: Lev imaginou que a ambiguidade fosse proposital.
-		Eu sei disso - falou Lev. - Sou um deles.
Sotnik olhou para seus dois companheiros e ento, depois de uma pausa, riu. Os outros o imitaram.
Lev serviu uma segunda rodada.
-		No se preocupem - disse. - Seu usque est seguro... atrs do cano de uma arma. - Ele tambm estava sendo ambguo. Aquilo poderia ser tanto uma garantia quanto um alerta.
-		timo - disse Sotnik.
Lev bebeu seu usque e ento olhou para o relgio.
-		Uma patrulha da polcia militar vai passar por este bairro daqui a pouco - mentiu. - Tenho que ir.
-		Mais uma dose - falou Sotnik.
Lev se levantou.
-		Voc quer o usque? - Deixou transparecer sua irritao. - Eu posso muito bem vend-lo para outra pessoa. - Era verdade. Vender lcool no era difcil.
-		Vou ficar com ele.
-		Ponha o dinheiro na mesa.
Sotnik pegou um alforje do cho e comeou a separar moedas de cinco rublos. O preo combinado era de 60 rublos por cada dzia de garrafas. Lentamente, Sotnik foi fazendo pilhas de 12 moedas cada, at obter 12 pilhas. Lev achou que, na verdade, ele no sabia contar at 144.

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Depois de terminar, Sotnik olhou para Lev, que aquiesceu. Sotnik, ento, guardou as moedas de volta no alforje.
Os dois saram do bar, Sotnik com o alforje na mo. A noite havia cado, mas a lua estava no cu, de modo que eles podiam enxergar bem. Em ingls, Lev disse para Sid:
-		No desa da carroa. Fique alerta. - Em uma transao ilegal, aquele era sempre o momento mais perigoso: a oportunidade que o comprador tinha de pegar a mercadoria e ficar com o dinheiro. Lev no queria arriscar de forma alguma o dinheiro da passagem de Grigori.
Ele tirou a lona que cobria a caamba, afastando em seguida as trs caixas de chocolate em p para revelar o usque. Suspendeu uma das caixas e a largou no cho, aos ps de Sotnik.
O outro cossaco foi at a caamba e fez meno de pegar outra caixa.
-		No - disse Lev. Ele olhou para Sotnik. - O alforje.
Fez-se uma longa pausa.
Sentado no lugar do condutor, Sid afastou o sobretudo para revelar sua arma.
Sotnik entregou o alforje a Lev.
Lev olhou para dentro dele, mas decidiu no recontar o dinheiro. Teria percebido se Sotnik houvesse retirado algumas moedas s escondidas. Ele entregou o alforje a Sid e ps-se a ajudar os outros a descarregar a carroa.
Ento tornou a apertar a mo de todos e estava prestes a subir na carroa quando Sotnik o deteve.
-		Olhe aqui - disse ele, apontando para uma caixa j aberta. - Est faltando uma garrafa.
A garrafa em questo estava na mesa da taberna, e Sotnik sabia disso. Por que estava tentando comprar uma briga quela altura? A situao era perigosa.
Em ingls, ele pediu a Sid:
-		Me passe uma moeda de ouro.
Sid abriu o alforje e entregou-lhe uma moeda.
Lev a equilibrou sobre o punho fechado e ento a lanou para cima, fazendo-a girar no ar. O luar se refletiu na moeda. Quando, por reflexo, Sotnik estendeu a mo para peg-la, Lev saltou para o assento da carroa.
Sid estalou o chicote.
-		Fiquem com Deus - gritou Lev enquanto a carroa comeava a se mover. - E me avisem quando precisarem de mais usque.
Quando a mula saiu trotando de trs do prdio e dobrou a esquina, ganhando a rua, a respirao de Lev se acalmou.

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-		Quanto conseguimos? - perguntou Sid.
-		O que pedimos. Trezentos e sessenta rublos cada um. Menos cinco. Eu cubro aquela moeda que ns perdemos. Voc tem uma bolsa?
Sid sacou uma bolsa de couro grande. Lev ps 72 moedas l dentro.
Depois de se despedir de Sid, saltou da carroa perto do alojamento dos oficiais americanos. Quando estava a caminho de seu quarto, foi abordado pelo capito Hammond.
-		Peshkov! Onde o senhor estava?
Lev desejou no estar carregando 355 rublos dentro de um alforje de cossaco.
-		Fazendo um pouco de turismo, senhor.
-		Est escuro!
-		Foi por isso que voltei.
-		Eu estava  sua procura. O coronel quer lhe falar.
-		Agora mesmo, senhor. - Lev tomou a direo de seu quarto para guardar o alforje, mas Hammond disse:
-		A sala do coronel fica para o outro lado.
-		Sim, senhor. - Lev deu meia-volta.
O coronel Markham no gostava de Lev. Markham era um militar de carreira, no um recruta de tempos de guerra. Sentia que Lev no tinha o mesmo compromisso que ele com a excelncia do Exrcito norte-americano. E estava 110% certo, como o prprio coronel teria dito.
Lev cogitou largar o alforje no cho do lado de fora da sala do coronel, mas era dinheiro demais para deixar em qualquer lugar.
-		Quer me dizer onde o senhor estava? - perguntou Markham assim que ele entrou.
-		Dando uma volta pela cidade, coronel.
-		Vou mud-lo de funo. Nossos aliados britnicos precisam de intrpretes e me pediram para emprestar o senhor a eles.
Aquilo parecia um trabalho mais fcil.
-		Sim, coronel.
-		O senhor vai acompanh-los at Omsk.
Isso j no parecia to fcil. Omsk ficava a quase 6500 quilmetros de distncia, no corao brbaro da Rssia.
-		Para que, senhor?
-		Eles  que vo lhe dizer.
Lev no queria ir. Omsk ficava longe demais de casa.
-		O senhor est me pedindo para ir como voluntrio?

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O coronel hesitou e Lev percebeu que a misso era voluntria - isto , na medida do possvel, em se tratando do Exrcito.
-		O senhor est recusando a misso? - perguntou Markham em tom de ameaa.
-		Apenas se ela for voluntria, senhor,  claro.
-		Deixe-me lhe explicar a situao, tenente - disse o coronel. - Se o senhor se oferecer para a misso, no vou mandar que abra essa bolsa para me mostrar o que tem a dentro.
Lev soltou um palavro entre os dentes. No havia nada que pudesse fazer. O coronel era esperto demais. E a passagem de Grigori para os Estados Unidos estava dentro daquele alforje.
Omsk, pensou ele. Que inferno.
-		Ser um prazer, senhor - falou.
Ethel subiu at o apartamento de Mildred no andar de cima da casa. Encontrou o lugar limpo, mas desarrumado, com brinquedos no cho, um cigarro aceso dentro de um cinzeiro e uma calcinha secando em frente  lareira.
-		Voc poderia cuidar de Lloyd hoje  noite? - pediu. Ela e Bernie iriam a uma reunio do Partido Trabalhista. Lloyd j estava com quase quatro anos e, portanto, era bem capaz de sair da cama e ir dar uma volta sozinho se ningum o vigiasse.
-		Claro - respondeu Mildred. Geralmente, quando uma no podia cuidar dos filhos  noite, a outra servia de bab. - Recebi uma carta de Billy - disse ela.
-		Ele est bem?
-		Est. Mas no acho que esteja na Frana. Ele no diz nada sobre as trincheiras.
-		Ento ele deve estar no Oriente Mdio. Fico imaginando se j viu Jerusalm. - A cidade sagrada havia sido tomada pelas foras britnicas no final do ano anterior. - Nosso Da ficaria feliz com isso.
-		Tem um recado para voc. Ele diz que vai lhe escrever depois, mas me pediu para falar... - Ela enfiou a mo no bolso do avental. -  melhor eu ler de uma vez: "Escute, eu estou sem saber aqui quem governa na verdade a Rssia." Achei bem estranho, para falar a verdade.
-		O recado est em cdigo - disse Ethel. - Voc tem que ler de trs em trs palavras. O recado  Estou aqui na Rssia. O que ele est fazendo l?
-		Eu no sabia que nosso Exrcito estava na Rssia.
-		Nem eu. Ele menciona alguma cano, ou o ttulo de algum livro?
-		Sim... como voc sabe?

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-		 outro cdigo.
-		Ele me pede para lembrar voc de uma cano que costumavam cantar, chamada "Im with Freddie in the Zoo". Nunca ouvi falar dela.
-		Nem eu. So as iniciais. "Freddie in the Zoo" quer dizer... Fitz.
Bernie entrou usando uma gravata vermelha.
-		Ele est ferrado no sono - falou, referindo-se a Lloyd.
-		Mildred recebeu uma carta de Billy - disse Ethel. - Parece que ele est na Rssia com o conde Fitzherbert.
-		R! - exclamou Bernie. - Estava me perguntando quanto tempo eles iriam levar para fazer isso.
-		Fazer o qu?
-		Mandar soldados para lutarem contra os bolcheviques. Eu sabia que isso estava por vir.
-		Ns estamos em guerra com o novo governo russo?
-		No oficialmente,  claro. - Bernie olhou para o relgio. - Temos que ir. - Ele detestava chegar atrasado.
No nibus, Ethel falou:
-		Ns no podemos estar extraoficialmente em guerra. Ou estamos ou no estamos.
-		Churchill e a corja dele sabem que o povo britnico no vai apoiar uma guerra contra os bolcheviques, ento esto tentando mant-la em segredo.
-		Estou desapontada com Lnin... - disse Ethel, pensativa.
-		Ele est fazendo o que  preciso! - interrompeu Bernie. Ele era um defensor fervoroso dos bolcheviques.
Ethel insistiu:
-		Lnin corre o perigo de se tornar um tirano to grande quanto o czar...
-		Isso  ridculo!
-		... mas, mesmo assim, ele deve ter a chance de mostrar o que pode fazer pela Rssia.
-		Bom, pelo menos nesse ponto ns concordamos.
-		Mas no sei muito bem o que podemos fazer a respeito.
-		Precisamos de mais informao.
-		Billy vai me escrever em breve. Ele dar os detalhes.
Ethel estava indignada com essa guerra secreta do governo - se  que era esse mesmo o caso -, mas tambm se preocupava com Billy. Seu irmo no ficaria de bico fechado. Se achasse que o Exrcito estava agindo mal, diria isso s claras e talvez enfrentasse problemas.

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   O Salo do Evangelho do Calvrio estava lotado: a popularidade do Partido Trabalhista tinha aumentado durante a guerra. Isso se devia, em parte, ao fato de que o lder trabalhista, Arthur Henderson, fizera parte do Gabinete de Guerra de Lloyd George. Henderson havia comeado a trabalhar em uma fbrica de locomotivas aos 12 anos, e seu desempenho como ministro tinha destrudo o argumento conservador de que os operrios no eram confiveis o bastante para ter cargos no governo.
   Ethel e Bernie foram se sentar ao lado de Jock Reid, um escocs de rosto vermelho, natural de Glasgow, que era o melhor amigo de Bernie quando este era solteiro. O Dr. Greenward presidia a assembleia. O principal item em pauta eram as prximas eleies gerais. Segundo os boatos, Lloyd George iria convocar um pleito nacional assim que a guerra terminasse. Aldgate precisava de um candidato trabalhista - e Bernie era o mais cotado.
   Sua candidatura foi proposta e apoiada. Algum sugeriu o Dr. Greenward como alternativa, porm o mdico respondeu que achava melhor se ater  medicina.
   Ento Jayne McCulley se levantou. Ela era afiliada ao partido desde que Ethel e Maud haviam protestado contra o cancelamento de seu auxlio-separao e Maud havia sido carregada para a cadeia por um policial. Jayne disse:
  -		Eu li no jornal que as mulheres podem concorrer nas prximas eleies, e proponho que Ethel Williams seja nossa candidata.
   Houve um instante de silncio atnito e, em seguida, todos tentaram falar ao mesmo tempo.
   Ethel ficou pasma. Nunca havia pensado naquilo. Desde que conhecera Bernie, ele sonhava ser o representante de Aldgate no Parlamento. Ela havia aceitado isso. Alm do mais, as mulheres nunca tinham podido se candidatar. Duvidava que fosse possvel mesmo agora. Seu primeiro impulso foi recusar imediatamente.
   Jayne, no entanto, no havia terminado. Era uma jovem bonita, mas a meiguice de sua aparncia era enganosa: ela podia ser muito veemente.
  -		Eu respeito Bernie, ele  bom em organizar as coisas, fazer reunies - disse ela. - Mas Aldgate tem um representante liberal no Parlamento muito benquisto e provavelmente difcil de derrotar. Ns precisamos de um candidato capaz de conquistar esse assento para o Partido Trabalhista, algum que possa dizer ao cidados do East End: "Sigam-me rumo  vitria!", e ser obedecido. Ns precisamos de Ethel.
   Todas as mulheres vibraram, bem como alguns dos homens, embora outros tenham resmungado, contrariados. Ethel percebeu que, caso se candidatasse, teria bastante apoio.
   
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E Jayne estava certa: era bem capaz de Bernie ser o homem mais inteligente dali, mas no era um lder inspirador. Ele poderia explicar como ocorriam as revolues e por que as empresas iam  falncia, mas Ethel conseguiria influenciar as pessoas a embarcarem em uma cruzada.
Jock Reid se levantou.
-		Camarada presidente, acredito que a legislao no permita que mulheres se candidatem.
-		Eu posso esclarecer essa questo - disse o Dr. Greenward. - A lei que foi aprovada no incio deste ano, concedendo o direito de voto s mulheres com mais de 30 anos, no previa a candidatura de mulheres s eleies. Mas o governo j reconheceu que isso  uma anomalia e a minuta de outro projeto de lei j foi redigida.
-		Mas a lei tal como ela  hoje probe a eleio de mulheres - insistiu Jock ento ns no podemos indicar uma. - Ethel abriu um sorriso irnico: no era curioso que os mesmos homens que clamavam por uma revoluo mundial insistissem em seguir a lei ao p da letra?
-		Claramente, o objetivo  que o projeto de lei do Parlamento que qualifica as mulheres a se candidatarem seja aprovada antes das prximas eleies gerais - disse o Dr. Greenward -, de modo que no me parece haver problema algum que este ncleo indique uma mulher.
-		Mas Ethel tem menos de 30 anos.
-		Aparentemente, esse novo projeto de lei se aplica a mulheres acima dos 21 anos.
-		Aparentemente? - repetiu Jock. - Como podemos indicar um candidato sem conhecer as regras?
-		Talvez devssemos adiar a indicao at a nova legislao ser aprovada - sugeriu o Dr. Greenward.
Bernie sussurrou algo no ouvido de Jock, que ento falou:
-		Vamos perguntar a Ethel se ela est disposta a se candidatar. Caso contrrio, no h motivo para adiar a deciso.
Bernie se virou para Ethel com um sorriso confiante.
-		Muito bem - disse o Dr. Greenward. - Ethel, se fosse indicada, voc aceitaria?
Todos olharam para ela.
Ethel hesitou.
Aquele era o sonho de Bernie, e ele era seu marido. Mas qual deles seria a melhor escolha para o Partido Trabalhista?
Conforme os segundos foram passando, uma expresso de incredulidade

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tomou conta do rosto de Bernie. Havia esperado que ela fosse recusar a indicao na mesma hora.
Isso a deixou mais decidida.
- Eu... eu nunca tinha pensado no assunto - disse ela. - E, h, como disse o presidente, essa possibilidade legal ainda nem existe. Ento  uma pergunta difcil de responder. Acho que Bernie seria um bom candidato... mas, ao mesmo tempo, gostaria de um tempo para pensar. Ento talvez devssemos aceitar a sugesto do presidente e adiar a indicao.
Ela se virou para Bernie.
Ele parecia capaz de mat-la.

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CAPTULO TRINTA E TRS
11 de novembro de 1918

telefone da casa de Fitz em Mayfair tocou s duas da manh.
 Maud ainda estava acordada, sentada na sala de estar  luz de uma vela, com os quadros dos antepassados mortos a observ-la das paredes, as cortinas fechadas como sudrios e os mveis  sua volta quase invisveis, como animais noturnos em uma campina. Ela mal havia dormido nos ltimos dias. Um pressentimento supersticioso lhe dizia que Walter seria morto antes de a guerra acabar.
   Ela estava sozinha, segurando nas mos uma xcara de ch frio, fitando as brasas da lareira, perguntando-se onde ele poderia estar e o que estaria fazendo. Ser que estava dormindo em uma trincheira mida qualquer, ou se preparando para o combate do dia seguinte? Ou ser que j estava morto? Ela poderia j ser viva, depois de ter passado apenas duas noites com o marido em quatro anos de casamento. A nica coisa que sabia ao certo era que ele no era prisioneiro de guerra. Johnny Remarc havia verificado todas as listas de oficiais capturados para ela. Johnny no conhecia seu segredo: achava que Maud s estivesse preocupada porque Walter era um bom amigo de Fitz antes da guerra.
   A campainha do telefone a espantou. A princpio, achou que o telefonema pudesse ser sobre Walter, mas isso no faria o menor sentido. A notcia sobre a priso de um amigo poderia esperar at de manh. Ento devia ser Fitz, pensou ela, angustiada: teria ele sido ferido na Sibria?
   Foi correndo em direo ao hall, mas Grout chegou primeiro. Ela percebeu, sentindo uma onda de culpa, que havia se esquecido de liberar os empregados para que fossem dormir.
   -		Vou perguntar se lady Maud est em casa, meu amo - disse Grout para o aparelho. Ele cobriu o fone com a mo antes de se dirigir a Maud. - Lorde Remarc ligando do Departamento de Guerra, senhora.
   Maud pegou o fone da mo de Grout e perguntou:
   -		 Fitz? Ele foi ferido?
   -		No, no - respondeu Johnny. - Calma. A notcia  boa. Os alemes aceitaram os termos do armistcio.
   -		Ai, Johnny, graas a Deus!
   -		Esto todos reunidos na floresta de Compigne, ao norte de Paris, em dois
   
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trens parados em um desvio da ferrovia. Os alemes acabaram de entrar no vago-restaurante do trem francs. Esto prontos para assinar.
-		Mas ainda no assinaram?
-		No, ainda no. Esto discutindo sobre os termos exatos.
-		Johnny, voc pode me ligar de novo quando eles assinarem? No vou dormir hoje.
-		Posso, sim. At logo.
Maud devolveu o fone ao mordomo.
-		Talvez a guerra termine hoje  noite, Grout.
-		Fico muito feliz em saber, senhorita.
-		Mas voc deveria ir para a cama.
-		Com a sua permisso, senhorita, eu gostaria de ficar acordado at lorde Remarc ligar novamente.
-		 claro.
-		Mais um pouco de ch, senhorita?
II
Os Aberowen Pais chegaram a Omsk de manh bem cedo.
Billy se lembraria para sempre de cada detalhe da viagem de quase 6500 quilmetros desde Vladivostok pela ferrovia transiberiana. Levara 23 dias, mesmo com um sargento armado a postos dentro da locomotiva para garantir que o condutor e o foguista mantivessem a velocidade no mximo. Billy sentiu frio durante todo o trajeto: o fogareiro no centro do vago mal conseguia aquecer as manhs da Sibria. Todos sobreviviam  base de po preto e carne enlatada. Para Billy, no entanto, cada novo dia era uma revelao.
Ele no sabia haver no mundo lugares to lindos quanto o lago Baikal. De um extremo a outro, esse lago era maior do que o Pas de Gales inteiro, disse-lhes o capito Evans. Do trem que passava depressa, eles viram o sol se erguer por sobre a gua calma e azul, iluminando os cumes das montanhas de quilmetros de altura do outro lado e dourando a neve que cobria os picos.
Por toda a vida, guardaria com carinho a lembrana de uma interminvel caravana de camelos seguindo ao lado da ferrovia, dos animais lotados de carga a cruzar, com dificuldade e pacincia, o solo coberto de neve, ignorando o sculo XX que chispava por eles em meio a rudos de ferro e ao chiado do vapor. Estou longe pra cacete de Aberowen, pensou ele nesse instante.
Contudo, o incidente mais memorvel de todos foi a visita que eles fizeram a

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uma escola de ensino secundrio em Chita. O trem passou dois dias parado no local enquanto o coronel Fitzherbert se reunia com o lder da regio, um chefe cossaco chamado Semenov. Billy se juntou a um grupo de visitantes norte-americanos que foi fazer uma excurso. O diretor da escola, que falava ingls, explicou que, at o ano anterior, eles s lecionavam para os filhos da classe mdia abastada e que os judeus eram expulsos mesmo quando podiam pagar a mensalidade. Atualmente, por ordem dos bolcheviques, a educao era gratuita para todos. O efeito disso era evidente. As salas de aula estavam abarrotadas de crianas maltrapilhas, que aprendiam a ler, escrever e contar e estudavam at cincias e artes. Independentemente do que Lnin tivesse ou no feito - e era difcil distinguir a verdade da propaganda conservadora -, ele pelo menos levava a srio a educao das crianas russas, pensou Billy.
   Lev Peshkov estava no mesmo trem que ele. Havia cumprimentado Billy de forma calorosa, sem demonstrar um pingo de vergonha, como se tivesse esquecido que fora enxotado de Aberowen como trapaceiro e ladro. Lev tinha conseguido ir para os Estados Unidos e se casar com uma garota rica. Agora era tenente e servia de intrprete para os Pais.
   Os moradores de Omsk ovacionaram o batalho enquanto eles marchavam da estao ferroviria at o quartel. Billy viu vrios oficiais russos nas ruas, usando elegantes uniformes antiquados, mas que, aparentemente, estavam ali apenas como civis. Havia tambm muitos soldados canadenses na cidade.
   Assim que o batalho foi dispensado, Billy e Tommy foram dar um passeio pela cidade. No havia muito para ver: uma catedral, uma mesquita, uma fortaleza feita de tijolos e um rio cheio de embarcaes de carga e de passageiros. Eles ficaram surpresos ao ver muitos moradores usando uma ou outra pea de uniformes militares britnicos: uma mulher que vendia peixe frito em uma barraca vestida com uma tnica cqui; um entregador que empurrava um carrinho de mo com uma cala de sarja grossa do Exrcito; um estudante alto, carregando uma mochila, caminhando pela rua com um par de botas britnicas novo em folha.
   -		Onde eles conseguiram essas roupas? - indagou Billy.
   -		Somos ns que fornecemos os uniformes ao Exrcito russo daqui, mas Peshkov me disse que os oficiais costumam vend-los no mercado negro - explicou Tommy.
   -		 nisso que d apoiar o lado errado - comentou Billy.
   A Associao Crist de Moos do Canad tinha montado uma cantina na regio. Vrios soldados do batalho j estavam l: parecia ser o nico lugar para se ir. Billy e Tommy se serviram de ch quente e de grandes fatias de torta de ma.
   
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-		Esta cidade  o quartel-general do governo reacionrio antibolchevique - disse Billy. - Eu li no New York Times. - Os jornais norte-americanos, disponveis quando estavam em Vladivostok, eram mais honestos do que os britnicos.
Lev Peshkov entrou na cantina. Estava acompanhado por uma linda jovem russa vestindo um sobretudo barato. Todos o encararam. Como ele conseguia ser to rpido?
Lev parecia animado:
-		Ei, rapazes, vocs j ouviram os boatos?
Lev devia sempre ouvir os boatos em primeira mo, pensou Billy.
-		J, ficamos sabendo que voc  bicha - disse Tommy.
Todos riram.
-		Do que voc est falando? - quis saber Billy.
-		Eles assinaram um armistcio. - Lev fez uma pausa. - Ainda no entenderam? A guerra acabou!
-		No para ns - falou Billy.
Ill
O peloto do capito Dewar estava atacando um vilarejo chamado Aux Deux Eglises, a leste do rio Meuse. Gus tinha ouvido um boato de que haveria um cessar-fogo s onze da manh, mas seu comandante ordenara o ataque, de modo que ele o estava executando. Havia avanado suas metralhadoras pesadas at a beira de um bosque e os soldados estavam atirando nas construes do outro lado de uma extensa campina, dando ao inimigo tempo de sobra para recuar.
Infelizmente, os alemes no estavam aproveitando a oportunidade. Tinham posicionado morteiros e metralhadoras leves nos currais e pomares e revidavam com vigor. Uma das metralhadoras em especial, que disparava do telhado de um celeiro, estava conseguindo imobilizar metade do peloto de Gus.
Este se dirigiu ao cabo Kerry, o melhor atirador do grupo:
-		Voc conseguiria lanar uma granada no telhado daquele celeiro?
Kerry, um rapaz sardento de 19 anos, respondeu:
-		Se eu conseguisse chegar um pouco mais perto.
-		 justamente esse o problema.
Kerry examinou o terreno.
-		Tem uma pequena elevao antes da metade da campina - falou. - Dali eu conseguiria.
-		 arriscado - disse Gus. - Voc quer ser um heri? - Ele olhou para o relgio

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de pulso. - Se os boatos forem verdade, a guerra pode terminar daqui a cinco minutos.
Kerry deu um sorriso.
-		Posso tentar, capito.
Gus hesitou, relutando em deixar Kerry arriscar a vida. Mas aquilo ali era o Exrcito, eles ainda estavam lutando e ordens eram ordens.
-		Tudo bem - disse ele. - Quando quiser.
Ele tinha esperanas de que Kerry fosse embromar, mas o rapaz levou o fuzil ao ombro na mesma hora e pegou uma caixa de granadas.
-		Ateno todos! - gritou Gus. - Deem o mximo de cobertura possvel a Kerry.
Todas as metralhadoras dispararam ao mesmo tempo e Kerry comeou a correr.
O inimigo o viu na mesma hora e abriu fogo. O jovem cabo correu em ziguezague pela campina como uma lebre perseguida por ces. Morteiros alemes explodiram  sua volta, mas, por milagre, no o atingiram.
A "pequena elevao" de Kerry ficava a quase 300 metros de distncia.
Ele quase a alcanou.
O atirador inimigo mirou sua metralhadora com preciso em Kerry e disparou uma longa rajada. Em um piscar de olhos, o cabo foi atingido por uma dzia de balas. Ergueu os braos, deixou cair as granadas e desabou no cho, o impulso fazendo-o voar at aterrissar a alguns passos do seu destino. Ficou totalmente imvel, e Gus achou que, antes mesmo de atingir o solo, ele j estava morto.
As armas do inimigo se calaram. Aps alguns segundos, os americanos tambm pararam de atirar. Gus pensou ouvir um barulho de comemorao ao longe. Todos os homens  sua volta se calaram para escutar. O lado alemo tambm estava comemorando.
Soldados alemes comearam a aparecer, saindo de seus abrigos no vilarejo distante.
Gus ouviu um barulho de motor. Uma motocicleta americana modelo Indiana emergiu do bosque, pilotada por um sargento e com um major na garupa.
-		Cessar fogo! - berrava o major. O motociclista o conduzia pela linha de combate, de posio em posio. - Cessar fogo! - tornou a gritar o major. - Cessar fogo!
O peloto de Gus comeou a vibrar. Os homens tiraram os capacetes e os jogaram para cima. Alguns danaram, outros apertaram as mos dos companheiros. Gus ouviu uma cantoria.
Porm no conseguia desgrudar os olhos do cabo Kerry.

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   Atravessou a campina devagar e ajoelhou-se ao lado do corpo. J tinha visto muitos cadveres, e no teve dvidas de que Kerry estava morto. Perguntou-se qual seria o nome de batismo do garoto. Virou o corpo de frente. O peito de Kerry estava todo crivado de pequenos buracos de bala. Gus fechou os olhos do garoto e se levantou.
   -		Que Deus me perdoe - disse.
Por acaso, tanto Ethel quanto Bernie no tinham ido trabalhar naquele dia. Bernie estava acamado, com gripe, e a bab que cuidava de Lloyd tambm estava doente, de modo que Ethel ficara em casa para cuidar do marido e do filho.
   Estava muito deprimida. Eles haviam brigado feio sobre qual dos dois deveria se candidatar ao Parlamento. No fora apenas o pior bate-boca de sua vida de casados, como tambm o nico. Desde ento, os dois mal haviam se falado.
   Ethel sabia que tinha razo, mas, mesmo assim, sentia culpa. Poderia muito bem ser uma parlamentar melhor do que Bernie - e, de toda forma, quem deveria decidir eram seus companheiros de partido, no eles prprios. Bernie vinha planejando aquilo h anos, mas isso no significava que o cargo fosse seu por direito. Embora Ethel nunca tivesse pensado no assunto, agora estava ansiosa para concorrer. As mulheres haviam conquistado o direito ao voto, mas ainda havia muito a fazer. Em primeiro lugar, era preciso reduzir o limite de idade para torn-lo igual ao dos homens, e tambm melhorar as condies de trabalho e os salrios das mulheres. Na maioria das reas, mesmo quando faziam exatamente o mesmo trabalho, elas ganhavam menos do que os homens. Por que no podiam receber o mesmo?
   Mas ela gostava de Bernie e, quando viu a mgoa no rosto do marido, quis desistir de tudo na mesma hora.
   -		Eu esperava ser prejudicado pelos meus inimigos - dissera-lhe ele certa noite. - Pelos conservadores, pelos liberais em cima do muro, pelos imperialistas capitalistas, pela burguesia. Esperava at a oposio de um ou outro invejoso em meu prprio partido. Mas em uma pessoa eu tinha certeza de que podia confiar. E foi justamente ela quem me sabotou. - Quando se lembrava dessas palavras, Ethel sentia uma pontada no peito.
   Ela levou uma xcara de ch para o marido s onze horas. O quarto do casal, embora modesto, era confortvel, com cortinas de algodo baratas, uma escrivaninha e uma fotografia de Keir Hardie na parede. Bernie largou o romance que
   
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estava lendo, The Ragged Trousered Philanthropists, o livro de cabeceira de todos os socialistas.
-		O que voc vai fazer hoje  noite? - perguntou ele com frieza. A reunio do Partido Trabalhista estava marcada para mais tarde. - J decidiu?
Ela j havia decidido. Poderia ter lhe dado a resposta dois dias antes, mas no conseguira reunir coragem para articular as palavras. Agora que ele havia feito a pergunta, iria respond-la.
-		Que vena o melhor candidato - falou em tom desafiador.
Ele pareceu magoado.
-		No entendo como voc pode fazer isso comigo e ainda assim dizer que me ama.
Ethel achava injusto da parte dele usar um argumento como aquele. Por que ela no poderia dizer o mesmo? Isso, no entanto, no vinha ao caso.
-		No devemos pensar em ns mesmos, mas sim no partido.
-		E o nosso casamento?
-		Eu no vou abrir mo da candidatura por voc s porque sou sua mulher.
-		Voc me traiu.
-		Mas vou abrir mo dela mesmo assim - disse ela.
-		O qu?
-		Eu disse que vou abrir mo da candidatura.
Alvio se espalhou pelo rosto de Bernie.
-		Mas no porque sou sua mulher - continuou ela. - Nem porque voc  o melhor candidato.
Ele assumiu uma expresso intrigada.
-		Ento, por qu?
Ethel deu um suspiro.
-		Estou grvida.
-		No acredito!
-		Pois . Justo na hora em que uma mulher pode entrar para o Parlamento, eu fico grvida.
Bernie sorriu.
-		Bem, ento tudo deu certo no final das contas!
-		Sabia que voc iria pensar assim - disse Ethel. Naquele instante, ficou ressentida com Bernie, com o beb que carregava no ventre e com todo o resto de sua vida. Ento se deu conta de que um sino de igreja estava tocando. Olhou para o relgio sobre o console da lareira. Eram onze e cinco. Por que estariam tocando o sino quela hora de uma manh de segunda-feira? Foi quando escutou

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outro sino. Franziu o cenho e se encaminhou para a janela. No viu nada de estranho na rua, mas outros sinos comearam a badalar. A oeste, no cu sobre o centro de Londres, viu a fumaa vermelha de um sinalizador.
   Voltou-se para Bernie.
   -		Parece que todas as igrejas de Londres esto tocando seus sinos.
   -		Alguma coisa aconteceu - disse ele. - Aposto que  o fim da guerra. Eles devem estar tocando pela paz!
   -		Bem - disse Ethel com amargura -, pelo raio da minha gravidez  que no .
V
As esperanas de Fitz de derrubar Lnin e sua corja estavam concentradas no Governo Provisrio de toda a Rssia, que ficava baseado em Omsk. E Fitz no estava sozinho: homens poderosos da maioria das principais naes do mundo esperavam que aquela cidade fosse o estopim da contrarrevoluo.
   A sede do diretrio de cinco membros era um trem parado nos arredores da cidade. Fitz sabia que uma srie de vages blindados protegidos por soldados de elite abrigava o que restara do tesouro imperial: um estoque de ouro no valor de muitos milhes de rublos. O czar estava morto, assassinado pelos bolcheviques, mas seu dinheiro estava ali para dar poder e autoridade  oposio ao novo regime.
   Fitz sentia ter dado uma forte contribuio pessoal ao diretrio. O grupo de homens influentes que reunira em Ty Gwyn em abril daquele ano formava uma discreta rede dentro da poltica britnica e havia conseguido incentivar o apoio clandestino, porm significativo, da Gr-Bretanha  resistncia russa. Estava certo de que isso, por sua vez, tinha conquistado o apoio de outras naes, ou pelo menos desencorajado qualquer ajuda por parte delas ao regime leninista. Os estrangeiros, no entanto, no podiam fazer tudo: cabia aos prprios russos se rebelarem.
   At onde o diretrio conseguiria chegar? Embora o grupo fosse antibolchevique, seu presidente era um socialista revolucionrio, Nikolai D. Avkentsiev, que Fitz fazia questo de ignorar. Os socialistas revolucionrios eram quase to ruins quanto o bando de Lnin. As esperanas de Fitz repousavam sobre a direita e os militares. Somente eles teriam capacidade de reinstaurar a monarquia e a propriedade privada. Ele foi encontrar o general Boldyrev, comandante supremo do exrcito siberiano do diretrio.
   Os vages ocupados pelo governo estavam mobiliados com um luxo czarista decadente: assentos de veludo pudos, marchetaria lascada, cpulas de abajur manchadas e criados idosos vestidos com as sobras encardidas dos uniformes
   
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enfeitados da antiga corte de So Petersburgo, com seus tranados e contas. Em um dos vages, uma jovem de batom usando um vestido de seda fumava um cigarro.
Fitz ficou desanimado. Queria voltar aos velhos tempos, mas aquele ambiente parecia retrgrado demais at para seu gosto. Pensou com raiva na gozao sarcstica do sargento Williams. "O que estamos fazendo  legal?" Fitz sabia que a resposta a essa pergunta era questionvel. J era hora de ele calar a boca de Williams de uma vez por todas, pensou, irado. Aquele rapaz era praticamente um bolchevique.
O general Boldyrev era um homem grande, de aspecto desengonado.
-		Ns mobilizamos 200 mil homens - disse ele a Fitz com orgulho. - O senhor tem condies de equip-los?
-		Impressionante - respondeu Fitz, mas conteve um suspiro. Aquele era justamente o tipo de raciocnio que havia feito o Exrcito russo de seis milhes de soldados ser derrotado por foras alems e austracas muito menos numerosas. Boldyrev chegava at a usar as dragonas ridculas tpicas do antigo regime - grandes placas redondas e franjadas que o faziam parecer o personagem de uma pera cmica de Gilbert e Sullivan. Com seu russo capenga, Fitz prosseguiu:
-		Se eu fosse o senhor, mandaria metade dos convocados de volta para casa.
Boldyrev pareceu atnito:
-		Por qu?
-		Podemos equipar, no mximo, 100 mil homens. E eles precisam ser treinados.  melhor termos um exrcito pequeno e disciplinado do que uma turba imensa que vai recuar ou se render  primeira oportunidade.
-		Idealmente, sim.
-		Os suprimentos que ns lhes dermos devem ser entregues primeiro aos homens da linha de frente, no aos da retaguarda.
-		Claro. Muito sensato.
Fitz estava com a sensao desalentadora de que Boldyrev estava concordando com ele sem de fato lhe dar ouvidos. De qualquer forma, tinha que prosseguir.
-		Muito do que estamos oferecendo vem sendo desviado, como posso concluir pelo nmero de civis nas ruas usando peas de uniformes militares britnicos.
-		Sim,  verdade.
-		Recomendo enfaticamente que todos os oficiais que no estiverem em condies de servir tenham seus uniformes confiscados e sejam instrudos a voltar para casa. - O exrcito contrarrevolucionrio era infestado de amadores e diletantes j idosos que se metiam nas decises, porm mantinham distncia do combate.
-		Hum...

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-		E sugiro que o senhor d mais poderes ao almirante Kolchak como ministro da Guerra. - O Ministrio das Relaes Exteriores britnico considerava Kolchak o mais promissor dos membros do diretrio.
-		Muito bem, muito bem.
-		O senhor est disposto a fazer tudo isso? - perguntou Fitz, desesperado para obter algum tipo de compromisso.
-		Com certeza.
-		Quando?
-		Tudo a seu tempo, coronel Fitzherbert, tudo a seu tempo.
Fitz se encheu de desgosto. Ainda bem que homens como Churchill e Curzon no podiam ver como as foras mobilizadas contra o bolchevismo eram pfias, refletiu com pessimismo. Mas quem sabe, com o incentivo dos britnicos, elas no evolussem? Fosse como fosse, ele precisava fazer o melhor possvel com os recursos  sua disposio.
Ouviu-se uma batida na porta e o capito Murray, seu ajudante de ordens, entrou trazendo um telegrama.
-		Perdoe-me pela interrupo, coronel - disse ele, ofegante. - Mas tenho certeza de que o senhor vai querer saber esta notcia quanto antes.
No meio do dia, Mildred desceu ao trreo e disse a Ethel:
-		Vamos para o oeste. - Ela estava se referindo ao West End londrino. - Todo mundo est indo para l - continuou. - Eu mandei as meninas para casa. - Ela agora empregava duas jovens costureiras para ajud-la em sua oficina de arremate de chapus. - O East End inteiro est fechando mais cedo.  o fim da guerra!
Ethel estava animada para ir. O fato de ter cedido  vontade de Bernie no tinha melhorado muito o clima em casa. Ele havia se alegrado, mas ela se tornara mais amargurada. Sair de casa lhe faria bem.
-		Eu teria que levar Lloyd - falou.
-		Tudo bem, eu levo Enid e Lil. Eles vo se lembrar disso a vida toda: o dia em que ganhamos a guerra.
Ethel preparou um sanduche de queijo para o almoo de Bernie, vestiu Lloyd com roupas quentes e ento eles saram. Conseguiram pegar um nibus, mas ele no tardou a ficar lotado, com homens e meninos pendurados do lado de fora. Todas as casas pareciam ter hasteado uma bandeira, no apenas da Gr-Bretanha, mas tambm do Pas de Gales, da Frana e dos Estados Unidos. As pessoas 

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abraavam desconhecidos, danavam pelas ruas, se beijavam. Chovia, mas ningum ligava para isso.
   Ethel pensou em todos os rapazes que j no corriam mais perigo, ento comeou a se esquecer dos prprios problemas e a compartilhar a alegria do momento.
   Depois de passarem pelos teatros e entrarem na regio em que ficavam os rgos do governo, o trfego praticamente parou. A Trafalgar Square era uma massa ondulante de pessoas comemorando. J no havia como o nibus avanar, de modo que Ethel e Mildred saltaram com as crianas. Atravessaram a Avenida Whitehall at a Downing Street. No conseguiram se aproximar da sede do governo, no nmero 10, por conta da multido que queria ver o primeiro-ministro Lloyd George, o homem que havia ganhado a guerra. Entraram no St. Jamess Park, que estava repleto de casais enlaados em meio aos arbustos. Do outro lado do parque, milhares de pessoas estavam paradas diante do Palcio de Buckingham. Elas entoavam a cano patritica "Keep the Home Fires Burning" e, quando terminaram de cant-la, emendaram o hino de louvor a Deus "Now Thank We Ali Our God". Ethel viu que uma moa magra com um terninho de tweed conduzia o coro de vozes em p em cima de um caminho, e pensou que uma garota jamais teria se atrevido a fazer uma coisa daquelas antes da guerra.
   O grupo atravessou a rua em direo ao Green Park, esperando conseguir chegar mais perto do palcio. Um rapaz sorriu para Mildred e, quando ela sorriu de volta, abraou-a e tascou-lhe um beijo. Ela retribuiu com entusiasmo.
  -		Parece que voc gostou do beijo - comentou Ethel, com um pouco de inveja, quando o rapaz se afastou.
  -		E gostei mesmo - respondeu Mildred. - Teria lhe dado uma chupada se ele tivesse me pedido.
  -		No vou contar isso a Billy - disse Ethel com uma risada.
  -		Billy no  bobo, ele me conhece.
   As duas contornaram a multido com as crianas e chegaram  rua chamada Constitution Hill. Ali havia menos gente, mas elas estavam na lateral do Palcio de Buckingham, de modo que no conseguiriam ver o rei caso ele decidisse sair para a sacada. Ethel estava se perguntando para onde ir em seguida quando uma tropa da polcia montada veio descendo a rua, fazendo as pessoas se afastarem s pressas.
   Atrs dos policiais vinha uma carruagem aberta puxada a cavalos e, dentro dela, sorrindo e acenando, estavam o rei e a rainha. Ethel os reconheceu na hora, lembrando-se muito bem de quando os dois haviam visitado Aberowen quase
   
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cinco anos atrs. Mal pde acreditar na prpria sorte quando a carruagem comeou a vir lentamente em sua direo. Notou que a barba do rei agora estava grisalha: ainda era preta quando ele estivera em Ty Gwyn. O monarca parecia exausto, porm feliz. Ao seu lado, a rainha segurava uma sombrinha para proteger o chapu da chuva. Seus famosos seios pareciam ainda mais fartos do que antes.
   -		Olhe, Lloyd! - disse Ethel. -  o rei!
   A carruagem passou a poucos centmetros de Ethel e Mildred.
   -		Oi, rei! - falou Lloyd bem alto.
   O monarca ouviu e deu um sorriso.
   -		Oi, rapazinho - respondeu; e ento a carruagem passou.
Sentado no vago-restaurante do trem blindado, Grigori olhou para o outro lado da mesa. O homem sentado  sua frente era presidente do Conselho de Guerra Revolucionrio e comissrio do povo para assuntos militares e navais. Isso significava que ele comandava o Exrcito Vermelho. Seu nome era Lev Davidovitch Bronstein, mas, como muitos dos principais revolucionrios, ele havia adotado um pseudnimo e era conhecido como Leon Trtski. Completara 39 anos h poucos dias, e o destino da Rssia estava em suas mos.
   A revoluo j contava um ano, e Grigori nunca estivera to preocupado em relao a ela. A tomada do Palcio de Inverno, que havia lhe parecido um desfecho, na verdade fora apenas o incio da luta. As naes mais poderosas do mundo eram hostis aos bolcheviques. O armistcio assinado naquele dia significava que, agora, essas mesmas naes poderiam concentrar todas as suas foras em destruir a revoluo. E somente o Exrcito Vermelho era capaz de det-las.
   Muitos soldados no gostavam de Trtski por acharem que ele no passava de um aristocrata judeu. Na Rssia, era impossvel ser as duas coisas, mas soldados no primavam pela lgica. Trtski no era aristocrata, embora seu pai tivesse sido um prspero agricultor e houvesse lhe proporcionado uma boa instruo. Sua arrogncia, no entanto, depunha contra ele, que ainda cara na asneira de viajar acompanhado de seu prprio chef de cozinha e de vestir seus subordinados com botas novas e botes de ouro. Parecia mais velho do que de fato era. Sua cabeleira encaracolada ainda era preta, mas seu rosto passara a exibir rugas de preocupao.
   No Exrcito, ele havia conseguido fazer verdadeiros milagres.
   O Exrcito Vermelho, que tinha derrubado o governo provisrio, acabou se
   
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mostrando menos eficaz no campo de batalha. Seus homens bebiam muito e eram indisciplinados. Tomar decises tticas por meio de votaes em assembleias de soldados tinha se revelado uma forma ruim de lutar, pior ainda do que receber ordens de aristocratas diletantes. Os Vermelhos tinham perdido batalhas importantes para os contrarrevolucionrios, que comeavam a se autointitular Exrcito Branco.
   Apesar dos fortes protestos, Trtski reinstitura o alistamento obrigatrio. Havia convocado vrios ex-oficiais czaristas, que batizara de "especialistas", e lhes devolvera seus antigos postos. Tambm havia trazido de volta a pena de morte para os desertores. Grigori no gostava dessas medidas, mas entendia que eram necessrias. Qualquer coisa era melhor do que a contrarrevoluo.
   O que mantinha o Exrcito coeso era um ncleo formado por membros do Partido Bolchevique. Estes tinham sido cuidadosamente espalhados por todas as unidades, de modo a maximizar seu impacto. Alguns eram soldados comuns; outros ocupavam postos de comando; e outros ainda, como Grigori, eram comissrios polticos que trabalhavam em conjunto com os comandantes militares e faziam relatrios para o Comit Central Bolchevique em Moscou. Eles mantinham o moral elevado, lembrando aos soldados que estavam lutando pela causa mais nobre da histria da humanidade. Quando o Exrcito era obrigado a ser implacvel e cruel, como nas vezes em que confiscavam cereais e cavalos de famlias camponesas pauprrimas, os bolcheviques explicavam aos soldados por que essas medidas eram necessrias para o bem maior. Alm disso, relatavam burburinhos de descontentamento assim que eles surgiam, de modo a abaf-los antes que se espalhassem.
   Mas ser que isso bastaria?
   Grigori e Trtski estavam curvados sobre um mapa. Trtski apontava para a regio transcaucasiana, situada entre a Rssia e a Prsia.
   -		Os turcos ainda controlam o mar Cspio, com alguma ajuda dos alemes - disse ele.
   -		O que  uma ameaa aos poos de petrleo - murmurou Grigori.
   -		Denikin  forte na Ucrnia. - Milhares de aristocratas, oficiais e burgueses fugidos da revoluo tinham ido parar em Novocherkassk, onde haviam formado uma fora contrarrevolucionria liderada pelo general Denikin.
   -		O chamado Exrcito Voluntrio - disse Grigori.
   -		Exatamente. - Trtski moveu o dedo para o norte da Rssia. - Os britnicos tm uma esquadra naval em Murmansk. Em Arkhangelsk, h trs batalhes da infantaria norte-americana. Acrescente-se a isso reforos de quase todos os demais
   
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pases: Canad, China, Polnia, Itlia, Srvia... talvez fosse mais rpido listar as naes que no mandaram soldados para o norte congelado do nosso pas.
-		E ainda temos a Sibria.
Trtski aquiesceu.
-		Os japoneses e americanos tm foras em Vladivostok. Os tchecos controlam a maior parte da ferrovia transiberiana. H britnicos e canadenses em Omsk, apoiando o suposto Governo Provisrio de toda a Rssia.
Grigori j sabia de quase tudo aquilo, porm nunca havia analisado a situao como um todo.
-		Ora, mas ns estamos cercados! - exclamou.
-		Exatamente. E, agora que as potncias imperial-capitalistas selaram a paz, tero milhes de soldados disponveis.
Grigori tentou encontrar uma luz no fim do tnel.
-		Por outro lado, nos ltimos seis meses ns aumentamos o Exrcito Vermelho de 300 mil para um milho de homens.
-		Eu sei. - O lembrete no animou Trtski. - Mas no  o suficiente.
A Alemanha estava em plena revoluo - e, aos olhos de Walter, ela guardava uma semelhana terrvel com a Revoluo Russa do ano anterior.
Tudo comeou com um motim. Os oficiais da Marinha ordenaram  frota em Kiel que zarpasse e atacasse os britnicos em uma misso suicida, porm, como os marinheiros sabiam que um armistcio estava sendo negociado, eles se recusaram. Walter chamara a ateno do pai para o fato de que esses oficiais estavam contrariando a vontade do Kaiser, o que os qualificava como amotinados, e eram os marinheiros quem estavam sendo leais ao regime. Esse argumento deixou Otto apopltico de tanta raiva.
Quando o governo tentou reprimir os marinheiros, um conselho de operrios e soldados nos moldes dos sovietes russos assumiu o controle de Kiel. Dois dias depois, Hamburgo, Bremen e Cuxhaven tambm j eram controladas por sovietes. Na antevspera, o Kaiser havia abdicado.
Walter estava temeroso. Queria uma democracia, no uma revoluo. Contudo, no dia da abdicao, milhares de operrios berlinenses haviam sado em passeata, agitando bandeiras vermelhas, e o lder de extrema esquerda Karl Liebknecht declarara a Alemanha uma repblica socialista livre. Walter no sabia como aquilo iria terminar.

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O armistcio foi um dos piores momentos. Ele sempre acreditara que a guerra era um erro terrvel, mas estar certo no lhe trazia satisfao alguma. Sua ptria havia sido derrotada e humilhada, e seus conterrneos passavam fome. Sentado na sala de estar da casa dos pais em Berlim, folheando um jornal, Walter estava to deprimido que nem conseguia tocar piano. O papel de parede tinha desbotado e as molduras dos quadros acumulavam poeira. O velho piso de madeira estava cheio de tacos soltos, mas no havia quem o consertasse.
Walter s podia torcer para que o mundo aprendesse uma lio. Os 14 Pontos do presidente Wilson eram um raio de luz que talvez pudesse prenunciar o nascer do sol. Ser que os gigantes entre as naes conseguiriam encontrar uma forma de resolver suas desavenas de forma pacfica?
Ele estava furioso com um artigo publicado em um jornal de direita.
-		Esse jornalista idiota est dizendo que o Exrcito alemo nunca foi derrotado - falou quando seu pai entrou na sala. - Segundo ele, ns fomos trados pelos judeus e pelos socialistas do nosso prprio pas. Precisamos dar um basta nesse tipo de bobagem.
Irado, Otto assumiu um tom desafiador.
-		E por que deveramos fazer isso? - perguntou ele.
-		Porque sabemos que no  verdade.
-		Pois eu acho que ns fomos trados pelos judeus e pelos socialistas.
-		O qu? - perguntou Walter, incrdulo. - No foram os judeus nem os socialistas que nos derrotaram duas vezes no rio Marne. Ns perdemos a guerra!
-		Ns fomos enfraquecidos pela falta de suprimentos.
-		Que foi causada pelo bloqueio britnico. A quem devemos culpar pela entrada dos americanos no conflito? No foram os judeus nem os socialistas que exigiram uma guerra submarina irrestrita e afundaram navios com passageiros americanos.
-		Foram os socialistas que aceitaram os termos ultrajantes do armistcio aliado.
Walter quase perdeu a razo de tanta raiva.
-		O senhor sabe muito bem que foi Ludendorff quem pediu o armistcio. O chanceler Ebert s foi nomeado anteontem. Como o senhor pode colocar a culpa nele?
-		Se o Exrcito ainda estivesse no comando, ns jamais teramos assinado o documento de hoje.
-		Mas vocs no esto no comando, porque perderam a guerra. Vocs disseram ao Kaiser que conseguiriam ganh-la e, por causa disso, ele perdeu a coroa. Como vamos aprender com nossos erros se vocs deixarem o povo alemo acreditar em mentiras como essas?

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-		Se o povo achar que fomos derrotados, vai ficar desmoralizado.
-		O povo deveria ficar desmoralizado! Os lderes europeus agiram de forma perversa e tola, e o resultado foi que 10 milhes de homens morreram. Ao menos permita que os alemes entendam isso, para que eles nunca mais deixem acontecer novamente!
-		No - respondeu seu pai.

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  PARTE 3
UM NOVO MUNDO


CAPTULO TRINTA E QUATRO
De novembro a dezembro de 1918

No dia seguinte ao armistcio, Ethel acordou cedo. Tremendo de frio na cozinha de piso de pedra, esperando a chaleira ferver no fogo antiquado, ela
tomou a deciso de ser feliz. Havia vrios motivos para tanto. No s a guerra
acabara como ela estava esperando outro filho. Tinha um marido fiel que a adorava. As coisas no haviam sado exatamente conforme seus planos, mas ela no
deixaria que isso a entristecesse. Decidiu pintar sua cozinha com um tom vivo de
amarelo. Cores fortes estavam na moda.
Mas antes precisava tentar consertar seu casamento. Bernie tinha se apaziguado com a sua desistncia, porm ela continuava amargurada, o que por sua vez
mantinha o ambiente pesado dentro de casa. Ethel sentia raiva, mas no queria
que a briga durasse para sempre. Ficou imaginando se conseguiria fazer as pazes
com ele.
Levou duas xcaras de ch at o quarto e voltou para a cama. Lloyd ainda dormia em seu bero no canto.
-		Como est se sentindo? - perguntou enquanto Bernie se sentava e punha os
culos.
-		Melhor, acho.
-		Passe mais um dia na cama, para garantir que a gripe v embora de vez.
-		Acho que vou fazer isso. - Seu tom estava neutro, nem carinhoso, nem hostil.
Ela bebericou o ch quente.
-		O que voc prefere: menino ou menina?
Bernie ficou calado, e a princpio Ethel achou que ele estivesse se recusando a
responder de birra, mas na verdade estava s pensando por alguns instantes,
como geralmente fazia antes de responder a uma pergunta. Por fim, falou:
-		Bem, ns j temos um menino, ento acho que seria bom ter um de cada.
Ela sentiu uma onda de afeto por ele. Bernie sempre falava como se Lloyd
fosse seu filho.
-		Temos que garantir que este seja um bom pas para eles crescerem - disse
ela. - Um pas onde possam ter uma boa instruo, um emprego e uma casa
decente para criar os prprios filhos. E sem mais nenhuma guerra.
-		Lloyd George vai convocar uma eleio de emergncia.

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-		Voc acha?
-		Ele  o homem que ganhou a guerra. Vai querer ser reeleito antes de a euforia passar.
-		Acho que o Partido Trabalhista ainda vai se sair bem.
-		Ns temos chance em lugares como Aldgate, pelo menos.
Ethel hesitou.
-		Voc gostaria que eu administrasse a sua campanha?
Bernie pareceu indeciso.
-		Eu pedi a Jock Reid para ser meu assessor.
-		Jock pode cuidar da papelada jurdica e das finanas - falou Ethel. - Eu organizo os comcios, essas coisas. Sou muito melhor do que ele nisso. - De repente, ela teve a sensao de que aquela conversa era sobre seu casamento, no apenas sobre a campanha.
-		Tem certeza de que quer fazer isso?
-		Tenho. Jock s iria mandar voc fazer discursos. Voc vai precisar fazer isso,  claro, mas no  seu ponto forte. Voc lida melhor com grupos pequenos, conversando com as pessoas enquanto toma uma xcara de ch. Eu posso coloc-lo para ir a fbricas e armazns, onde voc poder conversar informalmente com os operrios.
-		Voc tem razo, sem dvida - disse Bernie.
Ela terminou de beber o ch e ps a xcara e o pires no cho ao lado da cama.
-		Quer dizer que voc est se sentindo melhor?
-		Estou.
Ela pegou a xcara e o pires dele, colocou-os no cho e ento tirou a camisola pela cabea. Seus seios j no eram mais to empinados quanto antes da gravidez de Lloyd, mas ainda eram firmes e redondos.
-		Melhor quanto? - perguntou.
Ele encarou seu corpo nu.
-		Bastante.
Os dois no faziam amor desde a noite em que Jayne McCulley havia proposto a candidatura de Ethel. Ela sentia muita falta. Segurou os dois seios com as mos. O ar frio do quarto deixava seus mamilos tesos.
-		Sabe o que  isto aqui?
-		Se no me engano, so os seus seios.
-		H quem os chame de peitos.
-		Eu os chamo de lindos. - A voz dele havia ficado um pouco rouca.
-		Voc quer brincar com eles?

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   -		O dia inteiro.
   -		Isso eu j no sei - disse ela. - Mas comece assim mesmo para ns vermos o que acontece.
   -		Est bem.
   Ethel suspirou, feliz. Os homens eram to simples.
   Uma hora depois, ela saiu para o trabalho, deixando Lloyd com Bernie. No havia muita gente na rua: aquela manh, Londres estava de ressaca. Ela chegou ao escritrio do Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Indstria Txtil e sentou-se diante de sua mesa. Enquanto pensava no dia de trabalho que tinha pela frente, deu-se conta de que a paz criaria novos problemas para o setor industrial. Milhes de homens liberados do Exrcito estariam  procura de emprego e iriam querer expulsar as mulheres que vinham ocupando seus postos havia quatro anos. Essas mulheres, no entanto, precisavam de seus salrios. Nem todas tinham um homem prestes a voltar da Frana: muitos de seus maridos estavam enterrados l. Elas precisavam do sindicato, e de Ethel.
   Quando chegasse a eleio, o sindicato naturalmente apoiaria o Partido Trabalhista. Ethel passou a maior parte do dia planejando reunies.
   Os jornais vespertinos trouxeram notcias surpreendentes sobre a eleio. Lloyd George decidira manter o governo de coalizo mesmo em tempos de paz. No faria campanha como lder dos liberais, mas sim como chefe da coalizo. Naquela mesma manh, havia discursado para 200 parlamentares liberais na sede do governo e conquistara o apoio deles. Ao mesmo tempo, Bonar Law havia convencido os parlamentares conservadores a apoiarem a ideia.
   Ethel ficou pasma. Se fosse assim, em quem as pessoas deveriam votar?
   Ao chegar em casa, encontrou Bernie furioso.
   -		Isso no  um pleito,  uma droga de uma coroao - disse ele. - Rei David Lloyd George. Que traidor. Ele teve a chance de criar um governo de esquerda radical, e o que fez? Continuou do lado de seus amiguinhos conservadores!  um vira-casaca, isso sim.
   -		No vamos desistir ainda - disse Ethel.
   Dois dias mais tarde, o Partido Trabalhista se retirou da coalizo e anunciou que faria campanha contra Lloyd George. Quatro parlamentares trabalhistas que eram ministros do governo se recusaram a renunciar e foram prontamente expulsos do partido. A eleio foi marcada para o dia 14 de dezembro. Para que houvesse tempo de os votos dos soldados serem trazidos da Frana e contados, os resultados s seriam divulgados depois do Natal.
   Ethel comeou a montar o cronograma de campanha de Bernie.
   
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No dia seguinte ao armistcio, Maud escreveu para Walter no papel timbrado do irmo e depositou a carta na caixa de correio vermelha da esquina.
   No fazia ideia de quanto tempo o servio levaria para se normalizar, mas, quando isso acontecesse, queria que seu envelope estivesse no alto da pilha. Redigiu seu texto com cuidado, para o caso de a censura continuar em vigor: no se referiu ao casamento, mas disse apenas torcer para que os dois pudessem retomar seu antigo relacionamento agora que seus pases haviam selado a paz. Talvez a carta fosse arriscada assim mesmo. Mas ela estava desesperada para descobrir se Walter estava vivo e, caso estivesse, para v-lo.
   Temia que os Aliados vitoriosos fossem querer punir o povo alemo, porm o discurso de Lloyd George dirigido aos parlamentares liberais naquele dia tinha sido tranquilizador. Segundo os jornais vespertinos, ele dizia que a paz com a Alemanha precisava ser imparcial e justa. "No podemos permitir que nenhum sentimento de vingana, nenhum impulso de ganncia, nenhum tipo de cobia passe por cima dos princpios fundamentais da justia." O governo resistiria com determinao ao que ele chamou de "um conceito de vingana e mesquinhez reles, srdido e ordinrio". Isso a alegrou. De toda forma, a vida dos alemes j seria dura o bastante dali para a frente.
   Contudo, no dia seguinte, ficou horrorizada ao abrir o Daily Mail durante o caf da manh. O ttulo da matria principal era OS HUNOS DEVEM PAGAR. O jornal defendia o envio de ajuda alimentcia aos alemes - s porque "se a Alemanha morrer de fome, no vai poder pagar o que deve". O Kaiser, prosseguia o texto, deveria ser julgado por crimes de guerra. O jornal tambm atiava as chamas da vingana ao publicar, no alto de sua coluna de cartas, uma crtica virulenta da viscondessa Templetown intitulada FORA HUNOS.
   - Por quanto tempo precisaremos continuar odiando uns aos outros? - perguntou Maud a tia Herm. - Um ano? Dez? Para sempre?
   Maud, no entanto, no deveria ter ficado surpresa. O Mail havia fomentado uma campanha de dio contra os 30 mil alemes que viviam na Gr-Bretanha no incio da guerra - grande parte deles residentes de longa data, que consideravam o pas o seu lar. Consequentemente, famlias haviam sido separadas e milhares de pessoas inofensivas tinham passado anos em campos de concentrao britnicos. Era uma burrice, mas as pessoas precisavam de algum para odiar e os jornais estavam sempre prontos para suprir essa demanda.
   Maud conhecia o dono do Mail, lorde Northcliffe. Como todos os figures da
   
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imprensa, ele realmente acreditava nos disparates que publicava. Seu talento era dar voz aos preconceitos mais tacanhos e ignorantes de seus leitores como se estes fizessem sentido, de modo que o vergonhoso parecesse louvvel. Era por isso que as pessoas compravam o jornal.
   Ela sabia tambm que, recentemente, Lloyd George havia desdenhado Northcliffe. O arrogante magnata da imprensa havia proposto que ele prprio fizesse parte da delegao britnica na conferncia de paz que estava por vir - e ficara ofendido quando o primeiro-ministro recusara seu nome.
   Maud estava preocupada. Na poltica, s vezes era preciso fazer as vontades de pessoas desprezveis, mas Lloyd George parecia ter se esquecido disso. Ela se perguntou, aflita, qual seria o impacto da propaganda maliciosa do Mail sobre a eleio.
   Poucos dias depois, descobriu.
   Ela foi a uma assembleia eleitoral em uma sala municipal no East End londrino. Eth Leckwith estava na plateia e seu marido, Bernie, no palanque. Embora as duas tivessem sido amigas e colegas de luta durante anos, Maud no havia feito as pazes com Ethel. Na verdade, ela ainda tremia de raiva quando se lembrava de como Ethel e outros haviam incentivado o Parlamento a aprovar a lei que deixava as mulheres em desvantagem em relao aos homens nas eleies. Mesmo assim, sentia falta da animao e do sorriso fcil da antiga amiga.
   Durante as apresentaes, a plateia se mostrou indcil. Por mais que algumas mulheres j pudessem votar, os homens ainda eram maioria. Maud sups que grande parte das mulheres ainda no tivesse se acostumado  ideia de que precisava se interessar por debates polticos. No entanto, tambm achava que elas ficariam intimidadas com o tom das reunies polticas, em que os homens subiam em um palanque para fazer discursos fervorosos enquanto a plateia aplaudia ou vaiava.
   Bernie foi o primeiro a falar. Maud viu na mesma hora que ele no era um grande orador. Falou sobre o novo estatuto do Partido Trabalhista, em especial sobre a quarta clusula, que exigia o controle estatal sobre os meios de produo. Maud achou isso interessante, pois traava uma diviso clara entre os trabalhistas e os liberais defensores da indstria - mas logo percebeu que estava em minoria. O homem sentado ao seu lado foi ficando cada vez mais irrequieto e, por fim, gritou:
  -		Vocs vo enxotar os alemes do nosso pas?
   Bernie ficou sem ao. Depois de balbuciar por alguns instantes, ele disse:
  -		Eu faria qualquer coisa que beneficiasse o trabalhador. - Maud se perguntou como ficavam as trabalhadoras, e imaginou que Ethel estivesse pensando a
   
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mesma coisa. - Mas no creio que medidas contra os alemes na Gr-Bretanha sejam prioridade.
A resposta no foi muito bem recebida e, na verdade, provocou uma ou outra vaia.
-		Mas, voltando a assuntos mais importantes...
Do outro lado da sala, algum gritou:
-		E quanto ao Kaiser?
Bernie cometeu o erro de responder ao ouvinte inoportuno com uma pergunta.
-		O que tem o Kaiser? - retorquiu. - Ele abdicou.
-		Ele deve ou no ser julgado?
-		Ser que vocs no entendem que um julgamento significa que ele poder se defender? - perguntou Bernie, exasperado. - Querem mesmo dar ao imperador da Alemanha a possibilidade de proclamar sua inocncia ao mundo?
Era um argumento convincente, pensou Maud, mas no era o que a plateia queria ouvir. As vaias ficaram mais fortes e ouviram-se gritos de "Enforquem o Kaiser!"
Os eleitores britnicos ficavam agressivos se voc os atiasse, pensou Maud, pelo menos os homens. Poucas mulheres iriam querer participar de reunies como aquela.
-		Se ns enforcssemos nossos inimigos derrotados, no passaramos de brbaros - disse Bernie.
O homem ao lado de Maud gritou novamente:
-		Vocs vo fazer o huno pagar?
Isso gerou a reao mais forte de todas. Vrias pessoas exclamaram: "Faam o huno pagar!"
-		Sim, mas com sensatez - comeou Bernie, porm no conseguiu ir alm disso.
-		Faam o huno pagar! - O clamor se generalizou e, em poucos instantes, todos entoavam em unssono: - Faam o huno pagar! Faam o huno pagar!
Maud se levantou da cadeira e foi embora.
Woodrow Wilson foi o primeiro presidente norte-americano a sair do pas durante o mandato.
Em 4 de dezembro, ele zarpou de Nova York. Nove dias depois, Gus estava  sua espera no cais de Brest, na extremidade ocidental da pennsula bret, na Frana. Ao meio-dia, a nvoa se dissipou e o sol saiu pela primeira vez em dias. Na baa, navios de guerra franceses, britnicos e norte-americanos formavam

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uma guarda de honra, pelo meio da qual o presidente passou a bordo do navio de transporte de tropas da Marinha americana George Washington. Houve uma salva de tiros em sua homenagem e uma banda tocou o hino dos Estados Unidos.
   Para Gus, foi um momento solene. Wilson tinha ido at ali para garantir que nunca mais houvesse uma guerra como a que acabara h pouco. Os 14 Pontos de Wilson e sua Liga das Naes pretendiam mudar para sempre a forma como os pases solucionavam seus conflitos. Era uma ambio incomensurvel. Em toda a histria da civilizao, nenhum poltico jamais havia almejado tanto. Se Wilson tivesse sucesso, o mundo seria outro.
   s trs da tarde, a primeira-dama Edith Wilson desceu a prancha de desembarque de braos dados com o general Pershing, seguidos pelo presidente, que usava uma cartola.
   A cidade de Brest recebeu Wilson como um heri conquistador. Viva Wilson, diziam os cartazes, Dfenseur du Droit des Peuples. Viva Wilson, Defensor dos Direitos dos Povos. Todos os prdios ostentavam a bandeira norte-americana hasteada. Multides ocupavam as caladas, sendo que muitas das mulheres usavam o tradicional toucado breto, com seu arranjo alto e rendado. Gaitas de foles ressoavam por toda parte. Dessas, Gus no fazia a menor questo.
   O ministro das Relaes Exteriores francs fez um discurso de boas-vindas. Gus se juntou ao grupo dos jornalistas americanos. Reparou em uma mulher baixinha com um grande chapu de pele. Quando ela virou a cabea, viu que seu rosto bonito era maculado por um olho permanentemente fechado. Encantado, abriu um sorriso: era Rosa Hellman. Estava louco para saber a opinio dela sobre a conferncia de paz.
   Aps os discursos, toda a comitiva presidencial embarcou no trem noturno para a viagem de quase 650 quilmetros at Paris. O presidente apertou a mo de Gus e disse:
   - Fico feliz por t-lo de volta  nossa equipe, Gus.
   Wilson queria estar acompanhado por colaboradores conhecidos para a Conferncia de Paz de Paris. Seu principal conselheiro seria o coronel House, o texano plido com o qual vinha se consultando extraoficialmente sobre questes de poltica externa h anos. Gus seria o mais jovem do grupo.
   Wilson parecia cansado, e ele e Edith se recolheram  sua cabine. Gus estava preocupado. Ouvira boatos de que o presidente andava mal de sade. Em 1906, um vaso havia estourado atrs do seu olho esquerdo, causando uma cegueira temporria; os mdicos diagnosticaram presso alta e o aconselharam a se aposentar. Wilson,  claro, ignorara solenemente o conselho e acabara sendo eleito
   
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presidente - mas, ultimamente, vinha tendo dores de cabea que talvez fossem um novo sintoma do velho problema de presso. A conferncia de paz seria rdua: Gus torcia para que Wilson aguentasse firme.
Rosa tambm estava no trem. Gus sentou-se em frente a ela no estofado brocado do vago-restaurante.
-		Estava me perguntando se o veria aqui - disse ela. Parecia feliz por t-lo encontrado.
-		O Exrcito me liberou - disse Gus, que ainda usava seu uniforme de capito.
-		L nos Estados Unidos, Wilson foi duramente criticado pela escolha de seus colaboradores. O que no inclui voc,  claro...
-		Sou peixe pequeno.
-		Mas alguns disseram que ele no deveria ter trazido a mulher.
Gus deu de ombros. Aquilo parecia irrelevante. Depois da experincia do campo de batalha, seria difcil levar a srio algumas das preocupaes que as pessoas tinham em tempos de paz.
-		E, o que  mais importante, ele no trouxe nenhum republicano.
-		Ele quer aliados na equipe, no inimigos - falou Gus, indignado.
-		Ele precisa de aliados nos Estados Unidos tambm - disse Rosa. - J perdeu o Congresso.
Ela estava certa, e Gus se lembrou de como Rosa era inteligente. As eleies para a Cmara dos Representantes e o Senado realizadas no meio de seu mandato haviam sido desastrosas para Wilson. Os republicanos tinham ganhado o controle das duas casas.
-		Como isso aconteceu? - quis saber ele. - Fiquei totalmente fora do ar nesse perodo.
-		O povo est farto de racionamentos e preos altos e o final da guerra no chegou a tempo de ajudar. Alm disso, os liberais odeiam a Lei de Espionagem. Ela permitiu a Wilson prender qualquer um que discordasse da guerra. E ele no teve o menor pudor de us-la: Eugene Debs foi condenado a 10 anos. - Debs era o candidato socialista  eleio presidencial. Rosa ento concluiu em um tom raivoso: - Voc no pode jogar seus opositores na cadeia e, ao mesmo tempo, fingir acreditar na liberdade.
Gus se lembrou de quanto gostava do duelo de espadas que era debater um assunto com Rosa.
-		Na guerra, a liberdade s vezes precisa ser comprometida - disse ele.
-		Obviamente, os eleitores americanos no pensam assim. E tem mais uma coisa: Wilson instaurou a segregao nos departamentos do governo.

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   Gus no sabia se os negros algum dia poderiam ser alados ao mesmo nvel dos brancos, porm, como a maioria dos norte-americanos liberais, achava que a melhor forma de descobrir era lhes dar oportunidades melhores e ver o que acontecia. Wilson e sua mulher, no entanto, eram sulistas - e no compartilhavam essa opinio.
  -		Edith no quis levar sua criada para Londres por medo de que a moa ficasse mal-acostumada - disse Gus. - Segundo ela, os britnicos so educados demais com os negros.
  -		Woodrow Wilson no  mais o queridinho da esquerda nos Estados Unidos - concluiu Rosa. - O que significa que ele vai precisar de apoio republicano para sua Liga das Naes.
  -		Imagino que Henry Cabot Lodge esteja se sentindo esnobado. - Lodge era um republicano de direita.
  -		Voc sabe como so os polticos - disse Rosa. - Parecem garotinhas de to melindrosos, s que so mais vingativos. Lodge  presidente do Comit de Relaes Exteriores do Senado. Wilson deveria t-lo trazido a Paris.
  -		Mas Lodge  contra a prpria ideia de uma Liga das Naes! - protestou Gus.
  -		Saber escutar pessoas inteligentes que discordam das suas opinies  um talento raro, mas que um presidente deveria ter. E trazer Lodge para c iria neutraliz-lo. Como membro da equipe, ele no poderia voltar para casa e lutar contra o que tivesse sido decidido em Paris.
   Novamente, Rosa tinha razo, sups Gus. No entanto, o idealista Wilson acreditava que a fora do que era certo poderia superar qualquer obstculo. Ele subestimava a necessidade de bajular, convencer e seduzir.
   Em homenagem ao presidente, a comida estava boa. Foi servido um linguado fresco do Atlntico ao molho de manteiga. Desde antes da guerra que Gus no comia to bem. Achou divertido ver como Rosa devorava seu prato. Onde uma mulher pequena como ela conseguia guardar tanta comida?
   Aps a refeio, serviram-lhes um caf forte em xcaras bem pequenas. Gus percebeu que no queria se retirar para sua cabine e deixar Rosa. Estava interessado demais, em conversar com ela.
  -		Seja como for, Wilson estar em uma posio muito favorvel em Paris - disse ele.
   Rosa aparentou ceticismo:
  -		Como assim?
  -		Bem, em primeiro lugar, ns ganhamos a guerra para os Aliados.
   
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Ela aquiesceu:
-		"Em Chteau-Thierry, ns salvamos o mundo", disse Wilson.
-		Chuck Dixon e eu lutamos nessa batalha.
-		Foi l que ele morreu?
-		Atingido em cheio por uma bomba. Foi a primeira baixa que eu presenciei. Infelizmente, no foi a ltima.
-		Fico muito sentida, sobretudo pela mulher dele. Conheo Dris h anos, ns tivemos a mesma professora de piano.
-		Mas no sei se ns salvamos o mundo - prosseguiu Gus. - Houve muito mais franceses, britnicos e russos mortos do que americanos. Mas ns desequilibramos a balana. Isso deve servir de alguma coisa.
Ela sacudiu a cabea, agitando os cachos escuros.
-		Discordo. Com a guerra terminada, os europeus no precisam mais de ns.
-		Aparentemente, homens como Lloyd George pensam que o poderio militar norte-americano no pode ser ignorado.
-		Ento ele est enganado - disse Rosa. Gus ficou surpreso e intrigado ao ouvir uma mulher falar sobre um assunto daqueles com tamanha convico. - Imagine que os franceses e britnicos simplesmente se recusem a apoiar Wilson - disse ela. - Ele por acaso usaria o Exrcito para impor suas ideias? No. E, mesmo que quisesse fazer isso, um Congresso republicano no permitiria.
-		Ns temos poder econmico e financeiro.
-		Com certeza os Aliados nos devem muito dinheiro, mas no sei bem quanto poder de barganha isso nos d. Existe um ditado que diz: se voc deve 100 dlares, est na palma da mo do banco; mas, se deve um milho,  o banco que est na palma da sua mo.
Gus estava comeando a ver que a tarefa de Wilson talvez fosse mais difcil do que ele previra.
-		Est bem, mas e quanto  opinio pblica? Voc viu como Wilson foi recebido em Brest. A Europa em massa est confiando nele para criar um mundo pacfico.
-		Esse  seu maior trunfo. As pessoas esto fartas de carnificina. "Nunca mais",  o grito delas. S espero que Wilson consiga lhes dar o que querem.
Os dois voltaram para suas cabines e se despediram. Gus passou um bom tempo acordado, pensando em Rosa e em suas palavras. Ela era de fato a mulher mais inteligente que havia conhecido na vida. E era linda, tambm. Por algum motivo, era fcil se esquecer do seu olho. A princpio, parecia uma deformidade terrvel, mas, depois de algum tempo, Gus parou de reparar nele.

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   Contudo, Rosa havia se mostrado pessimista em relao  conferncia. E tudo o que ela dizia era verdade. Gus agora via que Wilson tinha uma batalha pela frente. Estava exultante por ser parte daquela equipe e decidido a fazer tudo ao seu alcance para transformar os sonhos do presidente em realidade.
   Durante a madrugada, ele olhou pela janela do trem que seguia para o leste, atravessando a Frana. Ao cruzarem uma cidade, Gus ficou surpreso ao ver uma multido nas plataformas da estao e na estrada paralela  ferrovia assistindo  passagem deles. Estava escuro, mas a luz das lamparinas deixava as pessoas claramente visveis. Eram milhares: homens, mulheres e crianas. Ningum aplaudia, o silncio era quase total. Viu que homens e meninos tiraram os chapus - um gesto de respeito que o comoveu de tal forma que ele quase chorou. Aquelas pessoas haviam esperado metade da noite para ver o trem que transportava a esperana do mundo.
   
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	CAPTULO TRINTA E CINCO
Dezembro de 1918 a fevereiro de 1919

      Os votos foram contados trs dias depois do Natal. Eth e Bernie Leckwith
      estavam na prefeitura de Aldgate para ouvir os resultados. Bernie sobre o palanque com seu melhor terno, Eth na plateia.
Bernie perdeu.
Ele se manteve impassvel, mas Ethel chorou. Para Bernie, era o fim de um sonho. Talvez tivesse sido um sonho bobo, porm isso no diminua sua tristeza, e ela ficou desolada pelo marido.
O candidato liberal tinha apoiado a coalizo de Lloyd George, de modo que no houvera candidato conservador. Consequentemente, os votos dos conservadores migraram para os liberais e os trabalhadores ficaram impotentes diante dessa combinao.
Bernie parabenizou o adversrio vitorioso e desceu do palanque. Os outros membros do Partido Trabalhista tinham uma garrafa de usque e queriam afogar as mgoas, mas Bernie e Ethel foram para casa.
-		Eu no fui feito para isso, Eth - disse Bernie enquanto ela fervia gua para um chocolate quente.
-		Voc fez um bom trabalho - respondeu ela. - Aquele desgraado do Lloyd George nos passou a perna.
Porm Bernie sacudiu a cabea.
-		Eu no sou um lder - disse ele. - Sou um pensador, um planejador. J tentei muitas vezes conversar com as pessoas como voc faz, deix-las entusiasmadas pela nossa causa, mas nunca consegui. As pessoas amam voc s de ouvir a sua voz. Essa  a diferena.
Ethel sabia que ele tinha razo.
Na manh seguinte, os jornais mostraram que o resultado de Aldgate havia sido espelhado por todo o pas. A coalizo conquistara 525 dos 707 assentos, uma das maiorias mais significativas da histria do Parlamento. O povo havia votado no homem que vencera a guerra.
Ethel estava muito decepcionada. Os velhos continuavam a governar o pas. Naquele momento, os polticos que haviam causado milhes de mortes estavam comemorando como se tivessem feito algo maravilhoso. Mas o que eles tinham

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conseguido? Dor, fome, destruio. Dez milhes de homens e rapazes haviam morrido em vo.
A nica centelha de esperana era que o Partido Trabalhista havia ganhado mais destaque. De 42 assentos parlamentares, eles tinham passado para 60.
Os maiores prejudicados foram os liberais anti-Lloyd George. Eles haviam conquistado apenas 30 distritos eleitorais, sendo que o prprio Asquith perdera sua cadeira no Parlamento.
-		Isso pode ser o fim do Partido Liberal - disse Bernie enquanto passava banha no po para o almoo. - Eles decepcionaram as pessoas, e a oposio agora  o Partido Trabalhista. Esse talvez seja o nosso nico consolo.
Pouco antes de sarem para o trabalho, o correio chegou. Ethel deu uma olhada na correspondncia enquanto Bernie amarrava os cadaros dos sapatos de Lloyd. Havia uma carta de Billy escrita em cdigo. Ela se sentou  mesa da cozinha para decodific-la.
Sublinhou as palavras-chave com um lpis, anotando-as em um bloquinho.  medida que decifrava a mensagem, foi ficando cada vez mais fascinada.
-		Voc sabe que Billy est na Rssia - disse ela a Bernie.
-		Sei.
-		Bom, segundo ele, nosso Exrcito est l para lutar contra os bolcheviques. O Exrcito americano tambm est l.
-		Isso no me espanta.
-		Sim, mas escute, Bern - disse ela. - Ns sabemos que o Exrcito Branco no tem condies de derrotar os bolcheviques. Mas e se os exrcitos estrangeiros entrarem na dana? Tudo pode acontecer!
Bernie assumiu uma expresso pensativa.
-		Eles podem reinstaurar a monarquia.
-		O povo deste pas no vai aceitar isso.
-		O povo deste pas no sabe o que est acontecendo.
-		Ento  melhor ns avisarmos - disse Ethel. - Vou escrever um artigo.
-		Quem vai publicar?
-		Veremos. Talvez o Daily Herald. - O Herald era um jornal de esquerda. - Voc pode levar Lloyd at a casa da bab?
-		Posso, claro.
Depois de pensar por um minuto, Ethel escreveu no topo de uma folha de papel:
DEIXEM A RSSIA EM PAZ!

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Andar por Paris levou Maud s lgrimas. Pilhas de escombros se acumulavam ao longo dos amplos bulevares, nos locais atingidos pelas bombas alems. Os prdios majestosos exibiam janelas remendadas com tbuas, trazendo-lhe a lembrana dolorosa de que seu belo irmo agora tinha o olho deformado. As fileiras de rvores das alamedas estavam falhadas, pois, aqui e ali, castanheiros ou pltanos muito antigos haviam sido sacrificados em troca de madeira. Metade das mulheres vestia preto em sinal de luto e, nas esquinas, soldados aleijados pediam esmola.
   Ela tambm chorava por Walter. No recebera nenhuma resposta  sua carta. Informara-se sobre ir  Alemanha, mas era impossvel. J havia sido difcil conseguir permisso para ir a Paris. Chegara a nutrir esperanas de que Walter talvez fosse at l com a delegao alem, mas no havia delegao alem alguma: os pases derrotados no tinham sido convidados para a conferncia de paz. Os Aliados vitoriosos pretendiam discutir um acordo entre si e depois apresentar aos perdedores um tratado para assinar.
   Enquanto isso, faltava carvo e fazia muito frio em todos os hotis. Maud ocupava uma sute no Majestic, onde estava baseada a delegao britnica. Para se protegerem contra espies franceses, os britnicos haviam substitudo todos os funcionrios por seu prprio pessoal. Consequentemente, a comida era difcil de engolir: mingau no caf da manh, legumes cozidos demais e caf ruim.
   Vestindo um casaco de peles de antes da guerra, Maud foi encontrar Johnny Remarc no Fouquets, um restaurante nos Champs-Elyses.
   -		Obrigada por possibilitar minha vinda a Paris - disse ela.
   -		Fao qualquer coisa por voc, Maud. Mas por que estava querendo tanto vir para c?
   Ela no iria dizer a verdade, muito menos a algum que adorava fofocar.
   -		Para fazer compras - respondeu. - Faz quatro anos que no compro um vestido novo.
   -		Ah, no me venha com essa conversa - disse ele. - No h quase nada para comprar aqui, e o pouco que h custa uma fortuna. Mil e quinhentos francos por um vestido! Nem Fitz deixaria uma coisa dessas. Acho que voc deve ter um amante francs.
   -		Quem me dera. - Ela mudou de assunto. - Encontrei o carro de Fitz. Voc sabe onde posso conseguir gasolina?
   -		Vou ver o que posso fazer.
   
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Eles pediram o almoo.
-		Voc acha que ns vamos mesmo fazer os alemes pagarem bilhes de indenizao? - perguntou Maud.
-		Eles no esto em condies de se opor - respondeu Johnny. - Depois da guerra franco-prussiana, obrigaram a Frana a pagar cinco bilhes de francos, e os franceses quitaram a dvida em trs anos. E em maro do ano passado, no Tratado de Brest-Litovsk, a Alemanha fez os bolcheviques se comprometerem a pagar seis bilhes de marcos, embora esse valor no v mais ser pago, por motivos bvios. Seja como for, a virtuosa indignao da Alemanha soa hipcrita.
Maud detestava quando as pessoas falavam com rispidez sobre os alemes. Era como se, pelo simples fato de eles terem perdido, fossem animais. Caso ns fssemos os perdedores, teve vontade de dizer, seramos forados a dizer que a guerra era nossa culpa e pagar por tudo?
-		Mas ns estamos pedindo muito mais. Vinte e quatro bilhes de libras, no total, enquanto os franceses esto exigindo quase o dobro.
-		 difcil argumentar com os franceses - disse Johnny. - Eles nos devem 600 milhes de libras, e mais ainda aos americanos; mas, se ns lhes negarmos o direito  indenizao alem, vo dizer que no podem nos pagar.
-		E os alemes podem pagar o que estamos pedindo?
-		No. Segundo meu amigo Pozzo Keynes, eles podem pagar cerca de um dcimo, ou seja, dois bilhes de libras, mas isso pode arruinar o pas.
-		Voc est se referindo a John Maynard Keynes, o economista de Cambridge?
-		Isso. Ns o chamamos de Pozzo.
-		Eu no sabia que ele era um dos seus... amigos.
Johnny sorriu.
-		Ah, sim, minha querida, voc nem imagina.
Maud sentiu uma inveja momentnea da alegre devassido de Johnny. Havia se esmerado em reprimir a prpria necessidade de amor fsico. Fazia quase dois anos que no era tocada por um homem. Ela se sentia uma freira velha, enrugada e ressequida.
-		Mas que carinha triste! - Johnny no deixava passar muita coisa. - Espero que voc no esteja apaixonada por Pozzo.
Ela riu, voltando em seguida a falar de poltica:
-		Se ns sabemos que os alemes no podem pagar, por que Lloyd George est insistindo?
-		Eu lhe fiz essa pergunta pessoalmente. Ns nos conhecemos bem desde que ele era ministro das Munies. Segundo ele, todos os participante do conflito vo

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acabar simplesmente pagando suas dvidas e ningum vai embolsar indenizao nenhuma.
   -		Ento por que esse teatro todo?
   -		Porque, no fim das contas, quem vai pagar pela guerra so os contribuintes de cada pas, mas qualquer poltico que lhes dissesse isso nunca mais ganharia uma eleio.
Gus compareceu s reunies dirias da Comisso da Liga das Naes. O grupo tinha a funo de redigir a minuta do acordo que daria origem  liga. O prprio Woodrow Wilson presidia a comisso, e estava com pressa.
   Wilson havia dominado completamente o primeiro ms da conferncia. Rechaara as pretenses francesas de priorizar as indenizaes devidas pela Alemanha e deixar a liga em segundo plano, insistindo para que esta estivesse includa em qualquer tratado assinado por ele.
   A Comisso da Liga se reuniu no luxuoso Htel Crillon, na Place de la Concorde. Os elevadores hidrulicos eram antigos e lentos, e s vezes ficavam parados entre dois andares enquanto a presso da gua aumentava. Gus achava aqueles elevadores bem parecidos com os diplomatas europeus, que gostavam mesmo era de uma discusso demorada e s tomavam uma deciso quando forados. Riu por dentro ao ver que tanto os diplomatas quanto os elevadores deixavam o presidente norte-americano irritadio e resmungando de impacincia.
   Os 19 membros da comisso se acomodaram ao redor de uma grande mesa coberta por uma toalha vermelha. Todos contavam com seus respectivos intrpretes, sentados s suas costas e murmurando em seus ouvidos, e com assessores que se espalhavam pela sala, com pastas e cadernos nas mos. Gus notou que os europeus ficaram impressionados com a capacidade de seu chefe de fazer a pauta avanar. Algumas pessoas tinham dito que a redao do pacto levaria meses, ou at anos; enquanto outros diziam que as naes jamais chegariam a um acordo. Contudo, para felicidade de Gus, em 10 dias eles estavam prestes a concluir a minuta.
   Wilson precisava voltar aos Estados Unidos no dia 14 de fevereiro. No tardaria a retornar  Europa, porm estava determinado a levar uma primeira verso do acordo para casa.
   Infelizmente, na tarde anterior  sua partida, os franceses criaram um grande empecilho. Eles propuseram que a Liga das Naes tivesse o seu prprio exrcito.
   Desesperado, Wilson revirou os olhos.
   
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  -		Impossvel - grunhiu.
  Gus sabia por qu. O Congresso jamais autorizaria que soldados norte-americanos fossem controlados por outra entidade.
  O representante francs, o ex-primeiro-ministro Lon Bourgeois, argumentou
que a liga seria ignorada se no tivesse o poder de impor suas decises.
  Gus compartilhava a frustrao de Wilson. Havia outras formas de a liga pressionar as naes recalcitrantes: diplomacia, sanes econmicas e, em ltimo
caso, um exrcito ad hoc, que seria usado para uma misso especfica e desmantelado assim que ela fosse concluda.
  Bourgeois, no entanto, disse que nada disso teria protegido a Frana da
Alemanha. Os franceses no conseguiam se concentrar em mais nada. Talvez
fosse at compreensvel, pensou Gus, mas no era assim que criariam uma nova
ordem mundial.
  Lorde Robert Cecil, que havia redigido boa parte da minuta, ergueu um dedo
ossudo para falar. Wilson fez que sim com a cabea: gostava de Cecil, que era um
grande defensor da liga. Porm nem todos concordavam: Clemenceau, o primeiro-ministro francs, dizia que, quando Cecil sorria, ficava parecido com um drago chins.
  -		Perdoem-me se pareo indelicado - disse Cecil. - Mas a delegao francesa
est dizendo que, como a liga talvez no venha a ser to forte quanto o esperado,
ela vai rejeit-la em sua totalidade. Permitam-me ressaltar com muita franqueza
que, nesse caso, quase certamente haver uma aliana bilateral entre a Gr-
-Bretanha e os Estados Unidos que no ofereceria nada  Frana.
  Gus se esforou para no sorrir. Tomem essa, pensou.
  Parecendo chocado, Bourgeois retirou sua emenda.
  Do outro lado da mesa, Wilson lanou um olhar grato para Cecil.
  O representante japons, baro Makino, pediu a palavra. Wilson assentiu e
olhou para o relgio.
  Makino citou a clusula do acordo, j aprovada, que garantia a liberdade religiosa. Ele desejava acrescentar uma emenda no sentido de que todos os membros
da liga tratariam com equanimidade os cidados dos outros pases, sem discriminao racial.
  O semblante de Wilson congelou.
  Mesmo traduzido, o discurso de Makino foi eloquente. Homens de raas diferentes haviam combatido lado a lado na guerra, assinalou ele.
  -		Um elo comum de solidariedade e gratido foi criado. - A liga seria uma
grande famlia de naes. No era bvio que elas deveriam se tratar como iguais?
  
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   Isso deixou Gus preocupado, mas no surpreso. J fazia uma ou duas semanas que os japoneses vinham falando nisso. O assunto havia causado temor entre os australianos e os californianos, que desejavam manter os japoneses longe de seus territrios. Wilson, por sua vez, que no pensava por um instante sequer que os negros norte-americanos eram seus iguais, ficara desconcertado. Contudo, foi entre os britnicos que a proposta gerou mais aflio. Afinal, eles governavam de forma no democrtica centenas de milhes de pessoas de raas diferentes - e no queriam que elas se considerassem to boas quanto seus dominadores brancos.
   Mais uma vez, foi Cecil quem falou.
   -		Infelizmente, essa  uma questo muito controversa - disse ele, fazendo Gus quase acreditar no seu pesar. - A mera sugesto de que fosse discutida bastou para criar discrdia.
   Um burburinho de aprovao percorreu a mesa.
   -		Em vez de adiarmos a aprovao de um acordo preliminar - prosseguiu Cecil -, talvez devssemos adiar a discusso da, bem, da discriminao racial para outra ocasio.
   O primeiro-ministro grego disse:
   -		A questo da liberdade religiosa como um todo tambm  um assunto delicado. Talvez fosse melhor que a deixssemos de lado por enquanto.
   -		At hoje, o meu governo nunca assinou um tratado que no levasse em conta Deus! - disse o representante portugus.
   -		Talvez seja hora de todos corrermos esse risco - falou Cecil, que era muito religioso.
   Ouviram-se algumas risadinhas discretas, ao que Wilson, claramente aliviado, concluiu:
   -		Se estamos de acordo em relao a isso, vamos seguir em frente.
No dia seguinte, Wilson compareceu ao Ministrio das Relaes Exteriores francs, no Quai d'Orsay, e leu a minuta do acordo diante de uma sesso plenria da Conferncia de Paz de Paris na clebre Sala dos Relgios, sob os imensos lustres que pareciam estalactites de uma caverna polar. Naquela noite, embarcou de volta para casa. O dia seguinte era um sbado e  noite Gus saiu para danar.
   Ao cair da noite, Paris era uma festa. A comida ainda era escassa, mas parecia haver bastante bebida. Os rapazes deixavam abertas as portas de seus quartos de hotel, para que enfermeiras da Cruz Vermelha pudessem entrar sempre que 
   
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precisassem de companhia. A moralidade convencional parecia ter sido temporariamente suspensa. Ningum tentava esconder seus casos amorosos. Homens efeminados haviam parado de fingir virilidade. O Larue se tornou um restaurante de lsbicas. Dizia-se que a falta de carvo era um mito inventado pelos franceses para que todos se aquecessem  noite indo para a cama com os amigos.
   Tudo era caro, mas Gus tinha dinheiro. Tinha outras vantagens tambm: conhecia Paris e sabia falar francs. Foi s corridas de cavalos em Saint-Cloud, assistiu  pera La Bohme e a um musical audacioso chamado Phi Phi. Como era prximo do presidente, recebia convites para todas as festas.
   Ele se pegou passando cada vez mais tempo na companhia de Rosa Hellman. Em suas conversas, precisava tomar o cuidado de lhe dizer apenas coisas que gostaria de ler no jornal, mas o hbito de ser discreto j lhe era automtico. Gostava de Rosa, mas era s isso. Ela estava sempre disposta a sair com ele, mas que reprter recusaria o convite de um assessor da presidncia? Gus nunca podia segurar sua mo, ou tentar lhe dar um beijo de boa-noite, por medo de que ela pensasse que estava tirando vantagem de sua posio, uma vez que ela no poderia se dar ao luxo de ofend-lo.
   Ele a encontrou no Ritz para tomar um coquetel.
  -		O que so coquetis? - quis saber ela.
  -		Bebidas fortes disfaradas para ficarem mais apresentveis. Esto na moda, eu juro.
   Rosa tambm estava na moda. Tinha os cabelos curtos. Seu chapu tipo cloche, em forma de sino, cobria-lhe as orelhas como o capacete de ao de um soldado alemo. Curvas e espartilhos haviam sado de moda, e seu vestido drapeado descia reto dos ombros at um cs surpreendentemente baixo. Paradoxalmente, ao ocultar suas formas, o vestido fazia Gus imaginar seu corpo sob o tecido. Ela usava batom e p de arroz, algo que as europeias ainda consideravam ousado.
   Os dois tomaram um martni cada e ento saram. Atraram muitos olhares ao cruzarem juntos o comprido saguo do Ritz: o homem alto e magro, de cabea grande, e sua companheira mida e caolha - ele de fraque, ela com seu vestido de seda azul-prata. Os dois pegaram um txi at o Majestic, onde todos os sbados os britnicos organizavam um baile muito popular.
   O salo estava lotado. Jovens assessores das delegaes, jornalistas do mundo inteiro e soldados liberados das trincheiras danavam jazz com enfermeiras e datilgrafas. Rosa ensinou Gus a danar o foxtrote, depois trocou de par e danou com um homem atraente de olhos escuros que fazia parte da delegao grega.
   Enciumado, Gus ps-se a zanzar pelo salo, conversando com conhecidos at
   
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topar com lady Maud Fitzherbert, que usava um vestido roxo e sapatos de bico pontudo.
-		Ol! - falou, surpreso.
Ela pareceu feliz em v-lo.
-		O senhor parece bem.
-		Tive sorte. Continuo inteiro.
Ela tocou a cicatriz em sua face.
-		Quase inteiro.
-		Foi s um arranho. Vamos danar?
Ele a tomou nos braos. Ela estava magra: Gus pde sentir seus ossos atravs do vestido. Comearam a danar uma valsa acelerada.
-		Como est Fitz? - perguntou Gus.
-		Bem, eu acho. Ele est na Rssia. Eu provavelmente no deveria dizer isso, mas no  segredo para mais ningum.
-		Vi que os jornais britnicos esto dizendo "Deixem a Rssia em paz".
-		Essa campanha est sendo conduzida por uma mulher que o senhor conheceu em Ty Gwyn, Ethel Williams, que agora se chama Eth Leckwith.
-		No me lembro dela.
-		Ela era a governanta.
-		Minha nossa!
-		Ela est virando uma fora importante na poltica britnica.
-		Como o mundo mudou.
Maud o puxou para mais perto e baixou a voz:
-		O senhor no teria notcias de Walter, teria?
Gus se lembrou do oficial de aspecto familiar que vira ser abatido em Chteau-Thierry, mas no poderia afirmar de forma alguma que tinha sido Walter, ento respondeu:
-		Nenhuma, sinto muito. Deve ser difcil para a senhorita.
-		Nenhuma informao sai da Alemanha e ningum tem permisso para entrar no pas!
-		Infelizmente, acho que a senhorita ter que esperar a assinatura do tratado de paz.
-		E quando isso vai acontecer?
Gus no sabia.
-		O acordo preliminar da liga est quase pronto, mas eles ainda esto longe de um consenso quanto ao valor que a Alemanha deve pagar em indenizaes.
-		Isso  uma tolice - disse Maud com amargura. - Ns precisamos que os 

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alemes sejam prsperos, para que as fbricas britnicas possam lhes vender carros, foges e aspiradores de p. Se destruirmos a economia deles, a Alemanha vai virar bolchevique.
-		O povo quer vingana.
-		O senhor se lembra de 1914? Walter no queria a guerra. A maioria dos alemes tambm no. Mas o pas no era uma democracia. O Kaiser foi instigado pelos generais. E, depois que a Rssia se mobilizou, eles no tiveram mais escolha.
-		 claro que eu me lembro. Mas as pessoas em geral, no.
A dana terminou. Rosa Hellman apareceu e Gus apresentou as duas. Elas conversaram um pouco, porm Rosa se mostrou estranhamente antiptica, de modo que Maud se afastou.
-		Aquele vestido custou uma fortuna - disse Rosa em tom rabugento. -  um Jeanne Lanvin.
Gus ficou perplexo.
-		Voc no gostou de Maud?
-		Est na cara que voc gosta.
-		Como assim?
-		Vocs dois estavam danando bem juntinhos.
Rosa no sabia sobre Walter. Mesmo assim, Gus no gostou de ser falsamente acusado de flertar.
-		Ela queria falar sobre um assunto bastante confidencial - disse ele, com um qu de indignao.
-		Aposto que sim.
-		No estou entendendo este seu comportamento - disse Gus. - Voc mesma foi danar com aquele grego seboso.
-		Ele  muito bonito, e no  nada seboso. E por que eu no deveria danar com outros homens? Afinal, voc no est apaixonado por mim nem nada.
Gus a encarou.
-		Oh! - disse ele. - Oh, cus... - De repente, sentiu-se confuso e indeciso.
-		O que foi agora?
-		Acabo de me dar conta de uma coisa... eu acho.
-		Vai me dizer o que  ou no?
-		Acho que sou obrigado - respondeu ele, com a voz trmula. Fez uma pausa.
Ela ficou esperando.
-		Bem, e ento? - perguntou, impaciente.
-		Eu estou apaixonado por voc.
Ela o encarou de volta em silncio. Depois de um longo intervalo, disse:

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-		Est falando srio?
Embora tivesse sido pego de surpresa pela ideia, ele no tinha a menor dvida.
-		Estou. Eu te amo, Rosa.
Ela abriu um leve sorriso.
-		Quem diria...
-		Imagino que esteja apaixonado por voc h muito tempo sem saber.
Ela aquiesceu, como se as suas suspeitas houvessem sido conformadas. A banda comeou a tocar uma msica lenta. Ela chegou mais perto.
Gus a tomou nos braos automaticamente, mas estava agitado demais para danar direito.
-		Acho que no vou conseguir...
-		No se preocupe. - Rosa sabia o que ele estava pensando. -  s fingir.
Ele arriscou alguns passos. Sua mente era um verdadeiro turbilho. Ela no dissera nada sobre os prprios sentimentos. Por outro lado, no tinha se afastado. Ser que haveria alguma chance de ela corresponder ao seu amor? Era evidente que gostava dele, mas isso no era a mesma coisa. Estaria ela perguntando a si mesma, naquele exato momento, o que sentia? Ou apenas tentando encontrar palavras gentis para rejeit-lo?
Quando ela ergueu os olhos para fit-lo, ele pensou que estivesse prestes a lhe dar a resposta, mas ento Rosa disse:
-		Por favor, Gus, me leve embora daqui.
-		Claro.
Ela pegou seu casaco. O porteiro do Majestic chamou um txi Renault vermelho.
-		Para o Maxims - disse Gus. O trajeto era curto, e eles o fizeram em silncio. Ele estava louco para saber o que Rosa estava pensando, mas no a apressou. Ela logo teria que lhe dizer.
O restaurante estava lotado, e as poucas mesas vagas, reservadas para os clientes que chegariam mais tarde. O chefe dos garons se disse dsol. Gus sacou a carteira, tirou uma nota de 100 francos e disse:
-		Uma mesa tranquila em um canto. - Um carto com a palavra Rserve foi levado embora e os dois se sentaram.
Optaram por um jantar leve e Gus pediu uma garrafa de champanhe.
-		Voc est to mudado - disse Rosa.
Ele ficou surpreso.
-		Eu no acho.
-		L em Buffalo, no passava de um rapaz tmido. Acho que ficava acanhado at comigo. Mas agora anda por Paris como se a cidade fosse sua.

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-		Nossa, assim eu fico parecendo arrogante.
-		Arrogante no, apenas seguro de si. Afinal de contas, voc trabalhou para um presidente e lutou em uma guerra. Essas coisas fazem diferena.
A comida chegou, mas nenhum dos dois comeu muito. Gus estava tenso demais. O que ela estaria pensando? Ser que o amava ou no? J deveria saber quela altura. Ele pousou o garfo e a faca, porm, em vez de lhe fazer a pergunta que tinha em mente, disse:
-		Voc sempre me pareceu bem confiante.
Ela riu.
-		No  incrvel?
-		Por qu?
-		Acho que fui confiante at os sete anos de idade, mais ou menos. Depois... bem, voc sabe como so as meninas no colgio. Todas querem ser amigas das mais bonitas. Eu tinha que brincar com as gordas, as feias e as que usavam roupas de segunda mo. Foi assim at a adolescncia. At mesmo trabalhar para o Buffalo Anarchist foi, de certa forma, uma atitude de quem se sentia excluda. Mas, quando me tornei editora, comecei a recuperar minha autoestima. - Ela tomou um gole de champanhe. - Voc ajudou.
-		Eu? - Gus estava surpreso.
-		Foi o seu jeito de falar comigo, como se eu fosse a pessoa mais inteligente e mais interessante de Buffalo.
-		O que provavelmente era verdade.
-		Sem contar Olga Vyalov.
-		Ah. - Gus corou. Lembrar-se da paixo por Olga fazia com ele se sentisse um tolo, mas no queria dizer isso, pois seria desmerec-la, o que era indigno de um cavalheiro.
Depois de terminarem o caf e pedirem a conta, Gus ainda no sabia o que Rosa sentia por ele.
No txi, segurou-lhe a mo e levou-a aos lbios.
-		Oh, Gus, eu gosto muito de voc - disse ela. Ele no soube como interpretar suas palavras. Mas o rosto dela estava virado para cima na direo do seu, quase como se esperasse alguma coisa. Ela queria mesmo que ele...? Gus tomou coragem e a beijou na boca.
Quando, por um instante que pareceu congelado no tempo, ela no reagiu, Gus se perguntou se havia feito a coisa errada. Ento ela deu um suspiro de satisfao e abriu os lbios.
Ah, pensou ele, feliz, ento est tudo bem.

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Ele a tomou nos braos e os dois foram se beijando at o hotel dela. Foi uma viagem curta demais. De repente, um porteiro estava abrindo a porta do txi.
-		Limpe a boca - disse Rosa ao sair. Gus sacou um leno e esfregou-o apressadamente no rosto. O linho branco voltou todo manchado de batom. Ele o dobrou com cuidado, guardando-o de volta no bolso.
Acompanhou-a at a porta.
-		Posso v-la amanh? - perguntou.
-		Que horas?
-		Cedo.
Ela riu.
-		Voc no sabe fingir, no , Gus? Adoro isso em voc.
Aquilo era bom. Adoro isso em voc no era a mesma coisa que Eu te amo, mas era melhor do que nada.
-		Ento est combinado - disse ele.
-		O que vamos fazer?
-		 domingo. - Ele disse a primeira coisa que lhe veio  cabea. - Poderamos ir  igreja.
-		Est bem.
-		Deixe-me lev-la  Notre-Dame.
-		Voc  catlico? - indagou ela, surpresa.
-		No, frequento a Igreja Episcopal, mas no pratico muito. E voc?
-		A mesma coisa.
-		No tem problema, podemos sentar nos fundos da igreja. Vou descobrir a que horas  a missa e telefono para voc no hotel.
Ela estendeu a mo e eles se cumprimentaram como amigos.
-		Obrigada por uma tima noite - disse ela em tom formal.
-		O prazer foi todo meu. Boa noite.
-		Boa noite - respondeu ela, antes de se virar e desaparecer no saguo do hotel.

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CAPTULO TRINTA E SEIS
De maro a abril de 1919

       Quando a neve derreteu e a terra russa dura como ferro se transformou em uma lama frtil e molhada, os Brancos fizeram um esforo descomunal para livrar seu pas da maldio do bolchevismo. A fora de 100 mil homens do almirante Kolchak, equipada de maneira capenga com uniformes e armamentos britnicos, saiu da Sibria e atacou os Vermelhos em uma frente de batalha que se estendia de norte a sul por mais de mil quilmetros.
   Fitz seguiu alguns quilmetros atrs do Exrcito Branco. Sob seu comando estavam os Aberowen Pais, alm de alguns canadenses e um punhado de intrpretes. Seu trabalho era dar apoio a Kolchak, supervisionando as comunicaes, o servio de inteligncia e o abastecimento.
   Fitz estava muito esperanoso. Talvez enfrentassem dificuldades, mas era inconcebvel permitir que Lnin e Trtski roubassem a Rssia.
   No incio de maro, ele estava na cidade de Ufa, do lado europeu dos montes Urais, lendo uma pilha de jornais britnicos da semana anterior. Algumas notcias de Londres eram boas, outras ms. Fitz adorou saber que Lloyd George havia nomeado Winston Churchill ministro da Guerra. De todos os polticos do alto escalo, Winston era o defensor mais fervoroso da interveno na Rssia. Porm, alguns dos jornais estavam tomando o partido contrrio. Fitz no ficou surpreso com o Daily Herald ou a New Statesman que, em sua opinio, j eram publicaes mais ou menos bolcheviques. Mas at mesmo o conservador Daily Express exibia a seguinte manchete: SAIAM DA RSSIA.
   Infelizmente, os jornais tambm conheciam detalhes exatos sobre o que estava acontecendo. Sabiam inclusive que os britnicos haviam ajudado Kolchak a dar o golpe que abolira o diretrio e o tornara governante supremo. Onde estariam conseguindo essas informaes? Ele ergueu os olhos do jornal. Estava aquartelado na Escola Superior de Comrcio da cidade, e seu ajudante de ordens estava sentado  mesa em frente.
  -		Murray - disse Fitz -, da prxima vez em que houver cartas dos homens para mandar para casa, traga-as primeiro para mim.
   Isso era uma irregularidade, e Murray pareceu hesitar.
  -		Como, senhor?
   
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   Fitz achou melhor explicar:
  -		Desconfio que informaes estejam vazando daqui. Os censores devem estar
dormindo no ponto.
  -		Talvez eles achem que podem relaxar, agora que a guerra na Europa terminou.
  -		Certamente. Seja como for, quero ver se o furo est na nossa parte do cano.
   A ltima pgina do jornal trazia uma fotografia da mulher que comandava a
campanha "Deixem a Rssia em paz", e Fitz ficou chocado ao reconhecer Ethel.
A ex-governanta de Ty Gwyn era agora, segundo o Express, secretria-geral do
Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Indstria Txtil.
   Fitz j havia ido para a cama com muitas mulheres desde ento - a mais recente delas era uma russa loura de cair o queixo em Omsk, amante entediada de um
general czarista gordo e beberro que era preguioso demais para com-la ele
mesmo. Ethel, no entanto, no lhe saa da memria. Ele se perguntava como seria
seu filho. O conde provavelmente tinha meia dzia de filhos bastardos espalhados pelo mundo, mas o de Ethel era o nico de quem tinha certeza de ser o pai.
   E era ela quem estava incitando os protestos contra a interveno na Rssia.
Agora Fitz sabia de onde estava vindo a informao. O maldito irmo dela era
sargento dos Aberowen Pais. Ele sempre fora um encrenqueiro, e Fitz no tinha
dvidas de que era a fonte de Ethel. Bem, pensou, vou peg-lo em flagrante, e as
consequncias vo ser amargas.
   Nas semanas seguintes, os Brancos avanaram depressa, pressionando os
perplexos Vermelhos, que pensavam que o governo siberiano era uma fora
moribunda. Se as tropas de Kolchak conseguissem se juntar a seus aliados em
Arkhangelsk, ao norte, e ao Exrcito Voluntrio de Denikin, ao sul, formariam
uma fora semicircular, uma cimitarra que descreveria uma curva de mais de
1.500 quilmetros a leste e avanaria de forma irresistvel rumo a Moscou.
   Ento, no final de abril, os Vermelhos contra-atacaram.
   A essa altura, Fitz j estava em Buguruslan, cidade terrivelmente empobrecida
em uma rea florestal cerca de 150 quilmetros a leste do rio Volga. As poucas
igrejas de pedra e prdios municipais dilapidados despontavam por sobre os
telhados de casas de madeira baixas, como ervas daninhas brotando de uma pilha
de lixo. Fitz estava sentado em uma sala ampla da prefeitura, acompanhado pela
unidade de inteligncia, analisando relatrios de interrogatrios de prisioneiros
No sabia haver nada de errado at olhar pela janela e ver os soldados maltrapi
lhos do exrcito de Kolchak cruzarem a cidade pela rua principal na direo
errada. Mandou um intrprete americano chamado Lev Peshkov perguntar aos
homens por que estavam recuando.

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   Peshkov voltou com uma histria lamentvel. Os Vermelhos tinham vindo do sul e lanado um ataque vigoroso, investindo contra o flanco esquerdo disperso do exrcito de Kolchak. Para evitar que sua fora fosse cortada ao meio, o comandante dos Brancos na regio, general Belov, ordenara a retirada para reorganizar as tropas.
   Poucos minutos depois, um desertor dos Vermelhos foi trazido para ser interrogado. Ele havia sido coronel durante o reinado do czar. O que tinha a dizer deixou Fitz consternado. Os Vermelhos tinham sido surpreendidos pela ofensiva de Kolchak, disse ele, mas logo se reorganizaram e renovaram seus suprimentos. Trtski declarara que o Exrcito Vermelho devia partir para a ofensiva no leste.
   -		Trtski acha que, se os Vermelhos fraquejarem, os Aliados reconhecero Kolchak como governante supremo; e que, quando isso acontecer, eles vo inundar a Sibria de soldados e provises.
   Era exatamente por isso que Fitz estava torcendo. Com seu russo de sotaque carregado, ele perguntou:
   -		Mas, ento, o que Trtski fez?
   O desertor respondeu rpido, e Fitz s entendeu o que ele falou depois de escutar a traduo de Peshkov.
   -		Ele recorreu a levas especiais de recrutas do Partido Bolchevique e aos sindicatos. A resposta foi incrvel. Vinte e duas provncias enviaram destacamentos. O Comit Provincial de Novgorod mobilizou metade de seus membros!
   Fitz tentou imaginar Kolchak obtendo uma reao como aquela de seus partidrios. Isso nunca iria acontecer.
   Ele voltou ao alojamento para empacotar suas coisas. Foi quase lento demais: os Pais foram embora pouco antes da chegada dos Vermelhos, e um punhado de homens ficou para trs. Quando a noite caiu, o exrcito ocidental de Kolchak j estava em franca retirada e Fitz embarcado em um trem de volta para os montes Urais.
   Dois dias depois, encontrava-se novamente na Escola Superior de Comrcio em Ufa.
   Nesse meio-tempo, o humor de Fitz ficou sombrio. Ele estava amargurado de raiva. Fazia cinco anos que estava em guerra e sabia reconhecer o momento em que a mar virava - conhecia os sinais. A guerra civil russa estava praticamente terminada.
   Os Brancos eram simplesmente fracos demais. Os revolucionrios iriam vencer. Nada poderia virar o jogo a no ser uma invaso aliada - o que era impossvel. Churchill j estava encrencado demais com o pouco que estava fazendo.
   
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Billy Williams e Ethel estavam garantindo que os reforos necessrios jamais fossem enviados.
Murray lhe trouxe uma sacola de correspondncia.
-		O senhor disse que queria ver as cartas dos homens para casa, coronel - disse ele, com um qu de reprovao na voz.
Fitz ignorou os escrpulos de Murray e abriu a sacola. Procurou por alguma correspondncia do sargento Williams. Ao menos uma pessoa poderia ser punida por aquela catstrofe.
Encontrou o que buscava. A carta do sargento Williams estava endereada a E. Williams, nome de solteira de sua irm: ele, sem dvida, temia que o nome de casada de Ethel pudesse chamar ateno para sua carta traioeira.
Fitz leu a carta. A caligrafia de Billy era grande e segura.  primeira vista, o texto parecia inocente, ainda que um pouco esquisito. Fitz, no entanto, havia trabalhado na Sala 40 e sabia reconhecer um cdigo. Preparou-se para quebrar aquele.
-		Mudando de assunto, coronel - disse Murray o senhor viu Peshkov, o intrprete americano, nestes dois ltimos dias?
-		No - respondeu Fitz. - O que houve com ele?
-		Parece que ns o perdemos, senhor.
Trtski estava exausto, mas no desanimado. As rugas de preocupao que lhe cobriam o rosto no diminuam o brilho de esperana em seus olhos. Com admirao, Grigori pensou que aquele homem era movido por uma crena inabalvel no que estava fazendo. Desconfiava que todos eles fossem assim; Lnin e Stlin tambm. Os trs tinham certeza de que sabiam o que devia ser feito, fosse qual fosse o problema, desde reforma agrria at tticas militares.
O mesmo no acontecia com Grigori. Junto de Trtski, tentou bolar a melhor reao ao avano dos Brancos, porm nunca se sentia seguro de que haviam tomado a deciso certa antes de os resultados ficarem claros. Talvez fosse por isso que Trtski era famoso mundo afora, enquanto Grigori no passava de mais um comissrio.
Como em muitas outras ocasies, Grigori estava no trem particular de Trtski, com um mapa da Rssia sobre a mesa.
-		Mal precisamos nos preocupar com os contrarrevolucionrios do norte - disse o lder.
Grigori concordou.

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  -		Segundo nosso servio de inteligncia, os soldados e marinheiros britnicos esto se amotinando nessa regio.
  -		E eles j perderam todas as esperanas de alcanar Kolchak e se juntar a ele. As tropas de Kolchak esto voltando o mais rpido possvel para a Sibria. Ns poderamos persegui-los pelos Urais, mas acho que temos assuntos mais importantes para resolver em outros lugares.
  -		No oeste?
  -		Sim, a situao l no est nada boa. Os Brancos esto sendo auxiliados por nacionalistas reacionrios na Letnia, na Litunia e na Estnia. Kolchak nomeou Yudenich comandante supremo de l, e ele tem o apoio de uma flotilha da Marinha britnica que est mantendo a nossa frota presa em Kronstadt. Mas eu estou mais preocupado ainda com o sul.
  -		O general Denikin.
  -		Ele tem cerca de 150 mil homens, apoiados por tropas francesas e italianas e mantidos pelos britnicos. Ns achamos que ele est planejando arremeter contra Moscou.
  -		Se me permite um comentrio, creio que a chave para derrot-los seja poltica, no militar.
   Trtski pareceu intrigado.
  -		Prossiga.
  -		Denikin faz inimigos por onde quer que passe. Os cossacos sob o seu comando roubam todo mundo. Sempre que ocupa uma cidade, rene todos os judeus e simplesmente os fuzila. Se as minas de carvo no conseguem cumprir as metas de produo, ele mata um em cada dez mineradores. E, como no poderia deixar de ser, executa todos os desertores de seu exrcito.
  -		Ns tambm - respondeu Trtski. - E matamos os aldees que escondem desertores.
  -		E os camponeses que se recusam a entregar seus cereais. - Grigori tivera que endurecer seu corao para aceitar essa necessidade brutal. - Mas eu conheo os camponeses, afinal meu pai era um deles. O que mais lhes importa  a terra. Muitas dessas pessoas ganharam terrenos considerveis com a revoluo e querem mant-los acontea o que acontecer.
  -		E da?
  -		Kolchak anunciou que a reforma agrria deveria ter por base o princpio da propriedade privada.
  -		O que significa que os camponeses teriam que devolver as plantaes que tomaram da aristocracia.
   
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-		E todo mundo sabe disso. Eu gostaria de mandar imprimir esse pronunciamento dele e de preg-lo na porta de todas as igrejas. Independentemente do que os nossos soldados faam, os camponeses vo nos preferir aos Brancos.
-		V em frente - disse Trtski.
-		Mais uma coisa. Declare uma anistia para os desertores. Por sete dias, qualquer um que voltar para o Exrcito no ser punido - sugeriu Grigori.
-		Outra medida poltica.
-		Duvido que isso v incentivar mais deseres, pois ser apenas por uma semana, mas pode nos trazer de volta alguns homens... sobretudo quando eles descobrirem que os Brancos querem tomar suas terras.
-		Pode tentar - disse Trtski.
Um ajudante entrou e prestou continncia.
-		Trago um relatrio estranho, camarada Peshkov, e achei que o senhor iria querer ouvi-lo.
-		Diga.
-		 sobre um dos prisioneiros que capturamos em Buguruslan. Ele estava com o exrcito de Kolchak, mas usava um uniforme americano.
-		Os Brancos tm soldados do mundo todo. Os imperialistas capitalistas naturalmente apoiam a contrarrevoluo.
-		A questo no  essa, senhor.
-		Qual o problema?
-		Senhor, ele est dizendo que  seu irmo.
A plataforma era comprida e a nvoa da manh estava cerrada, de modo que Grigori no conseguia ver a outra ponta do trem. Aquilo s podia ser algum tipo de erro, pensou, uma confuso de nomes ou uma traduo equivocada. Tentou se preparar para uma decepo, mas no conseguiu: seu corao batia acelerado e seus nervos pareciam latejar. H quase cinco anos que no via o irmo. Pensara muitas vezes que Lev deveria estar morto. E essa ainda podia ser a terrvel verdade.
Foi andando a passos lentos, tentando enxergar em meio  bruma. Se aquele homem fosse mesmo Lev, era bvio que estaria diferente. Nos ltimos cinco anos, Grigori perdera um dente da frente e uma orelha quase inteira, sendo que provavelmente tambm mudara de outras formas que nem sequer percebia. Em que aspectos Lev teria mudado?
Dali a alguns instantes, duas silhuetas emergiram da neblina branca: um 

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soldado russo usando um uniforme maltrapilho e sapatos de fabricao caseira e, ao seu lado, um homem que parecia americano. Seria Lev? O homem tinha os cabelos curtos, ao estilo americano, e no usava bigode. Tinha o rosto redondo dos soldados bem alimentados dos Estados Unidos, com ombros parrudos debaixo do elegante uniforme novo. Era uma farda de oficial, notou Grigori, cada vez mais incrdulo. Teria seu irmo se tornado um oficial americano?
  O prisioneiro o encarava de volta e, quando Grigori chegou mais perto, viu que aquele era de fato seu irmo. Lev estava mesmo diferente - e no apenas por causa de sua aparncia geral de elegante prosperidade. Era tambm sua postura, a expresso em seu rosto e, acima de tudo, seu olhar. Tinha perdido a arrogncia juvenil e adquirido um ar de cautela. Na verdade, havia virado um adulto.
  Quando os dois se aproximaram o suficiente para poderem se tocar, Grigori pensou em todas as formas como Lev o decepcionara, e uma enxurrada de recriminaes lhe veio aos lbios. No entanto, no deu voz a nenhuma delas e, em vez disso, abriu os braos e enlaou o irmo. Os dois se beijaram no rosto, deram-se tapinhas nas costas e tornaram a se abraar. Grigori ento percebeu que estava chorando.
  Depois de algum tempo, ele conduziu Lev at o trem e o levou para o vago que usava como escritrio. Grigori mandou seu ajudante trazer um ch. Os irmos se sentaram em duas poltronas desbotadas.
  -		Voc est no Exrcito? - perguntou Grigori, incrdulo.
  -		O alistamento  obrigatrio nos Estados Unidos.
  Fazia sentido. Lev nunca teria se alistado voluntariamente.
  -		E  oficial!
  -		Voc tambm - disse Lev.
  Grigori fez que no com a cabea.
  -		Ns abolimos as patentes no Exrcito Vermelho. Sou um comissrio militar.
  -		Mas ainda h homens que pedem ch e outros que vo buscar - disse Lev enquanto o ajudante entrava com as xcaras. - Ma ficaria orgulhosa, no?
  -		A ponto de explodir. Mas por que voc nunca me escreveu? Pensei que tivesse morrido!
  -		Ah, droga, eu sinto muito - falou Lev. - Fiquei me sentindo to mal por ter ficado com a sua passagem que queria escrever com a notcia de que poderia lhe mandar o dinheiro para outra. Ento fiquei adiando a carta at juntar mais dinheiro.
  Era uma desculpa esfarrapada, porm tpica de Lev. Ele preferia no ir a uma festa se no tivesse um palet elegante para vestir, e se recusava a entrar em um bar se no tivesse dinheiro para pagar uma rodada de bebidas.
  
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Grigori recordou mais uma traio:
-		Voc no me disse que Katerina estava grvida quando foi embora.
-		Grvida!? Eu no sabia.
-		Sabia, sim. Inclusive disse a ela para no me contar.
-		Ah. Devo ter me esquecido. - Desmascarado, Lev ficou com cara de tacho, mas no tardou a se recompor, inventando sua prpria acusao para contra-atacar.
-		Aquele navio em que voc me colocou no foi para Nova York! Ele nos largou em um fim de mundo chamado Cardiff. Tive que trabalhar meses para juntar dinheiro para outra passagem.
Grigori chegou at a se sentir culpado por alguns instantes, mas ento se lembrou de como Lev havia implorado pela passagem.
-		Talvez eu no devesse ter ajudado voc a fugir da polcia - disse ele em tom rspido.
-		Voc fez o melhor que pde por mim, acho - falou Lev com relutncia. Ento deu o sorriso caloroso que sempre fazia Grigori perdo-lo. - Como sempre
-		acrescentou. - Desde que Ma morreu. Grigori sentiu um n na garganta.
-		Mesmo assim - falou, concentrando-se para manter a voz firme -, ns deveramos fazer a famlia Vyalov pagar por ter nos enganado.
-		Eu consegui minha vingana - disse Lev. - Tem um Josef Vyalov em Buffalo. Eu comi a filha dele e ela engravidou. Da ele teve que me deixar casar com ela.
-		Meu Deus! Agora voc faz parte da famlia Vyalov?
-		Ele se arrependeu, foi por isso que me fez ser convocado. Est torcendo para eu morrer em combate.
-		Nossa, voc continua indo aonde seu pau manda? Lev deu de ombros.
-		Acho que sim.
Grigori tambm tinha algumas revelaes para fazer, e isso o deixava nervoso. Comeou dizendo com cautela:
-		Katerina teve um menino, seu filho. Ela o batizou de Vladimir. Lev pareceu contente:
-		 mesmo? Eu tenho um filho homem!
Grigori no teve coragem de dizer que Vladimir desconhecia a existncia de Lev e chamava Grigori de "papai". Em vez disso, falou:
-		Eu cuidei bem dele.
-		Eu sabia que iria cuidar.
Grigori sentiu uma conhecida pontada de indignao diante da maneira como

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Lev supunha que os outros iriam assumir as responsabilidades que ele largava pelo caminho.
-		Lev - prosseguiu ele -, eu me casei com Katerina. - Ele aguardou a reao indignada do irmo.
Lev, no entanto, manteve a calma.
-		Eu sabia que voc faria isso tambm.
Grigori ficou espantado.
-		O qu?
Lev aquiesceu.
-		Voc era louco por ela, e ela precisava de um homem responsvel, confivel, para criar o filho. Estava escrito.
-		Mas eu sofri horrores! - disse Grigori. Toda aquela agonia tinha sido em vo? - Fui torturado pela ideia de que estava sendo desleal com voc.
-		Ora, que nada. Eu a deixei em maus lenis. Boa sorte para vocs dois.
Grigori estava furioso com a forma casual como Lev reagia quilo tudo.
-		Voc alguma vez se preocupou conosco? - perguntou ele, incisivo.
-		Voc me conhece, Grishka.
 claro que Lev no havia se preocupado com eles.
-		Voc mal pensou em ns.
-		 claro que pensei em vocs. Pare de bancar o santo. Voc a desejava e se conteve durante algum tempo, anos talvez, mas no fim das contas acabou trepando com ela.
Era a verdade nua e crua. Lev tinha um jeito irritante de rebaixar todo mundo ao seu nvel.
-		Tem razo - disse Grigori. - De toda forma, ns agora temos uma filha tambm, Anna. Ela tem um ano e meio.
-		Dois adultos e duas crianas. No tem importncia. Eu tenho o suficiente.
-		Do que voc est falando?
-		Tenho ganhado um bom dinheiro vendendo usque dos depsitos militares britnicos para os cossacos por moedas de ouro. J acumulei uma pequena fortuna. - Lev enfiou a mo debaixo da camisa do uniforme, soltou uma fivela e retirou um cinturo cheio de dinheiro. - Aqui tem o suficiente para custear a ida de todos vocs para os Estados Unidos! - Ele entregou o cinturo a Grigori.
Aquilo deixou Grigori espantado e comovido. No fim das contas, Lev no esquecera a famlia. Tinha economizado o valor da passagem.  claro que o dinheiro s poderia ser entregue com extravagncia - era o jeito de Lev. Mas ele havia cumprido a promessa.

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Pena que fosse tudo em vo.
-		Obrigado - disse Grigori. - Estou orgulhoso por voc ter honrado seu compromisso. Mas, obviamente, j no h necessidade. Eu posso soltar voc e ajud-lo a retomar sua vida russa normal. - Ele lhe devolveu o cinturo com o dinheiro.
Lev apanhou o cinturo, segurando-o nas mos e olhando para ele.
-		Do que voc est falando?
Grigori viu que Lev parecia magoado e entendeu que ele ficara sentido com aquela recusa. No entanto, Grigori tinha uma preocupao mais grave em mente. O que aconteceria quando Lev e Katerina se reencontrassem? Ser que ela tornaria a se apaixonar pelo mais atraente dos dois irmos? O corao de Grigori gelava ante a possibilidade de perd-la, depois de tudo por que os dois haviam passado juntos.
-		Ns moramos em Moscou agora - disse ele. - Temos um apartamento no Kremlin, Katerina, Vladimir, Anna e eu. No seria problema algum arrumar um apartamento para voc...
-		Espere um instante - disse Lev, com uma expresso de incredulidade no rosto. - Voc acha que eu quero voltar para a Rssia?
-		Voc j voltou - disse Grigori.
-		Mas no para ficar!
-		No  possvel que queira voltar para os Estados Unidos.
-		 claro que eu quero! E voc deveria vir comigo.
-		Mas no h necessidade! A Rssia j no  como antes. O czar est morto!
-		Eu gosto dos Estados Unidos - disse Lev. - Vocs tambm vo gostar, todos vocs, especialmente Katerina.
-		Mas ns estamos fazendo histria aqui neste pas! Inventamos uma nova forma de governo, o soviete. Isto aqui  a nova Rssia, o novo mundo. Voc no est entendendo!
-		Quem no entende  voc - disse Lev. - Nos Estados Unidos tenho meu prprio carro, comida que no acaba mais, toda a bebida que quiser, todos os cigarros que conseguir fumar. Tenho cinco ternos!
-		De que adianta ter cinco ternos? - indagou Grigori, decepcionado. -  como ter cinco camas. Voc s consegue usar uma de cada vez!
-		Eu penso diferente.
O que tornava aquela conversa to irritante era o fato de Lev obviamente pensar que quem estava equivocado era Grigori. Ele no sabia mais o que dizer para mudar a cabea do irmo.
-		 isso mesmo que voc quer? Cigarros, roupas, um carro?

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-		 isso que todo mundo quer.  melhor vocs bolcheviques se lembrarem disso.
Grigori no iria aceitar lies de poltica de Lev.
-		Os russos querem po, paz e terra.
-		Seja como for, eu tenho uma filha nos Estados Unidos. O nome dela  Daisy. Ela tem trs anos.
Grigori fechou o rosto, desconfiado.
-		Sei o que voc est pensando - disse Lev -, que no dei a mnima para o filho de Katerina... Qual  mesmo o nome dele?
-		Vladimir.
-		Se no me importei com ele, por que me importaria com Daisy? Mas no  a mesma coisa. Nunca conheci Vladimir. Quando fui embora de Petrogrado, ele ainda nem era gente. Mas eu amo Daisy e, pode acreditar, ela me ama.
Pelo menos isso Grigori conseguia entender. Ficou feliz ao ver que Lev tinha um corao bom o suficiente para se apegar  filha. E, por mais que a preferncia de Lev pelos Estados Unidos o deixasse estupefato, no seu ntimo ele ficaria imensamente aliviado se o irmo no ficasse na Rssia. Pois, com certeza, ele iria querer conhecer Vladimir e, nesse caso, quanto tempo o menino demoraria para descobrir que Lev era seu verdadeiro pai? E, se Katerina decidisse trocar Grigori por Lev e levar Vladimir junto, o que aconteceria com Anna? Grigori iria perd-la tambm? Para ele, pensou, cheio de culpa, era muito melhor que Lev voltasse para os Estados Unidos sozinho. - Eu acho que voc est fazendo a escolha errada, mas no vou for-lo - disse ele.
Lev abriu um sorriso.
-		Est com medo de eu pegar Katerina de volta, no ? Conheo voc bem demais, irmo.
Grigori fez uma careta.
-		Estou - falou. - Com medo de que voc pegue Katerina de volta, depois a jogue fora de novo e eu tenha que juntar os cacos pela segunda vez. Tambm conheo voc.
-		Mas voc vai me ajudar a voltar para os Estados Unidos.
-		No. - Grigori no pde deixar de sentir um frmito de satisfao ao ver a expresso de medo que atravessou o semblante de Lev. Porm no quis prolongar sua agonia. - Vou ajud-lo a voltar para o Exrcito Branco. Eles que levem voc para os Estados Unidos.
-		Como faremos isso?
-		Ns vamos de carro at a linha de frente e depois vamos ultrapass-la um pouco. Ento eu o deixarei na terra de ningum. Depois disso, voc se vira sozinho.

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-		Eu posso levar um tiro.
-		Eu tambm. Estamos em guerra.
-		Acho que vou ter que correr esse risco.
-		Voc vai ficar bem, Lev - disse Grigori. - Sempre fica.
Billy Williams foi escoltado do presdio municipal de Ufa pelas ruas empoeiradas da cidade at a Escola Superior de Comrcio, que servia de quartel provisrio ao Exrcito britnico.
A corte marcial se reuniu em uma sala de aula. Fitz estava sentado atrs da mesa do professor, ladeado por seu ajudante de ordens, o capito Murray. O capito Gwyn Evans estava presente com um caderno de anotaes e um lpis na mo.
Billy estava sujo, com a barba por fazer e havia dormido mal em meio aos bbados e prostitutas da cidade. Fitz, como sempre, usava uma farda impecavelmente bem passada. Billy sabia que estava muito encrencado. O veredicto j estava decidido: as provas eram claras. Ele havia revelado segredos militares em cartas codificadas para a irm. Contudo, estava determinado a no deixar transparecer seu medo. Enfrentaria aquilo da melhor forma possvel.
-		Esta  uma corte marcial geral de campanha - comeou Fitz -, autorizada quando o acusado est prestando servio ou no estrangeiro e no  possvel instituir uma corte marcial geral segundo as normas habituais. So necessrios apenas trs oficiais para servir de juzes, ou dois, se no houver um terceiro disponvel. A corte pode julgar soldados de qualquer patente que tenham cometido qualquer tipo de ofensa e tem o poder de decretar a pena de morte.
A nica chance de Billy era influenciar a sentena. As punies possveis incluam pena de priso, trabalhos forados ou a morte. Fitz sem dvida gostaria de pr Billy diante de um peloto de fuzilamento, ou pelo menos de faz-lo passar vrios anos na cadeia. O objetivo de Billy era despertar em Murray e Evans dvidas suficientes quanto  parcialidade daquele julgamento para faz-los optar por uma pena de priso curta.
Ele perguntou:
-		Onde est meu advogado?
-		No  possvel lhe proporcionar auxlio jurdico - respondeu Fitz.
-		Tem certeza disso, senhor?
-		Fale apenas quando lhe dirigirem a palavra, sargento.

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-		Que fique registrado nos autos que eu no pude recorrer a um advogado - disse Billy. Ele encarou Gwyn Evans, o nico que segurava um caderno de anotaes. Quando Evans no tomou nenhuma atitude, Billy tornou a falar: - Ou ser que os autos deste julgamento vo ser uma mentira? - Ele enfatizou bastante a palavra mentira, sabendo que ela ofenderia Fitz. Dizer sempre a verdade fazia parte do cdigo de conduta do cavalheiro ingls.
Fitz aquiesceu para Evans, que fez uma anotao.
Um a zero para mim, pensou Billy, animando-se um pouco.
-		William Williams - disse Fitz -, o senhor  acusado de ter violado a parte um do regulamento do Exrcito. A acusao  que o senhor, de forma consciente e enquanto prestava servio, agiu deliberadamente no intuito de pr em risco o sucesso das foras de Sua Majestade. A pena para tanto  a morte, ou alguma punio mais branda que o tribunal venha a estabelecer.
A insistncia em enfatizar a pena de morte fez Billy ter calafrios, porm ele manteve o rosto impassvel.
-		O que o senhor se declara? Culpado ou inocente?
Billy respirou fundo. Falou com uma voz distinta, imprimindo o mximo de desprezo possvel em sua voz.
-		Como o senhor se atreve,  o que eu declaro - respondeu. - Como o senhor se atreve a fingir ser um juiz imparcial? Como se atreve a agir como se a nossa presena na Rssia fosse uma operao legtima? E como se atreve a acusar de traio um homem que lutou ao seu lado por trs anos?  isso que eu declaro.
-		Billy, meu rapaz, no seja insolente - disse Gwyn Evans. - Voc s vai piorar a sua situao.
Billy, que no iria deixar Evans se fingir de bonzinho, disse:
-		E o meu conselho ao senhor  sair daqui agora mesmo e se desvincular deste julgamento fajuto. Quando essa notcia vazar, e podem acreditar que ela vai sair na primeira pgina do Daily Mirror, vo descobrir que a desonra recair no sobre mim, mas sobre os senhores. - Ele olhou para Murray. - Todos os que tiverem participado desta farsa vo cair em desgraa.
Evans pareceu ficar preocupado. Evidentemente, no tinha pensado que aquilo pudesse vir a pblico.
-		J chega! - disse Fitz em voz alta, enfurecido.
timo, pensou Billy; j consegui deix-lo irritado.
-		Passemos s provas - continuou Fitz. - Capito Murray, tenha a bondade.
Murray abriu uma pasta e retirou dela uma folha de papel. Billy reconheceu a
prpria caligrafia. Conforme j esperava, era uma carta sua para Ethel.

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Murray lhe mostrou a correspondncia e perguntou:
-		O senhor escreveu esta carta?
-		Como ela chegou ao seu conhecimento, capito Murray? - rebateu Billy.
-		Responda  pergunta! - vociferou Fitz.
-		O senhor estudou em Eton, no foi, capito? - disse Billy - Um cavalheiro nunca leria a correspondncia alheia, ou pelo menos  o que se diz. No meu entender, apenas o censor oficial tem o direito de examinar as correspondncias dos soldados. Ento imagino que essa carta tenha chegado s suas mos por intermdio do censor. - Ele fez uma pausa. Como havia imaginado, Murray relutou em responder. Ele prosseguiu: - Ou a carta foi obtida por meios ilegais?
-		O senhor escreveu esta carta? - repetiu Murray.
-		Se ela tiver sido obtida por meios ilegais, no pode ser usada em um julgamento. Acho que  isso que um advogado diria. Mas no h nenhum advogado aqui. E  por isso que este julgamento  fajuto.
-		O senhor escreveu esta carta?
-		Responderei a essa pergunta depois que o senhor me explicar como ela chegou s suas mos.
-		O senhor sabe que pode ser punido por desacato - disse Fitz.
J estou sob o risco de pena de morte, pensou Billy, que burrice de Fitz achar que pode me ameaar! Mas o que disse foi:
-		Estou assinalando a irregularidade deste julgamento e a ilegalidade da acusao para me defender. O senhor vai proibir isso... capito?
Murray desistiu.
-		O remetente no envelope indica o endereo e o nome do sargento Billy Williams. Se o ru deseja alegar que no escreveu a carta, deve dizer isso agora.
Billy ficou calado.
-		A carta  uma mensagem em cdigo - continuou Murray. - Para decodific-la  preciso considerar apenas uma palavra a cada trs, bem como as iniciais em maiscula de ttulos de canes e filmes. - Murray entregou a carta a Evans. - Uma vez decodificada, ela diz o seguinte...
A mensagem de Billy descrevia a incompetncia do regime de Kolchak, dizendo que, apesar de todo o ouro de que dispunham, eles no haviam conseguido pagar os funcionrios da ferrovia transiberiana, de modo que continuavam com problemas de abastecimento e de transporte. Ela tambm detalhava a ajuda que o Exrcito britnico estava tentando proporcionar aos contrarrevolucionrios. Essa informao tinha sido escondida do povo britnico, que pagava pelo Exrcito e cujos filhos estavam arriscando suas vidas.

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-		O senhor nega ter enviado essa mensagem? - perguntou Murray a Billy.
-		No posso fazer comentrios sobre provas obtidas de forma ilegal.
-		A destinatria, E. Williams,  na verdade a Sra. Ethel Leckwith, lder da campanha "Deixem a Rssia em paz", correto?
-		No posso fazer comentrios sobre provas obtidas de forma ilegal.
-		O senhor j havia mandado outras cartas codificadas para ela antes?
Billy no respondeu.
-		E ela usou as informaes dadas pelo senhor para redigir matrias jornalsticas hostis, que desabonam o Exrcito britnico e pem em risco o sucesso de nossas aes aqui.
-		De forma alguma - disse Billy. - O Exrcito foi desabonado por aqueles que nos enviaram para uma misso secreta e ilegal, sem o conhecimento ou a aprovao do Parlamento. A campanha "Deixem a Rssia em paz"  o primeiro passo necessrio para que voltemos a desempenhar nosso verdadeiro papel: o de defensores da Gr-Bretanha, e no o de um exrcito particular de uma pequena conspirao de generais e polticos de direita.
Com grande satisfao, Billy viu que o rosto de traos bem marcados de Fitz estava vermelho de raiva.
-		Acho que j ouvimos o suficiente - disse Fitz. - O tribunal vai agora deliberar sobre o veredicto. - Murray murmurou alguma coisa, ao que Fitz acrescentou: - Ah, sim. O acusado tem algo a dizer?
Billy se colocou de p.
-		Gostaria de convocar minha primeira testemunha, o coronel conde Fitzherbert.
-		No seja ridculo - disse Fitz.
-		Que os autos registrem que o tribunal me negou o direito de interrogar uma testemunha, muito embora ela estivesse presente no julgamento.
-		Diga logo o que tem a dizer.
-		Se o direito de convocar uma testemunha no me houvesse sido negado, eu teria perguntado ao coronel qual  a sua relao com a minha famlia. Ele por acaso no nutre um rancor pessoal contra mim pelo fato de o meu pai ser um lder sindical dos mineradores? Qual era sua relao com a minha irm? Ele no a contratou como governanta para depois mand-la embora sem explicao? - Billy sentiu-se tentado a falar mais sobre Ethel, porm isso significaria denegrir o nome da irm. Alm do mais, aquela aluso provavelmente j bastava. - Tambm perguntaria qual  o interesse pessoal dele nesta guerra ilegal contra o governo bolchevique. Sua esposa no  uma princesa russa? Seu filho no  herdeiro de

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terras aqui? O coronel na verdade no estaria neste pas para defender seus interesses financeiros pessoais? E todas essas questes no seriam a verdadeira explicao para o fato de ele ter convocado este arremedo de julgamento? E isso no o desqualifica totalmente para julgar este caso?
   Fitz o encarava impassvel, mas tanto Murray quanto Evans pareciam chocados. Ambos desconheciam todas essas informaes pessoais.
   -		Tenho mais uma coisa a dizer - falou Billy. - O Kaiser alemo est sendo acusado de crimes de guerra. Esto dizendo que ele declarou guerra, incentivado por seus generais, contra a vontade do povo, expressa claramente por seus representantes no Reichstag, o parlamento daquele pas. A Gr-Bretanha, por sua vez, segundo dizem, s declarou guerra  Alemanha aps um debate na Cmara dos Comuns.
   Fitz fingiu estar entediado, porm Murray e Evans prestavam ateno no que Billy dizia.
   -		Agora tomemos esta guerra aqui na Rssia - continuou ele. - Ela nunca chegou a ser debatida no Parlamento britnico. Os fatos esto sendo escondidos do nosso povo sob o pretexto de segurana operacional, que sempre serve de desculpa para os segredos infames do Exrcito. Ns estamos lutando, mas a guerra nunca foi declarada. O primeiro-ministro britnico e seus colegas esto na mesmssima posio que o Kaiser e seus generais. So eles que esto agindo de forma ilegal, no eu. - Billy se sentou.
   Os dois capites se juntaram a Fitz para confabular. Billy se perguntou se teria exagerado na dose. Sentira necessidade de ser incisivo, mas talvez tivesse ofendido os capites em vez de conquistar seu apoio.
   No entanto, os juzes pareciam estar em conflito. Fitz falava enfaticamente, enquanto Evans fazia que no com a cabea. Murray parecia constrangido. Isso provavelmente era um bom sinal, pensou Billy. Ainda assim, nunca sentira tanto medo na vida. Nem quando havia enfrentado as metralhadoras do Somme ou durante a exploso na mina ele ficara to apavorado quanto naquele instante, com a vida nas mos de trs oficiais perversos.
   Por fim, eles pareceram chegar a um acordo. Fitz olhou para Billy e disse:
   -		Levante-se.
   Billy se levantou.
   -		Sargento William Williams, este tribunal o considera culpado da acusao que lhe foi feita. - Fitz encarou Billy, como se esperasse ver no seu rosto a humilhao da derrota. Billy, no entanto, j esperava aquele veredicto. O que temia era a sentena.
   
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-		O senhor est condenado a 10 anos de priso - disse Fitz.
Billy no conseguiu se manter imperturbvel. No tinha sido condenado 
pena de morte - mas a 10 anos de priso! Quando fosse solto, teria 30 anos. Eles
estariam em 1929. Mildred teria 35 anos. Metade de suas vidas j teria passado.
Seu semblante desafiador ruiu e seus olhos se encheram de lgrimas.
Uma expresso de profunda satisfao tomou conta do rosto de Fitz.
-		Est dispensado - disse ele.
Billy foi levado embora para comear sua sentena.

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CAPTULO TRINTA E SETE
Maio e junho de 1919

No primeiro dia do ms de maio, Walter von Ulrich escreveu uma carta para
Maud e a ps no correio da cidade de Versalhes.
   No sabia se ela estava viva ou morta. Desde Estocolmo no tinha notcias
suas. O servio postal entre a Alemanha e a Gr-Bretanha continuava suspenso,
de modo que aquela era sua primeira chance de lhe escrever em dois anos.
   Walter e o pai haviam chegado  Frana na vspera, junto com outros 180 polticos, diplomatas e funcionrios do Ministrio das Relaes Exteriores. Eles faziam
parte da delegao que participaria da conferncia de paz. A companhia ferroviria francesa havia diminudo a velocidade do trem especial em que viajavam
para faz-los passar bem devagar pela paisagem devastada do nordeste do pas.
   -		Como se ns fssemos os nicos que jogamos bombas aqui - comentou
Otto com irritao. De Paris, eles haviam sido conduzidos de nibus at a pequena cidade de Versalhes e deixados no hotel des Rservoirs. A bagagem do grupo
foi descarregada no ptio e eles foram grosseiramente instrudos a carreg-la
sozinhos. Estava claro que os franceses no se mostrariam magnnimos na vitria, pensou Walter.
   -		Eles no venceram, esse  o problema - disse Otto. - Podem no ter perdido
de verdade, porque foram salvos pelos britnicos e pelos americanos, mas isso
no  motivo para se gabarem. Ns os derrotamos e eles sabem disso. Esto com
o orgulho ferido.
   O hotel era frio e soturno, porm magnlias e macieiras floresciam do lado de
fora. Os alemes puderam passear pelos jardins do majestoso chteau e visitar as
lojas. Havia sempre uma pequena multido em frente ao hotel. O povo comum
no era to cruel quanto seus representantes oficiais. s vezes algumas pessoas
vaiavam, mas em geral elas estavam apenas curiosas para ver o inimigo.
   Walter escreveu para Maud logo no primeiro dia. No fez meno ao casamento dos dois - ainda no tinha certeza de que fosse seguro e, de toda forma,
era difcil perder o hbito de agir em segredo. Disse a ela onde estava, descreveu
o hotel e as cercanias e lhe pediu que escrevesse de volta. Foi at a cidade, comprou um selo e postou a carta no correio.
   Ento, nervoso e cheio de esperana, ps-se a esperar a resposta. Se ela 
   
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estivesse viva, ser que ainda o amava? Tinha quase certeza de que sim. Porm dois anos haviam transcorrido desde que ela o abraara com ardor em um quarto de hotel em Estocolmo. O mundo estava cheio de homens que tinham voltado da guerra e descoberto que suas namoradas e esposas haviam se apaixonado por outra pessoa durante os longos anos de separao.
   Alguns dias depois, os lderes das delegaes foram convocados ao Hotel Trianon Palace, do outro lado do parque, e receberam com grande cerimnia cpias do tratado de paz redigido pelos Aliados vitoriosos. O documento estava em francs. De volta ao Hotel des Rservoirs, as cpias foram entregues a equipes de tradutores. Walter chefiava uma delas. Desmembrou sua parte do texto, distribuiu os diferentes trechos aos colegas e sentou-se para ler.
   O tratado era pior ainda do que ele imaginava.
   O Exrcito francs ocuparia a regio de fronteira da Rennia durante 15 anos. A regio alem do Saar se tornaria um protetorado da Liga das Naes, sendo que os franceses controlariam as minas de carvo locais. A Alscia e a Lorena seriam devolvidas  Frana sem plebiscito: o governo francs temia que a populao decidisse permanecer alem. O novo Estado polons ficaria to grande que passaria a incluir os lares de trs milhes de alemes e as minas de carvo da Silsia. A Alemanha perderia todas as suas colnias: os Aliados as haviam distribudo entre si como ladres dividindo um butim. E os alemes seriam forados a aceitar o pagamento de reparaes de valor indeterminado - em outras palavras, teriam que assinar um cheque em branco.
   Walter se perguntou que tipo de pas os Aliados queriam que a Alemanha virasse. Ser que estavam imaginando um gigantesco campo de escravos, em que todos vivessem em regime de racionamento e trabalhassem apenas para que seus senhores pudessem confiscar o que produziam? Se Walter fosse obrigado a virar um escravo desse tipo, como poderia cogitar montar uma casa com Maud e ter filhos?
   O pior de tudo, no entanto, era a clusula que imputava a culpa da guerra  Alemanha.
   O artigo 231 do tratado dizia: "Os Governos Aliados e Associados afirmam, e a Alemanha aceita, a responsabilidade da Alemanha e de seus aliados por todas as perdas e danos aos quais os Governos Aliados e Associados, bem como seus respectivos cidados, foram submetidos em consequncia da guerra a eles imposta pela agresso da Alemanha e seus aliados."
   - Isso  mentira - disse Walter, irado. - Uma mentira idiota, ignorante e perversa. - Ele sabia que a Alemanha no era inocente e dissera isso inmeras vezes ao pai. No entanto, tinha vivido as crises diplomticas do vero de 1914, 
   
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acompanhara cada passo do caminho rumo  guerra e sabia que nenhuma nao era culpada sozinha. A prioridade dos lderes de ambos os lados do conflito tinha sido defender seu prprio pas - nenhum deles tivera a inteno de afundar o mundo na pior guerra da histria: nem Asquith, nem Poincar, nem o Kaiser, nem o czar, nem o imperador austraco. Dizia-se que at mesmo Gavrilo Princip, o assassino de Sarajevo, ficara horrorizado ao compreender o que havia iniciado. Contudo, nem mesmo ele era responsvel por "todas as perdas e danos".
   Pouco depois da meia-noite, Walter topou com o pai. Ambos estavam fazendo uma pausa e tomando caf para ficar acordados e continuar o trabalho.
   -		 um acinte! - vociferou Otto. - Ns concordamos com um armistcio baseado nos 14 Pontos de Wilson, mas esse tratado no tem nada a ver com os 14 Pontos!
   Ao menos desta vez, Walter concordava com o pai.
   Pela manh, a traduo j havia sido impressa e cpias despachadas para Berlim por mensageiros especiais - um clssico exemplo da eficincia alem, pensou Walter, enxergando as virtudes do prprio pas com mais clareza agora que ele estava sendo denegrido. Exausto demais para dormir, resolveu dar uma volta at ficar relaxado o suficiente para ir se deitar.
   Saiu do hotel e foi em direo ao parque. Os rododendros estavam em flor. Era uma linda manh para a Frana, e uma manh triste para a Alemanha. Quais seriam os efeitos daquelas propostas no frgil governo social-democrata alemo? Ser que o povo, em desespero, abraaria o bolchevismo?
   Ele estava sozinho no imenso parque, a no ser por uma jovem que usava um casaco leve de primavera, sentada em um banco debaixo de uma castanheira. Absorto, ele tocou educadamente a aba do chapu de feltro ao passar por ela.
   -		Walter - disse a jovem.
   Seu corao parou de bater. Ele conhecia aquela voz, mas no podia ser ela. Virou-se e olhou para a mulher.
   Ela se levantou.
   -		Ah, Walter - disse. - No est me reconhecendo?
   Era Maud.
   O sangue de Walter disparou por suas veias. Ele deu dois passos em direo a Maud, que se atirou em seus braos. Ele a apertou com fora. Enterrou o rosto em seu pescoo para sentir seu cheiro, ainda familiar apesar dos anos. Beijou-lhe a testa, o rosto e ento a boca. Ele falava e beijava ao mesmo tempo, mas nem as palavras nem os beijos eram capazes de comunicar tudo o que sentia.
   Por fim, ela perguntou:
   
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   -		Voc ainda me ama?
   -		Mais do que nunca - respondeu Walter, tornando a beij-la.
Quando os dois estavam deitados na cama, depois de fazer amor, Maud correu as mos pelo peito nu de Walter.
   -		Como voc est magro - comentou. Sua barriga estava cncava e os ossos de seus quadris, protuberantes. Ela queria engord-lo  base de croissants amanteigados e foie gras.
   Estavam no quarto de um albergue a poucos quilmetros de Paris. A janela estava aberta e uma suave brisa primaveril agitava as cortinas de um amarelo vivo. Maud tinha descoberto aquele lugar muitos anos antes, quando Fitz costumava us-lo para seus encontros amorosos com uma mulher casada, a condessa de Cagnes. O estabelecimento, pouco mais que uma casa grande em um pequeno vilarejo, nem sequer tinha nome. Os homens faziam reservas para almoar e depois passavam a tarde em um dos quartos. Talvez tambm houvesse lugares como aquele nos arredores de Londres, mas, de certa forma, o esquema todo parecia tipicamente francs.
   Eles se apresentaram como Sr. e Sra. Wooldridge, e Maud ps no dedo a aliana que havia passado quase cinco anos guardada. A discreta dona do lugar sem dvida pensou que eles estavam apenas fingindo serem casados. Isso no seria problema, contanto que ela no desconfiasse que Walter fosse alemo: nesse caso, sim, eles estariam em maus lenis.
   Maud no conseguia parar de toc-lo. Sentia-se muito agradecida por Walter ter voltado para ela intacto. Acariciou a longa cicatriz em sua canela com as pontas dos dedos.
   -		Essa foi em Chteau-Thierry - disse ele.
   -		Gus Dewar lutou nessa batalha. Espero que no tenha sido ele quem atirou em voc.
   -		Tive sorte de ter cicatrizado to bem. Vrios homens morreram de gangrena.
   Fazia trs semanas que os dois haviam se reencontrado. Nesse meio tempo, Walter
trabalhava sem descanso na resposta alem  minuta do tratado, parando apenas cerca de meia hora por dia para passear com ela pelo parque, ou se sentar no banco de trs do Cadillac azul de Fitz enquanto o motorista os conduzia pela cidade.
   Maud ficara to chocada quanto Walter com os termos draconianos apresentados aos alemes. O objetivo da conferncia de Paris era criar um mundo novo,
   
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justo e pacfico - no possibilitar que os vencedores se vingassem dos perdedores. A nova Alemanha precisava ser democrtica e prspera. Ela queria ter filhos com Walter, que seriam alemes. Maud pensava sempre no trecho do Livro de Rute que comeava com as palavras "Aonde fores irei". Mais cedo ou mais tarde, teria que dizer isso a Walter.
   Ela, no entanto, ficou aliviada ao descobrir que no era a nica a reprovar as propostas do tratado. Entre os Aliados, havia outras pessoas que consideravam a paz mais importante do que a vingana. Doze membros da delegao norte-americana haviam se demitido em protesto. Em uma eleio suplementar na Gr-Bretanha, o candidato que defendia a paz sem vingana tinha vencido. O arcebispo de Canterbury declarara publicamente que estava "muito pouco  vontade" com aquela situao, alegando ser o porta-voz de uma massa silenciosa no representada nos jornais que proclamavam o dio aos hunos.
   Na vspera, os alemes haviam apresentado sua contraproposta - mais de uma centena de pginas de argumentao minuciosa, baseada nos 14 Pontos de Wilson. Naquela mesma manh, a imprensa francesa ficou em polvorosa. Explodindo de indignao, os jornais chamaram o documento de um monumento  impudncia e um exemplo detestvel de fanfarronice.
   -		Eles esto nos acusando de arrogncia... logo os franceses! - disse Walter. - Qual  mesmo aquela expresso sobre esfarrapados?
   -		O roto falando do esfarrapado - respondeu Maud.
   Walter rolou de lado e comeou a brincar com os pelos pubianos dela. O tufo de pelos era escuro, encaracolado e farto. Maud havia se disposto a apar-lo, mas ele disse que gostava assim.
   -		O que vamos fazer? - perguntou ele. -  muito romntico nos encontrarmos em hotis e irmos para a cama em plena tarde, como dois amantes clandestinos, mas no podemos fazer isso para sempre. Temos que revelar ao mundo que somos marido e mulher.
   Maud concordou. Tambm estava ansiosa para poder passar todas as noites em sua companhia, embora evitasse dizer isso: ficava um pouco constrangida por gostar tanto de fazer sexo com ele.
   -		Ns poderamos simplesmente ir morar juntos e deixar as pessoas tirarem suas prprias concluses.
   -		No gosto da ideia - respondeu ele. -  como se tivssemos vergonha da nossa condio.
   Ela sentia o mesmo. Queria alardear a felicidade que sentia, no escond-la. Tinha orgulho de Walter: ele era lindo, corajoso e inteligentssimo.
   
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-		Poderamos nos casar de novo - falou. - Ficamos noivos, anunciamos o noivado, fazemos uma cerimnia, e no contamos a ningum que somos marido e mulher h quase cinco anos. No  ilegal casar com a mesma pessoa duas vezes.
Ele assumiu um ar pensativo.
-		Meu pai e seu irmo seriam contra. No poderiam nos impedir, mas talvez tornassem as coisas desagradveis... o que estragaria a felicidade da ocasio.
-		Tem razo - disse ela, relutante. - Fitz diria que alguns alemes podem ser muito simpticos e tudo o mais, mas que, mesmo assim, ningum iria querer que a irm se casasse com um deles.
-		Ento ns devemos confront-los com um fato consumado.
-		Vamos contar a eles e depois anunciar a notcia na imprensa - disse ela. - Diremos que  um smbolo da nova ordem mundial. Um casamento anglo-alemo simultneo ao tratado de paz.
Ele pareceu no levar muita f.
-		Como conseguiramos fazer isso?
-		Eu posso falar com o editor da revista Tatler. Eles gostam de mim, j lhes dei material de sobra.
Walter sorriu e disse:
-		Lady Maud Fitzherbert sempre vestida na ltima moda.
-		Que histria  essa?
Ele estendeu a mo para pegar a carteira sobre o criado-mudo e tirou de dentro dela um recorte de jornal.
-		A nica foto que eu tinha de voc - falou.
Ela pegou o recorte. O papel estava mole de to velho e havia desbotado at adquirir um tom de areia. Ela analisou a imagem.
-		Esta foto foi tirada antes da guerra.
-		E desde ento eu a carrego comigo. Assim como eu, ela sobreviveu.
Os olhos de Maud se encheram de lgrimas, embaando ainda mais a imagem desbotada.
-		No chore - disse ele, abraando-a.
Ela pressionou o rosto contra o seu peito nu e chorou. Algumas mulheres choravam  toa, mas ela nunca fora desse tipo. Agora, estava aos soluos. Chorava pelos anos perdidos, pelos milhes de rapazes mortos e pelo desperdcio intil e absurdo que tudo isso representava. Estava derramando todas as lgrimas armazenadas em cinco anos de autocontrole.
Quando seu pranto cessou e no lhe restavam mais lgrimas, beijou-o com sofreguido e eles tornaram a fazer amor.

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O Cadillac azul de Fitz foi buscar Walter no hotel no dia 16 de junho e o levou at Paris. Maud decidira que a revista Tatler precisaria de uma foto dos dois. Walter usava um terno de tweed feito em Londres antes da guerra. Estava largo na cintura, mas, no momento, todos os alemes andavam com roupas mais folgadas do que a encomenda.
   Ele havia instalado um pequeno escritrio do servio de inteligncia no Hotel des Rservoirs, no intuito de monitorar os jornais franceses, britnicos, americanos e italianos e coletar fofocas ouvidas pela delegao alem. Sabia que os Aliados estavam tendo discusses acaloradas sobre a contraproposta alem. Lloyd George, um poltico que pecava pelo excesso de flexibilidade, estava disposto a reconsiderar a primeira verso do tratado. Contudo, o primeiro-ministro francs, Clemenceau, afirmou j ter sido generoso demais e ficou possesso diante da sugesto de mudanas. Para surpresa geral, Woodrow Wilson tambm se mostrou irredutvel. Acreditava que a verso apresentada era um acordo justo e, sempre que tomava alguma deciso, tornava-se surdo s crticas.
   Os Aliados tambm negociavam tratados de paz que abrangessem os que lutaram ao lado da Alemanha: ustria, Hungria, Bulgria e Imprio Otomano. Estavam criando novos pases, como a Iugoslvia e a Tchecoslovquia, e dividindo o Oriente Mdio em zonas britnicas e francesas. E, alm disso, debatiam se deveriam ou no selar a paz com Lnin. Em todos os pases, as pessoas estavam cansadas da guerra, mas alguns poderosos ainda tinham disposio para lutar contra os bolcheviques. O peridico britnico Daily Mail teria desmascarado uma conspirao internacional de financiadores judeus que apoiava o regime moscovita - uma das fantasias menos plausveis inventadas pelo jornal.
   No que dizia respeito ao tratado da Alemanha, Wilson e Clemenceau derrotaram Lloyd George, e, mais cedo naquele dia, a equipe alem hospedada no Hotel des Rservoirs havia recebido um recado impaciente dando-lhes o prazo de trs dias para aceit-lo.
   Sentado no banco traseiro do carro de Fitz, Walter pensava com pessimismo sobre o futuro de seu pas. Seria como em uma colnia africana, refletiu ele: os habitantes primitivos trabalhando to somente para enriquecer seus senhores estrangeiros. Ele no queria criar filhos em um lugar assim.
   Maud aguardava no estdio do fotgrafo, estonteante em um vestido de vero difano que, segundo ela, era de Paul Poiret, seu costureiro favorito.
   O fotgrafo tinha um fundo pintado que representava um jardim todo florido,
   
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porm Maud o achou de mau gosto, de modo que o casal posou em frente s cortinas da sala de jantar, que felizmente eram simples. A princpio, ficaram lado a lado, sem se tocar, como dois desconhecidos. O fotgrafo props que Walter se ajoelhasse na frente de Maud, mas isso seria piegas demais. Por fim, acabaram encontrando uma posio que agradou a todos: os dois de mos dadas, olhando um para o outro em vez de para a cmera.
O fotgrafo prometeu que as cpias da fotografia ficariam prontas no dia seguinte.
Eles foram almoar no albergue.
-		Os Aliados no podem simplesmente mandar a Alemanha assinar o tratado - disse Maud. - Isso no  negociao.
-		Mas foi o que eles fizeram.
-		E se vocs recusarem?
-		Eles no dizem.
-		O que vocs vo fazer?
-		Parte da delegao voltar  Berlim hoje  noite para consultar nosso governo. - Ele deu um suspiro. - Infelizmente, eu fui destacado para ir com eles.
-		Ento est na hora de fazermos nosso anncio. Vou voltar para Londres amanh, depois de pegar as fotografias.
-		Est bem - disse ele. - Vou contar  minha me assim que chegar a Berlim. Ela vai reagir bem. Depois contarei a meu pai. Com ele vai ser diferente.
-		Eu vou falar com tia Herm e com a princesa Bea e escrever para Fitz na Rssia.
-		Isso significa que esta  a ltima vez que vamos nos ver por algum tempo.
-		Ento acabe logo de comer e vamos para a cama.
Gus e Rosa se encontraram no Jardim das Tulherias. Paris estava comeando a voltar ao normal, ele pensou com alegria. O sol brilhava, as rvores estavam cobertas de folhas e homens com cravos na lapela fumavam cigarros, observando as mulheres mais bem-vestidas do mundo passar. Em um dos lados do parque, a rue de Rivoli estava cheia de carros, caminhes e carroas puxadas a cavalo; no outro, barcaas circulavam pelo rio Sena. Talvez, no fim das contas, o mundo fosse mesmo se recuperar.
Rosa estava deslumbrante, com um leve vestido vermelho de algodo e um chapu de aba larga. Se eu soubesse pintar, pensou Gus ao v-la, faria um retrato dela assim.

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Ele usava um blazer azul e um chapu de palha moderno. Ela riu ao bater os olhos nele.
-		O que foi? - perguntou Gus.
-		Nada. Voc est bonito.
-		 o chapu, no ?
Ela conteve outra risadinha.
-		Voc est uma graa.
-		Estou  ridculo. No posso fazer nada. Chapus fazem isso comigo.  que meu corpo parece um daqueles martelos de cabea redonda.
Ela o beijou de leve na boca.
-		Voc  o homem mais atraente de Paris.
O mais incrvel era que ela estava falando srio. Como fui ter tanta sorte? - pensou Gus.
Ele tomou Rosa pelo brao.
-		Vamos passear. - Eles seguiram em direo ao Louvre.
-		Voc viu a ltima edio da Tatler? - perguntou ela.
-		A revista londrina? No, por qu?
-		Parece que sua grande amiga lady Maud  casada com um alemo.
-		Ah! - exclamou ele. - Como eles descobriram?
-		Quer dizer que voc j sabia?
-		Eu desconfiava. Encontrei Walter em Berlim em 1916 e ele me pediu para levar uma carta para Maud. Imaginei que isso significasse que eles estavam noivos ou eram casados.
-		Como voc  discreto! Nunca disse nada a respeito.
-		Era um segredo perigoso.
-		E talvez ainda seja. A Tatler  generosa com eles, mas os outros jornais talvez adotem linhas diferentes.
-		Maud j foi atacada pela imprensa antes. Ela  bastante durona. Rosa parecia envergonhada.
-		Ento era sobre isso que vocs estavam falando naquela noite quando eu o flagrei num tte--tte com ela.
-		Exato. Ela estava me perguntando se eu tinha notcias de Walter.
-		Estou me sentindo uma boba por ter desconfiado que estivesse flertando.
-		Eu perdoo voc, mas me reservo o direito de trazer isso  tona da prxima vez que me criticar sem motivo. Posso lhe perguntar uma coisa?
-		O que quiser, Gus.
-		Trs coisas, na verdade.

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-		Quanto suspense. Parece um conto de fadas. Se eu responder errado, vou ser banida do reino?
-		Voc ainda  anarquista?
-		Isso o incomodaria?
-		Acho que estou me perguntando se a poltica poderia nos separar.
-		A anarquia  a crena de que ningum tem o direito de governar. Todas as filosofias polticas, do direito divino dos reis at o contrato social de Rousseau, tentam justificar a autoridade. Os anarquistas acreditam que todas essas teorias so um fracasso e, portanto, nenhuma forma de autoridade  legtima.
-		Em teoria,  irrefutvel. Mas impossvel de ser colocada em prtica.
-		Voc entende rpido. Na verdade, todos os anarquistas so contra o estabelecimento, mas divergem bastante em suas vises de como a sociedade deveria funcionar.
-		E qual  a sua viso?
-		Ela j no  to clara quanto antigamente. Cobrir a Casa Branca me fez enxergar a poltica de outra forma. Mas ainda acredito que a autoridade precisa ser justificada.
-		Duvido que algum dia cheguemos a brigar por causa disso.
-		timo. Qual  a segunda pergunta?
-		Me fale sobre seu olho.
-		Eu nasci assim. Poderia fazer uma operao para abri-lo. Atrs da plpebra s h um punhado de tecido intil, mas eu poderia usar um olho de vidro. S que ele nunca iria fechar. Acho que assim  o menor dos males. Incomoda voc?
Ele parou de andar e se virou de frente para ela.
-		Posso beij-lo?
Ela hesitou.
-		Est bem.
Ele se curvou e beijou a plpebra fechada. No sentiu nada de estranho ao toc-la com os lbios. Era como beijar a bochecha de Rosa.
-		Obrigado - disse ele.
-		Ningum nunca fez isso comigo antes - disse ela baixinho.
Ele assentiu. Imaginava que fosse mesmo uma espcie de tabu.
-		Por que teve essa vontade? - perguntou ela.
-		Porque eu amo tudo em voc e quero ter certeza de que saiba disso.
-		Ah. - Ela passou alguns segundos em silncio, dominada pela emoo; mas ento sorriu e voltou a falar no tom atrevido de sua preferncia. - Bem, se quiser beijar alguma outra parte esquisita,  s dizer.

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Ele no soube direito como reagir quela proposta levemente excitante, ento
resolveu deixar para pensar nela depois.
-		Tenho mais uma pergunta.
-		Pode falar.
-		Quatro meses atrs, eu lhe disse que a amava.
-		Eu no me esqueci.
-		Mas voc ainda no disse o que sente por mim.
-		No  bvio?
-		Talvez, mas quero que voc me diga. Voc me ama?
-		Ah, Gus, ser que voc no entende? - A expresso em seu rosto mudou, e
ela pareceu angustiada. - Eu no sou boa o bastante para voc. Voc era o melhor
partido de Buffalo, e eu era a anarquista caolha. Voc deveria se apaixonar por
uma mulher elegante, linda, rica. Eu sou filha de mdico e minha me era empregada domstica. No sou a pessoa certa para voc amar.
-		Voc me ama? - repetiu ele com firmeza, mas sem perder a calma.
Ela comeou a chorar.
-		 claro que amo, seu bobo. Eu te amo de todo o meu corao.
Ele a tomou nos braos.
-		Ento,  s isso que importa - falou.
Tia Herm largou o exemplar da Tatler.
- Voc jamais deveria ter se casado em segredo - disse ela a Maud. Ento abriu
um sorriso conspiratrio. - Mas foi to romntico!
As duas estavam na sala de estar da casa de Fitz em Mayfair. Bea a havia redecorado depois do fim da guerra, optando pelo novo estilo chamado art dco, com
cadeiras de aspecto utilitrio e bibels de prata modernosos comprados na
Asprey. Alm de Maud e Herm, estavam presentes tambm Bing Westhampton,
o amigo metido a engraadinho de Fitz, e sua mulher. Estavam em plena temporada londrina, e o grupo esperava Bea ficar pronta para ir  pera. Ela estava
dando boa-noite a Boy, que j contava trs anos e meio, e a Andrew, de 18 meses.
Maud pegou a revista e tornou a ler a matria. A fotografia no a agradava muito.
Ela havia imaginado que fosse retratar duas pessoas apaixonadas. Infelizmente,
mais parecia a cena de um filme de cinema. Walter tinha um ar predatrio, segurando-lhe a mo e fitando seus olhos como um sedutor perverso, enquanto ela
parecia uma donzela ingnua prestes a cair em suas garras.

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O texto, no entanto, estava bem dentro de suas expectativas. O autor lembrava aos leitores que lady Maud tinha sido a "sufragista chique" de antes da guerra, que havia criado o jornal The Soldiers Wife para militar pelos direitos das mulheres deixadas para trs durante a guerra e que fora presa ao protestar em defesa de Jayne McCulley. Informava tambm que ela e Walter haviam pretendido anunciar seu noivado da forma convencional, mas que foram impedidos pelo conflito. Seu casamento secreto e s pressas era descrito como uma tentativa desesperada de fazer a coisa certa em circunstncias anormais.
Maud insistira para ser citada na ntegra, e a revista havia mantido a promessa. "Eu sei que alguns britnicos odeiam os alemes", foram suas palavras. "Mas sei tambm que Walter e muitos outros de seus conterrneos fizeram todo o possvel para evitar a guerra. Agora que ela terminou, devemos criar paz e amizade entre os antigos inimigos, e espero com sinceridade que as pessoas vejam a nossa unio como um smbolo do novo mundo."
Em seus muitos anos de militncia poltica, Maud havia aprendido que s vezes era possvel conquistar o apoio de um veculo de imprensa dando-lhe exclusividade em uma boa histria.
Como planejado, Walter tinha voltado para Berlim. Ainda na Frana, enquanto seguiam de carro para a estao de trem, os alemes haviam sido vaiados por multides. Uma secretria tinha sido atingida por uma pedra e perdera os sentidos. Os franceses disseram apenas: "Lembrem-se do que eles fizeram com a Blgica." A secretria continuava hospitalizada. Nesse meio-tempo, o povo alemo se opunha furiosamente  assinatura do tratado.
Bing veio se sentar ao lado de Maud no sof. Naquele dia, para variar, no flertou com ela.
-		Queria que seu irmo estivesse aqui para aconselhar voc em relao a isso - disse ele, meneando a cabea para a revista.
Maud havia escrito para Fitz dando-lhe a notcia do casamento e anexando o recorte da Tatler, para lhe mostrar que o que ela fizera estava sendo aceito pela sociedade londrina. No fazia ideia de quanto tempo a carta levaria para chegar at ele, e no esperava ter resposta antes de alguns meses. A essa altura, j seria tarde para Fitz protestar. S lhe restaria sorrir e lhe dar os parabns.
Ela, no entanto, ficou irritada com a sugesto de Bing de que precisava de um homem para lhe dizer o que fazer.
-		Que tipo de coisa Fitz poderia me falar?
-		No futuro prximo, a vida da esposa de um alemo vai ser dura.
-		Eu no preciso de um homem para me dizer isso.

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-		Na ausncia de Fitz, de certa forma sinto que  minha responsabilidade.
-		Por favor, no se sinta assim. - Maud tentou no se ofender. Que conselhos
Bing poderia oferecer a quem quer que fosse, alm de quais os melhores clubes
noturnos do mundo para se jogar e beber?
Ele baixou a voz.
-		Custa-me dizer isso, mas... - Ele olhou de relance para tia Herm, que entendeu a indireta e saiu de perto para se servir de um pouco mais de caf. - Se a
senhora pudesse dizer que o casamento nunca chegou a ser consumado, talvez
tenha chances de conseguir uma anulao.
Maud pensou no quarto de cortinas amarelas e teve que conter um sorriso de
felicidade.
-		Mas eu no posso, porque...
-		Por favor, no me diga nada. S quero ter certeza de que a senhora sabe
quais so as suas alternativas.
Maud reprimiu uma indignao crescente.
-		Sei que a sua inteno  boa, Bing...
-		H tambm a possibilidade de um divrcio. A senhora sabe que um homem
pode muito bem dar motivos  esposa.
Maud no conseguiu mais refrear sua indignao.
-		Por favor, vamos encerrar este assunto agora mesmo - disse ela, erguendo a
voz. - No tenho o menor intuito de pedir uma anulao ou um divrcio. Eu
amo Walter.
Bing ficou emburrado.
-		Eu estava apenas tentando dizer o que acho que Fitz, como chefe da sua
famlia, lhe diria se estivesse aqui. - Ele se levantou e dirigiu-se  mulher: -
Vamos andando, sim? No h necessidade de chegarmos todos atrasados.
Alguns minutos depois, Bea apareceu usando um vestido novo de seda cor-
-de-rosa.
-		Estou pronta - disse ela, como se estivesse esperando pelos outros, e no o
contrrio. Seu olhar recaiu sobre a mo esquerda de Maud, detendo-se sobre a
aliana, porm ela no fez comentrio algum. Quando Maud lhe dera a notcia,
sua reao tinha sido cautelosamente neutra.
-		Espero que voc seja feliz - dissera ela sem a menor ternura. - E espero que
Fitz aceite o fato de voc no ter pedido a autorizao dele.
Todos saram para a rua e entraram no carro. Era o Cadillac preto que Fitz
tinha comprado depois que o azul ficara preso na Frana. Fitz pagava por tudo,
pensou Maud: pela casa em que as trs mulheres moravam, pelos vestidos 

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carssimos que usavam, pelo carro, pelo camarote na pera. As faturas de suas despesas no Ritz de Paris haviam sido encaminhadas para Albert Solman, que cuidava das finanas de seu irmo em Londres, e quitadas sem qualquer pergunta. Fitz nunca reclamava. Ela sabia que Walter no seria capaz de lhe proporcionar o mesmo estilo de vida. Talvez Bing tivesse razo e ela fosse achar difcil abrir mo do luxo a que estava acostumada. Porm, estaria ao lado do homem que amava.
Por conta do atraso de Bea, eles chegaram  casa de pera Covent Garden na ltima hora. A plateia j havia se acomodado. As trs mulheres subiram depressa a escadaria forrada de tapete vermelho e entraram no camarote. Maud se lembrou de repente do que havia feito com Walter naquele mesmo lugar durante a apresentao de Don Giovanni. Ficou encabulada: onde estava com a cabea para correr um risco daqueles?
Bing Westhampton j estava ali com a mulher e levantou-se para puxar uma cadeira para Bea. A plateia estava em silncio: o espetculo j ia comear. Observar as pessoas era um dos grandes atrativos da pera, de modo que muitas cabeas se viraram para ver a princesa se acomodar. Tia Herm se sentou na segunda fileira, mas Bing reservou um lugar na primeira fila para Maud. Um burburinho se ergueu da plateia: sem dvida, a maior parte dos presentes tinha visto a fotografia e lido a matria da Tatler. Muitos conheciam Maud pessoalmente: aquela era a alta sociedade londrina, os aristocratas e polticos, os juzes e bispos, os artistas de sucesso e os empresrios endinheirados - e suas respectivas esposas. Maud ficou alguns segundos de p para que aquelas pessoas pudessem dar uma boa olhada nela e ver toda a felicidade e orgulho que sentia.
Foi um erro.
O barulho da plateia mudou. O burburinho se tornou mais intenso. No era possvel distinguir palavras, mas ainda assim ficou claro que as vozes tinham assumido um tom de reprovao, como uma mosca mudando de zumbido ao se deparar com uma janela fechada. Maud ficou espantada com aquilo. Ento ouviu outro rudo, que lhe pareceu assustadoramente uma vaia. Atordoada e com medo, ela se sentou.
No adiantou muita coisa. quela altura, todos j olhavam para ela. Em segundos, as vaias se espalharam pela plateia, ganhando em seguida as galerias.
- Ora essa - protestou Bing, impotente.
Maud nunca havia se deparado com tamanho dio, nem mesmo no auge das passeatas das sufragistas. Sentiu uma dor na barriga, como se estivesse com clicas. Desejou que a msica comeasse logo, porm o maestro tambm a encarava, segurando a batuta junto  lateral do corpo.

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Ela tentou retribuir o olhar de todos com altivez, mas seus olhos se encheram de lgrimas que borraram sua viso. Aquele pesadelo no iria terminar sozinho. Ela precisava tomar uma atitude.
Levantou-se, e as vaias aumentaram.
As lgrimas comearam a escorrer por seu rosto. Quase s cegas, ela virou as costas. Derrubando sua cadeira, cambaleou em direo  porta nos fundos do camarote. Tia Herm se ps de p, dizendo:
-		Oh, cus... Oh, cus...
Bing tambm se levantou com um pulo para abrir a porta. Maud saiu, seguida de perto por tia Herm. Bing acompanhou as duas. s suas costas, Maud ouviu as vaias cessarem em meio a algumas risadas. Ento, para seu horror, a plateia comeou a aplaudir, parabenizando-se por ter conseguido se livrar dela; e aqueles aplausos maldosos a seguiram ao longo do corredor, escada abaixo e at o lado de fora do teatro.
O trajeto entre os portes do jardim e o Palcio de Versalhes tinha pouco mais de um quilmetro e meio. Naquele dia, estava margeado por centenas de soldados montados da cavalaria francesa, com seus uniformes azuis. O sol de vero se refletia em seus capacetes de ao. Eles empunhavam lanas com flmulas vermelhas e brancas que ondulavam na brisa morna.
Johnny Remarc tinha conseguido um convite para Maud assistir  assinatura do tratado de paz, apesar da humilhao que havia sofrido na pera; mas ela foi obrigada a viajar na caamba de um caminho aberto, junto com todas as secretrias da delegao britnica, como ovelhas a caminho do mercado.
Em determinado momento, os alemes deram a impresso de que se recusariam a assinar. O marechal de campo Von Hindenburg, heri de guerra, afirmou que preferiria uma derrota honrosa a uma paz ultrajante. O gabinete alemo preferiu renunciar em massa a concordar com o tratado. O chefe da delegao alem em Paris tambm se demitira. Por fim, a Assembleia Nacional havia votado pela assinatura do tratado inteiro, com exceo da famosa clusula que culpava a Alemanha pela guerra. At mesmo isso era inaceitvel, disseram os Aliados na mesma hora.
-		O que os Aliados vo fazer se os alemes se recusarem a assinar? - perguntara Maud a Walter em seu albergue, onde os dois tinham passado a viver juntos discretamente.

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-		Pelo que dizem, vo invadir a Alemanha.
Maud balanara a cabea.
-		Os nossos soldados no iriam lutar.
-		Nem os nossos.
-		Isso resultaria em um impasse.
-		S que a Marinha britnica ainda no ps fim ao bloqueio, de modo que a Alemanha no consegue se abastecer. Os Aliados simplesmente esperariam at a escassez de alimentos provocar levantes em todas as cidades alems e ento invadiriam o pas sem encontrar resistncia.
-		Ento vocs so forados a assinar.
-		Ou assinamos, ou morremos de fome - dissera Walter com amargura.
Era 28 de junho, cinco anos exatos desde o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando em Sarajevo.
O caminho conduziu as secretrias at o ptio, e elas desceram o mais graciosamente possvel. Maud entrou no palcio e subiu a escadaria imponente, ladeada por mais soldados franceses vestidos de maneira pomposa, desta vez membros da Garde Rpublicaine cujos capacetes de prata eram adornados com crina de cavalo.
Por fim, ela chegou  Galeria dos Espelhos. Aquele era um dos lugares mais impressionantes do mundo. Era do tamanho de trs quadras de tnis enfileiradas. Em uma das laterais, 17 janelas compridas davam para o jardim; na parede oposta, essas janelas eram refletidas por 17 espelhos em forma de arco. O mais importante, porm, era que tinha sido ali, em 1871, no final da guerra franco-prussiana, que os alemes vitoriosos haviam coroado seu primeiro imperador e forado os franceses a cederem a Alscia e a Lorena. Agora, os alemes estavam prestes a ser humilhados debaixo do mesmo teto abobadado. E sem dvida alguns deles estariam sonhando com o dia futuro em que teriam a chance de se vingar. Quando desonramos o prximo, pensou Maud, precisamos estar preparados para, cedo ou tarde, sermos desonrados em troca. Ser que esse pensamento ocorreria a algum dos homens presentes em ambos os lados daquela cerimnia? Provavelmente no.
Ela se acomodou em um dos bancos de veludo vermelho. Dezenas de reprteres e fotgrafos estavam ali, alm de uma equipe de filmagem com cmeras imensas que registrariam o evento. Os figures entraram sozinhos ou em duplas e sentaram-se em volta de uma longa mesa: Clemenceau relaxado e irreverente, Wilson tenso e formal, Lloyd George parecendo um galo de briga envelhecido. Gus Dewar entrou e sussurrou algo no ouvido de Wilson, depois foi at os 

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jornalistas e ps-se a falar com uma reprter jovem e bonita de um olho s. Maud se lembrou de t-la visto antes. Pde notar que Gus estava apaixonado por ela.
s trs da tarde, algum pediu silncio, e uma quietude reverente recaiu sobre a galeria. Clemenceau disse alguma coisa, uma porta se abriu e os dois signatrios alemes entraram. Maud sabia, por Walter, que ningum em Berlim quisera pr o nome naquele tratado e que, no fim das contas, a Alemanha decidira enviar o ministro das Relaes Exteriores e o ministro dos Correios. Os dois tinham o semblante plido e envergonhado.
Clemenceau fez um breve discurso e ento chamou os alemes com um gesto. Ambos sacaram canetas-tinteiro do bolso e assinaram o papel sobre a mesa. Logo em seguida, em resposta a um sinal inaudvel, armas dispararam do lado de fora, avisando ao mundo que o tratado de paz havia sido assinado.
Os demais representantes se aproximaram para assinar, no apenas em nome das grandes potncias, mas de todos os pases includos no tratado. Isso levou bastante tempo, e as pessoas comearam a conversar na plateia. Os alemes permaneceram sentados, rgidos e imveis, at a cerimnia enfim terminar e eles serem escoltados para fora da galeria.
Maud estava enojada. Ns pregamos um sermo de paz, pensou, mas desde o incio vnhamos planejando vingana. Ela saiu do palcio. Do lado de fora, Wilson e Lloyd George estavam sendo cercados por um amontoado de espectadores exultantes. Ela contornou a multido, foi at a cidade e entrou no hotel onde os alemes estavam hospedados.
Torceu para que Walter no estivesse muito deprimido: aquele tinha sido um dia terrvel para ele.
Encontrou-o fazendo as malas.
-		Ns vamos para casa hoje  noite - disse ele. - A delegao inteira.
-		J?! - Ela mal tinha pensado no que iria acontecer aps a assinatura. Era um acontecimento to drstico em sua importncia que Maud no conseguira prever nada depois dele.
Walter, por sua vez, no s havia pensado no assunto, como tinha um plano.
-		Venha comigo - foi tudo o que ele disse.
-		Eu no vou conseguir permisso para ir  Alemanha.
-		E quem disse que voc precisa de permisso? Eu arranjei um passaporte alemo para voc em nome de Frau Maud von Ulrich.
Ela ficou atnita.
-		Como voc conseguiu isso? - perguntou, embora essa no fosse, de forma alguma, a pergunta mais importante em sua mente.

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-		No foi difcil. Voc  esposa de um cidado alemo. Tem direito a um passaporte. Usei minha influncia para diminuir o trmite para algumas horas.
Ela o encarava fixamente. Era tudo muito repentino.
-		Voc vem? - indagou ele.
Maud viu em seus olhos um medo terrvel. Walter estava achando que ela poderia desistir na ltima hora. Teve vontade de chorar diante do pavor que ele sentia de perd-la. Sentiu-se muito sortuda por ser amada com tamanha paixo.
-		Vou - respondeu. - Sim, eu vou.  claro que vou.
Ele no ficou convencido.
-		Tem certeza de que  isso que voc quer?
Ela aquiesceu.
-		Voc se lembra da histria de Rute, na Bblia?
-		 claro. Por que...
Maud lera esse trecho vrias vezes ao longo das ltimas semanas, e ento recitou as palavras que tanto a haviam comovido:
-		"Aonde fores irei, onde ficares ficarei; o teu povo ser o meu povo, e o teu Deus ser o meu Deus; onde morreres..." - Ela se deteve, o n em sua garganta impedindo-a de prosseguir; ento, depois de uma pausa, engoliu em seco e continuou: - "Onde morreres morrerei, e ali serei sepultada."
Ele sorriu, mas havia lgrimas em seus olhos.
-		Obrigado - falou.
-		Eu te amo - disse ela. - A que horas sai o trem?

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CAPTULO TRINTA E OITO
De agosto a outubro de 1919

       Gus e Rosa voltaram a Washington junto com o presidente. Em agosto, combinaram de pedir licena do trabalho ao mesmo tempo e foram para Buffalo, cidade natal de ambos. Um dia depois de chegarem, Gus levou Rosa para conhecer seus pais.
   Estava nervoso. Queria muito que sua me gostasse dela. A Sra. Dewar, no entanto, tinha uma opinio exagerada quanto ao poder de atrao do filho sobre as mulheres. Havia encontrado defeito em todas as moas que Gus mencionara. Nenhuma delas era boa o bastante, sobretudo socialmente. Se ele quisesse se casar com a filha do rei da Inglaterra, ela provavelmente diria: "Por que voc no encontra uma moa americana de boa famlia?"
   -		A primeira coisa que a senhora vai notar, me,  que ela  muito bonita - disse Gus naquela manh durante o caf. - Em segundo lugar, que ela s tem um olho. Depois de alguns minutos, vai perceber que ela  muito inteligente. E, quando a conhecer melhor, entender que  a moa mais maravilhosa do mundo.
   -		No tenho a menor dvida - respondeu sua me, com a falta de sinceridade espantosa que lhe era habitual. - Quem so os pais dela?
   Rosa chegou no meio da tarde, quando a me de Gus estava fazendo a sesta e seu pai ainda no tinha voltado do centro da cidade. Gus lhe mostrou a casa e os jardins.
   -		Voc sabe que eu venho de uma famlia mais modesta, no sabe? - perguntou ela com nervosismo.
   -		Voc logo vai se acostumar - respondeu ele. - Ainda por cima, eu e voc no vamos viver neste esplendor todo. Mas podemos comprar uma casinha jeitosa em Washington.
   Os dois jogaram uma partida de tnis. O jogo foi desequilibrado: Gus, com seus braos e pernas compridos, jogava bem demais para Rosa, que calculava mal as distncias. Mesmo assim, ela jogou com garra, correndo atrs de todas as bolas, e chegou a vencer alguns games. Alm disso, usando um vestido branco com a bainha no meio da canela que estava na moda, ela lhe parecia to sexy que Gus teve de fazer um enorme esforo para se concentrar em suas jogadas.
   Eles foram tomar ch cobertos por uma reluzente camada de suor.
   
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  -		Agora rena toda a sua tolerncia e boa vontade - disse Gus na entrada da sala de estar. - Minha me pode ser terrivelmente esnobe.
   Contudo, a me de Gus se comportou muito bem. Beijou Rosa nas duas faces e disse:
  -		Que cara saudvel a de vocs, todos corados por causa do exerccio. Srta. Hellman,  um prazer conhec-la, espero que fiquemos amigas.
  -		A senhora  muito gentil - disse Rosa. - Seria uma honra ser sua amiga.
   A me de Gus ficou feliz com o elogio. Sabia que era uma grande dama da sociedade de Buffalo e achava adequado que as moas se mostrassem deferentes. Rosa havia percebido isso na mesma hora. Muito esperta, pensou Gus. E muito generosa tambm, j que no seu ntimo detestava qualquer tipo de autoridade.
  -		Eu conheo seu irmo, Fritz Hellman - disse a me de Gus. Fritz tocava violino na Orquestra Sinfnica de Buffalo. A me de Gus fazia parte do conselho. - Ele tem um talento maravilhoso.
  -		Obrigada. Temos muito orgulho dele.
   A me de Gus continuou jogando conversa fora e Rosa deixou que ela assumisse o controle. Gus se lembrou da outra vez em que havia trazido para casa uma moa com quem pretendia se casar: Olga Vyalov. A reao de sua me na ocasio tinha sido diferente: ela se mostrara corts e receptiva, porm Gus sabia que, no fundo, no estava sendo sincera. Mas agora seus sentimentos lhe pareciam genunos.
   Na vspera, ele havia perguntado  me sobre a famlia Vyalov. Lev Peshkov tinha sido despachado para a Sibria como intrprete do Exrcito. Olga no frequentava muitos eventos sociais e parecia entretida com a criao da filha. Josef havia feito lobby com o pai de Gus, que era senador, para aumentar a ajuda militar aos Brancos.
  -		Ele parece pensar que os bolcheviques vo prejudicar os negcios da famlia Vyalov em Petrogrado - dissera sua me.
  -		Essa  a melhor coisa que eu j ouvi sobre os bolcheviques - respondera Gus.
   Depois do ch, os dois foram se trocar. Gus ficou agitado ao pensar em Rosa
tomando banho no quarto ao lado. Ele nunca a tinha visto nua. Os dois haviam passado juntos algumas horas apaixonadas no quarto de hotel dela em Paris, mas no chegaram a fazer sexo.
  -		Detesto ser antiquada - dissera Rosa, como se pedisse desculpas -, mas, no sei por que, acho que devemos esperar. - Na verdade, no era to anarquista assim.
   Os pais de Rosa haviam sido convidados para o jantar. Gus vestiu um palet
   
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curto de smoking e desceu. Preparou um usque para o pai, mas no para ele prprio. Tinha a sensao de que precisava estar bastante lcido.
Rosa desceu usando um vestido preto que a deixava estonteante. Seus pais chegaram s seis em ponto. Norman Hellman estava de fraque, o que no era o mais adequado para um jantar de famlia, mas talvez ele no tivesse um smoking. Era um homem mido, com um sorriso encantador, e Gus viu na hora que Rosa havia puxado a ele. Norman tomou dois martnis bem depressa, o nico sinal de que talvez estivesse nervoso, mas depois disso no bebeu mais. A me de Rosa, Hilda, era uma mulher bonita e esbelta, com lindas mos de dedos longos. Era difcil imagin-la como empregada domstica. O pai de Gus simpatizou com ela imediatamente.
Quando todos se acomodaram para jantar, o Dr. Hellman perguntou:
-		Quais so seus planos profissionais, Gus?
Como pai da mulher que Gus amava, ele tinha o direito de fazer essa pergunta, mas Gus no tinha resposta.
-		Vou continuar trabalhando para o presidente enquanto ele precisar de mim - disse.
-		Ele tem uma tarefa e tanto pela frente agora.
-		 verdade. O Senado est criando problemas para aprovar o Tratado de Paz de Versalhes. - Gus tentou no soar custico demais. - Depois de tudo o que Wilson fez para convencer os europeus a criar a Liga das Naes, mal posso acreditar que os americanos estejam torcendo o nariz para essa ideia.
-		O senador Lodge  um encrenqueiro de marca maior.
Gus considerava o senador Lodge um filho da puta egocntrico.
-		O presidente decidiu no levar Lodge com ele para Paris, e agora Lodge est se vingando.
O pai de Gus, que alm de senador era um velho amigo do presidente, falou:
-		Woodrow tornou a Liga das Naes parte do tratado de paz achando que ns no teramos como rejeitar o tratado e, portanto, seramos obrigados a aceitar a liga. - Ele deu de ombros. - Lodge o mandou pastar.
-		Para ser justo com Lodge - falou o Dr. Hellman -, eu acho que o povo americano tem o direito de estar preocupado com o artigo dez. Se ns entrarmos para uma liga que garante proteger seus membros de qualquer agresso, estaremos comprometendo as foras americanas com conflitos futuros desconhecidos.
A resposta de Gus foi rpida:
-		Se a liga for forte, ningum se atrever a desafi-la.
-		No estou to confiante quanto voc em relao a isso.

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Gus no queria discutir com o pai de Rosa, mas era um defensor ardoroso da Liga das Naes.
-		No estou dizendo que nunca mais haveria outra guerra - disse ele em tom conciliatrio. - Mas creio que elas seriam menos numerosas e mais curtas, alm de pouco recompensadoras para os agressores.
-		Acho que voc pode ter razo. Mas muitos eleitores esto dizendo: "Que se dane o mundo, s os Estados Unidos me interessam. No estamos correndo o risco de virar a polcia do mundo?"  uma pergunta sensata.
Gus se esforou para conter a prpria raiva. A liga era a maior esperana de paz que a humanidade j tivera, e corria o risco de nascer morta por causa daquele tipo de crtica mesquinha.
-		As decises do conselho da liga tm que ser unnimes - falou -, ento os Estados Unidos nunca seriam obrigados a travar uma guerra contra sua vontade.
-		Mesmo assim, no faz sentido termos uma liga se ela no estiver preparada para lutar.
Os inimigos da Liga das Naes eram assim: primeiro reclamavam porque a liga iria lutar, depois reclamavam porque ela no iria lutar.
-		Esses problemas so pequenos se comparados  morte de milhes de homens! - disse Gus.
O Dr. Hellman deu de ombros, educado demais para continuar tentando convencer um adversrio to fervoroso.
-		Seja como for - disse ele -, acredito que um tratado internacional precise do apoio de dois teros do Senado.
-		E no momento ns no temos nem metade - disse Gus, pessimista.
Rosa, que estava escrevendo sobre a questo, disse:
-		Pelas minhas contas, so 40 votos a favor, incluindo o senhor, senador Dewar. Quarenta e trs senadores ainda tm reservas, oito so terminantemente contra e cinco esto indecisos.
-		O que o presidente vai fazer? - perguntou o pai dela a Gus.
-		Ele vai ignorar os polticos e entrar em contato direto com o povo. Est planejando uma viagem de 16 mil quilmetros por todo o pas. Vai fazer mais de 50 discursos em quatro semanas.
-		 uma programao puxada. Ele tem 62 anos e sofre de presso alta.
Havia certa malcia na atitude do Dr. Hellman. Tudo o que ele dizia era uma
provocao. Estava claro que sentia necessidade de avaliar se o pretendente da filha tinha tutano.
-		Mas, quando chegar ao fim - respondeu Gus - o presidente ter explicado

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ao povo americano que o mundo precisa da Liga das Naes para garantir que nunca mais tenhamos uma guerra igual  que acabou de terminar.
-		Toro para que voc tenha razo.
-		Quando se trata de explicar questes polticas complexas ao cidado comum, ningum melhor do que Wilson.
Junto com a sobremesa foi servido champanhe.
-		Antes de comearmos - falou Gus eu queria dizer uma coisa. - Seus pais pareceram surpresos: ele nunca discursava. - Dr. Hellman, Sra. Hellman, vocs sabem que eu amo a sua filha, que  a moa mais maravilhosa do mundo. Isso  meio antiquado, mas eu queria pedir a sua permisso... - ele tirou do bolso uma caixinha de couro vermelho - ... para oferecer a ela esta aliana de noivado. - Ele abriu a caixa. Dentro dela, havia um anel de ouro com um diamante de um quilate. No era nada excessivo, mas o diamante era branco, o tom mais cobiado de todos, e estava lapidado em forma de brilhante redondo: era uma beleza.
Rosa soltou um arquejo.
O Dr. Hellman olhou para a mulher e ambos sorriram.
-		 claro que voc tem a nossa permisso - disse ele.
Gus deu a volta na mesa e se ajoelhou ao lado da cadeira de Rosa.
-		Querida Rosa, voc quer se casar comigo? - perguntou.
-		Sim, meu amor... amanh mesmo, se voc quiser!
Ele tirou o anel da caixa e o ps no dedo de Rosa.
-		Obrigado - disse Gus.
A me dele comeou a chorar.
s sete da noite da quarta-feira, dia 3 de setembro, Gus estava a bordo do trem presidencial enquanto ele saa da Union Station, em Washington. Wilson usava um blazer azul, uma cala branca e um chapu de palha. Sua mulher, Edith, o acompanhava, bem como Cary Travers Grayson, seu mdico particular. Tambm viajavam no mesmo trem 21 reprteres, entre os quais Rosa Hellman.
Gus estava confiante em que Wilson podia vencer aquela batalha. Ele sempre gostara de estar em contato direto com os eleitores. E, alm disso, havia ganhado a guerra, no era verdade?
O trem viajou durante a noite at Columbus, Ohio, onde o presidente fez seu primeiro discurso da turn. De l - com algumas paradas rpidas pelo caminho -,

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seguiu para Indianpolis, onde falou diante de uma multido de 20 mil pessoas na mesma noite.
   Gus, no entanto, j estava desanimado ao final do primeiro dia. O discurso de Wilson no tinha sido bom. Sua voz estava rouca. Ele consultou anotaes - sempre se saa melhor quando conseguia discursar sem elas - e, quando comeou a falar sobre os detalhes tcnicos do tratado que tanto haviam interessado a todos em Paris, pareceu perder o rumo e a ateno da plateia se dispersou. Gus sabia que ele tinha fortes dores de cabea, to intensas que s vezes chegavam a embaar sua viso.
   Gus estava muito aflito. No s por seu amigo e mentor estar doente. Havia mais coisas em jogo. O futuro dos Estados Unidos e do mundo dependia do que acontecesse nas prximas semanas. Somente o compromisso pessoal de Wilson seria capaz de salvar a Liga das Naes de seus adversrios tacanhos.
   Depois do jantar, Gus foi at a cabine de Rosa. Ela era a nica reprter mulher da comitiva, de modo que tinha um compartimento s seu. Embora fosse quase to a favor da liga quanto Gus, ela disse:
   - Est difcil achar muita coisa positiva para dizer sobre o dia de hoje. - Eles se deitaram na cama da cabine, beijando-se e ficando agarradinhos, depois se desejaram uma boa-noite e ele foi embora. O casamento estava marcado para outubro, depois da viagem presidencial. Gus preferia que fosse antes, mas os pais de ambos pediram tempo para se preparar e a me de Gus ficou resmungando que pressa demais era indecente, de modo que ele havia cedido.
   Wilson trabalhou para melhorar seu discurso, datilografando em sua velha mquina de escrever Underwood enquanto as infindveis plancies do Meio-Oeste passavam pela janela do trem. Suas apresentaes foram melhorando com o passar dos dias. Gus sugeriu que ele tentasse tornar o tratado relevante para cada cidade visitada. Wilson disse aos lderes empresariais de Saint Louis que o tratado era necessrio para aquecer o comrcio mundial. Em Omaha, falou que um mundo sem o tratado seria como uma comunidade em que as terras no estivessem regularizadas, o que obrigava todos os agricultores a ficarem defendendo suas cercas de espingarda na mo. Em vez de longas explicaes, ele transmitia os pontos mais importantes com frases curtas.
   Gus tambm sugeriu que Wilson apelasse para as emoes do povo. Aquela no era uma questo apenas poltica, argumentou, estava ligada, tambm, aos sentimentos das pessoas em relao a seu pas. Em Columbus, Wilson falou sobre os rapazes do Exrcito. Em Sioux Falis, disse que queria compensar os sacrifcios das mes que haviam perdido filhos no campo de batalha. Dificilmente recorria
   
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a golpes baixos, mas, em Kansas City, cidade natal do virulento senador Reed, comparou seus opositores aos bolcheviques. E seguia bradando  exausto a mensagem de que, se a Liga das Naes fracassasse, haveria outra guerra.
   A cada parada do trem, Gus tentava facilitar as relaes com os reprteres a bordo e com seus colegas da imprensa local. Quando Wilson falava sem um discurso preparado com antecedncia, sua estengrafa fazia uma transcrio imediata, que Gus distribua. Ele tambm convenceu Wilson a ir ao vago-bar de vez em quando para um bate-papo informal com a imprensa.
   Deu certo. As plateias comearam a reagir cada vez melhor. A cobertura da imprensa continuou dividida, porm a mensagem de Wilson era repetida constantemente mesmo nos jornais contrrios a ele. E relatrios vindos de Washington sugeriam que a oposio estava enfraquecendo.
   Contudo, Gus podia ver quanto aquela campanha estava custando ao presidente. Suas dores de cabea se tornaram quase permanentes. Ele dormia mal. No conseguia digerir comida normal e o Dr. Grayson o ps em uma dieta lquida. Ele pegou uma infeco de garganta que evoluiu para uma espcie de asma e comeou a ter dificuldade para respirar. Passou a tentar dormir sentado.
   Nada disso foi revelado  imprensa, nem mesmo a Rosa. Ainda que sua voz estivesse fraca, Wilson continuou com seus discursos. Milhares de pessoas o aplaudiram em Salt Lake City, mas ele parecia exausto e no parava de apertar as mos uma contra a outra, um gesto estranho que fez Gus pensar em um homem  beira da morte.
   Ento, na noite de 25 de setembro, houve uma comoo. Gus ouviu Edith chamar o Dr. Grayson. Vestiu um roupo e foi at o vago do presidente.
   O que viu ao chegar o deixou triste e horrorizado. Wilson estava com um aspecto terrvel. Mal conseguia respirar e havia desenvolvido um tique facial. Ainda assim, queria prosseguir com a campanha, mas Grayson foi firme e insistiu para que ele cancelasse o restante da viagem. Wilson acabou cedendo.
   Na manh seguinte, com um peso no corao, Gus informou  imprensa que o presidente havia sofrido um colapso nervoso grave, e os trilhos foram liberados para acelerar sua viagem de quase trs mil quilmetros de volta para casa. Todos os compromissos presidenciais foram cancelados por duas semanas, em particular uma reunio com os senadores favorveis ao tratado para planejar a luta pela aprovao do documento.
   Naquela noite, sentados na cabine de Rosa, ela e Gus olhavam desconsolados pela janela. Pessoas se juntavam em cada estao para ver o presidente passar. O sol se ps, mas mesmo assim as multides continuavam a se reunir sob a luz do
   
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crepsculo. Gus se lembrou da viagem de trem de Brest a Paris e da massa silenciosa parada  beira dos trilhos no meio da noite. Fazia menos de um ano, porm
suas esperanas j haviam sido destrudas.
-		Ns fizemos o melhor possvel - disse Gus. - Mas fracassamos.
-		Tem certeza?
-		Quando o presidente estava em plena campanha, o resultado j era incerto.
Com Wilson doente, no temos a menor chance de o tratado ser ratificado pelo
Senado.
Rosa segurou a mo dele.
-		Sinto muito - falou. - Por voc, por mim, pelo mundo. - Ela fez uma pausa.
- O que voc vai fazer?
-		Gostaria de entrar para um escritrio de advocacia de Washington especializado em direito internacional. Afinal de contas, tenho alguma experincia no ramo.
-		Imagino que eles vo fazer fila para lhe oferecer um emprego. E talvez algum
futuro presidente v querer a sua ajuda.
Ele sorriu. s vezes, Rosa tinha uma opinio to favorvel a seu respeito que
chegava a ser irrealista.
-		E voc?
-		Eu amo o que fao. Espero poder continuar a cobrir a Casa Branca.
-		Voc gostaria de ter filhos?
-Sim!
-		Eu tambm. - Gus olhou pela janela, pensativo. - S espero que Wilson esteja
errado em relao a eles.
-		Aos nossos filhos? - Ela reparou no tom solene da voz dele, e foi com uma
voz assustada que fez a pergunta: - Como assim?
-		Wilson diz que eles tero de lutar em outra guerra mundial.
-		Deus nos livre! - exclamou Rosa com fervor.
Do lado de fora, a noite caa.

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CAPTULO TRINTA E NOVE
Janeiro de 1920

      aisy estava sentada  mesa da sala de jantar da Prairie House da famlia
      Vyalov, em Buffalo. Usava um vestido cor-de-rosa. O grande guardanapo de linho amarrado em volta do seu pescoo praticamente a engolia. Tinha quase quatro anos e Lev a adorava.
-		Vou preparar o maior sanduche do mundo - disse ele, fazendo a menina rir. Cortou dois pedaos de torrada em quadradinhos de um centmetro, passou manteiga neles com cuidado, depois acrescentou um pouco dos ovos mexidos que Daisy no queria comer e juntou os dois pedaos - Agora temos que colocar um gro de sal - falou. Sacudiu o saleiro em cima do seu prato e ento recolheu com delicadeza um nico gro com a ponta do dedo, colocando-o sobre o sanduche. - Agora sim eu posso comer! - falou.
-		Eu quero - disse Daisy.
-		Quer mesmo? Mas no  um sanduche tamanho papai?
-		No! - disse ela, rindo. -  um sanduche tamanho menina!
-		Ah, ento est bem - disse ele, pondo o sanduche na boca da filha. - Voc no vai querer outro, vai?
-Vou.
-		Mas esse era muito grande.
-		No era, no!
-		Certo, acho que vou ter que fazer outro.
Lev estava levando uma vida de rei. As coisas estavam correndo ainda melhor do que ele dissera a Grigori dez meses antes, quando os dois haviam se encontrado no trem de Trtski. Ele vivia com grande conforto na casa do sogro. Administrava trs casas noturnas de Vyalov e ganhava um bom salrio, alm de alguns extras, como propinas dos fornecedores. Tinha posto Marga para morar em um apartamento elegante e a visitava quase todos os dias. Ela havia engravidado uma semana depois de ele voltar e acabara de dar  luz um menino, que haviam batizado de Gregory. Lev conseguira manter a histria toda em segredo.
Olga entrou na sala, beijou Daisy e se sentou. Lev amava a filha, mas no sentia nada por Olga. Marga era mais sensual e divertida. E havia muitas outras

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garotas na cidade, conforme ele havia descoberto quando Marga estava nos ltimos estgios da gravidez.
-		Bom dia, mame! - disse Lev em um tom alegre.
Daisy aproveitou a deixa e repetiu suas palavras.
-		Papai est dando comida para voc? - perguntou Olga.
Ultimamente, os dois se falavam assim, quase sempre por intermdio da filha.
Haviam feito sexo algumas vezes depois de Lev voltar da guerra, mas logo voltaram  indiferena habitual e agora dormiam em quartos separados. Diziam aos pais de Olga que era porque Daisy acordava durante a noite, embora isso fosse raro. Olga tinha a expresso de uma mulher frustrada, mas Lev no estava nem a.
Josef entrou na sala.
-		Olhe o vov! - disse Lev.
-		Bom dia - falou Josef, lacnico.
-		Vov quer um sanduche - disse Daisy.
-		No - disse Lev. - Eles so grandes demais para o vov.
Daisy ficava encantada quando Lev dizia coisas que estavam claramente erradas.
-		No so, no - falou ela. - So pequenos demais!
Josef se sentou. Ao voltar da guerra, Lev havia encontrado o sogro muito mudado. Estava gordo e mal cabia em seu terno listrado. O simples esforo de descer a escada o deixava ofegante. Seus msculos tinham virado banha, seus cabelos pretos haviam ficado grisalhos e sua tez rosada ganhara um rubor nada saudvel.
Polina veio da cozinha com um bule de caf e serviu uma xcara a Josef, que abriu o Buffalo Advertiser.
-		Como vo os negcios? - quis saber Lev. No era uma pergunta despropositada. A Lei Volstead tinha entrado em vigor no dia 16 de janeiro, tornando ilegais a produo, o transporte e a venda de bebidas alcolicas. O imprio Vyalov era sustentado por bares, boates e hotis e pela venda de bebidas no atacado. A Lei Seca era a serpente no paraso de Lev.
-		Ns estamos morrendo - respondeu Josef com uma franqueza incomum. - Tive que fechar cinco bares em uma semana, e o pior ainda est por vir.
Lev assentiu.
-		Estou vendendo aquela cerveja quase sem lcool nas boates, mas ningum quer. - A lei permitia a venda de cerveja com menos de meio por cento de teor alcolico. - Voc precisa beber quatro litros para sentir alguma coisa.
-		Podemos vender bebida clandestina por debaixo dos panos, mas  impossvel conseguir em quantidade suficiente e, de qualquer forma, as pessoas ficam com medo de comprar.

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Olga ficou chocada. Ela no sabia quase nada sobre os negcios.
-		Mas, papai, o que o senhor vai fazer?
-		No sei - respondeu Josef.
Isso era outra mudana. Antigamente, Josef teria se planejado para uma crise
como aquela. No entanto, a lei fora aprovada havia trs meses e Josef no tinha
feito nada para se preparar para a nova situao. Lev vinha esperando o sogro
sacar um coelho da cartola. Mas, para seu desnimo, estava vendo que isso no
iria acontecer.
Era preocupante. Lev tinha mulher, amante e dois filhos para sustentar com os
lucros dos negcios de Vyalov. Se o imprio estivesse prestes a ruir, ele precisaria
fazer planos.
Polina chamou Olga ao telefone, e esta foi at o corredor. Lev pde ouvi-la falar.
-		Oi, Ruby - atendeu ela. - Voc acordou cedo. - Houve uma pausa. - O qu?
No acredito. - Seguiu-se um longo silncio, ento Olga comeou a chorar.
Josef ergueu os olhos do jornal e disse:
-		Mas que diabo...?
Olga bateu o telefone com fora e voltou para a sala de jantar. Com os olhos
cheios de lgrimas, apontou para Lev e disse:
-		Seu desgraado!
-		O que foi que eu fiz? - indagou ele, embora temesse j saber.
-		Seu... seu... seu filho da me.
Daisy comeou a chorar.
-		Olga, meu bem, o que houve? - perguntou Josef.
-		Ela teve um filho! - respondeu Olga.
-		Ai, cacete - disse Lev entredentes.
-		Quem teve um filho? - quis saber Josef.
-		A piranha de Lev. Aquela que vimos no parque. Marga.
Josef ficou vermelho.
-		A cantora do Monte Carlo? Ela teve um filho de Lev?
Chorando, Olga aquiesceu.
Josef se virou para o genro:
-		Seu filho da puta!
-		Vamos todos tentar ficar calmos - disse Lev.
Josef se levantou.
-		Meu Deus, eu achei que tivesse lhe ensinado uma lio.
Lev empurrou a cadeira para trs e se ps de p. Recuou, afastando-se de Josef
com os braos estendidos para a frente, procurando se defender.

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-		Que porra  essa, Josef? Calma! - falou.
-		No se atreva a me dizer para ficar calmo - disse Josef.
Com uma agilidade surpreendente, ele deu um passo  frente e golpeou o genro com um dos punhos massudos. Lev no foi rpido o suficiente para se esquivar, e o soco o atingiu bem no alto do malar esquerdo. A dor foi terrvel e ele cambaleou para trs.
Daisy comeou a berrar e Olga a pegou no colo e fugiu em direo  porta.
-		Parem com isso! - gritou.
Josef deu outro soco com a mo esquerda.
Fazia muito tempo que Lev no brigava, mas ele havia crescido nos bairros pobres de Petrogrado e seus reflexos ainda estavam em dia. Defendeu o golpe de Josef, chegou mais perto e esmurrou a barriga do sogro com os dois punhos, um depois do outro. O ar foi expelido com violncia do peito de Josef. Ento Lev comeou a socar o rosto do sogro com jabs curtos, atingindo o nariz, a boca, os olhos.
Josef era um homem forte e intimidador, mas o medo excessivo que as pessoas tinham dele as impedia de revidar, o que o deixara muito tempo sem praticar a autodefesa. Ele cambaleou para trs com os braos erguidos, em uma v tentativa de se proteger dos socos de Lev.
Os instintos de lutador de rua de Lev no lhe permitiam parar de bater enquanto o oponente ainda estivesse de p, de modo que continuou a castigar Josef, socando-lhe o corpo e a cabea at o homem mais velho cair para trs sobre uma das cadeiras e se estatelar no tapete.
Lena, me de Olga, entrou correndo na sala, gritou e se ajoelhou junto ao marido. Polina e a cozinheira surgiram na soleira da porta da cozinha, parecendo assustadas. Mesmo com o rosto espancado coberto de sangue, Josef conseguiu se apoiar em um dos cotovelos e empurrar Lena para o lado. Ento, quando tentou se levantar, deu um grito e tornou a cair para trs.
Sua pele ficou cinza e ele parou de respirar.
-		Meu Deus do cu! - disse Lev.
Lena comeou a gritar:
-		Josef, ai, meu Joe, abra os olhos!
Lev sentiu o peito de Josef. O corao no batia mais. Ele segurou seu punho, mas no conseguiu encontrar pulsao.
Agora sim estou encrencado, pensou.
Levantou-se do cho.
-		Polina, chame uma ambulncia.
A bab foi at o corredor e pegou o telefone.

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   Lev ficou encarando o corpo. Precisava tomar uma deciso importante e
rpido. Ficar ali, alegar inocncia, fingir que sentia muito e tentar se safar? No.
As chances de isso dar certo eram pequenas demais.
   Ele precisava fugir.
   Correu at o andar de cima e tirou a camisa. Depois da guerra, tinha voltado
para casa cheio de ouro, que acumulara com a venda de usque escocs para os
cossacos. Com ele, havia comprado pouco mais de cinco mil dlares e enfiado as
notas no cinturo que usava para guardar dinheiro, colando o mesmo na parte
de trs de uma gaveta com fita adesiva. Apanhou o cinturo, prendendo-o ao
redor da cintura, e tornou a vestir a camisa e o palet.
   Colocou o sobretudo. Em cima de seu armrio havia uma velha bolsa de lona
que continha sua pistola semiautomtica Colt .45, modelo 1911, a arma dos oficiais do Exrcito americano. Guardou a pistola no bolso do sobretudo. Jogou
uma caixa de munio e algumas roupas de baixo dentro da bolsa de lona e desceu a escada.
   Na sala de jantar, Lena havia posto uma almofada sob a cabea de Josef, mas
seu marido parecia mais morto do que nunca. Olga falava ao telefone no corredor, dizendo:
  -		Rpido, por favor, acho que ele pode morrer! - Tarde demais, docinho, pensou Lev.
  -		A ambulncia vai demorar muito - disse ele. - Vou chamar o Dr. Schwarz.
- Ningum perguntou por que ele estava carregando uma bolsa.
   Foi at a garagem e deu a partida no Packard Twin Six de Josef. Saiu do terreno da casa e dobrou para o norte.
   Ele no estava indo chamar o Dr. Schwarz.
   Tomou o rumo do Canad.
Lev dirigia depressa. Enquanto deixava para trs os subrbios ao norte de Buffalo, tentou calcular quanto tempo ainda tinha. A equipe da ambulncia sem dvida chamaria a polcia. Assim que os policiais chegassem, iriam descobrir que Josef morrera espancado. Olga no hesitaria em lhes contar quem havia nocauteado o pai: se j no odiava Lev antes, certamente o odiava agora. Depois disso, Lev passaria a ser procurado por assassinato.
   Em geral havia trs carros na garagem de Vyalov: o Packard, o Ford Bigode de Lev e um Hudson azul usado pelos capangas de Josef. Os tiras no levariam
   
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muito tempo para deduzir que Lev tinha fugido no Packard. Dentro de uma hora, calculou Lev, a polcia sairia  procura do carro.
   Com alguma sorte, a essa altura ele j estaria fora do pas.
   Tinha ido vrias vezes ao Canad com Marga. Eram apenas 160 quilmetros at Toronto, o que dava trs horas em um carro veloz. Eles gostavam de se registrar em um hotel como Sr. e Sra. Peters e passear pela cidade, vestidos com suas melhores roupas, sem precisar se preocupar se iriam ser vistos por algum que poderia contar a Josef Vyalov. Lev no tinha passaporte americano, mas conhecia vrios pontos da fronteira em que no havia postos de controle.
   Chegou a Toronto ao meio-dia e registrou-se em um hotel tranquilo.
   Pediu um sanduche na cafeteria e se sentou um pouco para refletir sobre a prpria situao. Estava sendo procurado por assassinato. No tinha casa e no podia visitar nenhuma de suas duas famlias sem correr o risco de ser preso. Talvez nunca mais visse os filhos. Tinha cinco mil dlares em um cinturo e um carro roubado.
   Pensou em como havia se gabado com o irmo, apenas 10 meses antes. O que Grigori acharia agora?
   Ele comeu o sanduche e ento foi andar sem destino pelo centro da cidade, deprimido. Entrou em uma loja de bebidas e comprou uma garrafa de vodca para levar de volta ao quarto. Talvez naquela noite apenas se embebedasse. Viu que o usque de centeio custava quatro dlares a garrafa. Em Buffalo custava 10, isso quando voc conseguia uma garrafa; em Nova York, 15 ou 20. Sabia disso porque vinha tentando comprar bebida ilegal para as boates.
   Voltou para o hotel e conseguiu um pouco de gelo. Seu quarto estava empoeirado, tinha mveis de aparncia gasta e dava vista para os fundos de uma srie de lojas baratas. Enquanto a noite caa cedo l fora, como de hbito no norte, ele se sentiu mais deprimido do que nunca. Pensou em sair para arrumar uma garota, mas estava sem nimo. Ser que iria fugir de todos os lugares em que viesse a morar? Havia sado de Petrogrado por causa de um policial morto; em Aberowen, estivera literalmente a um passo de ser pego por pessoas que havia enganado nas cartas; e agora tinha deixado Buffalo na condio de fugitivo da lei.
   Precisava dar um jeito no Packard. A polcia de Buffalo talvez enviasse uma descrio do carro por cabo para Toronto. Ele precisava trocar as placas, ou ento trocar de carro. Mas no conseguia reunir foras para tanto.
   Olga provavelmente estava feliz por se livrar dele. No precisaria dividir a herana com ningum. No entanto, a cada dia que passava, o imprio Vyalov valia menos.
   
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   Ficou imaginando se conseguiria trazer Marga e o beb Gregory para o Canad. Ser que Marga iria querer vir? Os Estados Unidos eram o seu sonho, assim como tinham sido o de Lev. Cantoras de boate no ficavam fantasiando viver no Canad. Ela talvez fosse com Lev para Nova York ou para a Califrnia, mas no para Toronto.
   Ele sentiria falta dos filhos. Seus olhos se encheram de lgrimas quando pensou em Daisy crescendo sem ele. A menina no tinha nem quatro anos: poderia esquecer completamente o pai. Na melhor das hipteses, teria uma vaga lembrana. No iria se lembrar do maior sanduche do mundo.
   Depois da terceira dose, ocorreu-lhe que era um pobre injustiado. No tivera a inteno de matar o sogro. Josef havia batido primeiro. E, para completar, Lev sequer o matara de fato: ele tinha morrido de algum tipo de convulso ou ataque cardaco. Na verdade, fora apenas uma falta de sorte. Mas ningum acreditaria nisso. A nica testemunha era Olga, e ela iria querer vingana.
   Ele se serviu de mais uma dose de vodca e deitou-se na cama. Para o inferno com todos, pensou.
   Enquanto pegava em um sono irrequieto e embriagado, pensou nas garrafas na vitrine da loja. "Usque Canadian Club, 4 dlares", dizia o cartaz. Havia alguma coisa importante nisso, ele sabia, mas por ora no conseguia identificar o que era.
   Na manh seguinte, ao acordar, tinha a boca seca e a cabea dolorida, mas sabia que o Canadian Club a 4 pratas a garrafa poderia ser a sua salvao.
   Enxaguou seu copo e bebeu o gelo derretido no fundo do balde. No terceiro copo, j tinha um plano.
   Suco de laranja, caf e aspirinas o fizeram se sentir melhor. Ele pensou nos perigos que teria de enfrentar. Mas nunca se deixara paralisar diante dos riscos. Se fosse assim, pensou, eu seria o meu irmo.
   S havia uma grande desvantagem em seu plano. Ele dependia de uma reconciliao com Olga.
   Lev foi de carro at um bairro de classe baixa e entrou em um restaurante barato que servia caf da manh para trabalhadores. Sentou-se perto de um grupo de homens que pareciam ser pintores de parede e disse:
   -		Preciso trocar meu carro por um caminho. Vocs conhecem algum que possa estar interessado?
   -		O carro  quente? - perguntou um dos homens.
   Lev abriu um sorriso.
   -		Ah, amigo, me d um tempo - disse ele. - Se fosse, voc acha que eu o estaria vendendo aqui?
   
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No encontrou compradores no restaurante nem nos outros poucos lugares que tentou, mas acabou chegando a uma oficina de automveis administrada por pai e filho. Trocou o Packard por uma caminhonete Mack Jnior com capacidade para duas toneladas, com dois estepes, em uma transao que no envolveu dinheiro ou documento algum. Tinha conscincia de que estava sendo roubado, mas o dono da oficina sabia que ele estava em situao desesperadora.
Mais tarde, foi at um atacadista de bebidas cujo endereo havia encontrado na lista telefnica da cidade.
-		Quero 100 caixas de Canadian Club - pediu. - Por quanto sai?
-		Para essa quantidade, 36 pratas a caixa.
-		Fechado. - Lev sacou o dinheiro. - Vou abrir um bar perto da cidade e...
-		No precisa explicar, colega - disse o atacadista. Ele apontou para a janela. No terreno baldio ao lado da loja, uma equipe de pees escavava o solo. - Meu novo depsito. Cinco vezes maior do que este. Deus abenoe a Lei Seca.
Lev percebeu que no era a primeira pessoa a ter aquela ideia genial.
Pagou ao homem e juntos carregaram o usque na caminhonete.
No dia seguinte, Lev voltou para Buffalo.
Lev estacionou a caminhonete lotada de usque na rua em frente  casa dos Vyalov. A tarde de inverno j estava escurecendo. No havia nenhum carro no acesso  garagem. Ele aguardou, tenso e ansioso, preparado para fugir, mas no viu nenhuma atividade.
Com os nervos  flor da pele, desceu da caminhonete, foi at a porta da frente e entrou usando a prpria chave.
A casa estava em silncio. Do andar de cima, ele pde ouvir a voz de Daisy e as respostas sussurradas de Polina. No havia nenhum outro som.
Avanando sem fazer barulho pelo tapete felpudo, atravessou o saguo e espiou para dentro da sala de estar. Todas as cadeiras haviam sido afastadas para as paredes laterais. No meio da sala havia um suporte envolto em seda preta e, em cima dele, um caixo de mogno encerado com alas reluzentes de lato. Dentro do atade, estava o corpo de Josef Vyalov. A morte havia suavizado as linhas endurecidas do seu rosto e ele parecia inofensivo.
Olga estava sentada ao lado do corpo. Usava um vestido preto. Estava de costas para a porta.
Lev entrou na sala.

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-		Oi, Olga - disse baixinho.
Ela abriu a boca para gritar, mas ele cobriu-lhe o rosto com a mo para impedi-la.
-		No se preocupe - falou. - Eu s quero conversar. - Lentamente, retirou a mo.
Ela no gritou.
Ele relaxou um pouco. Havia superado o primeiro obstculo.
-		Voc matou meu pai! - disse ela com raiva. - Sobre o que poderamos conversar?
Ele respirou fundo. Tinha que lidar com aquela situao sem o menor erro. No poderia contar apenas com o charme. Precisaria tambm usar a inteligncia.
-		Sobre o futuro - respondeu. Seu tom de voz era baixo, ntimo. - O seu, o meu e o da pequena Daisy. Eu sei que estou encrencado, mas voc tambm est.
Ela no queria escutar.
-		No estou encrencada coisa nenhuma. - Virou-se e olhou para o corpo do pai.
Lev puxou uma cadeira para se sentar ao lado dela.
-		Os negcios que voc herdou esto falidos. Esto todos ruindo, no valem mais quase nada.
-		Meu pai era muito rico! - disse ela, indignada.
-		Ele tinha bares, hotis e vendia bebidas no atacado. Tudo isso est perdendo dinheiro, e faz s duas semanas que a Lei Seca entrou em vigor. Cinco bares do seu pai j tiveram que fechar. Logo no vai sobrar mais nada. - Lev hesitou e ento se valeu de seu argumento mais forte: - Voc no pode pensar s em si mesma. Tem que pensar em como vai criar Daisy.
Ela pareceu abalada.
-		Os negcios esto mesmo falindo?
-		Voc ouviu o que seu pai me disse anteontem no caf da manh.
-		No me lembro direito.
-		Bem, no precisa acreditar na minha palavra. Verifique voc mesma. Pergunte a Norman Niall, o contador. Pergunte a qualquer um.
Depois de lanar-lhe um olhar duro, Olga decidiu lev-lo a srio.
-		Por que voc veio me dizer isso?
-		Porque eu descobri como salvar os negcios.
-		Como?
-		Importando bebida do Canad.
-		Isso  contra a lei.
-		. Mas  a nica esperana. Sem o lcool, voc no tem negcio nenhum.

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Ela virou a cabea de lado.
-		Eu posso cuidar de mim mesma.
-		Claro - disse ele. - Pode vender esta casa por uma boa grana, investir o dinheiro e se mudar para um apartamento pequeno com sua me. Talvez consiga salvar alguma coisa do esplio do seu pai para sustentar voc e Daisy por alguns anos, embora devesse estar cogitando tambm a possibilidade de trabalhar...
-		Eu no tenho como trabalhar! - protestou ela. - Nunca fui educada para isso. O que eu iria fazer?
-		Ora, voc poderia ser vendedora em uma loja de departamentos ou trabalhar em uma fbrica...
Ele no estava falando srio, e ela sabia.
-		No seja ridculo! - disparou.
-		Ento s resta uma alternativa. - Ele estendeu a mo para toc-la.
Ela se esquivou.
-		Desde quando voc liga para o que vai ser de mim?
-		Voc  minha mulher.
Ela o encarou com um olhar estranho.
Ele estampou sua cara mais sincera.
-		Eu sei que tratei voc mal, mas ns um dia j nos amamos.
Olga soltou um rudo gutural de desdm.
-		E temos uma filha para cuidar.
-		Mas voc vai ser preso.
-		No se voc disser a verdade.
-		Como assim?
-		Olga, voc viu o que aconteceu. Seu pai me atacou. Olhe para o meu rosto: estou com um olho roxo para provar o que digo. Eu tive que revidar. Ele devia estar com problemas de corao. Talvez j estivesse doente h algum tempo, isso explicaria por que no preparou os negcios para a Lei Seca. Seja como for, ele morreu por causa do esforo de me atacar, no por causa dos poucos socos que eu dei para me defender. Voc s precisa contar a verdade  polcia.
-		Eu j disse a eles que voc o matou.
Lev se animou: estava progredindo.
-		No tem problema - disse para tranquiliz-la. - Voc afirmou isso no calor do momento, quando estava transtornada pela dor. Agora que est mais calma, consegue ver que a morte do seu pai foi um terrvel acidente, porque ele estava mal de sade e teve um ataque de raiva.

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-		Ser que eles vo acreditar em mim?
-		Um jri acreditar em voc. Mas, se eu contratar um bom advogado, nem vai precisar haver julgamento. Como haveria, se a nica testemunha jurar que no foi assassinato?
-		No sei. - Ela mudou de assunto. - Como voc vai arrumar a bebida?
-		Isso  fcil. No se preocupe.
Ela se virou na cadeira para encar-lo.
-		No acredito em voc. Voc s est dizendo isso para me fazer mudar meu testemunho.
-		Vista seu casaco, quero lhe mostrar uma coisa.
Foi um momento de tenso. Se Olga o acompanhasse, ele teria vencido.
Depois de uma pausa, ela se levantou.
Lev escondeu um sorriso de triunfo.
Os dois saram da sala. Na rua, ele abriu as portas traseiras da caminhonete.
Ela ficou vrios instantes calada. Ento indagou:
-		Canadian Club? - Seu tom havia mudado, observou ele. Estava mais prtico. A emoo havia passado para segundo plano.
-		Cem caixas - disse ele. - Comprei por trs dlares a garrafa. Aqui posso conseguir 10. Ou mais, se vendermos por dose.
-		Preciso pensar no assunto.
Era um bom sinal. Ela estava disposta a concordar, mas no queria ser precipitada.
-		Entendo, mas no temos tempo para isso - disse ele. - Sou um homem procurado, com uma caminhonete cheia de usque ilegal, e preciso que voc tome uma deciso agora mesmo. Sinto muito por apress-la, mas, como voc pode ver, eu no tenho escolha.
Ela assentiu com a cabea, pensativa, mas no falou nada.
Lev prosseguiu.
-		Se voc disser que no, vou vender a bebida, embolsar o dinheiro e sumir. Voc vai ficar sozinha. Vou lhe desejar boa sorte e dizer adeus para sempre, sem mgoas. Eu entenderia.
-		E se eu disser que sim?
-		Ns vamos  polcia agora mesmo.
Fez-se um silncio demorado.
Por fim, ela aquiesceu:
-		Est bem.
Lev virou o rosto para esconder sua expresso. Voc conseguiu, disse a si

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mesmo. Sentou-se ao lado dela na mesma sala que o cadver do pai e conseguiu reconquist-la.
Seu cachorro!
- Tenho que pr um chapu - disse Olga. - E voc precisa de uma camisa limpa.  melhor causarmos uma boa impresso.
Aquilo era uma boa coisa. Ela estava mesmo do seu lado.
Os dois tornaram a entrar na casa para se arrumar. Enquanto esperava por ela, Lev telefonou para o Buffalo Advertiser e pediu para falar com o editor Peter Hoyle. Uma secretria perguntou qual era o assunto.
-		Diga a ele que  o homem procurado pelo assassinato de Josef Vyalov.
Logo em seguida, uma voz bradou:
-		Hoyle falando. Quem ?
-		Lev Peshkov, o genro de Vyalov.
-		Onde o senhor est?
Lev ignorou a pergunta.
-		Se o senhor puder mandar um reprter at a escadaria da delegacia central de polcia daqui a meia hora, vou ter uma declarao para lhe dar.
-		Estaremos l.
-		Sr. Hoyle?
-Sim?
-		Mande um fotgrafo tambm. - Lev desligou.
Com Olga ao seu lado na frente da caminhonete, ele passou primeiro no depsito de Josef  beira do lago. Caixas de cigarros roubados estavam empilhadas junto s paredes. No escritrio dos fundos, os dois encontraram o contador de Vyalov, Norman Niall, alm do grupo habitual de capangas. Lev sabia que Norman era corrupto, porm melindroso. Encontraram-no sentado na cadeira de Josef, atrs da escrivaninha do antigo patro.
Todos ficaram pasmos ao ver Lev e Olga.
-		Olga herdou os negcios - disse Lev. - A partir de agora, quem vai administrar tudo sou eu.
Norman no se levantou da cadeira.
-		Isso  o que veremos - falou.
Lev o encarou com um olhar duro, sem dizer nada.
Norman tornou a falar, com menos segurana desta vez:

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-		O testamento precisa ser confirmado e tudo o mais.
Lev fez que no com a cabea.
-		Se esperarmos pelas formalidades, no vai restar nada do negcio. - Ele apontou para um dos capangas. - Ilya, v at o ptio, d uma olhada dentro da caminhonete, volte e diga a Norm o que viu.
Ilya saiu. Lev contornou a escrivaninha para ir se postar ao lado de Norman. Todos aguardaram em silncio at Ilya voltar.
-		Cem caixas de Canadian Club. - Ele ps uma garrafa sobre a mesa. - Podemos provar para ver se  legtimo.
-		Eu vou administrar os negcios com bebida importada do Canad - disse Lev. - A Lei Seca  a maior oportunidade que j tivemos. As pessoas vo pagar o que for por lcool. Ns vamos ganhar uma fortuna. Levante-se dessa cadeira, Norm.
-		No  bem assim, garoto - respondeu Norman.
Lev sacou a pistola depressa e usou-a para golpear Norman dos dois lados do rosto. O contador gritou. Como quem no quer nada, Lev apontou o Colt na direo dos capangas.
Olga,  preciso lhe fazer justia, no gritou.
-		Seu otrio - disse Lev a Norman. - Eu matei Josef Vyalov, voc acha que vou ter medo de uma porra de um contador?
Norman se levantou e saiu correndo da sala, segurando a boca, que sangrava, com uma das mos.
Lev se virou para os outros homens, mantendo a pistola apontada na direo deles, e disse:
-		Qualquer pessoa que no queira trabalhar para mim pode ir embora agora, sem ressentimentos.
Ningum se mexeu.
-		timo - disse Lev. - Porque eu estava mentindo quando disse que no haveria ressentimentos. - Ele apontou para Ilya. - Voc, venha comigo e com a Sra. Peshkov. Pode dirigir. Os outros, descarreguem a caminhonete.
Ilya os levou at o centro da cidade no Hudson azul.
Lev achou que talvez tivesse cometido um erro no armazm. No deveria ter dito "Eu matei Josef Vyalov" na frente de Olga. Ela ainda poderia mudar de ideia. Se a mulher comentasse alguma coisa, ele diria que no tinha falado srio, agira apenas com a inteno de assustar Norm. Olga, no entanto, no mencionou o assunto.
Em frente  delegacia, dois homens de sobretudo e chapu aguardavam junto a uma cmera grande, apoiada em um trip.

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Lev e Olga desceram do carro.
-		A morte de Josef Vyalov  uma tragdia para ns, para sua famlia e para esta cidade - disse ele ao reprter, que tomou notas em um caderninho. - Eu vim dar  polcia a minha verso do ocorrido. Minha esposa, Olga, a nica outra pessoa presente quando ele passou mal, est aqui para testemunhar a minha inocncia. A autpsia ir mostrar que meu sogro morreu de enfarte. Minha esposa e eu pretendemos continuar a expandir o grande imprio que Josef Vyalov criou aqui em Buffalo. Obrigado.
-		Pode olhar para a cmera, por favor? - pediu o fotgrafo.
Lev enlaou Olga com um brao, puxou-a mais para perto e olhou para a cmera.
-		De onde veio esse olho roxo, Lev? - quis saber o reprter.
-		Ah, isto aqui? - disse ele, apontando para o prprio olho. - Ah, essa  outra histria. - Ele abriu seu sorriso mais irresistvel e o flash de magnsio do fotgrafo disparou com um claro ofuscante.

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CAPTULO QUARENTA
De fevereiro a dezembro de 1920

         Quartel de Deteno Militar de Aldershot era um lugar sinistro, pensou
         Billy, porm melhor que a Sibria. Aldershot era uma cidade militar pouco menos de 60 quilmetros a sudoeste de Londres. O presdio era um edifcio moderno, com trs andares de galerias de celas ao redor de um ptio interno. Por conta do teto envidraado, o lugar era bem iluminado e ganhara o apelido de "Estufa". Com sua calefao por encanamento e iluminao a gs, a priso era mais confortvel que a maioria dos lugares em que Billy havia dormido nos ltimos quatro anos.
   Mesmo assim, ele estava infeliz. Embora a guerra j tivesse acabado h mais de um ano, ele continuava no Exrcito. A maioria de seus amigos estava de volta  vida civil, ganhando bons salrios e levando garotas ao cinema. Ele ainda usava um uniforme e prestava continncia, dormia em um catre e comia comida de quartel. Trabalhava o dia inteiro tecendo esteiras na fbrica da priso. E, o que era pior, nunca via nenhuma mulher. Em algum lugar l fora, Mildred estava  sua espera - provavelmente. Todo mundo tinha uma histria para contar sobre um soldado que havia voltado para casa e descoberto que a esposa ou a namorada dera o fora com outro homem.
   Ele no tinha contato com Mildred ou com qualquer outra pessoa do lado de fora. Os detentos - ou "soldados condenados", como eram chamados oficialmente - geralmente podiam mandar e receber cartas, porm Billy era um caso especial. Como fora acusado de revelar segredos militares por meio de cartas, sua correspondncia era confiscada pelas autoridades. Isso fazia parte da vingana do Exrcito. Ele no tinha mais nenhum segredo para revelar,  bvio. O que poderia contar  irm? "Eles sempre cozinham de menos as batatas por aqui."
   Ser que Mam, Da e Gramper ao menos sabiam de sua condenao pela corte marcial? O parente mais prximo do soldado deveria ser informado, pensou, mas no tinha certeza e ningum se dignava responder s suas perguntas. De toda forma, era quase certo que Tommy Griffiths houvesse lhes contado. Esperava que, alm disso, Ethel tivesse explicado o que ele de fato fizera.
   Billy no recebia visitas. Desconfiava que sua famlia sequer fizesse ideia de que ele voltara da Rssia. Gostaria de contestar a proibio de se corresponder,
   
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mas no tinha como entrar em contato com nenhum advogado - nem dinheiro para pagar um. Seu nico consolo era a vaga sensao de que aquilo no poderia durar para sempre.
   Suas notcias sobre o mundo l fora vinham dos jornais. Fitz estava de volta a Londres, fazendo discursos para pedir mais ajuda militar aos Brancos na Rssia. Billy ficou imaginando se isso significaria que os Aberowen Pais tinham voltado para casa.
   Os discursos de Fitz no estavam funcionando. A campanha "Deixem a Rssia em paz", liderada por Ethel, tinha angariado o apoio do Partido Trabalhista e fora endossada por ele. Apesar dos exuberantes discursos antibolcheviques do ministro da Guerra, Winston Churchill, a Gr-Bretanha havia retirado suas tropas da regio rtica da Rssia. Em meados de novembro, os Vermelhos tinham expulsado o almirante Kolchak de Omsk. Tudo o que Billy dissera sobre os Brancos - e que Ethel havia repetido em sua campanha - revelou-se verdadeiro; tudo o que Fitz e Churchill tinham dito era mentira. No entanto, Billy estava na cadeia e Fitz, na Cmara dos Lordes.
   Ele tinha pouca coisa em comum com seus companheiros de crcere, que no eram prisioneiros polticos. A maioria havia cometido crimes de verdade: roubo, agresso, assassinato. Eram homens duros, mas Billy tambm era, e no tinha medo deles. Tratavam-no com um respeito cauteloso, aparentemente sentindo que o delito que cometera estava um nvel acima dos seus. Billy se mostrava razoavelmente simptico ao conversar com esses homens, porm nenhum deles tinha qualquer interesse em poltica. No viam nada de errado com a sociedade que os havia encarcerado; estavam apenas decididos a derrotar o sistema da prxima vez.
   Durante o intervalo de meia hora para o almoo, ele lia o jornal. A maior parte dos outros detentos era analfabeta. Certo dia, ele abriu o Daily Herald e viu a fotografia de um rosto conhecido. Aps alguns instantes de incredulidade, percebeu que era uma foto sua.
   Lembrou-se de quando o retrato fora tirado. Mildred o havia arrastado at o estdio de um fotgrafo em Aldgate para ter uma foto sua de uniforme.
   - Vou levar este retrato aos lbios todas as noites - tinha dito Mildred. Billy pensara muitas vezes nessa promessa ambgua enquanto estava longe dela.
   A manchete dizia: POR QUE O SARGENTO WILLIAMS EST NA PRISO? A animao de Billy aumentou  medida que ele lia a matria.
William Williams, do89batalho dos Fuzileiros Galeses (conhecido como "Aberowen Pais"), est cumprindo pena de 10 anos em uma priso

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militar, condenado por traio. Esse homem  um traidor? Ele por acaso foi
desleal ao seu pas, desertou para o inimigo, fugiu do combate? Pelo contrrio. Lutou com bravura no Somme e continuou a servir na Frana durante
os dois anos seguintes, sendo promovido a sargento.
	Billy ficou empolgado. Sou eu no jornal, pensou, e esto dizendo que lutei com
	bravura!
                                                                              Ele ento foi mandado para a Rssia. Ns no estamos em guerra com os
russos. O povo britnico no necessariamente aprova o regime bolchevique,
mas ns no atacamos todos os regimes que desaprovamos. Os bolcheviques no representam nenhuma ameaa ao nosso pas ou aos nossos aliados.
	O Parlamento nunca aprovou qualquer ao militar contra o governo de
Moscou. Questiona-se inclusive se a nossa misso na Rssia no seria uma
violao do direito internacional, uma hiptese grave.
    De fato, durante alguns meses, o povo britnico no foi informado de
que o seu Exrcito estava lutando na Rssia. O governo fez declaraes
enganosas, afirmando que os soldados estariam l apenas para proteger
nossos bens, organizar uma retirada sem incidentes, ou como fora de
reserva. O que se subentendia dessas informaes era que os soldados no
estavam lutando contra as foras Vermelhas.
    Foi em grande parte graas a William Williams que essas declaraes
foram desmascaradas como mentirosas.
    -		Ei - disse Billy, para ningum em especial. - Vejam s isso. Graas a William
Williams.
      Os homens sentados na mesma mesa o cercaram para olhar por cima do
ombro dele. Seu companheiro de cela, um brutamontes chamado Cyril Parks,
falou:
    -		 voc na foto! O que est fazendo no jornal?
      Billy leu o restante da matria em voz alta:
    O seu crime foi dizer a verdade em cartas escritas para a irm, usando
um cdigo simples para escapar da censura. O povo britnico tem uma
dvida de gratido com ele.
    No entanto, suas aes desagradaram queles membros do Exrcito e do
governo responsveis por usar secretamente os soldados britnicos para
    
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fins polticos. Williams foi levado  corte marcial e condenado a 10 anos de priso.
   Ele no  o nico. Muitos soldados que se negaram a participar da tentativa de contrarrevoluo foram submetidos a julgamentos duvidosos na Rssia e condenados a sentenas escandalosamente longas.
   William Williams e outros como ele so vtimas de homens vingativos em posio de poder. Precisamos sanar esse erro. A Gr-Bretanha  um pas de justia. Afinal, foi por ela que ns lutamos.
   -		Viram s? - indagou Billy. - Est dizendo aqui que eu sou uma vtima dos poderosos.
   -		Eu tambm sou - disse Cyril Parks, que havia estuprado uma menina belga de 14 anos em um celeiro.
    De repente, o jornal foi arrancado das mos de Billy. Ele ergueu os olhos e se deparou com o rosto idiota de Andrew Jenkins, um dos carcereiros mais detestveis do presdio.
   -		Voc pode ter amigos importantes, Williams - disse ele. - Mas aqui  s mais um detento de merda, ento pode voltar para a porra do trabalho.
   -		Agora mesmo, Sr. Jenkins - respondeu Billy.
Naquele vero de 1920, Fitz ficou indignado quando uma delegao comercial russa chegou a Londres e foi recebida pelo primeiro-ministro David Lloyd George no nmero 10 da Downing Street, a sede do governo britnico. Os bolcheviques continuavam em guerra com a recm-reconstituda nao da Polnia, e Fitz achava que a Gr-Bretanha deveria ficar do lado dos poloneses, mas no teve muito apoio nesse sentido. Os estivadores londrinos entraram em greve para no carregar os navios com fuzis destinados ao Exrcito polons, e o Congresso dos Sindicatos ameaou realizar uma greve geral em caso de interveno do Exrcito britnico.
    Fitz se conformou com o fato de que jamais reaveria as terras do falecido prncipe Andrei. Seus filhos, Boy e Andrew, tinham perdido sua herana na Rssia e ele precisava aceitar isso.
    Contudo, no pde ficar calado quando descobriu o que os russos Kamenev e Krassin estavam tramando durante sua visita  Gr-Bretanha. A Sala 40 ainda existia, embora de forma diferente, e o servio britnico de inteligncia vinha
    
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interceptando e decodificando os telegramas que os russos enviavam para casa. Lev Kamenev, presidente do soviete de Moscou, estava fazendo, descaradamente, propaganda revolucionria.
   Fitz ficou to possesso que, no incio de agosto, confrontou Lloyd George durante um dos ltimos jantares da temporada londrina.
   O evento foi na casa de lorde Silverman, na Belgrave Square. O jantar no foi to lauto quanto os que Silverman costumava dar antes da guerra. Houve menos pratos, a comida voltou intocada para a cozinha e a decorao da mesa era mais simples. Em vez de lacaios, criadas serviram a comida: ningum mais estava interessado em ser lacaio. Fitz imaginou que aquelas festas eduardianas extravagantes jamais voltariam a existir. No entanto, Silverman ainda conseguia atrair  sua casa os homens mais poderosos do pas.
   Lloyd George perguntou a Fitz sobre sua irm, Maud.
   Esse era outro assunto que enfurecia Fitz.
   -		Sinto informar que ela se casou com um alemo e foi morar em Berlim - respondeu ele. No mencionou que ela j dera  luz seu primeiro filho, um menino chamado Eric.
   -		Eu fiquei sabendo - falou Lloyd George. - S queria saber como ela estava. Uma jovem encantadora.
   A predileo do primeiro-ministro por jovens encantadoras era conhecida, para no dizer notria.
   -		Temo que a vida na Alemanha seja difcil - respondeu Fitz. Maud lhe escrevera implorando por dinheiro, mas ele se recusara a d-lo. Ela no tinha pedido sua permisso para se casar, ento como poderia esperar que ele a sustentasse?
   -		Difcil? - repetiu Lloyd George. - E no deveria ser de outra forma, depois do que eles fizeram. Mesmo assim, sinto muito por ela.
   -		Mudando de assunto, primeiro-ministro - disse Fitz -, esse tal de Kamenev  um judeu bolchevique, o senhor deveria deport-lo.
   O lcool havia deixado o primeiro-ministro, que trazia uma taa de champanhe na mo, de bom humor.
   -		Meu caro Fitz - disse ele em tom amigvel -, o governo no est muito preocupado com a propaganda equivocada dos russos, que  grosseira e truculenta. Por favor, no subestime a classe operria da Gr-Bretanha: eles sabem reconhecer conversa oca quando a escutam. Acredite, os discursos de Kamenev esto contribuindo mais para desacreditar o bolchevismo do que qualquer coisa que eu ou voc poderamos dizer.
   Fitz achava o argumento do primeiro-ministro uma tolice condescendente.
   
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   -		Ele chegou ao cmulo de dar dinheiro para o Daily Heraldl
   -		Concordo que  uma indelicadeza da parte de um governo estrangeiro subsidiar um dos nossos jornais, mas, francamente, ns temos medo do Daily Herald? Afinal, at parece que ns, liberais e conservadores, no temos nossos prprios veculos de imprensa.
   -		Mas ele est entrando em contato com os grupos revolucionrios mais radicais do pas, loucos dispostos a acabar com todo o nosso modo de vida!
   -		Quanto mais os britnicos ficarem sabendo sobre o bolchevismo, menos vo gostar, escreva o que estou dizendo. O regime s parece magnfico quando visto de longe, atravs de uma bruma impenetrvel. O bolchevismo  quase uma proteo para a sociedade britnica, pois instiga em todas as classes o horror do que poderia acontecer caso a atual organizao social fosse subvertida.
   -		 s que no gosto nada disso.
   -		Alm do mais - prosseguiu Lloyd George -, se ns os expulsarmos, teremos que explicar como sabemos o que eles esto fazendo, e a notcia de que os estamos espionando pode jogar a classe trabalhadora contra ns de maneira mais eficaz que todos os discursos inflamados dos russos juntos.
    Fitz no queria continuar a ouvir um sermo sobre a realidade poltica, nem mesmo do primeiro-ministro, mas estava to irritado que insistiu no assunto:
   -		Mas tambm no precisamos fazer negcios com os bolcheviques!
   -		Se ns nos recusssemos a negociar com todos aqueles que usam suas embaixadas aqui para fazer propaganda, no nos sobrariam muitos parceiros comerciais. Por favor, Fitz, ns fazemos comrcio com os canibais das Ilhas Salomo!
    Fitz tinha suas dvidas de que isso fosse verdade - afinal de contas, os canibais das Ilhas Salomo no tinham grande coisa a oferecer - mas deixou passar.
   -		Estamos to mal das pernas que precisamos vender para esses assassinos?
   -		Infelizmente, sim. Eu conversei com vrios empresrios e eles me assustaram bastante em relao ao prximo ano e meio. Ningum est fazendo encomendas. Os clientes no compram. Talvez estejamos  beira da pior onda de desemprego que qualquer um de ns j presenciou. Mas os russos querem comprar, e eles pagam em ouro.
   -		Eu no aceitaria o ouro deles!
   -		Ora, Fitz - disse Lloyd George -, mas voc j tem ouro at dizer chega, no  mesmo?
    
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Quando Billy levou sua esposa a Aberowen pela primeira vez, houve uma festa em Wellington Row.
    Era um sbado de vero e, para variar, no estava chovendo. s trs da tarde, Billy e Mildred chegaram  estao com as filhas de Mildred - quela altura enteadas de Billy -, Enid e Lillian, de oito e sete anos. A essa hora, os mineradores j haviam subido da mina, tomado seu banho semanal e vestido seus ternos de domingo.
    Os pais de Billy os estavam esperando na estao. Estavam mais velhos e pareciam menos imponentes; j no dominavam todas as pessoas  sua volta. Da apertou a mo de Billy e disse:
   -		Estou orgulhoso de voc, meu filho. Voc no se deixou intimidar por eles, como eu lhe ensinei. - Billy ficou feliz ao ouvir isso, embora no se visse apenas como mais uma das conquistas de Da.
    Seus pais j haviam conhecido Mildred, no casamento de Ethel. Da apertou sua mo e Mam a cumprimentou com um beijo.
   -		 um prazer rev-la, Sra. Williams - disse Mildred. - Ou ser que devo cham-la de Mam agora?
    Foi a melhor coisa que ela poderia ter dito, e Mam ficou encantada. Billy tinha certeza de que Da acabaria gostando de Mildred tambm, desde que ela conseguisse maneirar nos palavres.
    O questionamento insistente de alguns parlamentares da Cmara dos Comuns - valendo-se de informaes fornecidas por Ethel - havia forado o governo a anunciar a reduo da sentena de alguns soldados e marinheiros submetidos  corte marcial na Rssia por motim e outras ofensas. A pena de Billy tinha sido reduzida para um ano, e ele fora solto e desmobilizado. Depois disso, se casara o mais rpido possvel com Mildred.
    Aberowen lhe pareceu estranha. A cidade no havia mudado muito, mas seus sentimentos, sim. Era um lugar pequeno e sem graa, e as montanhas em volta pareciam muros feitos para conter as pessoas. No tinha mais certeza de que ali fosse seu lar. Tivera a mesma sensao ao vestir seu terno de antes da guerra e perceber que, embora a roupa ainda servisse, ele no se sentia mais  vontade nela. Nada do que acontecesse ali mudaria o mundo, pensou ele.
    A famlia subiu a colina at Wellington Row e encontrou as casas todas decoradas com bandeiras: a da Gr-Bretanha, a do Pas de Gales e a bandeira vermelha. Uma faixa ia de uma ponta a outra da rua, dizendo: BEM-VINDO AO LAR,
    
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BILLY DUPLO. Todos os seus vizinhos haviam sado de casa. Mesas estavam postas com jarras de cerveja e de ch, alm de pratos cheios de tortas salgadas, bolos
e sanduches. Quando as pessoas viram Billy, comearam a entoar a tradicional
cano de boas-vindas do Pas de Gales "We'11 Keep a Welcome in the Hillsides".
    Billy chorou.
    Algum lhe deu um caneco de cerveja. Vrios rapazes se juntaram em volta de
Mildred, admirados. Para eles, tratava-se de uma criatura extica, com suas roupas londrinas, seu sotaque da cidade e um chapu de aba imensa que ela prpria
havia decorado com flores de seda. Mesmo esforando-se ao mximo para se
comportar, ela no conseguia deixar de dizer frases atrevidas como: "Eu j estava ficando de saco cheio, com o perdo da m palavra."
    Gramper parecia mais velho e mal conseguia ficar em p direito, mas sua cabea ainda estava boa. Ficou cuidando de Enid e Lillian, tirando balas dos bolsos do
colete e mostrando s meninas como conseguia fazer uma moeda desaparecer.
    Billy teve que conversar com todas as famlias enlutadas sobre seus companheiros mortos: Joey Ponti, Profeta Jones, Llewellyn Espinhento e tantos outros.
Reencontrou Tommy Griffiths, que vira pela ltima vez em Ufa, na Rssia. O pai
ateu de Tommy, Len, estava magro e abatido por conta de um cncer.
    Billy recomearia a trabalhar na mina na segunda-feira, e os mineradores
todos queriam lhe explicar as mudanas que haviam ocorrido l embaixo desde
que ele fora embora: novos tneis escavados mais fundo nos veios de carvo,
mais luzes eltricas, precaues de segurana mais adequadas.
    Tommy subiu em uma cadeira e fez um discurso de boas-vindas, ao qual Billy
teve que responder depois.
    - Todos ns fomos modificados pela guerra - disse ele. - Eu me lembro de
quando as pessoas costumavam dizer que os ricos tinham sido postos neste
mundo por Deus para governar o povo, para nos governar. - Essas palavras
foram recebidas com risadas desdenhosas. - Muitos homens foram curados
dessa iluso ao lutar sob o comando de oficiais aristocratas que no teriam capacidade de comandar nem mesmo uma excurso de escola. - Os demais veteranos assentiram, entendendo-o perfeitamente. - A guerra foi ganha por homens
como ns, homens comuns, que no tiveram educao, mas que no so burros.
- Todos concordaram aos gritos de " isso a" e "Apoiado, apoiado". - Ns agora
temos o direito de voto, assim como nossas mulheres, embora nem todas ainda,
como minha irm Eth lhes dir em breve. - A frase provocou uma pequena
vibrao por parte das mulheres. - Este pas  nosso, e ns devemos assumir o
controle dele, da mesma forma que os bolcheviques fizeram na Rssia e os
    
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social-democratas na Alemanha. - Os homens vibraram. - Ns temos um partido que representa o operariado, o Partido Trabalhista, e eleitores de sobra para coloc-lo no governo. Lloyd George nos passou a perna na eleio passada, mas no vai conseguir fazer isso outra vez.
   -		No! - gritou algum.
   -		Ento foi para isso que eu voltei para casa. Os dias de Perceval Jones como representante de Aberowen no Parlamento esto prestes a acabar. - A plateia vibrou novamente. - Eu quero ver um trabalhista nos representando na Cmara dos Comuns! - Billy cruzou olhares com o pai: Da estava radiante. - Obrigado por esta recepo maravilhosa. - Ele desceu da cadeira e todos aplaudiram com entusiasmo.
   -		Belo discurso, Billy - disse Tommy Griffiths. - Mas quem vai ser esse parlamentar trabalhista?
   -		Vamos fazer o seguinte, Tommy, meu chapa - respondeu Billy. - Voc tem trs chances de adivinhar.

O filsofo Bertrand Russell visitou a Rssia naquele ano e escreveu um livro curto, chamado Teoria e prtica do bolchevismo. O livro quase provocou um divrcio na famlia Leckwith.
    Russell atacava com veemncia os bolcheviques. Pior ainda: ele o fazia de uma perspectiva de esquerda. Ao contrrio dos crticos conservadores, no defendia que o povo russo no tinha o direito de depor o czar, dividir as terras da nobreza entre os camponeses e administrar as prprias fbricas. Pelo contrrio, ele aprovava tudo isso. Russell atacava os bolcheviques no por terem ideais errados, mas por terem ideais certos e no conseguirem coloc-los em prtica. Portanto, suas concluses no podiam ser ignoradas irrefletidamente, como se fossem propaganda.
    Bernie leu o livro primeiro. Como todo bibliotecrio, tinha verdadeiro horror de marcar os exemplares, mas nesse caso abriu uma exceo, estragando as pginas com comentrios irados, sublinhando frases e escrevendo "Que imbecilidade!" ou "Argumento invlido!" a lpis nas margens.
    Ethel o leu enquanto amamentava o beb, que j estava com pouco mais de um ano. O nome da menininha era Mildred, mas seus pais sempre a chamavam pelo apelido, Millie. A Mildred mais velha tinha se mudado para Aberowen com Billy e j estava grvida do primeiro filho do casal. Ethel sentia sua falta, embora estivesse contente em poder usar os quartos do andar de cima da casa. A pequena
    
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Millie tinha cabelos encaracolados e, embora ainda fosse um beb, possua um brilho sedutor nos olhos que fazia todos pensarem em sua me.
Ethel gostou do livro. Russell era um escritor sagaz. Com uma informalidade aristocrtica, tinha solicitado uma entrevista com Lnin e passado uma hora com o grande homem. A conversa fora em ingls. Lnin chamara lorde Northcliffe de seu melhor propagandista: as histrias de horror do Daily Mail sobre russos que pilhavam a aristocracia poderiam at aterrorizar a burguesia, mas, segundo ele, surtiriam o efeito contrrio na classe operria britnica.
Russell, no entanto, deixava claro que os bolcheviques eram totalmente antidemocrticos. A ditadura do proletariado era de fato uma ditadura, afirmava ele, porm os governantes eram intelectuais de classe mdia como Lnin e Trtski, que aceitavam o auxlio somente dos proletrios que compartilhavam suas opinies.
-		Acho tudo isso muito preocupante - disse Ethel ao terminar de ler.
-		Bertrand Russell  um aristocrata! - disse Bernie com raiva. - Ele  neto de conde!
-		Isso no quer dizer que esteja errado. - Millie acabou de mamar e pegou no sono. Ethel acariciou sua bochecha macia com a ponta de um dedo. - Russell  socialista. A acusao dele  que os bolcheviques no esto implementando o socialismo.
-		Como ele pode dizer uma coisa dessas? A nobreza foi esmagada.
-		Assim como a imprensa de oposio.
-		Isso  uma necessidade temporria...
-		Temporria at quando? A Revoluo Russa j conta trs anos!
-		No se pode fazer um omelete sem quebrar os ovos.
-		Ele afirma haver prises e execues arbitrrias e diz que a polcia secreta  mais poderosa agora do que na poca do czar.
-		Mas ela persegue os contrarrevolucionrios, no os socialistas.
-		Socialismo quer dizer liberdade, at mesmo para os contrarrevolucionrios.
-		No  bem assim!
-		Para mim, .
As vozes exaltadas acordaram Millie. Sentindo a animosidade que pairava no ar, o beb comeou a chorar.
-		Pronto - disse Ethel, amuada. - Olhe s o que voc fez.
Quando Grigori voltou para casa ao final da guerra civil, reencontrou Katerina, Vladimir e Anna em seu confortvel apartamento na sede do governo, que ficava

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dentro do antigo forte do Kremlin. Na verdade, o lugar era confortvel demais para seu gosto. O pas inteiro sofria com falta de comida e combustvel, mas os estoques do Kremlin estavam abarrotados. O complexo possua trs restaurantes com chefs formados na Frana e, para consternao de Grigori, os garons prestavam continncia para os bolcheviques, batendo os calcanhares, assim como faziam para a antiga nobreza. Katerina deixava as crianas na creche enquanto ia ao cabeleireiro.  noite, membros do Comit Central iam  pera em carros com motorista.
   -		Espero que no estejamos nos transformando na nova nobreza - disse ele a Katerina certa noite, na cama.
    Ela riu com desdm.
   -		Se for assim, onde esto meus diamantes?
   -		Bem, mas ns temos banquetes, viajamos de primeira classe nos trens e tudo o mais.
   -		Os aristocratas nunca fizeram nada til. Vocs todos trabalham 12, 15, 18 horas por dia. No  de esperar que fiquem procurando pedaos de madeira no lixo para queimar e se aquecer, como fazem os pobres.
   -		Por outro lado, a elite sempre tem uma desculpa para seus privilgios especiais.
   -		Venha c - disse ela. - Vou lhe dar um privilgio especial.
    Depois de fazerem amor, Grigori no conseguiu dormir. Apesar das dvidas que tinha, no podia deixar de sentir uma satisfao secreta ao ver a famlia to bem de vida. Katerina havia engordado. Quando ele a conhecera, era uma voluptuosa moa de 20 anos; agora, era uma me rolia de 26. Vladimir tinha cinco anos e estava aprendendo a ler e escrever na escola, junto com os outros filhos dos novos governantes da Rssia; Anna, que eles em geral chamavam de Anya, era uma menina travessa de trs anos e cabelos encaracolados. Antes da revoluo, o apartamento onde moravam pertencia a uma das damas de companhia da czarina. Era quente, seco e espaoso, com um segundo quarto de dormir para as crianas, alm de uma cozinha e uma sala de estar - espao suficiente para acomodar 20 pessoas nos lugares em que Grigori costumava morar em Petrogrado. Havia cortinas nas janelas, xcaras de porcelana para o ch, um tapete em frente  lareira e um quadro a leo do lago Baikal pendurado em cima dela.
    Grigori acabou pegando no sono, mas foi acordado s seis da manh por batidas na porta. Ao abri-la, deparou-se com uma mulher malvestida e esqueltica que lhe pareceu familiar.
   -		Desculpe incomod-lo to cedo, Excelncia - disse ela, usando a antiga forma de tratamento respeitosa.
    
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Ele a reconheceu: era a mulher de Konstantin.
-		Magda! - exclamou, surpreso. - Como voc est diferente. Entre! O que houve? Vocs agora esto morando em Moscou?
-		Sim, Excelncia, ns nos mudamos para c.
-		Pelo amor de Deus, no me chame assim. Onde est Konstantin?
-		Preso.
-		H? Por qu?
-		Ele est sendo acusado de ser contrarrevolucionrio.
-		Impossvel! - disse Grigori. - Deve ter havido um erro terrvel.
-		Sim, senhor.
-		Quem o prendeu?
-		A Cheka.
-		A polcia secreta. Bem, eles trabalham para ns. Vou apurar isso e tentar descobrir o que aconteceu logo depois do caf da manh.
-		Por favor, Excelncia, eu lhe imploro, faa alguma coisa imediatamente... eles vo fuzil-lo daqui a uma hora.
-		Mas que inferno! - disse Grigori. - Espere aqui, vou colocar uma roupa.
Ele vestiu seu uniforme. Embora a farda no exibisse insgnia de patente alguma, tinha uma qualidade muito superior  do uniforme de um soldado comum, deixando muito claro que Grigori era um comandante.
Alguns minutos depois, ele e Magda deixaram o complexo do Kremlin. Nevava. Os dois percorreram a curta distncia at a praa Lubyanka. O quartel-general da Cheka ficava em um imenso prdio barroco feito de tijolos amarelos, antiga sede de uma companhia de seguros. O guarda na porta prestou continncia para Grigori.
Ele comeou a gritar assim que entrou no prdio.
-		Quem est no comando aqui? Tragam-me o oficial de planto agora mesmo! Eu sou o camarada Grigori Peshkov, membro do Comit Central bolchevique. Quero ver o prisioneiro Konstantin Vorotsyntsev imediatamente. O que esto esperando? Andem logo! - Ele havia descoberto que essa era a maneira mais rpida de conseguir as coisas, muito embora lhe despertasse uma terrvel lembrana do comportamento petulante de um nobre mimado.
Os guardas passaram alguns minutos correndo de um lado para outro, em pnico, e ento Grigori teve um choque. O oficial de planto foi chamado at o saguo de entrada. Grigori o conhecia. Era Mikhail Pinsky.
Ficou horrorizado. Pinsky havia sido truculento e brutal a servio da polcia do czar; estaria agora agindo da mesma forma em nome da revoluo?
Pinsky abriu um sorriso melfluo.

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-		Camarada Peshkov - falou. - Mas que honra.
-		No foi o que voc disse quando eu o nocauteei por importunar uma pobre garota camponesa - disse Grigori.
-		As coisas mudaram muito, camarada... para todos ns.
-		Por que vocs prenderam Konstantin Vorotsyntsev?
-		Atividades contrarrevolucionrias.
-		Isso  ridculo. Ele era presidente do grupo de discusso bolchevique na Metalrgica Putilov em 1914. Foi um dos primeiros delegados do soviete de Petrogrado. Ele  mais bolchevique do que eu!
-		 mesmo? - indagou Pinsky, e havia um qu de ameaa em sua voz.
Grigori o ignorou.
-		Traga-o at aqui.
-		Agora mesmo camarada.
Alguns minutos depois, Konstantin apareceu. Estava sujo, com a barba por fazer e fedia como uma pocilga. Magda caiu em prantos e abraou o marido.
-		Preciso ter uma conversa em particular com o prisioneiro - disse Grigori a Pinsky. - Leve-nos at a sua sala.
Pinsky fez que no com a cabea.
-		Minha humilde sala...
-		No discuta - disse Grigori. - Vamos para a sua sala. - Aquilo era uma maneira de frisar seu poder. Ele precisava manter Pinsky sob controle.
Pinsky os conduziu at uma sala no andar de cima com vista para o ptio interno. Escondeu s pressas dentro de uma gaveta um soco ingls que estava em cima da mesa.
Ao olhar pela janela, Grigori viu que o dia estava raiando.
-		Espere l fora - disse ele para Pinsky.
Os dois se sentaram e Grigori perguntou a Konstantin:
-		Que droga  essa?
-		Ns viemos para Moscou quando o governo se mudou para c - explicou Konstantin. - Eu pensei que fosse virar comissrio. Mas foi um erro. No tenho apoio poltico aqui.
-		Ento o que voc tem feito?
-		Voltei a trabalhar normalmente. Estou na fbrica Tod, fazendo peas para motores: engrenagens, pistes, rolamentos.
-		Mas por que a polcia acha que voc  contrarrevolucionrio?
-		A fbrica elege um delegado para o soviete de Moscou. Um dos engenheiros anunciou que iria se apresentar como candidato menchevique. Ele organizou uma

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assembleia e eu fui assistir. No passvamos de uma dzia de pessoas. Eu no me pronunciei, sa no meio e nem sequer votei nele. O candidato bolchevique venceu,  claro.'Mas, depois da eleio, todos os que participaram da assembleia menchevique foram demitidos. Ento, na semana passada, fomos todos presos.
-		No podemos fazer isso - disse Grigori, em desespero. - Nem mesmo em nome da revoluo. No podemos prender trabalhadores por escutarem um ponto de vista diferente.
Konstantin o encarou com uma expresso estranha.
-		Voc andou fora da cidade?
-		 claro - respondeu Grigori. - Estava combatendo os exrcitos contrarrevolucionrios.
-		Ento  por isso que no sabe o que vem acontecendo.
-		Quer dizer que isso j aconteceu antes?
-		Grishka, acontece todos os dias.
-		No acredito.
Magda interveio.
-		E ontem  noite eu recebi um recado, de uma amiga que  casada com um policial, dizendo que Konstantin e os outros seriam fuzilados s oito da manh de hoje.
Grigori olhou para o relgio de pulso que o Exrcito lhe dera. Eram quase oito horas.
-		Pinsky! - gritou.
O policial entrou na sala.
-		Cancele a execuo.
-		Temo que j seja tarde demais para isso, camarada.
-		Quer dizer que os homens j foram fuzilados?
-		Quase. - Pinsky foi at a janela.
L embaixo, no ptio coberto de neve, um peloto de fuzilamento tinha se reunido  luz tnue do incio da manh. Em frente aos soldados, 12 homens vendados tremiam, sem qualquer tipo de agasalho. Uma bandeira vermelha tremulava acima de suas cabeas.
Diante dos olhos de Grigori, os soldados ergueram os fuzis.
-		Parem agora mesmo! - berrou Grigori. - No atirem! - Mas sua voz foi abafada pela janela e ningum escutou.
Logo em seguida, ouviu-se o estampido dos disparos.
Os condenados caram no cho. Grigori ficou olhando a cena, horrorizado.
Ao redor dos corpos cados, manchas de sangue tingiram a neve; seu vermelho vivo era o mesmo da bandeira hasteada.

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CAPTULO QUARENTA E UM
11 e 12 de novembro de 1923

       Nos domingos, Maud dormia durante o dia e se levantava no meio da tarde,
       quando Walter trazia as crianas para casa depois da aula de catecismo. Eric tinha trs anos e a pequena Heike dois, e ambos ficavam to encantadores com suas roupas mais bonitas que Maud pensava que seu corao fosse estourar de tanto amor.
    Nunca havia experimentado uma emoo como aquela. Nem mesmo sua louca paixo por Walter tinha sido to arrebatadora. Os filhos tambm a deixavam ansiosa ao extremo. Ser que ela conseguiria lhes dar comida, proteg-los do frio, dos motins e da revoluo?
    Ela lhes serviu po com leite morno para aquec-los, e ento comeou a se preparar para a noite. Ela e Walter iriam dar uma pequena festa de famlia em comemorao ao aniversrio de 38 anos do primo de Walter, Robert von Ulrich.
    Contrariando os temores dos pais de Walter - ou suas expectativas, talvez, Robert no havia morrido na guerra. Fosse como fosse, Walter no tinha herdado o ttulo de Graf Von Ulrich. Seu primo ficara detido em um campo de prisioneiros de guerra na Sibria. Quando os bolcheviques selaram a paz com a ustria, Robert e seu companheiro de combate, Jrg, tinham voltado para casa a p, de carona e a bordo de trens de carga. A viagem demorara um ano, mas eles haviam conseguido. Quando chegaram, Walter lhes arrumou um apartamento em Berlim.
    Maud ps o avental. Na minscula cozinha de sua pequena casa, preparou uma sopa com repolho, po dormido e nabo. Tambm fez um bolinho, embora tenha precisado improvisar, incrementando a receita com mais nabos.
    Havia aprendido a cozinhar, alm de muitas outras coisas. Uma vizinha gentil, mais velha, tinha se compadecido da aristocrata desnorteada e lhe ensinara a fazer uma cama, passar uma camisa a ferro e limpar uma banheira. Para Maud, tudo aquilo tinha sido uma espcie de choque.
    A famlia morava em uma casa de classe mdia. No tiveram dinheiro nenhum para investir em melhorias, tampouco podiam se dar ao luxo de ter os criados com os quais Maud sempre fora acostumada. Seus mveis eram quase todos de segunda mo, e Maud, em seu ntimo, os considerava terrivelmente suburbanos.
    
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    Esperavam que as coisas fossem melhorar, mas, na verdade, elas haviam piorado: o casamento com uma inglesa levara a carreira de Walter no Ministrio das Relaes Exteriores a um beco sem sada. Ele teria ficado grato em mudar de ramo, porm, com o caos na economia, se considerava com sorte de ao menos ter um emprego. E agora, quatro anos de pobreza depois, as insatisfaes iniciais de Maud pareciam insignificantes. O estofado dos mveis estava remendado nos lugares em que as crianas o haviam rasgado, papelo cobria as vidraas quebradas e a tinta das paredes descascava em vrios pontos.
    Maud, no entanto, no se arrependia de nada. Sempre que quisesse, podia beijar Walter, pr a lngua em sua boca, desabotoar sua cala e se deitar com ele na cama, no sof ou at mesmo no cho, o que compensava todo o resto.
    Os pais de Walter chegaram  festa trazendo meio presunto e duas garrafas de vinho. Otto havia perdido Zumwald, a propriedade da famlia, que agora pertencia ao territrio da Polnia. A inflao havia quase dizimado suas economias. Contudo, o grande jardim de sua casa em Berlim produzia batatas, e ele ainda tinha muito vinho de antes da guerra.
   -		Como foi que o senhor conseguiu presunto? - perguntou Walter, incrdulo. Em geral, s se conseguia comprar aquele tipo de coisa com dlares norte-americanos.
   -		Troquei por uma garrafa de champanhe de safra - respondeu Otto.
    Os avs puseram as crianas na cama. Otto lhes contou uma histria popular. Pelo que Maud conseguiu ouvir, era sobre uma rainha que havia mandado decapitar o prprio irmo. Ela sentiu um calafrio, mas no se meteu. Depois da histria, Suzanne ps-se a entoar cantigas de ninar com uma voz aguda e as crianas pegaram no sono, aparentemente inabaladas pela histria sangrenta contada pelo av.
    Robert e Jrg chegaram usando gravatas vermelhas idnticas. Otto os cumprimentou calorosamente. Parecia no fazer ideia de que os dois eram um casal e aceitava com naturalidade a explicao de que Jrg simplesmente dividia um apartamento com Robert. De fato, era assim que os dois se comportavam na presena dos mais velhos. Maud achava que Suzanne devia intuir a verdade. As mulheres eram mais difceis de enganar. Felizmente, tambm eram mais tolerantes.
    Robert e Jrg podiam ser bem diferentes na companhia de liberais. Nas festas em sua prpria casa, no buscavam esconder o amor que sentiam. Muitos de seus amigos tinham as mesmas preferncias. A princpio, Maud ficara espantada: nunca tinha visto dois homens se beijando, admirando as roupas um do outro e flertando como colegiais. Porm, esse tipo de comportamento no era
    
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mais tabu, pelo menos no em Berlim. Alm do mais, Maud havia lido Sodoma e Gomorra, de Proust, no qual o autor parecia sugerir que esse tipo de coisa sempre existira.
    Naquela noite, contudo, Robert e Jrg exibiram um comportamento impecvel. Durante o jantar, todos conversaram sobre o que estava acontecendo na Bavria. Na quinta-feira, uma associao de grupos paramilitares chamada Kampfbund havia declarado uma revoluo nacional em uma cervejaria de Munique.
    Ultimamente, Maud mal suportava ler os jornais. Se os trabalhadores entrassem em greve, trogloditas de direita espancavam os grevistas. Se as donas de casa fizessem uma passeata para protestar contra a escassez de comida, seus protestos se transformavam em revoltas populares. Todos na Alemanha estavam ressentidos com o Tratado de Versalhes, porm o governo social-democrata o aceitara na ntegra. O povo achava que as indenizaes estavam estrangulando a economia, muito embora a Alemanha s tivesse pagado uma parte nfima da dvida e evidentemente no tivesse a menor inteno de tentar quit-la.
    O putsch da cervejaria de Munique estava dando o que falar. O heri de guerra Erich Ludendorff era seu defensor mais clebre. Paramilitares de camisas marrons, que se autodenominavam Tropas de Assalto, e alunos da Escola de Oficiais de Infantaria haviam assumido o controle de prdios estratgicos da cidade. Membros do conselho municipal tinham sido feitos refns e judeus ilustres haviam sido presos.
    Na sexta-feira, o governo lanara um contra-ataque. Quatro policiais e 16 paramilitares tinham sido mortos. As notcias que haviam chegado a Berlim at o momento no eram suficientes para Maud julgar se a insurreio tinha acabado ou no. Se os extremistas assumissem o controle da Bavria, ser que o pas inteiro cairia em suas mos?
    A situao deixava Walter irado.
   -		Ns-temos um governo eleito democraticamente - disse ele. - Por que as pessoas no podem deix-lo trabalhar em paz?
   -		Nosso governo nos traiu - disse seu pai.
   -		Isso  o que senhor acha. Mas e da? Nos Estados Unidos, quando os republicanos venceram as ltimas eleies, os democratas no se amotinaram!
   -		Os Estados Unidos no esto sendo arruinados por bolcheviques e judeus.
   -		Se o senhor est preocupado com os bolcheviques, ento diga s pessoas para no votarem neles. E que obsesso  essa com os judeus?
   -		Eles so uma pssima influncia.
   -		H judeus na Gr-Bretanha tambm. Pai, o senhor se esqueceu de como, em
    
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Londres, lorde Rothschild se esforou ao mximo para evitar a guerra? A Frana, a Rssia e os Estados Unidos tambm tm judeus. Eles no esto conspirando contra os governos desses pases. O que o leva a pensar que os nossos so piores? A maioria s quer ganhar o suficiente para alimentar suas famlias e mandar seus filhos para a escola, como todo mundo.
    Para surpresa de Maud, Robert interveio.
   -		Eu concordo com tio Otto - disse ele. - A democracia  debilitante. A Alemanha precisa de uma liderana mais forte. Jrg e eu entramos para o Partido Nacional-Socialista.
   -		Ah, Robert, pelo amor de Deus! - exclamou Walter, enojado. - Como voc pde fazer isso?
    Maud se levantou.
   -		Algum quer um pedao de bolo de aniversrio? - perguntou ela com uma voz jovial.
Maud saiu da festa s nove para ir trabalhar.
   -		Onde est seu uniforme? - perguntou-lhe a sogra enquanto se despedia. Suzanne achava que Maud trabalhava como enfermeira noturna para um cavalheiro rico e idoso.
   -		Eu deixo l e me troco quando chego - respondeu. Na verdade, Maud tocava piano em uma boate chamada Nachtleben. Mas seu uniforme de fato ficava no trabalho.
    Ela precisava ganhar dinheiro e nunca tinha aprendido a fazer grande coisa, exceto se vestir bem e frequentar festas. Recebera uma pequena herana do pai, mas, como tivera que convert-la em marcos ao se mudar para a Alemanha, o dinheiro no valia mais nada. Fitz, ainda bravo por ela ter se casado sem sua autorizao, recusava-se a lhe dar qualquer ajuda. O salrio de Walter no Ministrio das Relaes Exteriores aumentava todo ms, mas nunca conseguia acompanhar a inflao. Para compensar, ao menos em parte, o aluguel que pagavam pela casa havia se tornado irrisrio, de modo que o proprietrio j nem se dava ao trabalho de cobrar. Mas eles precisavam comprar comida.
    Maud chegou  boate s nove e meia. O espao havia sido mobiliado e decorado recentemente e, mesmo com as luzes ainda acesas, no era feio. Garons poliam copos, o barman picava gelo e um cego afinava o piano. Ela ps um vestido de noite decotado e jias falsas e cobriu o rosto com uma maquiagem pesada:
    
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p de arroz, delineador, batom. Quando as portas se abriram s dez, j estava sentada ao piano.
    A boate se encheu rapidamente de homens e mulheres com trajes de noite, que danavam e fumavam. Eles compravam drinques de champanhe e cheiravam cocana discretamente. Apesar da pobreza e da inflao, a vida noturna de Berlim era animada. Dinheiro no era problema para aquelas pessoas. Elas tinham renda no exterior ou ento algo melhor do que dinheiro: estoques de carvo, um abatedouro, um depsito de tabaco ou, melhor ainda, ouro.
    Maud fazia parte de uma banda s de mulheres que tocava o novo ritmo chamado jazz. Fitz teria ficado horrorizado ao ver aquilo, mas ela gostava do emprego. Sempre havia se rebelado contra as restries impostas por sua criao. Tocar as mesmas canes todas as noites podia ser maante, mas mesmo assim a msica liberava alguma coisa reprimida dentro dela, que rebolava em cima da banqueta e dava piscadelas para os clientes.
     meia-noite, fazia um nmero solo em que cantava e tocava msicas popularizadas por cantoras negras como Alberta Hunter. Aprendera essas canes por meio dos discos americanos que ouvia em um gramofone do dono da Nachtleben. Elas lhes renderam o nome artstico de Maud Mississippi.
    No intervalo entre dois nmeros, um cliente foi cambaleando at o piano e pediu:
   -		Toque "Downhearted Blues", sim?
    Ela conhecia a cano, um grande sucesso de Bessie Smith. Comeou a tocar acordes de blues em mi bemol.
   -		Pode ser - respondeu. - Por quanto?
    Ele estendeu uma nota de um bilho de marcos.
    Maud riu.
   -		Isso da no compra nem o primeiro compasso - disse ela. - Tem algum dinheiro estrangeiro?
    Ele lhe estendeu uma nota de um dlar.
    Ela pegou o dinheiro, enfiou-o dentro da manga do vestido e tocou "Downhearted Blues".
    Maud ficou radiante por ter ganhado um dlar, que valia cerca de um trilho de marcos. Ainda assim, sentia-se um pouco desanimada e entregou-se totalmente ao clima melanclico do blues. Aprender a ganhar gorjetas era uma faanha e tanto para uma mulher com as suas origens, mas no deixava de ser um pouco humilhante.
    Uma vez terminado o seu nmero, o mesmo cliente a abordou no caminho para o camarim. Ps a mo em seu quadril e disse:
    
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-		Quer tomar caf da manh comigo, gracinha?
Ela era apalpada quase todas as noites, embora, aos 33 anos, fosse uma das mulheres mais velhas da boate: muitas eram garotas de 19 ou 20 anos. Quando isso acontecia, as meninas no podiam fazer escndalo. Deviam abrir um sorriso encantador, afastar a mo do homem e dizer "Hoje no, meu senhor". Isso, no entanto, nem sempre bastava para desencoraj-los, e as outras meninas haviam ensinado a Maud uma ttica mais eficaz.
-		 que estou com uns bichinhos nos pelos da boceta - disse ela. - Ser que tem problema? - O homem desapareceu.
Depois de quatro anos em Berlim, o alemo de Maud era fluente, e trabalhar na boate ainda lhe ensinara todos as palavras de baixo calo.
A boate fechava s quatro da manh. Maud tirou a maquiagem e tornou a vestir suas roupas normais. Foi at a cozinha e implorou por alguns gros de caf. Um cozinheiro que gostava dela lhe deu um pouco em um cone de papel. - Os msicos recebiam em espcie todas as noites. As meninas traziam bolsas grandes para poder levar para casa os bolos de notas.
Na sada, Maud recolheu um jornal deixado por algum cliente. Era para Walter. Eles no tinham dinheiro para comprar jornais.
Assim que saiu, ela foi  padaria. Guardar dinheiro era perigoso: ao final do dia, seu salrio talvez no comprasse nem um po. Vrias mulheres j aguardavam em frente  loja, no frio. s cinco e meia, o padeiro abriu as portas e anotou os preos com giz em um quadro-negro. Naquele dia, um po preto custava 127 bilhes de marcos.
Maud comprou quatro. No comeriam tudo no mesmo dia, mas pouco importava. Po dormido podia ser usado para engrossar sopa; notas de dinheiro, no.
Ela chegou em casa s seis. Mais tarde, arrumaria as crianas e as levaria para passar o dia na casa dos avs, para ento dormir. Antes, no entanto, poderia passar uma hora ou duas com Walter. Era a melhor parte do seu dia.
Preparou o caf da manh e levou uma bandeja at o quarto.
-		Olhe - falou. - Po fresco, caf... e um dlar!
-		Essa  a minha garota! - Ele a beijou. - O que vamos comprar? - Ele estremeceu, s de pijama. - Ns precisamos de carvo.
-		No h pressa. Podemos guardar, se voc quiser. Vai valer a mesma coisa na semana que vem. Se voc estiver com frio, eu posso aquec-lo.
Ele sorriu:
-		Ento venha.
Ela tirou a roupa e entrou na cama.

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Eles comeram o po, beberam o caf e fizeram amor. O sexo ainda era empolgante, embora menos demorado do que no incio do relacionamento. Depois, Walter leu o jornal que ela havia trazido.
-		A revoluo de Munique terminou - disse ele.
-		Pra valer?
Walter deu de ombros.
-		Pegaram o cabea. Adolf Hitler.
-		O lder do partido para o qual Robert entrou?
- Isso. Ele foi acusado de alta traio. Est preso agora.
-		Que bom - disse Maud, aliviada. - Graas a Deus isso tudo acabou.

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CAPTULO QUARENTA E DOIS
Dezembro de 1923 a janeiro de 1924

O conde Fitzherbert subiu em um palanque em frente  prefeitura de
Aberowen s trs da tarde da vspera das eleies gerais. Estava de fraque
e cartola. Ouviu-se uma pequena exploso de vivas dos conservadores nas primeiras fileiras, porm a maior parte da multido vaiou. Algum arremessou um
jornal amassado, e Billy disse:
  -		Agora j chega, rapazes, deixem-no falar.
   Nuvens baixas escureciam a tarde de inverno e os postes de rua j estavam acesos. Apesar da chuva, o grupo era numeroso, 200 ou 300 pessoas, quase todas
mineradores de boina, com alguns chapus-coco na frente e um punhado de
mulheres debaixo de guarda-chuvas.  beira da aglomerao, crianas brincavam sobre as pedras molhadas do calamento.
   Fitz estava fazendo campanha pelo atual representante de Aberowen no
Parlamento, Perceval Jones. Ele comeou a falar em impostos. Billy achou timo.
Fitz poderia falar sobre esse assunto o dia inteiro sem tocar o corao do povo de
Aberowen. Em teoria, era essa a grande questo das eleies. Os conservadores
propunham acabar com o desemprego aumentando as tarifas sobre as importaes, de modo a proteger os fabricantes britnicos. Isso havia unido os liberais 
oposio, pois a ideologia mais antiga deles era o livre-comrcio. Os trabalhistas
defendiam que a soluo do problema no estava nos impostos e propunham um
programa de trabalho em nvel nacional para empregar a mo de obra ociosa,
alm de um aumento no nmero de anos da educao formal, para evitar que os
mais jovens entrassem para um mercado de trabalho j saturado.
   A verdadeira questo, no entanto, era quem iria governar.
  -		Para incentivar o emprego na agricultura, o governo conservador vai conceder a cada agricultor um subsdio de uma libra por cada quatro mil metros quadrados de lavoura, contanto que ele pague a seus empregados no mnimo 30
xelins por semana - disse Fitz.
   Billy sacudiu a cabea, ao mesmo tempo achando graa e ficando revoltado
com aquilo. Por que dar dinheiro aos agricultores? Eles no estavam passando
fome. Os operrios desempregados, sim.
   Ao seu lado, Da falou:
   
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   -		Essa conversa no vai ganhar votos em Aberowen.
    Billy concordava. No passado, aquele distrito eleitoral tinha sido dominado pelos agricultores que cultivavam as colinas, mas os tempos haviam mudado. Agora que a classe trabalhadora tinha o direito de voto, o nmero de mineradores superaria o de agricultores. Na eleio conturbada de 1922, Perceval Jones conseguira manter seu assento no Parlamento por alguns votos. Desta vez, ele com certeza seria derrotado.
    Fitz estava ficando mais inflamado.
   -		Se vocs votarem no Partido Trabalhista, estaro votando em um homem que carrega uma mancha em seu histrico militar - disse ele.
    A plateia no gostou muito disso: eles conheciam a histria de Billy, que era considerado um heri. Ouviu-se um burburinho de reprovao e Da gritou:
   -		No tem vergonha?
    Fitz no se deixou abater:
   -		Um homem que traiu seus companheiros de armas e seus oficiais, um homem que foi levado  corte marcial por deslealdade e mandado para a priso. Ouam o que eu digo: no desgracem Aberowen elegendo um homem como esse para o Parlamento.
    Fitz desceu do palanque debaixo de aplausos esparsos e vaias. Billy o encarou, mas Fitz no devolveu o olhar.
    Ento foi a vez de Billy subir para discursar.
   -		Vocs devem estar esperando que eu insulte lorde Fitzherbert da mesma forma que ele me insultou - disse ele.
    No meio da multido, Tommy Griffiths gritou:
   -		Acabe com ele, Billy!
   -		Mas isto aqui no  uma briga na mina - prosseguiu ele. - Essa eleio  importante demais para ser decidida por provocaes baratas. - A plateia se calou. Billy sabia que eles no iriam gostar muito daquela abordagem mais sensata. O povo de Aberowen gostava de provocaes baratas. Porm, viu seu pai assentindo em aprovao. Da entendia o que Billy estava tentando fazer. Naturalmente. Tinha sido seu professor.
   -		O conde demonstrou coragem ao vir aqui expor suas opinies diante de uma multido de mineradores - continuou Billy. - Ele talvez esteja errado, e est, mas no  um covarde. Foi assim que agiu na guerra. Foi assim que muitos de nossos oficiais agiram. Eles foram corajosos, mas tomaram decises equivocadas. Sua estratgia e suas tticas eram falhas, sua comunicao, deficiente, e seu pensamento, antiquado. Mas s deram o brao a torcer depois de milhes de homens terem morrido.
    
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    A plateia estava totalmente em silncio. De repente, todos ficaram interessados. Billy viu Mildred, com ar orgulhoso e um beb em cada brao - os dois filhos dele, David e Keir, de um e dois anos respectivamente. Mildred no nutria a menor paixo pela poltica, mas queria que Billy entrasse para o Parlamento para a famlia voltar a Londres e ela poder retomar seu negcio.
   -		Durante a guerra, nenhum membro da classe trabalhadora jamais foi promovido alm de sargento. E todos os ex-alunos dos colgios de elite entraram para o Exrcito j como segundos-tenentes. Cada veterano que est aqui hoje teve a vida colocada em risco inutilmente por algum oficial tapado, e muitos de ns fomos salvos pela inteligncia de um sargento.
    Um rumor de aprovao percorreu a plateia.
   -		Eu estou aqui para dizer que esses dias acabaram. Tanto no Exrcito quanto em outras reas da vida, um homem deveria ser promovido por sua inteligncia, no por suas origens. - Ele ergueu a voz e ouviu no prprio tom o fervor que conhecia dos sermes do pai. - Esta eleio diz respeito ao futuro, e ao tipo de pas em que nossos filhos iro crescer. Precisamos garantir que ele seja diferente do pas em que ns crescemos. O Partido Trabalhista no clama pela revoluo. Ns j vimos a revoluo em prtica em outros pases, e ela no funciona. Mas ns clamamos por mudana. Uma mudana sria, profunda, radical.
    Depois de uma pausa, ele tornou a erguer a voz para concluir seu discurso.
   -		No, eu no vou ofender lorde Fitzherbert, tampouco o Sr. Perceval Jones - falou, apontando para as duas cartolas na primeira fila. - Vou apenas dizer a eles: cavalheiros, seu tempo passou. - A plateia vibrou. Billy olhou por sobre a primeira fileira para a multido de mineradores: homens fortes, corajosos, que haviam nascido sem nada, mas que, mesmo assim, tinham ganhado a vida para si e para suas famlias. - Companheiros trabalhadores - disse ele -, ns somos o futuro!
    Ele desceu do palanque.
    Quando os votos foram apurados, Billy venceu de lavada.
Ethel tambm.
    Os conservadores formaram a maior bancada no novo Parlamento, mas no tinham a maioria absoluta. O Partido Trabalhista veio em segundo lugar, com 191 membros, incluindo Eth Leckwith por Aldgate e Billy Williams por Aberowen. O Partido Liberal ficou em terceiro. O Partido da Lei Seca escocs conquistou um assento. O Partido Comunista, nenhum.
    
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    Quando o novo Parlamento se reuniu, os membros trabalhistas e liberais combinaram de unir seus votos para suplantar o governo conservador, e o rei foi obrigado a convidar o lder do Partido Trabalhista, Ramsay MacDonald, para o cargo de primeiro-ministro. Era a primeira vez na histria que a Gr-Bretanha tinha um governo trabalhista.
    Ethel no havia voltado ao Palcio de Westminster desde o dia de 1916 em que fora expulsa por gritar com Lloyd George. Agora, sentava-se no banco de couro verde usando sobretudo e chapu novos, ouvia os discursos dos parlamentares e, de vez em quando, erguia os olhos para a galeria da qual tinha sido enxotada mais de sete anos antes. Frequentava o saguo reservado aos membros da Cmara dos Comuns e votava com os membros do gabinete, socialistas famosos que costumava admirar  distncia: Arthur Henderson, Philip Snowden, Sidney Webb e o prprio primeiro-ministro. Tinha sua prpria mesa em uma sala que dividia com outras parlamentares mulheres. Fazia pesquisas na biblioteca, comia torradas amanteigadas no salo de ch e buscava sacolas de correspondncia endereadas a ela. Andava pelo prdio imenso, familiarizando-se com a geografia dele, tentando se convencer de que tinha o direito de estar ali.
    Um belo dia, no final de janeiro, ela levou Lloyd para lhe mostrar o palcio. O menino j estava com quase nove anos, e nunca havia entrado em uma construo to grande e luxuosa. Sua me tentou lhe explicar os princpios da democracia, mas ele ainda era jovem demais.
    Em uma escada estreita, forrada de tapete vermelho, na divisa entre a rea dos Lordes e a dos Comuns, os dois toparam com Fitz, que tambm trazia um jovem visitante: seu filho George, cujo apelido era Boy.
    Ethel e Lloyd estavam subindo, enquanto Fitz e Boy desciam, e eles se encontraram em um patamar intermedirio da escada.
    Fitz a encarou como se esperasse que ela lhe desse passagem.
    Os dois filhos de Fitz, Boy e Lloyd, o herdeiro do ttulo e o filho ilegtimo jamais reconhecido, tinham a mesma idade. Eles se entreolharam com grande interesse.
    Ethel se lembrou de que, em Ty Gwyn, sempre que cruzava com Fitz no corredor tinha que se afastar para o lado e recostar-se contra a parede, baixando os olhos quando ele passava.
    Agora, no entanto, ela ficou bem no meio do patamar da escada, segurando a mo de Lloyd com fora, sem desgrudar os olhos de Fitz.
    - Bom dia, lorde Fitzherbert - falou, erguendo o queixo com insolncia.
    Fitz a encarou de volta. Sua expresso traa um ressentimento furioso. Por fim, ele falou:
    
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-		Bom dia, Sra. Leckwith.
Ela olhou para Boy.
-		E voc deve ser o visconde de Aberowen - disse. - Como vai?
-		Como vai, senhora? - respondeu o menino, educado.
Ela ento se dirigiu a Fitz:
-		E este aqui  meu filho, Lloyd.
Fitz se recusou a olhar para o menino.
Ethel no deixaria Fitz se safar to fcil.
-		Aperte a mo do conde, Lloyd.
Lloyd estendeu a mo e disse:
-		Muito prazer, conde.
Teria sido indecoroso esnobar um menino de nove anos. Fitz foi obrigado a cumpriment-lo.
Pela primeira vez na vida tocava o prprio filho.
-		Tenham um bom dia - falou Ethel, encerrando a conversa, e deu um passo  frente.
A expresso de Fitz era de ira. Relutante, ele se afastou para o lado junto com o filho, e os dois aguardaram, de costas para a parede, enquanto Ethel e Lloyd passavam e continuavam a subir a escada.

***FIM***

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PERSONAGENS HISTRICOS
Este livro possui vrios personagens histricos, e os leitores s vezes me perguntam como eu estabeleo o limite entre histria e fico.  uma pergunta
pertinente, e aqui est a resposta.
   Em alguns casos, como, por exemplo, no discurso de Sir Edward Grey diante
da Cmara dos Comuns, meus personagens fictcios esto presenciando um fato
que realmente ocorreu. O que Sir Edward diz neste romance corresponde s atas
do Parlamento, com a ressalva de que eu resumi o pronunciamento sem, assim
espero, ter omitido nada importante.
   s vezes, um personagem histrico vai a um lugar fictcio, como quando
Winston Churchill visita Ty Gwyn. Nesse caso, eu verifiquei que Churchill tinha
de fato o hbito de visitar casas de campo e que poderia t-lo feito por volta da
data em questo.
   Nos momentos em que figuras histricas tm conversas com meus personagens fictcios, em geral esto dizendo coisas que realmente disseram em algum
momento. Quando Lloyd George explica para Fitz por que prefere no deportar
Lev Kamenev, o texto se baseia em um memorando escrito por Lloyd George,
citado na biografia de Peter Rowland.
   Minha regra : ou a cena de fato aconteceu, ou poderia ter acontecido; ou as
palavras foram de fato usadas, ou poderiam ter sido. E, caso eu encontre algum
motivo que impossibilite a cena de ter acontecido na vida real, ou as palavras de
terem sido ditas - como, por exemplo, se o personagem estivesse em outro pas
na ocasio -, deixo a passagem de fora.
   
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AGRADECIMENTOS
Meu principal consultor para assuntos histricos neste livro foi Richard
Overy. Outros historiadores que leram as primeiras verses do romance e
fizeram correes, poupando-me de muitos erros, foram: John M. Cooper, Mark
Goldman, Holger Herwig, John Keiger, Evan Mawdsley, Richard Toye e Christopher
Williams. Susan Pedersen me ajudou com o tema do auxlio-separao pago s
esposas de soldados.
   Como sempre, muitos desses consultores foram localizados para mim por
Dan Starer, da empresa nova-iorquina Research for Writers.
   Dentre os amigos que ajudaram esto Tim Blythe, que me forneceu alguns
livros essenciais; Adam Brett-Smith, que me aconselhou sobre champanhe; o
perspicaz Nigel Dean; Tony McWalter e Chris Manners, dois crticos sensatos e
observadores; o aficionado por locomotivas Geoff Mann, que me deu informaes sobre rodas de trens, e Angela Spizig, que leu a primeira verso do manuscrito e fez comentrios do ponto de vista de uma alem.
   Os editores e agentes que leram estas pginas e me aconselharam foram Amy
Berkower, Leslie Gelbman, Phyllis Grann, Neil Nyren, Imogen Taylor e, como
sempre, Al Zuckerman.
   Por fim, gostaria de agradecer  minha famlia, que leu a verso preliminar e
me deu muitos conselhos, sobretudo a Barbara Follett, Emanuel Follett, Marie-Claire Follett, Jann Turner e Kim Turner.
   
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